segunda-feira, 25 de maio de 2020

Deidades

O que me arrebata
não é cor do olho
nem formosura
da boca,

mas o que diz 
a alma da mulher.

Os seus segredos
dentro da bolsa
de estimação

no fundo
da gaveta.

As marcas dos dedos
naqueles chinelos antigos.

Os frasquinhos de esmalte
perdidos debaixo da cama.

Cântaro

Sardas no rosto
e a voz do encanto:
Ah, céus, como é fácil
uma poeta entrar na minha casa.

E chega assim
cheirando a sândalo
com os tornozelos nus.

Os versos que saem da sua garganta, menina,
trazem-me um frenesi medonho ao meu silêncio.

Só de bem,
vou molhar
uma plantinha.

domingo, 24 de maio de 2020

Selos

O poema após limpar o próprio corpo 
e a própria alma passa a ser o próximo.

As escamas não cheiram mal
e todo o acúmulo de sujeiras
é queimado pela clareza
da própria memória.

O poema passa 
a ser um ente liberto
que abençoa ou que revolta
em sua forma transformada.

Mas o poço permanece lá,
a água permanece lá.


sábado, 23 de maio de 2020

Fogueira

Quando criança
já admirava os arrebóis 
contemplando as asas da joaninha.

Só não imaginava
que as cores dos céus

também
voassem.

Peixinho Dourado

O princípio de toda
elevada ação é interior
e propaga-se a energia
por camadas superiores.

Qual o ser 
que confuso
segue evoluído?

Confusão
como mentira
são folhas secas
que nascem para ser 
consumidas no vento.

O desejo comum
é caminhar cego
entre mortos:

Envaidecer-se,
enfurecer-se,
morrer
bruto.

O Primeiro Sopro

A verdade de cada qual
é um véu sagrado
de cada um.

Os cadáveres entendem
a nostalgia do perfume
das flores dos túmulos

e procuram fugir
das lembranças.

Cada um com seu véu sagrado
de ilusões, fúria e esperança.

Os meus peixes
não servem para
matar a sua fome.

Pesque seus peixes
com as suas mãos.

Comovida, minha xícara
chora lágrimas de café
por seu rosto branco.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Filho

Quem de fato
trilhou o caminho
usando minhas pernas?

Quem pisou nuvens,
terra e lama calçando
os meus miseráveis pés?

Quem sangrou meus inimigos
com espadas e adagas de luz?

Quem me trouxe
esse entendimento
de que nunca morrerá
minha nobre consciência?

Quem beijará meu corpo
quando algo em mim tiver
partido do meio dos mortos?

Algo de mim
que não sou
e que morre.

Harpa

Acredito que hoje será a manhã todinha de chuva.
Essa chuvinha fina que as lagartas-de-fogo adoram.

As botas do trabalho
suspiram encolhidas
com as meias dentro.

Já fiz e bebi
o meu café
de lei.

Você sabe
que o meu café
é o mais saboroso
de todas as galáxias.

Conquistei muitas mulheres
conversando sobre a vida mística
das lagartinhas-de-fogo bebendo meu café.

Algumas entravam em êxtase
relembrando a infância de garotinha, 

enquanto outras de vestidinho e saínha a cruzar 
e descruzar as pernas levaram-me à demência.

Hoje, imagino,
será a manhã todinha
com esses ares espirituais
de conforto e chuvinha fina.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Lilás

O poder da cicatriz
sempre será a memória
do dia em que o ferimento
despertou de qualquer mágoa.

O ser que dantes
morria de pavor
da própria luz

hoje em dia
conhece muito
das mil sombras.

Não há força na dor
que tece vinganças.

Mas a memória da cicatriz
que eleva a alma não passa.

Os Amores Do Mundo

Brincava contigo
quando escrevi
que debaixo
da minha
janela

nascera
um girassol.

Mas te juro
(eu cegue)

que é verdade
o semblante

de uma doce
orquídea.

Sabe, nem me importo muito
quem segura a minha mão
na hora em que escrevo.

Mas ao toalete
sei que é a tua mão
que deliciosa me depila.

As Calçadas Amam O Sol Do Fim De Tarde

O que posso
é escrever
poemas.

E ficamos próximos
trocando olhares.

O teu olho âmbar
o meu carvão.

Não falemos
sobre as nossas almas,
pois elas merecem o silêncio.

Docilidade

Enfim, aconteceu:
Conheci de perto
a sujeira de Lola.

Lola tinha ao seu bel-prazer
a sala, o tapete, a cozinha,
a suíte e os dois quartos,
a área de serviço,
a varanda.

Mas dama elegante que é
foi ao quarto dos fundos
e lá fez a sua necessidade.

Os cães têm caráter,
emoção e perspicácia.

Lola procurou por toda a casa
um lugar em que fosse decente
expor toda a sua ração digerida.

A garota Lola só se esqueceu do livro
de páginas entreabertas sobre o cesto.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Balsâmico

Assim que pensamos
em escrever um poema
pra alguém muito especial

tal poema já nasce
sob o selo da corrupção.

Ninguém é tão especial
que mereça um poema
fruto de dupla vaidade.

A vaidade de quem escreve
e a vaidade de quem inspira.

A propósito, 
meu docinho,

se eu quiser tirar meu bigode
não preciso pedir permissão
aos passarinhos do pé de oiti.

Mas a você (acredite)
escreveria uma carta.

Romãs

Querida, às vezes um poema erótico
de tantas metáforas acaba frio e obscuro.

Então, baby, serei claro
o mais explícito possível:
Tu me permites com os dedos
brincar na tua caixinha de música?

Juro que as pontas dos meus dedos
são uma gracinha de delicadeza.

Quanto à minha língua,
advirto, ela é louca,
imprevisível.

Atrai ostras
só no biquinho.

Besouro da Sorte

O fogo não terá fim
e pelo que vejo

esse amor
é eterno.

Você será seduzido
todos os dias da sua vida
a entrar na floresta escura

e trazer gravetos para alimentar
o fogo que não tem vestígios de fim.

As paixões do corpo
continuam um doce.

A questão é que você agora cria imagens extraordinárias 
com areia colorida dentro da sua garrafa de náufrago.

Aquela muriçoca 
de violino quebrado
agradece por sua paciência.



domingo, 17 de maio de 2020

Antecâmara

As sombras existem
pela vida útil da luz.

Apague a lâmpada
e nem as sombras
terão vez.

Ninguém sobrevive
na total e plena treva.

O desapego das ideias
é um belo sinal de morte.

Que os poemas escritos
não sejam pontes entre
meu corpo e o devaneio.

Mas o que sabe
a mente do lugar
que não se conhece?

Poemas são afagos
no olhar trêmulo
que já se foi.

Episódios

Depois que as lágrimas
salgam o rosto e vão embora 
segue o caminho também a lucidez.

Quem detestava o sol
já revê seus princípios.

Até Nosferatu
vai à padaria
com ombros
de fora.

A passos lentos e sonhadores
conta o tempo desperdiçado
dormindo dentro do caixão.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Oxímetro

Sentir-se humano
não é caso de tristeza.

As sensações do corpo 
são nuvens que se transformam.

Não pule de um penhasco
por sofrer de vertigem.

Nem se esmague
sob as paredes
por temer
as aves.

Beije suas mãos,
entrelace seus dedos.

Sentir-se humano
não é caso de morte.

Em alto-mar
cante um blues
e aproxime-se dos corais.

Há peixes ocultos
dentro dos olhos.

Istmo

O apito do trem
é igual ao do navio
se o coração desperta
de saudade ou remorso.

Quando criança
os fantasmas
faziam festa.

Mas deixaram a casa
no tempo da clareza.

E não pensam em voltar
porque sabem que a casa
não tem um senhor absoluto.

A casa é do vento
da chuva e do sol.

O telhado
e a terra

florescem
a cada dia.

Disparos

A segurança vem da fé
e a fé não é cega nem
enxerga com olhos

que a terra
há de beijar.

O que posso adiantar
é que as minhas vísceras
não têm essência enquanto
forem vísceras apenas do corpo.

O valor de um tesouro
não é a verdade que
outros julgam.

Só saberá quem lhe fala
quando você não tiver
os seus ouvidos

colados 
às orelhas.

Ócio

Além dos ossos
sou a consciência
dos meus ossos, baby.

A morte da consciência
não existe como é uma fábula
acreditar na eternidade desta vida.

E enquanto a consciência me esclarecer
de que sou os meus ossos e a consciência se apoderar
dos ossos secos e da carne exposta ao banquete dos vermes

as ilusões deste mundo
forjam apenas um propósito:
A total percepção da consciência.

Por isso que é inacreditável
o envaidecimento das criaturas.

Também é tão triste, baby,
o medo dos seus corações.

A consciência dos meus ossos
alegra-me as manhãs e a única vez
em que me senti tão alegre foi no dia

do meu primeiro relógio 
que parou debaixo da chuva.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Chuva

Escrevo e apago poemas
com a mesma facilidade
que afogava formigas 
na xícara de café.

Agora nem o açúcar mascavo
no fundo da xícara branca
seduz as meninas.

Crescemos,
o poeta e as formigas.
Uns morcegos, outros elefantes.

Repentino

Quando a minha língua começa o frenesi
da estúpida oratória e não há fim entre
os pensamentos e as palavras,

recorro ao meu caderno
e escrevo versos de morte:

"Os teus brincos de argola
que ofereci à outra mulher."

Crime

A grande sacada
é entender o mau humor
da poesia e aceitar da tal Senhora

a migalha para que nos vejamos
vivos, especiais, filhos de uma força.

Se a poesia adora contemplar seus ossos
e não lhe oferece um verso de socorro,

então vingue-se
como um selvagem

e guarde dentro da gaveta do inimigo
as mãos frias sem uma gota de sangue.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Haxixe

Da minha janela
tantas meninas
passeando

com seus cachorrinhos
que já perdi a noção:

Quem sorriu toda diabinha?
A do vestido preto é a mesma de azul?
E qual o nome da que atravessou a rua?


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Oráculo De Delfos

O que você acha
do meu bigode,
garota Lola?

Sei que me ouve,
embora se finja
de cadela órfã.

E se esconda debaixo da mesa
morta de medo até do próprio vento
que derruba quadros e lhe beija as patas.

Diga-me, garota Lola,
o meu bigode é melancólico
ou me deixa com cara de dono
de armazém de rum contrabandeado?

sábado, 9 de maio de 2020

Confraria

Pode ser que a poesia canse,
mas o poema se não for escrito
pesará um século de assombrações.

Ofício é quebrar os ossos
e amaciar a carne nos dentes.

Escreva o poema, filho,
e livre-se da sua cruz.

Ou melhor,
escreva os poemas
na madeira da sua cruz.

Como antigamente o poeta francês 
escrevia versos de amor nos caixotes de fuzis.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Gralha

A verdade é um segredo
entre você e quem
não é você.

Falar sobre morte
para quem tirou
o véu do sono
profundo

é como espremer cravos
das faces de uma rosa.

Macieiras

O máximo que posso
fazer por ti é ouvir
tua cabecinha.

Os teus sonhos
que me forçam
o riso em silêncio.

Os teus ares
de vingança.

A tua fragilidade
diante do poder.

Do poder ridículo
das coisas ridículas
que passam e te roem.

Mas sou um simpático coveiro
e na hora de plantar teus ossos
cavarei uma linda e fértil horta.

Juro que nascerá
das tuas cinzas
agrião.

Ora, meu docinho,
tu sempre amaste
a tua pele irradiante
de jovem camponesa.

E assim será (prometo)
por toda a tua eternidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Aurora Boreal

A minha mente é muito poderosa,
mas a última palavra é sempre da poesia.

Portanto, o que cultivo
só é digno aos corajosos:

Aqueles bêbados
que um dia acordam
cansados da embriaguez.

E passam a conviver de perto
com todos os seus atrozes pedintes
que caminham conforme a natureza

dos trôpegos,
dos cegos
e fujões.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Designer De Interiores

Você comprou
tolhas de banho
floridas e felpudas.

Vi da minha
área de serviço.

O que você guarda
de especial na gaveta
da sua cômoda branca?

Sei, ui,
imagino.

Adoro os seus segredos
de quem vive longe de casa.

terça-feira, 5 de maio de 2020

As Flores Do Princípio

Tenho uma relação muito querida com o mês de maio.
Conto nos dedos das mãos e dos pés as noivas 
que fugiram dos meus braços.

Ou me deixaram plantado 
no altar chorando abraçado
ao padre ou logo me deram o fora
durante o primeiro mês de núpcias.

Apaixonaram-se
pelo mecânico,
padeiro

ou o garotão
entregador
de água.

A viagem do espírito
é igual ao vento
de maio

que toca os dois vasos de orquídeas
sobre o parapeito da minha janela.

Não há risco de queda, baby,
que apavore as formiguinhas.

domingo, 3 de maio de 2020

O Tempo

Se você não tiver um caminho
que o aproxime dentro de si
como sairá do que
vive fora?

E o que se vive
não é verdadeiro
a partir da lucidez?

Abra as janelas
da casa e peça

gentilmente ao caramujo
que esqueça toda a lamúria.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Trabalhador

Já malhei,
arrumo a mochila

e vou passar uns dias
em companhia do filho.

Ora, arejar as ideias
com um verdinho.

Sou forte,
sadio e feliz.

Eis o mantra
da minha
avó.

Uma xamã de altíssimo grau
que adorava mascar fumo
e juntar moedas antigas.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Peixe Fora D'água Também Vive

Os familiares
terão uma grande
dor (e angústia no peito)
quando abrirem minhas caixas.

Ninguém em moral enlouquecida
imagina as minhas coisas ocultas.

Mas não pensem, cordeirinhos,
que voltarei correndo ao quarto
queimar as cartas e testemunhos.

Cresci sob o fogo
e minhas asas
dão voltas
e voltas

circulando o outro
dentro de mim.

Daí essa voz, querida,
já precisando de respirador.

Salomé

Você se lembra
de que lhe prometi

um par de brincos,
ou melhor, argolas,

e nunca
comprei?

Ora, você também
nunca me fez aquela
massagem prostática.

Caverna

Depois que tiramos da pele
aquela mácula criminosa
dos profetas irados
e tristes

sobra-nos um coração forte
sem meio-termo entre
dor e loucura.

Acordamos muito bem e nem uma gripe
em tempo de pandemia assusta nosso olhar.

O fogo que nasce é tão puro
quanto uma palavra irmã

da ação lúcida
em escrevê-la.

O Sátiro

Ok, já fiz minha toalete de fim de mês
e amanhã recebo o salário do pecado.

Guardei de memória
os celulares das diabinhas.

Eis-me limpinho,
limpinho, limpinho.

As diabinhas
hão de babar
minhas bolas

com seus batons cereja
e aquele risinho do inferno.

Só não sei se devo
chegar lá de bermudão
ou minha túnica de linho.



quarta-feira, 29 de abril de 2020

Anônima

Ui, tu hoje estavas de preto
e viste como é delirante
romântico e ácido
o meu olhar.

O teu rostinho pareceu-me
uma barra de chocolate branco.

Da janela
lancei a minha espécie
de alma e acredito que gostaste
do meu gênio e da minha química.

Uma breve viagem
por meu sangue
para quem 
seduzo.


Deleitante

Ah, como é extraordinário sentir os meus olhos
regressando à orbita lunática de imensa luz, baby.

Agora, enfim,
posso voltar
a fazer 

bichinhos
usando minhas mãos
e brincar com as sombras.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Draculagem

Não creio que você não imagine
que alguém da janela a vê
passeando na calçada
com seu buldogue.

Tão fascinante
nesta tarde 

de vestido
camisa social

em que as pernas
vagarosas de sensualidade
parecem senhoras da minha alma.

Onde você guarda
a minha taça de sangue?

Tertúlia

O único livro sagrado que possuo
é uma coleção de cartas todas
escritas para meu primeiro
amor.

Não há um dia
em que não desça
ao túmulo da década

de oitenta e leia aos meus anjos
e aos meus demônios os ais do coração.

Sorriem felizes
abraçados os anjos
aos demônios e dizem
que sou um perfeito maluco.

O Sumiço Da Máquina De Escrever

Por ato contínuo de escrever poemas
um poeta não é igual a outro poeta.

Por exercício 
de liberdade 

bastam
as sombras
de cada poeta
entre suas paredes.

O alimento
não será outra coisa
senão ossos da própria carne.

Ninguém morrerá de fome
queimando os cabelos
no seu enxofre

e salgando suas moedas antigas
dentro das ânforas do seu terreiro.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A Natureza Apaixonante De Uma Cadela

Nunca mais passeei com Lola.
A dama morre de vergonha
de fazer sua necessidade
fisiológica

em minha
companhia.

Embora eu olhe pro céu,
feche os olhos e até
solte a coleira.

Não tem mesmo jeito,
a dama morre de timidez.

A partir de agora apenas indico a porta
para que a jovem senhora saia com um livro
debaixo do braço e corra atrás dos pombos e gatos
depois canse, abra o livro de contos, leia algumas páginas

e faça tranquila
a sua obra-prima
na calçada das oitis.

As Túnicas Da Caveira

A questão fundamental da minha existência
é que me apaixono com absurda facilidade
pelos passarinhos, pelas lagartas-de-fogo,
pelas garotas desconhecidas da rua.

Perco o tato
entre amores
sobrenaturais.

Não durmo,
não me divirto,
passo a escrever
cartas de náufragos
para qualquer um solitário.

E assim vivendo
acabo estranho
assobiando

para os passarinhos,
lagartas-de-fogo
e  pras garotas

que chegaram agora à minha rua
e já cantam alto das suas janelas
arrastando o meu coração
à encruzilhada.

Aquele anão cínico
de sorriso iluminado
saiu das floresta escura

tocou o meu ombro
oferecendo-me o banjo

e aos primeiros acordes
as garotas recém-chegadas
silenciaram-se e o céu explodiu.

Certos Sopros Quebram Costelas

Desde o primeiro momento do poema
o caminho é sempre para seguir em frente.

Desde o primeiro movimento do moinho
o mergulho é sempre para dentro.

Se o poço for muito escuro
grite mais forte.

Se a clareza vive distante
acorde dos seus sonhos.

A melancolia dos fortes
é arrancar a pele
do coração

escrevendo
um blues.

Do Penhasco O Farol Arde

Caso um drink
levará sua alma
a mergulhar dentro
de um barril de rum

dê as costas
ao capitão
do navio

e não entre
no porão.

Salvação é lucidez
e quanto mais luz
mais sombras.

Mas essas sombras
testemunham o quanto
a verdade é extraordinária?

Pegue o leme das mãos
dos seus fantasmas

e atravesse
o nevoeiro.

sábado, 25 de abril de 2020

Planos

Se você jogar uma bomba
sobre o telhado de quem
não gosta,

então prepare-se 
para construir 
uma fábrica
de pólvora.

Não seria melhor
sentar-se na cadeira
de vime e ler Dostoiévski?

Não sei se sua cabeça está boa
pra jogar xadrez com o seu amor.

Dostoiévski
é mais seguro.

Transmigração

Ninguém precisa esmagar uma abelha
só porque entrou em casa e voa solta
pelo quarto da querida e doce avó.

Basta um guardanapo
embalar a abelha
de maneira 
delicada

e jogar a visitante da janela 
na direção das oitis da calçada.

Os discípulos de Pitágoras
sabem do que estou falando.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vizinha

Teríamos pouquíssima coisa
a nos dizer se me fosse oferecido
aos meus dedos o riacho dos seus pêssegos.

Por certo
são dos seus pêssegos
o jardim de pelugem castanha.

(segundo
suas sobrancelhas
e os seus olhos de mel)

Digo-lhe de passagem
enquanto você desce
a escada tal qual

dançarina
de forró.

Castelo de mentiras

Por quanto tempo
o seu sangue

será oferecido
ao ridículo
vampiro?

As trevas
não surgem
do que existe
lá fora, brother.

O tremor
debaixo dos seus pés
você quem planta e adora.

Os fantasmas vivem na sua casa
devorando o seu espírito
por sua vontade.

Ninguém tem o poder soberano
sobre as suas fraquezas, brother.

Admita-se pequeno
e aprenda a olhar os céus
quebrando as correntes do próximo.

O mesmo próximo
que mente e lhe traz
ao coração o veneno.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sal

Se disserem que o poeta
morreu dormindo, 
não acredite.

Mesmo quando viajo
e pesco nuvens não durmo.

Não tomo comprimidos
e nem sei mais o gosto
de cocaína e drinks.

A minha consciência é tão criativa 
que me deu uma lição e salvou-me.

Claro que meu coração
não é uma boa pessoa.

Mas consciente
do seu tambor
e do blues

o meu coração sabe
muito bem apaixonar-se
pelos sonhos sem que o poeta

morra
ou durma.

Desfalecimento

Ainda escrevo cartas
e guardo-as dentro
da gaveta

da minha
escrivaninha.

Muito bem,
minto.

A escrivaninha
já sumiu do mapa.

Tive que fazer uma majestosa fogueira
conforme acumulavam-se as cartas.

Você não faz ideia, baby,
como é de outro mundo
aquele tipo de fumaça
entrando pelos olhos.

As lágrimas
parecem anjos
e demônios de saia.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Pergaminho

Quem serve a um senhor
ainda que iludido
diga-se liberto
é discípulo.

Quem serve a dois senhores
ainda que cínico se diga esperto
é uma alma triste, pesada e inútil.

O grande prazer do poeta
é assistir a suas ideias consumidas
e toda a sua crença em perfeita suspensão.

O poeta serve
ao fim do poema.

Somente ao fim do poema
e à sua infinitude possessa.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Cadeira de balanço

Faz tempo
que o bem-te-vi
no alto da árvore

degusta da sua maneira
algum tipo de inseto
ou minhoca.

Não existe demência
nos atos e ações
da natureza.

O bem-te-vi
nesta tarde
escura

mata a sua fome
diante do banquete:

A cigarra (ou minhoca
ou lagarta-de-fogo)
não reage

aos solavancos
e bicadas do bem-te-vi.

Creio que essa entrega
é a verdadeira representação
do mais puro amor dos céus à terra.

O bem-te-vi sabe
que nunca passará fome
e o seu alimento aceita o destino
de morte para que o bem-te-vi voe.

Quântico

A origem do seu mal
é o desconhecimento
da relação entre

a sua mente
e o coração.

Agora que caiu
a máscara do deus
da criação e escombros
não há desejos de romper
os laços entre as borboletas.

O entendimento do sopro
é o mesmo de quem reconhece
que plantou um espinheiro no meio
das costelas ou uma serpente na garganta.

O movimento
de uma margem
para outra margem

não é o corpo físico
o autor dos passos.

Quem caminha
de um lado para
o outro canto da sala

é aquele mesmo deus
da criação e devastação.

E não suspire pelo sacrifício espiritual
drogas lisérgicas ou as farmacêuticas.

Manter-se sobre os pés
é questão de coragem
e vontade de subir.

Feriado

Diga olá
pra chuva,
meu docinho.

Só ouço
os meus passos
dentro do seu coração.

Que coisa boa,
meu docinho.

Não se assuste
com os sonhos
bons ou ruins
que surgem
da minha
mente.

Aprendi a distinguir
a veemência da ilusão
da vontade de ser eterno.

Diga olá
aos passarinhos
das oitis da calçada
e beba meu cafezinho.

Só ouço os seus pés frios
passeando pelo tapete
da sala

e (cuidado)
Lola vai morder
qualquer dia desse
o seu lindo calcanhar.

Não se zangue
da minha apatia
e crença em fantasmas.

Os objetos de casa
(a xícara branca, sobretudo)
já fazem planos pra depois da minha morte.

Mas diga olá
à bela manhã
de mortos
e vazio.

Os passarinhos
conhecem meu coração
e não me poupam alfinetadas.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Matador

Não será igual
ao de Salvador Dalí
nem aquele do detetive Magnum,
mas deixarei o meu bigode litigioso.

Definitivamente
desposarei as novinhas,
as suas mães, camponesas,
sacerdotisas e as sereias de luxo.

Cansei do ar místico
de quem fumou peyote
no deserto da antiguidade.

Uma vez que adoro as sombras
será bom um pouco de luz carnal.

Metanoia

Aos cinquenta e quatro
ainda não decidi qual

a tatuagem
no antebraço.

Pensei em versos,
símbolos ocultos,
imagens de deuses
ou o rosto do meu filho.

Até imaginei
uma auréola
em forma
de pipa.

sábado, 18 de abril de 2020

Carapuças ao vento

A Verdade
não se limita
a pontos de vista,
teses e observações.

As imagens ridículas
dos que são possuídos
pela vaidade são trágicas.

E não há necessidade
de elaboração espiritual
de livros santos ou sagrados.

A Verdade é simples
como é clara e ardente.

Se choverá
ou não,

as nuvens
não impedem
o canto do pássaro.

O Êxtase de Zoroastro

Você não acreditará,
mas consegui remover
aquela espinha que virou sinal
do ponto nevrálgico das minhas costas.

Você não é insubstituível, viu?
Agora, pergunte-me onde
guardei o perfume
das suas mãos.

Ainda se lembra
das pequenas
ânforas?

Aquele
que não perde
a consciência das cinzas
jamais se esquecerá do fogo.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Pulmonar

Cada poema
tem sua história
que não é a do poeta.

O poema convida
para se fazer palpável
o que não conhecemos.

O poeta nem o leitor
imaginam a verdadeira
função histórica do poema.

O poema não é um breve
suspiro e suspensão de ideias.

Há cadáveres
e flores virginais
que se debruçam
sobre as palavras.

O poeta não sabe disso,
e portanto para alcançar
o mais tenro do pensamento
escreve o que ouve do poema.

O poema é senhor
em si mesmo, filho.

E tudo que parece
ditado e escrito
pelo poeta

é tão cheio de vapores
quanto os sussurros
das cavidades
do coração.

O poeta se expressa
fingindo-se soberano
do que por vezes sente.

Mas o sentido das coisas
(das coisas do poema
e das coisas do poeta)

não cabe
em versos.

E o poeta recebe em troca
por sua devoção a experiência.

Laico

O demônio
possui mil
artimanhas.

Inclusive
aquele anjo
que se diz doce
odeia sua lucidez.

Ambos,
o bem e o mal,
caminham juntos

tramando contra
a lucidez do espírito.

E o espírito
é esse olhar acima
do que se propõe eterno
e além do que se julga carnal.

Apenas fique
suave e atento
de olho nas ações
da sua cabeça e coração.

O pavio nunca será apagado
mas o sopro final
é seu.

Ingrid

Ah, essa chuvinha fina
e meu coração de alquimista.

Qual o valor, baby,
de uma hora de
divertimento
amoroso?

Deixarei o bigodinho
só pra levá-la à loucura.

Gosto de vê-la
com ódio de mim
e do mundo medieval.

Diga-me, baby,
quanto custa uma hora
de diversão amorosa febril?

Ah, essa chuvinha fina
e minha insipiência
de amante.

Aceita cartão, flores
e um cigarro turco?

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dinamarca

Nunca me passou pela cabeça
que as cadelas adorassem
batata-doce.

Mas Lola
olhou-me
tão pedinte.

Piscou-me
três vezes.

Abriu a bocarra
e lambeu o focinho.

Sinto muitíssimo,
querida Lola.

Batata-doce
é para os veteranos
de guerra e de sonhos
que ainda levantam peso.

Não prestou atenção
como me olham
as vizinhas?

Detestam poesia (odeiam)
mas admiram meus braços.

Sabe, querida Lola,
você viveu nas ruas

e certamente reconhece
um sujeito bacana e estranho:
Deixe a batata-doce pro poeta.

Contente-se
com sua ração.

Por sinal,
das boas.

Os cães sagrados
das civilizações
antigas

banqueteavam-se
(acredite) da mesma.

Sensitivo

Duvido,
eu cegue,

se houver
um café mais
encantador do
que o meu café.

Sobretudo
forte e doce
antes que a alma
abra os olhos e suspire.

Minha alma
adora meu café.

E não vê a hora
de sentar-se à mesa

ou de jogar-se na cadeira de vime
da varanda e entrar em devaneios.

Aprendi com a minha vó,
xamã de uma tribo cariri.

Só que o café da minha vó
já pertence à outra dimensão.

Chego
lá, baby.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Nostalgia

A sua força
é legítima.

E não há sombras
diante do que é lúcido.

Apague as luzes da casa
e mesmo assim você verá
objetos dançando à sua volta.

Do mesmo jeito
que os cães veem coisas
o poeta entende a clareza do invisível.

A sua força
é óbvia.

E não há tremores, transe,
ópio, medo e felicidade,

pois da inteligência
surge a grande
tolice.

Apague as luzes da casa
e mesmo assim objetos
que você nunca viu
dançarão ao lado
dos seus pés.

A meditação dos bem-te-vis

Ouvindo ladainhas de beatas
ou ouvindo blues de um demônio

meu coração
nem minha 
mente

alteram-se
sob falsa 
clareza.

Os bem-te-vis intuem
o pavor dos humanos
e ensaiam um novo
canto de recolher.

Agora, dizem eles,
vocês talvez entendam

que os espaços lá fora
são ilusórios e de morte,

enquanto
dentro de cada poço
não acabam água e pão.

(Ou não,
concluem
rindo os corvos)

Rock pesado

Ah, adoro maçãs
mas não vejo
pomares

no outro
jardim.

Aquela mulher sabe
que a venero de verdade.

Ora, por que
não aparece
na janela?

A fumaça do café no rosto
espanta os males da ilusão.

Ah, adoro maçãs
mas não vejo
decotes

da minha
varanda.

Aquela mulher sabe
o quanto sou balançado
por seus olhos e os cabelos.

Ora, por que
esconde-se
atrás

do vasinho
de cacto?

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sinfonia

Desde criança
adoro barquinho
de papel e moinhos.

Desde criança refaço as ideias
conjecturando elevação espiritual
e reconheço o que é sonoro ou fatídico.

Perdi amigos e amores
como quem se esquece
de palpar os bolsos
do bermudão.

Mas as vozes
não arredam
o pé.

Pé de calçada,
pé de vento,
pé de oiti.

Sorvete

Por muito tempo
fui um detestável.

Não suportava
o raio do sol
dentro das
minhas
botas,

tampouco a chuva
iludindo a vidraça.

Melhorei um pouco,
já posso conquistar
outras criaturas
sem tanto tédio.

E nem penso
em ópio eterno
e sonhos infernais.

Pela casa
de bermudão

percebo que os objetos
oferecem seus mistérios
ao meu risonho silêncio.

(creme com passas
é quase um crime)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Dos lúcidos devaneios

Sei muito bem
pra onde vão
os poemas:

Pra dentro
das  garrafas
dos náufragos.

Não existe cemitério
para as palavras, baby.

O que os poetas fazem
é construir a eternidade
sobre bases transitórias.

E mesmo depois
do castelo de cartas
ruir diante dos seus olhos

o poeta ainda pensa
escrever o último
verso em papel
de pão.

Os elefantes,
esses sim seguem
a história da bondade.

Jejum

E se não há desejos
de vida nem de morte
o que será da ilusão latente?

O corpo que admira as cicatrizes
sem nenhuma espécie de saudade.

O coração que sabe
da sua terra fértil
de batatas.

A alma que já disse adeus
e espera agora o apito do trem
que traz um carregamento de ouro

de El
Paso.

E se não há traumas
e sonhos de vingança
o que farei da parte vil?

Vestir-me de outra pele
com a felicidade dos cães.

domingo, 12 de abril de 2020

Papel Seda

O primeiro sinal
de que o espírito está bem
é a sensibilidade extraordinária do olfato:

Batata-doce e seus carboidratos
em generosas fatias na água
a ferver.

Os vizinhos plantaram um coqueiro no quintal
e sumiram de casa. Nunca mais foram vistos.

Vizinhos meus não.
Vizinhos da minha ex-mulher.

Molhei as plantas e plantei
um brotinho de gengibre.
Será nosso segredo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Drogaria

O poeta é muito bobo, meu pai.
Só por causa dos olhos azuis
da balconista (de máscara)
voltará o poeta
à farmácia

pra pedir
um remédio
para o coração.

Antes, é claro, tapará o rosto
com um retalho do vestido
do seu último amor.

Música

O meu suspiro
não é queixume.

Acostume-se
ao som

das minhas costelas, baby,
quebrando-se a cada sonho.

Nunca pensou em fazer
uma aliança de vento
dos meus versos?

Trilhas

O fogo que ilumina a caverna
é um olhar que vem de dentro
mas não pertence aos seus olhos.

Vem sendo e está em preparação esse fogo
há séculos e séculos cujo tempo não faz ideia.

Mesmo que a sua mente
e o seu coração sejam pares
em exercícios de imaginação.

Todas as árvores são sagradas
para quem ama a doce sombra.

O rosto muda
debaixo da luz
e as formigas
também.

Sonambulismo

Sinto muito, filho,
mas não mudará o mundo
o conceito de matéria e eternidade
mesmo após passar a terrível sombra.

Os loucos permanecerão loucos.
Os tristes, tristes. E os vis,
tenebrosos.

Os que acordarem
é que já haviam ensaiado
abrir os olhos antes da solidão.

Natural que os corvos se cansem
de comer sementes de girassol
e regressem ao pântano

pra bicar
sapos.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cigana

O meu coração é uma criançona.
Mas você nunca será um fantasma.

A sua dança de camiseta preta
e latinha de cerveja na mão
até hoje é um espetáculo.

Costumo dormir no céu
entre pelugens ruivas

só pra não esquecer
o seu perfume.

Acordo bem mais forte
e aquele meu sorriso
de sátiro vesgo
é tão doce.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Abstrações

Eis que vejo no quarto
estirado um couro
de bode

e penso:
Esse bode
era um bode
feliz ou melancólico?

Sonhava um dia
acabar objeto
decorativo

no meio do quarto
onde um poeta
escreve

coisinhas
sem sentido?

Nunca mais vi os pombos.
Você sabe que tenho trauma.

Ora, desde aquele dia da minha mocidade
em que ao pé do pombo uma carta
prendi com laços.

E o meu primeiro amor
nunca leu as minhas juras.

O bombo parou em praças
para beber vinho e comer grãos
e perdeu a minha missiva apaixonada.

Que papelão,
baby.

Faxina

Nunca lhe passou pela cabeça
que os versos que escrevemos
não há por finalidade o ego?

Nem aprovação
ou ódio do outro?

Os versos que escrevemos
conscientes ou sob transe

são obras antigas de seres
que vivem suspensos sobre
nossos ombros e nossa nuca.

Se chegamos a vê-los
em vários níveis de luz
fingimos que é realidade.

E o que nos pode iludir
quando a alma entende

que fulanos viajam
em nosso sangue?

Nem para o bem
nem para o mal.

Apenas se debruçam
sobre nossos ombros
e beijam nossa nuca.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Abril

A poesia bate o martelo
e alguém paga o preço.

Juro que não sou eu, baby,
o fiador desses fantasmas.

O moço que escreve
é um sensato e não guarda
cadáveres dentro do coração.

A poesia, no entanto,
bate o martelo e escapa
das minhas sombras uma força.

terça-feira, 31 de março de 2020

Sirigaita

Lola ganhou de presente
um laço vermelho
após o banho.

Agora os marmanjos desavisados
sabem que Lola é uma dama.

Falando
em damas,

em que situação
vivem minhas amantes
nesse tempo de isolamento?

Sem clientes
(aperta-me o peito)
será que lhes faltam
frutas cristalizadas e gim?

Mas retornando à Lola,
durante o passeio a dama
de laço vermelho é voluntariosa
e só requebra na hora que bem quer.

Ou seja,
quando


um cão
distinto.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Criancice

Quando penso
que tive os meus
episódios suicidas:

navalha no pulso,
psicotrópicos,
gás.

E hoje em dia
sou uma alma
em plenitude
com o amor.

A ponto
de poupar
os fantasmas
da minha fúria.

Vou à varanda
e vejo que estão
perfeitas as ondas
da chuva na calçada.

Não me custa nadinha
fazer uns barquinhos
de papel lançá-los
da janela

e correr
atrás.

domingo, 29 de março de 2020

Lilases

Que saudade absurda
das minhas camponesas
colhendo maçãs usando
aqueles decotes infernais.

As minhas patas de bode
estão de molho e a flauta
dentro da gaveta suspira.

O que fazem as minhas camponesas
quando não envenenam suas maçãs?

Sabem elas que os sátiros
já perderam a inocência
e buscam entre mortos
o perfume do amor?

Não quero pensar sobre os cadáveres
das praças de gelo e fantasmas, baby.

As minhas camponesas
merecem a estupidez
do meu coração.

sábado, 28 de março de 2020

Lola

A Lola tem
uma alma
de faquir.

Embora
o coração
ainda trêmulo.

Mas Lola
vai superar
todos os sustos
e os maus-tratos.

Um dia
verei Lola
sorrir de soslaio
e latir para os gatos.

Requebrar-se alegre
sobre o jardim
do prédio

informando
aos vizinhos
que atingiu
a iluminação.

Pois os cães
chegam primeiro
à dimensão da brandura
bem antes dos tristes humanos.

Eu cegue.

Libélulas

Não me causa estranheza
em tempo de pavor
e mortes

ter sonhado
com o sinal
da tua coxa

que parece
um navio
fantasma.

Afinal, meu docinho,
foi o sinal da tua coxa
(aquele navio fantasma)

que me levou
ao confinamento
nos porões do castelo.

Pena que parei de beber rum
e os barris de excelente aroma
só me servem para fazer fogueira
e aquecer as baratas das tristes paredes.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Das maçãs

A mandrágora
que colhi

no canteiro
da varanda

tinha
a raiz

aquela
forma

do teu
coração.

E não enlouqueci
do teu doce grito

quando arranquei de unhas sujas
das minhas costelas a saudade.

Bebi a lágrima
como se bebe
um café.

Já que ópio
é tão infantil.

Bula de náufrago

O melhor dos versos
é revê-los depois
de escritos.

Investigar até onde
falou-se muito

e em que ponto
a respiração parou.

No mundo da lua a terra
é uma superfície delirante.

E todos aqueles
que caminham
no deserto

comem gafanhotos
com sabor de tâmara.

O meu corpo
resolve questões
do que não consigo ver.

E a minha mente
(além dos suspiros)
viaja por outro caminho.

O vício perdeu
seu único fim.

Navegações

Entre corvos
e bufões

o que me faz forte
é o pavor do outro.

Assegure-se
de que

as suas botas
e as suas vestes

serão doadas
a quem tem frio.

Os seus ossos
nunca foram
bambus.

Antes que a tempestade
turve a sua consciência
alegre-se pela ventania.

A vertigem
é para ser
doce.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Laboratório

Se lá fora
os vermes

debruçam-se
sobre o corpo

dentro de cada ser
há um espaço
sagrado.

Lave as mãos
do seu espírito

e não toque o coração
com a loucura da vaidade.

A hora é de limpeza espiritual
e queimar as luvas do crime.

Esqueça os fantasmas
da sua memória
e ofereça vida
ao silêncio.

A terra arrasada
é um belo pomar

de serpentes
e maçãs.

terça-feira, 24 de março de 2020

Lola

O cantinho de Lola
(sua cama, lençol
e seus bonecos)

é na sala
de visita.

Aquele que adentre
ou sequer bata
à porta

será bem-vindo
pelos latidos
de Lola -

fantasmas,
camponesas,
tocadores de pífano.

Vejo no seu profundo silêncio
e na sua contemplação metafísica
uma grande e excêntrica alma poética.

Acredito até que Lola vai me ensinar
escrever versos em sua língua canina.

Anterior
ao latim.

domingo, 22 de março de 2020

Máscaras

Quando mudar-lhe a pele
tenho curiosidade em saber
o que sairá do seu mais íntimo:

Um ser iluminado
ou aquela velha
criatura?

Após esses terríveis sonhos
de mortes, fuga e negação
o que surgirá da alma?

Um ser sensível
ou aquela velha
vaidosa criatura?

Quando seus olhos
abrirem-se o que
você primeiro
verá?

Um deserto florido
ou névoas enganosas?

O relógio da sala parou.
O cachorro não late.

O saco plástico
guiado pelo vento
atravessou ruas fantasmas

e o que você dirá
aos seus filhos
e netos

sobre esse tempo de elevação
enquanto você escolheu o engano?

As lagartixas
e os passarinhos

até estranham as calçadas
e o silêncio e o tremor dos dentes.

E sorriem
do jeito
deles.



sábado, 21 de março de 2020

Tsuru

Quais armas
de chumbo
e ossos

você imagina
que as possui

para esmagar
a triste sombra?

Lutaria porventura o sol da consciência
contra a sombria bruma do pavor?

Que belo tempo, baby,
para se compor canções
aprender a pintar nuvens

e fazer origamis
de aves sagradas.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Front

Assim que passe
essa triste sombra

espero que o seu canteiro esteja florido 
de pensamentos lúcidos, leveza e coragem.

Os vapores da guerra
quando ultrapassam as trincheiras
e chegam ao alto das torres de marfim

os covardes
multiplicam-se

e já podemos admirar
os canalhas trêmulos de medo.

Não conte os mortos
entre os quais você caminhe
mas permaneça firme no caminho do farol.

Assim que passe
essa triste sombra

por favor, não se esqueça
do quanto cura o abraço.



quarta-feira, 18 de março de 2020

Spoiler

Não me lembro
de quantas vezes
e por quanto tempo
o meu coração parou.

Acredito que durante
as milhares de vidas
que tive.

Na infância era tão comum o meu coração parar de bater
quando nuvens mudavam de fisionomias em cumplicidade

com os pensamentos
do meu espírito
de criança.

Dragões, corsários,
trens, moinhos,
cavalos -

em questão de segundos
transformavam-se
em montanhas,
xícaras,
botas.

Assim,
do nada.

A partir da mocidade
foram as mulheres
a causa única.

E até hoje
meu coração
vive parando:

Advogadas,
dentistas,
colegiais.

terça-feira, 17 de março de 2020

Sintomas

Lavo minhas mãos
com eau de l'arc

e escrevo cartas
isolado na varanda.

Voltei a escrever cartas
e pedir aos pombos
que entreguem
meus versos

atrás da igreja
entre macieiras

onde camponesas
disputam meu coração
alfinetando um boneco.

Não posso montar no meu cavalo
e raptar as mulheres da aldeia:
a minha garganta dói,
tenho febre.

A minha tosse
é quase um blues.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Plantador de Girassóis

Os meus inimigos
todos os meus
inimigos

caíram do cavalo
e os seus ossos

foram pisoteados
por gigantes
invisíveis.

Todas as manhãs
vou às ruas

e saio das casas
com pacotes
de maçãs,
livros,
pães.

Se não vou às ruas
sento-me na cadeira de balanço

e colho maçãs das árvores da calçada
e faço pães do que vejo da janela aberta
e empilho livros sobre os jarros das plantinhas.

Todas as manhãs
nas ruas ou na varanda
dou  testemunho da minha existência.

E ninguém saberá ao certo
de onde venho com esses
pacotes de maçãs,
livros e pães.

Gripe

Nesses tempos de pavor
onde os ratos esconderão
os seus preciosos queijos?

Dentro da alma
e do mais sombrio
dos seus pensamentos?

Morrerão os ratos
como de fato fossem
humanos escandalosos?

Ah, baby, os ratos
que matam outros
ratos não são
outra coisa

senão
ratos.

Veja só, baby,
ratos sem dinheiro
e ratos cheios da grana

imaginando
que vão morrer

mudam de humor
e de fisionomias
e ao dormirem
choram.

Não entendem, baby,
que tesouros de queijos
são moedas de ouro e de latão
no fundo do rio de águas turvas.

A vida que amam
de forma insana
e cruel

é essa vida
de acúmulos
de queijos podres.

Ah, minha baby,
e até quem queremos
perto dos nossos olhos

já pensa em esconder
debaixo da cama fatias
de pensamentos tão tristes.

domingo, 15 de março de 2020

Dominical

Se você arou a terra
choveu e fez sol

por qual motivo
não lançou as
sementes?

Medo
da vida
confortável?

O que maravilha o pescador
não é a exuberância do pescado
mas o caminho que leva os peixes

até à rede
e ao barco.

sábado, 14 de março de 2020

Universo Paralelo

O telefone tocou
(olha só) e Lola latiu.

Lola latiu pela primeira vez
e como prometi escreverei
um poema épico

e fumarei ópio
do Afeganistão.

O café é ótimo
com essa chuvinha
mas o ópio me lembra
quando vivia em guerras.

O que se passa
no seu coração

nem o que você
pensa, meu doce,
são verdades do alto.

Pois do alto
só cai água
ou canivete.

E quem aprendeu
a escrever seu nome
nas areias do deserto
sabe que à noite faz frio.

Deleite

A chuva não impede
que passarinhos
entrem pela
janela

do meu
quarto

e arrumem
a minha cama.

Ui, de tão linda pureza um casal apaixonado
debaixo da chuva dividindo a mesma sombrinha.

O único impasse
é que o sujeito

não é um doce
cavalheiro

e somente
a si abriga-se
dos pingos frios
da mansa chuva.

Mas estávamos
conversando sobre?

Ah, os passarinhos
que de plumagens
molhadas dos
céus

chegam ao meu quarto
e dobram os lençóis

e dão aquelas palmadinhas
no meu ingênuo travesseiro.

E antes que agradeça
e lhes ofereça um café
evaporam encantados.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Tecelão

Não é da dor
que se trata.

O pavor
é o grande
cínico inimigo.

Meus filhos fumam ópio
e namoram ouvindo canções
da minha mocidade filosófica.

As portas abrem-se
e jardins secretos
são vistos.

Nenhum dos meus filhos
foge da luz e da delicadeza.

Se chove
banham-se
da tempestade.

E vão às calçadas
com seus bermudões
e seus risos incontroláveis.

Meus filhos
são fortes
e belos.

Não temem a morte prematura
nem o pânico das multidões.

Fumam seus ópios,
leem seus livros,
namoram

ouvindo canções
da minha mocidade
de encantos e decepções.




Palmatória

Houve um tempo
em que criei
porcos

no meu coração
e sei muito bem
como chegam
à mente

as suas
mentiras.

Os porcos vendem a alma
por qualquer níquel furado,
afinal a alma não lhes pertence.

De modo que
comem pérolas
por divertimento
e aceitam os pactos.

E se lhes concederem a palavra,
jamais fugirão da companhia
dos seus miseráveis.

Sabem como plantar batatas
na cabeça dos infelizes
e inventam blues.

Chuva

Ainda hoje
uma formiga
encanta-me:

a sua solidão excessiva
e aquele silencioso desprezo
por tudo que não é alimento.

Na infância
seguia-lhe
os passos

até o princípio
da magia

onde esqueletos de lagartixas
(que lhe serviam de ritual)

amontoavam-se
entre folhas, flores
e tenras asas de insetos.

Quantas picadas
eram tão comuns

para quem só tinha
no coração a ânsia
do encantamento.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Crash

Minhas festas
nunca foram
bacanas.

Mas estranhas
e rápidas, baby.

E todos os fantasmas
com milhões de minhocas
na cabeça e no coração perdido
amanheciam atrás da minha coragem.

E como sempre tem sido
o morto não negaria
suas forças

pra ressuscitar
os tristes.

E aos goles
de café frio

e muitos
cigarros

O morto
aos tristes
dava vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Abaeté

Ainda penso beber uns drinks envenenados
contigo sob gestuais de transe e doçura.

Tu mereces
os meus sonhos
(a parte mais idiota
da minha cabeça, baby)

Inteligência e lucidez
só debaixo da terra

oferecendo os ossos
às últimas borboletas.

terça-feira, 10 de março de 2020

Lola

Lola, por favor,
é hora de latir
e morder

a tolha
de plástico
e as plantinhas.

Ou você prefere
uns romances
russos?

Posso ir à casa da ex
e pegar os meus livros.

Que tristeza o seu olhar
mas a sua alma é grande.

O primeiro dia
em que latir
escrevo

uma ode
e fumo
ópio.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A esteticista

Apesar da minha timidez,
adoro tocar a minha flauta
para as camponesas enquanto

colhem maçãs e oferecem
aos meus sátiros olhos
de trovador

os seus decotes
de doce infarto.

Sou iludido e riem da minha criancice,
mas se persistirem nos seus gracejos
correm o risco as camponesas
de se apaixonarem pelo
tocador de pífano.

domingo, 8 de março de 2020

Quarentena

Então chegada a hora
de te pedir perdão
e pintar tuas
unhas.

Dei voltas escrevendo
sobre plantas e pombos
fugindo da tua presença.

Mas eis que chegada a hora
de ir pescar pérolas na tua caverna
no fundo do mar em áreas misteriosas.

Fiz o possível
para terminar
de ler o livro.

Mas como passar as páginas
se os meus dedos se grudam
nas lembranças de teus cabelos?

Espera que já monto no meu cavalo adornado
de medalhas de latão e máscara de fios de ouro.

Ao ouvires o trote sobre a tua rua
mira a espingarda de teu avô
e acerta o meu peito.

Não corras, docinho,
pra ver o meu sangue.

É tão triste e vã
a morte do poeta.


Extravagância

"Tchau, pombinho. Tchau, pombinho"
Passou debaixo da minha janela
uma criança dando tchau
pra um pombo.

Um dia
essa criança
(já bem velhinha)

sentada no banco da praça
vai se assustar com um pombo
que chegará aos seus pés e perguntará:
"Você se lembra de mim, criancinha?"

A criança
(já bem velhinha)

vai tremer com esse pensamento
e perguntará ao seu coração se é loucura
ou a morte que se aproxima. Rirá consigo.

E irá embora
sem dar tchau
ao seu pombinho -

que girando
nos calcanhares
de cartola e fraque
sumirá entre fumaças.

sábado, 7 de março de 2020

Caolho do pífano

Certamente já teria virado presunto
e os bichinhos da terra saboreado
o banquete da minha carne

se todas as mulheres
a quem ofereci
canções

tivessem
ouvido
minha
lábia

e pulado
da janela.

Não haveria como dar certo
(bom e de agradável perfume)

um poeta infame
apaixonado.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Parisiense

A baratinha não consegue
destampar o pote de nescau,

ainda que seja
uma francesinha

treinada em sutis táticas
de espionagem e assassinatos.

Fecho bem forte
o pote de nescau.

Só pra dar trabalho
às baratinhas, ainda
que seja uma francesinha

treinada em táticas especiais
de furtivas paixões e traição.

Inocência

Os cães farejadores
amam os poetas.

Nunca ouvi falar que um cão farejador
flagrasse uma trouxinha de maconha
no bolso do bermudão do poeta.

Às vezes (só por pilhéria)
os cães farejadores correm
ao encontro dos poetas e balançam
o rabinho, reviram os olhinhos e cheiram
os tênis, as botas e os mocassins dos poetas
mas depois latindo seguem viagem os palhaços.

Já vi muitos colegas
infartando na pracinha.

Ogro

Da minha existência
é tão óbvia a eternidade.

Os poemas escritos,
rasgados, queimados,
apagados ou esquecidos

pertencem a quem passou
por eles a vista ou a alma.

O único direito que tenho
sobre os versos que escrevi

é a imaginação
das sombras.

Nunca fui senhor
dos meus atos.

A embriaguez
dos meus sentidos
(por força e delírio)
nasceu do que não sou.

A imaginação é o rito primário
daquele que não se conhece.

E caio profundamente
agradecido às palavras
que pouco tiveram rancor
senão em tolices do espírito.

Morra o poeta
nem o vento
tragará

os seus
ossos.

Ilhados

Entre meus olhos
e os teus cílios

existe alguém
inexplicável
que pondera
e arrebata.

Entre a minha unha
e o teu esmalte

existe alguém
que nos distrai
e fundo mergulha.

Nunca estamos a par
da loucura e divindade
desse alguém inexplicável
que nos silencia e abre as asas

e corremos feito pintinhos
pra debaixo do seu fogo.

Faltam-nos
existência própria
e amor pelo outro,

pois somos escravos
desse alguém inexplicável

que lança mão
dos nossos sonhos
e promete-nos o saber.

Egoístas
(tão egoístas)

não existe dia que não acordemos
no bico desse alguém inexplicável
albatroz de pele alva olhos infantis.

E acabamos peixes
recém-tirados
do sal

da sua
boca.

Degeneração

Vejo que as plantinhas da varanda
estão a morrer, não por falta
de água, ópio ou sonhos.

Apenas por cansaço
da presença do poeta.

Não entendem
as plantinhas
da varanda

que o poeta pagará
não por suas ações.

Mas pelas palavras,
que é pior, muito pior.

Sir

A sua doença
é grandiosa.

E você conhece
quem move
suas mãos.

Se no fim da sua história
não houver um poema
para escrever

terá sido
sua vida
besta.

Jogue ao lixo
os bolos de aniversário,
mas corra atrás dos porcos
se tentarem roubar a sua cereja.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Atlântida

Nunca me dei bem
com o amor, baby.

O ciúme
e cinismo
são cúmplices
do meu caráter.

E até houve um tempo
em que no recreio
da escola

fazia chorar a minha pequena
e de noite cortava meu pulso.

Cadáveres
entre flores
são tristonhos.

Sabes agora então
a causa do espírito
que desce e me toma.

Fadas de todos os bêbados

O poeta pulou da carruagem
e bateu a cabeça contra
uma pedra.

Acordou três dias depois
com a cabeça doce e leve

entre amorosas mulheres
que lhe davam na boca
mingaus, maçãs,
cervejas.

O poeta passou a crer em Deus
e passarinhos passaram a brincar
sobre os seus ombros e lhe ensinaram
aqueles primeiros voos do alto da colina.

Quão suave viagem
a cada descida ao abismo
o poeta admirava-se das belas orquídeas.

Bovary

Um dia o caçador entende
que a pele das suas faces

é a mesma pele
de quem se esconde
amedrontado no covil.

O suposto inimigo
são os dedos frios.

Quem morde e ataca fora da caverna
é o caçador iludido pelo seu riso torpe.

E bebe seu café
e lê seus romances.

A bastar-lhe
da loucura
poemas.


segunda-feira, 2 de março de 2020

Possessão Poética

A melancolia
é uma menina
que nos gruda
na pele e olhos.

Acordamos
como outrora
na primeira noite
de tolice e fraqueza.

Quem vencerá pelo poeta
o jogo de sombras e fantasmas?

Os poucos girassóis
que plantei na mente
pegam fogo e eu fujo

pelos campos
atrás de Gogh
e dos seus corvos.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Translado

Na infância imaginava que as cigarras
se chamassem cigarras por fumar cigarros.

E as corujas não dormissem
por adorar escrever poemas.

Depois de velho gagá
entendi todos os segredos:

As cigarras de fato fumam cigarros.
Já vi umas três descansando da cantoria (violinos ao lado)
perninhas cruzadas jogando pra cima fumaças em círculos.

Quanto às corujas tenho uma de cristal
na cabeceira da cama e vive insone
porque ama de paixão
escrever versos.

O que mudou
entre minha mente
de criança e a de poeta?

Coronavírus

Profundamente triste
estou em dúvida

como cumprimentar
meus passarinhos
do pé de oiti.

Aos pombos
nunca dei cartaz.

Mas as andorinhas,
bem-te-vis, pardais
e rouxinóis sempre
foram meus amigos.

E agora não posso mais apertar-lhes
as mãos nem alimentá-los no bico.

Já vi até alguns
usando máscaras.

E dando meia volta
da minha janela aberta.

Ok, minhas criaturinhas,
vou para meu quarto
escrever versos.

Só voltarei para ouvir
os últimos blues.

Campos de girassóis

Debruçar-se sobre a janela da varanda
e flertar com as donas e as mocinhas
é bom durante alguns minutos.

O poeta tem outras obrigações,
como por exemplo alimentar
o fantasminha que adora
escrever versos.

Digo-lhe que não sou o mais indicado,
mas o homenzinho doutro mundo
convence-me beijando
meus ouvidos.

Com a voz doce de alfenim
dita os próximos decassílabos.

Gerações

Não é o próximo
quem conhece
tua poesia.

Não é o próximo
quem lê teus versos.

Pandora te enviou
um recado, poeta:

A caixa de sapatos
não é uma diversão.

O moinho continua
gerando vento sem
que o próximo veja.

Não é o próximo
quem verá o sol
entre as tuas
costelas.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quadrinhos

Se teu entendimento evoluiu
tu mereces algumas moedas.

Embora tu sejas casca,
sentirás a exuberância.

As peças de xadrez
são movidas do outro lado
esperando de ti um olhar diferente.

Inferno é permanecer
amante da mesma morte.

Carbono

Diz-me como cairá a xícara
de tua mão se não há tremor?

Como tropeçarás se teus pés
andam firmes e teus olhos
sutis?

Como enlouquecerás
se tua lucidez é leve?

À medida que escreves poesia
tua boca se cala, ainda que seja
o poema pequeno a mente é grande.

Playground

Os cãezinhos das redondezas
preferem o pé de oiti
da minha calçada

aos postes
das esquinas.

Além de aliviarem-se
levantando a patinha

também saem
de unhas
feitas

pela dedicação
dos caramujos

e quem escolhe
a cor do esmalte
são as atenciosas
lagartinhas-de-fogo.

Se porventura
os donos esquecem
o saquinho da sujeira

passarinhos (pardais) pulam dos galhos
com gravetos e folhas e dão um trato.

Não existe na vizinhança
nem em sonhos de criança
um atendimento tão especial.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Lúdico

Não foi por crueldade
que acabei de matar
uma aranha sobre
minha cama.

Aranha de longas pernas
a sapatear na colcha nova

e decerto algum tipo
de veneno nas glândulas.

Espero que noutra dimensão
a aranha me conceda um instante
para o poeta explicar-lhe que a natureza
da criança ainda permanece sádica e infantil.

Analisando bem o ocorrido
desde a forma em que peguei
o chinelo e a minha língua de fora
não era o adulto em sã consciência.

Mas a criança,
a mesma que fazia
experimentos cirúrgicos
em lagartixas e passarinhos.

Espero que noutra dimensão
possa o poeta beber um café
em companhia dessa aranha

e explicar-lhe que a fantasia
nunca fugirá da minha cabeça.

Algodão-doce

Que alívio, baby,
não sou mais canalha.

Aprendi a plantar batatas
sem sujar as unhas de terra.

Só de nuvens,
baby, e nuvens
conheço-as desde
criança e sei onde
matar a minha sede.

Deste mundo
não levo saudades.

Depois que se aprende
a plantar batatas sujando
as unhas somente de nuvens -

aprende-se, baby, a conhecer
que o mundo é um furtivo banquete
de atividades ilusórias e quase insanas.

E viva
as batatas,
meus amores.

Paquera

Já manjei há muito tempo
o que as missionárias
que me encontram
na rua ou ônibus
querem-me:
flertar.

Olham-me dentro dos meus olhos
de forma que até fico corado
e me entregam folhetos
de salvação e de voz
mais sensual

sugerem-me
o paraíso.

Mas o que elas fazem é flertar
como flertaram todos os mestres.

Como flerto com as plantinhas
da varanda, os pés de oiti
e os passarinhos.

Flerto,
flerto,
flerto.


Leveza

Chegou ao fim
a sua necessidade

de abrir a boca
e confessar
sua força.

Basta abrir a janela
e dar de cara

com um passarinho
minúsculo de olhos vibrantes
e o musgo dos galhos do pé de oiti.

Você não sabe
(eis a maravilha)

até que ponto
a mente se expande
e gera o silêncio a criação.

Faxina

Não existe uma mulher neste mundo
que não seja sacerdotisa, meu filho.

A doce diferença
é que algumas
mulheres

ainda não atingiram
elevado nível de crueldade.

Outras ainda não chegaram
ao princípio da ternura.

Escolhem,
então,

tais mulheres
outro caminho.

Passam a vestir-se
de fadas e diabinhas.

E por simples distância do amado
planejam torturas e vinganças,
enquanto não percebem
que magia seria
esquecê-lo.

Filho, todas as mulheres
são sacerdotisas e podem
levá-lo ao fogo da plenitude
ou plantar-lhe um câncer no peito.

E se elas amanhecem
com toda a hiperatividade
perfumando a casa com bom ar:

ui, ui,
cuidado.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Jardineiro com olhos de papoula

Por amor à consciência
o corvo ausentou-se
das plantações
de coca.

Bastou experimentar uma vez
a semente de girassol do jarrinho
de uma janela que nunca mais sonhou
em visitar novamente as plantações de coca.

E olha só - as cigarras
voltaram aos pés de oiti
e os bem-te-vis dispensaram
as patinhas e o abdome das cantoras.

Preferem ultimamente
as sementes de girassol.

As mesmas
do corvo.

Caçadores de mamutes em pele de bisão

Se houver transformação
o velho dará testemunho
pelo novo e o novo
será a prova.

Das ilusões
faremos docinhos
para satisfazer criancinhas.

Até adoçaremos a língua
sem um pingo de embriaguez.

Afinal, a criança que fomos
adora doces e ferimentos.

Mas não é um homem trôpego
nem é uma criança descuidada
quem tocará flauta e bandolim.

Pela estrada
encontram-se
muitos mortos.

E cada qual traz na língua
uma verdade legítima
da sua loucura.

Mutações

Se esfregar as palmas das mãos
fazê-las conchas e assoprar
em direção ao seu rosto
você acordaria bravo?

Você não é um urso?
Você não foi sempre
um grande urso enorme?

Pois bem, você perdeu toda a sua gordura dormindo.
Hora de acordar, meu amigo, comer peixes e mais peixes.

Procure entender o destino dos salmões
que conseguindo subir ao rio desovam
e com que aspecto morrem.

Faça-lhes
um favor.

Jogadores de cartas

O que você escreve
serve-lhe apenas.

Portanto,
não imagine
uma multidão

de sombras a roer-lhe
os ossos nem luzes estranhas
entrando pelas janelas e telhado.

O que você escreve
serve-lhe apenas.

Como aquele poema antigo
a causa da fonte de suas lágrimas.

E o seu filho
sequer leu.

Varanda

Você acredita
que havemos
de atravessar
o coração pra
chegar à mente?

Há séculos, séculos e muitos séculos
imaginei o contrário - que fosse
necessário atravessar a mente
para descobrir o coração.

Penso,
baby,

que não há um coração perverso que destrua uma mente lúcida
nem uma mente doente que um coração louco em são transforme.

Embora me pareçam
os contrários semelhantes.

Dependendo
da cegueira
e da visão.

Papinho

Não tenho a menor ideia
do que você é feito -

se de névoas
ou coragem.

Se atravessou o corredor escuro
da casa de seus avós ou pediu
clemência aos seus irmãos.

Se enfrentou seus fantasmas
do berço levantando os bracinhos
e desmascarando os velhos fantasmas.

Ou se acovardou
debaixo da cama.

Sei de uma coisa -
estou farto de salvação.

Mas você pode (óbvio)
escutar os salvadores
de almas e fugir
da vida.

Fugir da força
que é você.

Matei muitas formiguinhas na minha infância
e até um dia desses percebi que elas se esqueceram
da minha xícara branca e não se afogam mais no meu café.

Que bom,
meu poeta.

Pássaros

Chegada a hora
de colher as espigas
muitos entram em pânico
diante da vereda até o milharal.

Em clara consciência
sabem do medo.

Poucos entenderam que símbolos
e imagens são casas para entrar
e para sair.

Caíram na armadilha
da falsa segurança

ao construírem
um túmulo
na mente.

E agora
diante da vereda
que conduz ao milharal

muitos de pernas paralisadas
não conseguem dar um passo
e os olhos pulam das órbitas.

Não entenderam que imagens
e símbolos são casas para
entrar e para sair.

Quem ergue um túmulo
de ilusões na alma
perde a vez.

E terá que aguardar
a última espiga
do milharal.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Orquestra de blues

Da cozinha
dá pra ouvir
o passarinho,

mas é da varanda
que a criaturinha
entrega a partitura.

Escondido
entre os galhos
do pé de oiti espera

que o poeta chore
ou beba café.

Laranja

Aquele que nasce do espírito
também ama a carne.

Os pássaros
quando erram as notas
improvisam de tal beleza

que não conhecendo as suas vocais
aquele que nasce do espírito os adora.

Aquele que nasce do espírito
também não apascentará ovelhas
e entenderá o perfeito caos dos rebanhos.

Sempre existirá (para o bem de todos)
aquele que se perde e encontra a casa.


O bom e velho Zaratustra

Esqueça, oh, esqueça
todas as suas projeções
e fantasias para outra vida.

A outra vida
é nesta vida.

E o mundo por quem
você tanto teve ódio e medo
guarda (não esconde) dentro
da caverna um mundo de pérolas.

As paredes não assustam
e o teto não é sombrio.

Embora não fale línguas
(sobretudo as estranhas)

você saberá ouvir
o som dos meteoros.

Os peixes cairão nos seus bolsos
como aquelas tais moedas encantadas.

Que de encanto
nada trazem.

Você não precisa
de bruxarias tampouco
de velhas orações de tristeza.

Esqueça, oh, esqueça
todas as suas vestes
e ritos de loucura.

O mundo (aquele triste mundo)
pelo qual você vivia preso
de desejos e fraquezas

agora é um mundo bacana
que guarda (não esconde)
dentro da caverna

um mundo
de pérolas.





Ocultismo (poeira no vento)

O poder da poesia
demonstra que você
não tem mais nenhum nível
de parentesco com a memória

que já
morreu.

O escrito que virou cinzas
é sinal de eternidade,
não de loucura,
meu poeta.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Extraordinário

A mentira não tem
pernas curtas, ao
contrário -

a mentira movimenta-se
em longas pernas de pau.

A questão é que os vermes
amam gigantes de pernas
de pau.

E antes que os corvos
visitem o campo
de girassol

o espantalho
já caiu.

Os corvos entendem
que a fome vem da terra.

Sábado de carnaval

Chega o dia
em que a poesia
muda de direção

e não hesita
entre coração
mente e carne.

O cálculo abstrato
da terra aos céus
perde o valor.

Ao invés de sair
o poema entra
ainda vestido
de placenta
e hálito.

Queima vísceras
e não poupa sonhos.

Chega o dia
em que a poesia
atravessa a praça
com a desenvoltura

de um palhaço calçando
um mocassim vermelho.

E você até pensa
que o folião

é triste
ou esnobe.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Alquimia

Quando acorda
apaixonado
o poeta

até o mijo
é perfumado:

uma mistura delirante
de almíscar e patchouly
da década pagã de oitenta.

Onde diacho
meteram-se
a minha
flauta

e os meus velhos
cascos de bode?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Psicóloga

Os últimos sons de sapatos femininos pelo corredor
chegaram aos meus ouvidos quando estava no deserto

aprendendo a escrever meu nome
na poeira da terra e na poeira dos céus.

O que posso fazer
por meu passado

a não ser amar 
as tentações?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O ostracismo da ostra

Do outro lado da rua
nem debaixo da minha janela
ninguém me ouve e isso é bom pros negócios.

Nenhum fantasma
chegará aos meus ouvidos
pedindo-me o de comer e o de beber
a jurar companhia durante minha morte.

Acabou-se essa história antiga
de fantasmas e de morte.

Do outro lado da rua
bastam-me as vozes
das mulheres.

Por quem pesco peixes
em tardes de chuva.

Etéreo

Nunca tinha visto
beija-flor no pé
de oiti.

E pela manhã
um me disse
"oi".

Tão pequenino
que o confundi
com um pingo
de chuva, filho.

Cruzou meu ouvido
passou por minhas costelas

e sumiu,
veja só.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Livreto


                                     



Cabeça
De
Grilo



                                             
                                                                                      











O passado não tem sal,
Mas a vontade da poesia
É um sal poderoso.























Para os poetas
Que têm muita luz
E pouco juízo.











Primeiro Capítulo
(deserto)



31/01/2020

A onda de energia superior
Não me faz um ser bacana
Além do bem e do mal.

A minha mente pervertida
É cada vez mais brilhante
E o meu coração dissimulado
Prepara magia do próprio sangue.

A onda de energia superior me ensina
Abrir os olhos e deixar que o fogo da verdade
Queime os pensamentos inúteis
De morbidez e de grandeza.

Deus não nos ouve como pensamos
E a nossa loucura é latente
Em nossa língua.

Não te basta o canto do pássaro
Ou tens que vê-lo cantar?




30/01/2020

Sei que existe o peso
Entre a existência desprezível
E a verdade gloriosa.

Mas como há regiões misteriosas na mente
Regiões recônditas há no coração.

E aquele que se entrega
Jamais será abandonado.

Os dias não consumirão as noites
Nem as noites absorverão os dias.

O que imaginávamos da consciência
Apaga-se

Sob um olhar
Que não é o nosso.



30/01/2020

Quando eu era menino
Escrevia versos de menino.

Agora que sou homem
Escrevo versos de homem
E não ouço vozes
De menino.

Muito embora
Um e outro
Tenham morrido
Da mesma semente.

O solo
Que os fecundou
Não é um céu distante.



30/01/2020

Todos os dias
Tenho por obrigação
Cavar minha própria cova

(um buraco profundo,
profundo, profundo)

E enterrar a minha vaidade
Para que os vermes da terra
Saboreiem as minhas impurezas.

É minha obrigação
Engordar os vermes da terra
E deixar minha alma um esqueleto.

Não te assustes
Da tua coragem -

A tua luz é sombra
Dos dias de sol.


30/01/2020

Embora ao poeta baste
Os versos que escreve
Não consegue
Calar-se.

E diz aos poderosos da terra
Que tal poder é patético
Visto por outra
Esfera.

Embora ao poeta baste
Os versos que escreve
Não consegue
Calar-se.

E diz aos que amam
Os próprios males
Que se acalmem:

Um dia conhecerão
O rosto da morte.

Embora ao poeta baste
Os versos que escreve
Não consegue
Calar-se.

E diz aos seus botões
Que louco distante do deserto
Também vive perdido.



30/01/2020

Não há portas
Para serem abertas
Nem há portas
Para serem fechadas.

Aproveite as delícias do caminho
E faça festas e bons banquetes.

O seu destino
É igual aos seus pensamentos:

Inacreditáveis,
Suspeitos,
Irreais.

Saiba lidar
Com o novo sangue
E a nova carne.

O único sentido da fé
É ultrapassar dimensões.



29/01/2020

A primeira luz que se vê
É a consciência aberta
Aceitando nossas fraquezas.

E por nossas fraquezas
A consciência aumenta.

Aquele que mergulha ao abismo
Rejeita qualquer tipo de embriaguez.

A luz é nítida
Porque é lúcida.

Não existem vermes
Dormindo dentro dos olhos.



29/01/2020

A minha mente pervertida
E o meu coração dissimulado
Vivem cúmplices dos seus fracassos.

Mas qual valor
De uma mente pervertida
Se atravessou-lhe ao corpo
O fogo da verdade?

E o que direi
Do coração dissimulado

Se hoje em dia
Ouvem-se ecos
Da sua eternidade?


29/01/2020

Se você quiser chegar à outra margem
Terá que molhar os pés
E seria tão bom

Se os seus pés estivessem cheios de ferimentos
Para que os peixes limpassem sua dor.

Lá no alto
Existe uma ponte

Mas se você quiser
Poderá chegar à outra margem
Atravessando o rio e seria tão bom

Se os seus pés estivessem cheios de ferimentos
Para que os peixes curassem sua alma
ouvindo um blues.



29/01/2020

Fosse Deus
Ouvir tuas orações
Morreria de vergonha.

Mesmo quando o coração é bom há tanta vaidade
E se existe pureza nos teus pensamentos
Deus até desconfia da tua face humana.

Fosse Deus
Ouvir tuas orações
Morreria de tristeza.

Onde se meteu a tua volúpia espiritual?
E a louca alegria e a fúria por amor?

Mas se fosse Deus
Ouvir tuas orações
Morreria de profundo
Tédio e fugiria da tua malícia.
Mas Deus ama teu cinismo e tua perdição.




29/01/2020

Durante o banquete
Chega a ser ridículo
Perguntar de que rio

São os peixes e de que pastos
São as carnes e de que terras
São os vinhos.

O anfitrião se aborrece
E detesta conversa tola
Na hora do banquete.

Serás um conviva indelicado
Se não ouvires o anfitrião que te diz:
Cala-te e come.



28/01/2020

Caso teu espírito
Não esteja atento

Teu coração será iludido
Facilmente pelas fantasias
Da tua estranha cabeça.

Triste do coração
Guiado por nuvens de cavalos

Até o desfiladeiro
Da morte.

Não sobrará um osso
Para contar história
E nenhum fio de cabelo
Dará testemunho
Do que poderia
Ter sido e tocado
E não passou
De fantasia.


27/01/2020

Por mais tresloucado
Que seja teu pensamento
E impuro o desejo
De teu coração -

O fogo da verdade
Faz cinzas.

E quem encontrou as próprias cinzas
Permanece como no princípio -
 Atônito.

O grande êxtase
É o poder da mudança.



27/01/2020

A poesia impede
Que os passarinhos
De fim de tarde
Enlouqueçam meus ouvidos.

Em vez disso
É o poeta quem canta
Para os passarinhos
De fim de tarde.

Da ponta do telhado
Fogem da minha cabeça.

Sou úmido
de fogo.