sábado, 20 de junho de 2020

Turmalina

O eterno não se encontra
no que os seus olhos veem.

Mas naquilo
que o coração
guarda e protege.

A mudança de ares
não transformará
a sua alma.

O perfume de pétalas raras
e o cheiro forte de peixes mortos
não curvarão a luz que sobe e some.

Os três laços de amor que você deu 
na sua última vértebra ainda é pouco.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Cadelinha

A poesia jamais desaparecerá da natureza psíquica do poeta.
O poeta que alcança outro nível de obsessão e perde a graça.

Lola já não se requebra
quando ouve a minha voz.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A Vizinha Do Térreo

Uma mulher fatiando abacaxi
observada do alto é um encanto.

Não queiras conhecer
os pensamentos da mulher.

Basta a inocente segurança 
da mulher fatiando um abacaxi

com a mesma faca 
que fatiará teu coração.

Saibas, meu poeta,
que apaixonado
o monstro

fugirá da caverna
e buscará carne
pelo caminho.

domingo, 14 de junho de 2020

Taifeiro-Mor

Comprarei para minha ex-mulher
um jogo de panelas tramontina.

Entendo a sutil degeneração dos objetos
sob a ausência de quem escreve poemas.

Aquele arroz soltinho
e aquele peixe frito

terão novos
cúmplices.

sábado, 13 de junho de 2020

Pétalas De Ontem

Depois dizem
que o poeta
não tem
a força

de evitar 
tragédias.

Pois da minha janela livrei com o pensamento forte
que uma donzela escorregasse na calçada 
molhada da chuva repentina.

Salvei do tombo a musa
que ainda deu um gritinho 
para o seu anjo da guarda.

O seu anjo 
fez-se de surdo.

Mas o jovem senhor
que escreve versos
largou a pena

e cuidou
da situação.

Afinal, o anjo da musa
é seu demônio predileto.

Matinal

A garota Lola
passará uma longa temporada
sem ver o rostinho da menina do pet shop.

A única causa
foi você ter
passado
a mão

na cabecinha
da minha cadela.

O seu carinho tão tenro 
e o perfume da sua mão,
digamos, de sacerdotisa,

inundaram meu espírito
de fabulosas sensações.

Lola passará séculos e séculos sorrindo vaidosa 
sem tomar banho com o perfume da sua mão
na cabeça e orelhas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Suave

O inferno do outro
não me sensibiliza.

Já tive os meus
e com frequência
acordava enlouquecido.

O fogo que consumia
o meu ventre pela volúpia

agora é um fogo que pela volúpia
eleva os meus sentidos ao entendimento.

A volúpia
é redentora.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Escaravelho

A miséria nunca esteve presente no corpo.
O corpo sempre se soube corpo e não há ilusão.

Miséria existe em grande potência no espírito 
que não entende de que matéria é formado.

Cego, ataca a si através do corpo
em frescor ou na velhice.

Perde-se e afoita-se
contra o que desconhece.

O corpo sempre se soube
passageiro por natureza.

As flores que o corpo planta secam 
e morrem quando a sua seiva finda.

O espírito, cego e tristonho,
enlouquece e afoga consigo
a imagem do corpo que some.

Passarinhos

Um grande poema ou um poema medíocre
qual a importância para quem já morreu?

A poesia será ficção
enquanto o poema
não for escrito.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

As Vestes Que O Fogo Não Queima

A poesia é a ponte de rompimento
com o pacto ilusório do homem
pelo homem. O poema nunca 
caminha sozinho: Existem
duas pontas da corda,
uma que está no alto
e outra no fundo 
do poço.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Sementes De Laranja

O meu primeiro amor
fazia aquele tipo de tranças
com bobes de ferro e produto alisante
(embora seus cabelos de mel fossem plumas)

mas fazia 
e encantava-me.

Natural que ao ver uma mulher
com aquele penteado de trancinhas
em ondas de espirais caindo pelos ombros 
da minha janela eu chore e suspire aos céus.

sábado, 6 de junho de 2020

A Dócil

A melancolia de Lola
chega a ser mística
debaixo da mesa
pensando 

naquele tempo
de abandono.

Lola aproveita-se da metafísica de sua tristeza
e não me ouve suplicar por sua presença na sala.

A cadelinha sabe
que tenho na minha mão
a seringa para seus remédios.

Sussurra alguma coisa mágica
e tapa os olhos com as patas.

Dark

A minha pele é muito sensível,
sobretudo das minhas bolas.

Cuidado com o piercing
de cobre na sua língua.

Como lhe disse um dia,
ainda tenho muitas
terras férteis pra
fecundar, baby.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Canções

Você acredita
que já fui cantor?

Mudava o timbre
sem que notassem.

Daí, chamaram-me
desafinado, um horror.

Parei de cantar
e continuei escrevendo.

Canções, baby,
escrevo canções.

Pois, a cantar
sou triste astro.

Sabedoria Na Casa De Mãe

Liberdade
é transitar
entre dois
lugares,
ou mais,
e não
dizer.

Poemas são duros de escrever
quando não querem ser ditos.

Mas, ó-lá-lá,
se querem,
gostam.

Diga, filho,
qual novidade?

O amor
é digno.

Siga,
filho,
amando.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Engenhos

Observando Lola
lambendo-se

medito sobre
a vida dos cães.

Em particular,
a vida dessa
cadelinha
Lola.

Quatro anos de solidão,
e há três meses adotada.

Ração das boas,
água e esporte.

Sem falar da perfumaria,
medicina veterinária,
laços vermelhos
e ciganos.

Lambendo-se
Lola não reflete
sobre sua existência.

Mas decerto sente
que a vida mudou
de espinhos para
flores aquáticas.

Vendo Lola
lambendo-se

concluo que alguma força
observa as minhas ruminações
e ama minha cabeça maluquinha.

Litoral

Dentro da minha gaveta
(a um braço de onde estou)
guardo cartas antigas, moedas
de ouro e um bom punhado de erva.

Mediante o clima do ritual,
utilizo as líricas lembranças
das cartas de amor, a temperatura
das moedas de ouro e a fluidez da erva.

A cada passo,
segurança.

Esqueça as armas do passado,
a fúria e os desejos de pântano.

De onde estou
estiro o meu braço
e toco minha gaveta.

O coração,
ouve?

Dante Alighieri

O meu nariz
é simbólico.

Já entrou em frias
pra chuchu, baby.

Cheirou pelos, pó, éter,
axilas, nucas e virilhas.

Quebraram-no
duas vezes.

A primeira,
na infância

por um soco
de uma criança
bem mais velha.

A segunda,
na mocidade

por outro soco
ciúme louco
de rival.

E veja só,
o meu nariz
é um sobrevivente.

Ares epifânicos,
místicos, galantes.

Ultimamente
senhor de si.

Não entra em ciladas
tampouco é levado
a sério

pelas camponesas
que continuam 
colhendo 
maçãs

usando decotes
magníficos.

Dia Dos Bruxos

Ainda sou um menino mau
e jogo carocinhos de laranja
pela janela da minha varanda.

Antigamente
era perverso
e jogava

cartas
de amor.

Algumas vizinhas
passaram a me odiar
por meu romantismo.

Até o dia em que cheguei
com uma xícara na mão
pedindo açúcar

à porta
de cada
uma delas.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Deleite

Agora que você não tem nenhum vínculo
com os antigos demônios quem o espera?

O banquete está posto
na sua nova casa
e as moscas
fugiram.

Alimente-se
da sua voz

e cave
um túnel
para guardar
os seus poemas.

Secreto

Não há a menor chance
nem a mínima possibilidade
de agouros funestos perturbarem
a sua cabeça e causarem enjoos ao seu coração.

O entendimento
é um suave
fogo.

A volúpia é doce,
a coragem é delicada.

Acredite, foi o vento
que derrubou a sua fotografia
e a mariposa que entrou no quarto
só queria lhe agradecer o seu presente.

Tabelião

Os meus segredos eu só confesso
em transe consciente, ou seja, 
escrevendo meus poemas.

Jamais ouvirá da minha boca
embriaguez irritante e patética.

Principalmente
porque parei
de encher
a cara.

De cheirar
e fumar.

A fantasia também
tem um fim, filho.

E o que planto 
é a verdade.

Óbvio, a verdade do meu ponto de vista.
Do seu ponto de vista é a sua verdade.

Precisei parar de ficar bêbado,
cheirar cocaína e fumar pedra
pra acreditar no meu mistério.

Meu mistério
que se expande
para você, filho.

Nada de outro mundo,
enlouquecedor e obscuro.

Transformações

Depois que entendemos
que o estímulo das multidões
é a ignorância, passamos então
a amar a solidão e adorar os objetos.

No meu caso, sobretudo 
a xícara branca de café.

Já se foi o tempo em que fazia
negócios com a poesia e o mundo
girava em torno da minha obsessão 
por sombras que lessem meus poemas.

Quem hoje em dia vier à minha casa
saberá que em cada palavra 
existe um transtorno.

Não há outro meio particular de ver o sol
dentro da bota engolindo a meia
ou de uma flor debaixo 
da escrivaninha

se não for
pela poesia.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Gênios

Quando o meu filho me diz:
"Relaxe, pai, relaxe."

Entro em meditação profunda
encho garrafas de areia colorida
e vamos vendê-las em Jericoacoara.

Mas sob essa sombra pandêmica
eu e meu filho resolvemos plantar
abóboras e aproveitando as sementes
alimentamos todos os tipos de passarim.

O meu rapaz
menciona que
os meus olhos
são de graúna.

Fico feliz,
mas permaneço
em meditação profunda.

Floricultura

Já escrevi alguns poemas para ti,
acredito que chegada a hora
de beijar os teus lábios.

Por favor,
não sejas tímida,
tu sabes a que lábios
eu me refiro: um palmo
abaixo do teu umbigo, baby.

Onde nascem flores
em riacho sagrado.

Missionária

Amor eterno
ou amor que finda
são distrações da sua cabeça.

O amor, em si,
é o selo da eternidade
e não faz parte dos suspiros
dos corações ingênuos e vulgares.

A propósito, estive pensando
como despertá-la dessa loucura.

Mas é tão fascinante
vê-la eufórica e febril

entre multidões 
e na cama.

Pareço-lhe esnobe?
Você não viu meu fantasminha.

Pássaros e Oitis

Acabou de chegar o meu suplemento proteico BCAA.
Hei de fortalecer meus braços e as costelas a fim
de suportar a sua alma ninfomaníaca, baby.

Entretanto, acredite, 
na hora de escrever
não quebro o lápis.

Seguro a pena
com a brandura
de um ser etéreo.

E a minha voz é doce de alfenim
com um ácido debaixo da língua.

Rajadas

Você parou para pensar
que o último poema
é este?

O último poema
sempre será aquele
que acabou de escrever.

Uma mulher de luto
passa pela calçada
e me chamam
atenção

seus cabelos ruivos,
a gravidez recente,
os óculos.

Até esqueci
o que escreveria
sobre o último poema.

Vacaria

Anjos que tocam trombetas
anunciando minha vinda,
aviso-lhes, vão ficar
de castigo.

Silêncio,
meus amores.

Desejo o mundo
do jeito carnal
que somos.

Não ousem tocar suas trombetas
invocando a minha luminosidade.

Ninguém morrerá por meus olhos
nem por minha poesia, meus amores.

Tampouco aos céus
do reino fabuloso
serão salvos.

Amo o mundo
do jeitinho carnal
de que tenho na memória.

Por favor, não toquem suas trombetas
anunciando os meus versinhos diários.

Ninguém é maior nem menor 
que a própria sombra, meus amores.

O tamanho exato,
abstrato e fictício.

Oh, juro,
meus amores.

Agora, sigam
e toquem um blues.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Avivamento

O bom Sátiro
nunca se esquece
dos seus cascos de bode.

Afinal, caso esquecesse,
onde escreveria seus versos?

Não há tábua ou papiro
mais reconfortante.

Craterdã

As mulheres 
que você comeu
e as centenas seduzidas
por sua voz de espantalho

já sorriem
para estranhos.

Aliás, as mulheres
só amam enquanto
sentem atração pelo
ocultismo da palavra.

Depois que você se mostra
capaz de ser um covarde
calculando a sua grana,

então, meu amigo,
é hora de plantar
ópio na varanda.

Você precisa de contatos
que transem a sua fortuna.

Veja a cotação da papoula
do Cratinho de açúcar, hein?

Candelabro

Não leia poemas
como se fosse
uma louca.

Poesia é uma espécie
de demônio equilibrado.

Se você ler muitos poemas
como se fosse uma louca
perderá a sensatez
do delírio.

Esquecerá a voz
que guia cegos.

Tentará voar
com chumbo
nas costas.

Não leia poemas
como se quisesse
matar a sua fome.

Poesia é o mundo exausto 
de bem-aventuranças.

Ou 
sei lá 
o quê.

Ouça-me, 
não leia poemas
como se fosse mágica.

Arranque uma unha
com seus dentes

e assopre da janela
o seu último prazer.

Ou 
sei lá
o quê.

domingo, 31 de maio de 2020

Confissões De Xamã

Já lhe contei
que um tempo atrás

adubava as plantinhas da varanda
com as unhas que roía pensando em você?

Uma cresceu tanto,
muito linda, cabelos
amarelos esverdeados.

A minha melhor amiga
e adora quando eu leio
para ela meus poemas.

Voz De Passarinho

Se ninguém viu uma folha seca
que caiu do topo de uma árvore

é um equívoco pensar então
que o instante da queda
não existira.

Mas, convenhamos,
se apenas você contemplou
a folha seca caindo do topo da árvore -

acredite,
você é um deus.

Pentecostes

Agora que estou vacinado
contra os males do ciúme

até que você poderia vir
de vestido rasgado
nas costas

e aquelas sandálias de dedo 
mostrando os tornozelos brancos.

Juro que a última bala do meu scolt
atirei na cabeça de um pombo coxo.

Fiz uma boa ação
e mandei pro céu
dos passarinhos
um pombo coxo.

Não fiz
uma boa
ação, baby?

Oferendas

Que tal oferecer ao mundo
o que ao mundo pertence?

O seu bermudão, as botas do trabalho,
as clavículas do seu primeiro amor.

As orquídeas que morreram na janela
tiveram seu tempo de fama e magia.

Os latidos da garota Lola
animam os seres mágicos
que vivem na minha casa.

Alguns sorriem
criando círculos
com dedos azuis.

Meu Diário

Bebendo meu café
degustando um croissant
fazendo afagos na garota Lola,
diga-me, como ter saudade de ontem?

Já lhe falei
inúmeras vezes
que o passado não tem sal.

Céus, escrever poemas
nunca foi arte, meu bem.

Arte é só o instante do trabalho de carpintaria
em que se pensa seriamente que a morte chegou.

sábado, 30 de maio de 2020

Vapores

Depois que a poesia se recolhe
(não me pergunte o palácio)
eu fico só a casca.

Não há peso,
também não há leveza.

Depois que a poesia se recolhe
(não me pergunte a caverna) 

os insetos retornam
pra levar de volta
a casca.

Sábado

Um dia você acorda
e ninguém dará corda
girando à toa sua cabeça.

Você pensará apenas 
por seus próprios neurônios
e pelas linhas do seu coração.

Você saberá como andar sobre o fogo
sendo sua alma um poço de água transparente.

Nem um nem outro ponto extremo
atrairá o seu humor e sua clarividência.

Só você (desperto)
será o senhor das suas dúvidas
como também dos seus esplendores.

Entenderá que o jogo
não é jogado pela vaidade,
mas por amor a uma força maior.

E você caminhará sobre o fogo
sendo a sua alma uma folha de jasmim.

Bichinho Verde

As últimas chuvas de maio
convidam-me a fazer barquinhos
de papel e lançá-los da minha janela.

Se por acaso
algum barquinho
de papel chegar à sua casa,

leia a minha mensagem
dentro da garrafa de náufrago:

"Mergulhe, debaixo das ondas
os corais são mais sedutores."

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Espião

As pessoas que amo
estão protegidas.

As idiotas
tenho pena.

As que odeio
já sumiram
do mapa.

A poesia é uma arma branca,
escura, que faz sangria
e tira os pontos.

Após os primeiros versos
as suas mãos jamais serão
as mesmas mãos de outrora.

Ainda que você queime
as provas do crime.

As fumaças entrarão por seus olhos
e você verá longe do que é comum.

Bodas De Brumas

Ah, sentirei saudades das minhas cabeçadas
e do cheirinho do meu café debaixo do chuveiro.

Você me promete que assim
que escrever meu último blues
você tocará trompete pelas ruas?

Dê o meu bermudão
ao meu primo do interior
e os meus livros (os remanescentes)
faça doação à biblioteca da comunidade.

As botas do meu trabalho
jogue ao terreno baldio.

Mas, por favor,
com delicadeza.

Lembre-se que o meu último blues
escreverei dormindo sobre seu colo.

Diabinhas

A propósito,
segunda-feira
é o dia do salário,
entenda-se, do pecado.

Já fiz minha toalete
e você dará gritinhos
de louvor à minha pureza.

Sabemos que a nossa volúpia é dourada 
e cingida à nossa alma uma coroa de louros.

Espere-me que chegarei
com aquele rosto em fagulhas.

O mesmo bermudão,
o mesmo andar trôpego,

mas agora (surpresa) 
um bigode cigano.

Pólen

Quando retornar ao seu templo,
por favor, devolva minhas bolas.

Sei que você adorou
o perfume de almíscar
e os campos de girassóis
que contemplou lá dentro.

Mas tenho que fecundar
muitas terras férteis, baby.

E as minhas bolas
são preciosas, hein?

Resguardam
quimeras.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Códigos

Se porventura você acordasse
com a sua capacidade cognitiva
na ponta de um diamante translúcido

seu caminho seria iluminado
por uma potente luz?

E nesse caso, a antiga verdade
seria oculta ou dispersa?

Caberia a quem
o novo homem?

Ao morto ser
ressuscitado?

Ou à ressurreição
que você desconhecia?

Os ratos, elefantes,
leões e pássaros
teriam outros
nomes?

Em que espécie de encanto
você entraria, meu poeta?


As Chaves

É tão comum as pessoas
para não morrerem de saudade
empalharem os seus amores eternos:
Aves, cães, gatos, cobras, coelhos, cavalos.

Por minha vez,
fui mais além

e desenterrei
tua clavícula.

Passo horas e séculos
acariciando o teu osso
sobre minha escrivaninha.

Filosofia

Será muito curioso
tirar a casa das costas
do caracol e ainda assim
querer que o caracol não sofra danos.

O caracol e a casa
são o mesmo ser.

Embora, meu doce,
você possa vislumbrar
vários ângulos e profundidade
sobre o destino metafísico do caracol.

Inclusive negar 
as existências

do caracol
e da casa.

Mas separar o caracol da sua casa
sem que o caracol não sofra danos
será de um ação mística espantosa.

Exuberância

Acredito que neste minuto
meus filhos tenham nascido.

Em cada ponto do planeta
um filho meu berra e abre
os olhos faminto por vida.

Acredito também
que minhas mulheres
estejam todas radiantes.

Lágrimas,
risos, tremores
no ventre e alma.

Céus, como amo
as minhas mulheres
e como adoro meus filhos.

Em cada ponto do planeta
um filho meu berra e abre
os pulmões sedento por ar.

Ah, e as minhas mulheres
como devem estar em êxtase
relembrando meus gestos e palavras.

Enviarei a cada mãe uma carta lírica
e um ramalhete do meu próprio jardim.

Vou colher agora,
agora mesmo.

Talvez consiga
uma borboleta
de olhos lilases.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Bravura

Claro que escrevi muitos poemas
para impressionar meu capitão
que debaixo de uma lona
traçava rotas de fuga.

E eu não parava de escrever
sujo de lama e sangue
entre cadáveres
na trincheira.

O capitão não deu outro passo,
uma granada estraçalhou seus planos.

E você me pergunta
se escrevia poemas
pensando na morte.

Ah, meu doce, escrevia poemas
pensando na curva da sua virilha.

Botija

É bom escrever poemas como naquele tempo
em que não ia à escola e bebia chá de cidreira,
xarope e refrigerante morrendo de febre e tosse.

A luz da manhã
bate direto no rosto.

E as árvores da minha calçada
são minhas amigas de longa data.

Talvez até exagero e disparate,
mas as árvores da minha calçada
são bem mais minhas confidentes
do que amigas dos seus passarinhos.

Dos seus besouros,
das suas lagartas,
da sua chuva,
do seu sol.

Os pés de oiti
da minha calçada
conhecem minha noite.

Durmo de janela aberta
para que os seus galhos
não arranhem a vidraça
imitando meus fantasmas.

Espere um segundinho,
que fantasmas são esses?

Já não existe mentira
entre nossos corações.