quinta-feira, 8 de setembro de 2011

bodas de alabastro

Mistério envolve o escorpião.
Ele não envelhece.

As formigas percebo de longe
pelo olhar fundo e antenas flácidas.

Nas cigarras reconheço pela voz.
No meio de uma ária tossem,
tossem muito.

Os elefantes é facílimo observar sua velhice.
Franzem o cenho, separam-se da manada,
seguem um caminho obscuro
e somem.

Os pombos quando envelhecem
tropeçam nos cadarços
dos seus tênis nike
desbotados.

[todo pombo jovem
tem um nike vermelho
tinindo nos pés]

As andorinhas é simples.
Ficam sérias, aliás, seríssimas.

Iniciam um tal de tricotar uma colcha
que não termina nunca
sempre sozinhas
e sisudas.

O papagaio quando começa a envelhecer
parte para um estudo laborioso entre
aramaico e chinês.

Agora o escorpião coisa alguma
indica seu envelhecimento.

Continua o mesmo sujeito desconfiado,
sacana, amoroso, ciumento, misterioso.

Já me dediquei muitas horas de um dia,
muitos dias de um mês, muitos anos
de uma década, quase
toda uma vida

tentando encontrar um vestígio
um sinal sequer da sua velhice.

O escorpião não envelhece.
Não envelhece mesmo.

As luzes neons pelo seu corpo
se tempo chuvoso ou debaixo
do deserto brilham
e nunca cessam.

Só não sabem nadar
nem andar de bicicleta.

Mas isso é um detalhe.
Eu também não sei
nem uma coisa
nem outra

no entanto, envelheço,
envelheço pra chuchu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

dádiva

Já troquei a água das duas meninas.
Uma dentro de um jarro de vidro.
A outra dentro de um cilindro
de bambu.

Ambas ronronaram (dengosas)
ao tocar-lhes as folhas
e as raízes.

Talvez a mesma
espécie.

Não entendo muito de botânica.
Só do coração das meninas.

E ao tocá-las (é um dom, imagino)
suas folhas e as suas raízes tremem
dentro da minha alma.

Dentro da minha alma.

É isso, dentro da minha alma
todas as meninas da terra
sabem que sou um jardineiro.

E se houver meninas nas nuvens
saberão que sou um anjo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pã enfeitiçado

Aprendi muito cedo
a tocar flauta doce.

Bastava assobiar para o vento
e abrir os dedos dos pés.

Era como se fosse
o som de flauta doce
a brincadeira do vento
com o deleite dos dedos.

As lagartixas do parque
juntamente com as cigarras
ficavam bobas e extasiadas.

O vento ouvia meus pensamentos
e tocava Bach e Villa-Lobos.

Era muito jovem minha alma.
Só depois (velhinho)
dei por mim:

não era o vento
nem eram os meus dedos
que faziam aquele som, era

a garrafa de vinho debaixo do sol
com suas luzes e seus reflexos.

E sempre era manhã,
e era dia, brilhava o sol

e meus cabelos
iam com o vento
de lá pra cá.

Descobri outro dia
que os meus cabelos
contra ou a favor do vento
também fazem um som legal.

Sobretudo quando
vão ficando fininhos
e brancos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

porcelana

S'eu te chamar de meu amor
tu juras que acordas desse
sono profundo?

Os meus cílios deram pra cair
de hora para outra

e tu não estás ao meu lado,
assoprá-los e fazer um pedido.

S'eu te chamar de bailarina graciosa
tu te levantas da cama, lavas o rosto,
molhas os cabelos e vais pra calçada?

Talvez não saibas mas o sol
vive sob uma melancolia
entre pôr o pescoço de fora
ou ficar enrolado dentro
das nuvens: um sol
sem graça.

Meu amor,
minha bailarina graciosa,

sai do quarto, dá um pulinho
à esquina, toma um sorvete.

Sabe aqueles pombos?
Andam cabisbaixos.

Rejeitam de quem passa
migalhas de pão e arroz.

Um dia chegaram aos meus ombros
e perguntaram-me por ti "a menina
de tranças e de olhar triste"

Respondi-lhes
que não és
triste.

Apenas
santinha.

E que as tranças
é imaginação deles.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

paixão

Seis cuecas salvam uma alma.
Sobretudo as cuecas
de hoje em dia:

noventa e seis por cento de algodão
e quatro por cento elastano.

Espero que agora
as minhas formiguinhas
não sumam de madrugada

naquela hora em que o braço
involuntariamente busca a amada.

Elas sempre tiveram como desculpa
as minhas velhas cuecas sem elástico.

Diziam que não existia clima.
Que era de doer minha aparência.

Pelo que já pressinto
hoje tardão da noite

amarei enlouquecido
minhas formiguinhas.

Oxalá elas usem
aquele baby doll.

Aquele
vermelho.

insígnia

Os meus dedos são os meus melhores amigos.
Eram lisos e límpidos e nunca se orgulharam.
Agora ásperos, velhos e tristes e tudo bem.

Não largam das minhas mãos.
Acompanham minhas unhas
no outono e no inverno
sem questionarem
o tempo.

Seguram com altivez
e com a mesma loucura

a asinha da xícara
e o cadarço do tênis.

Os meus dedos são os meus únicos amigos.
Conhecem meu pensamento antes da unha roída.
Já viraram tantas chaves e doeram-lhes as juntas.

Nunca se gabaram
das suas falanges.

Da plasticidade dos ossinhos.
Dos seus ângulos e diretrizes.

Os meus dedos não me puseram contra a parede
à espera de um anel de aço cirúrgico ou de ouro.

Passaram muito tempo colados
uns aos outros sem ironia
e sem fracasso.

Os meus dedos não duelaram.
Não se sangraram à toa,

salvo sob momentos
de tensão em que
nem eu mesmo
compreendia
seus vãos
e a água
da chuva
escapando.

Também foram eles no outro dia
que me ensinaram a fazer concha
com as duas mãos e me levaram
à boca a mesma água da chuva.

Os meus dedos são os meus senhores.
Apontaram na cara de muitos canalhas a desonra.
Outras vezes apontaram para o céu o sol se pondo.

Os meus dedos são o pai que não tive.
Desde cedo é como se eles soubessem.

E cresceram comigo
e nunca me pediram luvas.

Os meus dedos nunca tremeram,
exceto aquele tempo de frenesi 
em que meu coração derretido
veio até eles.

E eles supondo minha dor
tocaram em vez de blues
um samba.

Um samba de roda,
banquete e festejos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

a doçura do tristonho

Antes que eu volte à leitura,
permita-me admirar as suas costas nuas.

Um dia desenharei uma árvore
e escreverei nomes

da sua nuca passando
por toda sua espinha
e costelas;

e pedirei, sorrindo
e brincando, para
que você me diga
que árvore plantei
que nomes escrevi.

Não sei se você ouvira falar,
mas no meu tempo de anjinho

havia essa brincadeira delicada,
esse jogo sensual,

de desenhar coisas
e escrever nomes
nas costas nuas
da amada.

Em centenas de meninas
desenhei o jardim botânico

e nenhuma delas cresceu
sequer uma florzinha
na varanda.

Fiquei apenas com os nomes.
Uma longa extensão de areia de praia.

Inevitavelmente vêm as ondas
e também levam os nomes.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

relance

Consigo te ver por dentro.
Embora teu perfume
seja enlouquecedor
porque é breve.

E tenho que me segurar por fora
(portão, árvore)

para que teu perfume
não me estrague a vista.

Há dentro de ti uma casa
com janelas fechadas.

Nunca te disse
que me basta
uma lágrima.

A minha lágrima
contra a tua vidraça
amolece todas as trancas.

Também nunca te disse
que é inútil lágrima

quando as janelas
já foram levadas
pelo vento.

Alguém nos dirá um dia:
"no alto da montanha
o vento não existe
e quem ama vive
dentro das tocas
do abismo"

Enquanto esse dia não chega
continuo te vendo por dentro.

E o teu perfume
é bárbaro.

domingo, 21 de agosto de 2011

o amante pródigo

Darei a ti um poema sem vinho
e sem lucidez excessiva.

Um poema sem buscas,
sem transes e sem pensamentos.

Darei a ti um poema caído sobre o peito
na calada da noite quando faço
brilhar minha espada
diante do meu olho
de vidro.

Um poema que não explique a causa do silêncio.
Um poema que se cale ao som da primeira sílaba.

Darei a ti o que temo e o que creio
sem forçar de ti entendimento
ou cumplicidade.

Ainda não ando sobre as águas.
Mas já levito sobre as nuvens.

É um pulo criar chuva
saltando de nuvem
em nuvem

e encher o mar de sonhos
e encher de peixes
nossos corações.

Enquanto tu suspiras
o meu barco à deriva
contra rochedos
afunda.

soul

Perdi o traquejo em escrever versos românticos.
Os últimos enlouqueceram as andorinhas.

Muitas delas enforcaram-se usando
os cadarços dos meus tênis sujos.

Perdi o tato em conquistar mulheres
com a voz doce e os olhos míopes.

A maioria delas preferiu a loucura de uma balada
ao cântico do blues dentro da minha vitrola.

Pobre deu,
mísero de mim.

Perdi a veleidade, a quimera,
o sonho e a malícia: agora

sou um traste só,
um homem puro.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

elos

Às vezes confundo o mar
e todas as suas algas

com a sombra da nuvem 
e todas as suas faces.

É natural perder o juízo
sobretudo um poeta
que trabalha na rua
e mora num ovo.

Contudo, baby,
não é hora de fugires.

Pois aquilo que mais prezo
(costumo chamar de alma)
continua intacta sob mil
dobras.

A lamúria da cabocla na margem
lavando túnicas de imperadores

nada difere do meu canto torpe,
difuso, esperando o último dia
no meu quarto.

A cabocla vive presa aos devaneios.
Daí a sua melancolia e também a minha.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

luxúria

Veste aquele teu short jeans minúsculo
e vai até a praça. Estarei no banco
no terceiro atrás da banca
de jornal.

Não digas: "ui, menino"
Dize:  "ai, cavalão"

É isto que sou,
um cavalão.

Morderei teu braço
(não morderei outra coisa
porque é cedo e tem criança
brincando de skate e patins)

Tu não sabes da minha loucura de celibatário.
Dentro do meu baú guardo filhos órfãos.

Não esqueci o presente
que tu me impuseste:

um frasco de perfume
e duas rosas vermelhas.

Enquanto tu lanças o olhar sobre a minha oferenda
eu te mordo agora o que não podia há dois minutos.

A praça ficou deserta.
Pula ao meu colo.

Deixa-me trincar tuas orelhas
e beijar tua nuca: eu sou um cavalão
e cavalão que se preza come milho
lambuzando o pescoço da amada.

Nunca repitas "ui, menino" A partir de hoje,
somente: "ai, cavalão" É isto que sou,
um cavalão.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

fome e sede

Meu coração é o mesmo de sempre.
Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue à toa.

Nada de multiplicidade, sombras, fantasmas,
mudas de pele entre rochas e gravetos.

Eu nunca fui outros.
Eu nunca cruzei pontes
e fiz fogo em outras margens.

Sempre, sempre, sempre os mesmos olhos
e os mesmos passos dentro da minha alma.

A minha alma é palpável.
Muito mais vertiginosa
que o tecido do corpo.

Desde criança quando os versos eram escritos
sem mãos e sem palavras naquelas tardes inteiras
no jardim, quintal, cozinha, salas, quarto, calçadas
esquecendo de comer e de beber
temia ser o que sou hoje.

E eu escrevia versos
em silêncio e no olhar.

Coisa alguma mudou em minha volta.
As coisas são as mesmas coisas.
Os ancestrais são os mesmos.

Nenhum pavor diferente
nem cor estranha
de arco-íris.

A minha alma não cresceu, não estreitou,
não chegou a verdades nem desvendou
o segredo do suspiro.

Ainda que sem mãos e sem palavras
minha alma se vale do vácuo
do pacote de café aberto.

Fecho os olhos ao ser atingido
e outras coisas revelam-se.

A alma, no entanto, é a mesma.
A minha alma é a mesma.

Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue sem destino.

domingo, 14 de agosto de 2011

magia

Esqueci como se deita sobre o colo de quem se ama
e treme os olhos admirando o brilho das estrelas.

Creio que somente os sapos e suas sapinhas
ainda nutrem dentro da alma essa loucura.

Porque de fato é loucura.
Vai que desaba uma estrela
dentro do olho do apaixonado.

Como haverá de nascer o dia
(com suas batalhas e seus medos)
ora sombra e ora fresta
debaixo da porta.

O apaixonado para sempre será outro
a carregar um brilho falso de cadáver.

Porque as estrelas quando morrem
escrevem versos no espaço
e iludem.

Não esqueci esse clima de morte
e de festejo quando deitado

no colo de quem se ama
a cada intervalo de beijo

vem a terrível dúvida
do amor que se sonha
e do amor que já foge.

Os humanos são apenas tímidos arautos
de um sentimento nobre e exclusivo
dos sapos e das suas sapinhas.

Porque um dia esses sapos
e essas doces sapinhas
foram príncipes
e princesas.

Conheceram de perto os degraus do palácio
e agora, anfíbios, cantam enfeitiçados
boiando na água escura do pântano.

sábado, 13 de agosto de 2011

para meu filho Vinicius.


Filho, não precisas quebrar teu cofrinho.
Guarda teus centavos para tua mocidade
no dia em que teu coração arder
por uma menina.

Nesse dia, então, manda ver teu porquinho
contra a parede e junta cada moeda.

Leva tua garota para o cinema.
Beija-a e experimenta a pipoca da boca dela.

Teu velho pai não se importa com presentes:
cuecas, perfumes, camisas polos,
celular, radinho de pilha.

Os chocolates que ontem trouxeste
ainda agora adoçam minha alma,
e estamos conversados.

Deixa em paz teu porquinho
com aquele ar de falastrão.

Um dia, como já te disse,
não o poupes do destino.

Quebra-o, junta as moedas,
compra um buquê de rosas

e convida tua princesa
para o shopping.

Faze-o antes que pequenos gaviões
sempre à espreita o façam.

O teu velho pai estará por perto
pra saber dos detalhes: da euforia
e do encanto e da desilusão futura.

A solidão e o desengano
também são prazerosos.

Que pai sou eu.
Que tolices estou a dizer
a uma criança de nove anos.

Esquece tudo e comecemos do princípio:
filho, quebra teu cofrinho e estrangula teu porquinho.

Nem que seja pra gente gastar todo o tesouro
com refrigerantes e jogos de videogame.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

viajante

Hoje salvou-se uma alma.
Limpei o quarto como nunca:

computador, teclado, piso,
livros, ventilador,

mudei colcha
e fronhas.

A sensação é a mesma
quando se aprende a pescar

e em seguida tem nas mãos
um fabuloso peixe
dando pulos
e pernadas.

Sequer vi uma formiguinha pra contar estória.
E olha que sempre debaixo da cama
e atrás do guarda-roupa havia
uma aldeia delas em torno
da fogueira.

Somente a minha xícara sobre a estante
continua sorrindo com as suas fissuras
na circunferência.

Amo-a,
amo-a tanto.

o bom vento de agosto

No meu braço há um sinal.
Mudou de tamanho com o tempo.

Mas tenho a lembrança dele
desde que abri os olhos
no berçário.

E ao abrir o olho direito
surpreendi uma enfermeira
lavando esse sinal com éter e iodo.

Parece uma sombra de uma nuvem
sobre a água parada de um rio triste.

Quem não tentaria apagar tal sinal.
Primeiro a enfermeira, depois a madrinha,
todas as namoradas e por último eu próprio
após perceber a ilusão do presságio
de nascença.

Em breve farei uma tatuagem
encobrindo o que um dia
fora uma nuvem apática
sobre um rio turvo.

D. Quixote com sua lança
e aquele olhar de louco,
esta a tatuagem.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

topada

Ao tropeçar não olhe para trás:
calçada, pedra, graveto, chiclete,
tampinha de refrigerante,
uma baleia morta.

Continue firme e forte,
altivo e fulgurante

como se tivesse
dinheiro no bolso

e uma carta de amor
debaixo da manga.

domingo, 7 de agosto de 2011

êxtase

Há dias se amontoam roupas sujas
e eu só lavei as cuecas,
mas lavei-as com sabonete
e amaciante fofo.

De tão tenras e cheirosas
entraram pela janela do banheiro
duas borboletas e uma andorinha.

As borboletas (platônicas)
fecharam os olhos e viajaram no idílio
sobre o varal, enquanto a andorinha
beijou enlouquecida cada detalhe
dos fios de algodão.

sábado, 6 de agosto de 2011

a densa quimera

Eu sou um rato e os ratos não amam:
copulam dentro das suas tocas
em meio a queijos e vinhos.

Diga-me o que é o amor.
Antes que eu gaste todos os centavos
e me drogue até a alma e morra debaixo da ponte.

Os ratos como eu gostam de amanhecer
com o rosto na lama e um buraco no peito.

Não me venha com suspiros
e piedade dos meus olhos fundos.

É que dentro deles não existe um rio.
Mas um mar de salina e areia cortante.

Eu que fiz a minha toca e plantei as migalhas.
Eu que elevei a solidão ao posto de destaque
entre meus objetos e os meus delírios.

Diga-me o que é o amor.
Antes que eu vista meu jeans surrado
e bata a porta com força contra minhas formiguinhas.

(elas sempre me acompanham
embora ultimamente eu tenha matado
centenas delas) .

Diga-me o que é o amor.
Sou um rato mas ouço bem.

Não julgo os pesares das borboletas
tampouco das andorinhas.

A minha selva é vasta, sombria,
mas vejo que há cores
no jardim vizinho.

Diga-me o que é o amor.
Diga-me sem apelos.

Sem fúria
e sem que imagine
sê-lo maior que outros.

Diga-me o que é o amor.
Por favor, sem palavras.

Sem versos
e sem música.

Sou um rato e como tal é muito difícil,
diria até, impossível me enganarem.

Sou um rato e tenho um faro apurado.
Sinto que você está usando aquele perfume.

Não me responsabilizo pela mordida na sua nuca.
Esqueça. Não me diga coisa alguma.
Adentre na minha toca.

Sirva-se do meu queijo
e sirva-se do meu vinho.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

mimar uma mulher

Deixe-me entrar na sua casa,
conhecer sua cozinha,
sua sala, sua varanda;

por último,
no seu quarto,
deitar na sua cama
e ouvir suas músicas.

Apresente-me à sua coleção de esmaltes.
Aponte-me a sua cor preferida.

Aproveite meu ouvido tão perto
e sussurre seus versos.

Estou louco para ouvir da sua boca
os seus poemas. Não consigo
pensar noutra coisa:

você pintando as unhas
e dizendo seus versos.

Você vê estrelas?
Eu não consigo
olhar para o alto.

Seus olhos
encabulam-me.

O jeito é olhar pros seus pés
e notar que as unhas
estão azuis.

terça-feira, 26 de julho de 2011

dançarina

Se eu tivesse de escrever um poema
que não esquecesse facilmente
não escreveria para seus olhos
nem para sua bunda:

escreveria, meu bem,
para suas panturrilhas.

Eu não olhei para os seus cabelos
quando a vi na praia nem para
os seus belíssimos seios,

eu me encantei com suas panturrilhas
e antes que eu morra escrevo meu epitáfio:

"aqui jaz um atormentado poeta
que deixou lá fora
um par de panturrilhas
para alguns patifes"

Não permita, meu bem, que eles
chupem-lhe e mordam-lhe
as panturrilhas.

As suas panturrilhas
são as minhas doces
mangas rosas.

Só eu posso mordê-las
e chupá-las igual a criança.

Eu amo suas panturrilhas
como nunca amei uma alma.

A sua alma
são as suas
panturrilhas.

sábado, 23 de julho de 2011

rave

Fiz a barba e rezei um pai nosso
pois se aproxima o mês de agosto:

é por demais temerário o poeta
dormir e acordar de barba longa
e coração exposto.

A ventania já levou as portas
(trancas, trincos, ferrolhos)

só há como porto seguro
a sua toca atravessando a ponte

depois da margem esquerda
debaixo do último arco-íris.

Digam adeus ao poeta
apesar da estação vazia
e do trem que nunca chega.

Mas olhem lá, fumaça!
Ouçam o apito!

Embarquem logo esse louco
ajudem-no com suas malas,
cuias, alforjes, trouxas
e mochilas.

Vejam que lindo o bardo
sentado em cima do vagão
a tocar ora sua flauta doce,
ora a gaita de bob dylan.

Digam adeus ao poeta
e deem-lhe as costas
e não olhem
para o céu.

(só vejo pássaros
e nuvens perdidas)

sábado, 16 de julho de 2011

espantalho

Os meus livros fugiram
um a um enquanto
eu escrevia versos
acompanhado
das paredes.

Pode ser que amanhã
em breve suspiro
eles me ouçam

feito cães de caça
que ouvem o apito
do seu dono.

Deixarei a porta do quarto entreaberta
e apontarei com o olhar sério
que subam na estante
cada um ao seu degrau
de importância
e de loucura.

Decerto não retornarão os meus livros.
Eles são pródigos e bem mais orgulhosos.

De cabelo branco
e muito desejo na alma,

deixo-os em paz
ou em fúria
nas mãos
de outros.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

um moço estranho

Assim que nasci secou o leite materno.
A única alternativa foi mamar em uma golfinha.

Levaram-me a uma ilha deserta
e apresentaram-me à senhora golfinha.

Ela vivia sorrindo e além de me oferecer o deleite
do seu leite sabor de cavalo-marinho e ostras

também me ensinou a passar horas
no fundo do mar sentado sobre corais
pensando na vida e escrevendo versos.

Devo minha vida (a minha vida de louco)
a essa senhora golfinha que um dia
sussurrou aos meus ouvidos "vai, poeta
tudo que um náufrago precisa
tu já sabes"

Levantei-me da minha poltrona de corais
e beijei os amigos que fiz no fundo do mar.

domingo, 10 de julho de 2011

a essência do afeto

Fiz um samba
ontem de madrugada
enquanto tive uma crise

e chamei as vizinhas
e foi tanto absinto

que não consigo
parar de sorrir.

Você nem imagina
o samba que fiz
ontem de madrugada

enquanto pensava
em cortar os pulsos.

Chamei todas as formiguinhas
que encontrei no quarto
e foi tanto veneno
quase morri.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

beato

Sei que sou um bom homem agora
pelo simples fato de estar escrevendo
versos melhores.

Aproveito a clareza dentro da minha alma
e digo (para teu espanto) que deus

é aquele livro de D. Quixote cujas páginas
estão marcadas pelo suor dos meus dedos.

Aliás, deus é toda a estante:
remédios na cestinha,
fotografias, estatuetas,
cds, bilhetes.

Em outro tempo fui um homem mau
porque escrevia versos ruins.

[e como eu sofria
para ver deus
em algum
objeto]

fogo

Não me peças para te levar ao alto da montanha.
Existe um ponto no desfiladeiro que muitos pulam.

Alguns dizem ter ouvido deus tocando blues.
Outros que foi uma linda luz branca
saindo do abismo.

Eu acredito em todos eles,
por isso não levo ninguém comigo.

Não é da minha natureza passar toda uma vida
crucificado e atormentado pela loucura do próximo.

Fica na praça.
É um lugar tranquilo.

As crianças espantando pombos.
As velhinhas simpáticas.
As madames com seus
cachorrinhos poodles.

(não me segures pelo braço,
não tentes ir dentro do bolso
do meu bermudão)

Caso naquele temido ponto do desfiladeiro
eu ouça deus tocando blues ou veja
uma luz radiante,
eu pulo

e te mando notícia
em breve.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

saliva acre

Se vomitasse o céu e todas as suas gaivotas
entenderia esse desejo mórbido que tenho
pelas coisas no fundo do guarda-roupa,
debaixo da cama, dentro das paredes.

Cafezinho, cocaína, vinho,
livros, versos, solidão, fúria:
tudo é a mesma dor
sem diferença.

A minha tristeza
não se modifica.

O céu não vomito.
E as gaivotas voam alto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

enquanto as sacerdotisas dançam

Sou cínico e cruel,
patife e egoísta,

mas tenho
uma alma doce
que atrai beija-flores,
borboletas e andorinhas.

Imaginem agora
que a barba cresce.

Terei mais pólen
e mais mel.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

cerâmicas rachadas

Passo a mão na minha testa
e me pergunto "até quando
esse suor frio?"

Perdi a lembrança do dia
em que jurei lealdade
aos versos.

Certamente era um dia chuvoso
e eu estava com febre.

Não tinha botas nem formiguinhas
nem uma xícara sempre sorrindo.

Eu era bem mais só
e bem mais jovem.

Cada verso é um sinal de loucura.
Uma imagem da minha morte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

místico

Qual o destino de um homem
de rosto áspero e sem barbeador.

As coisas encantam-se
dentro do meu guarda-roupa
em questão de segundos.

Algum tempo atrás
eu jurava que eram
as formiguinhas
as ladras.

Depois passei a pôr a culpa
nos meus queridos duendes.

No fundo sempre soube
que é a minha alma
pregando peça:

rouba band-aid
para que o sinal
nunca sare

e foge com o barbeador
para que as minhas faces
amedrontem o espelho.

É a sua deliciosa vingança
contra a vaidade do corpo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

cafeína

A verdade é que eu sou um pescador
encantado e perdido em alto mar.

Os versos que escrevo
às vezes sonho dentro de uma ostra
outras vezes deliro nas costas de um golfinho.

São versos sinceros como ontem
quase morri de dor de cabeça

e só havia as estrelas
únicas testemunhas
do meu transe.

Não é bom ter somente estrelas
por perto quando a cabeça explode.

Dá vontade da gente querer ser também estrela.
Deixar o mar e não se despedir da mãe nem do filho.

O que diria meu filho sem pai nesse mundão de mar
e como choraria minha mãe sozinha no seu quarto.

domingo, 26 de junho de 2011

velocidade da luz

Quantas escovas perdidas
pelo cano da pia
do banheiro.

Sob todos os vacilos
uma coisa ficou clara:

a mão de um homem lúcido
não deve tremer se a mente sonha.

Felizmente as baratas
agora terão um sorriso branco.

sábado, 25 de junho de 2011

sátiro não sabe tocar gaita

Antes que o sol chegasse à janela
fugi apressado me enfiando
dentro da bota.

Aquela meia há tempo sumida
sorriu com a minha presença.

E ficamos lá (eu e a meia podre)
dentro da bota vendo o sol atacar os objetos
enchafurdando cada canto do meu quarto
sem piedade e sem escrúpulos.

Por isso eu amo a lua.
A lua não invade minhas coisas.

Fica na varanda, se muito
cai na poncheira de vidro.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

sátiro não sabe tocar flauta

Os versos egoístas e tristes
não te mostrarei novamente,

queimo-os dentro de mim
sem cerimônia.

Sei que a cada fornalha e urro na fogueira
perco um pouco da essência de monstro.

Mas, diz-me, o que vale
um monstro inocente
só quando dorme?

Os versos tristes e egoístas
deixarão de te fazer sofrer
ou te alegrar por vingança,

queimo-os dentro de mim
sem altar e sem unguentos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

riso

ri enquanto o mundo
tenta te conduzir
ao desespero
da posse alheia,

ri pois não tem jeito
o osso que morde a carne
a carne que modifica o espírito,

ri não da comédia
mas do pranto e da farsa

do vazio absurdo de todos os dias
das mulheres distantes de todos os sonhos,

ri, meu camarada, ri com o máximo de desdém
que ainda sobra na tua mente e se foge a mente,

ri da fuga dos teus pobres neurônios apagados,
cinzas, decrépitos, perdidos a cada fumaça

ri dos amigos que riem da tua loucura,
ri dos teus amores que te preparam
o cálice da solidão

ri da paciência que te perturba,
ri da maternidade que te protege

mas não rias da tua insignificante vida
cujo imenso tesouro é uma sílaba
é uma palavra, é um verso
é um poema,

ri, amigo, ri da tua sorte
das tuas noites afamadas
da tua ânsia e do teu vinho

mas não rias do fim,
do tropeço e da morte

pois sempre há mais mortes que supomos
e mais tropeços adiante e todo fim
é um esplêndido começo

uma alegria infinda
que ora se conserva
no que chamamos alma

e depois ferve na pele
causando torpor
e mais risos

ri, amigo,
sobretudo do teu anjo
que rejeitou a vida de outro
para te embalar em noites confusas

e nunca pensou duas vezes
em te defender de ti mesmo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

o próximo vazio

Se a cada poema escrito explodisse
uma bomba de endorfina dentro do meu cérebro,
Buda trincaria os lábios. Ao invés dessa euforia
abate-se sobre meu corpo uma apatia desnecessária.

Um leve perfume de sabonete indo embora.
Pelas costas os últimos pingos do banho.

doação

Assim que eu partir desse mundo
ofereçam as minhas cobertas
aos desvalidos das calçadas.

Creio piamente na energia
em cada fio de tecido.

O sortudo pedinte
além de não sentir frio

ao dormir com meus lençóis
todos os dias amanhecerá
com uma vontade louca
de escrever versos.

Não será feliz por isso.
Mas se ele tiver um bico de pão
e um golinho de café quente

quem sabe eu não estarei presente
também na sua alma.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

experiência física

"deixa que eu estendo as suas calcinhas
no meu banheiro"

Deu-me vontade de dizer isso
ao ouvir a vizinha do andar de cima
lamentar-se por seu varal ter quebrado.

Subo a escada,
toco a campainha.

Os seus cabelos ainda estão molhados.
Os olhos dela são olhos de quem vive sozinha.
(porque quer)

"pois não, senhor?"

"desculpe-me, mas não pude
deixar de ouvir sobre o seu varal..."

"ah..."

"se a doce dama me permitir posso secar
na minha suíte ou na minha varanda
as suas peças íntimas."

"muito gentil,
qual o seu nome?"

"Senhor Solitário,
ao seu dispor."

Pego a mão da madame
beijo levemente as pontinhas
dos seus dedos.

"ui, tenho cócegas... (o celular dela toca)
um minutinho..."

A toalha a envolvê-la quase
escorrega do seu corpo,

tremo, suo, ela volta trazendo
uma cestinha artesanal
dentro várias joias:

lycra, algodão, seda
mil cores e feitios.

"pronto, aqui o meu tesouro (ela ri,
tem os dentes brancos de publicidade)
o senhor estará à noite em casa?"

"sim, pois não... (a toalha dessa vez
deixou-me aflito) "

"gosta de vinho?"

"adoro, senhora."

"às nove então, levarei uma garrafa
Quinta do Morgado suave,
está bem? agora licença,
era meu sócio
ao telefone..."

Antes que a vizinha do andar de cima
feche a porta ela pisca
e sussurra.

"o senhor é poeta?"

"sim... (respondo engasgado) "

"sempre ouço seus gemidos e urros
quando a lua está alta e cheia"

A dama sorri e me beija o ouvido.
Fecha a porta devagarinho mostrando
parte do encanto que a toalha encobria.

domingo, 12 de junho de 2011

o imoral

Se o teu homem foi comprar cigarros
e nunca mais voltou ou se a tua pequena
(manhosa) pediu um tempo
e já faz séculos

não cortes os pulsos
nem pules da ponte,

garanto que terrível
um inferno mesmo
é se o teu homem
ao voltar para casa
esquecer teu nome
ou a tua pequena
ficar bem velhinha
sem dentes.

"O mundo é bão, Sebastião"
afinal tem cafezinho quente na cafeteira
ótimo livro na estante e um sorvete
maravilhoso de sobremesa.

sábado, 11 de junho de 2011

a traição dos travesseiros

Só agora notei  na parede
encostada à minha cama

uma mancha escura
como se um sujeito carvoeiro
houvesse colado as costas.

Ah, então é isso, enquanto durmo
os meus travesseiros mantêm
um certo envolvimento
com a parede.

E eu que pensava o único amor
dos meus travesseiros
a minha nuca.

Confiava a eles os meus sonhos e a minha insônia.
Mas sabe-se lá o que planejavam os pérfidos
à cabeceira da cama.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

amante

Dia após dia
desço a escada do meu bloco
e vou ao jardim do prédio
para ver como está se saindo
a flor que plantei.

Sempre é um olhar diferente
dela dentro do meu peito.

Sempre é outra a brisa
que me causa frêmitos
e certamente a ela
também.

Na hora da despedida,
penso "Deus, não mereço
tanto êxtase e encanto
no meu pescoço"

Sim, no meu pescoço,
pois a flor que plantei
no jardim do prédio

naturalmente despede-se
encostando suas pétalas
e me fazendo cócegas
pertinho da orelha.

(ela não usa batom,
portanto não há problema
quando entro em casa
e sento para o jantar)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

o amor infinito do lenhador

Faz um tempinho que não ando contigo.
Lembro-me das calçadas molhadas,
das nuvens alaranjadas,
dos chicletes, das tampas
de refrigerantes,
das folhas
secas.

O tempo quando tem pressa
quando foge do controle  
torna-te cada dia jovial

e um ar de mistério exala-se
dos teus botões de aço.

Estranho ter ver sempre próxima
da tua irmã (ou seria tua namorada?)

e ao falar apenas contigo
e ao olhar apenas para teus olhos

é inevitável supor que no fundo
é uma só coisa a tua alma
e a alma dela.

Mas é engraçado, por exemplo, agora
conversar tão chegado aos teus ouvidos
sabendo que ela (tua irmã ou tua namorada)
também está me ouvindo em alto e bom som.

Então dize a ela
que o meu amor se estende
e se multiplica por dois.

Eu não amo o meu pé direito
mais do que o esquerdo.

E tanto um quanto o outro
precisam de vocês assim
coladas e inseparáveis.

Amanhã (loucura falar sobre um sonho iminente)
mas, enfim, amanhã nós subiremos a montanha.

Aquela montanha cuja imagem
passamos horas admirando
o cartão postal.

Dize para tua irmã e namorada
(se ela já não estiver dando pulinhos)
que subiremos a montanha encantada.

E lá em cima, bem no topo,
eu tirarei vocês dos pés
(minhas meninas)

e nunca nunca mais
voltaremos ao quarto,

a este quarto empoeirado cheio de livros imprestáveis
com marcas de bunda de xícara sobre suas capas.

Eu cavarei um lindo buraco
eu farei uma prece
e enterrarei emocionado
vocês duas.

Ninguém ouvirá falar desse lenhador
nem das suas meninas botas.

o dorso do solitário

Não é bom deixar as costas sem o carinho das mãos da amada.
Os cravos tomam de conta feito erva daninha ou arame farpado.

Nascem sombrios sinais que não são de nascença.
De solidão, decerto. E não adianta torceres o braço.

Mesmo que espremas um e outro
dentro do coração há mais e bem feios.

Caso estejas sozinho por vontade própria (duvido)
não te envergonhes de ir à praça
camisa no ombro.

Assobia, moço triste
mostra tuas costas
aos pombos.

Sempre tem um míope que confunde
cravo nas costas com azeitona preta.

Não te esqueças ao chegar em casa
lavar com sal grosso e sabonete
as marcas das bicadas.

Nunca se sabe em qual terreno
o bombo meteu o bico.

Há pombos que adoram
a sujeira dos poodles.

terça-feira, 7 de junho de 2011

epístola do corpo

Quando durmo sou um.
Quando acordo sou outro.

Depois de morto
serei quantos?

Não morderei o próprio punho
para constatar sangue nas veias.

A vida que me cerca
de fato é uma vida alheia
que se diz minha quando durmo
mas é de outro quando acordo.

A curiosidade em morder o punho
e beber meu sangue
é apenas um fulgor
de menino.

Afinal sempre ofereço a ela minha pele
enquanto sinto seu cheiro.

E não serei eu seu dono ou o seu deus
a rasgar céus e abrir mares.

Já lhe sou grato por ainda poder dormir
e ainda poder acordar
atento ao que passa
dentro de mim
e ao que foge
do outro.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

as três marias

Cansei-me dos meus olhos.
Se pudesse arrancá-los
e deixá-los de molho
em um copo
de vinagre,
fazia-o.

Mas os olhos berram, falam alto, chamariam atenção das estrelas.
Tenho medo que as estrelas despenquem dos céus dentro
do copo de vinagre tentando salvar meus olhos.
Não duvido.

Deus quando bebia vinho na taberna
e fez as estrelas e as jogou pro alto

a única lei foi que mesmo mortas
elas se conservassem servas
dos olhos do bardo.

Pelo visto essas meninas ainda levam a sério.
Pois sempre que morrem fingem-se vivas
e brilhando (tudo para que os poetas
não esqueçam seus antigos
amores)

domingo, 5 de junho de 2011

penúria maior do mundo

Ontem banquei o palhaço
dançando no meio do salão
com uma garrafa nos braços.

Patético mesmo foi andar uma praia inteira
debaixo de chuva, pisando em estrelas
chorando feito um bebê
depois do parto.

Você nunca me deu esperanças
portanto não se sinta tão mal.

Eu também nunca tive coragem
de suplicar seus pés e beijá-los
demente até o dia da sua morte.

Estamos quites, meu bem
e não sofra porque sofrimento
é para aqueles sujeitos poetas
que passam quase a vida toda
sonhando ser outra coisa,

dragão de Komodo
ou borboleta.

No fim do apocalipse [acredite]
são apenas crianças perdidas
em uma estação de trem
deserta.

Nada de monstros
e nada de flores.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

a taça dos loucos ou dos justos

Nunca pensei que eu teria ciúme da minha sombra.
Da silhueta dela sobre a estante.

É um tipo de ciúme muito estranho
além de apertar o peito da gente
estrangula a alma dos objetos.

Fico sem saber ao certo
se é o meu espírito
quem acorda
os mortos

ou se é a vida deles
que não foi gasta
o bastante
lá fora

e fico eu feito barata tonta rasgando papéis
bebendo café, lavando louças
aparando unhas

ora apático, ora surpreso
quando vejo que é o meu corpo

o elefante deslizando pela parede
a formiguinha de casaco cinza
a folha seca respirando
estirada na poltrona.

A minha sombra aproveita cada detalhe da luz
e vai fazendo ninhos pelos cantos da casa.

os vândalos de tênis nike vermelho

Disseram que eu estava vadiando
sem eira nem beira
nesses dias de ausência
e loucura

mas o que eu estava mesmo
era cuidando dos canteiros
da minha praça.

Ultimamente pombos enlouquecidos
deram a bicar os olhos das flores.

Tenho que ser paciente e negociar com eles
miolos de pão por ramalhetes.

Alguns gentis e solidários aceitam a oferta de bom grado
e prostram-se aos meus pés felizes com as migalhas.

Outros sanguinários preferem arrancar
com requinte de crueldade cada pétala
(que é da flor cada cílio) indiferentes
à minha tristeza.

Contra esses bárbaros não há outra alternativa
senão lançar mão do meu guarda-chuva
e acertá-los bem no peito.