quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Segunda metade do século XIX

Entre uma garrafa de vinho
E uma vodca com Dostoiévski
Avaliamos o ano que já se finda.

O russo diz que tem saudade
Dos campos da sua infância.

Pergunto se ele jogava baralho
Naquele tempo ou se namorava.

O russo anda triste
Com as feridas
Dos pés.

Não me responde.
Caminha absorto
Pela floresta.

Grãos de neve
Caem sobre
Seu capote.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Visita de um monge peregrino

Imaginem quem chegou agora à janela da varanda.
Canta enlouquecido das vertigens dos céus e voos.

Penso que esse pássaro (não me seduz saber
A sua espécie) às vezes me suplica água.

E eu (patife)
Ofereço-lhe
Poema.

Epifanias de um ogro

Tenho mania de querer enxergar
A alma da mulher pelo seu corpo.

(Só aos vestidos finos e transparentes
Os meus olhos tocam sedas e nuvens)

Infância

À beira do abismo a pipa colorida
Encantava o telhado antigo
Do casarão dos meus avós.

Não consegui buscá-la.
Mas foi selado o amor

Entre as palavras
E minhas mãos.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Quarto

Dois poemas mortos
Por minhas mãos
Não é sacrifício.

Já apaguei milhares
Dos meus ombros
E vista.

(Outro dia agradecerei
E saberei assentar
O meu santo)

Pétalas em flor

Inacreditável, mas o jardineiro (apaixonado)
Esquece completamente as suas obrigações.

As suas mãos só seguem
O caminho das coxas
Da sua amada.

E quando pensa em molhar o jardim da praça
O outro jardim ensopa seus dedos de encantos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Galante

Cedo ou tarde acordo
E o poema acorda junto:

Beija-me mãos, rói-me unhas,
Coça-me as costas com os cílios.

O poema é uma extensão do meu corpo.
(Esta manhã tirei o dia pra seguir formigas)

celeiro de margaridas

Se uma mente vazia
É a casa do diabo,

O coração vazio
É o próprio
Inferno.

Limpe as suas gavetas,
Mas nunca jogue fora
Os poemas antigos.

Azaleias de um santo

Da outra margem
Jogo o meu braço.

Agora,  poderás
Atravessar o rio.

O amor é um braço
Sobre as correntezas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Arte final

Enquanto você dorme
Desenho os seus pés
Sobre meu colo.

Logo que acorde
Pisará em nuvens.

(Serão minhas costelas)

Tonel de carvalho

Desde o tempo
Em que quebrava
As pontas do lápis

E fazia calos nos dedos
Da minha máquina de escrever
Que tento refinar os meus poemas.

No final, quem apura cada verso é o leitor.
(Claro, meu anjo, que o olhar do poeta cega)

Vívido

Quando o poema pesa
Eu penso que sou ave.

Vou até a varanda
E pulo de guarda-
Chuva ou capa
De plástico.

Sabe aquele plástico
Que adoramos espocar
As bolinhas? Pois então.

Cântico

Não há como colher grãos de tempestades
Se não abrirmos os olhos e entrarmos
No olho do furacão.

Os pedaços da gente
Ainda que se confundam
Com pedaços de outros seres
São ossos de homens e mulheres.

Humanamente,
Sem traços
Do além.

Minha fuga há de ser nesta terra.
Neste mundo. Admirando
As artérias das mãos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Cafeteira

Minha cafeteira deve ter cerca de oito anos.
Não sei qual a equivalência entre a idade
De uma cafeteira e a do humano.

Talvez, a cada ano de vida de uma cafeteira
Seis anos da gente. Logo, a cafeteira de casa
É uma jovem senhora de quarenta e oito anos.

Distinta. (Só não gosta
De fazer amor em silêncio).

Adora uns sussurros
Quando faz meu café.
(E passo por perto dela)

a promiscuidade pode ser delicada

O lenço que tu enxugas teus olhos
Se tu imaginasses que nesse lenço
Guardei filhos que nunca vingaram.

E sinto uma espécie de gozo
De assistir a meus filhos órfãos
Sendo conduzidos por tuas lágrimas.

(Até os lábios)

Bodas de lírios

Desamparo, meu bem, conhecerás ao chegar aflita
(Fraca e débil da tua ressaca) e não encontrar uma alma viva.

Sequer um bilhete preso à porta da geladeira. Um travesseiro
Rasgado ao meio. Um copo de conhaque jogado no tapete da sala.

Nem um grito dentro das gavetas.
Nem um gesto mais brusco pelos cantos.
Nem o espelho quebrado manchado do meu sangue.

Só o meu perfume
No centro da casa.

De quem já foi
E levou os sapatos.

Trombeta dos anjos

Se for tristeza
Dentro do seu peito,
Cante: não enrole a dor.

Licores

Por meu coração
Os meus dedos correm
A soltar as rédeas do poema.

(A carruagem voa)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A Ceia do meu bem

O meu ofício
De fazer poemas
Não tem tanto glamour.

Cigarro entre os dedos,
Uma garrafa de uísque,
Olhar charmoso distante:
Quimeras, minha querida.

Escrevo poemas sem camisa.
De bermudão. Com palito nos dentes.
(O máximo uma xícara de café ao lado)

Não há ouro dentro dos meus bolsos.
Nem mágica nas palavras que escrevo.

Basta-me aquele olhar de quem parte.
De quem diz adeus mil vezes e não parte.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crepúsculo

Parece que perdi outra alma.
Sempre a mesma sensação de perda
Quando bebo meu café antes do sol morrer
Nas grades da varanda. (As páginas de um livro
De um escritor da segunda metade do século XIX
Gordurosas dos meus dedos. Isso já é outra morte).

Botequim

O poema de amor é livre
Para ser tatuado nas costas
De uma gaivota ou serpente.

O poema de amor
Há de ser fantástico

Tais as cartas
De Fernando
Pessoa.

Ou as epístolas
De um padre
Pro filho
Pagão.

O poema de amor é como perder
Um amendoim no tapete da sala.

E nunca mais encontrar.
E se encontrar, já não servir.


Éden

Prova de amor pra um Sátiro
É deixar a marca do batom da amada
No seu casco de bode por toda a eternidade.

Nem que as outras ninfas o crucifiquem
Aos pedaços pelas cerejeiras dos bosques.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Fábulas de um caolho

Quando amo
Paira a certeza
Da minha morte.

Meu coração (arguto)
Tenta enganar a mente:
"Sonha, poeta, sonha..."

Mas é só na morte que penso.

Não há como viver
Com esse peito
Acelerado.

Um segundo
Pra bater asas.

perfume secreto dos clãs apaixonados

Tinha o hábito, meu bem,
De fazer ritual com as plantinhas da varanda
Juntando à água da chuva pedacinhos das minhas unhas.

Acreditava que ao aguá-las
Com essa poção mágica
Uma mulher especial
Furaria meus olhos.

E tu acendeste
A minha alma.

Ah, como é divino andar cego pela casa
Tropeçando na mesa redonda de vidro
E pedindo perdão por tanto amor.

Alforje de sátiros

Ao primeiro encontro
Guardarei pra ti
(Sem medo)

Meus dentes amarelos.
Meus cabelos brancos.
As unhas dos pés
Enormes.

Só não levo este meu olhar triste.
Pois vejo que mudou um pouco
Meu jeito de olhar o mundo
E não fazer a barba.

Religião

Será um duro golpe
Ao pássaro que crê
Em eternidade

Diante das suas asas
(Só os finos gravetos)
Alimento das formigas.

Entenderá o pássaro
Que o eterno já acontecera
A cada nuvem de chumbo e névoa.

Agora é tempo do renascimento das formigas.
Vê-las andando pela mesa com ares de arcanjo.

Olhos
De fogo
E perdão.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Crioula Blues

O poeta feliz seria um desastre:
O sinal de carne dentro do olho,
O corte da gillette no pulso direito,
O andado trôpego de um náufrago,

O universo que tu amas,
Amor, deixaria de existir.

Diz-me se as nuvens cinzentas
Não brilham mais dentro da alma.


Antes de dormir

Sabe, meu bem,
Onde habita minha alma?
Vê dentro do seu coração.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Laboratório

Por muito tempo
Imaginei que a alma
Vivesse dentro dos olhos.

E olhava pessoas
A causar espanto.

Hoje, antes dos olhos,
Vejo primeiro as mãos.

Os gestos.
(As palavras)

As mãos
Que indicam
Se a alma mente.

Sisudo

O sol bate na toalha
De símbolos natalinos.

Um ursinho pula.
Dois ursinhos pulam.
Três ursinhos (não vou contar
A toalha inteira) basta dizer que o sol
Bate na toalha verde de símbolos natalinos.

Artífice dos Querubins

Aguardo o poema
Enquanto a poesia
Beija os meus pés:

É um jovem senhor
Esse vento que entra
Pela janela da varanda.

Traz na mão uma pinga.
E um relógio de bolso
Preso à cintura.

Parece meu pai
Após esculpir
Seus anjos.

Meu pai tapava-me os olhos
Com os seus dedos trêmulos.

Só depois de traçar
A musculatura das asas
Dos seus anjos de cemitério
Dizia-me que ainda faltava o olhar.

Meu pai nunca esqueceu
O olhar melancólico
Dos seus anjos
De jazigo.

Sabia como ninguém
Cinzelar a tristeza dos céus.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Os anjos de libra

Os anjos da terra
São aqueles anjos
Que cansados
Dos céus

Escolheram
Ser musas.

Algumas delas (até hoje)
Cuidam dos sonhos
Do seu poeta.

Luto

Enquanto não ouvir a tua voz estarei de luto.

A minha xícara branca estará de luto.
A mesa redonda de vidro estará de luto.
As plantinhas que respiram meu ar estarão de luto.

Enquanto não ouvir a tua voz
A minha poesia estará de luto.

E não haverá tempo
Que não paire luto
Sobre as palavras.

Lembrarei do velho corvo
Que me beijava os pés
De alegria.

(E eu tinha
Medo).

Altar de palavras

O esmero
Dos poemas a que nos esforçamos
Não impede o princípio da angústia.

A arte da carpintaria
É justamente polir
O que falso
Brilha.

Capela

Desde criança
O que me atraía
Em uma vela acesa

Não era o fulgor
Das cores da chama.

Mas as lágrimas da sua cera
Que queimavam meus dedos.

Inevitável, mais tarde,
Não escrever poemas.

A mecânica das nuvens

Filho, escreva com a necessidade
Básica e urgente de pôr o corpo
De pé:

De quem se alimenta,
Bebe água e tem vícios.

Esses poemas, filho,
São os que viverão
Após sua morte.

primeira xícara de café

Os babuínos
Quando comem
Frutas silvestres
Esquecem suas presas.

Lição de casa

O coração é só um coração
Com seus fluxos sanguíneos
Que pode salvar a vida
De um doente.

Mas se escutarmos atentos
O que o coração nos diz
Em uma manhã
De sexta

Será como ver
Pela primeira vez
As nossas calçadas.

A poesia é uma palavra tênue
Entre dois mundos cabíveis
(Um na realidade
Do outro)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Auréola de fogo

Existem pássaros que nascem
Com um pesar de grilhões
Preso aos tornozelos:

Sempre que voam
Rasgam a terra
Escurecem
Os céus.

campos de margaridas

pra  Janice

Os mitos caem
E tornam-se poetas
Quando se levantam:

Cientes da eternidade
(E da dor humana).

Moinhos

Quisera fosse uma espinha de peixe
Atravessada em minha garganta,
Baby.

Pediria ao porteiro do prédio
Bater-me forte as costas
Com um martelo.

Mas o suspiro
(Revestido de cianeto)
É bem mais assombroso.

O destino de um ouriço

A solidão é o sinal de carne
Dentro dos meus olhos,
Meu amor.

Arde, mas
É meu olhar.

O estúpido

(Guardo uma dor intransponível
Que nem o próprio poema revela)

Embora a perdição do náufrago,
Em alto mar o brilho das estrelas
É um convite à morte tranquila...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O sal

O mar cansado da menina
Que lhe roubava com um balde
Todo o seu sal e de noite refinava o sal
Debaixo da cama com os seus pesadelos
Afastou dos pés da menina todas as praias.
.
A menina não resistiu ao sorriso:
(Ocultamente sabia que nunca faltariam
Ciscos e traves a lhe queimarem os cílios)

Lara Amaral passou a colher o sal das estrelas.
E todas às noites subia ao telhado com o balde.

Flores de jambo sobre capô de carro antigo

O perdão não vem por palavras.
Pelo cansaço, sim. Quando apenas
Suspiramos (entediados) indiferentes

Ao ódio
E mal.


Maquinista

Lavo as louças do almoço
Com um olhar tão brando
Que os talheres caem
Das minhas mãos.

Antes que cheguem aos pés,
Consigo trazê-los de volta
Com um sorriso.

Só o garfo tenta
Espetar-me
Os olhos.

Epifanias

Sabe aquelas palavras beijando-lhe
Os braços e um ósculo que molha
Seu rosto?

Então você desperta
E percebe que o poema

(Raiz dos ossos)
Já tomou-lhe
A alma.

Preguiça de um metafísico

Não arrumo a cama
Logo que eu acordo.

O deleite das férias
É voltar aos lençóis
Tépidos de outros
Corpos.

(E são tantos fantasmas
Ainda quentes que dormem).

A virtude dos vermes

As baratas ao sair dos seus buracos
Não deveriam temer a luz dos meus olhos.
Desde criança que elas conhecem meu santo.

Não as odeio, apenas são asquerosas.
As minhas formigas, por exemplo,
São bem mais impuras
E cínicas:

Fingem comer só açúcar (puritanas)
Mas sabe-se lá onde se metem
Quando durmo.

As baratas não mentem. Não precisam.
Afinal, não têm elo comigo. o negócio delas
É ocultar-se em porões, buracos de encanamentos
E caixas de sapatos. E apreciar a decadência humana
De camarote comendo sobras e lambendo louças de ontem.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Estreitos de mediterrâneos

As minhas mãos
Além de escrever
Poemas e poemetos
Sentem-se mais felizes
Fora de ação das palavras.
(Onde meu corpo sua diferente)

Palavreador

Se meu poema
Não me quebrar
Uma costelinha
Enquato suspiro

Fico, então, meio sem
Graça, indeciso, triste.

Uma moeda de ouro
Não é o suficiente
Pra cada costela
Que quebro.

Das névoas de chumbo

Já não consigo dizer a palavra amor
Com a mesmíssima pureza e doçura.

Amanheci manco, caolho,
Preso a um coração
Desconhecido.

Levanto minhas botas
Pra ver se debaixo
Há as nuvens
De outrora.

Quem salvará
Aquele inseto
Da parede?

Só tenho uma chance
De acertá-lo no exoesqueleto
(Entre o abdome e a sua cabeça).

Tamarindos

De volta à terra sagrada do tédio.
(Como é bom estar em casa
Lúcido e sem uma gota
De esperança)

Que os passarinhos
Não me venham
Esta manhã
À janela.

Estou ótimo

O magnífico vazio

O dom da poesia
Não é enfurecer
O poeta ou
Educá-lo.

Mas, apenas (tão somente apenas)
Trazer o poeta à realidade do corpo.

Sério, alma
É um alento.

E como todo alento
Há manhãs de fracasso.

Perdemos o rumo do que foi escrito.
(Só aí encontramos alguma verdade)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Palavras

O encanto é como
Uma bolinha de sabão:

Deixe que flutue pela casa,
Pelos móveis antigos,
Pelo jarro de rosas
Brancas.

E ao chegar ao seu braço
Não assopre não fique ansioso
Espere que o vento rompa o sonho.

Mas nunca toque.
Nunca toque.

(Não peças tempo
Ao amor)

Subterrâneos de uma taberna

O ferreiro (quando melancólico)
Queima as mãos ao forjar
A espada.

O rei precisa de uma lâmina nova
(Invencível) que rasgue pétalas
Com a doçura de partir
Aços.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Encruzilhada

Não é apagando uma palavra
Que se esquecerá do poema.

O que é escrito na areia da praia
É escrito pelas nuvens dos céus.

(Mesmo após retirarmos
Os anéis dos dedos

E lavarmos
As mãos).

Das epopeias amorosas

Esperei o pessoal de casa dormir
Para chorar em paz sobre a mesa
Redonda de vidro da sala de estar.

Demonstro pras minhas formigas
Que o cristal dos seus açúcares
Tem o mesmo brilho das minhas
Lágrimas. Agora estamos quites
(Eu e as minhas tristes formigas).

Sem modéstia e sem rancores
Deixo a jangada em alto mar
(Recuso a carona no dorso
Dos meus golfinhos)

E como um Cristo
Atravesso as águas
Andando em sonhos.


Crepúsculo

Se o passarinho
Pedir trégua dos céus
Haverá algo muito estranho:

Ou um céu lânguido, sem luz,
Ou investido de nuvens de fogo.

Monta em teu cavalo malhado,
Meu bom e doce e louco
Quixote.

Segue.

(Por trás das montanhas
Novos moinhos te esperam)

Botequim

As lágrimas belas
Não são aquelas
Que descem
Pelo rosto,

Mas as que
Coração bebe

(E fortalece)
Embriagado.

O tempo dos assombros

Tive na mocidade uma máquina de escrever
E uma escrivaninha de madeira nobre e rude.

Não me lembro do sumiço
Da máquina de escrever.

Mas, como se hoje, vejo a escrivaninha
Sendo desparafusada e encaixotada
Debaixo da cama.

Há tardes em que me faltam a volúpia
Das ranhuras dos meus pulsos sobre
A escrivaninha e os calos das pontas
Dos meus dedos que eu conseguia
A cada palavra imposta das teclas
Da máquina de escrever.

Mato a saudade
Da textura da morte
Segurando firme o lápis.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Noviço em campos de dálias

Não é céu
O nosso amor
Em nossa cama,

Embora meu corpo voe
E minha alma penetre
Tua carne (em calda).

O nosso amor
Em nossa cama
São raízes e caules
Amêndoas e sândalos.

Não existem nuvens (nem estrelas nem pássaros)
Sobre o nosso amor aos gemidos em nossa cama.

Só mãos e lábios,
Peles e mordidas.

Louca a tua alma
Guardará o vinho
Pro último adeus.

(E tu levarás a febre
Da minha despida).
O nosso amor é belo
(Eterno e fulgurante)

Por existir poesia
Tesão (e muita febre)
Em nossos olhares e mãos.

Baby, a verdade
É que sou um Sátiro
Com asas de passarinho.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Esfinge

O poema tem predileção
Pelo pó, cinzas, traças,
O escuro das gavetas.

O poema se conforta
Por entre páginas amareladas
De um dicionário antigo de latim.

O poema sem leitores é um poema sábio:
As palavras não alcançam a sua vaidade.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Das divindades

Dizemos que é amor.
Afinal, não encontramos
Outra palavra tão generosa.

Se disséssemos paixão
Resumiria nosso encontro
Às nossas peles e aos desejos.

Se fosse aos nossos olhos
Nosso encontro apenas
Amizade

À carne dos nossos corpos
Haveria limites e fronteiras.

Mas se nós confessamos
Aos nossos corações
(E ao mundo)

Tratar-se de amor
Nosso encontro

Esclarecemos, então, aquele mistério
De algo dentro das nossas almas
Que não se molha enquanto
Tomamos banho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Exclusividade amorosa

Aquele embevecido
Ainda que conheça
Os corvos da noite

Dele não cessará o doce
Do suspiro da sua amada.

O mundo egoísta e triste
Ainda que egoísta o amado
O seu olhar não será diabólico.

E lá (onde os corvos sobrevoam
E a tristeza paira) aquele embevecido
Sequer notará que seu egoísmo é encantado.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Entoada

Amavam-se em todos os sentidos
Que já se encontravam confusos.

Para aliviar tão paroxismo enlace,
O Sátiro e a sua Mudinha (assim
O amado chamava sua mulher)
Partiram em busca de
Aventuras.

Dançaram na praça.
Comeram carne de porco.
Beberam espumante e vodca.

Gargalharam dos seus algozes.
Livraram-se das mágoas filosóficas.
Chutaram o pau da barraca, fumaram
Maços de cigarros (da marca da Mudinha)
Cantaram blues e samba e amanheceram felizes.

Os pombos são doces
Com as suas mudinhas.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Platônico

Da janela da varanda
Não eram folhas
Que o vento
Agitava:

Andorinhas, eram mil andorinhas,
Coladas nos galhos das árvores
Da minha triste calçada.

(Ainda bem que não eram corvos.
São mais sombrios e mais felizes).

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Horus

É natural que ao sair de casa
Eu passe bem demoradamente
O meu novo perfume no colarinho:

Em volta do meu pescoço
Quero-te suspirando
A cada passo.

(Tenho a tua respiração
Sobre os meus ombros)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ritual dos querubins

Os pássaros morrem de febre.
Encoste o coração de um pássaro
No seu rosto e você saberá o que digo.

O frio, a tempestade,
A chuva que molha
As plumagens

São venenos de criança
Dentro do coração
De um pássaro.

Os pássaros (das colinas que comem ratos
Ou dos mares que mergulham e pescam)

Não temem o frio
Nem vacilam.

Só têm febre
Em suas artérias.

E de febre terçã,
Arrebatados,
Líricos,

Um dia
Morrerão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O amor tem desses arroubos

Há suspiros (meio bobos), querida
Que me engasgam, antes mesmo

Do primeiro beijo
E da primeira oração.

Nem percebemos as costelas,
Aos poucos, partindo-se
A cada sonho.

O amor é eterno
Seja em qual sentido
(Do corpo ou do silêncio)

O amor não volta atrás
Depois que diz sim
E liga almas.

E veja só,
Como baila
Aquela formiga!

(Fora do açucareiro
Parece-me mais doce)


Canção de feitiços

Se o trovador não cantasse o amor
Que tédio das estrelas após a morte.

O que seria dos bichanos
(Em noites de volúpia)
Sobre o telhado antigo
Do casarão dos
Meus avós.

O poeta não canta o amor
Somente pra si e sua amada.

Também canta pras estrelas que morrem
E pros bichanos que fodem em noites
De volúpia sobre o telhado antigo
Do casarão dos meus avós.

domingo, 23 de novembro de 2014

Aquarela

Meu coração tem seus segredos
Que nem mesmo ao poeta
Abre a boca.

Não me diz, por exemplo,
Onde arranja tanto espaço

Aos delírios de delicadezas
Que circulam pelas artérias.

Aproveito-me do seu comportamento
(Silencioso e sanguíneo) e tento
Envolvê-lo com meus poemas.

O máximo que meu coração
Confessa-me é que nunca
Amei desta forma.

E que no abismo
Tem o perfume
De margarida.

Alado

Nunca tive pássaros em gaiolas.
Os passarinhos que vieram a mim
(E ainda hoje chegam à minha janela)
Vêm todos por livre e espontâneo encanto.

Nunca esquecerei do dia
Em que um pousou sobre
A poncheira de vidro.

Por eternos minutos, olhou-me a alma
Enquanto (trêmulo) eu segurava um livro.

Depois, delicado e voraz em sua fuga,
Sumiu resvalando-se as asas pelas
Paredes do corredor.

Não corri atrás.
Nem blasfemei
Por sua fuga.

A sua beleza não havia sido o pouso na poncheira de vidro.
Tampouco o tempinho que me olhou a alma. Mas o seu voo.

Sandálias de um monge

Não dá pra levantar a mão
Nem a espada contra
O inimigo a ou b.

O jardineiro de um tempo pra cá
Só consegue plantar margaridas.

(Com ajuda
Da natureza
Selvagem).

O homem mais lírico do mundo

A força da poesia é leve
Conduz minhas mãos
Aos seus olhos:

Sem acordá-la,
Escrevo nas juntas
Dos seus cílios meus versos.

sábado, 22 de novembro de 2014

Telefone

Em companhia do meu amor
Aproveito cada pausa
Da sua respiração.

Não posso perder tempo
Em almoçar, jantar,
Beber água
Ou café.

Namoro em jejum do corpo.
(Assim, minha alma levita)

Centelhas do amor

Um pombo passeando pela calçada
(Sob o sol impiedoso de novembro)
Indeciso entre atravessar a rua
Lembra-me da janela

Que o poder da contemplação
É maior que o poder da grana.

O tesouro do poeta
Guarda-se em suas retinas
E os cílios lacrimosos são palavras doces.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Janela aberta

Depois de conversar contigo
(Namorar-te) se eu morresse
Iria pro céu: onde querubins

Bebem vinho
E tocam piano
Quando felizes.

Deu uma tonteira
Enquanto lavava
Meu rosto, amor.

Não tive medo de
Desmaiar no banheiro.

Só pensei
Em escrever
Último poema.

Ronda

A verdade é que as plantinhas da varanda
Nunca foram minhas, mas dos pombos.

Que só vêm à janela para seduzi-las,
Iludindo-as com seus olhinhos
De malandro.

Contudo (já estou acostumado)
No final de todo drama serei
O jardineiro a regar-lhes
A tristeza.

Não encontram um melhor Quixote
Disposto a passar a madrugada
Ao lado delas lendo um livro,

Cortando as unhas,
Bebendo a última
Xícara de café.

Aéreo

Tenho sempre um band-aid na carteira.
Nunca se sabe qual a andorinha
Que nos chega às mãos.

Algumas de bicos
Doces e sensíveis.
Porém, cortantes.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Narguilé

A poesia é uma concha de mão
Que acumula as vozes
De quem escreve.

Quanto mais poemas escritos,
Vozes guardadas entre
As palavras.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sopro

Os poemas falam por si.
Cada palavra tem seu próprio mundo.

Quando escrevo um poema de amor,
Não é mais o poema que fala:
Sou eu pra você
(Sem ponte)

Tríade

Cantarei o amor,
Ainda que doa.

E eu próprio julgue indecente
Este meu vazio (essa morfina).

Cantarei o amor
Por já não ter pés
Que pisem o chão.

E já não ter asas
Que me elevem
Aos céus.

Cantar o amor
É uma forma
De perdoar

A minha falta de jeito
Em ser mais poeta
Do que homem.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Mensageiro

Até onde o poeta pode ir?
Até onde a poesia permite.

Um passo a mais (ou recuo)
Já não existirá humanidade.

Tu recebeste a graça.
Mas não é contigo
Que a poesia
Quer falar:

Com eles
Que tossem
Ao teu redor.

domingo, 16 de novembro de 2014

Diafaneidade

As palavras mudam de escamas
De acordo com o dia (certamente
De como são folheadas as páginas).

Um livro de poesias
Lembra muito mais
Do que um passado.

Uma época,
Uma estação.

Segurar um livro de poesias
Cheirar as páginas e olhar os dedos
Trêmulos, loucos pra fazer partos de palavras
É como se comporta um apóstolo diante do milagre.

No meu caso,
Choro.

Óleos dentro de ânforas

Eterno não é o poema.
Eternos são esses besourinhos
Que ainda hoje batem contra a lâmpada.

E nem sempre chove.
Mas os besourinhos são eternos.
Desde a minha infância, meu amor.

Constituição poética

Quando se está com a palavra na boca
E ela não vem e o verso agoniza:
Procure a palavra
No coração.

Exuberâncias

Não há crime
Em matar
O tempo.

Alguém nos segura as mãos.
E somos nós mesmos.
(E não somos) .

Navios na palma das linhas

Nunca me vi quebrando o lápis
Partindo-o ao meio com ódio
Do ato de escrever poema.

Nem se fosse
Uma guitarra.

Talvez ateasse fogo
Às minhas mãos,

Depois passasse pomada
E colasse penas de andorinhas.


Terceiro sono

A seiva do amor
É a própria loucura
Pra quem conhece
A lucidez da solidão.

Antes de arar a terra
O melhor do alimento
É o tempo em passar
Admirando a semente.

Escreva poemas pra sua pequena.
Mande-lhe flores, ainda que figurinhas.

Um dia serão essas lembranças
O seu presente de aniversário.
(A aliança indestrutível
Com a inocência).

O amor será eterno
Por sua coragem.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Viagem sob chuva

O café está no fogo.
E eu penso em como você
Chegou: se o carro não pifou na estrada
Se você não dormiu ao volante (prometo
Que serei mais cuidadoso com seu horário).

Meu amor, você é uma pequena engraçada:
Diz que sou um poeta imenso, no entanto
É a imensidão da sua alma
Que me inspira.

Até os mais sombrios e acres
Aos mais etéreos e doces
Os poemas que escrevo
Seguem seu perfume.

E os meus dedos
Sentem o cheiro da delicadeza
A quilômetros de  distância: o que fazem?

Saltam das minhas mãos,
Senhores deles próprios,
Combinam com as palavras
Aqueles poemas mais geniais.



Sexta-santa

A eternidade do poema de amor
(E dos seus óbvios encantos)
Não se alimenta dos versos.

Como não sabemos quais as nuvens
Que nos acompanharão os ombros
Em um dia de sol e felicidade,

Também não julgo necessário
Que os versos sejam de fato
Eternos em suas palavras.

Basta que o poeta
Suspire profundamente
E partam-se duas, três, costelas.

Um lírico faquir

Levantei-me de madrugada
(Não acredito) só pra vê-la
Em sua cama.

Você dorme de camiseta regata
Sorrindo (sorrindo) sabia, amor?

Não sou vidente,
Gente que levita
Ou deixa o corpo.

Apenas é muito fácil
Pro poeta escrever versos
Com ares de magia, se não dorme
Nem toma mais analgésicos de cavalo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Essência

Tu, se não uma ponte,
Um córrego sereno

Pra que molhe
E descanse
Meus pés.

O caminho ainda é longo
(E um dia eterno)
Do meu amor.

O taciturno

Um poema que não emociona
Manca tanto quanto o que doura
A toalha da mesa com raios de cílios.

E as formigas já não conseguem
Caminhar em paz, lúcidas e tristes.

Investigam o meu olhar
Como se fosse o poeta
De cada uma senhor.

O marceneiro

O poeta (o poeta de verdade)
Logo que morre não chegam
Passarinhos à sua janela
Nem lagartinhas de fogo
Pelo chão das suas
Pegadas.

Os versos que foram escritos
Por alguma ingênua cumplicidade
Enganam os olhos da criança que dorme.

Do barro dos seus dedos
Há uma espécie de ópio,
De colorido, de vento
E terra

Que vai, pouco a pouco,
Entrando pelas unhas
De outras crianças
Que acordam.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Etéreo

Sabe, meu filho, apaguei aquele poema.
Aquela odisseia em que zombava dos inimigos.
Afinal, não sou uma mocinha de lacinhos dourados
Que resmunga contra o espelho mostrando os dentes.

A poesia é cortante
(Cruel e fina) quando
O leitor não se envolve:
Nunca gostei dos épicos.

Dizer-lhe agora, meu filho,
Que salvei a sua vó de um tombo
Ao retirar do caminho cascas de banana
É mais louvável às minhas tardes melancólicas.

Doméstico

Ontem nunca amei tanto um objeto
Quanto o ferro de engomar, mesmo
Após ele com seu bico pegando fogo
Houvesse queimado meu pulso direito.

Eu que fui um paspalho
E não mantive distância.

Não gritei palavrões,
Sequer franzi o cenho.

Diante dos meus olhos a camisa do trabalho
E outra polo azul sorriam felizes
De tão bem passadas.

Como odiar um objeto
Que encurta as distâncias
Do tecido esticando o algodão?

Mar de rosas de cianureto

O poema não é intocável
A quem tem o poder
De reescrevê-lo.

A cada poema que apago
(Ou refaço seu caminho)

É como se deixasse pra trás
A ingenuidade de um sonhador.
E debaixo dos escombros eu ouvisse
Bem melhor as vozes dos meus mortos.

Arrebol

Mesmo que arranquem os braços de Dom Quixote
As suas mãos viajarão aquecidas dentro do seu alforje:

E sob moinhos ameaçadores
Os dedos pagãos sabem
Escrever versos.

Da lucidez lisérgica

Por quanto tempo esqueci a porta da geladeira aberta?
Só notei algo de estranho quando o frango
Aos meus pés debaixo da mesa
Dava-me tapinhas na perna
Agradecido:

"Cara, tava muito frio lá dentro,
Obrigadão..."

Os frangos caminham de forma engraçada
Pela casa em estado de descongelamento.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Samba de dor de cotovelo 3

Minha cabeça rola pelos degraus do cadafalso.
A boca aberta, querida, ouça-me a voz trêmula:

"Sábado não saí de casa
Estava morto a dormir
Na minha cama..."

Assim, meu fantasma
Levitará sobre as mesas
Dos meus inimigos na hora

Em que (às gargalhadas) brindarão
A minha morte e o meu último samba.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Elegia

O amor é um ponto de equilíbrio
Que ajusta meu coração trôpego.

A poesia (sempre maior que o poeta)
Salva meu corpo enquanto a alma
Perde-se dentro do próprio abismo.

O paraíso de quem ama não acolhe
Os suspiros dos que ficaram na terra.

(Coragem, meu filho,
Enlouqueça no alto).

sábado, 1 de novembro de 2014

Chuvinha

Adorei esses dias
Conversar contigo.
Ouvir suas histórias
De infância, seu amor
Por antiguidades, os mistérios
Da sua árvore genealógica. Confesso,
Se ao teu lado, meu anjo, teríamos derrubado
Bem mais de uma garrafa do seu vinho chileno.

Talvez,
Três.

E dentro de cada garrafa vazia
Guardaríamos um poema.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Branquinha

O mistério ainda é criança
Diante do seu olhar de névoa.

Um lago transparente
Em que as nuvens
Dançam.

(Lá os passarinhos não bebem água:
Molham os pezinhos encantados
Com medo de atrapalhar
O seu meio sorriso)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Pivete

A pasta dental chega ao fim
Sem qualquer indício de ansiedade.

Quando meu filho era pequeno e morava comigo
O tubo da pasta dental vivia estrangulada
Todas as manhãs.

(Era uma casa
Feliz)

Colírio

Pensava, outrora,
Que o poema escrito
De mim consumisse algo.

Uma ranhura labial.
Um fio de cabelo.
Uma costela.

(O cansaço pertence
A quem ouve a voz).

A filosofia dos relapsos

Os pássaros não olham pras asas quando voam.
Nem os peixes refletem sobre a própria respiração.

Sem expectativas e sem assombros
Os pássaros avistam as montanhas.
E os peixes nadam de olhos abertos.

Se poetas, os pássaros
Morreriam do coração.
E se peixes, os poetas
Acordariam sufocados.

Mas Deus (esse meu velho amigo)
Não brincou em seu ofício de criar:
Negou ao poeta a tolice do encanto.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Os xamãs adoram café

Havemos de ter cuidado
Quando passeamos pela casa
(Trôpegos) mexendo a colherinha

No café
Quente.

Sobretudo se a xícara for minúscula
Encontrada por acaso no armário
Com aquele olhar tristonho.

Doçura

Tu me ofereceste uma maçã.
Sorrindo (sempre sorrindo)
Disseste que já estava
Lavada.

Toquei em tuas mãos,
Vi parte dos teus seios.

O amor é só isso.
Sem embalos frenéticos.
Sem exaltações à eternidade.

Dia de rei

As coisas do mundo
Não chegaram aos nossos olhos
Para vistas e às nossas mãos para tocadas?

Lutar contra a ilusão é um caminho ingênuo, poeta. ´
Não desvie o seu olhar do que é efêmero, tampouco
Esconda suas mãos do toque pelas faces do nevoeiro.

Amarrar um guizo de fogo
Aos tornozelos e fugir
É patético.

O seu abismo haverá algum sentido
Se o seu corpo for homenageado
Sob a lucidez da queda.

domingo, 26 de outubro de 2014

Desconstrução

Não há tempo bom
Nem tempo ruim
Para o poema.
O poema avisa
Que chegada
A hora.
E o poeta obedece
(Pois não é louco
De não obedecer)
A poesia é só a cúmplice
Do coração enfartado.

Os doze gatinhos

Você me mostrava
Seu álbum de gatinhos
(Se não me engano, doze)
Espalhados pela sua casa:

Sala, dentro do guarda-roupa,
Dentro da sua mala, entre suas coisas,

Enquanto só tinha olhos pro seu sorriso e pensava:
"Mas que gatinha essa protetora de gatinhos órfãos..."

(Hilário, baby,
Aquele escondido
Dentro da geladeira).

sábado, 25 de outubro de 2014

Brincos

Peça-me pra parar de escrever.
Peça que eu paro. E juro que
Só irei à varanda aguar
As plantinhas.

A sua poesia
Já me preenche.

Arroubo

Escreverei um poema
No meu antebraço
Com pigmento
Nanquim.

Uma tatoo
De letra clássica.

Nenhum verme
Depois de morto
Ousará borrar
Os versos:

"A minha morte é lenta,
Pois o amor não se acaba..."

Foguista

Na beira do cais
Os ais são divididos:

O marinheiro leva a saudade,
A mulata sabe que de noite
Tem samba (suspira).

Pensa na água nova de colônia
Que passará entre as coxas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Aspirações

Não espere um dia alguém pra amar:
Comece agora a olhar diferente
Pros cadarços dos seus tênis

Largadões,
De braços abertos,

Enlaçando as sombras
Dos insetos do seu quarto.

Canoeiro

Descobri por encanto
Que há passarinho
Que entra

Pelas casas de barro
Das vespas solitárias.

Não suja a plumagem.
Sequer muda a curvatura do bico.

Encolhe-se, entra,
Explica às vespas solitárias
Que só quer conversar um pouco.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Cotidiano

Acabei de engomar a calça cáqui do trabalho.
(E uma camisa esportiva, de tecido, discreta).

Não gosto de passar roupas.
Dá-me vontade de fazer tatuagem.

Encostar a ponta do bico do ferro
No meu peito e desenhar
Um bosque.

Estepes da Mongólia

Não guardo debaixo da manga
Um poema especial para você.

Em companhia das mulheres que amo
O máximo que ofereço é sexo e atenção.

(Mais sexo).

Embalos de quinta à noite

O meu sinal no canto do lábio
É um sobrevivente: sempre
Que tiro o cavanhaque
(Ou a barba rala)
Sorrio pra ele.

Quando eu era criança
Pensava que fosse
Uma pulga.

[Viu, meu doce?
Podemos escrever
Do que nos encanta].

Mulata plangente

Se tu não fosses noiva
Diria teu nome aos ouvidos
Dos passarinhos que todas as manhãs
Às cinco da matina vêm à minha janela
Perguntar se tenho poemas pro meu anjo.

Jogo-lhes miolos de pão.
E aponto pro céu alaranjado.

Violeta,
Púrpura.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Balão de ar melancólico

Nem mesmo meus dedos
(Depois de só ossinhos)
Saberão dos versos.

A esperança é seguir
O perfume dos seus cabelos.
(Se você não tiver medo de fantasma).

Marítimo

Escreverei este poema
Olhando pro epitáfio
Da minha lápide.

Nada escrito.
Só gramíneas.

"Chico Tristeza"

Como saberei de ti
Se a tua presença
(Névoa diáspora)
Embaça-me
Os olhos?

Os cabelos queimados
Das nuvens de fogo
São outros meios
De cegueira.

Não os guardo mais dentro das pequenas ânforas de cerâmica:
Os meus cabelos agora confundem-se com teu nevoeiro secreto.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ogã

Mesmo que minhas costelas suportem
O peso das flores de cerejeira
Envelhecerei sozinho.

Não terei ao lado uma velhinha saudável.
Com pintas coloridas nas costas e um riso louco.

Vejo-me o destino
Tão só segurando firme
Uma xícara de café e um livro.

(A desvendar o perfume
Dos poemas amarelados
Dentro das minhas gavetas).

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Gânglios

A possibilidade de morrer
Vendo o mundo girar
Não me encanta.

Existe, entretanto, essa possibilidade:
Ouço entre os labirintos da minha mente
Vozes exaustas de tantos rodopios sanguíneos.


Dor de cabeça

A mente do sábio e a do falso entendido
Comungam-se da mesma previsibilidade.

O que difere
Um do outro

É abotoar os punhos
Da camisa de cetim
Com os dentes.

domingo, 19 de outubro de 2014

Noviço

Saberás do que se trata o amor
No instante da falta de ar e as
Tuas costelas partirem-se.

Esquecerás o tormento
Da eternidade, poeta.

Nunca mais se iludirá tua mente
Da tolice da separação entre
Corpo e alma.

O músculo da poesia
(Não te enganes)
É teu sangue.

Não os sonhos.

Dádivas

As folhas das árvores da minha calçada
Festejam saltitantes pelo tapete branco
Do meu quarto.

Juntam-se às batatinhas fritas
Que o meu filho fez questão
De deixar como lembrança.


Cálice

Trago na capa dos meus cílios
O cinismo dos homens pagãos.

Apartada do meu pescoço
A cabeça não tem prêmio.

O que penso foge
À verdade do delírio.

E a minha transparência
(Aquela trocada em silêncio
Entre mim e o meu Deus) ainda
Brilha e aproxima dos céus as unhas sujas.

Entardecer

Depois de tanto tempo
Guardando traças dentro das gavetas
Não morra de tédio se elas se apaixonarem.

Da mesma forma em que se cultiva uma xícara
O lânguido amor dos insetos nos acompanha.

Será natural, então, o seu olhar
Perdido de febre pelas paredes.

Cio silábico

O sonho da palavra
É um dia acordar pele

Sem receio de que o poeta
Julgue escandaloso
O poema.

Pólvora

O poeta não terá descanso.
Nem morto, sobretudo morto.

E você com as cinzas dos meus ossos
Na concha das suas mãos pensará
Onde a minha falta de caráter.

Você terá raiva de mim, mas logo a sua mente
Dirá que é triste zangar-se com um poeta morto.

Lágrimas de fogo

Desde um tempinho atrás, olho pros passarinhos
E vejo somente passarinhos. Com o lúcido olhar
Noto mais encanto: nos bicos, nas plumagens,
Nos olhos desconfiados dos passarinhos.

Não preciso me convencer
De que o passarinho é leve.

Ou de que os céus são chumbo
Sobre suas costas a tempestade.

A ternura que sinto por essas criaturinhas
Não diminui (nem me causa desgosto)
Quando olho pros seus pezinhos
E só vejo pés de passarinhos.

Natividade

É muito importante como fica o poema no papel.
Você (mamãe) não largaria o seu bebê no berço
Sem um olhar atencioso aos joelhos e ao umbigo.

Até parece que os recém-nascidos
Ouvem nossos pensamentos.

Todos os recém-nascidos,
Poemas ou pequerruchos.

Meio-oeste

Esquivei-me de um, dois, três socos do gordo Billy.
Poderia passar uma tarde inteira me esquivando dos socos
Do gordo Billy. A carruagem de El Paso (ou de Santa Mônica)
Ainda demoraria. Tinha até ao anoitecer. Mas resolvi fugir dos socos
Do gordo Billy. Raios, os gêmeos filhos do coveiro juntaram-se ao gordo Billy.

São espertos e maus aqueles gêmeos.
Puxaram ao pai coveiro que roubava
Os dentes de ouro dos clientes
Defuntos e os beijava
Na boca.

(Não era boato).

Que droga de saco de carvão.
Caíam pelo caminho maçãs,
Maços de cigarro, garrafas
De uísque do armazém
Do seu Jack.

Da próxima vez em que saquear o armazém do seu Jack
Vou roubar-lhe a velha espingarda. Será um prazer estourar
Os joelhos do gordo Billy e dos gêmeos sarnentos filhos do coveiro.

Novelos

Há cinquenta anos faço análise.
Só agora compreendi que o bule
De fina porcelana dos antepassados
Preso dentro do armário sonhava em
Passar uma primavera sobre a mesinha
Da sala em volta da gritaria dos meus netinhos
Correndo risco de ser espatifado por seus encontrões.

Como fui uma avó má,
Ou descuidada, tanto faz.

Que droga.

sábado, 18 de outubro de 2014

Surdez

O som de uma xícara
Contra o piso da cozinha
É o reino que resta às nossas vidas.

Se a tua alma não acordou
Com o som da xícara quebrada,
Não será o canto do suicida nem o pássaro.

Anti-herói

Dizia que era poeta
Para seguir em frente.

Agora que perdi as pernas,
O caminho não me importa.

As asas são melhores
Guardadas dentro
Do coração.

sábado, 27 de setembro de 2014

Cabeça

Se eu me calasse
Após ter escrito
Cada poema,

Existiria algum
Entendimento.

A névoa passa
Pelos vãos dos dedos
E antes que ilumine os olhos
O completo nevoeiro cega-me.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Torneio feminino

Não somos donos
Das meninas que passam
Pela outra calçada vestidas
Com shorts e meias de vôlei.

O que os poetas têm de sobra
É uma facilidade em contemplar.

Claro que às vezes uma plantinha
Morre na varanda por descuido
Dos nossos olhos.


Artifício

Faça fogo
Com os gravetos
Que você dispõe.

Basta saber
Esquentar as linhas
Das palmas das suas mãos.

A miopia da delicadeza

Quando você distraído
Passar por um jardim
E as flores sorrirem

Ao alcance
Das mãos,
Toque-as.

(Nem que seja
Com as pontas
Dos seus dedos).

Não se sinta acima
Do bem e do mal.

As suas preocupações de verme
São insignificantes ao delírio amoroso
Das flores de um jardim de prédio ou praça.

Toque-as,
Nem que seja
Com as pontas
Dos seus cílios.

Ou por que você acha que as abelhas,
As borboletas e os beija-flores,
Têm o olhar meio grogue?




terça-feira, 23 de setembro de 2014

Neon

Há instantes em que imaginamos
Encantar a amada com um som mágico
Tirado de um piano velho no canto da casa.

Mas o piano, meu bem, ilude
Aquele que sonha sem esforço.

Vestido de chita

Se à primeira vista
Você detestar-me,
Não fuja.

Não faça macumba
Contra este poeta.

Juro que minha companhia
Ultimamente é bem bacana.
(Voltei a cheirar meus braços
E a sonhar-me com a infância).

Guarde os seus livros.
Guarde o que você aprendeu.

Rodopiarei contigo na calçada
Até cairmos juntos (tontos)
Sem tutano na cabeça.


Inquietude

Um palhaço com riso irônico
Perguntou-me se eu estava
Pintando os cabelos
De branco.

Respondi-lhe
(Cínico) que só se fosse
Pra noiva dele apaixonar-se.

Lembrei-me então
Que a noiva do rapaz
Era tão linda, mas coxa.

Brás Cubas,
Antes de mim,
Já se questionara:

"Por que bonita, se coxa?
Por que coxa, se bonita?"


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Samurai

De verdade,
Parece-me que aquele
Que ama (sinceramente)
Não tem tempo pras palavras.

Prefere a companhia
Do seu amor e o perfume
Dos cabelos e braços do seu amor.

De verdade,
Aquele que gasta as noites
Com o lápis entre os dentes
Pensando em fabricar versos

(Quando as paredes
Começam a inspirar)

Então (penso)
Que o amor cansou.

Sim, baby,
O amor cansa.

E há quem sonhe
Com esse cansaço
Para retornar à vida.

Soleira

Angústia, meu poeta, eu já tive:
Os poemas não tinham intimidade
Com as minhas mãos naquele tempo.

O que escrevo agora
É pele que muda.


domingo, 21 de setembro de 2014

O carpinteiro, o pescador e o ferreiro

O ofício de compor poemas
Ajusta o meu crânio entre
Nuvens e minhas botas
(Empoeiradas) juntas
Sob a escrivaninha.

O que sobra
É um coração
Ávido (tão ávido)
Por mais sangue.

Frescor

Há poemas que gostamos de escrever
Antes mesmo que chegue ao fim
A respiração.

São deuses esses poemas
E não desejam sequer
Uma palavra.


Busto

Se dói uma costela
Quando respiro

É que existe
Uma mulher
Que me ama.

Se doem duas,
Preciso de morfina.


Carrossel de caballos loucos

O meu amor
Usa rímel
Toda vez
Que chora.

Eu me comovo
Com ela na cama
Diante do espelho.

Chora ela o bastante
Só pra marcar o rosto
Dos próximos sonhos.

O meu amor
Depois puxa
A sobrancelha
E me diz baixinho
Que tá ficando velha.

Qualidade do que é tépido

Escrever poemas
Em uma tarde de domingo
Mexe com os cílios da gente.

Ainda não aguei as plantinhas.
Mas o uniforme do trabalho de amanhã
Já engomado sobre a mesinha do quarto.

Aquele quarto velho
Em que as portas
Foram devoradas
Por cupins chineses.

Lembra?

Esquimó

A minha frieza só vai ao limite
De deixar o açucareiro dentro
Da geladeira sem a tampinha.

As formigas que vão juntas
Não morrem (daí o perigo)
Vivem doces mais tempo.

Blues

Não é que o coração falhe
Ou tente iludir seu dono.

Mas há no que diz
Um passado
Ébrio.

Natural que o coração junte
As lembranças das artérias
E ouse empilhar as peças
Do sonho.

Veja, meu bem,
O seu coração
É um doce.

O meu é um dano.


Lânguido

Inspecionar os porta-retratos
(De longe) acariciando
O cavanhaque...

Ah, então felicidade
É isto, meu bem?


Café da manhã

Que seria da minha vida,
Da minha melancólica vida,

Se não fosse esse fingimento amoroso,
Essa dissimulação sensual de mimos e dengos
Quando você desce a escada do prédio e ouço sua voz:

"Amor, meu amor, não se esqueça
Do seu celular sobre a cadeira de vime..."

sábado, 20 de setembro de 2014

Lírios frescos na cesta

O que você teria de mim para sempre?
Versos. Não é uma boa troca
Por casa e segurança.

Onde durmo
As portas abertas
Trazem de noite aos olhos
Uma brisa permanente de espantos.


Dos embarques

A minha voz estará guardada
Entre as junções das sílabas.

Quem um dia
Por algum motivo
Ouvir a minha alma

(Um poema jogado
À mesa da cozinha)

Lembrará que morte
É outro sinal de vida.


Das infinitudes

O livro de poesia
É um confidente.

Sobre ele
O seu rosto
Confessa a febre
E o frio das maçãs.

Dos afazeres das nuvens

A gente cria
Um olhar diferente
De tocar nos objetos
Que pode passar do toque.

Acabar sendo a alma do objeto.
(Esse silêncio que nos dissolve)

Carpintaria

Uma criança
Não se cansa
Dos seus tombos.

Escrever poemas,
Às vezes, sugere
Um joelho novo.

Tantas cicatrizes
Não cabem somente
No corpo das palavras.

Rosto de abandono

Eu me valho do amor.
Dos que vivo em outro plano.

Neste, apenas
Tramo, ah,
Tramo.

(Mas das tramas
De bichos-de-seda
Não nascem encantos?)

Bodas de vinho

Aos setenta anos
O senhor quando olha
Pro rosto da sua senhora

Não são rugas que vê
Mas trilhas de encantos.

Viva até lá
Um infinito amor
E entenderá outro nome
Que se oferece à velhice.

(A morte é só mais bálsamo
Ao frescor do que não morre)

Artigo penal

Suba ao topo da árvore
(Da sua calçada) e roube
Aquele bilhete de passarinho.

Ninguém aprende a voar
Sem um furto secreto.
Agora é contigo voltar aos meus braços

Já colhi as flores
Que tu amas.

(Com a metafísica
De um cafezinho)

Enredo de um míope

Para o poema ficar fácil
Escolho uma palavra doce.

Nem sempre morro
De pesares.

Se não cair bem a tal palavra doce,
Escolho uma palavra rosa no diminutivo.

E assim vou (atando
As minhas costelas).


Imortais

"O cavalo selvagem trota
Elegante sobre nuvens"

É tudo que digo
Dos meus suspiros.

(Antes pensava em ânforas
Ou em caixinha de música)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Concha

De uma fisgada
Meu coração
Pode parar.

Levante seus olhos, querida,
Esses olhos de pescar poeta.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Ofício

Natural que o padeiro
Apaixone-se pelo trigo.

E que o ferreiro
Beije o fogo.

Os incautos se preocupam
Com os mistérios da dúvida.

Eu escrevo poemas.


Das insígnias

No dia em que perder o braço
Por amor aos poemas escritos
Escreverei outro ainda teimoso.

Se a água da fonte se cansa
De descer abaixo dos olhos,
Será a minha língua
Os cílios.

Silhuetas

Existe o poema perfeito.
Aquele que as palavras
Perdem o sentido.

Não fazem pontes
Com outras nem
Encaixes.

Nem um fio
De memória.


Trem e chaminés

Maturidade não vem com o tempo.
Com o tempo vem a calma
Em abotoar os botões
Da camisa.

Até o momento em que os dedos
Fazem o trabalho sozinhos
De beijar os botões
E soprá-los.


Bibelôs de pomar

Vivo derrubando as frutinhas da porta da geladeira.
Aqueles enfeites colados com ímã que lembram
Uma feira mágica para duendes.

Sempre que me abaixo
O coração bate
Tão rápido:

Imagino você
Na sua cozinha.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Vívido

O toque da palavra é um.
O toque da ponta do dedo
No lábio da pessoa é outro.

Nunca se esqueça
De também amar
O que é pele.


Alcova

Na sua intimidade,
Lá que eu habito

E conheço
As suas
Unhas:

O tanto que foram roídas
Do livro que leu e a outra metade
Dos sobressaltos dos últimos sonhos.


Pipas

Os frágeis gravetos
Da separação
São ótimos

Pros ninhos
Dos pássaros:

Além de esquentar
As paredes da casa  
Servem para violinos.


Repartição

Um telefonema despretensioso entre aspas.
(E a colega de trabalho logo entende
O olhar perdido do poeta).

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pateta

O seu coração aprendi a segurá-lo
Com as conchas das minhas mãos.

E não me digas
Que é sonho.

(Desde criança
Que durmo?)


Cegante

Falo dos poemas
Como se falasse
Das minhas botas.

Não ganho outra vida
Com as palavras.

As palavras sabem
Do nosso jogo.

Quem se converte à tolice
Nunca, nunca será o tolo.


Fuzilado

O poema não é uma carta na manga.
Uma moeda de ouro entre os dentes.

Não é o suspiro que define
O seu vazio, mas as costelas
Quebradas da última lembrança.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Fronteiras

Os poemas que o poeta escreve
São iguaizinhos aos seus olhos.

Cego (ou fingindo cair)
O poeta tem o mesmo andado
Dos seus poemas quando saem de casa.


domingo, 14 de setembro de 2014

A camponesa ainda colhe maçãs no meu peito

Aquela louca perseguição
Aos teus tamancos
E cachos

Era a minha mais óbvia
Declaração de beatitude.

Eu nunca fui bom.
Mas o queria ser.

Escrevo-te cartas, rasgo-as,
E do atrito dos meus dedos
Em contato com o papel
Não há alquimia.

As palavras não se juntam para ser ponte.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Desmembranas

Esqueça o amor,
O amor da posse
Está falido, poeta.

Escreva sobre
O afeto das coisas.

Da mesa redonda de vidro.
Da cafeteira. Das duas ânforas
De cerâmica. Da sua xícara branca.
Do tapete da sala e do outro tapete
De pele de bode na varanda. Dos jarros.
Dos jarros vazios que você (canalha) nunca
Plantou sequer um suspiro. Dos outros jarros
Em que você admira crescendo as suas plantinhas.

Desde que o conheço,
Poeta, você teve tendência
Pra possuir pessoas: então,
Acredite, o amor de posse humana
Faliu e agora só escreva sobre o afeto.

O afeto das coisas.

Réu diante de um tribunal de nuvens

Diga-me, seu moço,
Como parar com esses delírios:
Até as torradas tirei dentro do pote
E escrevi sobre elas ao desmanchar-se
Entre os meus dedos enquanto passava-lhes margarina.

Comentei que seus últimos pensamentos
Eram gracejos por eu não usar aliança.

Não é da vida delas
A minha solidão.

Ou seria, seu moço,
Da vida das torradas
Os delírios que escrevo?

Das epopeias cotidianas

Com o tempo
Acostumo-me
De que o quarto
O quarto antigo
Agora tem luz
Pra iluminar
Os insetos.

Quanto à porta da cozinha
Em que vivo batendo
(Ora joelho, ora
Dedinho)

Pagarei dez paus
Pro porteiro levar comigo
O bagulho à lixeira da esquina.

O poema é só um jeitinho
De trazer pras palavras
O que o corpo sente.

A alma é o resultado final
Do trabalho das minhas mãos.

Dos amores apreensivos

Morro de medo
Quando minha mãe
Desce a escada do prédio.

Normalmente é no horário
Em que na cozinha faço café.

Certa tarde passei três minutos sem respirar
Enquanto minha mãe no quinto degrau
Conversava com uma amiga
Sobre cajus e o papa
Francisco.


Aventura em quadrinhos

Um dia fui ajustando um poema
Como quem poda uma árvore minúscula
Ou como quem tosa uma ovelha cabeluda.

Quando vi tava a miniatura de árvore
Somente os galhos e a ovelhinha
Olhava-me furiosa.

A pequena árvore esqueleto
Lançou um galho ao meu olho.

E a ovelhinha despida
Mordeu-me o braço.

O que fiz?
Ora, corri.

Até a árvore sentir frio
E a ovelha morrer
De vergonha.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pane

Te digo agora
O que amo:

Os sons
Dos objetos
Que não falam.

Em casa me olhando.
E me olham iguais a mendigos
Que esperam o olhar da gente de volta.


Manjedoura de passarinhos

Não por falta de coragem
E muita dose de loucura
Tentei ser só poeta

E afugentar
A açoites de vocábulos
O homem comedido e temente.

Só então, aos berros e sangramentos,
Entendi que o homem também adora
Vocábulos e as coisas inexprimíveis.

O poema é uma parte do seu braço.
Uma continuação da sua sobrancelha.
A unha que cresce e ele (dúbio) não nota.

Nessa mistura de dores e ausências
O homem tem de ser um pouco
Além daquele que escreve.

A emoção
(Quando existe)
Pertence só a ele.


Ambiente

No caminho da varanda
Ainda sobre o tapete
Tem um balde
De alumínio

(Desses de juntar leite
Em fazendas bucólicas)

Dentro do balde de alumínio
Há várias revistas de moda.

Todas esteticamente
Bem postas e guardadas
Como se pirâmides, sei lá.

A minha irmã
É um barato.


Cadafalso

O mais delicioso de uma pequena gripe
De uma insignificante garganta inflamada
É supor minha partida e nunca mais escrever.

Você lembra que um dia lhe disse
Que ao morrer escreveria mesmo
Se fosse com sua mão
Dormindo?

Tolice,
Amor.

Depois de morto
Tenho apenas
uma certeza:

Médico nenhum me dará
Somente dois dias
De atestado.


Pêndulo

O tolo é dividido em dois:
O que ouve as próprias asneiras
E o outro que se conforma com o vazio.

O poema ainda é um refúgio
A quem sabe da mediocridade.

E não muda o tolo
(O que pensa e o que ouve)
Mas é outra a sua voz escrita.

Virose

Com a mão posta
Sobre o coração
Ensanguentado

Busco o xamã
Mais próximo.

Não há namorada
Que atravesse comigo
A floresta do Pântano Sombrio.

Nem as montanhas geladas
Dos meus tornozelos solitários.

As mulheres, as amadas,
São quimeras, meu poeta.

E as quimeras nunca sustentam
Em seus ombros de névoas
Meus braços dormentes
E inchados.

[De pateta que recebeu
Uma bela injeção
Pra dor]


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Luz de lamparina

Uma caixa de sapato
É o encosto pra que
A porta do quarto
Não bata.

Ou se o fizer
Não trema
A parede.

Lúcido assim,
Meu amor,

É o tempo
Que me cerca.


Muita clorofila dá barato

As minhas plantinhas cresceram.
Esqueceram-me. Nunca mais
Vieram até a sala
Onde escrevo.

Nunca mais puxaram
As pernas desfiadas
Do meu bermudão.

Não pedem atenção.
Hoje vivem sem água.

Só querem (às vezes)
A minha companhia
Enquanto corto
As unhas.

É um belo lugar a varanda
Sentado na cadeira de vime.

Navegar é um hábito

A beleza é digna dos meus olhos
Se descerem algumas lágrimas
Até meus lábios.

[O tesão é tão lírico
Ao silêncio do amigo]

Náufrago, quando tu escreves poemas
Trocas as letras com regularidade?

Ou essa dislexia é só do poeta
Em noites de forte tempestade?


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Quando a casa não é montanha

Já bateste com a costela
Na quina da maçaneta
Da porta?

Então sabes daquela dor
Que um cavalo
Selvagem
Sente

Quando pregam
Uma ferradura
No seu casco.

Não é dor de carne e osso.
É uma dor de asa partida.


Desligado

Atravessar os lençóis úmidos
Pendurados no varal do banheiro
Lembra-me do tempo das bananeiras
Das folhas chuvosas da minha infância.

Os lençóis são cheirosos.
Também as folhas
Das bananeiras.

A cada alma
O seu perfume.


Ganges

O que você é será até o fim dos seus dias.
Contente ou não mágico é o hoje.

O tropeçar e o nariz na lama.
O pombo que lança um míssil creme
Ao colarinho da sua engomada camisa branca.

Mas veja na esquina uma nota de cinquenta.
Olhe aquela menina no ônibus estreando o rímel.

Mágico é o hoje
E você não vive.

Não se exima de culpa:
O hoje foi e parte-se
Diante dos seus
Olhos.


domingo, 7 de setembro de 2014

Dos perfumes

Ganhei um sabonete
Em forma de lágrima.

Talvez seja,
Decerto

Pra que me lembre
De que tomar banho
É o ritual da saudade.


Primavera

Entreguei meus cartões à minha mãe.
O ópio ao chinês do mercado.
O uísque ao cavalo do bar.

Só e sóbrio
Penso em escrever
Uma carta pro meu amor.


Escudo de lírios

Haverá o dia em que meus olhos
Cansarão do que não tocam

E ordenarão aos cílios
Que destrancem
O encanto.

Diga-me, meu bem:
Dentro da ampulheta
A areia molhada das minhas lágrimas
Germina com outro olhar os girassóis antigos?


sábado, 6 de setembro de 2014

Magneto

Colher orquídeas nas paredes do abismo
Corre-se o risco de apaixonar-se pela vertigem.

E esquecer-se das asas
Sem utilidade no abandono.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Figuras de Origami

Anda firme, ainda que trôpego,
Mas com o coração firme
E a tua fé não falha.

Teu deus renascerá das tuas cinzas
Será o complemento do teu corpo.

Não há simbolismo no que te digo:
As palavras estão escritas nos sulcos
Das folhas e hastes das árvores centenárias,
Nas mudas dos répteis, nos olhos dos peixes.

(As asas dos pássaros
Guardam o sopro).

Há poemas que precisam da mentira
Como uma boa conversa entre velhos.

Outros são puros socos no estômago
De um perfeito silêncio e espanto.

Não há segredo no que te digo:
As palavras estão escritas nas tuas costas,
Em cada fio dos teus cabelos que é o mesmo fio.

(A cor desnuda
Apenas o tempo).

Anda firme, ainda que suspenso,
Mas com o coração firme
E a tua fé não morre.

Teu deus sempre renascerá
Das tuas cinzas e será
O sopro da tua voz.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Escafandro

O seu boa noite
Tanto arde quanto dói 
Mas uma manhã acordarei
Descalço sem saudades dos seus chinelos.

(Como é fácil aos poetas
Criar uma situação de desespero
Onde só existe uma tarde de tédio)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Por todas as sextas-feiras que não vivemos

Hoje pensei em você
De outra forma:

Com os seus olhos
E não os meus.

Você detesta seus cabelos
Quando entram na sua boca.

(Enquanto
Você só

Quer
Sorrir).

Subo uma palavra ao altar,
Desço outra ao abismo.

Se você se encantasse
Com esse meu dom
Abriria as pernas.

Depois faríamos café
E mataríamos de ciúmes
A minha cafeteira solitária.

Escárnio

Caminhando pela casa
Encontro tenras
Tarefas:


Acabei de juntar as folhinhas das árvores da minha calçada
As penas dos passarinhos que fazem ninhos nos galhos
Juntei tudo na minha mão, amassei as folhinhas
As asinhas.

Fiz uma bolinha.
Joguei pela janela.

O pedestre que passava levou no rosto
O chumaço da minha delicadeza.

Pensou que era um algodão
Umedecido do tédio
De um poeta.

Não me faças rir:
Grande coisa um poeta
E o seu tédio: prefiro a solidez

Das minhas botas
Morrendo aos poucos
Debaixo da escrivaninha.

O ópio é um dragão que engole seu fogo

O campo foi arado:
As unhas ficaram lá,

Plantadas
Nas covinhas
Das sementes.

Hão de nascer
(Espero que de noite)
Mãos descansadas dos desejos.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lembrete antes do abismo

Nunca se esqueça, meu poeta,
Que aquela sua unhazinha roída
A coçar seu ouvido é sua melhor amiga.

Livre consciência do vazio total

Veja bem os cascos dos meus cavalos selvagens.
Quem gosta tanto assim de pétalas é um farsante.

Veja bem os olhos dos meus rinocerontes.
Já é noite (e míopes) enxergam muito além
Dos olhinhos das codornas e dos perdigueiros.

Botões dentro da fruteira de vidro

Já escrevi o meu poema de dor.
Agora é só cinismo (e paquera).


Dos epitáfios sem fim

Marcado o dia em que os passarinhos
Entrarão sem bater (beijarão a vidraça
E o vidro da janela se desmontará em cacos).

Marcado o dia em que os passarinhos
Farão pouco caso das minhas mãos.

Juntarão os dedos por amizade.
Cruzarão os da mão direita
Aos da mão esquerda.

Um laço.

E fecharão meus olhos
Com seus bicos de violino.


Âncora de corais

A minha solidão em calçadas chuvosas
Ainda cheira a meus braços molhados
De patchouli.

As meninas até pensavam em me amar.
Mas eu já era muito louco pra ser salvo.


Cubos

Não tire a sua alma do caminho:
A minha é espaçosa,
mas some rápido.


Sapatos apertados

Entre meus dedos das mãos
Crescem os filhos do cansaço.

Não vejo asas:
Só falanges
De versos
Fujões.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Serenidade

Se não houver pele
A ilusão será carnívora.

Moerá até os talos dos tendões
De todos os teus suspiros de nuvens.

Volta ao caminho da solidão, meu poeta,
E abençoa o silêncio dos teus objetos.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Campanário

O poeta quando entende
Que o seu fel diluído
É um bom vinho
Que abelhas
Sorvem

Esquece dos poemas
De penar a si e ao outro.

Só escreve
O que lhe tira
O fôlego.


Dilúvio

A cada poema que apago
Não por dúvida ou pudor
Mas sob cansaço

É a doçura da asa
Que puxo dos cílios.

As palavras lançadas ao fogo
São suas cinzas mais brilhantes.


Rosto amassado de luz

As plantinhas da varanda
Imagino a felicidade delas nesse clima
De chove e não