Trata bem das tuas plantinhas.
Não te esqueças de lavar as raízes.
Se de fato vais mesmo plantá-las
então muda a água do jarro.
Não as deixes afogadas
em uma água turva.
Se cultivas plantinhas
não esqueças -
troca a areia,
muda a água,
faz nelas
cafunés.
Não as deixes solitárias
de pé, em um terreno árido
ou afogadas em água lodosa.
Afaga tuas plantinhas.
Apara os cabelos delas.
Não as deixes furiosas.
Sob toda fúria há tanta tristeza.
Vai à tua varanda,
conversa com tuas plantinhas.
Não as ouves?
Precisas de uma gota de amor
dentro de cada ouvido.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
lucidez
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Que o mundo permaneça alheio
e as coisas inalteradas.
Que a montanha não se mova
em minha direção e o mar
não se corte ao meio
por minha causa.
Que as estrelas nasçam e morram
sem mandarem notícias
do corredor escuro
de outras galáxias.
Que o meu bermudão não mostre seus bolsos
nem procurem nas minhas mãos moedas.
Que as minhas botas durmam
sem sonhar com as calçadas.
Que anjos não pensem em mim
nem façam da minha alma
uma aurora.
Que demônios esqueçam
o vazio da minha mente.
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Sei muito bem das emboscadas.
Da luz que finda e do grito.
Do olhar cúmplice
e da revolta.
Apartem-se do meu coração os arautos da felicidade.
Esses cães dos próprios ossos e da própria carne.
Sei do descuido, da farsa,
da longa vida que é a morte.
Que ninguém e nada prometam-me
a vida e o seu deleite em outra terra.
Que a paz dos meus chinelos
seja toda a verdade
que vejo -
sem truque,
sem medo.
conspirem a meu favor.
Que o mundo permaneça alheio
e as coisas inalteradas.
Que a montanha não se mova
em minha direção e o mar
não se corte ao meio
por minha causa.
Que as estrelas nasçam e morram
sem mandarem notícias
do corredor escuro
de outras galáxias.
Que o meu bermudão não mostre seus bolsos
nem procurem nas minhas mãos moedas.
Que as minhas botas durmam
sem sonhar com as calçadas.
Que anjos não pensem em mim
nem façam da minha alma
uma aurora.
Que demônios esqueçam
o vazio da minha mente.
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Sei muito bem das emboscadas.
Da luz que finda e do grito.
Do olhar cúmplice
e da revolta.
Apartem-se do meu coração os arautos da felicidade.
Esses cães dos próprios ossos e da própria carne.
Sei do descuido, da farsa,
da longa vida que é a morte.
Que ninguém e nada prometam-me
a vida e o seu deleite em outra terra.
Que a paz dos meus chinelos
seja toda a verdade
que vejo -
sem truque,
sem medo.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
castelos de fumaça
A casa foi construída, baby.
As portas abrem-se e fecham-se
de acordo com o humor do vento.
O teto não suporta o brilho das estrelas
e vive vazado cheio de furinhos.
O piso é uma areia movediça,
e a cada passo que se dê,
notam-se mil armadilhas
mas também é uma planície
uma vasta planície de girassóis.
Só não há janelas na casa.
Digo, há janelas, no entanto,
só o espaço aberto
sem grades e trancas.
[qualquer gatinho
pula e entra]
A casa foi construída, baby.
E é sua, traga as flores
para dentro.
As portas abrem-se e fecham-se
de acordo com o humor do vento.
O teto não suporta o brilho das estrelas
e vive vazado cheio de furinhos.
O piso é uma areia movediça,
e a cada passo que se dê,
notam-se mil armadilhas
mas também é uma planície
uma vasta planície de girassóis.
Só não há janelas na casa.
Digo, há janelas, no entanto,
só o espaço aberto
sem grades e trancas.
[qualquer gatinho
pula e entra]
A casa foi construída, baby.
E é sua, traga as flores
para dentro.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
amálgama
Antes que eu morra meus lábios ficam dormentes
uma borboleta azul entra por meu ouvido direito
e sai uma bailarina de porcelana pelo esquerdo.
Amor não é somente o mel das abelhas.
Mas os zangões com seus infortúnios
e as escravas que tecem
a pelugem da rainha.
Amor não é saudade.
É delicada ausência
que junta os pontos
da cicatriz do ferido.
Amor não é posse.
É uma fatia de pão
dividida com todas
formigas do quarto.
Antes que eu morra meus olhos explodem
e duas estrelas ocupam o lugar no rosto.
uma borboleta azul entra por meu ouvido direito
e sai uma bailarina de porcelana pelo esquerdo.
Amor não é somente o mel das abelhas.
Mas os zangões com seus infortúnios
e as escravas que tecem
a pelugem da rainha.
Amor não é saudade.
É delicada ausência
que junta os pontos
da cicatriz do ferido.
Amor não é posse.
É uma fatia de pão
dividida com todas
formigas do quarto.
Antes que eu morra meus olhos explodem
e duas estrelas ocupam o lugar no rosto.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
arroubo
Aquela noite eu parecia um doido,
os cabelos de Ezra Pound
os olhos de Baudelaire
o sorriso de Neruda
entrando em bares
e correndo nas praças
berrando versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
Aquela noite assombração alguma me vencia
nem Cérbero nem Anderson Silva,
estava mesmo um doido varrido
um anjo de porta em porta
abraçando pessoas,
cães e gatos.
Aquela noite eu era uma coisa do outro mundo,
filho de D. Quixote com Dulcineia Del Toboso.
Os óculos embaçados,
as faces vermelhas,
os lábios trincados
cuspindo versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
os cabelos de Ezra Pound
os olhos de Baudelaire
o sorriso de Neruda
entrando em bares
e correndo nas praças
berrando versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
Aquela noite assombração alguma me vencia
nem Cérbero nem Anderson Silva,
estava mesmo um doido varrido
um anjo de porta em porta
abraçando pessoas,
cães e gatos.
Aquela noite eu era uma coisa do outro mundo,
filho de D. Quixote com Dulcineia Del Toboso.
Os óculos embaçados,
as faces vermelhas,
os lábios trincados
cuspindo versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
domingo, 25 de setembro de 2011
pausa
É um segredo,
mas te confesso:
a seiva do poeta,
embora ele envelheça,
é o brilho que seus olhos
não perdem diante das coisas.
Tudo em volta,
do lápis à camiseta,
dos tênis ao ventilador,
da calçada lá fora
às estrelas,
tudo faz seus olhos brilharem
apesar da ilusão que ele,
embora envelheça,
também não perde.
A sua oferenda
é rasgar a cada dia
uma veia do pulso
e abrir no dia seguinte
um janelão no peito.
O brilho que seus olhos não perdem,
a ilusão sempre delirante na sua alma,
na verdade, é a sua maior crença
em puro estado de graça.
O poema antes que escape da sua mão
[é um segredo, mas te confesso] anda
anda muito por muitos caminhos
que ele, embora envelheça,
não sabe.
mas te confesso:
a seiva do poeta,
embora ele envelheça,
é o brilho que seus olhos
não perdem diante das coisas.
Tudo em volta,
do lápis à camiseta,
dos tênis ao ventilador,
da calçada lá fora
às estrelas,
tudo faz seus olhos brilharem
apesar da ilusão que ele,
embora envelheça,
também não perde.
A sua oferenda
é rasgar a cada dia
uma veia do pulso
e abrir no dia seguinte
um janelão no peito.
O brilho que seus olhos não perdem,
a ilusão sempre delirante na sua alma,
na verdade, é a sua maior crença
em puro estado de graça.
O poema antes que escape da sua mão
[é um segredo, mas te confesso] anda
anda muito por muitos caminhos
que ele, embora envelheça,
não sabe.
retrato
Sinceramente duvido se haverá o dia em que
sentado na cadeira e o olhar perdido
direi: "eu vos amo,
meus netinhos."
Primeiro, se eu estiver bem velhinho
eu quero correr na calçada
e deixar o sol da manhã
queimar meus cabelos.
Digo-vos, meus prováveis netos,
quando eu estiver bem velhinho
não me venham com essa
de sentar-me na sala
cercado de gente.
Não tirem fotografias
nem me filmem sentado.
Já disse, quero estar na calçada
correndo feito um louco atrás
de uma borboleta
de três olhos.
Se possível,
acompanhado de uma jovem.
Não quero nenhuma velhinha comigo.
Nem que eu sofra ameaças dessa jovem.
Mas é uma jovem que quero ao meu lado
correndo também feito uma louca
atrás de uma borboleta
de três olhos.
Acreditai, se a morte vier assim
e me pegar bem acompanhado
passará pelo menos dois minutinhos
admirando a beleza da moça.
Tempo suficiente
para que eu fuja
pro meu quarto.
sentado na cadeira e o olhar perdido
direi: "eu vos amo,
meus netinhos."
Primeiro, se eu estiver bem velhinho
eu quero correr na calçada
e deixar o sol da manhã
queimar meus cabelos.
Digo-vos, meus prováveis netos,
quando eu estiver bem velhinho
não me venham com essa
de sentar-me na sala
cercado de gente.
Não tirem fotografias
nem me filmem sentado.
Já disse, quero estar na calçada
correndo feito um louco atrás
de uma borboleta
de três olhos.
Se possível,
acompanhado de uma jovem.
Não quero nenhuma velhinha comigo.
Nem que eu sofra ameaças dessa jovem.
Mas é uma jovem que quero ao meu lado
correndo também feito uma louca
atrás de uma borboleta
de três olhos.
Acreditai, se a morte vier assim
e me pegar bem acompanhado
passará pelo menos dois minutinhos
admirando a beleza da moça.
Tempo suficiente
para que eu fuja
pro meu quarto.
sábado, 24 de setembro de 2011
duas irmãs
Sim, há solidão alegre.
Aquela que nos estreita os laços
com nossos objetos de cada dia.
Que nos lança à plenitude
e coça nossos pés
e nos deixa livres
para nós mesmos.
Que bobagem ficar de mal da cafeteira
só por ela nos ter queimado o braço.
Que tolice insana ignorar um livro
apenas porque ele nos leva
a uma caverna escura
e fria.
Miséria é o homem que não beija
é a mulher que não beija
que se apartam da vida
sisudos, coléricos, fúteis
e acabam morrendo sufocados
por uma solidão, Deus, tão triste.
Esta é uma solidão triste.
Aquela que nos estreita os laços
com nossos objetos de cada dia.
Que nos lança à plenitude
e coça nossos pés
e nos deixa livres
para nós mesmos.
Que bobagem ficar de mal da cafeteira
só por ela nos ter queimado o braço.
Que tolice insana ignorar um livro
apenas porque ele nos leva
a uma caverna escura
e fria.
Miséria é o homem que não beija
é a mulher que não beija
que se apartam da vida
sisudos, coléricos, fúteis
e acabam morrendo sufocados
por uma solidão, Deus, tão triste.
Esta é uma solidão triste.
terapia
Escovar os dentes dançando
ou debaixo do chuveiro
ouvindo blues
é a minha terapia
valiosa e cotidiana.
Exceto quando há uma montanha
de roupa suja assobiando
e piscando os olhos.
Mudo então de terapeuta.
Ora nuzão, ora de cueca
vou à pia da área de serviço
e inicia-se um ritual entre
minhas mãos e a espuma
do omo.
No fim da sessão [às vezes
dura uma madrugada inteira]
sinto o corpo mais leve
e a alma delirante.
É o que espero de todas as sessões:
um corpo leve, uma alma delirante.
ou debaixo do chuveiro
ouvindo blues
é a minha terapia
valiosa e cotidiana.
Exceto quando há uma montanha
de roupa suja assobiando
e piscando os olhos.
Mudo então de terapeuta.
Ora nuzão, ora de cueca
vou à pia da área de serviço
e inicia-se um ritual entre
minhas mãos e a espuma
do omo.
No fim da sessão [às vezes
dura uma madrugada inteira]
sinto o corpo mais leve
e a alma delirante.
É o que espero de todas as sessões:
um corpo leve, uma alma delirante.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
seu pedro
Há cinco dias não pesco.
Juro que a minha jangada
se não estivesse com o bico enterrado
correria pro mar e me deixaria sozinho.
Conhecedor dessa sua natureza impetuosa
afundei-lhe o bico na areia e a parte detrás
amarrei aos meus cabelos.
Só se mexe se balanço o pescoço.
E se vou à cozinha preparar um cafezinho
levo-a junto cruzando o quarto e a área de serviço.
Há cinco dias não vejo meus irmãos golfinhos
nem abraço as minhas amigas baleias.
Na verdade só vou pro alto mar
pra me sentir bem acompanhado.
Conversar com as estrelas,
paquerar a lua que hoje,
grávida de quíntuplos,
suspira lembrando-me
que há cinco dias
não me vê.
Juro que a minha jangada
se não estivesse com o bico enterrado
correria pro mar e me deixaria sozinho.
Conhecedor dessa sua natureza impetuosa
afundei-lhe o bico na areia e a parte detrás
amarrei aos meus cabelos.
Só se mexe se balanço o pescoço.
E se vou à cozinha preparar um cafezinho
levo-a junto cruzando o quarto e a área de serviço.
Há cinco dias não vejo meus irmãos golfinhos
nem abraço as minhas amigas baleias.
Na verdade só vou pro alto mar
pra me sentir bem acompanhado.
Conversar com as estrelas,
paquerar a lua que hoje,
grávida de quíntuplos,
suspira lembrando-me
que há cinco dias
não me vê.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
digressão
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Vejo sombras das amantes: resquícios de unhas,
batons, sedas, chicletes.
Cuido debaixo da cama um gatinho.
Ele nunca sai, passeia, desce
até a garagem.
Vive pregado às correias
do meu chinelão antigo.
Se fosse um cachorrinho o meu gatinho
viveria mordendo meu tornozelo,
suplicando pra ir à praça
e abraçar os postes.
Mas é de um gatinho que cuido.
Míope, bigodes longos.
A última vez que ousou peregrinar pela casa
queimou-se no forno e os bigodes
entrançaram-se pelas pernas
das cadeiras.
[desastre]
Agora vive acuado debaixo da cama
pregado às correias do meu chinelão
do meu chinelão antigo.
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Quase andam as sombras das minhas amantes.
E cada uma tem uma unha diferente,
uma voz diferente, mas rebolam
do mesmo jeito mascando
o mesmo chiclete.
Vejo sombras das amantes: resquícios de unhas,
batons, sedas, chicletes.
Cuido debaixo da cama um gatinho.
Ele nunca sai, passeia, desce
até a garagem.
Vive pregado às correias
do meu chinelão antigo.
Se fosse um cachorrinho o meu gatinho
viveria mordendo meu tornozelo,
suplicando pra ir à praça
e abraçar os postes.
Mas é de um gatinho que cuido.
Míope, bigodes longos.
A última vez que ousou peregrinar pela casa
queimou-se no forno e os bigodes
entrançaram-se pelas pernas
das cadeiras.
[desastre]
Agora vive acuado debaixo da cama
pregado às correias do meu chinelão
do meu chinelão antigo.
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Quase andam as sombras das minhas amantes.
E cada uma tem uma unha diferente,
uma voz diferente, mas rebolam
do mesmo jeito mascando
o mesmo chiclete.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
credo
Triste quando alguém nos detesta.
Torce o nariz e franze o cenho.
Triste quando alguém nos odeia.
Muda de calçada e foge da praça.
Pensa em nos assaltar
e nos matar na esquina.
Pensa em pôr nossa fotografia
debaixo do ninho de uma coruja,
uma coruja cega e manca
em noite de lua cheia.
Aterrorizante quando alguém
planeja nossa morte.
Testa veneno em camundongos,
compra uma arma de traficante.
Suo frio só de pensar nas artimanhas diabólicas
que um estranho nutre mentalmente sonhando
com a nossa desgraça.
Triste e patético quando alguém se desvencilha
do nosso abraço e prefere pular do desfiladeiro.
É tão triste quando alguém que nunca nos viu dormindo
nem chorando nem atormentado com a própria sorte
ainda tenta nos esfolar como se esfola um bode.
Triste quando alguém não vai com a nossa cara.
E pede ao vizinho o telefone da polícia.
E pega no nosso pé.
E enche nosso saco.
É triste, meu deus
quando o santo de alguém
não bate com o nosso arcanjo.
É bem mais triste, confesso,
quando esse alguém consegue
incutir em nossa alma tal tristeza.
Ou essa vingança,
uma vontade inebriante
de roubar da mão
do carrasco
a lâmina.
É triste ver a cabeça do nosso inimigo
rolando escadaria abaixo com os olhos abertos.
São Jorge me proteja
e São Benedito me prepare
um cafezinho quente
na sua choupana.
Torce o nariz e franze o cenho.
Triste quando alguém nos odeia.
Muda de calçada e foge da praça.
Pensa em nos assaltar
e nos matar na esquina.
Pensa em pôr nossa fotografia
debaixo do ninho de uma coruja,
uma coruja cega e manca
em noite de lua cheia.
Aterrorizante quando alguém
planeja nossa morte.
Testa veneno em camundongos,
compra uma arma de traficante.
Suo frio só de pensar nas artimanhas diabólicas
que um estranho nutre mentalmente sonhando
com a nossa desgraça.
Triste e patético quando alguém se desvencilha
do nosso abraço e prefere pular do desfiladeiro.
É tão triste quando alguém que nunca nos viu dormindo
nem chorando nem atormentado com a própria sorte
ainda tenta nos esfolar como se esfola um bode.
Triste quando alguém não vai com a nossa cara.
E pede ao vizinho o telefone da polícia.
E pega no nosso pé.
E enche nosso saco.
É triste, meu deus
quando o santo de alguém
não bate com o nosso arcanjo.
É bem mais triste, confesso,
quando esse alguém consegue
incutir em nossa alma tal tristeza.
Ou essa vingança,
uma vontade inebriante
de roubar da mão
do carrasco
a lâmina.
É triste ver a cabeça do nosso inimigo
rolando escadaria abaixo com os olhos abertos.
São Jorge me proteja
e São Benedito me prepare
um cafezinho quente
na sua choupana.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
o sono do velho urso
Tiro os chinelos e dois segundos
antes que meu corpo desabe
penso em escrever
um verso.
Sei que não será um verso somente.
Sempre vem um trem atrás de uma montanha.
Se escrevesse um verso não bastaria para o mar
que tem nas suas águas profundas mil corais
e outros mil peixinhos dourados.
Um verso não bastaria.
Um pai nosso não bastaria.
As mãos postas e os dedos cruzados
seria patético para quem olha
a imensidão do teto
e além dele.
As estrelas furam o teto do quarto.
Um verso não bastaria nem o trincar de lábios.
Basta-me um suspiro,
um suspiro alto.
Desses que engolem um mar inteiro
e todos os seus mil corais e mais
outros mil peixinhos dourados.
antes que meu corpo desabe
penso em escrever
um verso.
Sei que não será um verso somente.
Sempre vem um trem atrás de uma montanha.
Se escrevesse um verso não bastaria para o mar
que tem nas suas águas profundas mil corais
e outros mil peixinhos dourados.
Um verso não bastaria.
Um pai nosso não bastaria.
As mãos postas e os dedos cruzados
seria patético para quem olha
a imensidão do teto
e além dele.
As estrelas furam o teto do quarto.
Um verso não bastaria nem o trincar de lábios.
Basta-me um suspiro,
um suspiro alto.
Desses que engolem um mar inteiro
e todos os seus mil corais e mais
outros mil peixinhos dourados.
o beijo
Fui testemunha da maravilha
que é um beijo demorado
entre um casal de sapos.
Eu vi com estes olhos [que a terra
há de oferecer às minhocas]
a suntuosidade e sutileza das línguas
do moço sapo e da senhorita sapa.
Eu vi com estes olhos [que o mar
há de oferecer aos moluscos]
a sensualidade das pontas
em leves gracejos e toques.
Não há mortal [gente
ou bicho] que beije
semelhante aos dois
anfíbios.
Fui testemunha de cada intervalo mágico
em que as línguas tremiam, suspiravam,
tomavam fôlego e retornavam
só as pontas para que depois
por inteiras sumissem as línguas
dentro daquelas bocas.
Eu vi com estes olhos [que o vento
há de oferecer às calçadas]
o casal estremecido,
as jugulares pulsando,
as glândulas ruborizadas.
Não tem gente ou bicho ou entidade
que beije tal qual o casal de sapos.
É um beijo longo e molhado,
tenro, doce, frenético
e ardente.
Eu vi,
eu juro que vi.
Com estes olhos
que a mim pertencem
por obra e divina graça
nunca cabendo posse deles
às minhocas nem aos moluscos
tampouco às calçadas em noites frias.
que é um beijo demorado
entre um casal de sapos.
Eu vi com estes olhos [que a terra
há de oferecer às minhocas]
a suntuosidade e sutileza das línguas
do moço sapo e da senhorita sapa.
Eu vi com estes olhos [que o mar
há de oferecer aos moluscos]
a sensualidade das pontas
em leves gracejos e toques.
Não há mortal [gente
ou bicho] que beije
semelhante aos dois
anfíbios.
Fui testemunha de cada intervalo mágico
em que as línguas tremiam, suspiravam,
tomavam fôlego e retornavam
só as pontas para que depois
por inteiras sumissem as línguas
dentro daquelas bocas.
Eu vi com estes olhos [que o vento
há de oferecer às calçadas]
o casal estremecido,
as jugulares pulsando,
as glândulas ruborizadas.
Não tem gente ou bicho ou entidade
que beije tal qual o casal de sapos.
É um beijo longo e molhado,
tenro, doce, frenético
e ardente.
Eu vi,
eu juro que vi.
Com estes olhos
que a mim pertencem
por obra e divina graça
nunca cabendo posse deles
às minhocas nem aos moluscos
tampouco às calçadas em noites frias.
domingo, 18 de setembro de 2011
orquídea de fogo
Quando pensamos em alguém
e nos ferimos, cortando a unha
ou mordendo a bochecha
ou quebrando uma taça
decerto essa pessoa
não é merecedora
do nosso devaneio.
Sonhemos então com passarinhos.
Ou tartaruguinhas ou formiguinhas.
Embora no íntimo saibamos
que a dor da unha partida
ou da bochecha sangrando
ou da taça espatifada
em nossas mãos
é o motivo da loucura
do amor extremo
por tal criatura.
e nos ferimos, cortando a unha
ou mordendo a bochecha
ou quebrando uma taça
decerto essa pessoa
não é merecedora
do nosso devaneio.
Sonhemos então com passarinhos.
Ou tartaruguinhas ou formiguinhas.
Embora no íntimo saibamos
que a dor da unha partida
ou da bochecha sangrando
ou da taça espatifada
em nossas mãos
é o motivo da loucura
do amor extremo
por tal criatura.
alvorada
De que adianta sumir por um dia -
a vida pela sua própria natureza
é uma exímia caçadora
e antes que eu sorria
ela me atinge
na barriga.
Para um toureiro é trágico
dormir com um curativo
atando as tripas.
Chora feito um desesperado quando se deita
e chora ainda mais quando se abaixa
pra pegar suas sapatilhas,
pois amanhece
e o touro na praça
já bufa e trinca os beiços.
a vida pela sua própria natureza
é uma exímia caçadora
e antes que eu sorria
ela me atinge
na barriga.
Para um toureiro é trágico
dormir com um curativo
atando as tripas.
Chora feito um desesperado quando se deita
e chora ainda mais quando se abaixa
pra pegar suas sapatilhas,
pois amanhece
e o touro na praça
já bufa e trinca os beiços.
sábado, 17 de setembro de 2011
fátuo
O poema depois de escrito
perde pra mim o brilho,
é como uma nuvem
que desaba dentro
do meu tênis sujo.
Parto pra outra vida.
E não ligo se vão comigo
meus ossos, minhas costelas,
meus olhos tristes não sei de quem.
perde pra mim o brilho,
é como uma nuvem
que desaba dentro
do meu tênis sujo.
Parto pra outra vida.
E não ligo se vão comigo
meus ossos, minhas costelas,
meus olhos tristes não sei de quem.
o velho sansão de guerra
Os meus cabelos crescem
crescem pra chuchu,
tudo pra guardar entre os cachos grisalhos
uma bolsa de couro e uma orquídea
pro seu aniversário.
crescem pra chuchu,
tudo pra guardar entre os cachos grisalhos
uma bolsa de couro e uma orquídea
pro seu aniversário.
domingo, 11 de setembro de 2011
o meu pequeno vinicius
O meu filho sempre vem ao navio
feito um belo pirata e foge
deixando dentro dos canhões
seus chinelos.
É hora de comer o chocolate
que ele esqueceu na geladeira.
Dois dias com o filho
não se pode ensinar-lhe
caçar baleias cinzentas.
Ninguém matará baleia alguma.
Só mostrarei como dormem as mamães -
barriga pra cima e cauda feliz balançando.
Agora se o pequeno quiser chamar atenção
mergulhando próximo e puxando os cílios
das mamães baleias
estarei por perto
fazendo cócegas
ora na barriguinha da baleia
ora nos pezinhos do meu pirata.
O meu filho é um pirata.
E as baleias mamães dormem
como digo, de barriga pra cima
balançando a cauda feliz.
feito um belo pirata e foge
deixando dentro dos canhões
seus chinelos.
É hora de comer o chocolate
que ele esqueceu na geladeira.
Dois dias com o filho
não se pode ensinar-lhe
caçar baleias cinzentas.
Ninguém matará baleia alguma.
Só mostrarei como dormem as mamães -
barriga pra cima e cauda feliz balançando.
Agora se o pequeno quiser chamar atenção
mergulhando próximo e puxando os cílios
das mamães baleias
estarei por perto
fazendo cócegas
ora na barriguinha da baleia
ora nos pezinhos do meu pirata.
O meu filho é um pirata.
E as baleias mamães dormem
como digo, de barriga pra cima
balançando a cauda feliz.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
as zombeteiras
A verdade é que não penso na morte.
A morte é um caso esquecido.
Já teve seus dias de fama.
As marcas rosadas da faca de cortar pão
no meu pulso é um retrato claro
do tempo em que ela
dava as cartas.
Agora só tenho duas covinhas nas bochechas.
E mesmo que eu pouco sorria são visíveis.
Essa estória de covinhas
foram certas andorinhas
que me iludiram.
Uma dizia pra outra,
"olha, coisa linda
quando o poeta sorri"
A outra completava,
"meu deus, que covinhas
delicadas e sensuais"
Para um cara solitário feito eu
que não acredita em alma gêmea
nem em metade de laranja predestinada
nem em formiga gigante de três olhos
ter diante de si
duas espetaculares
e maravilhosas andorinhas
sussurrando aos ouvidos
que tenho duas covinhas
evidente,
acabei acreditando.
E de fato tenho
duas covinhas.
Mas só quando levanto os braços
e vejo uma covinha em cada axila.
S'eu fosse uma mulher vaidosa faria cirurgia plástica.
Extraía essas covinhas das axilas e pregava no rosto.
As minhas andorinhas são umas sacanas.
Mentem pra burro e ainda se irritam
quando retruco, "são seus olhinhos
de mr. magoo".
Levantam-se da cama
e deixam o cigarro aceso .
A morte é um caso esquecido.
Já teve seus dias de fama.
As marcas rosadas da faca de cortar pão
no meu pulso é um retrato claro
do tempo em que ela
dava as cartas.
Agora só tenho duas covinhas nas bochechas.
E mesmo que eu pouco sorria são visíveis.
Essa estória de covinhas
foram certas andorinhas
que me iludiram.
Uma dizia pra outra,
"olha, coisa linda
quando o poeta sorri"
A outra completava,
"meu deus, que covinhas
delicadas e sensuais"
Para um cara solitário feito eu
que não acredita em alma gêmea
nem em metade de laranja predestinada
nem em formiga gigante de três olhos
ter diante de si
duas espetaculares
e maravilhosas andorinhas
sussurrando aos ouvidos
que tenho duas covinhas
evidente,
acabei acreditando.
E de fato tenho
duas covinhas.
Mas só quando levanto os braços
e vejo uma covinha em cada axila.
S'eu fosse uma mulher vaidosa faria cirurgia plástica.
Extraía essas covinhas das axilas e pregava no rosto.
As minhas andorinhas são umas sacanas.
Mentem pra burro e ainda se irritam
quando retruco, "são seus olhinhos
de mr. magoo".
Levantam-se da cama
e deixam o cigarro aceso .
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
cotidiano
Tenho algumas coisas sagradas comigo.
Alguns trejeitos, olhares, nuances.
Quando pego minha xícara
já ao entardecer e ponho açúcar
minhas faces mudam, há um certo júbilo.
Sinto que meu olho direito treme.
Mas treme de modo singular,
dando voltas em torno
da própria órbita.
Outro instante delicado
é quando faço a cama.
Estendo os lençóis, bato os travesseiros,
puxo a colcha aqui e acolá
e pareço sorrir.
Já ao fazer a cama quando acordo
muitas vezes não a faço.
Deixo os lençóis cansados da longa noite
espremidos entre as dobras
e os travesseiros loucos por não terem
conseguido dormir.
Se durmo bem,
meus travesseiros não dormem.
É natural,
se durmo bem
estou sempre enforcando
um ou outro em forma de abraço.
A minha vida é recheada de intervalos mágicos.
Beber café sob o crepúsculo e fazer a cama
são epifanias próprias de um solitário.
Existe, entretanto, um ato em si mesmo
mais elevado, existencial, que carrego
desde a mais tenra infância:
limpar os ouvidos.
Com o dedo mindinho.
Com o dedo indicador.
E ao cheirá-los
nunca muda o cheiro.
É um cheiro forte,
um cheiro de parto.
Alguns trejeitos, olhares, nuances.
Quando pego minha xícara
já ao entardecer e ponho açúcar
minhas faces mudam, há um certo júbilo.
Sinto que meu olho direito treme.
Mas treme de modo singular,
dando voltas em torno
da própria órbita.
Outro instante delicado
é quando faço a cama.
Estendo os lençóis, bato os travesseiros,
puxo a colcha aqui e acolá
e pareço sorrir.
Já ao fazer a cama quando acordo
muitas vezes não a faço.
Deixo os lençóis cansados da longa noite
espremidos entre as dobras
e os travesseiros loucos por não terem
conseguido dormir.
Se durmo bem,
meus travesseiros não dormem.
É natural,
se durmo bem
estou sempre enforcando
um ou outro em forma de abraço.
A minha vida é recheada de intervalos mágicos.
Beber café sob o crepúsculo e fazer a cama
são epifanias próprias de um solitário.
Existe, entretanto, um ato em si mesmo
mais elevado, existencial, que carrego
desde a mais tenra infância:
limpar os ouvidos.
Com o dedo mindinho.
Com o dedo indicador.
E ao cheirá-los
nunca muda o cheiro.
É um cheiro forte,
um cheiro de parto.
bodas de alabastro
Mistério envolve o escorpião.
Ele não envelhece.
As formigas percebo de longe
pelo olhar fundo e antenas flácidas.
Nas cigarras reconheço pela voz.
No meio de uma ária tossem,
tossem muito.
Os elefantes é facílimo observar sua velhice.
Franzem o cenho, separam-se da manada,
seguem um caminho obscuro
e somem.
Os pombos quando envelhecem
tropeçam nos cadarços
dos seus tênis nike
desbotados.
[todo pombo jovem
tem um nike vermelho
tinindo nos pés]
As andorinhas é simples.
Ficam sérias, aliás, seríssimas.
Iniciam um tal de tricotar uma colcha
que não termina nunca
sempre sozinhas
e sisudas.
O papagaio quando começa a envelhecer
parte para um estudo laborioso entre
aramaico e chinês.
Agora o escorpião coisa alguma
indica seu envelhecimento.
Continua o mesmo sujeito desconfiado,
sacana, amoroso, ciumento, misterioso.
Já me dediquei muitas horas de um dia,
muitos dias de um mês, muitos anos
de uma década, quase
toda uma vida
tentando encontrar um vestígio
um sinal sequer da sua velhice.
O escorpião não envelhece.
Não envelhece mesmo.
As luzes neons pelo seu corpo
se tempo chuvoso ou debaixo
do deserto brilham
e nunca cessam.
Só não sabem nadar
nem andar de bicicleta.
Mas isso é um detalhe.
Eu também não sei
nem uma coisa
nem outra
no entanto, envelheço,
envelheço pra chuchu.
Ele não envelhece.
As formigas percebo de longe
pelo olhar fundo e antenas flácidas.
Nas cigarras reconheço pela voz.
No meio de uma ária tossem,
tossem muito.
Os elefantes é facílimo observar sua velhice.
Franzem o cenho, separam-se da manada,
seguem um caminho obscuro
e somem.
Os pombos quando envelhecem
tropeçam nos cadarços
dos seus tênis nike
desbotados.
[todo pombo jovem
tem um nike vermelho
tinindo nos pés]
As andorinhas é simples.
Ficam sérias, aliás, seríssimas.
Iniciam um tal de tricotar uma colcha
que não termina nunca
sempre sozinhas
e sisudas.
O papagaio quando começa a envelhecer
parte para um estudo laborioso entre
aramaico e chinês.
Agora o escorpião coisa alguma
indica seu envelhecimento.
Continua o mesmo sujeito desconfiado,
sacana, amoroso, ciumento, misterioso.
Já me dediquei muitas horas de um dia,
muitos dias de um mês, muitos anos
de uma década, quase
toda uma vida
tentando encontrar um vestígio
um sinal sequer da sua velhice.
O escorpião não envelhece.
Não envelhece mesmo.
As luzes neons pelo seu corpo
se tempo chuvoso ou debaixo
do deserto brilham
e nunca cessam.
Só não sabem nadar
nem andar de bicicleta.
Mas isso é um detalhe.
Eu também não sei
nem uma coisa
nem outra
no entanto, envelheço,
envelheço pra chuchu.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
dádiva
Já troquei a água das duas meninas.
Uma dentro de um jarro de vidro.
A outra dentro de um cilindro
de bambu.
Ambas ronronaram (dengosas)
ao tocar-lhes as folhas
e as raízes.
Talvez a mesma
espécie.
Não entendo muito de botânica.
Só do coração das meninas.
E ao tocá-las (é um dom, imagino)
suas folhas e as suas raízes tremem
dentro da minha alma.
Dentro da minha alma.
É isso, dentro da minha alma
todas as meninas da terra
sabem que sou um jardineiro.
E se houver meninas nas nuvens
saberão que sou um anjo.
Uma dentro de um jarro de vidro.
A outra dentro de um cilindro
de bambu.
Ambas ronronaram (dengosas)
ao tocar-lhes as folhas
e as raízes.
Talvez a mesma
espécie.
Não entendo muito de botânica.
Só do coração das meninas.
E ao tocá-las (é um dom, imagino)
suas folhas e as suas raízes tremem
dentro da minha alma.
Dentro da minha alma.
É isso, dentro da minha alma
todas as meninas da terra
sabem que sou um jardineiro.
E se houver meninas nas nuvens
saberão que sou um anjo.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Pã enfeitiçado
Aprendi muito cedo
a tocar flauta doce.
Bastava assobiar para o vento
e abrir os dedos dos pés.
Era como se fosse
o som de flauta doce
a brincadeira do vento
com o deleite dos dedos.
As lagartixas do parque
juntamente com as cigarras
ficavam bobas e extasiadas.
O vento ouvia meus pensamentos
e tocava Bach e Villa-Lobos.
Era muito jovem minha alma.
Só depois (velhinho)
dei por mim:
não era o vento
nem eram os meus dedos
que faziam aquele som, era
a garrafa de vinho debaixo do sol
com suas luzes e seus reflexos.
E sempre era manhã,
e era dia, brilhava o sol
e meus cabelos
iam com o vento
de lá pra cá.
Descobri outro dia
que os meus cabelos
contra ou a favor do vento
também fazem um som legal.
Sobretudo quando
vão ficando fininhos
e brancos.
a tocar flauta doce.
Bastava assobiar para o vento
e abrir os dedos dos pés.
Era como se fosse
o som de flauta doce
a brincadeira do vento
com o deleite dos dedos.
As lagartixas do parque
juntamente com as cigarras
ficavam bobas e extasiadas.
O vento ouvia meus pensamentos
e tocava Bach e Villa-Lobos.
Era muito jovem minha alma.
Só depois (velhinho)
dei por mim:
não era o vento
nem eram os meus dedos
que faziam aquele som, era
a garrafa de vinho debaixo do sol
com suas luzes e seus reflexos.
E sempre era manhã,
e era dia, brilhava o sol
e meus cabelos
iam com o vento
de lá pra cá.
Descobri outro dia
que os meus cabelos
contra ou a favor do vento
também fazem um som legal.
Sobretudo quando
vão ficando fininhos
e brancos.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
porcelana
S'eu te chamar de meu amor
tu juras que acordas desse
sono profundo?
Os meus cílios deram pra cair
de hora para outra
e tu não estás ao meu lado,
assoprá-los e fazer um pedido.
S'eu te chamar de bailarina graciosa
tu te levantas da cama, lavas o rosto,
molhas os cabelos e vais pra calçada?
Talvez não saibas mas o sol
vive sob uma melancolia
entre pôr o pescoço de fora
ou ficar enrolado dentro
das nuvens: um sol
sem graça.
Meu amor,
minha bailarina graciosa,
sai do quarto, dá um pulinho
à esquina, toma um sorvete.
Sabe aqueles pombos?
Andam cabisbaixos.
Rejeitam de quem passa
migalhas de pão e arroz.
Um dia chegaram aos meus ombros
e perguntaram-me por ti "a menina
de tranças e de olhar triste"
Respondi-lhes
que não és
triste.
Apenas
santinha.
E que as tranças
é imaginação deles.
tu juras que acordas desse
sono profundo?
Os meus cílios deram pra cair
de hora para outra
e tu não estás ao meu lado,
assoprá-los e fazer um pedido.
S'eu te chamar de bailarina graciosa
tu te levantas da cama, lavas o rosto,
molhas os cabelos e vais pra calçada?
Talvez não saibas mas o sol
vive sob uma melancolia
entre pôr o pescoço de fora
ou ficar enrolado dentro
das nuvens: um sol
sem graça.
Meu amor,
minha bailarina graciosa,
sai do quarto, dá um pulinho
à esquina, toma um sorvete.
Sabe aqueles pombos?
Andam cabisbaixos.
Rejeitam de quem passa
migalhas de pão e arroz.
Um dia chegaram aos meus ombros
e perguntaram-me por ti "a menina
de tranças e de olhar triste"
Respondi-lhes
que não és
triste.
Apenas
santinha.
E que as tranças
é imaginação deles.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
paixão
Seis cuecas salvam uma alma.
Sobretudo as cuecas
de hoje em dia:
noventa e seis por cento de algodão
e quatro por cento elastano.
Espero que agora
as minhas formiguinhas
não sumam de madrugada
naquela hora em que o braço
involuntariamente busca a amada.
Elas sempre tiveram como desculpa
as minhas velhas cuecas sem elástico.
Diziam que não existia clima.
Que era de doer minha aparência.
Pelo que já pressinto
hoje tardão da noite
amarei enlouquecido
minhas formiguinhas.
Oxalá elas usem
aquele baby doll.
Aquele
vermelho.
Sobretudo as cuecas
de hoje em dia:
noventa e seis por cento de algodão
e quatro por cento elastano.
Espero que agora
as minhas formiguinhas
não sumam de madrugada
naquela hora em que o braço
involuntariamente busca a amada.
Elas sempre tiveram como desculpa
as minhas velhas cuecas sem elástico.
Diziam que não existia clima.
Que era de doer minha aparência.
Pelo que já pressinto
hoje tardão da noite
amarei enlouquecido
minhas formiguinhas.
Oxalá elas usem
aquele baby doll.
Aquele
vermelho.
insígnia
Os meus dedos são os meus melhores amigos.
Eram lisos e límpidos e nunca se orgulharam.
Agora ásperos, velhos e tristes e tudo bem.
Não largam das minhas mãos.
Acompanham minhas unhas
no outono e no inverno
sem questionarem
o tempo.
Seguram com altivez
e com a mesma loucura
a asinha da xícara
e o cadarço do tênis.
Os meus dedos são os meus únicos amigos.
Conhecem meu pensamento antes da unha roída.
Já viraram tantas chaves e doeram-lhes as juntas.
Nunca se gabaram
das suas falanges.
Da plasticidade dos ossinhos.
Dos seus ângulos e diretrizes.
Os meus dedos não me puseram contra a parede
à espera de um anel de aço cirúrgico ou de ouro.
Passaram muito tempo colados
uns aos outros sem ironia
e sem fracasso.
Os meus dedos não duelaram.
Não se sangraram à toa,
salvo sob momentos
de tensão em que
nem eu mesmo
compreendia
seus vãos
e a água
da chuva
escapando.
Também foram eles no outro dia
que me ensinaram a fazer concha
com as duas mãos e me levaram
à boca a mesma água da chuva.
Os meus dedos são os meus senhores.
Apontaram na cara de muitos canalhas a desonra.
Outras vezes apontaram para o céu o sol se pondo.
Os meus dedos são o pai que não tive.
Desde cedo é como se eles soubessem.
E cresceram comigo
e nunca me pediram luvas.
Os meus dedos nunca tremeram,
exceto aquele tempo de frenesi
em que meu coração derretido
veio até eles.
E eles supondo minha dor
tocaram em vez de blues
um samba.
Um samba de roda,
banquete e festejos.
Eram lisos e límpidos e nunca se orgulharam.
Agora ásperos, velhos e tristes e tudo bem.
Não largam das minhas mãos.
Acompanham minhas unhas
no outono e no inverno
sem questionarem
o tempo.
Seguram com altivez
e com a mesma loucura
a asinha da xícara
e o cadarço do tênis.
Os meus dedos são os meus únicos amigos.
Conhecem meu pensamento antes da unha roída.
Já viraram tantas chaves e doeram-lhes as juntas.
Nunca se gabaram
das suas falanges.
Da plasticidade dos ossinhos.
Dos seus ângulos e diretrizes.
Os meus dedos não me puseram contra a parede
à espera de um anel de aço cirúrgico ou de ouro.
Passaram muito tempo colados
uns aos outros sem ironia
e sem fracasso.
Os meus dedos não duelaram.
Não se sangraram à toa,
salvo sob momentos
de tensão em que
nem eu mesmo
compreendia
seus vãos
e a água
da chuva
escapando.
Também foram eles no outro dia
que me ensinaram a fazer concha
com as duas mãos e me levaram
à boca a mesma água da chuva.
Os meus dedos são os meus senhores.
Apontaram na cara de muitos canalhas a desonra.
Outras vezes apontaram para o céu o sol se pondo.
Os meus dedos são o pai que não tive.
Desde cedo é como se eles soubessem.
E cresceram comigo
e nunca me pediram luvas.
Os meus dedos nunca tremeram,
exceto aquele tempo de frenesi
em que meu coração derretido
veio até eles.
E eles supondo minha dor
tocaram em vez de blues
um samba.
Um samba de roda,
banquete e festejos.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
a doçura do tristonho
Antes que eu volte à leitura,
permita-me admirar as suas costas nuas.
Um dia desenharei uma árvore
e escreverei nomes
da sua nuca passando
por toda sua espinha
e costelas;
e pedirei, sorrindo
e brincando, para
que você me diga
que árvore plantei
que nomes escrevi.
Não sei se você ouvira falar,
mas no meu tempo de anjinho
havia essa brincadeira delicada,
esse jogo sensual,
de desenhar coisas
e escrever nomes
nas costas nuas
da amada.
Em centenas de meninas
desenhei o jardim botânico
e nenhuma delas cresceu
sequer uma florzinha
na varanda.
Fiquei apenas com os nomes.
Uma longa extensão de areia de praia.
Inevitavelmente vêm as ondas
e também levam os nomes.
permita-me admirar as suas costas nuas.
Um dia desenharei uma árvore
e escreverei nomes
da sua nuca passando
por toda sua espinha
e costelas;
e pedirei, sorrindo
e brincando, para
que você me diga
que árvore plantei
que nomes escrevi.
Não sei se você ouvira falar,
mas no meu tempo de anjinho
havia essa brincadeira delicada,
esse jogo sensual,
de desenhar coisas
e escrever nomes
nas costas nuas
da amada.
Em centenas de meninas
desenhei o jardim botânico
e nenhuma delas cresceu
sequer uma florzinha
na varanda.
Fiquei apenas com os nomes.
Uma longa extensão de areia de praia.
Inevitavelmente vêm as ondas
e também levam os nomes.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
relance
Consigo te ver por dentro.
Embora teu perfume
seja enlouquecedor
porque é breve.
E tenho que me segurar por fora
(portão, árvore)
para que teu perfume
não me estrague a vista.
Há dentro de ti uma casa
com janelas fechadas.
Nunca te disse
que me basta
uma lágrima.
A minha lágrima
contra a tua vidraça
amolece todas as trancas.
Também nunca te disse
que é inútil lágrima
quando as janelas
já foram levadas
pelo vento.
Alguém nos dirá um dia:
"no alto da montanha
o vento não existe
e quem ama vive
dentro das tocas
do abismo"
Enquanto esse dia não chega
continuo te vendo por dentro.
E o teu perfume
é bárbaro.
Embora teu perfume
seja enlouquecedor
porque é breve.
E tenho que me segurar por fora
(portão, árvore)
para que teu perfume
não me estrague a vista.
Há dentro de ti uma casa
com janelas fechadas.
Nunca te disse
que me basta
uma lágrima.
A minha lágrima
contra a tua vidraça
amolece todas as trancas.
Também nunca te disse
que é inútil lágrima
quando as janelas
já foram levadas
pelo vento.
Alguém nos dirá um dia:
"no alto da montanha
o vento não existe
e quem ama vive
dentro das tocas
do abismo"
Enquanto esse dia não chega
continuo te vendo por dentro.
E o teu perfume
é bárbaro.
domingo, 21 de agosto de 2011
o amante pródigo
Darei a ti um poema sem vinho
e sem lucidez excessiva.
Um poema sem buscas,
sem transes e sem pensamentos.
Darei a ti um poema caído sobre o peito
na calada da noite quando faço
brilhar minha espada
diante do meu olho
de vidro.
Um poema que não explique a causa do silêncio.
Um poema que se cale ao som da primeira sílaba.
Darei a ti o que temo e o que creio
sem forçar de ti entendimento
ou cumplicidade.
Ainda não ando sobre as águas.
Mas já levito sobre as nuvens.
É um pulo criar chuva
saltando de nuvem
em nuvem
e encher o mar de sonhos
e encher de peixes
nossos corações.
Enquanto tu suspiras
o meu barco à deriva
contra rochedos
afunda.
e sem lucidez excessiva.
Um poema sem buscas,
sem transes e sem pensamentos.
Darei a ti um poema caído sobre o peito
na calada da noite quando faço
brilhar minha espada
diante do meu olho
de vidro.
Um poema que não explique a causa do silêncio.
Um poema que se cale ao som da primeira sílaba.
Darei a ti o que temo e o que creio
sem forçar de ti entendimento
ou cumplicidade.
Ainda não ando sobre as águas.
Mas já levito sobre as nuvens.
É um pulo criar chuva
saltando de nuvem
em nuvem
e encher o mar de sonhos
e encher de peixes
nossos corações.
Enquanto tu suspiras
o meu barco à deriva
contra rochedos
afunda.
soul
Perdi o traquejo em escrever versos românticos.
Os últimos enlouqueceram as andorinhas.
Muitas delas enforcaram-se usando
os cadarços dos meus tênis sujos.
Perdi o tato em conquistar mulheres
com a voz doce e os olhos míopes.
A maioria delas preferiu a loucura de uma balada
ao cântico do blues dentro da minha vitrola.
Pobre deu,
mísero de mim.
Perdi a veleidade, a quimera,
o sonho e a malícia: agora
sou um traste só,
um homem puro.
Os últimos enlouqueceram as andorinhas.
Muitas delas enforcaram-se usando
os cadarços dos meus tênis sujos.
Perdi o tato em conquistar mulheres
com a voz doce e os olhos míopes.
A maioria delas preferiu a loucura de uma balada
ao cântico do blues dentro da minha vitrola.
Pobre deu,
mísero de mim.
Perdi a veleidade, a quimera,
o sonho e a malícia: agora
sou um traste só,
um homem puro.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
elos
Às vezes confundo o mar
e todas as suas algas
com a sombra da nuvem
e todas as suas faces.
É natural perder o juízo
sobretudo um poeta
que trabalha na rua
e mora num ovo.
Contudo, baby,
não é hora de fugires.
Pois aquilo que mais prezo
(costumo chamar de alma)
continua intacta sob mil
dobras.
A lamúria da cabocla na margem
lavando túnicas de imperadores
nada difere do meu canto torpe,
difuso, esperando o último dia
no meu quarto.
A cabocla vive presa aos devaneios.
Daí a sua melancolia e também a minha.
e todas as suas algas
com a sombra da nuvem
e todas as suas faces.
É natural perder o juízo
sobretudo um poeta
que trabalha na rua
e mora num ovo.
Contudo, baby,
não é hora de fugires.
Pois aquilo que mais prezo
(costumo chamar de alma)
continua intacta sob mil
dobras.
A lamúria da cabocla na margem
lavando túnicas de imperadores
nada difere do meu canto torpe,
difuso, esperando o último dia
no meu quarto.
A cabocla vive presa aos devaneios.
Daí a sua melancolia e também a minha.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
luxúria
Veste aquele teu short jeans minúsculo
e vai até a praça. Estarei no banco
no terceiro atrás da banca
de jornal.
Não digas: "ui, menino"
Dize: "ai, cavalão"
É isto que sou,
um cavalão.
Morderei teu braço
(não morderei outra coisa
porque é cedo e tem criança
brincando de skate e patins)
Tu não sabes da minha loucura de celibatário.
Dentro do meu baú guardo filhos órfãos.
Não esqueci o presente
que tu me impuseste:
um frasco de perfume
e duas rosas vermelhas.
Enquanto tu lanças o olhar sobre a minha oferenda
eu te mordo agora o que não podia há dois minutos.
A praça ficou deserta.
Pula ao meu colo.
Deixa-me trincar tuas orelhas
e beijar tua nuca: eu sou um cavalão
e cavalão que se preza come milho
lambuzando o pescoço da amada.
Nunca repitas "ui, menino" A partir de hoje,
somente: "ai, cavalão" É isto que sou,
um cavalão.
e vai até a praça. Estarei no banco
no terceiro atrás da banca
de jornal.
Não digas: "ui, menino"
Dize: "ai, cavalão"
É isto que sou,
um cavalão.
Morderei teu braço
(não morderei outra coisa
porque é cedo e tem criança
brincando de skate e patins)
Tu não sabes da minha loucura de celibatário.
Dentro do meu baú guardo filhos órfãos.
Não esqueci o presente
que tu me impuseste:
um frasco de perfume
e duas rosas vermelhas.
Enquanto tu lanças o olhar sobre a minha oferenda
eu te mordo agora o que não podia há dois minutos.
A praça ficou deserta.
Pula ao meu colo.
Deixa-me trincar tuas orelhas
e beijar tua nuca: eu sou um cavalão
e cavalão que se preza come milho
lambuzando o pescoço da amada.
Nunca repitas "ui, menino" A partir de hoje,
somente: "ai, cavalão" É isto que sou,
um cavalão.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
fome e sede
Meu coração é o mesmo de sempre.
Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue à toa.
Nada de multiplicidade, sombras, fantasmas,
mudas de pele entre rochas e gravetos.
Eu nunca fui outros.
Eu nunca cruzei pontes
e fiz fogo em outras margens.
Sempre, sempre, sempre os mesmos olhos
e os mesmos passos dentro da minha alma.
A minha alma é palpável.
Muito mais vertiginosa
que o tecido do corpo.
Desde criança quando os versos eram escritos
sem mãos e sem palavras naquelas tardes inteiras
no jardim, quintal, cozinha, salas, quarto, calçadas
esquecendo de comer e de beber
temia ser o que sou hoje.
E eu escrevia versos
em silêncio e no olhar.
Coisa alguma mudou em minha volta.
As coisas são as mesmas coisas.
Os ancestrais são os mesmos.
Nenhum pavor diferente
nem cor estranha
de arco-íris.
A minha alma não cresceu, não estreitou,
não chegou a verdades nem desvendou
o segredo do suspiro.
Ainda que sem mãos e sem palavras
minha alma se vale do vácuo
do pacote de café aberto.
Fecho os olhos ao ser atingido
e outras coisas revelam-se.
A alma, no entanto, é a mesma.
A minha alma é a mesma.
Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue sem destino.
Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue à toa.
Nada de multiplicidade, sombras, fantasmas,
mudas de pele entre rochas e gravetos.
Eu nunca fui outros.
Eu nunca cruzei pontes
e fiz fogo em outras margens.
Sempre, sempre, sempre os mesmos olhos
e os mesmos passos dentro da minha alma.
A minha alma é palpável.
Muito mais vertiginosa
que o tecido do corpo.
Desde criança quando os versos eram escritos
sem mãos e sem palavras naquelas tardes inteiras
no jardim, quintal, cozinha, salas, quarto, calçadas
esquecendo de comer e de beber
temia ser o que sou hoje.
E eu escrevia versos
em silêncio e no olhar.
Coisa alguma mudou em minha volta.
As coisas são as mesmas coisas.
Os ancestrais são os mesmos.
Nenhum pavor diferente
nem cor estranha
de arco-íris.
A minha alma não cresceu, não estreitou,
não chegou a verdades nem desvendou
o segredo do suspiro.
Ainda que sem mãos e sem palavras
minha alma se vale do vácuo
do pacote de café aberto.
Fecho os olhos ao ser atingido
e outras coisas revelam-se.
A alma, no entanto, é a mesma.
A minha alma é a mesma.
Sem um centímetro a mais de artéria
nem uma gota de sangue sem destino.
domingo, 14 de agosto de 2011
magia
Esqueci como se deita sobre o colo de quem se ama
e treme os olhos admirando o brilho das estrelas.
Creio que somente os sapos e suas sapinhas
ainda nutrem dentro da alma essa loucura.
Porque de fato é loucura.
Vai que desaba uma estrela
dentro do olho do apaixonado.
Como haverá de nascer o dia
(com suas batalhas e seus medos)
ora sombra e ora fresta
debaixo da porta.
O apaixonado para sempre será outro
a carregar um brilho falso de cadáver.
Porque as estrelas quando morrem
escrevem versos no espaço
e iludem.
Não esqueci esse clima de morte
e de festejo quando deitado
no colo de quem se ama
a cada intervalo de beijo
vem a terrível dúvida
do amor que se sonha
e do amor que já foge.
Os humanos são apenas tímidos arautos
de um sentimento nobre e exclusivo
dos sapos e das suas sapinhas.
Porque um dia esses sapos
e essas doces sapinhas
foram príncipes
e princesas.
Conheceram de perto os degraus do palácio
e agora, anfíbios, cantam enfeitiçados
boiando na água escura do pântano.
e treme os olhos admirando o brilho das estrelas.
Creio que somente os sapos e suas sapinhas
ainda nutrem dentro da alma essa loucura.
Porque de fato é loucura.
Vai que desaba uma estrela
dentro do olho do apaixonado.
Como haverá de nascer o dia
(com suas batalhas e seus medos)
ora sombra e ora fresta
debaixo da porta.
O apaixonado para sempre será outro
a carregar um brilho falso de cadáver.
Porque as estrelas quando morrem
escrevem versos no espaço
e iludem.
Não esqueci esse clima de morte
e de festejo quando deitado
no colo de quem se ama
a cada intervalo de beijo
vem a terrível dúvida
do amor que se sonha
e do amor que já foge.
Os humanos são apenas tímidos arautos
de um sentimento nobre e exclusivo
dos sapos e das suas sapinhas.
Porque um dia esses sapos
e essas doces sapinhas
foram príncipes
e princesas.
Conheceram de perto os degraus do palácio
e agora, anfíbios, cantam enfeitiçados
boiando na água escura do pântano.
sábado, 13 de agosto de 2011
para meu filho Vinicius.
Filho, não precisas quebrar teu cofrinho.
Guarda teus centavos para tua mocidade
no dia em que teu coração arder
por uma menina.
Nesse dia, então, manda ver teu porquinho
contra a parede e junta cada moeda.
Leva tua garota para o cinema.
Beija-a e experimenta a pipoca da boca dela.
Teu velho pai não se importa com presentes:
cuecas, perfumes, camisas polos,
celular, radinho de pilha.
Os chocolates que ontem trouxeste
ainda agora adoçam minha alma,
e estamos conversados.
Deixa em paz teu porquinho
com aquele ar de falastrão.
Um dia, como já te disse,
não o poupes do destino.
Quebra-o, junta as moedas,
compra um buquê de rosas
e convida tua princesa
para o shopping.
Faze-o antes que pequenos gaviões
sempre à espreita o façam.
O teu velho pai estará por perto
pra saber dos detalhes: da euforia
e do encanto e da desilusão futura.
A solidão e o desengano
também são prazerosos.
Que pai sou eu.
Que tolices estou a dizer
a uma criança de nove anos.
Esquece tudo e comecemos do princípio:
filho, quebra teu cofrinho e estrangula teu porquinho.
Nem que seja pra gente gastar todo o tesouro
com refrigerantes e jogos de videogame.
Filho, não precisas quebrar teu cofrinho.
Guarda teus centavos para tua mocidade
no dia em que teu coração arder
por uma menina.
Nesse dia, então, manda ver teu porquinho
contra a parede e junta cada moeda.
Leva tua garota para o cinema.
Beija-a e experimenta a pipoca da boca dela.
Teu velho pai não se importa com presentes:
cuecas, perfumes, camisas polos,
celular, radinho de pilha.
Os chocolates que ontem trouxeste
ainda agora adoçam minha alma,
e estamos conversados.
Deixa em paz teu porquinho
com aquele ar de falastrão.
Um dia, como já te disse,
não o poupes do destino.
Quebra-o, junta as moedas,
compra um buquê de rosas
e convida tua princesa
para o shopping.
Faze-o antes que pequenos gaviões
sempre à espreita o façam.
O teu velho pai estará por perto
pra saber dos detalhes: da euforia
e do encanto e da desilusão futura.
A solidão e o desengano
também são prazerosos.
Que pai sou eu.
Que tolices estou a dizer
a uma criança de nove anos.
Esquece tudo e comecemos do princípio:
filho, quebra teu cofrinho e estrangula teu porquinho.
Nem que seja pra gente gastar todo o tesouro
com refrigerantes e jogos de videogame.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
viajante
Hoje salvou-se uma alma.
Limpei o quarto como nunca:
computador, teclado, piso,
livros, ventilador,
mudei colcha
e fronhas.
A sensação é a mesma
quando se aprende a pescar
e em seguida tem nas mãos
um fabuloso peixe
dando pulos
e pernadas.
Sequer vi uma formiguinha pra contar estória.
E olha que sempre debaixo da cama
e atrás do guarda-roupa havia
uma aldeia delas em torno
da fogueira.
Somente a minha xícara sobre a estante
continua sorrindo com as suas fissuras
na circunferência.
Amo-a,
amo-a tanto.
Limpei o quarto como nunca:
computador, teclado, piso,
livros, ventilador,
mudei colcha
e fronhas.
A sensação é a mesma
quando se aprende a pescar
e em seguida tem nas mãos
um fabuloso peixe
dando pulos
e pernadas.
Sequer vi uma formiguinha pra contar estória.
E olha que sempre debaixo da cama
e atrás do guarda-roupa havia
uma aldeia delas em torno
da fogueira.
Somente a minha xícara sobre a estante
continua sorrindo com as suas fissuras
na circunferência.
Amo-a,
amo-a tanto.
o bom vento de agosto
No meu braço há um sinal.
Mudou de tamanho com o tempo.
Mas tenho a lembrança dele
desde que abri os olhos
no berçário.
E ao abrir o olho direito
surpreendi uma enfermeira
lavando esse sinal com éter e iodo.
Parece uma sombra de uma nuvem
sobre a água parada de um rio triste.
Quem não tentaria apagar tal sinal.
Primeiro a enfermeira, depois a madrinha,
todas as namoradas e por último eu próprio
após perceber a ilusão do presságio
de nascença.
Em breve farei uma tatuagem
encobrindo o que um dia
fora uma nuvem apática
sobre um rio turvo.
D. Quixote com sua lança
e aquele olhar de louco,
esta a tatuagem.
Mudou de tamanho com o tempo.
Mas tenho a lembrança dele
desde que abri os olhos
no berçário.
E ao abrir o olho direito
surpreendi uma enfermeira
lavando esse sinal com éter e iodo.
Parece uma sombra de uma nuvem
sobre a água parada de um rio triste.
Quem não tentaria apagar tal sinal.
Primeiro a enfermeira, depois a madrinha,
todas as namoradas e por último eu próprio
após perceber a ilusão do presságio
de nascença.
Em breve farei uma tatuagem
encobrindo o que um dia
fora uma nuvem apática
sobre um rio turvo.
D. Quixote com sua lança
e aquele olhar de louco,
esta a tatuagem.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
topada
Ao tropeçar não olhe para trás:
calçada, pedra, graveto, chiclete,
tampinha de refrigerante,
uma baleia morta.
Continue firme e forte,
altivo e fulgurante
como se tivesse
dinheiro no bolso
e uma carta de amor
debaixo da manga.
calçada, pedra, graveto, chiclete,
tampinha de refrigerante,
uma baleia morta.
Continue firme e forte,
altivo e fulgurante
como se tivesse
dinheiro no bolso
e uma carta de amor
debaixo da manga.
domingo, 7 de agosto de 2011
êxtase
Há dias se amontoam roupas sujas
e eu só lavei as cuecas,
mas lavei-as com sabonete
e amaciante fofo.
De tão tenras e cheirosas
entraram pela janela do banheiro
duas borboletas e uma andorinha.
As borboletas (platônicas)
fecharam os olhos e viajaram no idílio
sobre o varal, enquanto a andorinha
beijou enlouquecida cada detalhe
dos fios de algodão.
e eu só lavei as cuecas,
mas lavei-as com sabonete
e amaciante fofo.
De tão tenras e cheirosas
entraram pela janela do banheiro
duas borboletas e uma andorinha.
As borboletas (platônicas)
fecharam os olhos e viajaram no idílio
sobre o varal, enquanto a andorinha
beijou enlouquecida cada detalhe
dos fios de algodão.
sábado, 6 de agosto de 2011
a densa quimera
Eu sou um rato e os ratos não amam:
copulam dentro das suas tocas
em meio a queijos e vinhos.
Diga-me o que é o amor.
Antes que eu gaste todos os centavos
e me drogue até a alma e morra debaixo da ponte.
Os ratos como eu gostam de amanhecer
com o rosto na lama e um buraco no peito.
Não me venha com suspiros
e piedade dos meus olhos fundos.
É que dentro deles não existe um rio.
Mas um mar de salina e areia cortante.
Eu que fiz a minha toca e plantei as migalhas.
Eu que elevei a solidão ao posto de destaque
entre meus objetos e os meus delírios.
Diga-me o que é o amor.
Antes que eu vista meu jeans surrado
e bata a porta com força contra minhas formiguinhas.
(elas sempre me acompanham
embora ultimamente eu tenha matado
centenas delas) .
Diga-me o que é o amor.
Sou um rato mas ouço bem.
Não julgo os pesares das borboletas
tampouco das andorinhas.
A minha selva é vasta, sombria,
mas vejo que há cores
no jardim vizinho.
Diga-me o que é o amor.
Diga-me sem apelos.
Sem fúria
e sem que imagine
sê-lo maior que outros.
Diga-me o que é o amor.
Por favor, sem palavras.
Sem versos
e sem música.
Sou um rato e como tal é muito difícil,
diria até, impossível me enganarem.
Sou um rato e tenho um faro apurado.
Sinto que você está usando aquele perfume.
Não me responsabilizo pela mordida na sua nuca.
Esqueça. Não me diga coisa alguma.
Adentre na minha toca.
Sirva-se do meu queijo
e sirva-se do meu vinho.
copulam dentro das suas tocas
em meio a queijos e vinhos.
Diga-me o que é o amor.
Antes que eu gaste todos os centavos
e me drogue até a alma e morra debaixo da ponte.
Os ratos como eu gostam de amanhecer
com o rosto na lama e um buraco no peito.
Não me venha com suspiros
e piedade dos meus olhos fundos.
É que dentro deles não existe um rio.
Mas um mar de salina e areia cortante.
Eu que fiz a minha toca e plantei as migalhas.
Eu que elevei a solidão ao posto de destaque
entre meus objetos e os meus delírios.
Diga-me o que é o amor.
Antes que eu vista meu jeans surrado
e bata a porta com força contra minhas formiguinhas.
(elas sempre me acompanham
embora ultimamente eu tenha matado
centenas delas) .
Diga-me o que é o amor.
Sou um rato mas ouço bem.
Não julgo os pesares das borboletas
tampouco das andorinhas.
A minha selva é vasta, sombria,
mas vejo que há cores
no jardim vizinho.
Diga-me o que é o amor.
Diga-me sem apelos.
Sem fúria
e sem que imagine
sê-lo maior que outros.
Diga-me o que é o amor.
Por favor, sem palavras.
Sem versos
e sem música.
Sou um rato e como tal é muito difícil,
diria até, impossível me enganarem.
Sou um rato e tenho um faro apurado.
Sinto que você está usando aquele perfume.
Não me responsabilizo pela mordida na sua nuca.
Esqueça. Não me diga coisa alguma.
Adentre na minha toca.
Sirva-se do meu queijo
e sirva-se do meu vinho.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
mimar uma mulher
Deixe-me entrar na sua casa,
conhecer sua cozinha,
sua sala, sua varanda;
por último,
no seu quarto,
deitar na sua cama
e ouvir suas músicas.
Apresente-me à sua coleção de esmaltes.
Aponte-me a sua cor preferida.
Aproveite meu ouvido tão perto
e sussurre seus versos.
Estou louco para ouvir da sua boca
os seus poemas. Não consigo
pensar noutra coisa:
você pintando as unhas
e dizendo seus versos.
Você vê estrelas?
Eu não consigo
olhar para o alto.
Seus olhos
encabulam-me.
O jeito é olhar pros seus pés
e notar que as unhas
estão azuis.
conhecer sua cozinha,
sua sala, sua varanda;
por último,
no seu quarto,
deitar na sua cama
e ouvir suas músicas.
Apresente-me à sua coleção de esmaltes.
Aponte-me a sua cor preferida.
Aproveite meu ouvido tão perto
e sussurre seus versos.
Estou louco para ouvir da sua boca
os seus poemas. Não consigo
pensar noutra coisa:
você pintando as unhas
e dizendo seus versos.
Você vê estrelas?
Eu não consigo
olhar para o alto.
Seus olhos
encabulam-me.
O jeito é olhar pros seus pés
e notar que as unhas
estão azuis.
terça-feira, 26 de julho de 2011
dançarina
Se eu tivesse de escrever um poema
que não esquecesse facilmente
não escreveria para seus olhos
nem para sua bunda:
escreveria, meu bem,
para suas panturrilhas.
Eu não olhei para os seus cabelos
quando a vi na praia nem para
os seus belíssimos seios,
eu me encantei com suas panturrilhas
e antes que eu morra escrevo meu epitáfio:
"aqui jaz um atormentado poeta
que deixou lá fora
um par de panturrilhas
para alguns patifes"
Não permita, meu bem, que eles
chupem-lhe e mordam-lhe
as panturrilhas.
As suas panturrilhas
são as minhas doces
mangas rosas.
Só eu posso mordê-las
e chupá-las igual a criança.
Eu amo suas panturrilhas
como nunca amei uma alma.
A sua alma
são as suas
panturrilhas.
que não esquecesse facilmente
não escreveria para seus olhos
nem para sua bunda:
escreveria, meu bem,
para suas panturrilhas.
Eu não olhei para os seus cabelos
quando a vi na praia nem para
os seus belíssimos seios,
eu me encantei com suas panturrilhas
e antes que eu morra escrevo meu epitáfio:
"aqui jaz um atormentado poeta
que deixou lá fora
um par de panturrilhas
para alguns patifes"
Não permita, meu bem, que eles
chupem-lhe e mordam-lhe
as panturrilhas.
As suas panturrilhas
são as minhas doces
mangas rosas.
Só eu posso mordê-las
e chupá-las igual a criança.
Eu amo suas panturrilhas
como nunca amei uma alma.
A sua alma
são as suas
panturrilhas.
sábado, 23 de julho de 2011
rave
Fiz a barba e rezei um pai nosso
pois se aproxima o mês de agosto:
é por demais temerário o poeta
dormir e acordar de barba longa
e coração exposto.
A ventania já levou as portas
(trancas, trincos, ferrolhos)
só há como porto seguro
a sua toca atravessando a ponte
depois da margem esquerda
debaixo do último arco-íris.
Digam adeus ao poeta
apesar da estação vazia
e do trem que nunca chega.
Mas olhem lá, fumaça!
Ouçam o apito!
Embarquem logo esse louco
ajudem-no com suas malas,
cuias, alforjes, trouxas
e mochilas.
Vejam que lindo o bardo
sentado em cima do vagão
a tocar ora sua flauta doce,
ora a gaita de bob dylan.
Digam adeus ao poeta
e deem-lhe as costas
e não olhem
para o céu.
(só vejo pássaros
e nuvens perdidas)
pois se aproxima o mês de agosto:
é por demais temerário o poeta
dormir e acordar de barba longa
e coração exposto.
A ventania já levou as portas
(trancas, trincos, ferrolhos)
só há como porto seguro
a sua toca atravessando a ponte
depois da margem esquerda
debaixo do último arco-íris.
Digam adeus ao poeta
apesar da estação vazia
e do trem que nunca chega.
Mas olhem lá, fumaça!
Ouçam o apito!
Embarquem logo esse louco
ajudem-no com suas malas,
cuias, alforjes, trouxas
e mochilas.
Vejam que lindo o bardo
sentado em cima do vagão
a tocar ora sua flauta doce,
ora a gaita de bob dylan.
Digam adeus ao poeta
e deem-lhe as costas
e não olhem
para o céu.
(só vejo pássaros
e nuvens perdidas)
sábado, 16 de julho de 2011
espantalho
Os meus livros fugiram
um a um enquanto
eu escrevia versos
acompanhado
das paredes.
Pode ser que amanhã
em breve suspiro
eles me ouçam
feito cães de caça
que ouvem o apito
do seu dono.
Deixarei a porta do quarto entreaberta
e apontarei com o olhar sério
que subam na estante
cada um ao seu degrau
de importância
e de loucura.
Decerto não retornarão os meus livros.
Eles são pródigos e bem mais orgulhosos.
De cabelo branco
e muito desejo na alma,
deixo-os em paz
ou em fúria
nas mãos
de outros.
um a um enquanto
eu escrevia versos
acompanhado
das paredes.
Pode ser que amanhã
em breve suspiro
eles me ouçam
feito cães de caça
que ouvem o apito
do seu dono.
Deixarei a porta do quarto entreaberta
e apontarei com o olhar sério
que subam na estante
cada um ao seu degrau
de importância
e de loucura.
Decerto não retornarão os meus livros.
Eles são pródigos e bem mais orgulhosos.
De cabelo branco
e muito desejo na alma,
deixo-os em paz
ou em fúria
nas mãos
de outros.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
um moço estranho
Assim que nasci secou o leite materno.
A única alternativa foi mamar em uma golfinha.
Levaram-me a uma ilha deserta
e apresentaram-me à senhora golfinha.
Ela vivia sorrindo e além de me oferecer o deleite
do seu leite sabor de cavalo-marinho e ostras
também me ensinou a passar horas
no fundo do mar sentado sobre corais
pensando na vida e escrevendo versos.
Devo minha vida (a minha vida de louco)
a essa senhora golfinha que um dia
sussurrou aos meus ouvidos "vai, poeta
tudo que um náufrago precisa
tu já sabes"
Levantei-me da minha poltrona de corais
e beijei os amigos que fiz no fundo do mar.
A única alternativa foi mamar em uma golfinha.
Levaram-me a uma ilha deserta
e apresentaram-me à senhora golfinha.
Ela vivia sorrindo e além de me oferecer o deleite
do seu leite sabor de cavalo-marinho e ostras
também me ensinou a passar horas
no fundo do mar sentado sobre corais
pensando na vida e escrevendo versos.
Devo minha vida (a minha vida de louco)
a essa senhora golfinha que um dia
sussurrou aos meus ouvidos "vai, poeta
tudo que um náufrago precisa
tu já sabes"
Levantei-me da minha poltrona de corais
e beijei os amigos que fiz no fundo do mar.
domingo, 10 de julho de 2011
a essência do afeto
Fiz um samba
ontem de madrugada
enquanto tive uma crise
e chamei as vizinhas
e foi tanto absinto
que não consigo
parar de sorrir.
Você nem imagina
o samba que fiz
ontem de madrugada
enquanto pensava
em cortar os pulsos.
Chamei todas as formiguinhas
que encontrei no quarto
e foi tanto veneno
quase morri.
ontem de madrugada
enquanto tive uma crise
e chamei as vizinhas
e foi tanto absinto
que não consigo
parar de sorrir.
Você nem imagina
o samba que fiz
ontem de madrugada
enquanto pensava
em cortar os pulsos.
Chamei todas as formiguinhas
que encontrei no quarto
e foi tanto veneno
quase morri.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
beato
Sei que sou um bom homem agora
pelo simples fato de estar escrevendo
versos melhores.
Aproveito a clareza dentro da minha alma
e digo (para teu espanto) que deus
é aquele livro de D. Quixote cujas páginas
estão marcadas pelo suor dos meus dedos.
Aliás, deus é toda a estante:
remédios na cestinha,
fotografias, estatuetas,
cds, bilhetes.
Em outro tempo fui um homem mau
porque escrevia versos ruins.
[e como eu sofria
para ver deus
em algum
objeto]
pelo simples fato de estar escrevendo
versos melhores.
Aproveito a clareza dentro da minha alma
e digo (para teu espanto) que deus
é aquele livro de D. Quixote cujas páginas
estão marcadas pelo suor dos meus dedos.
Aliás, deus é toda a estante:
remédios na cestinha,
fotografias, estatuetas,
cds, bilhetes.
Em outro tempo fui um homem mau
porque escrevia versos ruins.
[e como eu sofria
para ver deus
em algum
objeto]
fogo
Não me peças para te levar ao alto da montanha.
Existe um ponto no desfiladeiro que muitos pulam.
Alguns dizem ter ouvido deus tocando blues.
Outros que foi uma linda luz branca
saindo do abismo.
Eu acredito em todos eles,
por isso não levo ninguém comigo.
Não é da minha natureza passar toda uma vida
crucificado e atormentado pela loucura do próximo.
Fica na praça.
É um lugar tranquilo.
As crianças espantando pombos.
As velhinhas simpáticas.
As madames com seus
cachorrinhos poodles.
(não me segures pelo braço,
não tentes ir dentro do bolso
do meu bermudão)
Caso naquele temido ponto do desfiladeiro
eu ouça deus tocando blues ou veja
uma luz radiante,
eu pulo
e te mando notícia
em breve.
Existe um ponto no desfiladeiro que muitos pulam.
Alguns dizem ter ouvido deus tocando blues.
Outros que foi uma linda luz branca
saindo do abismo.
Eu acredito em todos eles,
por isso não levo ninguém comigo.
Não é da minha natureza passar toda uma vida
crucificado e atormentado pela loucura do próximo.
Fica na praça.
É um lugar tranquilo.
As crianças espantando pombos.
As velhinhas simpáticas.
As madames com seus
cachorrinhos poodles.
(não me segures pelo braço,
não tentes ir dentro do bolso
do meu bermudão)
Caso naquele temido ponto do desfiladeiro
eu ouça deus tocando blues ou veja
uma luz radiante,
eu pulo
e te mando notícia
em breve.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
saliva acre
Se vomitasse o céu e todas as suas gaivotas
entenderia esse desejo mórbido que tenho
pelas coisas no fundo do guarda-roupa,
debaixo da cama, dentro das paredes.
Cafezinho, cocaína, vinho,
livros, versos, solidão, fúria:
tudo é a mesma dor
sem diferença.
A minha tristeza
não se modifica.
O céu não vomito.
E as gaivotas voam alto.
entenderia esse desejo mórbido que tenho
pelas coisas no fundo do guarda-roupa,
debaixo da cama, dentro das paredes.
Cafezinho, cocaína, vinho,
livros, versos, solidão, fúria:
tudo é a mesma dor
sem diferença.
A minha tristeza
não se modifica.
O céu não vomito.
E as gaivotas voam alto.
Assinar:
Comentários (Atom)