A verdade é que eu sou um pescador
encantado e perdido em alto mar.
Os versos que escrevo
às vezes sonho dentro de uma ostra
outras vezes deliro nas costas de um golfinho.
São versos sinceros como ontem
quase morri de dor de cabeça
e só havia as estrelas
únicas testemunhas
do meu transe.
Não é bom ter somente estrelas
por perto quando a cabeça explode.
Dá vontade da gente querer ser também estrela.
Deixar o mar e não se despedir da mãe nem do filho.
O que diria meu filho sem pai nesse mundão de mar
e como choraria minha mãe sozinha no seu quarto.
terça-feira, 28 de junho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
velocidade da luz
Quantas escovas perdidas
pelo cano da pia
do banheiro.
Sob todos os vacilos
uma coisa ficou clara:
a mão de um homem lúcido
não deve tremer se a mente sonha.
Felizmente as baratas
agora terão um sorriso branco.
pelo cano da pia
do banheiro.
Sob todos os vacilos
uma coisa ficou clara:
a mão de um homem lúcido
não deve tremer se a mente sonha.
Felizmente as baratas
agora terão um sorriso branco.
sábado, 25 de junho de 2011
sátiro não sabe tocar gaita
Antes que o sol chegasse à janela
fugi apressado me enfiando
dentro da bota.
Aquela meia há tempo sumida
sorriu com a minha presença.
E ficamos lá (eu e a meia podre)
dentro da bota vendo o sol atacar os objetos
enchafurdando cada canto do meu quarto
sem piedade e sem escrúpulos.
Por isso eu amo a lua.
A lua não invade minhas coisas.
Fica na varanda, se muito
cai na poncheira de vidro.
fugi apressado me enfiando
dentro da bota.
Aquela meia há tempo sumida
sorriu com a minha presença.
E ficamos lá (eu e a meia podre)
dentro da bota vendo o sol atacar os objetos
enchafurdando cada canto do meu quarto
sem piedade e sem escrúpulos.
Por isso eu amo a lua.
A lua não invade minhas coisas.
Fica na varanda, se muito
cai na poncheira de vidro.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
sátiro não sabe tocar flauta
Os versos egoístas e tristes
não te mostrarei novamente,
queimo-os dentro de mim
sem cerimônia.
Sei que a cada fornalha e urro na fogueira
perco um pouco da essência de monstro.
Mas, diz-me, o que vale
um monstro inocente
só quando dorme?
Os versos tristes e egoístas
deixarão de te fazer sofrer
ou te alegrar por vingança,
queimo-os dentro de mim
sem altar e sem unguentos.
não te mostrarei novamente,
queimo-os dentro de mim
sem cerimônia.
Sei que a cada fornalha e urro na fogueira
perco um pouco da essência de monstro.
Mas, diz-me, o que vale
um monstro inocente
só quando dorme?
Os versos tristes e egoístas
deixarão de te fazer sofrer
ou te alegrar por vingança,
queimo-os dentro de mim
sem altar e sem unguentos.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
riso
ri enquanto o mundo
tenta te conduzir
ao desespero
da posse alheia,
ri pois não tem jeito
o osso que morde a carne
a carne que modifica o espírito,
ri não da comédia
mas do pranto e da farsa
do vazio absurdo de todos os dias
das mulheres distantes de todos os sonhos,
ri, meu camarada, ri com o máximo de desdém
que ainda sobra na tua mente e se foge a mente,
ri da fuga dos teus pobres neurônios apagados,
cinzas, decrépitos, perdidos a cada fumaça
ri dos amigos que riem da tua loucura,
ri dos teus amores que te preparam
o cálice da solidão
ri da paciência que te perturba,
ri da maternidade que te protege
mas não rias da tua insignificante vida
cujo imenso tesouro é uma sílaba
é uma palavra, é um verso
é um poema,
ri, amigo, ri da tua sorte
das tuas noites afamadas
da tua ânsia e do teu vinho
mas não rias do fim,
do tropeço e da morte
pois sempre há mais mortes que supomos
e mais tropeços adiante e todo fim
é um esplêndido começo
uma alegria infinda
que ora se conserva
no que chamamos alma
e depois ferve na pele
causando torpor
e mais risos
ri, amigo,
sobretudo do teu anjo
que rejeitou a vida de outro
para te embalar em noites confusas
e nunca pensou duas vezes
em te defender de ti mesmo.
tenta te conduzir
ao desespero
da posse alheia,
ri pois não tem jeito
o osso que morde a carne
a carne que modifica o espírito,
ri não da comédia
mas do pranto e da farsa
do vazio absurdo de todos os dias
das mulheres distantes de todos os sonhos,
ri, meu camarada, ri com o máximo de desdém
que ainda sobra na tua mente e se foge a mente,
ri da fuga dos teus pobres neurônios apagados,
cinzas, decrépitos, perdidos a cada fumaça
ri dos amigos que riem da tua loucura,
ri dos teus amores que te preparam
o cálice da solidão
ri da paciência que te perturba,
ri da maternidade que te protege
mas não rias da tua insignificante vida
cujo imenso tesouro é uma sílaba
é uma palavra, é um verso
é um poema,
ri, amigo, ri da tua sorte
das tuas noites afamadas
da tua ânsia e do teu vinho
mas não rias do fim,
do tropeço e da morte
pois sempre há mais mortes que supomos
e mais tropeços adiante e todo fim
é um esplêndido começo
uma alegria infinda
que ora se conserva
no que chamamos alma
e depois ferve na pele
causando torpor
e mais risos
ri, amigo,
sobretudo do teu anjo
que rejeitou a vida de outro
para te embalar em noites confusas
e nunca pensou duas vezes
em te defender de ti mesmo.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
o próximo vazio
Se a cada poema escrito explodisse
uma bomba de endorfina dentro do meu cérebro,
Buda trincaria os lábios. Ao invés dessa euforia
abate-se sobre meu corpo uma apatia desnecessária.
Um leve perfume de sabonete indo embora.
Pelas costas os últimos pingos do banho.
uma bomba de endorfina dentro do meu cérebro,
Buda trincaria os lábios. Ao invés dessa euforia
abate-se sobre meu corpo uma apatia desnecessária.
Um leve perfume de sabonete indo embora.
Pelas costas os últimos pingos do banho.
doação
Assim que eu partir desse mundo
ofereçam as minhas cobertas
aos desvalidos das calçadas.
Creio piamente na energia
em cada fio de tecido.
O sortudo pedinte
além de não sentir frio
ao dormir com meus lençóis
todos os dias amanhecerá
com uma vontade louca
de escrever versos.
Não será feliz por isso.
Mas se ele tiver um bico de pão
e um golinho de café quente
quem sabe eu não estarei presente
também na sua alma.
ofereçam as minhas cobertas
aos desvalidos das calçadas.
Creio piamente na energia
em cada fio de tecido.
O sortudo pedinte
além de não sentir frio
ao dormir com meus lençóis
todos os dias amanhecerá
com uma vontade louca
de escrever versos.
Não será feliz por isso.
Mas se ele tiver um bico de pão
e um golinho de café quente
quem sabe eu não estarei presente
também na sua alma.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
experiência física
"deixa que eu estendo as suas calcinhas
no meu banheiro"
Deu-me vontade de dizer isso
ao ouvir a vizinha do andar de cima
lamentar-se por seu varal ter quebrado.
Subo a escada,
toco a campainha.
Os seus cabelos ainda estão molhados.
Os olhos dela são olhos de quem vive sozinha.
(porque quer)
"pois não, senhor?"
"desculpe-me, mas não pude
deixar de ouvir sobre o seu varal..."
"ah..."
"se a doce dama me permitir posso secar
na minha suíte ou na minha varanda
as suas peças íntimas."
"muito gentil,
qual o seu nome?"
"Senhor Solitário,
ao seu dispor."
Pego a mão da madame
beijo levemente as pontinhas
dos seus dedos.
"ui, tenho cócegas... (o celular dela toca)
um minutinho..."
A toalha a envolvê-la quase
escorrega do seu corpo,
tremo, suo, ela volta trazendo
uma cestinha artesanal
dentro várias joias:
lycra, algodão, seda
mil cores e feitios.
"pronto, aqui o meu tesouro (ela ri,
tem os dentes brancos de publicidade)
o senhor estará à noite em casa?"
"sim, pois não... (a toalha dessa vez
deixou-me aflito) "
"gosta de vinho?"
"adoro, senhora."
"às nove então, levarei uma garrafa
Quinta do Morgado suave,
está bem? agora licença,
era meu sócio
ao telefone..."
Antes que a vizinha do andar de cima
feche a porta ela pisca
e sussurra.
"o senhor é poeta?"
"sim... (respondo engasgado) "
"sempre ouço seus gemidos e urros
quando a lua está alta e cheia"
A dama sorri e me beija o ouvido.
Fecha a porta devagarinho mostrando
parte do encanto que a toalha encobria.
no meu banheiro"
Deu-me vontade de dizer isso
ao ouvir a vizinha do andar de cima
lamentar-se por seu varal ter quebrado.
Subo a escada,
toco a campainha.
Os seus cabelos ainda estão molhados.
Os olhos dela são olhos de quem vive sozinha.
(porque quer)
"pois não, senhor?"
"desculpe-me, mas não pude
deixar de ouvir sobre o seu varal..."
"ah..."
"se a doce dama me permitir posso secar
na minha suíte ou na minha varanda
as suas peças íntimas."
"muito gentil,
qual o seu nome?"
"Senhor Solitário,
ao seu dispor."
Pego a mão da madame
beijo levemente as pontinhas
dos seus dedos.
"ui, tenho cócegas... (o celular dela toca)
um minutinho..."
A toalha a envolvê-la quase
escorrega do seu corpo,
tremo, suo, ela volta trazendo
uma cestinha artesanal
dentro várias joias:
lycra, algodão, seda
mil cores e feitios.
"pronto, aqui o meu tesouro (ela ri,
tem os dentes brancos de publicidade)
o senhor estará à noite em casa?"
"sim, pois não... (a toalha dessa vez
deixou-me aflito) "
"gosta de vinho?"
"adoro, senhora."
"às nove então, levarei uma garrafa
Quinta do Morgado suave,
está bem? agora licença,
era meu sócio
ao telefone..."
Antes que a vizinha do andar de cima
feche a porta ela pisca
e sussurra.
"o senhor é poeta?"
"sim... (respondo engasgado) "
"sempre ouço seus gemidos e urros
quando a lua está alta e cheia"
A dama sorri e me beija o ouvido.
Fecha a porta devagarinho mostrando
parte do encanto que a toalha encobria.
domingo, 12 de junho de 2011
o imoral
Se o teu homem foi comprar cigarros
e nunca mais voltou ou se a tua pequena
(manhosa) pediu um tempo
e já faz séculos
não cortes os pulsos
nem pules da ponte,
garanto que terrível
um inferno mesmo
é se o teu homem
ao voltar para casa
esquecer teu nome
ou a tua pequena
ficar bem velhinha
sem dentes.
"O mundo é bão, Sebastião"
afinal tem cafezinho quente na cafeteira
ótimo livro na estante e um sorvete
maravilhoso de sobremesa.
e nunca mais voltou ou se a tua pequena
(manhosa) pediu um tempo
e já faz séculos
não cortes os pulsos
nem pules da ponte,
garanto que terrível
um inferno mesmo
é se o teu homem
ao voltar para casa
esquecer teu nome
ou a tua pequena
ficar bem velhinha
sem dentes.
"O mundo é bão, Sebastião"
afinal tem cafezinho quente na cafeteira
ótimo livro na estante e um sorvete
maravilhoso de sobremesa.
sábado, 11 de junho de 2011
a traição dos travesseiros
Só agora notei na parede
encostada à minha cama
uma mancha escura
como se um sujeito carvoeiro
houvesse colado as costas.
Ah, então é isso, enquanto durmo
os meus travesseiros mantêm
um certo envolvimento
com a parede.
E eu que pensava o único amor
dos meus travesseiros
a minha nuca.
Confiava a eles os meus sonhos e a minha insônia.
Mas sabe-se lá o que planejavam os pérfidos
à cabeceira da cama.
encostada à minha cama
uma mancha escura
como se um sujeito carvoeiro
houvesse colado as costas.
Ah, então é isso, enquanto durmo
os meus travesseiros mantêm
um certo envolvimento
com a parede.
E eu que pensava o único amor
dos meus travesseiros
a minha nuca.
Confiava a eles os meus sonhos e a minha insônia.
Mas sabe-se lá o que planejavam os pérfidos
à cabeceira da cama.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
amante
Dia após dia
desço a escada do meu bloco
e vou ao jardim do prédio
para ver como está se saindo
a flor que plantei.
Sempre é um olhar diferente
dela dentro do meu peito.
Sempre é outra a brisa
que me causa frêmitos
e certamente a ela
também.
Na hora da despedida,
penso "Deus, não mereço
tanto êxtase e encanto
no meu pescoço"
Sim, no meu pescoço,
pois a flor que plantei
no jardim do prédio
naturalmente despede-se
encostando suas pétalas
e me fazendo cócegas
pertinho da orelha.
(ela não usa batom,
portanto não há problema
quando entro em casa
e sento para o jantar)
desço a escada do meu bloco
e vou ao jardim do prédio
para ver como está se saindo
a flor que plantei.
Sempre é um olhar diferente
dela dentro do meu peito.
Sempre é outra a brisa
que me causa frêmitos
e certamente a ela
também.
Na hora da despedida,
penso "Deus, não mereço
tanto êxtase e encanto
no meu pescoço"
Sim, no meu pescoço,
pois a flor que plantei
no jardim do prédio
naturalmente despede-se
encostando suas pétalas
e me fazendo cócegas
pertinho da orelha.
(ela não usa batom,
portanto não há problema
quando entro em casa
e sento para o jantar)
quarta-feira, 8 de junho de 2011
o amor infinito do lenhador
Faz um tempinho que não ando contigo.
Lembro-me das calçadas molhadas,
das nuvens alaranjadas,
dos chicletes, das tampas
de refrigerantes,
das folhas
secas.
O tempo quando tem pressa
quando foge do controle
torna-te cada dia jovial
e um ar de mistério exala-se
dos teus botões de aço.
Estranho ter ver sempre próxima
da tua irmã (ou seria tua namorada?)
e ao falar apenas contigo
e ao olhar apenas para teus olhos
é inevitável supor que no fundo
é uma só coisa a tua alma
e a alma dela.
Mas é engraçado, por exemplo, agora
conversar tão chegado aos teus ouvidos
sabendo que ela (tua irmã ou tua namorada)
também está me ouvindo em alto e bom som.
Então dize a ela
que o meu amor se estende
e se multiplica por dois.
Eu não amo o meu pé direito
mais do que o esquerdo.
E tanto um quanto o outro
precisam de vocês assim
coladas e inseparáveis.
Amanhã (loucura falar sobre um sonho iminente)
mas, enfim, amanhã nós subiremos a montanha.
Aquela montanha cuja imagem
passamos horas admirando
o cartão postal.
Dize para tua irmã e namorada
(se ela já não estiver dando pulinhos)
que subiremos a montanha encantada.
E lá em cima, bem no topo,
eu tirarei vocês dos pés
(minhas meninas)
e nunca nunca mais
voltaremos ao quarto,
a este quarto empoeirado cheio de livros imprestáveis
com marcas de bunda de xícara sobre suas capas.
Eu cavarei um lindo buraco
eu farei uma prece
e enterrarei emocionado
vocês duas.
Ninguém ouvirá falar desse lenhador
nem das suas meninas botas.
Lembro-me das calçadas molhadas,
das nuvens alaranjadas,
dos chicletes, das tampas
de refrigerantes,
das folhas
secas.
O tempo quando tem pressa
quando foge do controle
torna-te cada dia jovial
e um ar de mistério exala-se
dos teus botões de aço.
Estranho ter ver sempre próxima
da tua irmã (ou seria tua namorada?)
e ao falar apenas contigo
e ao olhar apenas para teus olhos
é inevitável supor que no fundo
é uma só coisa a tua alma
e a alma dela.
Mas é engraçado, por exemplo, agora
conversar tão chegado aos teus ouvidos
sabendo que ela (tua irmã ou tua namorada)
também está me ouvindo em alto e bom som.
Então dize a ela
que o meu amor se estende
e se multiplica por dois.
Eu não amo o meu pé direito
mais do que o esquerdo.
E tanto um quanto o outro
precisam de vocês assim
coladas e inseparáveis.
Amanhã (loucura falar sobre um sonho iminente)
mas, enfim, amanhã nós subiremos a montanha.
Aquela montanha cuja imagem
passamos horas admirando
o cartão postal.
Dize para tua irmã e namorada
(se ela já não estiver dando pulinhos)
que subiremos a montanha encantada.
E lá em cima, bem no topo,
eu tirarei vocês dos pés
(minhas meninas)
e nunca nunca mais
voltaremos ao quarto,
a este quarto empoeirado cheio de livros imprestáveis
com marcas de bunda de xícara sobre suas capas.
Eu cavarei um lindo buraco
eu farei uma prece
e enterrarei emocionado
vocês duas.
Ninguém ouvirá falar desse lenhador
nem das suas meninas botas.
o dorso do solitário
Não é bom deixar as costas sem o carinho das mãos da amada.
Os cravos tomam de conta feito erva daninha ou arame farpado.
Nascem sombrios sinais que não são de nascença.
De solidão, decerto. E não adianta torceres o braço.
Mesmo que espremas um e outro
dentro do coração há mais e bem feios.
Caso estejas sozinho por vontade própria (duvido)
não te envergonhes de ir à praça
camisa no ombro.
Assobia, moço triste
mostra tuas costas
aos pombos.
Sempre tem um míope que confunde
cravo nas costas com azeitona preta.
Não te esqueças ao chegar em casa
lavar com sal grosso e sabonete
as marcas das bicadas.
Nunca se sabe em qual terreno
o bombo meteu o bico.
Há pombos que adoram
a sujeira dos poodles.
Os cravos tomam de conta feito erva daninha ou arame farpado.
Nascem sombrios sinais que não são de nascença.
De solidão, decerto. E não adianta torceres o braço.
Mesmo que espremas um e outro
dentro do coração há mais e bem feios.
Caso estejas sozinho por vontade própria (duvido)
não te envergonhes de ir à praça
camisa no ombro.
Assobia, moço triste
mostra tuas costas
aos pombos.
Sempre tem um míope que confunde
cravo nas costas com azeitona preta.
Não te esqueças ao chegar em casa
lavar com sal grosso e sabonete
as marcas das bicadas.
Nunca se sabe em qual terreno
o bombo meteu o bico.
Há pombos que adoram
a sujeira dos poodles.
terça-feira, 7 de junho de 2011
epístola do corpo
Quando durmo sou um.
Quando acordo sou outro.
Depois de morto
serei quantos?
Não morderei o próprio punho
para constatar sangue nas veias.
A vida que me cerca
de fato é uma vida alheia
que se diz minha quando durmo
mas é de outro quando acordo.
A curiosidade em morder o punho
e beber meu sangue
é apenas um fulgor
de menino.
Afinal sempre ofereço a ela minha pele
enquanto sinto seu cheiro.
E não serei eu seu dono ou o seu deus
a rasgar céus e abrir mares.
Já lhe sou grato por ainda poder dormir
e ainda poder acordar
atento ao que passa
dentro de mim
e ao que foge
do outro.
Quando acordo sou outro.
Depois de morto
serei quantos?
Não morderei o próprio punho
para constatar sangue nas veias.
A vida que me cerca
de fato é uma vida alheia
que se diz minha quando durmo
mas é de outro quando acordo.
A curiosidade em morder o punho
e beber meu sangue
é apenas um fulgor
de menino.
Afinal sempre ofereço a ela minha pele
enquanto sinto seu cheiro.
E não serei eu seu dono ou o seu deus
a rasgar céus e abrir mares.
Já lhe sou grato por ainda poder dormir
e ainda poder acordar
atento ao que passa
dentro de mim
e ao que foge
do outro.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
as três marias
Cansei-me dos meus olhos.
Se pudesse arrancá-los
e deixá-los de molho
em um copo
de vinagre,
fazia-o.
Mas os olhos berram, falam alto, chamariam atenção das estrelas.
Tenho medo que as estrelas despenquem dos céus dentro
do copo de vinagre tentando salvar meus olhos.
Não duvido.
Deus quando bebia vinho na taberna
e fez as estrelas e as jogou pro alto
a única lei foi que mesmo mortas
elas se conservassem servas
dos olhos do bardo.
Pelo visto essas meninas ainda levam a sério.
Pois sempre que morrem fingem-se vivas
e brilhando (tudo para que os poetas
não esqueçam seus antigos
amores)
Se pudesse arrancá-los
e deixá-los de molho
em um copo
de vinagre,
fazia-o.
Mas os olhos berram, falam alto, chamariam atenção das estrelas.
Tenho medo que as estrelas despenquem dos céus dentro
do copo de vinagre tentando salvar meus olhos.
Não duvido.
Deus quando bebia vinho na taberna
e fez as estrelas e as jogou pro alto
a única lei foi que mesmo mortas
elas se conservassem servas
dos olhos do bardo.
Pelo visto essas meninas ainda levam a sério.
Pois sempre que morrem fingem-se vivas
e brilhando (tudo para que os poetas
não esqueçam seus antigos
amores)
domingo, 5 de junho de 2011
penúria maior do mundo
Ontem banquei o palhaço
dançando no meio do salão
com uma garrafa nos braços.
Patético mesmo foi andar uma praia inteira
debaixo de chuva, pisando em estrelas
chorando feito um bebê
depois do parto.
Você nunca me deu esperanças
portanto não se sinta tão mal.
Eu também nunca tive coragem
de suplicar seus pés e beijá-los
demente até o dia da sua morte.
Estamos quites, meu bem
e não sofra porque sofrimento
é para aqueles sujeitos poetas
que passam quase a vida toda
sonhando ser outra coisa,
dragão de Komodo
ou borboleta.
No fim do apocalipse [acredite]
são apenas crianças perdidas
em uma estação de trem
deserta.
Nada de monstros
e nada de flores.
dançando no meio do salão
com uma garrafa nos braços.
Patético mesmo foi andar uma praia inteira
debaixo de chuva, pisando em estrelas
chorando feito um bebê
depois do parto.
Você nunca me deu esperanças
portanto não se sinta tão mal.
Eu também nunca tive coragem
de suplicar seus pés e beijá-los
demente até o dia da sua morte.
Estamos quites, meu bem
e não sofra porque sofrimento
é para aqueles sujeitos poetas
que passam quase a vida toda
sonhando ser outra coisa,
dragão de Komodo
ou borboleta.
No fim do apocalipse [acredite]
são apenas crianças perdidas
em uma estação de trem
deserta.
Nada de monstros
e nada de flores.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
a taça dos loucos ou dos justos
Nunca pensei que eu teria ciúme da minha sombra.
Da silhueta dela sobre a estante.
É um tipo de ciúme muito estranho
além de apertar o peito da gente
estrangula a alma dos objetos.
Fico sem saber ao certo
se é o meu espírito
quem acorda
os mortos
ou se é a vida deles
que não foi gasta
o bastante
lá fora
e fico eu feito barata tonta rasgando papéis
bebendo café, lavando louças
aparando unhas
ora apático, ora surpreso
quando vejo que é o meu corpo
o elefante deslizando pela parede
a formiguinha de casaco cinza
a folha seca respirando
estirada na poltrona.
A minha sombra aproveita cada detalhe da luz
e vai fazendo ninhos pelos cantos da casa.
Da silhueta dela sobre a estante.
É um tipo de ciúme muito estranho
além de apertar o peito da gente
estrangula a alma dos objetos.
Fico sem saber ao certo
se é o meu espírito
quem acorda
os mortos
ou se é a vida deles
que não foi gasta
o bastante
lá fora
e fico eu feito barata tonta rasgando papéis
bebendo café, lavando louças
aparando unhas
ora apático, ora surpreso
quando vejo que é o meu corpo
o elefante deslizando pela parede
a formiguinha de casaco cinza
a folha seca respirando
estirada na poltrona.
A minha sombra aproveita cada detalhe da luz
e vai fazendo ninhos pelos cantos da casa.
os vândalos de tênis nike vermelho
Disseram que eu estava vadiando
sem eira nem beira
nesses dias de ausência
e loucura
mas o que eu estava mesmo
era cuidando dos canteiros
da minha praça.
Ultimamente pombos enlouquecidos
deram a bicar os olhos das flores.
Tenho que ser paciente e negociar com eles
miolos de pão por ramalhetes.
Alguns gentis e solidários aceitam a oferta de bom grado
e prostram-se aos meus pés felizes com as migalhas.
Outros sanguinários preferem arrancar
com requinte de crueldade cada pétala
(que é da flor cada cílio) indiferentes
à minha tristeza.
Contra esses bárbaros não há outra alternativa
senão lançar mão do meu guarda-chuva
e acertá-los bem no peito.
sem eira nem beira
nesses dias de ausência
e loucura
mas o que eu estava mesmo
era cuidando dos canteiros
da minha praça.
Ultimamente pombos enlouquecidos
deram a bicar os olhos das flores.
Tenho que ser paciente e negociar com eles
miolos de pão por ramalhetes.
Alguns gentis e solidários aceitam a oferta de bom grado
e prostram-se aos meus pés felizes com as migalhas.
Outros sanguinários preferem arrancar
com requinte de crueldade cada pétala
(que é da flor cada cílio) indiferentes
à minha tristeza.
Contra esses bárbaros não há outra alternativa
senão lançar mão do meu guarda-chuva
e acertá-los bem no peito.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
zumbido
O próximo verso
o poema seguinte
me aproximam do que sou
me confundem com outro.
Quando me ocorre o arrependimento
eu sorrio porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.
E todas as coisas feias que fiz nesse mundo
(invasões, furtos, mentiras) foram um dia
matéria prima e suculenta
do verso presente
do futuro poema
então eu sorrio eu sorrio bastante
porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.
o poema seguinte
me aproximam do que sou
me confundem com outro.
Quando me ocorre o arrependimento
eu sorrio porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.
E todas as coisas feias que fiz nesse mundo
(invasões, furtos, mentiras) foram um dia
matéria prima e suculenta
do verso presente
do futuro poema
então eu sorrio eu sorrio bastante
porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
apocalipse e aurora
Quando eu estiver bem velhinho
bem velhinho mesmo
estarei só os ossinhos
só os ossinhos
terei muito cuidado
na hora de chorar
senão as lágrimas levam
a sobra de pele
do rosto
e ao andar na rua
certamente vou me segurando
pelas árvores das calçadas
pedindo a deus que não chova
que o vento não me derrube
não carregue minhas calças
não me faça
passar vergonha
na frente das meninas
do colégio
mas mesmo que caia uma tempestade
mas mesmo velhinho e só os ossinhos
se por sorte eu der fé uma flor
sozinha num canteiro de praça
eu vou até lá, eu beijo essa flor
eu arranco para mim, eu planto
no meu coraçãozinho enrugado
só terei que ter ainda mais cuidado
porque as lágrimas, seu moço
podem arrastar de vez a pele
do meu rosto cansado
de escrever versos
mas que importa
estarei velhinho
só os ossinhos
ninguém me verá na janela
nem as nuvens nem mesmo
as andorinhas
estarei velhinho, seu moço
velhinho, velhinho
só os ossinhos
só os ossinhos
bem velhinho mesmo
estarei só os ossinhos
só os ossinhos
terei muito cuidado
na hora de chorar
senão as lágrimas levam
a sobra de pele
do rosto
e ao andar na rua
certamente vou me segurando
pelas árvores das calçadas
pedindo a deus que não chova
que o vento não me derrube
não carregue minhas calças
não me faça
passar vergonha
na frente das meninas
do colégio
mas mesmo que caia uma tempestade
mas mesmo velhinho e só os ossinhos
se por sorte eu der fé uma flor
sozinha num canteiro de praça
eu vou até lá, eu beijo essa flor
eu arranco para mim, eu planto
no meu coraçãozinho enrugado
só terei que ter ainda mais cuidado
porque as lágrimas, seu moço
podem arrastar de vez a pele
do meu rosto cansado
de escrever versos
mas que importa
estarei velhinho
só os ossinhos
ninguém me verá na janela
nem as nuvens nem mesmo
as andorinhas
estarei velhinho, seu moço
velhinho, velhinho
só os ossinhos
só os ossinhos
terça-feira, 24 de maio de 2011
a saudade é degustativa
Você sabe como preparar uma galinha à cabidela.
Antes do divórcio deveria ter roubado a receita.
O segredo não está no tempero depois da galinha morta, isso eu sei.
O segredo talvez esteja no jeito que você cuida das suas galinhas.
Todas elas usam lacinho no pescoço
e guizos nos tornozelos.
De noite dançam música flamenca
e só dormem após duas taças de licor.
Quando morrem
elas morrem felizes.
Deveria ter roubado essas galinhas
enquanto você fazia minhas malas.
Antes do divórcio deveria ter roubado a receita.
O segredo não está no tempero depois da galinha morta, isso eu sei.
O segredo talvez esteja no jeito que você cuida das suas galinhas.
Todas elas usam lacinho no pescoço
e guizos nos tornozelos.
De noite dançam música flamenca
e só dormem após duas taças de licor.
Quando morrem
elas morrem felizes.
Deveria ter roubado essas galinhas
enquanto você fazia minhas malas.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
entardecer
Beba o meu café na minha xícara.
Beba no canto em que escosto a boca.
A única doença que tenho
é o tremor contagiante
dos meus lábios.
Experimente a pele
da minha xícara.
A única doença que ela tem
é uma pequena fissura
juntamente com outra
forma um lindo sorriso
na sua circunferência.
Beba no canto em que escosto a boca.
A única doença que tenho
é o tremor contagiante
dos meus lábios.
Experimente a pele
da minha xícara.
A única doença que ela tem
é uma pequena fissura
juntamente com outra
forma um lindo sorriso
na sua circunferência.
um malte
Ontem sem motivo aparente
o meu coração apertou-se
apertou-se tanto
que tive medo
e coloquei sobre o peito
a mão em um gesto
de carinho.
Se eu tivesse tido um enfarte
você estaria tão distante
não teria ouvido comigo
aquela música de Norah Jones.
o meu coração apertou-se
apertou-se tanto
que tive medo
e coloquei sobre o peito
a mão em um gesto
de carinho.
Se eu tivesse tido um enfarte
você estaria tão distante
não teria ouvido comigo
aquela música de Norah Jones.
domingo, 22 de maio de 2011
reforma
Os passarinhos devem estar desorientados.
Podaram a árvore e não lhes avisaram.
Também era a minha predileta.
Quando a lua cheia nela batia
um dos galhos entrava pela janela.
Entendia o sinal,
pulava da varanda.
Lá no alto da copa
a lua me contava
como fora seu dia.
Sobretudo da sua última briga
com o dragão de são jorge.
É um amor impossível.
Mas eu nunca lhe disse.
A lua cheia é sensível
igual a mulher grávida.
Aliás, a lua cheia
é uma mulher grávida.
Já sabendo disso
eu levava no bolso
chocolates e pitangas.
Ficávamos até o amanhecer ela fazendo tricô
eu rabiscando uns versos e sempre havia
um passarinho acordado fingindo
que dormia.
Podaram a árvore e não lhes avisaram.
Também era a minha predileta.
Quando a lua cheia nela batia
um dos galhos entrava pela janela.
Entendia o sinal,
pulava da varanda.
Lá no alto da copa
a lua me contava
como fora seu dia.
Sobretudo da sua última briga
com o dragão de são jorge.
É um amor impossível.
Mas eu nunca lhe disse.
A lua cheia é sensível
igual a mulher grávida.
Aliás, a lua cheia
é uma mulher grávida.
Já sabendo disso
eu levava no bolso
chocolates e pitangas.
Ficávamos até o amanhecer ela fazendo tricô
eu rabiscando uns versos e sempre havia
um passarinho acordado fingindo
que dormia.
sábado, 21 de maio de 2011
o bom moço
A nossa solidão é um esmero.
Fazemos cachos nas antenas das formigas.
Assopramos livros velhos e limpamos o ventilador.
Talvez tenha sido eu o culpado
por te apresentar às formigas do quarto.
Por explicar com detalhes
como separar os livros da estante
sem distração.
Como passar a flanela
nas hélices do ventilador
com ele ainda ligado.
Tu aprendeste rápido
e com tanto zelo.
Sempre que entras no meu quarto as formigas te cercam.
Os livros parecem tremer, páginas se abrem, batem asas.
O ventilador diz que está gripado vive esquecido e só.
Loucura, confesso.
Tudo para te chamar atenção.
E tu corres, abraças formigas,
beijas livros, acalentas o ventilador.
"meu deus, o que fiz
com essa menina"
Fazemos cachos nas antenas das formigas.
Assopramos livros velhos e limpamos o ventilador.
Talvez tenha sido eu o culpado
por te apresentar às formigas do quarto.
Por explicar com detalhes
como separar os livros da estante
sem distração.
Como passar a flanela
nas hélices do ventilador
com ele ainda ligado.
Tu aprendeste rápido
e com tanto zelo.
Sempre que entras no meu quarto as formigas te cercam.
Os livros parecem tremer, páginas se abrem, batem asas.
O ventilador diz que está gripado vive esquecido e só.
Loucura, confesso.
Tudo para te chamar atenção.
E tu corres, abraças formigas,
beijas livros, acalentas o ventilador.
"meu deus, o que fiz
com essa menina"
a última flor
Durante minha ausência
você abriu tantas portas
que é impossível voltar
pelo mesmo caminho
para a mesma casa.
Minha diversão agora
é ver minha sombra
noutras calçadas
ora bebendo água da chuva
ora bronzeando o pescoço.
Seu pecado foi abrir tantas portas ao mesmo tempo:
reina uma confusão de brisas, cheiros, folhas secas.
Eu que não sou bobo fujo da sua rua
sempre que vou comprar pão.
Ainda tenho medo que a sua porta aberta me convença
que tudo mudou que é outro momento que a vida é bela.
você abriu tantas portas
que é impossível voltar
pelo mesmo caminho
para a mesma casa.
Minha diversão agora
é ver minha sombra
noutras calçadas
ora bebendo água da chuva
ora bronzeando o pescoço.
Seu pecado foi abrir tantas portas ao mesmo tempo:
reina uma confusão de brisas, cheiros, folhas secas.
Eu que não sou bobo fujo da sua rua
sempre que vou comprar pão.
Ainda tenho medo que a sua porta aberta me convença
que tudo mudou que é outro momento que a vida é bela.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
coral de freiras
Depois dos estigmas
marcarem a alma
é em vão
a peleja
mesmo que lutes
e te rebeles.
Que importa o sonho
se de noite a fome
é tanta e a batalha
infame.
Agarra-te à névoa
e não confundas
lágrimas das estrelas
com os respingos
das andorinhas.
As estrelas são sinceras
e morrem silenciosas.
As andorinhas quando choram
fingem, mas não me digas:
preferes uma estrela distante
a uma andorinha felpuda
entre os dentes?
marcarem a alma
é em vão
a peleja
mesmo que lutes
e te rebeles.
Que importa o sonho
se de noite a fome
é tanta e a batalha
infame.
Agarra-te à névoa
e não confundas
lágrimas das estrelas
com os respingos
das andorinhas.
As estrelas são sinceras
e morrem silenciosas.
As andorinhas quando choram
fingem, mas não me digas:
preferes uma estrela distante
a uma andorinha felpuda
entre os dentes?
quinta-feira, 19 de maio de 2011
o eterno retorno também é uma ilusão
Não encontro as pegadas de ontem.
Apesar de sair deixando miolos de pão pelo caminho.
As vidraças todas estão fechadas.
Nenhum passarinho adentrou silenciosamente.
Formiguinhas matei as últimas dentro do açucareiro.
Não é agradável alimentar uma amizade
só à base de açúcar.
Não entendo como sumiram as pegadas de ontem.
E eu estava tão bem. Sorrindo com tudo que via.
O que me resta então é abrir todas as janelas.
Chamar os pássaros com minha flauta doce
e ressuscitar as formiguinhas beijando-lhes
as bocas pequeninas e fantasiosas.
Apesar de sair deixando miolos de pão pelo caminho.
As vidraças todas estão fechadas.
Nenhum passarinho adentrou silenciosamente.
Formiguinhas matei as últimas dentro do açucareiro.
Não é agradável alimentar uma amizade
só à base de açúcar.
Não entendo como sumiram as pegadas de ontem.
E eu estava tão bem. Sorrindo com tudo que via.
O que me resta então é abrir todas as janelas.
Chamar os pássaros com minha flauta doce
e ressuscitar as formiguinhas beijando-lhes
as bocas pequeninas e fantasiosas.
banquete
Largado na cama
fazendo sombras
com os dedos
na parede
penso em muitas coisas
como, por exemplo,
coçar as costas
usando seus cílios.
Hoje já fui à varanda levitando.
Aparei as unhas com a faca de cortar pão.
Isso tudo com os braços cruzados para trás
e os olhos fechados.
Existe um animalzinho cuja sombra
não consigo fazer com os dedos:
O rinoceronte de dois chifres.
Elefantes, girafas, crocodilos, sapos e cachorrinhos
em dois minutos estão todos brincando na parede.
O rinoceronte de dois chifres é especial.
Não consigo mesmo.
Chego perto mas aquele chifre menor é um estorvo.
Sempre quebro meu mindinho.
fazendo sombras
com os dedos
na parede
penso em muitas coisas
como, por exemplo,
coçar as costas
usando seus cílios.
Hoje já fui à varanda levitando.
Aparei as unhas com a faca de cortar pão.
Isso tudo com os braços cruzados para trás
e os olhos fechados.
Existe um animalzinho cuja sombra
não consigo fazer com os dedos:
O rinoceronte de dois chifres.
Elefantes, girafas, crocodilos, sapos e cachorrinhos
em dois minutos estão todos brincando na parede.
O rinoceronte de dois chifres é especial.
Não consigo mesmo.
Chego perto mas aquele chifre menor é um estorvo.
Sempre quebro meu mindinho.
romance
Debaixo do arco-íris a terra é boa
para plantar jasmins.
Mas cansei de ir só
e voltar sozinho.
Acaba de cair uma estrela
dentro do seu quarto e ela
saiu deslizando de ponta
até os seus chinelos.
Veja, ainda está lá
(e brilhando) parece
que os seus chinelos
agora têm companhia.
para plantar jasmins.
Mas cansei de ir só
e voltar sozinho.
Acaba de cair uma estrela
dentro do seu quarto e ela
saiu deslizando de ponta
até os seus chinelos.
Veja, ainda está lá
(e brilhando) parece
que os seus chinelos
agora têm companhia.
terça-feira, 17 de maio de 2011
valsa
Eu não faria
absolutamente
nada.
Deixaria que falasse, falasse, falasse
e eu ouviria, ouviria, ouviria, ouviria.
Têm mais coisas dentro da sua alma
que você nem imagina a beleza.
Mas confesso que o seu riso
entre o olhar sério é lindo.
E eu não faria
absolutamente
nada.
Deixaria que sorrisse, sorrisse
e eu voaria, voaria, voaria.
Acho que devemos cantar juntos.
Não ligue aquele canário enciumado.
Já vai chover, relampejar.
Um raio é o bastante.
Vamos enterrar no quintal dos seus avós
o passarinho dentro da caixa de sapato?
Depois a gente filosofa
sobre a morte e sobre o amor.
absolutamente
nada.
Deixaria que falasse, falasse, falasse
e eu ouviria, ouviria, ouviria, ouviria.
Têm mais coisas dentro da sua alma
que você nem imagina a beleza.
Mas confesso que o seu riso
entre o olhar sério é lindo.
E eu não faria
absolutamente
nada.
Deixaria que sorrisse, sorrisse
e eu voaria, voaria, voaria.
Acho que devemos cantar juntos.
Não ligue aquele canário enciumado.
Já vai chover, relampejar.
Um raio é o bastante.
Vamos enterrar no quintal dos seus avós
o passarinho dentro da caixa de sapato?
Depois a gente filosofa
sobre a morte e sobre o amor.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
relógio
A minha farsa é verdadeira.
Custou-me uma vida.
Mais outra
sem paradeiro.
Se você procurar debaixo do travesseiro
tem uma flor (roubada, mas uma flor) .
Custou-me uma vida.
Mais outra
sem paradeiro.
Se você procurar debaixo do travesseiro
tem uma flor (roubada, mas uma flor) .
de volta à cela
Não é bom cortar o dedo e sujar a parede.
A porta do guarda-roupa é o correto.
Faze então um desenho
(planície, montanha)
que se confunda
com a tua tristeza.
Quando eu chegar do trabalho
entenderei o recado
e serei forte.
Cortarei a mão direita.
A porta do guarda-roupa é o correto.
Faze então um desenho
(planície, montanha)
que se confunda
com a tua tristeza.
Quando eu chegar do trabalho
entenderei o recado
e serei forte.
Cortarei a mão direita.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
divagando
Sonhar com alguém desconhecido
é um claro sinal de solidão aguda.
Incrível é que o vestido dela
parecia tão real tocando meu nariz.
O perfume era daquele tipo de mulher dos sonhos.
Conheço bem minhas neuras e os meus castelos.
O perfume continua no quarto.
Minhas botas enrugam-se
contraindo o abdome,
não querem perder
a fragrância.
Minhas botas têm focinho de cachorro.
Um ótimo faro.
Agora é a vez das formigas paralisarem.
Cada uma olha para o alto e pensam que é pipoca.
é um claro sinal de solidão aguda.
Incrível é que o vestido dela
parecia tão real tocando meu nariz.
O perfume era daquele tipo de mulher dos sonhos.
Conheço bem minhas neuras e os meus castelos.
O perfume continua no quarto.
Minhas botas enrugam-se
contraindo o abdome,
não querem perder
a fragrância.
Minhas botas têm focinho de cachorro.
Um ótimo faro.
Agora é a vez das formigas paralisarem.
Cada uma olha para o alto e pensam que é pipoca.
terça-feira, 10 de maio de 2011
nove anos
Beije minha mão
e durma, filho.
Amanhã o seu dia
não será igual
nem ao meu dia
nem ao dia dos
pássaros.
Não pense porque viu um beija-flor bebendo água
amanhã ele terá a mesma sede e virá de novo
à sua varanda.
Os beija-flores ensinam aos seus pequenos
fugirem do ninho cedo e nunca saberemos
se era jovem ou ancião aquele que bebeu
toda a água com açúcar e depois limpou
o bico na toalha xadrez.
Beije minha mão
e não se esqueça,
filho
de ser feliz toda noite
antes de dormir (esse
é o segredo)
e durma, filho.
Amanhã o seu dia
não será igual
nem ao meu dia
nem ao dia dos
pássaros.
Não pense porque viu um beija-flor bebendo água
amanhã ele terá a mesma sede e virá de novo
à sua varanda.
Os beija-flores ensinam aos seus pequenos
fugirem do ninho cedo e nunca saberemos
se era jovem ou ancião aquele que bebeu
toda a água com açúcar e depois limpou
o bico na toalha xadrez.
Beije minha mão
e não se esqueça,
filho
de ser feliz toda noite
antes de dormir (esse
é o segredo)
domingo, 8 de maio de 2011
paremos por aqui
As minhas lágrimas nesse momento
misturam-se a um vinho
e há outra garrafa
na geladeira.
Manuel Bandeira tinha amigos
e era um brincalhão.
Eu sou triste feito uma taça
cheia, meia ou vazia.
Sou triste mesmo
e ponto e fim.
Já viu um homem chorando, baby?
Um homem que é quase outro ente?
O manjar dos deuses
é a solidão do poeta.
Não deseje para você esse frio
esse afogamento enquanto
golfinhos dançam
e sorriem.
Vou pegar a outra garrafa na geladeira,
com licença (aproveite e veja se da sua
janela há alguma nuvem parada e triste)
misturam-se a um vinho
e há outra garrafa
na geladeira.
Manuel Bandeira tinha amigos
e era um brincalhão.
Eu sou triste feito uma taça
cheia, meia ou vazia.
Sou triste mesmo
e ponto e fim.
Já viu um homem chorando, baby?
Um homem que é quase outro ente?
O manjar dos deuses
é a solidão do poeta.
Não deseje para você esse frio
esse afogamento enquanto
golfinhos dançam
e sorriem.
Vou pegar a outra garrafa na geladeira,
com licença (aproveite e veja se da sua
janela há alguma nuvem parada e triste)
sábado, 7 de maio de 2011
há versos que não posso te mostrar
Estou bem
assim, triste.
Não me abrace.
Deixe-me largado,
sentado na cama.
Nunca estive tão bem na minha vida:
sem anjos dentro de casa
e com o demônio fora.
Juro para você que a chuva no asfalto
agora molha meu peito (e isso é bom) .
assim, triste.
Não me abrace.
Deixe-me largado,
sentado na cama.
Nunca estive tão bem na minha vida:
sem anjos dentro de casa
e com o demônio fora.
Juro para você que a chuva no asfalto
agora molha meu peito (e isso é bom) .
quinta-feira, 5 de maio de 2011
o doce dark
Fui brincar na chuva
colhendo flores e pulando poças.
Acordei com os olhos inchados,
o nariz escorrendo, tossindo muito.
Não demora retorno ao jardim
(logo após esse chazinho)
Dessa vez as rosas colhidas
não guardarei no bolso nem dentro dos livros.
Farei aviãozinho com as pétalas
e lançarei da varanda no decote das meninas.
colhendo flores e pulando poças.
Acordei com os olhos inchados,
o nariz escorrendo, tossindo muito.
Não demora retorno ao jardim
(logo após esse chazinho)
Dessa vez as rosas colhidas
não guardarei no bolso nem dentro dos livros.
Farei aviãozinho com as pétalas
e lançarei da varanda no decote das meninas.
terça-feira, 3 de maio de 2011
o grito
Se acordares de madrugada
com o ronronar dos travesseiros
é a tua barba rala
fazendo neles
cócegas
e afagos.
Volta a dormir, jovem senhor
mas fica longe das fronhas:
dentro ainda é forte
o cheiro da falecida.
com o ronronar dos travesseiros
é a tua barba rala
fazendo neles
cócegas
e afagos.
Volta a dormir, jovem senhor
mas fica longe das fronhas:
dentro ainda é forte
o cheiro da falecida.
terça-feira, 26 de abril de 2011
orelha
Preciso ficar pensando
todos os instantes
que sou carne.
Senão viro seda, folha seca,
cachos de papai-noel e saio
voando pelas calçadas
e telhados.
Preciso não esquecer que sou carne.
Um pedaço de carne ambulante.
Caso contrário me transformo em pena de pombo.
Atravesso a janela. Invado a sala.
Pouso sobre o sofá.
Um pedaço de carne é um pedaço de carne.
O seu destino é pesado. Não é plumagem.
Preciso andar confiante.
Cheirar meu braço.
Morder meu braço.
Dizer para mim mesmo
antes que eu desmaie
que sou carne.
A todo instante eu não posso esquecer de repetir:
sou um pedaço de carne um pedaço de carne.
todos os instantes
que sou carne.
Senão viro seda, folha seca,
cachos de papai-noel e saio
voando pelas calçadas
e telhados.
Preciso não esquecer que sou carne.
Um pedaço de carne ambulante.
Caso contrário me transformo em pena de pombo.
Atravesso a janela. Invado a sala.
Pouso sobre o sofá.
Um pedaço de carne é um pedaço de carne.
O seu destino é pesado. Não é plumagem.
Preciso andar confiante.
Cheirar meu braço.
Morder meu braço.
Dizer para mim mesmo
antes que eu desmaie
que sou carne.
A todo instante eu não posso esquecer de repetir:
sou um pedaço de carne um pedaço de carne.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
lembranças do além
Fiz uma limpeza.
Uma geral no guarda-roupa:
cuecas velhas, perfumes vazios, jeans sem zíper.
O que me surpreendeu foi encontrar uma camiseta tua:
rosa, com um gatinho desenhado e lantejoulas coladas nele.
O que me assombrou ainda mais foi não lembrar de te ver usando
essa camiseta (quem esqueceria o sorriso de um gatinho desse)
Deve fazer muito tempo mesmo
que deixei de te amar.
Uma geral no guarda-roupa:
cuecas velhas, perfumes vazios, jeans sem zíper.
O que me surpreendeu foi encontrar uma camiseta tua:
rosa, com um gatinho desenhado e lantejoulas coladas nele.
O que me assombrou ainda mais foi não lembrar de te ver usando
essa camiseta (quem esqueceria o sorriso de um gatinho desse)
Deve fazer muito tempo mesmo
que deixei de te amar.
domingo, 24 de abril de 2011
as rosas
Eu sou o único responsável pelas rosas plantadas no jardim.
Exceto aquela parte sombreada que foram os passarinhos.
Portanto antes que me culpe pelas rosas pálidas
procure observar bem de qual terreno
é a rosa que tem na mão.
Eu não pedi para que os passarinhos me ajudassem.
Mas eles são impossíveis quando voam rasante.
O mais engraçado é que eles quando voam assim
sorriem feito bobos e não conseguem segurar
as sementes que lhes escapam dos bicos.
Eu não sugeri aos passarinhos felicidade.
Por sinal até tentei explicar que rosas
precisam de solidão e silêncio.
Os passarinhos não ouvem ninguém.
Continuaram voando rasante e sorrindo.
Não pude mesmo impedir que sementes
caíssem e brotassem naquela parte fértil
em que todo passarinho adorar viver.
O jardim é imenso.
Vai de um reino a outro.
Os passarinhos no entanto
só se interessam por essa parte.
Eu próprio poderia ter plantado rosas naquele lugar.
Não o fiz. No íntimo eu sei que é dos passarinhos
a faixa de terra dentro do meu peito.
Nessa parte sombreada eu tenho medo de plantar o que seja.
Já os passarinhos adoram e voam sorrindo
largando todo tipo de semente.
Então não me culpe se por acaso tiver na mão uma rosa pálida,
fraca, triste. Os passarinhos nunca foram cuidadosos.
Não escolhem o que vão lançar ao solo.
Às vezes acertam e crescem vigorosos e surpreendentes girassóis.
As rosas são especiais [eu disse isso a eles] não podem
simplesmente ser plantadas aos bandos,
sob folia e gracejos.
As rosas precisam de muita solidão e silêncio
ou não crescem fortes, sadias e felizes.
E eles ouvem?
Os passarinhos não ouvem ninguém.
Exceto aquela parte sombreada que foram os passarinhos.
Portanto antes que me culpe pelas rosas pálidas
procure observar bem de qual terreno
é a rosa que tem na mão.
Eu não pedi para que os passarinhos me ajudassem.
Mas eles são impossíveis quando voam rasante.
O mais engraçado é que eles quando voam assim
sorriem feito bobos e não conseguem segurar
as sementes que lhes escapam dos bicos.
Eu não sugeri aos passarinhos felicidade.
Por sinal até tentei explicar que rosas
precisam de solidão e silêncio.
Os passarinhos não ouvem ninguém.
Continuaram voando rasante e sorrindo.
Não pude mesmo impedir que sementes
caíssem e brotassem naquela parte fértil
em que todo passarinho adorar viver.
O jardim é imenso.
Vai de um reino a outro.
Os passarinhos no entanto
só se interessam por essa parte.
Eu próprio poderia ter plantado rosas naquele lugar.
Não o fiz. No íntimo eu sei que é dos passarinhos
a faixa de terra dentro do meu peito.
Nessa parte sombreada eu tenho medo de plantar o que seja.
Já os passarinhos adoram e voam sorrindo
largando todo tipo de semente.
Então não me culpe se por acaso tiver na mão uma rosa pálida,
fraca, triste. Os passarinhos nunca foram cuidadosos.
Não escolhem o que vão lançar ao solo.
Às vezes acertam e crescem vigorosos e surpreendentes girassóis.
As rosas são especiais [eu disse isso a eles] não podem
simplesmente ser plantadas aos bandos,
sob folia e gracejos.
As rosas precisam de muita solidão e silêncio
ou não crescem fortes, sadias e felizes.
E eles ouvem?
Os passarinhos não ouvem ninguém.
sábado, 23 de abril de 2011
idílio
Desejas ser minha macaquinha
e coçar as minhas costas?
Depois serei teu macaquinho
e coçarei as tuas.
Aqui no alto faz muito sol,
está tão quente: desçamos
ao jardim.
Sabe aquela orquídea
debaixo dela enterrei
o nosso banquete:
cupins, formigas, minhocas,
sementes de jambo, cascas
de amendoim.
Embora às vezes duvides,
sou um bom macaquinho.
Um gentleman,
delicado,
doce.
Perdoa-me pelas noites
em que eu sumia na floresta
louco, o rosto deformado,
ansioso e triste.
Olha, também guardei
um copinho de requeijão
cheio de refresco de uva.
Não faças essa cara, madame.
Sei que adoras tudo bem limpo.
A baixela eu mesmo lavei naquele córrego
aquele córrego do nosso primeiro beijo,
lembras?
Agora, senta-te.
Eis o guardanapo.
Meu deus, como és linda.
Poderia enfartar agora te olhando.
Após saciar tua fome de princesa
tenho uma surpresinha para ti.
Sabe aquele cogumelo na copa da castanheira?
Aquele que parece um anel e ficaste encantada.
Pois bem,
fecha os olhos,
dá-me tua mão.
Lindo, não?
(deu certinho no teu dedo)
Desejas ser para sempre minha macaquinha
na doença e na tristeza até o fim dos tempos?
Não chores, macaquinha
senão teu macaquinho
chora também.
E hoje está uma tarde tão linda
sem ninguém nas ruas.
e coçar as minhas costas?
Depois serei teu macaquinho
e coçarei as tuas.
Aqui no alto faz muito sol,
está tão quente: desçamos
ao jardim.
Sabe aquela orquídea
debaixo dela enterrei
o nosso banquete:
cupins, formigas, minhocas,
sementes de jambo, cascas
de amendoim.
Embora às vezes duvides,
sou um bom macaquinho.
Um gentleman,
delicado,
doce.
Perdoa-me pelas noites
em que eu sumia na floresta
louco, o rosto deformado,
ansioso e triste.
Olha, também guardei
um copinho de requeijão
cheio de refresco de uva.
Não faças essa cara, madame.
Sei que adoras tudo bem limpo.
A baixela eu mesmo lavei naquele córrego
aquele córrego do nosso primeiro beijo,
lembras?
Agora, senta-te.
Eis o guardanapo.
Meu deus, como és linda.
Poderia enfartar agora te olhando.
Após saciar tua fome de princesa
tenho uma surpresinha para ti.
Sabe aquele cogumelo na copa da castanheira?
Aquele que parece um anel e ficaste encantada.
Pois bem,
fecha os olhos,
dá-me tua mão.
Lindo, não?
(deu certinho no teu dedo)
Desejas ser para sempre minha macaquinha
na doença e na tristeza até o fim dos tempos?
Não chores, macaquinha
senão teu macaquinho
chora também.
E hoje está uma tarde tão linda
sem ninguém nas ruas.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
purificação
E se eu parasse de escrever versos
morreria sufocado dentro de uma bolinha de sabão
ou seria apenas um dedo suado encostado ao gatilho?
Se eu acabasse de vez com essa paranoia de escrever versos
seria curado dessa loucura de botas que engolem o sol da manhã?
A febre antes de atingir o pescoço
causa calafrios nos pés, eu sinto.
A chuva alimenta as telhas de lodo.
Noite chuvosa me lembra comprimidos.
Mas se eu parasse de escrever versos
teria perdido mesmo assim o guarda-chuva?
Adeus, homem casto.
Adeus, corvo.
Ultimamente quando cruzo praças
as flores dos canteiros reclamam:
"onde o guarda-chuva
a sua verdadeira alma?"
Elas não sabem que durante a noite
tu eras um homem casto rezando
para que chovesse no dia seguinte.
E se chovia lá ias tu bicando
a terra fofa e cortejando
tudo que se chamasse
rosas ou gramíneas.
Se eu parasse definitivamente de escrever versos
ousaria dizer de maneira lúcida que o meu guarda-chuva
era um corvo quando chovia e um casto senhor no quarto?
Por essas e outras temo o dia em que à revelia
meus dedos vão pular das mãos e os olhos do rosto.
E de nada adiantará as minhas formiguinhas correrem atrás.
Os meus dedos e os meus olhos sabem se divertir na rua.
Os olhos espiam na esquina
e os dedos roem as unhas.
morreria sufocado dentro de uma bolinha de sabão
ou seria apenas um dedo suado encostado ao gatilho?
Se eu acabasse de vez com essa paranoia de escrever versos
seria curado dessa loucura de botas que engolem o sol da manhã?
A febre antes de atingir o pescoço
causa calafrios nos pés, eu sinto.
A chuva alimenta as telhas de lodo.
Noite chuvosa me lembra comprimidos.
Mas se eu parasse de escrever versos
teria perdido mesmo assim o guarda-chuva?
Adeus, homem casto.
Adeus, corvo.
Ultimamente quando cruzo praças
as flores dos canteiros reclamam:
"onde o guarda-chuva
a sua verdadeira alma?"
Elas não sabem que durante a noite
tu eras um homem casto rezando
para que chovesse no dia seguinte.
E se chovia lá ias tu bicando
a terra fofa e cortejando
tudo que se chamasse
rosas ou gramíneas.
Se eu parasse definitivamente de escrever versos
ousaria dizer de maneira lúcida que o meu guarda-chuva
era um corvo quando chovia e um casto senhor no quarto?
Por essas e outras temo o dia em que à revelia
meus dedos vão pular das mãos e os olhos do rosto.
E de nada adiantará as minhas formiguinhas correrem atrás.
Os meus dedos e os meus olhos sabem se divertir na rua.
Os olhos espiam na esquina
e os dedos roem as unhas.
terça-feira, 19 de abril de 2011
borbulhas
Não se apavore com o seu sangue.
Não é você quem comanda o vazio.
Por mais que os seus músculos estiquem.
Seus gracejos e suas lágrimas apareçam.
Não pense que são seus os sonhos.
Você no máximo é uma bostinha
de pombo ou de borboleta.
Mas uma bostinha.
Esse riso ridículo é a promessa da angústia.
Esse meio caminho é uma trajetória insana.
Por mais que os óculos caiam sobre o seu longo nariz.
Os seus olhos se espantem com as fendas do espelho.
Não é seu o berro dentro do coração da sombra.
Não é sua sequer a sombra.
Você não passa de uma bostinha
de formiga ou de cisne.
Mas uma bostinha.
Não investigue os seus erros com esse cinismo.
O cínico é pássaro que não voa ou uma víbora
que sonha ser o dragão mais esperto da aldeia.
Não se assombre com o seu sangue.
Você é homem e não há como conter o fluxo.
Suponha que o dia da sua morte
não lhe cause entremecimento.
É um começo.
É um bom começo.
Não é você quem comanda o vazio.
Por mais que os seus músculos estiquem.
Seus gracejos e suas lágrimas apareçam.
Não pense que são seus os sonhos.
Você no máximo é uma bostinha
de pombo ou de borboleta.
Mas uma bostinha.
Esse riso ridículo é a promessa da angústia.
Esse meio caminho é uma trajetória insana.
Por mais que os óculos caiam sobre o seu longo nariz.
Os seus olhos se espantem com as fendas do espelho.
Não é seu o berro dentro do coração da sombra.
Não é sua sequer a sombra.
Você não passa de uma bostinha
de formiga ou de cisne.
Mas uma bostinha.
Não investigue os seus erros com esse cinismo.
O cínico é pássaro que não voa ou uma víbora
que sonha ser o dragão mais esperto da aldeia.
Não se assombre com o seu sangue.
Você é homem e não há como conter o fluxo.
Suponha que o dia da sua morte
não lhe cause entremecimento.
É um começo.
É um bom começo.
castiçais
Estou para conhecer alguém tão falastrão quanto o poeta.
Mesmo calado só olhando é um exímio usurpador.
A verdade é que leio pouco poesia.
Ou melhor, não leio.
Em dias macabros deixo um bom livro
debaixo do travesseiro e os fantasmas
fazem todo o resto: usando o cuspinho
da língua nos dedos, folheiam poemas,
escolhem os melhores, sussurram-me.
Às vezes sob o poder dos versos ando pela casa
sonâmbulo cantando odes e há quem muito goste:
as paredes.
A verdade é que não existe alguém tão enigmático quanto o poeta.
Se digo enigmático quero dizer uma espécie de coroinha do diabo.
Sabe que as palavras é um retrocesso diante do que veem no entanto
escrevem com uma fúria patética de cavalo picado por abelha africana.
Eu quase não leio poesia.
Conheço bem o ultraje dessa casta.
Levantam os olhos aos céus mas são os pés atolados no pântano
o que mais lhes oferece conforto, deleite, mistério, santidade e luz.
A verdade é que o poeta é um melindroso xamã desdentado.
Caso não chova ao seu desejo e hora torna-se insuportável.
Pensando até em queimar seus livros
e quebrar sua xícara contra a estante.
Mesmo calado só olhando é um exímio usurpador.
A verdade é que leio pouco poesia.
Ou melhor, não leio.
Em dias macabros deixo um bom livro
debaixo do travesseiro e os fantasmas
fazem todo o resto: usando o cuspinho
da língua nos dedos, folheiam poemas,
escolhem os melhores, sussurram-me.
Às vezes sob o poder dos versos ando pela casa
sonâmbulo cantando odes e há quem muito goste:
as paredes.
A verdade é que não existe alguém tão enigmático quanto o poeta.
Se digo enigmático quero dizer uma espécie de coroinha do diabo.
Sabe que as palavras é um retrocesso diante do que veem no entanto
escrevem com uma fúria patética de cavalo picado por abelha africana.
Eu quase não leio poesia.
Conheço bem o ultraje dessa casta.
Levantam os olhos aos céus mas são os pés atolados no pântano
o que mais lhes oferece conforto, deleite, mistério, santidade e luz.
A verdade é que o poeta é um melindroso xamã desdentado.
Caso não chova ao seu desejo e hora torna-se insuportável.
Pensando até em queimar seus livros
e quebrar sua xícara contra a estante.
a psicologia dos mortos
A essência é tudo que tenho.
Tanto no corpo quanto
nos reflexos dele.
Não preciso plantar árvores
para sentir nas unhas o gosto da terra
tampouco escalar montanhas para que
as nuvens me beijem.
A essência das coisas que estão fora
está dentro de mim com a mesma
inconfundível magia.
Assim é a vida que me transborda
e deixa minha xícara sempre meia.
Assim é o dia que amanhece e traz na juba
o que o leão sacode ao vento: raios, chuva,
gramíneas, poeira, alguns insetos pregados.
Tudo que a vida nos oferece
é esse pacto turvo e diáfano
entre acreditar ou sorrir.
Posso então chamar esse tudo de essência.
E é todo o meu amor esse tudo que tenho.
Tanto no corpo quanto
nos reflexos dele.
Não preciso plantar árvores
para sentir nas unhas o gosto da terra
tampouco escalar montanhas para que
as nuvens me beijem.
A essência das coisas que estão fora
está dentro de mim com a mesma
inconfundível magia.
Assim é a vida que me transborda
e deixa minha xícara sempre meia.
Assim é o dia que amanhece e traz na juba
o que o leão sacode ao vento: raios, chuva,
gramíneas, poeira, alguns insetos pregados.
Tudo que a vida nos oferece
é esse pacto turvo e diáfano
entre acreditar ou sorrir.
Posso então chamar esse tudo de essência.
E é todo o meu amor esse tudo que tenho.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
abril
Quando são pedro mija assim devagarinho sobre o telhado
é muito difícil eu levantar-me da cama abrir o olho direito
e manter o esquerdo acordado: preciso da ajuda
de um pregador de roupa
entre os cílios.
Enquanto há criatura nesse vasto mundo
que já pula sorridente feito golfinho.
Todos os músculos despertos.
Uma energia assustadora.
Sai de casa cantando bom dia
aos porteiros, cobradores,
passarinhos e árvores
de tal forma alegre
que penso em dar-lhe na cabeça D. Quixote
[um volumoso antigo] ou mesmo uma frigideira.
Adverti-lo: "ei, a vida não é valsa,
vão lhe roubar o relógio, a carteira
e o celular na esquina e vão comer
a sua menina e cuspir no seu cafezinho
e vão pregar-lhe nas costas chacotas
e vão depois convidá-lo pra beber umas
e no dia seguinte espalhar seus segredos"
Mas esse tipo de criatura não me ouve.
Eu que sou o louco e o sisudo.
Eu o preguiçoso e apático
sobretudo quando são pedro
mija assim devagarinho
sobre o telhado.
é muito difícil eu levantar-me da cama abrir o olho direito
e manter o esquerdo acordado: preciso da ajuda
de um pregador de roupa
entre os cílios.
Enquanto há criatura nesse vasto mundo
que já pula sorridente feito golfinho.
Todos os músculos despertos.
Uma energia assustadora.
Sai de casa cantando bom dia
aos porteiros, cobradores,
passarinhos e árvores
de tal forma alegre
que penso em dar-lhe na cabeça D. Quixote
[um volumoso antigo] ou mesmo uma frigideira.
Adverti-lo: "ei, a vida não é valsa,
vão lhe roubar o relógio, a carteira
e o celular na esquina e vão comer
a sua menina e cuspir no seu cafezinho
e vão pregar-lhe nas costas chacotas
e vão depois convidá-lo pra beber umas
e no dia seguinte espalhar seus segredos"
Mas esse tipo de criatura não me ouve.
Eu que sou o louco e o sisudo.
Eu o preguiçoso e apático
sobretudo quando são pedro
mija assim devagarinho
sobre o telhado.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
fuligem
O meu cheiro é forte.
A minha língua é doce.
Mas é hora de fechar a porta
e passar três ferrolhos:
um na cabeça,
outro no coração
e o último no ventre.
As plantas na varanda
nunca foram minhas.
É triste despedir-se do vazio
enquanto o bermudão sorri
com seu zíper aberto.
O meu umbigo é um olho de sapo.
Vou-lhe pregar uma argola cirúrgica.
Sabe por que levanto pesos?
Para quebrar os dentes do meu chefe.
Tiveste ciúme supondo que era para encantar damas
ninfas e sacerdotisas. Não, meu bem, é mesmo para
esmurrar forte e não escapar nenhum dente brilhando
naquela cara estúpida do meu chefe que odeia poesia.
As plantas na varanda
nunca foram minhas.
Os meus livros são coxos inúteis
que sequer andam pela estante.
Precisam de fogo.
O quarto e a casa toda.
Já fechei a porta
e passei três ferrolhos.
A minha língua é doce.
Mas é hora de fechar a porta
e passar três ferrolhos:
um na cabeça,
outro no coração
e o último no ventre.
As plantas na varanda
nunca foram minhas.
É triste despedir-se do vazio
enquanto o bermudão sorri
com seu zíper aberto.
O meu umbigo é um olho de sapo.
Vou-lhe pregar uma argola cirúrgica.
Sabe por que levanto pesos?
Para quebrar os dentes do meu chefe.
Tiveste ciúme supondo que era para encantar damas
ninfas e sacerdotisas. Não, meu bem, é mesmo para
esmurrar forte e não escapar nenhum dente brilhando
naquela cara estúpida do meu chefe que odeia poesia.
As plantas na varanda
nunca foram minhas.
Os meus livros são coxos inúteis
que sequer andam pela estante.
Precisam de fogo.
O quarto e a casa toda.
Já fechei a porta
e passei três ferrolhos.
domingo, 10 de abril de 2011
delirium de nascença
Sempre que faço a barba
a primeira gota de sangue
é sua [você sabe]
e as bolinhas de sabão
que escapam do creme
são nossos filhos.
Você quando faz as axilas
pensa em poesia?
Não lavo o rosto.
Deixo secarem os cortes
acima dos lábios.
[alguns cílios caem
e colam feito band-aid]
Veja, o vento leva os nossos filhos.
Os que batem nos meus braços
sorriem e espocam.
Outros fazem amizade
com a saboneteira.
a primeira gota de sangue
é sua [você sabe]
e as bolinhas de sabão
que escapam do creme
são nossos filhos.
Você quando faz as axilas
pensa em poesia?
Não lavo o rosto.
Deixo secarem os cortes
acima dos lábios.
[alguns cílios caem
e colam feito band-aid]
Veja, o vento leva os nossos filhos.
Os que batem nos meus braços
sorriem e espocam.
Outros fazem amizade
com a saboneteira.
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