terça-feira, 26 de julho de 2011

dançarina

Se eu tivesse de escrever um poema
que não esquecesse facilmente
não escreveria para seus olhos
nem para sua bunda:

escreveria, meu bem,
para suas panturrilhas.

Eu não olhei para os seus cabelos
quando a vi na praia nem para
os seus belíssimos seios,

eu me encantei com suas panturrilhas
e antes que eu morra escrevo meu epitáfio:

"aqui jaz um atormentado poeta
que deixou lá fora
um par de panturrilhas
para alguns patifes"

Não permita, meu bem, que eles
chupem-lhe e mordam-lhe
as panturrilhas.

As suas panturrilhas
são as minhas doces
mangas rosas.

Só eu posso mordê-las
e chupá-las igual a criança.

Eu amo suas panturrilhas
como nunca amei uma alma.

A sua alma
são as suas
panturrilhas.

sábado, 23 de julho de 2011

rave

Fiz a barba e rezei um pai nosso
pois se aproxima o mês de agosto:

é por demais temerário o poeta
dormir e acordar de barba longa
e coração exposto.

A ventania já levou as portas
(trancas, trincos, ferrolhos)

só há como porto seguro
a sua toca atravessando a ponte

depois da margem esquerda
debaixo do último arco-íris.

Digam adeus ao poeta
apesar da estação vazia
e do trem que nunca chega.

Mas olhem lá, fumaça!
Ouçam o apito!

Embarquem logo esse louco
ajudem-no com suas malas,
cuias, alforjes, trouxas
e mochilas.

Vejam que lindo o bardo
sentado em cima do vagão
a tocar ora sua flauta doce,
ora a gaita de bob dylan.

Digam adeus ao poeta
e deem-lhe as costas
e não olhem
para o céu.

(só vejo pássaros
e nuvens perdidas)

sábado, 16 de julho de 2011

espantalho

Os meus livros fugiram
um a um enquanto
eu escrevia versos
acompanhado
das paredes.

Pode ser que amanhã
em breve suspiro
eles me ouçam

feito cães de caça
que ouvem o apito
do seu dono.

Deixarei a porta do quarto entreaberta
e apontarei com o olhar sério
que subam na estante
cada um ao seu degrau
de importância
e de loucura.

Decerto não retornarão os meus livros.
Eles são pródigos e bem mais orgulhosos.

De cabelo branco
e muito desejo na alma,

deixo-os em paz
ou em fúria
nas mãos
de outros.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

um moço estranho

Assim que nasci secou o leite materno.
A única alternativa foi mamar em uma golfinha.

Levaram-me a uma ilha deserta
e apresentaram-me à senhora golfinha.

Ela vivia sorrindo e além de me oferecer o deleite
do seu leite sabor de cavalo-marinho e ostras

também me ensinou a passar horas
no fundo do mar sentado sobre corais
pensando na vida e escrevendo versos.

Devo minha vida (a minha vida de louco)
a essa senhora golfinha que um dia
sussurrou aos meus ouvidos "vai, poeta
tudo que um náufrago precisa
tu já sabes"

Levantei-me da minha poltrona de corais
e beijei os amigos que fiz no fundo do mar.

domingo, 10 de julho de 2011

a essência do afeto

Fiz um samba
ontem de madrugada
enquanto tive uma crise

e chamei as vizinhas
e foi tanto absinto

que não consigo
parar de sorrir.

Você nem imagina
o samba que fiz
ontem de madrugada

enquanto pensava
em cortar os pulsos.

Chamei todas as formiguinhas
que encontrei no quarto
e foi tanto veneno
quase morri.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

beato

Sei que sou um bom homem agora
pelo simples fato de estar escrevendo
versos melhores.

Aproveito a clareza dentro da minha alma
e digo (para teu espanto) que deus

é aquele livro de D. Quixote cujas páginas
estão marcadas pelo suor dos meus dedos.

Aliás, deus é toda a estante:
remédios na cestinha,
fotografias, estatuetas,
cds, bilhetes.

Em outro tempo fui um homem mau
porque escrevia versos ruins.

[e como eu sofria
para ver deus
em algum
objeto]

fogo

Não me peças para te levar ao alto da montanha.
Existe um ponto no desfiladeiro que muitos pulam.

Alguns dizem ter ouvido deus tocando blues.
Outros que foi uma linda luz branca
saindo do abismo.

Eu acredito em todos eles,
por isso não levo ninguém comigo.

Não é da minha natureza passar toda uma vida
crucificado e atormentado pela loucura do próximo.

Fica na praça.
É um lugar tranquilo.

As crianças espantando pombos.
As velhinhas simpáticas.
As madames com seus
cachorrinhos poodles.

(não me segures pelo braço,
não tentes ir dentro do bolso
do meu bermudão)

Caso naquele temido ponto do desfiladeiro
eu ouça deus tocando blues ou veja
uma luz radiante,
eu pulo

e te mando notícia
em breve.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

saliva acre

Se vomitasse o céu e todas as suas gaivotas
entenderia esse desejo mórbido que tenho
pelas coisas no fundo do guarda-roupa,
debaixo da cama, dentro das paredes.

Cafezinho, cocaína, vinho,
livros, versos, solidão, fúria:
tudo é a mesma dor
sem diferença.

A minha tristeza
não se modifica.

O céu não vomito.
E as gaivotas voam alto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

enquanto as sacerdotisas dançam

Sou cínico e cruel,
patife e egoísta,

mas tenho
uma alma doce
que atrai beija-flores,
borboletas e andorinhas.

Imaginem agora
que a barba cresce.

Terei mais pólen
e mais mel.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

cerâmicas rachadas

Passo a mão na minha testa
e me pergunto "até quando
esse suor frio?"

Perdi a lembrança do dia
em que jurei lealdade
aos versos.

Certamente era um dia chuvoso
e eu estava com febre.

Não tinha botas nem formiguinhas
nem uma xícara sempre sorrindo.

Eu era bem mais só
e bem mais jovem.

Cada verso é um sinal de loucura.
Uma imagem da minha morte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

místico

Qual o destino de um homem
de rosto áspero e sem barbeador.

As coisas encantam-se
dentro do meu guarda-roupa
em questão de segundos.

Algum tempo atrás
eu jurava que eram
as formiguinhas
as ladras.

Depois passei a pôr a culpa
nos meus queridos duendes.

No fundo sempre soube
que é a minha alma
pregando peça:

rouba band-aid
para que o sinal
nunca sare

e foge com o barbeador
para que as minhas faces
amedrontem o espelho.

É a sua deliciosa vingança
contra a vaidade do corpo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

cafeína

A verdade é que eu sou um pescador
encantado e perdido em alto mar.

Os versos que escrevo
às vezes sonho dentro de uma ostra
outras vezes deliro nas costas de um golfinho.

São versos sinceros como ontem
quase morri de dor de cabeça

e só havia as estrelas
únicas testemunhas
do meu transe.

Não é bom ter somente estrelas
por perto quando a cabeça explode.

Dá vontade da gente querer ser também estrela.
Deixar o mar e não se despedir da mãe nem do filho.

O que diria meu filho sem pai nesse mundão de mar
e como choraria minha mãe sozinha no seu quarto.

domingo, 26 de junho de 2011

velocidade da luz

Quantas escovas perdidas
pelo cano da pia
do banheiro.

Sob todos os vacilos
uma coisa ficou clara:

a mão de um homem lúcido
não deve tremer se a mente sonha.

Felizmente as baratas
agora terão um sorriso branco.

sábado, 25 de junho de 2011

sátiro não sabe tocar gaita

Antes que o sol chegasse à janela
fugi apressado me enfiando
dentro da bota.

Aquela meia há tempo sumida
sorriu com a minha presença.

E ficamos lá (eu e a meia podre)
dentro da bota vendo o sol atacar os objetos
enchafurdando cada canto do meu quarto
sem piedade e sem escrúpulos.

Por isso eu amo a lua.
A lua não invade minhas coisas.

Fica na varanda, se muito
cai na poncheira de vidro.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

sátiro não sabe tocar flauta

Os versos egoístas e tristes
não te mostrarei novamente,

queimo-os dentro de mim
sem cerimônia.

Sei que a cada fornalha e urro na fogueira
perco um pouco da essência de monstro.

Mas, diz-me, o que vale
um monstro inocente
só quando dorme?

Os versos tristes e egoístas
deixarão de te fazer sofrer
ou te alegrar por vingança,

queimo-os dentro de mim
sem altar e sem unguentos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

riso

ri enquanto o mundo
tenta te conduzir
ao desespero
da posse alheia,

ri pois não tem jeito
o osso que morde a carne
a carne que modifica o espírito,

ri não da comédia
mas do pranto e da farsa

do vazio absurdo de todos os dias
das mulheres distantes de todos os sonhos,

ri, meu camarada, ri com o máximo de desdém
que ainda sobra na tua mente e se foge a mente,

ri da fuga dos teus pobres neurônios apagados,
cinzas, decrépitos, perdidos a cada fumaça

ri dos amigos que riem da tua loucura,
ri dos teus amores que te preparam
o cálice da solidão

ri da paciência que te perturba,
ri da maternidade que te protege

mas não rias da tua insignificante vida
cujo imenso tesouro é uma sílaba
é uma palavra, é um verso
é um poema,

ri, amigo, ri da tua sorte
das tuas noites afamadas
da tua ânsia e do teu vinho

mas não rias do fim,
do tropeço e da morte

pois sempre há mais mortes que supomos
e mais tropeços adiante e todo fim
é um esplêndido começo

uma alegria infinda
que ora se conserva
no que chamamos alma

e depois ferve na pele
causando torpor
e mais risos

ri, amigo,
sobretudo do teu anjo
que rejeitou a vida de outro
para te embalar em noites confusas

e nunca pensou duas vezes
em te defender de ti mesmo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

o próximo vazio

Se a cada poema escrito explodisse
uma bomba de endorfina dentro do meu cérebro,
Buda trincaria os lábios. Ao invés dessa euforia
abate-se sobre meu corpo uma apatia desnecessária.

Um leve perfume de sabonete indo embora.
Pelas costas os últimos pingos do banho.

doação

Assim que eu partir desse mundo
ofereçam as minhas cobertas
aos desvalidos das calçadas.

Creio piamente na energia
em cada fio de tecido.

O sortudo pedinte
além de não sentir frio

ao dormir com meus lençóis
todos os dias amanhecerá
com uma vontade louca
de escrever versos.

Não será feliz por isso.
Mas se ele tiver um bico de pão
e um golinho de café quente

quem sabe eu não estarei presente
também na sua alma.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

experiência física

"deixa que eu estendo as suas calcinhas
no meu banheiro"

Deu-me vontade de dizer isso
ao ouvir a vizinha do andar de cima
lamentar-se por seu varal ter quebrado.

Subo a escada,
toco a campainha.

Os seus cabelos ainda estão molhados.
Os olhos dela são olhos de quem vive sozinha.
(porque quer)

"pois não, senhor?"

"desculpe-me, mas não pude
deixar de ouvir sobre o seu varal..."

"ah..."

"se a doce dama me permitir posso secar
na minha suíte ou na minha varanda
as suas peças íntimas."

"muito gentil,
qual o seu nome?"

"Senhor Solitário,
ao seu dispor."

Pego a mão da madame
beijo levemente as pontinhas
dos seus dedos.

"ui, tenho cócegas... (o celular dela toca)
um minutinho..."

A toalha a envolvê-la quase
escorrega do seu corpo,

tremo, suo, ela volta trazendo
uma cestinha artesanal
dentro várias joias:

lycra, algodão, seda
mil cores e feitios.

"pronto, aqui o meu tesouro (ela ri,
tem os dentes brancos de publicidade)
o senhor estará à noite em casa?"

"sim, pois não... (a toalha dessa vez
deixou-me aflito) "

"gosta de vinho?"

"adoro, senhora."

"às nove então, levarei uma garrafa
Quinta do Morgado suave,
está bem? agora licença,
era meu sócio
ao telefone..."

Antes que a vizinha do andar de cima
feche a porta ela pisca
e sussurra.

"o senhor é poeta?"

"sim... (respondo engasgado) "

"sempre ouço seus gemidos e urros
quando a lua está alta e cheia"

A dama sorri e me beija o ouvido.
Fecha a porta devagarinho mostrando
parte do encanto que a toalha encobria.

domingo, 12 de junho de 2011

o imoral

Se o teu homem foi comprar cigarros
e nunca mais voltou ou se a tua pequena
(manhosa) pediu um tempo
e já faz séculos

não cortes os pulsos
nem pules da ponte,

garanto que terrível
um inferno mesmo
é se o teu homem
ao voltar para casa
esquecer teu nome
ou a tua pequena
ficar bem velhinha
sem dentes.

"O mundo é bão, Sebastião"
afinal tem cafezinho quente na cafeteira
ótimo livro na estante e um sorvete
maravilhoso de sobremesa.

sábado, 11 de junho de 2011

a traição dos travesseiros

Só agora notei  na parede
encostada à minha cama

uma mancha escura
como se um sujeito carvoeiro
houvesse colado as costas.

Ah, então é isso, enquanto durmo
os meus travesseiros mantêm
um certo envolvimento
com a parede.

E eu que pensava o único amor
dos meus travesseiros
a minha nuca.

Confiava a eles os meus sonhos e a minha insônia.
Mas sabe-se lá o que planejavam os pérfidos
à cabeceira da cama.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

amante

Dia após dia
desço a escada do meu bloco
e vou ao jardim do prédio
para ver como está se saindo
a flor que plantei.

Sempre é um olhar diferente
dela dentro do meu peito.

Sempre é outra a brisa
que me causa frêmitos
e certamente a ela
também.

Na hora da despedida,
penso "Deus, não mereço
tanto êxtase e encanto
no meu pescoço"

Sim, no meu pescoço,
pois a flor que plantei
no jardim do prédio

naturalmente despede-se
encostando suas pétalas
e me fazendo cócegas
pertinho da orelha.

(ela não usa batom,
portanto não há problema
quando entro em casa
e sento para o jantar)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

o amor infinito do lenhador

Faz um tempinho que não ando contigo.
Lembro-me das calçadas molhadas,
das nuvens alaranjadas,
dos chicletes, das tampas
de refrigerantes,
das folhas
secas.

O tempo quando tem pressa
quando foge do controle  
torna-te cada dia jovial

e um ar de mistério exala-se
dos teus botões de aço.

Estranho ter ver sempre próxima
da tua irmã (ou seria tua namorada?)

e ao falar apenas contigo
e ao olhar apenas para teus olhos

é inevitável supor que no fundo
é uma só coisa a tua alma
e a alma dela.

Mas é engraçado, por exemplo, agora
conversar tão chegado aos teus ouvidos
sabendo que ela (tua irmã ou tua namorada)
também está me ouvindo em alto e bom som.

Então dize a ela
que o meu amor se estende
e se multiplica por dois.

Eu não amo o meu pé direito
mais do que o esquerdo.

E tanto um quanto o outro
precisam de vocês assim
coladas e inseparáveis.

Amanhã (loucura falar sobre um sonho iminente)
mas, enfim, amanhã nós subiremos a montanha.

Aquela montanha cuja imagem
passamos horas admirando
o cartão postal.

Dize para tua irmã e namorada
(se ela já não estiver dando pulinhos)
que subiremos a montanha encantada.

E lá em cima, bem no topo,
eu tirarei vocês dos pés
(minhas meninas)

e nunca nunca mais
voltaremos ao quarto,

a este quarto empoeirado cheio de livros imprestáveis
com marcas de bunda de xícara sobre suas capas.

Eu cavarei um lindo buraco
eu farei uma prece
e enterrarei emocionado
vocês duas.

Ninguém ouvirá falar desse lenhador
nem das suas meninas botas.

o dorso do solitário

Não é bom deixar as costas sem o carinho das mãos da amada.
Os cravos tomam de conta feito erva daninha ou arame farpado.

Nascem sombrios sinais que não são de nascença.
De solidão, decerto. E não adianta torceres o braço.

Mesmo que espremas um e outro
dentro do coração há mais e bem feios.

Caso estejas sozinho por vontade própria (duvido)
não te envergonhes de ir à praça
camisa no ombro.

Assobia, moço triste
mostra tuas costas
aos pombos.

Sempre tem um míope que confunde
cravo nas costas com azeitona preta.

Não te esqueças ao chegar em casa
lavar com sal grosso e sabonete
as marcas das bicadas.

Nunca se sabe em qual terreno
o bombo meteu o bico.

Há pombos que adoram
a sujeira dos poodles.

terça-feira, 7 de junho de 2011

epístola do corpo

Quando durmo sou um.
Quando acordo sou outro.

Depois de morto
serei quantos?

Não morderei o próprio punho
para constatar sangue nas veias.

A vida que me cerca
de fato é uma vida alheia
que se diz minha quando durmo
mas é de outro quando acordo.

A curiosidade em morder o punho
e beber meu sangue
é apenas um fulgor
de menino.

Afinal sempre ofereço a ela minha pele
enquanto sinto seu cheiro.

E não serei eu seu dono ou o seu deus
a rasgar céus e abrir mares.

Já lhe sou grato por ainda poder dormir
e ainda poder acordar
atento ao que passa
dentro de mim
e ao que foge
do outro.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

as três marias

Cansei-me dos meus olhos.
Se pudesse arrancá-los
e deixá-los de molho
em um copo
de vinagre,
fazia-o.

Mas os olhos berram, falam alto, chamariam atenção das estrelas.
Tenho medo que as estrelas despenquem dos céus dentro
do copo de vinagre tentando salvar meus olhos.
Não duvido.

Deus quando bebia vinho na taberna
e fez as estrelas e as jogou pro alto

a única lei foi que mesmo mortas
elas se conservassem servas
dos olhos do bardo.

Pelo visto essas meninas ainda levam a sério.
Pois sempre que morrem fingem-se vivas
e brilhando (tudo para que os poetas
não esqueçam seus antigos
amores)

domingo, 5 de junho de 2011

penúria maior do mundo

Ontem banquei o palhaço
dançando no meio do salão
com uma garrafa nos braços.

Patético mesmo foi andar uma praia inteira
debaixo de chuva, pisando em estrelas
chorando feito um bebê
depois do parto.

Você nunca me deu esperanças
portanto não se sinta tão mal.

Eu também nunca tive coragem
de suplicar seus pés e beijá-los
demente até o dia da sua morte.

Estamos quites, meu bem
e não sofra porque sofrimento
é para aqueles sujeitos poetas
que passam quase a vida toda
sonhando ser outra coisa,

dragão de Komodo
ou borboleta.

No fim do apocalipse [acredite]
são apenas crianças perdidas
em uma estação de trem
deserta.

Nada de monstros
e nada de flores.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

a taça dos loucos ou dos justos

Nunca pensei que eu teria ciúme da minha sombra.
Da silhueta dela sobre a estante.

É um tipo de ciúme muito estranho
além de apertar o peito da gente
estrangula a alma dos objetos.

Fico sem saber ao certo
se é o meu espírito
quem acorda
os mortos

ou se é a vida deles
que não foi gasta
o bastante
lá fora

e fico eu feito barata tonta rasgando papéis
bebendo café, lavando louças
aparando unhas

ora apático, ora surpreso
quando vejo que é o meu corpo

o elefante deslizando pela parede
a formiguinha de casaco cinza
a folha seca respirando
estirada na poltrona.

A minha sombra aproveita cada detalhe da luz
e vai fazendo ninhos pelos cantos da casa.

os vândalos de tênis nike vermelho

Disseram que eu estava vadiando
sem eira nem beira
nesses dias de ausência
e loucura

mas o que eu estava mesmo
era cuidando dos canteiros
da minha praça.

Ultimamente pombos enlouquecidos
deram a bicar os olhos das flores.

Tenho que ser paciente e negociar com eles
miolos de pão por ramalhetes.

Alguns gentis e solidários aceitam a oferta de bom grado
e prostram-se aos meus pés felizes com as migalhas.

Outros sanguinários preferem arrancar
com requinte de crueldade cada pétala
(que é da flor cada cílio) indiferentes
à minha tristeza.

Contra esses bárbaros não há outra alternativa
senão lançar mão do meu guarda-chuva
e acertá-los bem no peito.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

zumbido

O próximo verso
o poema seguinte

me aproximam do que sou
me confundem com outro.

Quando me ocorre o arrependimento
eu sorrio porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.

E todas as coisas feias que fiz nesse mundo
(invasões, furtos, mentiras) foram um dia
matéria prima e suculenta

do verso presente
do futuro poema

então eu sorrio eu sorrio bastante
porque uma coisa eu sei:
vida sem poesia
é fingimento.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

apocalipse e aurora

Quando eu estiver bem velhinho
bem velhinho mesmo
estarei só os ossinhos
só os ossinhos

terei muito cuidado
na hora de chorar

senão as lágrimas levam
a sobra de pele
do rosto

e ao andar na rua
certamente vou me segurando
pelas árvores das calçadas

pedindo a deus que não chova
que o vento não me derrube
não carregue minhas calças

não me faça
passar vergonha
na frente das meninas
do colégio

mas mesmo que caia uma tempestade
mas mesmo velhinho e só os ossinhos

se por sorte eu der fé uma flor
sozinha num canteiro de praça

eu vou até lá, eu beijo essa flor
eu arranco para mim, eu planto
no meu coraçãozinho enrugado

só terei que ter ainda mais cuidado
porque as lágrimas, seu moço
podem arrastar de vez a pele
do meu rosto cansado
de escrever versos

mas que importa
estarei velhinho
só os ossinhos

ninguém me verá na janela
nem as nuvens nem mesmo
as andorinhas

estarei velhinho, seu moço
velhinho, velhinho

só os ossinhos
só os ossinhos

terça-feira, 24 de maio de 2011

a saudade é degustativa

Você sabe como preparar uma galinha à cabidela.
Antes do divórcio deveria ter roubado a receita.

O segredo não está no tempero depois da galinha morta, isso eu sei.
O segredo talvez esteja no jeito que você cuida das suas galinhas.

Todas elas usam lacinho no pescoço
e guizos nos tornozelos.

De noite dançam música flamenca
e só dormem após duas taças de licor.

Quando morrem
elas morrem felizes.

Deveria ter roubado essas galinhas
enquanto você fazia minhas malas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

entardecer

Beba o meu café na minha xícara.
Beba no canto em que escosto a boca.

A única doença que tenho
é o tremor contagiante
dos meus lábios.

Experimente a pele
da minha xícara.

A única doença que ela tem
é uma pequena fissura

juntamente com outra
forma um lindo sorriso
na sua circunferência.

um malte

Ontem sem motivo aparente
o meu coração apertou-se

apertou-se tanto
que tive medo

e coloquei sobre o peito
a mão em um gesto
de carinho.

Se eu tivesse tido um enfarte
você estaria tão distante

não teria ouvido comigo
aquela música de Norah Jones.

domingo, 22 de maio de 2011

reforma

Os passarinhos devem estar desorientados.
Podaram a árvore e não lhes avisaram.
Também era a minha predileta.

Quando a lua cheia nela batia
um dos galhos entrava pela janela.

Entendia o sinal,
pulava da varanda.

Lá no alto da copa
a lua me contava
como fora seu dia.

Sobretudo da sua última briga
com o dragão de são jorge.

É um amor impossível.
Mas eu  nunca lhe disse.

A lua cheia é sensível
igual a mulher grávida.

Aliás, a lua cheia
é uma mulher grávida.

Já sabendo disso
eu levava no bolso
chocolates e pitangas.

Ficávamos até o amanhecer ela fazendo tricô
eu rabiscando uns versos e sempre havia
um passarinho acordado fingindo
que dormia.

sábado, 21 de maio de 2011

o bom moço

A nossa solidão é um esmero.
Fazemos cachos nas antenas das formigas.
Assopramos livros velhos e limpamos o ventilador.

Talvez tenha sido eu o culpado
por te apresentar às formigas do quarto.

Por explicar com detalhes
como separar os livros da estante
sem distração.

Como passar a flanela
nas hélices do ventilador
com ele ainda ligado.

Tu aprendeste rápido
e com tanto zelo.

Sempre que entras no meu quarto as formigas te cercam.
Os livros parecem tremer, páginas se abrem, batem asas.
O ventilador diz que está gripado vive esquecido e só.

Loucura, confesso.
Tudo para te chamar atenção.

E tu corres, abraças formigas,
beijas livros, acalentas o ventilador.

"meu deus, o que fiz
com essa menina"

a última flor

Durante minha ausência
você abriu tantas portas

que é impossível voltar
pelo mesmo caminho
para a mesma casa.

Minha diversão agora
é ver minha sombra
noutras calçadas

ora bebendo água da chuva
ora bronzeando o pescoço.

Seu pecado foi abrir tantas portas ao mesmo tempo:
reina uma confusão de brisas, cheiros, folhas secas.

Eu que não sou bobo fujo da sua rua
sempre que vou comprar pão.

Ainda tenho medo que a sua porta aberta me convença
que tudo mudou que é outro momento que a vida é bela.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

coral de freiras

Depois dos estigmas
marcarem a alma

é em vão
a peleja

mesmo que lutes
e te rebeles.

Que importa o sonho
se de noite a fome
é tanta e a batalha
infame.

Agarra-te à névoa
e não confundas

lágrimas das estrelas
com os respingos
das andorinhas.

As estrelas são sinceras
e morrem silenciosas.

As andorinhas quando choram
fingem, mas não me digas:

preferes uma estrela distante
a uma andorinha felpuda
entre os dentes?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

o eterno retorno também é uma ilusão

Não encontro as pegadas de ontem.
Apesar de sair deixando miolos de pão pelo caminho.

As vidraças todas estão fechadas.
Nenhum passarinho adentrou silenciosamente.

Formiguinhas matei as últimas dentro do açucareiro.
Não é agradável alimentar uma amizade
só à base de açúcar.

Não entendo como sumiram as pegadas de ontem.
E eu estava tão bem. Sorrindo com tudo que via.

O que me resta então é abrir todas as janelas.
Chamar os pássaros com minha flauta doce
e ressuscitar as formiguinhas beijando-lhes
as bocas pequeninas e fantasiosas.

banquete

Largado na cama
fazendo sombras
com os dedos
na parede

penso em muitas coisas
como, por exemplo,

coçar as costas
usando seus cílios.

Hoje já fui à varanda levitando.
Aparei as unhas com a faca de cortar pão.

Isso tudo com os braços cruzados para trás
e os olhos fechados.

Existe um animalzinho cuja sombra
não consigo fazer com os dedos:
O rinoceronte de dois chifres.

Elefantes, girafas, crocodilos, sapos e cachorrinhos
em dois minutos estão todos brincando na parede.

O rinoceronte de dois chifres é especial.
Não consigo mesmo.

Chego perto mas aquele chifre menor é um estorvo.
Sempre quebro meu mindinho.

romance

Debaixo do arco-íris a terra é boa
para plantar jasmins.

Mas cansei de ir só
e voltar sozinho.

Acaba de cair uma estrela
dentro do seu quarto e ela
saiu deslizando de ponta
até os seus chinelos.

Veja, ainda está lá
(e brilhando) parece
que os seus chinelos
agora têm companhia.

terça-feira, 17 de maio de 2011

valsa

Eu não faria
absolutamente
nada.

Deixaria que falasse, falasse, falasse
e eu ouviria, ouviria, ouviria, ouviria.

Têm mais coisas dentro da sua alma
que você nem imagina a beleza.

Mas confesso que o seu riso
entre o olhar sério é lindo.

E eu não faria
absolutamente
nada.

Deixaria que sorrisse, sorrisse
e eu voaria, voaria, voaria.

Acho que devemos cantar juntos.
Não ligue aquele canário enciumado.

Já vai chover, relampejar.
Um raio é o bastante.

Vamos enterrar no quintal dos seus avós
o passarinho dentro da caixa de sapato?

Depois  a gente filosofa
sobre a morte e sobre o amor.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

relógio

A minha farsa é verdadeira.
Custou-me uma vida.

Mais outra
sem paradeiro.

Se você procurar debaixo do travesseiro
tem uma flor (roubada, mas uma flor) .

de volta à cela

Não é bom cortar o dedo e sujar a parede.
A porta do guarda-roupa é o correto.

Faze então um desenho
(planície, montanha)
que se confunda
com a tua tristeza.

Quando eu chegar do trabalho
entenderei o recado
e serei forte.

Cortarei a mão direita.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

divagando

Sonhar com alguém desconhecido
é um claro sinal de solidão aguda.

Incrível é que o vestido dela
parecia tão real tocando meu nariz.

O perfume era daquele tipo de mulher dos sonhos.
Conheço bem minhas neuras e os meus castelos.

O perfume continua no quarto.

Minhas botas enrugam-se
contraindo o abdome,

não querem perder
a fragrância.

Minhas botas têm focinho de cachorro.
Um ótimo faro.

Agora é a vez das formigas paralisarem.
Cada uma olha para o alto e pensam que é pipoca.

terça-feira, 10 de maio de 2011

nove anos

Beije minha mão
e durma, filho.

Amanhã o seu dia
não será igual

nem ao meu dia
nem ao dia dos
pássaros.

Não pense porque viu um beija-flor bebendo água
amanhã ele terá a mesma sede e virá de novo
à sua varanda.

Os beija-flores ensinam aos seus pequenos
fugirem do ninho cedo e nunca saberemos
se era jovem ou ancião aquele que bebeu
toda a água com açúcar e depois limpou
o bico na toalha xadrez.

Beije minha mão
e não se esqueça,
filho

de ser feliz toda noite
antes de dormir (esse
é o segredo)

domingo, 8 de maio de 2011

paremos por aqui

As minhas lágrimas nesse momento
misturam-se a um vinho
e há outra garrafa
na geladeira.

Manuel Bandeira tinha amigos
e era um brincalhão.

Eu sou triste feito uma taça
cheia, meia ou vazia.

Sou triste mesmo
e ponto e fim.

Já viu um homem chorando, baby?
Um homem que é quase outro ente?

O manjar dos deuses
é a solidão do poeta.

Não deseje para você esse frio
esse afogamento enquanto
golfinhos dançam
e sorriem.

Vou pegar a outra garrafa na geladeira,
com licença (aproveite e veja se da sua
janela há alguma nuvem parada e triste)

sábado, 7 de maio de 2011

há versos que não posso te mostrar

Estou bem
assim, triste.
Não me abrace.

Deixe-me largado,
sentado na cama.

Nunca estive tão bem na minha vida:
sem anjos dentro de casa
e com o demônio fora.

Juro para você que a chuva no asfalto
agora molha meu peito (e isso é bom) .

quinta-feira, 5 de maio de 2011

o doce dark

Fui brincar na chuva
colhendo flores e pulando poças.

Acordei com os olhos inchados,
o nariz escorrendo, tossindo muito.

Não demora retorno ao jardim
(logo após esse chazinho)

Dessa vez as rosas colhidas
não guardarei no bolso nem dentro dos livros.

Farei aviãozinho com as pétalas
e lançarei da varanda no decote das meninas.

terça-feira, 3 de maio de 2011

o grito

Se acordares de madrugada
com o ronronar dos travesseiros

é a tua barba rala
fazendo neles
cócegas
e afagos.

Volta a dormir, jovem senhor
mas fica longe das fronhas:

dentro ainda é forte
o cheiro da falecida.