sábado, 20 de junho de 2020

Turmalina

O eterno não se encontra
no que os seus olhos veem.

Mas naquilo
que o coração
guarda e protege.

A mudança de ares
não transformará
a sua alma.

O perfume de pétalas raras
e o cheiro forte de peixes mortos
não curvarão a luz que sobe e some.

Os três laços de amor que você deu 
na sua última vértebra ainda é pouco.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Cadelinha

A poesia jamais desaparecerá da natureza psíquica do poeta.
O poeta que alcança outro nível de obsessão e perde a graça.

Lola já não se requebra
quando ouve a minha voz.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A Vizinha Do Térreo

Uma mulher fatiando abacaxi
observada do alto é um encanto.

Não queiras conhecer
os pensamentos da mulher.

Basta a inocente segurança 
da mulher fatiando um abacaxi

com a mesma faca 
que fatiará teu coração.

Saibas, meu poeta,
que apaixonado
o monstro

fugirá da caverna
e buscará carne
pelo caminho.

domingo, 14 de junho de 2020

Taifeiro-Mor

Comprarei para minha ex-mulher
um jogo de panelas tramontina.

Entendo a sutil degeneração dos objetos
sob a ausência de quem escreve poemas.

Aquele arroz soltinho
e aquele peixe frito

terão novos
cúmplices.

sábado, 13 de junho de 2020

Pétalas De Ontem

Depois dizem
que o poeta
não tem
a força

de evitar 
tragédias.

Pois da minha janela livrei com o pensamento forte
que uma donzela escorregasse na calçada 
molhada da chuva repentina.

Salvei do tombo a musa
que ainda deu um gritinho 
para o seu anjo da guarda.

O seu anjo 
fez-se de surdo.

Mas o jovem senhor
que escreve versos
largou a pena

e cuidou
da situação.

Afinal, o anjo da musa
é seu demônio predileto.

Matinal

A garota Lola
passará uma longa temporada
sem ver o rostinho da menina do pet shop.

A única causa
foi você ter
passado
a mão

na cabecinha
da minha cadela.

O seu carinho tão tenro 
e o perfume da sua mão,
digamos, de sacerdotisa,

inundaram meu espírito
de fabulosas sensações.

Lola passará séculos e séculos sorrindo vaidosa 
sem tomar banho com o perfume da sua mão
na cabeça e orelhas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Suave

O inferno do outro
não me sensibiliza.

Já tive os meus
e com frequência
acordava enlouquecido.

O fogo que consumia
o meu ventre pela volúpia

agora é um fogo que pela volúpia
eleva os meus sentidos ao entendimento.

A volúpia
é redentora.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Escaravelho

A miséria nunca esteve presente no corpo.
O corpo sempre se soube corpo e não há ilusão.

Miséria existe em grande potência no espírito 
que não entende de que matéria é formado.

Cego, ataca a si através do corpo
em frescor ou na velhice.

Perde-se e afoita-se
contra o que desconhece.

O corpo sempre se soube
passageiro por natureza.

As flores que o corpo planta secam 
e morrem quando a sua seiva finda.

O espírito, cego e tristonho,
enlouquece e afoga consigo
a imagem do corpo que some.

Passarinhos

Um grande poema ou um poema medíocre
qual a importância para quem já morreu?

A poesia será ficção
enquanto o poema
não for escrito.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

As Vestes Que O Fogo Não Queima

A poesia é a ponte de rompimento
com o pacto ilusório do homem
pelo homem. O poema nunca 
caminha sozinho: Existem
duas pontas da corda,
uma que está no alto
e outra no fundo 
do poço.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Sementes De Laranja

O meu primeiro amor
fazia aquele tipo de tranças
com bobes de ferro e produto alisante
(embora seus cabelos de mel fossem plumas)

mas fazia 
e encantava-me.

Natural que ao ver uma mulher
com aquele penteado de trancinhas
em ondas de espirais caindo pelos ombros 
da minha janela eu chore e suspire aos céus.

sábado, 6 de junho de 2020

A Dócil

A melancolia de Lola
chega a ser mística
debaixo da mesa
pensando 

naquele tempo
de abandono.

Lola aproveita-se da metafísica de sua tristeza
e não me ouve suplicar por sua presença na sala.

A cadelinha sabe
que tenho na minha mão
a seringa para seus remédios.

Sussurra alguma coisa mágica
e tapa os olhos com as patas.

Dark

A minha pele é muito sensível,
sobretudo das minhas bolas.

Cuidado com o piercing
de cobre na sua língua.

Como lhe disse um dia,
ainda tenho muitas
terras férteis pra
fecundar, baby.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Canções

Você acredita
que já fui cantor?

Mudava o timbre
sem que notassem.

Daí, chamaram-me
desafinado, um horror.

Parei de cantar
e continuei escrevendo.

Canções, baby,
escrevo canções.

Pois, a cantar
sou triste astro.

Sabedoria Na Casa De Mãe

Liberdade
é transitar
entre dois
lugares,
ou mais,
e não
dizer.

Poemas são duros de escrever
quando não querem ser ditos.

Mas, ó-lá-lá,
se querem,
gostam.

Diga, filho,
qual novidade?

O amor
é digno.

Siga,
filho,
amando.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Engenhos

Observando Lola
lambendo-se

medito sobre
a vida dos cães.

Em particular,
a vida dessa
cadelinha
Lola.

Quatro anos de solidão,
e há três meses adotada.

Ração das boas,
água e esporte.

Sem falar da perfumaria,
medicina veterinária,
laços vermelhos
e ciganos.

Lambendo-se
Lola não reflete
sobre sua existência.

Mas decerto sente
que a vida mudou
de espinhos para
flores aquáticas.

Vendo Lola
lambendo-se

concluo que alguma força
observa as minhas ruminações
e ama minha cabeça maluquinha.

Litoral

Dentro da minha gaveta
(a um braço de onde estou)
guardo cartas antigas, moedas
de ouro e um bom punhado de erva.

Mediante o clima do ritual,
utilizo as líricas lembranças
das cartas de amor, a temperatura
das moedas de ouro e a fluidez da erva.

A cada passo,
segurança.

Esqueça as armas do passado,
a fúria e os desejos de pântano.

De onde estou
estiro o meu braço
e toco minha gaveta.

O coração,
ouve?

Dante Alighieri

O meu nariz
é simbólico.

Já entrou em frias
pra chuchu, baby.

Cheirou pelos, pó, éter,
axilas, nucas e virilhas.

Quebraram-no
duas vezes.

A primeira,
na infância

por um soco
de uma criança
bem mais velha.

A segunda,
na mocidade

por outro soco
ciúme louco
de rival.

E veja só,
o meu nariz
é um sobrevivente.

Ares epifânicos,
místicos, galantes.

Ultimamente
senhor de si.

Não entra em ciladas
tampouco é levado
a sério

pelas camponesas
que continuam 
colhendo 
maçãs

usando decotes
magníficos.

Dia Dos Bruxos

Ainda sou um menino mau
e jogo carocinhos de laranja
pela janela da minha varanda.

Antigamente
era perverso
e jogava

cartas
de amor.

Algumas vizinhas
passaram a me odiar
por meu romantismo.

Até o dia em que cheguei
com uma xícara na mão
pedindo açúcar

à porta
de cada
uma delas.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Deleite

Agora que você não tem nenhum vínculo
com os antigos demônios quem o espera?

O banquete está posto
na sua nova casa
e as moscas
fugiram.

Alimente-se
da sua voz

e cave
um túnel
para guardar
os seus poemas.

Secreto

Não há a menor chance
nem a mínima possibilidade
de agouros funestos perturbarem
a sua cabeça e causarem enjoos ao seu coração.

O entendimento
é um suave
fogo.

A volúpia é doce,
a coragem é delicada.

Acredite, foi o vento
que derrubou a sua fotografia
e a mariposa que entrou no quarto
só queria lhe agradecer o seu presente.

Tabelião

Os meus segredos eu só confesso
em transe consciente, ou seja, 
escrevendo meus poemas.

Jamais ouvirá da minha boca
embriaguez irritante e patética.

Principalmente
porque parei
de encher
a cara.

De cheirar
e fumar.

A fantasia também
tem um fim, filho.

E o que planto 
é a verdade.

Óbvio, a verdade do meu ponto de vista.
Do seu ponto de vista é a sua verdade.

Precisei parar de ficar bêbado,
cheirar cocaína e fumar pedra
pra acreditar no meu mistério.

Meu mistério
que se expande
para você, filho.

Nada de outro mundo,
enlouquecedor e obscuro.

Transformações

Depois que entendemos
que o estímulo das multidões
é a ignorância, passamos então
a amar a solidão e adorar os objetos.

No meu caso, sobretudo 
a xícara branca de café.

Já se foi o tempo em que fazia
negócios com a poesia e o mundo
girava em torno da minha obsessão 
por sombras que lessem meus poemas.

Quem hoje em dia vier à minha casa
saberá que em cada palavra 
existe um transtorno.

Não há outro meio particular de ver o sol
dentro da bota engolindo a meia
ou de uma flor debaixo 
da escrivaninha

se não for
pela poesia.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Gênios

Quando o meu filho me diz:
"Relaxe, pai, relaxe."

Entro em meditação profunda
encho garrafas de areia colorida
e vamos vendê-las em Jericoacoara.

Mas sob essa sombra pandêmica
eu e meu filho resolvemos plantar
abóboras e aproveitando as sementes
alimentamos todos os tipos de passarim.

O meu rapaz
menciona que
os meus olhos
são de graúna.

Fico feliz,
mas permaneço
em meditação profunda.

Floricultura

Já escrevi alguns poemas para ti,
acredito que chegada a hora
de beijar os teus lábios.

Por favor,
não sejas tímida,
tu sabes a que lábios
eu me refiro: um palmo
abaixo do teu umbigo, baby.

Onde nascem flores
em riacho sagrado.

Missionária

Amor eterno
ou amor que finda
são distrações da sua cabeça.

O amor, em si,
é o selo da eternidade
e não faz parte dos suspiros
dos corações ingênuos e vulgares.

A propósito, estive pensando
como despertá-la dessa loucura.

Mas é tão fascinante
vê-la eufórica e febril

entre multidões 
e na cama.

Pareço-lhe esnobe?
Você não viu meu fantasminha.

Pássaros e Oitis

Acabou de chegar o meu suplemento proteico BCAA.
Hei de fortalecer meus braços e as costelas a fim
de suportar a sua alma ninfomaníaca, baby.

Entretanto, acredite, 
na hora de escrever
não quebro o lápis.

Seguro a pena
com a brandura
de um ser etéreo.

E a minha voz é doce de alfenim
com um ácido debaixo da língua.

Rajadas

Você parou para pensar
que o último poema
é este?

O último poema
sempre será aquele
que acabou de escrever.

Uma mulher de luto
passa pela calçada
e me chamam
atenção

seus cabelos ruivos,
a gravidez recente,
os óculos.

Até esqueci
o que escreveria
sobre o último poema.

Vacaria

Anjos que tocam trombetas
anunciando minha vinda,
aviso-lhes, vão ficar
de castigo.

Silêncio,
meus amores.

Desejo o mundo
do jeito carnal
que somos.

Não ousem tocar suas trombetas
invocando a minha luminosidade.

Ninguém morrerá por meus olhos
nem por minha poesia, meus amores.

Tampouco aos céus
do reino fabuloso
serão salvos.

Amo o mundo
do jeitinho carnal
de que tenho na memória.

Por favor, não toquem suas trombetas
anunciando os meus versinhos diários.

Ninguém é maior nem menor 
que a própria sombra, meus amores.

O tamanho exato,
abstrato e fictício.

Oh, juro,
meus amores.

Agora, sigam
e toquem um blues.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Avivamento

O bom Sátiro
nunca se esquece
dos seus cascos de bode.

Afinal, caso esquecesse,
onde escreveria seus versos?

Não há tábua ou papiro
mais reconfortante.

Craterdã

As mulheres 
que você comeu
e as centenas seduzidas
por sua voz de espantalho

já sorriem
para estranhos.

Aliás, as mulheres
só amam enquanto
sentem atração pelo
ocultismo da palavra.

Depois que você se mostra
capaz de ser um covarde
calculando a sua grana,

então, meu amigo,
é hora de plantar
ópio na varanda.

Você precisa de contatos
que transem a sua fortuna.

Veja a cotação da papoula
do Cratinho de açúcar, hein?

Candelabro

Não leia poemas
como se fosse
uma louca.

Poesia é uma espécie
de demônio equilibrado.

Se você ler muitos poemas
como se fosse uma louca
perderá a sensatez
do delírio.

Esquecerá a voz
que guia cegos.

Tentará voar
com chumbo
nas costas.

Não leia poemas
como se quisesse
matar a sua fome.

Poesia é o mundo exausto 
de bem-aventuranças.

Ou 
sei lá 
o quê.

Ouça-me, 
não leia poemas
como se fosse mágica.

Arranque uma unha
com seus dentes

e assopre da janela
o seu último prazer.

Ou 
sei lá
o quê.

domingo, 31 de maio de 2020

Confissões De Xamã

Já lhe contei
que um tempo atrás

adubava as plantinhas da varanda
com as unhas que roía pensando em você?

Uma cresceu tanto,
muito linda, cabelos
amarelos esverdeados.

A minha melhor amiga
e adora quando eu leio
para ela meus poemas.

Voz De Passarinho

Se ninguém viu uma folha seca
que caiu do topo de uma árvore

é um equívoco pensar então
que o instante da queda
não existira.

Mas, convenhamos,
se apenas você contemplou
a folha seca caindo do topo da árvore -

acredite,
você é um deus.

Pentecostes

Agora que estou vacinado
contra os males do ciúme

até que você poderia vir
de vestido rasgado
nas costas

e aquelas sandálias de dedo 
mostrando os tornozelos brancos.

Juro que a última bala do meu scolt
atirei na cabeça de um pombo coxo.

Fiz uma boa ação
e mandei pro céu
dos passarinhos
um pombo coxo.

Não fiz
uma boa
ação, baby?

Oferendas

Que tal oferecer ao mundo
o que ao mundo pertence?

O seu bermudão, as botas do trabalho,
as clavículas do seu primeiro amor.

As orquídeas que morreram na janela
tiveram seu tempo de fama e magia.

Os latidos da garota Lola
animam os seres mágicos
que vivem na minha casa.

Alguns sorriem
criando círculos
com dedos azuis.

Meu Diário

Bebendo meu café
degustando um croissant
fazendo afagos na garota Lola,
diga-me, como ter saudade de ontem?

Já lhe falei
inúmeras vezes
que o passado não tem sal.

Céus, escrever poemas
nunca foi arte, meu bem.

Arte é só o instante do trabalho de carpintaria
em que se pensa seriamente que a morte chegou.

sábado, 30 de maio de 2020

Vapores

Depois que a poesia se recolhe
(não me pergunte o palácio)
eu fico só a casca.

Não há peso,
também não há leveza.

Depois que a poesia se recolhe
(não me pergunte a caverna) 

os insetos retornam
pra levar de volta
a casca.

Sábado

Um dia você acorda
e ninguém dará corda
girando à toa sua cabeça.

Você pensará apenas 
por seus próprios neurônios
e pelas linhas do seu coração.

Você saberá como andar sobre o fogo
sendo sua alma um poço de água transparente.

Nem um nem outro ponto extremo
atrairá o seu humor e sua clarividência.

Só você (desperto)
será o senhor das suas dúvidas
como também dos seus esplendores.

Entenderá que o jogo
não é jogado pela vaidade,
mas por amor a uma força maior.

E você caminhará sobre o fogo
sendo a sua alma uma folha de jasmim.

Bichinho Verde

As últimas chuvas de maio
convidam-me a fazer barquinhos
de papel e lançá-los da minha janela.

Se por acaso
algum barquinho
de papel chegar à sua casa,

leia a minha mensagem
dentro da garrafa de náufrago:

"Mergulhe, debaixo das ondas
os corais são mais sedutores."

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Espião

As pessoas que amo
estão protegidas.

As idiotas
tenho pena.

As que odeio
já sumiram
do mapa.

A poesia é uma arma branca,
escura, que faz sangria
e tira os pontos.

Após os primeiros versos
as suas mãos jamais serão
as mesmas mãos de outrora.

Ainda que você queime
as provas do crime.

As fumaças entrarão por seus olhos
e você verá longe do que é comum.

Bodas De Brumas

Ah, sentirei saudades das minhas cabeçadas
e do cheirinho do meu café debaixo do chuveiro.

Você me promete que assim
que escrever meu último blues
você tocará trompete pelas ruas?

Dê o meu bermudão
ao meu primo do interior
e os meus livros (os remanescentes)
faça doação à biblioteca da comunidade.

As botas do meu trabalho
jogue ao terreno baldio.

Mas, por favor,
com delicadeza.

Lembre-se que o meu último blues
escreverei dormindo sobre seu colo.

Diabinhas

A propósito,
segunda-feira
é o dia do salário,
entenda-se, do pecado.

Já fiz minha toalete
e você dará gritinhos
de louvor à minha pureza.

Sabemos que a nossa volúpia é dourada 
e cingida à nossa alma uma coroa de louros.

Espere-me que chegarei
com aquele rosto em fagulhas.

O mesmo bermudão,
o mesmo andar trôpego,

mas agora (surpresa) 
um bigode cigano.

Pólen

Quando retornar ao seu templo,
por favor, devolva minhas bolas.

Sei que você adorou
o perfume de almíscar
e os campos de girassóis
que contemplou lá dentro.

Mas tenho que fecundar
muitas terras férteis, baby.

E as minhas bolas
são preciosas, hein?

Resguardam
quimeras.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Códigos

Se porventura você acordasse
com a sua capacidade cognitiva
na ponta de um diamante translúcido

seu caminho seria iluminado
por uma potente luz?

E nesse caso, a antiga verdade
seria oculta ou dispersa?

Caberia a quem
o novo homem?

Ao morto ser
ressuscitado?

Ou à ressurreição
que você desconhecia?

Os ratos, elefantes,
leões e pássaros
teriam outros
nomes?

Em que espécie de encanto
você entraria, meu poeta?


As Chaves

É tão comum as pessoas
para não morrerem de saudade
empalharem os seus amores eternos:
Aves, cães, gatos, cobras, coelhos, cavalos.

Por minha vez,
fui mais além

e desenterrei
tua clavícula.

Passo horas e séculos
acariciando o teu osso
sobre minha escrivaninha.

Filosofia

Será muito curioso
tirar a casa das costas
do caracol e ainda assim
querer que o caracol não sofra danos.

O caracol e a casa
são o mesmo ser.

Embora, meu doce,
você possa vislumbrar
vários ângulos e profundidade
sobre o destino metafísico do caracol.

Inclusive negar 
as existências

do caracol
e da casa.

Mas separar o caracol da sua casa
sem que o caracol não sofra danos
será de um ação mística espantosa.

Exuberância

Acredito que neste minuto
meus filhos tenham nascido.

Em cada ponto do planeta
um filho meu berra e abre
os olhos faminto por vida.

Acredito também
que minhas mulheres
estejam todas radiantes.

Lágrimas,
risos, tremores
no ventre e alma.

Céus, como amo
as minhas mulheres
e como adoro meus filhos.

Em cada ponto do planeta
um filho meu berra e abre
os pulmões sedento por ar.

Ah, e as minhas mulheres
como devem estar em êxtase
relembrando meus gestos e palavras.

Enviarei a cada mãe uma carta lírica
e um ramalhete do meu próprio jardim.

Vou colher agora,
agora mesmo.

Talvez consiga
uma borboleta
de olhos lilases.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Bravura

Claro que escrevi muitos poemas
para impressionar meu capitão
que debaixo de uma lona
traçava rotas de fuga.

E eu não parava de escrever
sujo de lama e sangue
entre cadáveres
na trincheira.

O capitão não deu outro passo,
uma granada estraçalhou seus planos.

E você me pergunta
se escrevia poemas
pensando na morte.

Ah, meu doce, escrevia poemas
pensando na curva da sua virilha.

Botija

É bom escrever poemas como naquele tempo
em que não ia à escola e bebia chá de cidreira,
xarope e refrigerante morrendo de febre e tosse.

A luz da manhã
bate direto no rosto.

E as árvores da minha calçada
são minhas amigas de longa data.

Talvez até exagero e disparate,
mas as árvores da minha calçada
são bem mais minhas confidentes
do que amigas dos seus passarinhos.

Dos seus besouros,
das suas lagartas,
da sua chuva,
do seu sol.

Os pés de oiti
da minha calçada
conhecem minha noite.

Durmo de janela aberta
para que os seus galhos
não arranhem a vidraça
imitando meus fantasmas.

Espere um segundinho,
que fantasmas são esses?

Já não existe mentira
entre nossos corações.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Óleos

Sabe, meu docinho,
às vezes a sua alma durona
de uma filha de um cossaco durão
impede que o meu coração romântico
expanda-se em nuvens abstratas e patéticas.

Guardo a pólvora e o láudano
dentro das minhas ânforas
e jogo fora os cachos
dos seus cabelos.

Por séculos
aguardei 
a carta.

Esfolei muitos pombos
que chegavam à minha janela
embriagados de conhaque e vodca
e mentiam explicando o seu esquecimento.

As estepes da sua terra são encantadoras,
mas dentro da minha cabeça o deserto é florido.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Deidades

O que me arrebata
não é a cor do olho
nem a formosura
da boca,

mas o que diz 
a alma da mulher.

Os seus segredos
dentro da bolsa
de estimação

no fundo
da gaveta.

As marcas dos dedos
naqueles chinelos antigos.

Os frasquinhos de esmalte
perdidos debaixo da cama.

Cântaro

Sardas no rosto
e a voz do encanto:
Ah, céus, como é fácil
uma poeta entrar na minha casa.

E chega assim
cheirando a sândalo
com os tornozelos nus.

Os versos que saem da sua garganta, menina,
trazem-me um frenesi medonho ao meu silêncio.

Só de bem,
vou molhar
uma plantinha.

domingo, 24 de maio de 2020

Selos

O poema após limpar o próprio corpo 
e a própria alma passa a ser o próximo.

As escamas não cheiram mal
e todo o acúmulo de sujeiras
é queimado pela clareza
da própria memória.

O poema passa 
a ser um ente liberto
que abençoa ou que revolta
em sua forma transformada.

Mas o poço permanece lá,
a água permanece lá.


sábado, 23 de maio de 2020

Fogueira

Quando criança
já admirava os arrebóis 
contemplando as asas da joaninha.

Só não imaginava
que as cores dos céus

também
voassem.

Peixinho Dourado

O princípio de toda
elevada ação é interior
e propaga-se a energia
por camadas superiores.

Qual o ser 
que confuso
segue evoluído?

Confusão
como mentira
são folhas secas
que nascem para ser 
consumidas no vento.

O desejo comum
é caminhar cego
entre mortos:

Envaidecer-se,
enfurecer-se,
morrer
bruto.

O Primeiro Sopro

A verdade de cada qual
é um véu sagrado
de cada um.

Os cadáveres entendem
a nostalgia do perfume
das flores dos túmulos

e procuram fugir
das lembranças.

Cada um com seu véu sagrado
de ilusões, fúria e esperança.

Os meus peixes
não servem para
matar a sua fome.

Pesque seus peixes
com as suas mãos.

Comovida, minha xícara
chora lágrimas de café
por seu rosto branco.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Filho

Quem de fato
trilhou o caminho
usando minhas pernas?

Quem pisou nuvens,
terra e lama calçando
os meus miseráveis pés?

Quem sangrou meus inimigos
com espadas e adagas de luz?

Quem me trouxe
esse entendimento
de que nunca morrerá
minha nobre consciência?

Quem beijará meu corpo
quando algo em mim tiver
partido do meio dos mortos?

Algo de mim
que não sou
e que morre.

Harpa

Acredito que hoje será a manhã todinha de chuva.
Essa chuvinha fina que as lagartas-de-fogo adoram.

As botas do trabalho
suspiram encolhidas
com as meias dentro.

Já fiz e bebi
o meu café
de lei.

Você sabe
que o meu café
é o mais saboroso
de todas as galáxias.

Conquistei muitas mulheres
conversando sobre a vida mística
das lagartinhas-de-fogo bebendo meu café.

Algumas entravam em epifania
relembrando a infância de garotinha, 

enquanto outras de vestidinho e saínha a cruzar 
e descruzar as pernas levaram-me à demência.

Hoje, imagino,
será a manhã todinha
com esses ares espirituais
de conforto e chuvinha fina.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Lilás

O poder da cicatriz
sempre será a memória
do dia em que o ferimento
despertou de qualquer mágoa.

O ser que dantes
morria de pavor
da própria luz

hoje em dia
conhece muito
das mil sombras.

Não há força na dor
que tece vinganças.

Mas a memória da cicatriz
que eleva a alma não passa.

Os Amores Do Mundo

Brincava contigo
quando escrevi
que debaixo
da minha
janela

nascera
um girassol.

Mas te juro
(eu cegue)

que é verdade
o semblante

de uma doce
orquídea.

Sabe, nem me importo muito
quem segura a minha mão
na hora em que escrevo.

Mas ao toalete
sei que é a tua mão
que deliciosa me depila.

As Calçadas Amam O Sol Do Fim De Tarde

O que posso
é escrever
poemas.

E ficamos próximos
trocando olhares.

O teu olho âmbar
o meu carvão.

Não falemos
sobre as nossas almas,
pois elas merecem o silêncio.

Docilidade

Enfim, aconteceu:
Conheci de perto
a sujeira de Lola.

Lola tinha ao seu bel-prazer
a sala, o tapete, a cozinha,
a suíte e os dois quartos,
a área de serviço,
a varanda.

Mas dama elegante que é
foi ao quarto dos fundos
e lá fez a sua necessidade.

Os cães têm caráter,
emoção e perspicácia.

Lola procurou por toda a casa
um lugar em que fosse decente
expor toda a sua ração digerida.

A garota Lola só se esqueceu do livro
de páginas entreabertas sobre o cesto.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Balsâmico

Assim que pensamos
em escrever um poema
pra alguém muito especial

tal poema já nasce
sob o selo da corrupção.

Ninguém é tão especial
que mereça um poema
fruto de dupla vaidade.

A vaidade de quem escreve
e a vaidade de quem inspira.

A propósito, 
meu docinho,

se eu quiser tirar meu bigode
não preciso pedir permissão
aos passarinhos do pé de oiti.

Mas a você (acredite)
escreveria uma carta.

Romãs

Querida, às vezes um poema erótico
de tantas metáforas acaba frio e obscuro.

Então, baby, serei claro
o mais explícito possível:
Tu me permites com os dedos
brincar na tua caixinha de música?

Juro que as pontas dos meus dedos
são uma gracinha de delicadeza.

Quanto à minha língua,
advirto, ela é louca,
imprevisível.

Atrai ostras
só no biquinho.

Besouro da Sorte

O fogo não terá fim
e pelo que vejo

esse amor
é eterno.

Você será seduzido
todos os dias da sua vida
a entrar na floresta escura

e trazer gravetos para alimentar
o fogo que não tem vestígios de fim.

As paixões do corpo
continuam um doce.

A questão é que você agora cria imagens extraordinárias 
com areia colorida dentro da sua garrafa de náufrago.

Aquela muriçoca 
de violino quebrado
agradece por sua paciência.



domingo, 17 de maio de 2020

Antecâmara

As sombras existem
pela vida útil da luz.

Apague a lâmpada
e nem as sombras
terão vez.

Ninguém sobrevive
na total e plena treva.

O desapego das ideias
é um belo sinal de morte.

Que os poemas escritos
não sejam pontes entre
meu corpo e o devaneio.

Mas o que sabe
a mente do lugar
que não se conhece?

Poemas são afagos
no olhar trêmulo
que já se foi.

Episódios

Depois que as lágrimas
salgam o rosto e vão embora 
segue o caminho também a lucidez.

Quem detestava o sol
já revê seus princípios.

Até Nosferatu
vai à padaria
com ombros
de fora.

A passos lentos e sonhadores
conta o tempo desperdiçado
dormindo dentro do caixão.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Oxímetro

Sentir-se humano
não é caso de tristeza.

As sensações do corpo 
são nuvens que se transformam.

Não pule de um penhasco
por sofrer de vertigem.

Nem se esmague
sob as paredes
por temer
as aves.

Beije suas mãos,
entrelace seus dedos.

Sentir-se humano
não é caso de morte.

Em alto-mar
cante um blues
e aproxime-se dos corais.

Há peixes ocultos
dentro dos olhos.

Istmo

O apito do trem
é igual ao do navio
se o coração desperta
de saudade ou remorso.

Quando criança
os fantasmas
faziam festa.

Mas deixaram a casa
no tempo da clareza.

E não pensam em voltar
porque sabem que a casa
não tem um senhor absoluto.

A casa é do vento
da chuva e do sol.

O telhado
e a terra

florescem
a cada dia.

Disparos

A segurança vem da fé
e a fé não é cega nem
enxerga com olhos

que a terra
há de beijar.

O que posso adiantar
é que as minhas vísceras
não têm essência enquanto
forem vísceras apenas do corpo.

O valor de um tesouro
não é a verdade que
outros julgam.

Só saberá quem lhe fala
quando você não tiver
os seus ouvidos

colados 
às orelhas.

Ócio

Além dos ossos
sou a consciência
dos meus ossos, baby.

A morte da consciência
não existe como é uma fábula
acreditar na eternidade desta vida.

E enquanto a consciência me esclarecer
de que sou os meus ossos e a consciência se apoderar
dos ossos secos e da carne exposta ao banquete dos vermes

as ilusões deste mundo
forjam apenas um propósito:
A total percepção da consciência.

Por isso que é inacreditável
o envaidecimento das criaturas.

Também é tão triste, baby,
o medo dos seus corações.

A consciência dos meus ossos
alegra-me as manhãs e a única vez
em que me senti tão alegre foi no dia

do meu primeiro relógio 
que parou debaixo da chuva.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Chuva

Escrevo e apago poemas
com a mesma facilidade
que afogava formigas 
na xícara de café.

Agora nem o açúcar mascavo
no fundo da xícara branca
seduz as meninas.

Crescemos,
o poeta e as formigas.
Uns morcegos, outros elefantes.

Repentino

Quando a minha língua começa o frenesi
da estúpida oratória e não há fim entre
os pensamentos e as palavras,

recorro ao meu caderno
e escrevo versos de morte:

"Os teus brincos de argola
que ofereci à outra mulher."

Crime

A grande sacada
é entender o mau humor
da poesia e aceitar da tal Senhora

a migalha para que nos vejamos
vivos, especiais, filhos de uma força.

Se a poesia adora contemplar seus ossos
e não lhe oferece um verso de socorro,

então vingue-se
como um selvagem

e guarde dentro da gaveta do inimigo
as mãos frias sem uma gota de sangue.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Haxixe

Da minha janela
tantas meninas
passeando

com seus cachorrinhos
que já perdi a noção:

Quem sorriu toda diabinha?
A do vestido preto é a mesma de azul?
E qual o nome da que atravessou a rua?


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Oráculo De Delfos

O que você acha
do meu bigode,
garota Lola?

Sei que me ouve,
embora se finja
de cadela órfã.

E se esconda debaixo da mesa
morta de medo até do próprio vento
que derruba quadros e lhe beija as patas.

Diga-me, garota Lola,
o meu bigode é melancólico
ou me deixa com cara de dono
de armazém de rum contrabandeado?

sábado, 9 de maio de 2020

Confraria

Pode ser que a poesia canse,
mas o poema se não for escrito
pesará um século de assombrações.

Ofício é quebrar os ossos
e amaciar a carne nos dentes.

Escreva o poema, filho,
e livre-se da sua cruz.

Ou melhor,
escreva os poemas
na madeira da sua cruz.

Como antigamente o poeta francês 
escrevia versos de amor nos caixotes de fuzis.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Gralha

A verdade é um segredo
entre você e quem
não é você.

Falar sobre morte
para quem tirou
o véu do sono
profundo

é como espremer cravos
das faces de uma rosa.

Macieiras

O máximo que posso
fazer por ti é ouvir
tua cabecinha.

Os teus sonhos
que me forçam
o riso em silêncio.

Os teus ares
de vingança.

A tua fragilidade
diante do poder.

Do poder ridículo
das coisas ridículas
que passam e te roem.

Mas sou um simpático coveiro
e na hora de plantar teus ossos
cavarei uma linda e fértil horta.

Juro que nascerá
das tuas cinzas
agrião.

Ora, meu docinho,
tu sempre amaste
a tua pele irradiante
de jovem camponesa.

E assim será (prometo)
por toda a tua eternidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Aurora Boreal

A minha mente é muito poderosa,
mas a última palavra é sempre da poesia.

Portanto, o que cultivo
só é digno aos corajosos:

Aqueles bêbados
que um dia acordam
cansados da embriaguez.

E passam a conviver de perto
com todos os seus atrozes pedintes
que caminham conforme a natureza

dos trôpegos,
dos cegos
e fujões.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Designer De Interiores

Você comprou
tolhas de banho
floridas e felpudas.

Vi da minha
área de serviço.

O que você guarda
de especial na gaveta
da sua cômoda branca?

Sei, ui,
imagino.

Adoro os seus segredos
de quem vive longe de casa.

terça-feira, 5 de maio de 2020

As Flores Do Princípio

Tenho uma relação muito querida com o mês de maio.
Conto nos dedos das mãos e dos pés as noivas 
que fugiram dos meus braços.

Ou me deixaram plantado 
no altar chorando abraçado
ao padre ou logo me deram o fora
durante o primeiro mês de núpcias.

Apaixonaram-se
pelo mecânico,
padeiro

ou o garotão
entregador
de água.

A viagem do espírito
é igual ao vento
de maio

que toca os dois vasos de orquídeas
sobre o parapeito da minha janela.

Não há risco de queda, baby,
que apavore as formiguinhas.

domingo, 3 de maio de 2020

O Tempo

Se você não tiver um caminho
que o aproxime dentro de si
como sairá do que
vive fora?

E o que se vive
não é verdadeiro
a partir da lucidez?

Abra as janelas
da casa e peça

gentilmente ao caramujo
que esqueça toda a lamúria.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Trabalhador

Já malhei,
arrumo a mochila

e vou passar uns dias
em companhia do filho.

Ora, arejar as ideias
com um verdinho.

Sou forte,
sadio e feliz.

Eis o mantra
da minha
avó.

Uma xamã de altíssimo grau
que adorava mascar fumo
e juntar moedas antigas.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Peixe Fora D'água Também Vive

Os familiares
terão uma grande
dor (e angústia no peito)
quando abrirem minhas caixas.

Ninguém em moral enlouquecida
imagina as minhas coisas ocultas.

Mas não pensem, cordeirinhos,
que voltarei correndo ao quarto
queimar as cartas e testemunhos.

Cresci sob o fogo
e minhas asas
dão voltas
e voltas

circulando o outro
dentro de mim.

Daí essa voz, querida,
já precisando de respirador.

Salomé

Você se lembra
de que lhe prometi

um par de brincos,
ou melhor, argolas,

e nunca
comprei?

Ora, você também
nunca me fez aquela
massagem prostática.

Caverna

Depois que tiramos da pele
aquela mácula criminosa
dos profetas irados
e tristes

sobra-nos um coração forte
sem meio-termo entre
dor e loucura.

Acordamos muito bem e nem uma gripe
em tempo de pandemia assusta nosso olhar.

O fogo que nasce é tão puro
quanto uma palavra irmã

da ação lúcida
em escrevê-la.

O Sátiro

Ok, já fiz minha toalete de fim de mês
e amanhã recebo o salário do pecado.

Guardei de memória
os celulares das diabinhas.

Eis-me limpinho,
limpinho, limpinho.

As diabinhas
hão de babar
minhas bolas

com seus batons cereja
e aquele risinho do inferno.

Só não sei se devo
chegar lá de bermudão
ou minha túnica de linho.



quarta-feira, 29 de abril de 2020

Anônima

Ui, tu hoje estavas de preto
e viste como é delirante
romântico e ácido
o meu olhar.

O teu rostinho pareceu-me
uma barra de chocolate branco.

Da janela
lancei a minha espécie
de alma e acredito que gostaste
do meu gênio e da minha química.

Uma breve viagem
por meu sangue
para quem 
seduzo.


Deleitante

Ah, como é extraordinário sentir os meus olhos
regressando à orbita lunática de imensa luz, baby.

Agora, enfim,
posso voltar
a fazer 

bichinhos
usando minhas mãos
e brincar com as sombras.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Draculagem

Não creio que você não imagine
que alguém da janela a vê
passeando na calçada
com seu buldogue.

Tão fascinante
nesta tarde 

de vestido
camisa social

em que as pernas
vagarosas de sensualidade
parecem senhoras da minha alma.

Onde você guarda
a minha taça de sangue?

Tertúlia

O único livro sagrado que possuo
é uma coleção de cartas todas
escritas para meu primeiro
amor.

Não há um dia
em que não desça
ao túmulo da década

de oitenta e leia aos meus anjos
e aos meus demônios os ais do coração.

Sorriem felizes
abraçados os anjos
aos demônios e dizem
que sou um perfeito maluco.

O Sumiço Da Máquina De Escrever

Por ato contínuo de escrever poemas
um poeta não é igual a outro poeta.

Por exercício 
de liberdade 

bastam
as sombras
de cada poeta
entre suas paredes.

O alimento
não será outra coisa
senão ossos da própria carne.

Ninguém morrerá de fome
queimando os cabelos
no seu enxofre

e salgando suas moedas antigas
dentro das ânforas do seu terreiro.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A Natureza Apaixonante De Uma Cadela

Nunca mais passeei com Lola.
A dama morre de vergonha
de fazer sua necessidade
fisiológica

em minha
companhia.

Embora eu olhe pro céu,
feche os olhos e até
solte a coleira.

Não tem mesmo jeito,
a dama morre de timidez.

A partir de agora apenas indico a porta
para que a jovem senhora saia com um livro
debaixo do braço e corra atrás dos pombos e gatos
depois canse, abra o livro de contos, leia algumas páginas

e faça tranquila
a sua obra-prima
na calçada das oitis.

As Túnicas Da Caveira

A questão fundamental da minha existência
é que me apaixono com absurda facilidade
pelos passarinhos, pelas lagartas-de-fogo,
pelas garotas desconhecidas da rua.

Perco o tato
entre amores
sobrenaturais.

Não durmo,
não me divirto,
passo a escrever
cartas de náufragos
para qualquer um solitário.

E assim vivendo
acabo estranho
assobiando

para os passarinhos,
lagartas-de-fogo
e  pras garotas

que chegaram agora à minha rua
e já cantam alto das suas janelas
arrastando o meu coração
à encruzilhada.

Aquele anão cínico
de sorriso iluminado
saiu das floresta escura

tocou o meu ombro
oferecendo-me o banjo

e aos primeiros acordes
as garotas recém-chegadas
silenciaram-se e o céu explodiu.

Certos Sopros Quebram Costelas

Desde o primeiro momento do poema
o caminho é sempre para seguir em frente.

Desde o primeiro movimento do moinho
o mergulho é sempre para dentro.

Se o poço for muito escuro
grite mais forte.

Se a clareza vive distante
acorde dos seus sonhos.

A melancolia dos fortes
é arrancar a pele
do coração

escrevendo
um blues.

Do Penhasco O Farol Arde

Caso um drink
levará sua alma
a mergulhar dentro
de um barril de rum

dê as costas
ao capitão
do navio

e não entre
no porão.

Salvação é lucidez
e quanto mais luz
mais sombras.

Mas essas sombras
testemunham o quanto
a verdade é extraordinária?

Pegue o leme das mãos
dos seus fantasmas

e atravesse
o nevoeiro.

sábado, 25 de abril de 2020

Planos

Se você jogar uma bomba
sobre o telhado de quem
não gosta,

então prepare-se 
para construir 
uma fábrica
de pólvora.

Não seria melhor
sentar-se na cadeira
de vime e ler Dostoiévski?

Não sei se sua cabeça está boa
pra jogar xadrez com o seu amor.

Dostoiévski
é mais seguro.

Transmigração

Ninguém precisa esmagar uma abelha
só porque entrou em casa e voa solta
pelo quarto da querida e doce avó.

Basta um guardanapo
embalar a abelha
de maneira 
delicada

e jogar a visitante da janela 
na direção das oitis da calçada.

Os discípulos de Pitágoras
sabem do que estou falando.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vizinha

Teríamos pouquíssima coisa
a nos dizer se me fosse oferecido
aos meus dedos o riacho dos seus pêssegos.

Por certo
são dos seus pêssegos
o jardim de pelugem castanha.

(segundo
suas sobrancelhas
e os seus olhos de mel)

Digo-lhe de passagem
enquanto você desce
a escada tal qual

dançarina
de forró.

Castelo de mentiras

Por quanto tempo
o seu sangue

será oferecido
ao ridículo
vampiro?

As trevas
não surgem
do que existe
lá fora, brother.

O tremor
debaixo dos seus pés
você quem planta e adora.

Os fantasmas vivem na sua casa
devorando o seu espírito
por sua vontade.

Ninguém tem o poder soberano
sobre as suas fraquezas, brother.

Admita-se pequeno
e aprenda a olhar os céus
quebrando as correntes do próximo.

O mesmo próximo
que mente e lhe traz
ao coração o veneno.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sal

Se disserem que o poeta
morreu dormindo, 
não acredite.

Mesmo quando viajo
e pesco nuvens não durmo.

Não tomo comprimidos
e nem sei mais o gosto
de cocaína e drinks.

A minha consciência é tão criativa 
que me deu uma lição e salvou-me.

Claro que meu coração
não é uma boa pessoa.

Mas consciente
do seu tambor
e do blues

o meu coração sabe
muito bem apaixonar-se
pelos sonhos sem que o poeta

morra
ou durma.

Desfalecimento

Ainda escrevo cartas
e guardo-as dentro
da gaveta

da minha
escrivaninha.

Muito bem,
minto.

A escrivaninha
já sumiu do mapa.

Tive que fazer uma majestosa fogueira
conforme acumulavam-se as cartas.

Você não faz ideia, baby,
como é de outro mundo
aquele tipo de fumaça
entrando pelos olhos.

As lágrimas
parecem anjos
e demônios de saia.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Pergaminho

Quem serve a um senhor
ainda que iludido
diga-se liberto
é discípulo.

Quem serve a dois senhores
ainda que cínico se diga esperto
é uma alma triste, pesada e inútil.

O grande prazer do poeta
é assistir a suas ideias consumidas
e toda a sua crença em perfeita suspensão.

O poeta serve
ao fim do poema.

Somente ao fim do poema
e à sua infinitude possessa.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Cadeira de balanço

Faz tempo
que o bem-te-vi
no alto da árvore

degusta da sua maneira
algum tipo de inseto
ou minhoca.

Não existe demência
nos atos e ações
da natureza.

O bem-te-vi
nesta tarde
escura

mata a sua fome
diante do banquete:

A cigarra (ou minhoca
ou lagarta-de-fogo)
não reage

aos solavancos
e bicadas do bem-te-vi.

Creio que essa entrega
é a verdadeira representação
do mais puro amor dos céus à terra.

O bem-te-vi sabe
que nunca passará fome
e o seu alimento aceita o destino
de morte para que o bem-te-vi voe.

Quântico

A origem do seu mal
é o desconhecimento
da relação entre

a sua mente
e o coração.

Agora que caiu
a máscara do deus
da criação e escombros
não há desejos de romper
os laços entre as borboletas.

O entendimento do sopro
é o mesmo de quem reconhece
que plantou um espinheiro no meio
das costelas ou uma serpente na garganta.

O movimento
de uma margem
para outra margem

não é o corpo físico
o autor dos passos.

Quem caminha
de um lado para
o outro canto da sala

é aquele mesmo deus
da criação e devastação.

E não suspire pelo sacrifício espiritual
drogas lisérgicas ou as farmacêuticas.

Manter-se sobre os pés
é questão de coragem
e vontade de subir.

Feriado

Diga olá
pra chuva,
meu docinho.

Só ouço
os meus passos
dentro do seu coração.

Que coisa boa,
meu docinho.

Não se assuste
com os sonhos
bons ou ruins
que surgem
da minha
mente.

Aprendi a distinguir
a veemência da ilusão
da vontade de ser eterno.

Diga olá
aos passarinhos
das oitis da calçada
e beba meu cafezinho.

Só ouço os seus pés frios
passeando pelo tapete
da sala

e (cuidado)
Lola vai morder
qualquer dia desse
o seu lindo calcanhar.

Não se zangue
da minha apatia
e crença em fantasmas.

Os objetos de casa
(a xícara branca, sobretudo)
já fazem planos pra depois da minha morte.

Mas diga olá
à bela manhã
de mortos
e vazio.

Os passarinhos
conhecem meu coração
e não me poupam alfinetadas.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Matador

Não será igual
ao de Salvador Dalí
nem aquele do detetive Magnum,
mas deixarei o meu bigode litigioso.

Definitivamente
desposarei as novinhas,
as suas mães, camponesas,
sacerdotisas e as sereias de luxo.

Cansei do ar místico
de quem fumou peyote
no deserto da antiguidade.

Uma vez que adoro as sombras
será bom um pouco de luz carnal.

Metanoia

Aos cinquenta e quatro
ainda não decidi qual

a tatuagem
no antebraço.

Pensei em versos,
símbolos ocultos,
imagens de deuses
ou o rosto do meu filho.

Até imaginei
uma auréola
em forma
de pipa.

sábado, 18 de abril de 2020

Carapuças ao vento

A Verdade
não se limita
a pontos de vista,
teses e observações.

As imagens ridículas
dos que são possuídos
pela vaidade são trágicas.

E não há necessidade
de elaboração espiritual
de livros santos ou sagrados.

A Verdade é simples
como é clara e ardente.

Se choverá
ou não,

as nuvens
não impedem
o canto do pássaro.

O Êxtase de Zoroastro

Você não acreditará,
mas consegui remover
aquela espinha que virou sinal
do ponto nevrálgico das minhas costas.

Você não é insubstituível, viu?
Agora, pergunte-me onde
guardei o perfume
das suas mãos.

Ainda se lembra
das pequenas
ânforas?

Aquele
que não perde
a consciência das cinzas
jamais se esquecerá do fogo.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Pulmonar

Cada poema
tem sua história
que não é a do poeta.

O poema convida
para se fazer palpável
o que não conhecemos.

O poeta nem o leitor
imaginam a verdadeira
função histórica do poema.

O poema não é um breve
suspiro e suspensão de ideias.

Há cadáveres
e flores virginais
que se debruçam
sobre as palavras.

O poeta não sabe disso,
e portanto para alcançar
o mais tenro do pensamento
escreve o que ouve do poema.

O poema é senhor
em si mesmo, filho.

E tudo que parece
ditado e escrito
pelo poeta

é tão cheio de vapores
quanto os sussurros
das cavidades
do coração.

O poeta se expressa
fingindo-se soberano
do que por vezes sente.

Mas o sentido das coisas
(das coisas do poema
e das coisas do poeta)

não cabe
em versos.

E o poeta recebe em troca
por sua devoção a experiência.

Laico

O demônio
possui mil
artimanhas.

Inclusive
aquele anjo
que se diz doce
odeia sua lucidez.

Ambos,
o bem e o mal,
caminham juntos

tramando contra
a lucidez do espírito.

E o espírito
é esse olhar acima
do que se propõe eterno
e além do que se julga carnal.

Apenas fique
suave e atento
de olho nas ações
da sua cabeça e coração.

O pavio nunca será apagado
mas o sopro final
é seu.

Ingrid

Ah, essa chuvinha fina
e meu coração de alquimista.

Qual o valor, baby,
de uma hora de
divertimento
amoroso?

Deixarei o bigodinho
só pra levá-la à loucura.

Gosto de vê-la
com ódio de mim
e do mundo medieval.

Diga-me, baby,
quanto custa uma hora
de diversão amorosa febril?

Ah, essa chuvinha fina
e minha insipiência
de amante.

Aceita cartão, flores
e um cigarro turco?

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dinamarca

Nunca me passou pela cabeça
que as cadelas adorassem
batata-doce.

Mas Lola
olhou-me
tão pedinte.

Piscou-me
três vezes.

Abriu a bocarra
e lambeu o focinho.

Sinto muitíssimo,
querida Lola.

Batata-doce
é para os veteranos
de guerra e de sonhos
que ainda levantam peso.

Não prestou atenção
como me olham
as vizinhas?

Detestam poesia (odeiam)
mas admiram meus braços.

Sabe, querida Lola,
você viveu nas ruas

e certamente reconhece
um sujeito bacana e estranho:
Deixe a batata-doce pro poeta.

Contente-se
com sua ração.

Por sinal,
das boas.

Os cães sagrados
das civilizações
antigas

banqueteavam-se
(acredite) da mesma.

Sensitivo

Duvido,
eu cegue,

se houver
um café mais
encantador do
que o meu café.

Sobretudo
forte e doce
antes que a alma
abra os olhos e suspire.

Minha alma
adora meu café.

E não vê a hora
de sentar-se à mesa

ou de jogar-se na cadeira de vime
da varanda e entrar em devaneios.

Aprendi com a minha vó,
xamã de uma tribo cariri.

Só que o café da minha vó
já pertence à outra dimensão.

Chego
lá, baby.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Nostalgia

A sua força
é legítima.

E não há sombras
diante do que é lúcido.

Apague as luzes da casa
e mesmo assim você verá
objetos dançando à sua volta.

Do mesmo jeito
que os cães veem coisas
o poeta entende a clareza do invisível.

A sua força
é óbvia.

E não há tremores, transe,
ópio, medo e felicidade,

pois da inteligência
surge a grande
tolice.

Apague as luzes da casa
e mesmo assim objetos
que você nunca viu
dançarão ao lado
dos seus pés.

A meditação dos bem-te-vis

Ouvindo ladainhas de beatas
ou ouvindo blues de um demônio

meu coração
nem minha 
mente

alteram-se
sob falsa 
clareza.

Os bem-te-vis intuem
o pavor dos humanos
e ensaiam um novo
canto de recolher.

Agora, dizem eles,
vocês talvez entendam

que os espaços lá fora
são ilusórios e de morte,

enquanto
dentro de cada poço
não acabam água e pão.

(Ou não,
concluem
rindo os corvos)

Rock pesado

Ah, adoro maçãs
mas não vejo
pomares

no outro
jardim.

Aquela mulher sabe
que a venero de verdade.

Ora, por que
não aparece
na janela?

A fumaça do café no rosto
espanta os males da ilusão.

Ah, adoro maçãs
mas não vejo
decotes

da minha
varanda.

Aquela mulher sabe
o quanto sou balançado
por seus olhos e os cabelos.

Ora, por que
esconde-se
atrás

do vasinho
de cacto?

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sinfonia

Desde criança
adoro barquinho
de papel e moinhos.

Desde criança refaço as ideias
conjecturando elevação espiritual
e reconheço o que é sonoro ou fatídico.

Perdi amigos e amores
como quem se esquece
de palpar os bolsos
do bermudão.

Mas as vozes
não arredam
o pé.

Pé de calçada,
pé de vento,
pé de oiti.

Sorvete

Por muito tempo
fui um detestável.

Não suportava
o raio do sol
dentro das
minhas
botas,

tampouco a chuva
iludindo a vidraça.

Melhorei um pouco,
já posso conquistar
outras criaturas
sem tanto tédio.

E nem penso
em ópio eterno
e sonhos infernais.

Pela casa
de bermudão

percebo que os objetos
oferecem seus mistérios
ao meu risonho silêncio.

(creme com passas
é quase um crime)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Dos lúcidos devaneios

Sei muito bem
pra onde vão
os poemas:

Pra dentro
das  garrafas
dos náufragos.

Não existe cemitério
para as palavras, baby.

O que os poetas fazem
é construir a eternidade
sobre bases transitórias.

E mesmo depois
do castelo de cartas
ruir diante dos seus olhos

o poeta ainda pensa
escrever o último
verso em papel
de pão.

Os elefantes,
esses sim seguem
a história da bondade.

Jejum

E se não há desejos
de vida nem de morte
o que será da ilusão latente?

O corpo que admira as cicatrizes
sem nenhuma espécie de saudade.

O coração que sabe
da sua terra fértil
de batatas.

A alma que já disse adeus
e espera agora o apito do trem
que traz um carregamento de ouro

de El
Paso.

E se não há traumas
e sonhos de vingança
o que farei da parte vil?

Vestir-me de outra pele
com a felicidade dos cães.

domingo, 12 de abril de 2020

Papel Seda

O primeiro sinal
de que o espírito está bem
é a sensibilidade extraordinária do olfato:

Batata-doce e seus carboidratos
em generosas fatias na água
a ferver.

Os vizinhos plantaram um coqueiro no quintal
e sumiram de casa. Nunca mais foram vistos.

Vizinhos meus não.
Vizinhos da minha ex-mulher.

Molhei as plantas e plantei
um brotinho de gengibre.
Será nosso segredo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Drogaria

O poeta é muito bobo, meu pai.
Só por causa dos olhos azuis
da balconista (de máscara)
voltará o poeta
à farmácia

pra pedir
um remédio
para o coração.

Antes, é claro, tapará o rosto
com um retalho do vestido
do seu último amor.

Música

O meu suspiro
não é queixume.

Acostume-se
ao som

das minhas costelas, baby,
quebrando-se a cada sonho.

Nunca pensou em fazer
uma aliança de vento
dos meus versos?

Trilhas

O fogo que ilumina a caverna
é um olhar que vem de dentro
mas não pertence aos seus olhos.

Vem sendo e está em preparação esse fogo
há séculos e séculos cujo tempo não faz ideia.

Mesmo que a sua mente
e o seu coração sejam pares
em exercícios de imaginação.

Todas as árvores são sagradas
para quem ama a doce sombra.

O rosto muda
debaixo da luz
e as formigas
também.

Sonambulismo

Sinto muito, filho,
mas não mudará o mundo
o conceito de matéria e eternidade
mesmo após passar a terrível sombra.

Os loucos permanecerão loucos.
Os tristes, tristes. E os vis,
tenebrosos.

Os que acordarem
é que já haviam ensaiado
abrir os olhos antes da solidão.

Natural que os corvos se cansem
de comer sementes de girassol
e regressem ao pântano

pra bicar
sapos.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cigana

O meu coração é uma criançona.
Mas você nunca será um fantasma.

A sua dança de camiseta preta
e latinha de cerveja na mão
até hoje é um espetáculo.

Costumo dormir no céu
entre pelugens ruivas

só pra não esquecer
o seu perfume.

Acordo bem mais forte
e aquele meu sorriso
de sátiro vesgo
é tão doce.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Abstrações

Eis que vejo no quarto
estirado um couro
de bode

e penso:
Esse bode
era um bode
feliz ou melancólico?

Sonhava um dia
acabar objeto
decorativo

no meio do quarto
onde um poeta
escreve

coisinhas
sem sentido?

Nunca mais vi os pombos.
Você sabe que tenho trauma.

Ora, desde aquele dia da minha mocidade
em que ao pé do pombo uma carta
prendi com laços.

E o meu primeiro amor
nunca leu as minhas juras.

O bombo parou em praças
para beber vinho e comer grãos
e perdeu a minha missiva apaixonada.

Que papelão,
baby.

Faxina

Nunca lhe passou pela cabeça
que os versos que escrevemos
não há por finalidade o ego?

Nem aprovação
ou ódio do outro?

Os versos que escrevemos
conscientes ou sob transe

são obras antigas de seres
que vivem suspensos sobre
nossos ombros e nossa nuca.

Se chegamos a vê-los
em vários níveis de luz
fingimos que é realidade.

E o que nos pode iludir
quando a alma entende

que fulanos viajam
em nosso sangue?

Nem para o bem
nem para o mal.

Apenas se debruçam
sobre nossos ombros
e beijam nossa nuca.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Abril

A poesia bate o martelo
e alguém paga o preço.

Juro que não sou eu, baby,
o fiador desses fantasmas.

O moço que escreve
é um sensato e não guarda
cadáveres dentro do coração.

A poesia, no entanto,
bate o martelo e escapa
das minhas sombras uma força.

terça-feira, 31 de março de 2020

Sirigaita

Lola ganhou de presente
um laço vermelho
após o banho.

Agora os marmanjos desavisados
sabem que Lola é uma dama.

Falando
em damas,

em que situação
vivem minhas amantes
nesse tempo de isolamento?

Sem clientes
(aperta-me o peito)
será que lhes faltam
frutas cristalizadas e gim?

Mas retornando à Lola,
durante o passeio a dama
de laço vermelho é voluntariosa
e só requebra na hora que bem quer.

Ou seja,
quando


um cão
distinto.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Criancice

Quando penso
que tive os meus
episódios suicidas:

navalha no pulso,
psicotrópicos,
gás.

E hoje em dia
sou uma alma
em plenitude
com o amor.

A ponto
de poupar
os fantasmas
da minha fúria.

Vou à varanda
e vejo que estão
perfeitas as ondas
da chuva na calçada.

Não me custa nadinha
fazer uns barquinhos
de papel lançá-los
da janela

e correr
atrás.

domingo, 29 de março de 2020

Lilases

Que saudade absurda
das minhas camponesas
colhendo maçãs usando
aqueles decotes infernais.

As minhas patas de bode
estão de molho e a flauta
dentro da gaveta suspira.

O que fazem as minhas camponesas
quando não envenenam suas maçãs?

Sabem elas que os sátiros
já perderam a inocência
e buscam entre mortos
o perfume do amor?

Não quero pensar sobre os cadáveres
das praças de gelo e fantasmas, baby.

As minhas camponesas
merecem a estupidez
do meu coração.

sábado, 28 de março de 2020

Lola

A Lola tem
uma alma
de faquir.

Embora
o coração
ainda trêmulo.

Mas Lola
vai superar
todos os sustos
e os maus-tratos.

Um dia
verei Lola
sorrir de soslaio
e latir para os gatos.

Requebrar-se alegre
sobre o jardim
do prédio

informando
aos vizinhos
que atingiu
a iluminação.

Pois os cães
chegam primeiro
à dimensão da brandura
bem antes dos tristes humanos.

Eu cegue.

Libélulas

Não me causa estranheza
em tempo de pavor
e mortes

ter sonhado
com o sinal
da tua coxa

que parece
um navio
fantasma.

Afinal, meu docinho,
foi o sinal da tua coxa
(aquele navio fantasma)

que me levou
ao confinamento
nos porões do castelo.

Pena que parei de beber rum
e os barris de excelente aroma
só me servem para fazer fogueira
e aquecer as baratas das tristes paredes.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Das maçãs

A mandrágora
que colhi

no canteiro
da varanda

tinha
a raiz

aquela
forma

do teu
coração.

E não enlouqueci
do teu doce grito

quando arranquei de unhas sujas
das minhas costelas a saudade.

Bebi a lágrima
como se bebe
um café.

Já que ópio
é tão infantil.

Bula de náufrago

O melhor dos versos
é revê-los depois
de escritos.

Investigar até onde
falou-se muito

e em que ponto
a respiração parou.

No mundo da lua a terra
é uma superfície delirante.

E todos aqueles
que caminham
no deserto

comem gafanhotos
com sabor de tâmara.

O meu corpo
resolve questões
do que não consigo ver.

E a minha mente
(além dos suspiros)
viaja por outro caminho.

O vício perdeu
seu único fim.

Navegações

Entre corvos
e bufões

o que me faz forte
é o pavor do outro.

Assegure-se
de que

as suas botas
e as suas vestes

serão doadas
a quem tem frio.

Os seus ossos
nunca foram
bambus.

Antes que a tempestade
turve a sua consciência
alegre-se pela ventania.

A vertigem
é para ser
doce.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Laboratório

Se lá fora
os vermes

debruçam-se
sobre o corpo

dentro de cada ser
há um espaço
sagrado.

Lave as mãos
do seu espírito

e não toque o coração
com a loucura da vaidade.

A hora é de limpeza espiritual
e queimar as luvas do crime.

Esqueça os fantasmas
da sua memória
e ofereça vida
ao silêncio.

A terra arrasada
é um belo pomar

de serpentes
e maçãs.

terça-feira, 24 de março de 2020

Lola

O cantinho de Lola
(sua cama, lençol
e seus bonecos)

é na sala
de visita.

Aquele que adentre
ou sequer bata
à porta

será bem-vindo
pelos latidos
de Lola -

fantasmas,
camponesas,
tocadores de pífano.

Vejo no seu profundo silêncio
e na sua contemplação metafísica
uma grande e excêntrica alma poética.

Acredito até que Lola vai me ensinar
escrever versos em sua língua canina.

Anterior
ao latim.

domingo, 22 de março de 2020

Máscaras

Quando mudar-lhe a pele
tenho curiosidade em saber
o que sairá do seu mais íntimo:

Um ser iluminado
ou aquela velha
criatura?

Após esses terríveis sonhos
de mortes, fuga e negação
o que surgirá da alma?

Um ser sensível
ou aquela velha
vaidosa criatura?

Quando seus olhos
abrirem-se o que
você primeiro
verá?

Um deserto florido
ou névoas enganosas?

O relógio da sala parou.
O cachorro não late.

O saco plástico
guiado pelo vento
atravessou ruas fantasmas

e o que você dirá
aos seus filhos
e netos

sobre esse tempo de elevação
enquanto você escolheu o engano?

As lagartixas
e os passarinhos

até estranham as calçadas
e o silêncio e o tremor dos dentes.

E sorriem
do jeito
deles.



sábado, 21 de março de 2020

Tsuru

Quais armas
de chumbo
e ossos

você imagina
que as possui

para esmagar
a triste sombra?

Lutaria porventura o sol da consciência
contra a sombria bruma do pavor?

Que belo tempo, baby,
para se compor canções
aprender a pintar nuvens

e fazer origamis
de aves sagradas.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Front

Assim que passe
essa triste sombra

espero que o seu canteiro esteja florido 
de pensamentos lúcidos, leveza e coragem.

Os vapores da guerra
quando ultrapassam as trincheiras
e chegam ao alto das torres de marfim

os covardes
multiplicam-se

e já podemos admirar
os canalhas trêmulos de medo.

Não conte os mortos
entre os quais você caminhe
mas permaneça firme no caminho do farol.

Assim que passe
essa triste sombra

por favor, não se esqueça
do quanto cura o abraço.



quarta-feira, 18 de março de 2020

Spoiler

Não me lembro
de quantas vezes
e por quanto tempo
o meu coração parou.

Acredito que durante
as milhares de vidas
que tive.

Na infância era tão comum o meu coração parar de bater
quando nuvens mudavam de fisionomias em cumplicidade

com os pensamentos
do meu espírito
de criança.

Dragões, corsários,
trens, moinhos,
cavalos -

em questão de segundos
transformavam-se
em montanhas,
xícaras,
botas.

Assim,
do nada.

A partir da mocidade
foram as mulheres
a causa única.

E até hoje
meu coração
vive parando:

Advogadas,
dentistas,
colegiais.

terça-feira, 17 de março de 2020

Sintomas

Lavo minhas mãos
com eau de l'arc

e escrevo cartas
isolado na varanda.

Voltei a escrever cartas
e pedir aos pombos
que entreguem
meus versos

atrás da igreja
entre macieiras

onde camponesas
disputam meu coração
alfinetando um boneco.

Não posso montar no meu cavalo
e raptar as mulheres da aldeia:
a minha garganta dói,
tenho febre.

A minha tosse
é quase um blues.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Plantador de Girassóis

Os meus inimigos
todos os meus
inimigos

caíram do cavalo
e os seus ossos

foram pisoteados
por gigantes
invisíveis.

Todas as manhãs
vou às ruas

e saio das casas
com pacotes
de maçãs,
livros,
pães.

Se não vou às ruas
sento-me na cadeira de balanço

e colho maçãs das árvores da calçada
e faço pães do que vejo da janela aberta
e empilho livros sobre os jarros das plantinhas.

Todas as manhãs
nas ruas ou na varanda
dou  testemunho da minha existência.

E ninguém saberá ao certo
de onde venho com esses
pacotes de maçãs,
livros e pães.

Gripe

Nesses tempos de pavor
onde os ratos esconderão
os seus preciosos queijos?

Dentro da alma
e do mais sombrio
dos seus pensamentos?

Morrerão os ratos
como de fato fossem
humanos escandalosos?

Ah, baby, os ratos
que matam outros
ratos não são
outra coisa

senão
ratos.

Veja só, baby,
ratos sem dinheiro
e ratos cheios da grana

imaginando
que vão morrer

mudam de humor
e de fisionomias
e ao dormirem
choram.

Não entendem, baby,
que tesouros de queijos
são moedas de ouro e de latão
no fundo do rio de águas turvas.

A vida que amam
de forma insana
e cruel

é essa vida
de acúmulos
de queijos podres.

Ah, minha baby,
e até quem queremos
perto dos nossos olhos

já pensa em esconder
debaixo da cama fatias
de pensamentos tão tristes.

domingo, 15 de março de 2020

Dominical

Se você arou a terra
choveu e fez sol

por qual motivo
não lançou as
sementes?

Medo
da vida
confortável?

O que maravilha o pescador
não é a exuberância do pescado
mas o caminho que leva os peixes

até à rede
e ao barco.

sábado, 14 de março de 2020

Universo Paralelo

O telefone tocou
(olha só) e Lola latiu.

Lola latiu pela primeira vez
e como prometi escreverei
um poema épico

e fumarei ópio
do Afeganistão.

O café é ótimo
com essa chuvinha
mas o ópio me lembra
quando vivia em guerras.

O que se passa
no seu coração

nem o que você
pensa, meu doce,
são verdades do alto.

Pois do alto
só cai água
ou canivete.

E quem aprendeu
a escrever seu nome
nas areias do deserto
sabe que à noite faz frio.

Deleite

A chuva não impede
que passarinhos
entrem pela
janela

do meu
quarto

e arrumem
a minha cama.

Ui, de tão linda pureza um casal apaixonado
debaixo da chuva dividindo a mesma sombrinha.

O único impasse
é que o sujeito

não é um doce
cavalheiro

e somente
a si abriga-se
dos pingos frios
da mansa chuva.

Mas estávamos
conversando sobre?

Ah, os passarinhos
que de plumagens
molhadas dos
céus

chegam ao meu quarto
e dobram os lençóis

e dão aquelas palmadinhas
no meu ingênuo travesseiro.

E antes que agradeça
e lhes ofereça um café
evaporam encantados.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Tecelão

Não é da dor
que se trata.

O pavor
é o grande
cínico inimigo.

Meus filhos fumam ópio
e namoram ouvindo canções
da minha mocidade filosófica.

As portas abrem-se
e jardins secretos
são vistos.

Nenhum dos meus filhos
foge da luz e da delicadeza.

Se chove
banham-se
da tempestade.

E vão às calçadas
com seus bermudões
e seus risos incontroláveis.

Meus filhos
são fortes
e belos.

Não temem a morte prematura
nem o pânico das multidões.

Fumam seus ópios,
leem seus livros,
namoram

ouvindo canções
da minha mocidade
de encantos e decepções.




Palmatória

Houve um tempo
em que criei
porcos

no meu coração
e sei muito bem
como chegam
à mente

as suas
mentiras.

Os porcos vendem a alma
por qualquer níquel furado,
afinal a alma não lhes pertence.

De modo que
comem pérolas
por divertimento
e aceitam os pactos.

E se lhes concederem a palavra,
jamais fugirão da companhia
dos seus miseráveis.

Sabem como plantar batatas
na cabeça dos infelizes
e inventam blues.

Chuva

Ainda hoje
uma formiga
encanta-me:

a sua solidão excessiva
e aquele silencioso desprezo
por tudo que não é alimento.

Na infância
seguia-lhe
os passos

até o princípio
da magia

onde esqueletos de lagartixas
(que lhe serviam de ritual)

amontoavam-se
entre folhas, flores
e tenras asas de insetos.

Quantas picadas
eram tão comuns

para quem só tinha
no coração a ânsia
do encantamento.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Crash

Minhas festas
nunca foram
bacanas.

Mas estranhas
e rápidas, baby.

E todos os fantasmas
com milhões de minhocas
na cabeça e no coração perdido
amanheciam atrás da minha coragem.

E como sempre tem sido
o morto não negaria
suas forças

pra ressuscitar
os tristes.

E aos goles
de café frio

e muitos
cigarros

O morto
aos tristes
dava vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Abaeté

Ainda penso beber uns drinks envenenados
contigo sob gestuais de transe e doçura.

Tu mereces
os meus sonhos
(a parte mais idiota
da minha cabeça, baby)

Inteligência e lucidez
só debaixo da terra

oferecendo os ossos
às últimas borboletas.

terça-feira, 10 de março de 2020

Lola

Lola, por favor,
é hora de latir
e morder

a tolha
de plástico
e as plantinhas.

Ou você prefere
uns romances
russos?

Posso ir à casa da ex
e pegar os meus livros.

Que tristeza o seu olhar
mas a sua alma é grande.

O primeiro dia
em que latir
escrevo

uma ode
e fumo
ópio.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A esteticista

Apesar da minha timidez,
adoro tocar a minha flauta
para as camponesas enquanto

colhem maçãs e oferecem
aos meus sátiros olhos
de trovador

os seus decotes
de doce infarto.

Sou iludido e riem da minha criancice,
mas se persistirem nos seus gracejos
correm o risco as camponesas
de se apaixonarem pelo
tocador de pífano.

domingo, 8 de março de 2020

Quarentena

Então chegada a hora
de te pedir perdão
e pintar tuas
unhas.

Dei voltas escrevendo
sobre plantas e pombos
fugindo da tua presença.

Mas eis que chegada a hora
de ir pescar pérolas na tua caverna
no fundo do mar em áreas misteriosas.

Fiz o possível
para terminar
de ler o livro.

Mas como passar as páginas
se os meus dedos se grudam
nas lembranças de teus cabelos?

Espera que já monto no meu cavalo adornado
de medalhas de latão e máscara de fios de ouro.

Ao ouvires o trote sobre a tua rua
mira a espingarda de teu avô
e acerta o meu peito.

Não corras, docinho,
pra ver o meu sangue.

É tão triste e vã
a morte do poeta.


Extravagância

"Tchau, pombinho. Tchau, pombinho"
Passou debaixo da minha janela
uma criança dando tchau
pra um pombo.

Um dia
essa criança
(já bem velhinha)

sentada no banco da praça
vai se assustar com um pombo
que chegará aos seus pés e perguntará:
"Você se lembra de mim, criancinha?"

A criança
(já bem velhinha)

vai tremer com esse pensamento
e perguntará ao seu coração se é loucura
ou a morte que se aproxima. Rirá consigo.

E irá embora
sem dar tchau
ao seu pombinho -

que girando
nos calcanhares
de cartola e fraque
sumirá entre fumaças.

sábado, 7 de março de 2020

Caolho do pífano

Certamente já teria virado presunto
e os bichinhos da terra saboreado
o banquete da minha carne

se todas as mulheres
a quem ofereci
canções

tivessem
ouvido
minha
lábia

e pulado
da janela.

Não haveria como dar certo
(bom e de agradável perfume)

um poeta infame
apaixonado.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Parisiense

A baratinha não consegue
destampar o pote de nescau,

ainda que seja
uma francesinha

treinada em sutis táticas
de espionagem e assassinatos.

Fecho bem forte
o pote de nescau.

Só pra dar trabalho
às baratinhas, ainda
que seja uma francesinha

treinada em táticas especiais
de furtivas paixões e traição.

Inocência

Os cães farejadores
amam os poetas.

Nunca ouvi falar que um cão farejador
flagrasse uma trouxinha de maconha
no bolso do bermudão do poeta.

Às vezes (só por pilhéria)
os cães farejadores correm
ao encontro dos poetas e balançam
o rabinho, reviram os olhinhos e cheiram
os tênis, as botas e os mocassins dos poetas
mas depois latindo seguem viagem os palhaços.

Já vi muitos colegas
infartando na pracinha.

Ogro

Da minha existência
é tão óbvia a eternidade.

Os poemas escritos,
rasgados, queimados,
apagados ou esquecidos

pertencem a quem passou
por eles a vista ou a alma.

O único direito que tenho
sobre os versos que escrevi

é a imaginação
das sombras.

Nunca fui senhor
dos meus atos.

A embriaguez
dos meus sentidos
(por força e delírio)
nasceu do que não sou.

A imaginação é o rito primário
daquele que não se conhece.

E caio profundamente
agradecido às palavras
que pouco tiveram rancor
senão em tolices do espírito.

Morra o poeta
nem o vento
tragará

os seus
ossos.

Ilhados

Entre meus olhos
e os teus cílios

existe alguém
inexplicável
que pondera
e arrebata.

Entre a minha unha
e o teu esmalte

existe alguém
que nos distrai
e fundo mergulha.

Nunca estamos a par
da loucura e divindade
desse alguém inexplicável
que nos silencia e abre as asas

e corremos feito pintinhos
pra debaixo do seu fogo.

Faltam-nos
existência própria
e amor pelo outro,

pois somos escravos
desse alguém inexplicável

que lança mão
dos nossos sonhos
e promete-nos o saber.

Egoístas
(tão egoístas)

não existe dia que não acordemos
no bico desse alguém inexplicável
albatroz de pele alva olhos infantis.

E acabamos peixes
recém-tirados
do sal

da sua
boca.

Degeneração

Vejo que as plantinhas da varanda
estão a morrer, não por falta
de água, ópio ou sonhos.

Apenas por cansaço
da presença do poeta.

Não entendem
as plantinhas
da varanda

que o poeta pagará
não por suas ações.

Mas pelas palavras,
que é pior, muito pior.

Sir

A sua doença
é grandiosa.

E você conhece
quem move
suas mãos.

Se no fim da sua história
não houver um poema
para escrever

terá sido
sua vida
besta.

Jogue ao lixo
os bolos de aniversário,
mas corra atrás dos porcos
se tentarem roubar a sua cereja.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Atlântida

Nunca me dei bem
com o amor, baby.

O ciúme
e cinismo
são cúmplices
do meu caráter.

E até houve um tempo
em que no recreio
da escola

fazia chorar a minha pequena
e de noite cortava meu pulso.

Cadáveres
entre flores
são tristonhos.

Sabes agora então
a causa do espírito
que desce e me toma.

Fadas de todos os bêbados

O poeta pulou da carruagem
e bateu a cabeça contra
uma pedra.

Acordou três dias depois
com a cabeça doce e leve

entre amorosas mulheres
que lhe davam na boca
mingaus, maçãs,
cervejas.

O poeta passou a crer em Deus
e passarinhos passaram a brincar
sobre os seus ombros e lhe ensinaram
aqueles primeiros voos do alto da colina.

Quão suave viagem
a cada descida ao abismo
o poeta admirava-se das belas orquídeas.

Bovary

Um dia o caçador entende
que a pele das suas faces

é a mesma pele
de quem se esconde
amedrontado no covil.

O suposto inimigo
são os dedos frios.

Quem morde e ataca fora da caverna
é o caçador iludido pelo seu riso torpe.

E bebe seu café
e lê seus romances.

A bastar-lhe
da loucura
poemas.