sábado, 26 de outubro de 2013

acórdão

Em alguns momentos são os títulos dos poemas
a couraça e o alívio da longa batalha de todo vício.

Na maioria das vezes, entretanto,
o título é para mim uma mania
de abrir e fechar a porta

apenas para sentir próximo
o vento do que foi escrito.

O que é o título de um poema
senão um pedaço do braço
do corpo que se afoga?

Quando o meu coração parar
aperto em volta do pulso
um relógio.

Por enquanto não me atraso
aos meus compromissos
fantasiosos.


falanges

Passei um longo tempo sentado no sofá
procurando entre os galhos das oiticicas

o passarinho que lambia o bico
e tocava violino com um graveto.

Custou-me encontrá-lo
camuflado mas saltitante.

Não me pergunte, baby, nunca me pergunte
que passarinhos são esses que chegam
às oiticicas da minha calçada

e tocam violino usando um graveto
em sensíveis movimentos
pelo bico.

Não gosto de me lembrar
das coisas invisíveis
e encantos.


clínica de arroubos

Combino meu bermudão
com a minha jaqueta
e ando de chinelos
pela casa.

O ferro de engomar é o sacana dos objetos:
faz piada ao lado das cortinas e ri cínico
olhando o teto.

Não existe mais a antiga xícara de café
que me defendia dos abusos dos inimigos.

Ninguém chegará aos seus pés
em delícias e cumplicidade.


wing chun

Mantenho um relacionamento íntimo
com as rosas brancas: sem exageros,
sempre cai em minhas mãos
um jarro delas

e sou eu quem lhes troca a água, aperta os dedos
contra seus espinhos, cheira as suas pétalas
até engasgar-se.

Devolvo-as ao centro da mesinha
e não me canso de olhá-las -

mesmo que tenham vindo
da festa de casamento
do meu amor.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

candura

Para um ferreiro
os calos das mãos
são sinais de amor.

Dependendo do amor do ferreiro
após encaixar as ferraduras
o cavalo passeará a trote
leve e romântico.


aboiar

Crescer para um poeta
é uma heresia, meu bem.

Desço do telhado levando dentro
do bolso do meu bermudão
só estrelas vivas.

Se não queimarem
as suas mãos -
eu cegue.

Já ouvi mil vezes a nossa música:
outra alma dança puxando meu corpo.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

a infância de d. quixote

Não estranhes se eu lançar ao chão
a minha jaqueta por onde tu pisas:

fazia essa corte às formigas
sob tempos chuvosos
no quintal de vovó.

E juro que as minhas formigas
não molhavam o esmalte
das unhas.

Chegavam enxutas as senhoritas,
e mais belas, à outra margem.



empresária de ossos

Nunca me esquecerei do dia
em que você me disse que sabia
como ninguém esconder um corpo.

Se tive medo?
Claro, pelei-me.

Ainda hoje
olho pro lado
quando você
entra na cozinha.


chef

Sou patife, baby,
mas sei preparar um bife
a alho e folhas de oiticica.

Não experimentou da minha culinária
por que não quis: naquela tarde
eu estava sozinho no quarto.

Bastaria que tivesse trazido
um pedacinho de carne
dos seus sonhos.

É lá que eu respiro
e suporto essa vida.

[Invento truques
dos seus temperos]


insinuações

Veja só a penúria do jardineiro:
pálido, dentes amarelos, costelas
aparecendo, o chapéu tão fúnebre.

Mas atente-se ao andado dele
arrastando as botas pela praça.

Ele é um rei,
majestade,
grande.

Depois de morto, querida,
posso nascer naquela alma?

E você depois de morta
será aquela linda azaleia.

Aquela, amor,
bem ao lado
da fonte.


o olhar do náufrago

Se tivesse medo
das palavras
não seria
poeta.

Se houvesse, querida, algum segredo
que me tirasse o sono - minha vida
não seria um livro aberto e gasto
de páginas gordurosas e traças.

Existem pessoas que se vestem
de lã: eu me visto de ovelhas
perdidas.


milagres e firulas

Não vale a pena assassinar um poeta.
A bala tem que ser de ouro, lírios
e orquídeas.

E quem fará tamanha alquimia
do metal um belíssimo jardim?

O mundo cuida do poeta,
não se preocupe:

há vermes e mariposas
aonde sonharmos ir.

Não gaste sua bala.
Não gaste o tempo
em apertar o gatilho.

O poeta não vale
o tiro no coração.

Nem que a medalinha
proteja o seu peito
do projétil.

mulherengo

Digo a mesma história para todas.
Não minto. Não acrescento
um ai a mais ou a menos.

Sempre a mesmíssima solidão,
a mesmíssima sinuca,
o mesmíssimo
drinque.

Só não fumo.


uma mulher doce

Perfume-se, meu bem,
sem pressa - o ritual
do encontro é eterno.

Passe pelos braços
e pernas aquele óleo.

Permita-me que eu cuido
do seu coração mais íntimo.

O que seria da alma,
meu bem, se não explodisse
em nossas artérias tanto sangue.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

sarau

Óbvio que não durmo de óculos.
Deixo-os no pufe à cabeceira  da cama.

De madrugada, estendo as mãos:
os meus bons fantasmas gostam
de me ouvir ler os meus poemas.

Não são fantasmas:
são amigos meus que gostam
de ouvir a minha voz pausadamente
e dramático dizer poemas de assombro.

Sem óculos não consigo -
vejo tudo embaçado
como se fantasmas
os meus amigos
fossem.

Engraçado, quando leio poemas
pareço com eles me ouvindo
em outro mundo.


remédios

Por um triz, baby,
escapou-me dos dedos
a minha xícara branca de leite.

Refiro-me como minha a xícara branca de leite,
mas minha mesmo foi aquela antiga de café

em que na circunferência
dois pontinhos de fissura

davam-lhe ao rosto
de pura cerâmica
um sorriso lindo
e mágico.

Não há motivo para ciúme, baby.
Embora eu receba ligações
tarde da noite.

É só uma xícara, amor,
aos cacos e distante.


a brandura de um sorriso

Tu me perguntas se sou confiável:
nem os pombos da pracinha
são confiáveis, meu bem.

Somos crianças felizes
pela casa fazendo arte.

Confiável é a dor.
Toda e qualquer dor.

E não precisamos dela,
a senhora dor, agora
em nosso encalço.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

bondade

Deixarei sobre a mesinha
um prato, um garfo, a xícara
branca de leite, a colherinha do açúcar

e o depósito azul em que comi de manhã
pão de milho - apenas para que as formigas
lembrem-se do meu rosto na hora do deleite.

Não digam depois aos meus inimigos
que eu fui um péssimo amante.


segundo andar

Novamente o sabonete da vizinha
por minhas narinas e alma adentro.

Até adivinha os momentos
em que estou à escrivaninha.

E toma banho
de porta aberta.


carta dentro de uma garrafa

Aviso aos navegantes:
com a minha morte
joguem meu corpo
do navio ainda
em curso.

Não há necessidade
de discursos, tampouco depois
venham me imaginar escrevendo
no céu junto a passarinhos e santos.

Fui um homem comum, mau e bom,
desgostoso às vezes da vida, amante
e adorador do sacrifício
que me renasce.

Não me imaginem em um lugar especial
depois da minha morte, sabe-se lá.

O tempo não terá a mesma dimensão deste tempo
caso houver tempo em outro espaço além deste.

Não se confundam
nem queiram poupar-se
de alguma mágoa orando
por minha alma - que alma?

Não publiquem nada sobre mim.
Não digam que fui isso ou aquilo.

Se eu próprio não cheguei à minha verdade
será então ilusão de vocês o que pensarem.

Joguem o meu corpo
do navio ainda em curso.

Só o que peço, e voltem
firmes para as suas vidas.


autópsia

Poemas são apenas palavras
com alguma alma para o corpo.

Não têm donos
nem são pássaros.


infinitude

Aquele exato momento
em que a folha de oiticica
cruza o seu olhar perdido
você grava a cor da folha
e até os pontinhos escuros.

Não se pode fazer
mais nada nessa vida
senão escrever poemas.


atadura

O poeta [parece-me]
pertence às nuvens,
mesmo quando
pisa forte

o próprio
calo.

Sumiu a dor,
sumiu a ferida,
sumiu a cicatriz.

Em minha volta
um sumiço só.


negligência

A minha irmã
pinta a varanda.

Esqueci as máscaras para as plantinhas
que devem estar mais verdes
e mais amarelas

do cheiro forte
da tinta óleo.

Às vezes é bom um barato.
Espero que elas me reconheçam
quando eu for cortar as minhas unhas.

É uma delícia cortar as unhas
na companhia delas: ouvem
meus pensamentos
e sorriem.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

criançona

Sempre fui um homem emotivo:
chorava quando criança se chovesse
e chorava mais ainda quando o sol batia
nas calçadas refletindo imagens nas poças.

No momento choro copiosamente
a imaginar as batatas das pernas
de uma mulher dormindo distante.


sétima vértebra

Culpa sua por estar enorme
a espinha nas minhas costas.

Sem as suas mãos
não houve outro destino
senão esse horror de espinha.

Impossível espremer espinhas das costas.
Saudade dos seus dedos e do perfume deles.

Além de espremidas as espinhas
minhas costas cheiravam a boticário.


cadeia alimentar

Nem um minuto a mais,
nem um minuto a menos.

Quando os deuses conspiram a favor
da morte de uma formiga -
é sublime.

Sobe pela parede
que lá no alto do teto
espera-te uma aranha.

O café de hoje, amiga, foi amargo.
Não tem açúcar no fundo da xícara.


coração apertado

Há poemas que eu escrevo
de tão ruins meto bala
e assovio um blues.

Sem piedade,
e ainda sobra
nos meus dedos
uma sujeira cretina.

O que me assombra
são os tantos que não morreram,
ou melhor, que eu não os assassinei
vivem por aí sem vida altivos e cínicos.


contentamento

Tiraram a casa de Ezequiel.
Ezequiel foi viver nas ruas.

Tiraram as ruas de Ezequiel.
Ezequiel foi viver nas montanhas.

Tiraram as montanhas de Ezequiel.
Ezequiel foi viver nas estrelas.

Tiraram as estrelas de Ezequiel.
Ezequiel foi viver no abismo.

Tiraram o abismo de Ezequiel.
Ezequiel perguntou a Deus
se era pessoal.


domingo, 20 de outubro de 2013

jogada cantada

Perder a tampinha do controle remoto.
Dois minutos depois, por lampejo divino,
ir direto ao esconderijo: debaixo da cama.

Isso sim, minha querida,
levanta-me a autoestima.

Nem precisei esquentar a cabeça
tomar comprimidos de depressão.


sumiço

Os cupins me surpreenderam.
Faz tempo que devoraram as portas.
E não retornaram à minha companhia.

Concluo: meus poemas
enlouquecem os cupins.

Mais que as suas pinças
fatiando madeira, livros
minhas mãos frenéticas.


culinária de ex

Gostei do patê,
baby - apimentado,
cremoso, bem forte.

Beijarei as flores
do jardim do prédio
com mais poesia e febre.

Já ouço lá embaixo
os infantis gracejos.


crisálida

Aproveito o tempo
que me oferecem
e não paro

de escrever
poemas.

Depois de morto
debaixo da terra
não será o tempo
do mesmo deleite.

E tampouco serei amante
das flores do meu túmulo.


matéria prima

Se o poeta tivesse asas
seria diabólico [ouviu?]
Diabólico.

O que adoro dos poetas
é aquela devassidão
de criança.


gentis e misteriosas

Quem mais doce
me dá bom dia
são as folhas
de oiticica.

Acordo com elas
aos pés da cama:

verdes, viçosas,
às vezes amarelas
com rasuras de velhice.

As oiticicas da minha calçada
um dia desses dormem comigo.


sábado, 19 de outubro de 2013

petúnia

Você me disse que eu fico bem de preto.
Depois fiquei imaginando como fica
você de vermelho após uma taça
de vinho.


o rosnar de uma antiga amizade

Juro que não entendi
o susto que a cafeteira
pregou-me na cozinha.

Ela sempre foi solícita, delicada,
suaves sussurros e agora
quase gritou.

Terei então cuidado em afastar-lhe
da companhia o açucareiro:
o seu eterno amor
platônico.


ilha

Dois minutos após um poema
busco uma nova camisa
dentro da gaveta.

E lá estão elas -
as palavras
de listras.


vento a favor

Dormir de janela aberta é bom:
da cama acordo com a plantação
de lírios e girassóis batendo nos cílios.

Os passarinhos já têm saído para brincar.
Só depois, por ordem dos anciãos,
caçam gravetos para o inverno.

É bom mesmo dormir de janela aberta:
o espantalho sem cabeça que existia
fincado no meu túmulo derrubei
com um sopro.

Agora me inebrio
com os girassóis
e lírios dourando
a minha vista.

Não me pergunte até quando:
o barco é menos importante
do que o mar e os peixes.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

índia

para Tania

Olha, apaguei a luz do quarto
para te escrever este poema
pois do escuro gostamos
e não temos medo -

na cabana,
águas em volta,
entidades felizes.

O que tu puseste
em meu cálice,
senhorita?

Como se agora
eu ouvisse teu coração
a festejar o dia de amanhã.

Não sei o que tu misturaste
ao meu vinho - ácido
ou lírios?

Sei que a luz do quarto apagada
mais lúcido e doce vejo em volta
os meus objetos dormindo felizes.

São todos loucos
de almas curiosas.


não cobiçarás

A cobiça, velho, é asa torta:
cruzo o fogo da montanha
quando olho outra mulher.

Só olho e belisco
com os meus cílios
pontudos de volúpia.


esquecimento

Sem tempo para o outro,
mesquinho, escrevo poemas.

Ensaco a minha pele.

Quem me vê fugindo
imagina um violão
a tiracolo.


do alto

O som de uma xícara
espatifando-se e depois

mais forte ainda a vassoura
varrendo os cacos em atrito

é de alguma coisa sobrenatural
que me assegura que estou vivo.


os antigos sábios

Querida, sabe o que a formiga
propôs ao beija-flor?

"Beija-flor, seu canalha,
ensina-me a namorar
que te ensino
a escrever
poemas..."



oráculo

Preciso de mãos firmes
não para escrever versos

mas segurar a concha do feijão
e não deixar cair um pingo do caldo
na toalha branca de renda da mesa.

Se consigo,
algumas formigas
aplaudem de pé
emocionadas.


prelúdios

Envolverei a sua alma
com meus dengos,
caprichos e dor.

E se você vier
à minha cabeceira
olharei os seus olhos

qual um roedor
olha um graveto.

Será tanta ânsia
e tanta fome,
querida -

se correr
correrei
junto.

E na cozinha
já é outro papo.


às sextas a lua é cheia

E você ainda me pergunta
se tenho medo da morte.

Não vê que valso
bem sem vestes?

Assim como estou -
nu, nu, nuzão -

o seu perfume
derruba uma pilha
de livros e responsabilidades.


o gramático

Se o poeta for mais óbvio que a metáfora
perderão a graça o passeio e o andado
trôpego.

Embora nunca tenha aprendido
o significado exato de metáfora.

Pra mim metáfora
é sacanagem discreta
das palavras entre elas.

Fazem-se de desentendidas
e gargalham às nossas costas.

Sem analogias
e comparações.


grutinha de pétalas

O seu sorriso debaixo
é o mais lindo e doce.

É tão fácil viver apaixonado
a cada dia que acordo e vejo
você sorrindo sob as cobertas.


aros de bicicleta

Hoje em dia
se um poema
toma corpo
e não finda,
apago -

como se lhe fizesse as unhas
sentado na varanda em dia
de sol e vento.

Pecado é não regressar
e pedir desculpas à flor
pelo pisão e indiferença.


o trovador desalmado

A vaidade quando lhe beija o rosto
perde o jardineiro o amor das flores.

Vaga entre bosques tristes
e os sonhos pesam-lhe
chumbo no peito.

Essa dor lhe custará a vida -
antes de algumas costelas
quebradas e suspiros.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

cúmplices

O meu filho de doze anos
já começa a descobrir
os meus segredos
[e gargalhamos]

São tantas mulheres
nessas nossas vidas
de pré-adolescentes.


caixeiro viajante de sonhos

Havia comentado sobre
o doce das minhas lágrimas.

Agora é só coletar os cílios
em um potinho de fazenda.

Na cidade grande espalhe
e diga que foi um poeta
quem mandou.

Mas cobre algum tostão.
Você precisa sobreviver.

Um vestido novo,
sapatos, um batom.


fim de linha e de novelos

Chegada a hora
de você jogar-me
fora da sua cômoda:

o vidro do porta-retrato
decerto se espatifará
em demônios
de cacos,

mas o único ferimento
que devemos levar a sério
são os cortes da garrafa de vinho.


dimensões

Não me assusto
quando o vento
derruba a porta
e o shampoo
da pia.

Permaneço encantado
a olhar os ladrilhos

desenhos abstratos
de girafas, cogumelos,
dragões e camponesas.


baú antigo

Um dia lerá os meus diários
o meu filho e dirá certamente
que seu pai tão louco e sensível
só fez da vida entrançados entre

antenas de formigas
asas de beija-flores.


na dúvida, ame

Sob a aura do nome de poeta
os meus reinos são erguidos
a lãs de ovelhas lilases
e teias de aranhas
magricelas.

Disputa leve entre elas,
ovelhas e aranhas,
a quem primeiro
chega

perto dos meus cabelos
grisalhos de amor.


lamparina

Quando a verdade vem à tona
o sol do entardecer queima
o mar com elegância -

e os golfinhos saltam
tentando alcançar
as asas do anjo
arrebol.


selo

Quem rouba e mata
cria em volta de si
uma energia tola -

porque tolos são os ladrões e assassinos
acompanhados dos seus pares

gargalham contam pilhérias
imaginando-se acima
dos céus e do mal.

Não sabem eles que são peças
da engrenagem do Moinho:

as que rangem, rangem,  enferrujando-se
até se partirem ao meio e cuspidas fora.


bolinhas de espumante

Os desejos fazem parte da luz:
são as sombras, docinho,
que dão contorno
à chama.

Para seguirmos o caminho
não nos pode escapar
das mãos o corpo.


andanças

Escrever poemas
desde o início

caiu-me qual uma luva
em mão de pirata
maneta.

Cavei tanto
dentro de mim
que ainda hoje
somem os pulsos.


romance

Entrou-me pelo ouvido uma borboleta:
eis, querida, o teu dragão
que cospe fogo
e suspira.

Que me habite agora
dentro do peito
toda a desatenção
do mundo.


batismo

As ranhuras nos braços da cadeira
do meu suor e da minha pele
é um claro sinal de amizade
que faz dela,

da cadeira branca de plástico,
uma amiga fiel e silenciosa.

Se fria é por conta do material
de que foi feita - não por distância.

E quem diria que do mundo
e das festas quisesse o destino
que a jogassem no meu escritório.

Agora a sagrada cadeira branca de plástico
sustenta meu corpo para que a alma passeie.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

maçãs de camponesas

O primeiro dia
que queimaram
as minhas artérias

lembro-me do sangue
e da cara que fez
meu coração.

Antes do verão queimar o travesseiro
e o sol deixar marcas de ferraduras
na vidraça.

E queimou ela
com suas mãos
as minhas artérias.


andor

A vizinha canta mal,
fato indiscutível.

Sobre suas coxas
ainda não tenho
uma opinião
formada.


sequestro de pirilampos

O que existe lá dentro
quando abrirem
a porta?

Só não me deixem no peito
a tristeza reinar mais do que já reina.

Sem limites,
enfadonha.


fones, música e tênis

Se uma mulher quiser
a sua presença na hora
do banho ou na cozinha
preparando alguma coisa
nunca haverá obstáculos:

ela manda prender,
soltar, matar, descobre
a sua rua, espera seu perfume.

Se ela ainda não foi até sua casa
nem lhe mandou recados irônicos -
veja um javali como é triste e calado.


cabeça a prêmio

Se você é doente por poesia
saiba que não tem cura
a melancolia -

mas não se esqueça,
já lhe disse isso antes,
que nas paredes do abismo
crescem maravilhosas orquídeas.

Não é pecado você descer
do seu trono de nuvens

e conviver atônito
entre passarinhos,
lesmas e coiotes.


água com açúcar de beija-flores

Querida, tu sabes
o que o beija-flor
sussurrou à amada?

"de onde nasceu o meu coração
fecharam a fábrica..."

terça-feira, 15 de outubro de 2013

a valsa

A morte é individual,
particular, única
para cada
pessoa -

respeitar o morto,
mesmo que doa,
é permitir-lhe
a viagem

sem fazer
parte.


jornal do dia

A poesia não me levará
para além do que não sou:

mudo de tom na presença
dos outros, nunca quando

sozinho a imagem
de todos é mais clara.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

guloseimas

Esses dias foram tantos doces
que mal sorrio as formigas
aproximam-se -

santas,
sonsas,
sensíveis.


livros antigos

Mais terrível que entrar na cova dos leões
é entrar na cova dos leões e tentar um diálogo.

Ou use a sua espada
ou ore muito por sua alma.

Se os leões ajoelharem-se
e lamberem as suas mãos:
acredite então em milagre.


santuário de nuvens

Imagina, meu bem,
que duas vezes na vida
procurei a morte: primeiro
com a faca de cortar pão e depois
com um tubo de comprimidos pesados.

Da primeira tentativa
ainda trago no pulso
nódoas brancas
dos riscos.

Da última vez fizeram
uma lavagem estomacal.

A enfermeira na despedida
confidenciou-me que eu não parava
de vomitar flores: violetas, lírios, orquídeas.


sopro

Só aguardo o dia
em que o meu coração
baterá à porta do quarto
e dirá - "hora de nós dormirmos,
meu jovem e cúmplice senhor,
para sempre..."


intimidade

Ópio e vinho
terão seus dias.

Neste instante, porém,
sou todo da escrivaninha.

Que sensual rebola
quando lhe roço
o braço.


sementes de mostarda

Não me canso de escrever poema
pelo simples fato do devaneio

atacar-me tão lúcido
quanto uma dor
de dente.

Amarro um lenço
em volta do queixo
por cima da cabeça

e ando pela casa
tropeçando.


buffet

Quando jogarem o buquê:
acalme-se, não corra, não atropele
as suas inimigas, as amigas, a parentada.

O buquê cairá
em nossa mesa.

Não se trata de ilusionismo
nem milagre de Santo Antônio:
apenas fiz um trato com a noiva.

Ou ela cumpre
ou espalho na internet
o nosso tempo de aventuras.

Em que eu era um sátiro lírico e feliz
e ela uma atriz pornô atrás de fama.

Portanto, meu docinho,
relaxe e beba seu drinque.


noviço

Ao teu lado por muito tempo
descobririas tiques e segredos
que devem permanecer únicos
às minhas formigas e às portas.

O nosso amor perderia o viço
se pendurada aos meus ombros
fosses pouco a pouco desvendando

as caretas que faço e os frêmitos
quando escrevo e me desligo.

E quão forte seria teu choque
ao perceber que o poema
nunca vai embora

sem que me beije os dedos
e passe a língua nas orelhas.


batatas de outras terras

Se aqui se colhe
o que se planta
por isso então
carrego

preso à corcunda
um balaio de sonhos.


o último suspiro das botas

Se havia um motivo aparente desconhecia.
Mas não é bom discutirmos com a voz
que vive antes do poeta dentro
do coração.

Alguns só ouvem batimento cardíaco.
Eu ouço mensagens claríssimas
ainda que tape os ouvidos
e corra pela casa
nu e louco.

Levantei-me então da cama -
lavei os olhos, escovei os dentes,
abaixei a tampa do vaso [acredite].

O sol bateu no meu rosto
sem aviso prévio apenas
por sadismo queimou
dois ou três cílios.

Continuei andando firme e forte.
Andei pelo centro, periferia, beira-mar.

Cansado voltei ao meu quarto
e larguei meus tênis debaixo
da escrivaninha.

As minhas velhas botas em estado de coma
abraçaram os tênis corados do passeio
e sugaram até a última gota de suor
do que reina lá fora.

Incrível o que ouvimos dos nossos objetos:
sim, meu bem, as minhas botas
acabaram de falecer.


domingo, 13 de outubro de 2013

sabonete cremoso

O medo te fará recuar de mim:
e recuando, recuando, recuando
do poeta acabarás caindo no abismo.

Mesmo que eu pule e estique o braço,
meus dedos nunca tocarão os cabelos

de uma mulher
assustada.


pôquer

Não descarte nenhuma possibilidade:
o trunfo não é uma carta na manga,
mas todo o baralho da imaginação.

Embaralhe as suas convicções
qual uma gueixa usa o leque.

É fatal na artéria
do pescoço.


casadinho

Não há como amansar a minha dor:
ela tem o mesmo perfume na pele de um bisão
ou dentro da caixa de sapato entre as antigas cartas.

Estável,
perene,
sã.


pintura

Vejo teus cactos tomando sol
e eu noto a ausência
de um jarrinho

no parapeito
da tua janela.

Morreu um cacto teu
ou fugiu para meu banheiro?


analogia de uma despedida

Tu sabes que um artilheiro
marcará um gol apenas
pelo jeito em que ele
encara o goleiro
baixa a cabeça
e bate na bola.

Tu também sabes
o perfume da saudade
quando um pássaro chega
à tua janela te sangra os olhos
bem fundo e parte brilhando as asas.


choro de criança

Muita felicidade
em um dia especial
faz a criança ter pesadelo.

Os antigos sabiam muito bem
como domesticar os deuses:

cautelosos entre
a euforia e o tédio
amamentavam-nos.


bilhete depois da guerra

O poema quando se comporta
feito uma porta sem mistério
o poeta amadurece.

Sem lance de asas
e túneis invisíveis.

O tempo que ganho
escrevendo poemas

é o que pagará à morte
essa atitude de desleixo.


literalmente

Na minha última saída deixei na porta da choparia
a sola do meu sapato social. Cheguei em casa
louco e sem a língua do bendito sapato.

Depois disso
venho escrevendo
com mais regularidade.

O que me faz sorrir
é o escárnio da balconista
que me vendeu o último chope.


sábado, 12 de outubro de 2013

dos extremos o vazio

O ferro de engomar
é o mais altivo dos objetos
sempre de bico para cima:

não lhe importa
se frio ou quente.

O mais triste
é uma caneta
seca de doer.


interior

Dedique uma música à sua namorada
e espere tocar no rádio tarde da noite.

Abrace os seus travesseiros
arranque-lhes as penas
e as esponjas -

se ela estava dormindo
a culpa é do vinho
em demasia.


nódulos

Um centímetro acima do moinho
o vento perde a sua majestade.

Prefiro no momento o quarto
à janela: sei do mapa
que tenho debaixo
do braço.

E os piratas com seus brincos
não engolirão a desculpa
de flores e rua.

Eles querem ouro,
baby, ouro, ouro.

Terão no meu enterro
não durante minha vida.


minhas meninas ectoplasmas

Além do que os olhos veem
existe um zigue-zague de almas
entre meus braços que ao abraçá-la
outra alma desconhecida corre e escapa.

Amor, não se preocupe -
cada alma tem o seu dono.

No meu caso que vivo em um harém
todas as almas são minhas e vestem lençóis brancos.


transparência

Você se decepcionará com os outros.
Oxalá essa tragédia ocorra,
meu doce.

Mas se esquive
da espada na sua garganta
erguida por sua própria mão.

Não suba ao cadafalso
pelas suas pernas - fuja
do carrasco de si mesma.

Se o outro é a sua imaginação,
você não é embuste da sua dor.


dislexia

Só uma única vez o coração é cínico:
segura todo o sangue e não divide
com o resto do corpo.

Nesse momento
de morte cerebral
os cupidos trabalham.

Quando recobram a memória
os apaixonados estão no altar.

Ou seria
no abismo?


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

reflexos

Mexo com o pescoço
e olho para a porta

a me certificar se ela permanece
devorada por cupins até o ventre.

Às vezes passam luzes...

Ok, meu bem, sei
que são as sombras
dos insetos da lâmpada.


estranheza

Os gatos passeavam e namoravam pelo telhado -
sob as cobertas eu imaginava lá em cima
fantasmas e contava

os dedos das mãos e dos pés
até voltar o silêncio das telhas frias.

Eu sabia que eram frias
as telhas do casarão
dos meus avós.

Nem as patas dos gatos
e os meus fantasmas
eram mais frios.


pontos nevrálgicos

A minha dor de cabeça
não aperta as têmporas
nem alucina um homem
meio tonto por natureza.

A minha dor de cabeça
na verdade não parece
que é minha a dor
ou que é minha
a cabeça.

Uma dor que suporto
sem comprimidos,
compressas,
ópio.

E a cabeça fora do lugar
encaixa-se melhor no poema.


epifania de sacis

Quando o vento bate nas portas
e as portas tremem loucas
as paredes entendem
a linguagem.

Ou tu acreditas que somente
é ventania - e as portas
e paredes são surdas?


cão de guarda

Dormindo eu sabia que dormia
e que a ideia não passava
de um sonho

mas esqueceram de avisar
a quem não dormia comigo

e fomos nós -
nevoeiro e lucidez -
ao encontro da poesia.


migalhas e orações

Pedinte o que sempre fui
pedinte de coisas da terra
de coisas dos céus e de coisas
dentro do abismo que só as orquídeas
conhecem quando chove pelas paredes.

E de pedir em demasia
sem respeito e sem aguardo
de novas e adequadas horas

parece que outra mão brota
na palma da minha
aberta.


selvagem

Dos sonhos em que caminhava
eu te deixei o vazio -

entenderás agora
o que é ser um espantalho sem cabeça
fincado no centro de uma plantação de girassóis.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

zarpando bolas de sabão

O universo agora
tem mil esferas
circulando

em volta
da cabeça
de um alfinete -

penduradas no teto do meu quarto
bastam-me as mil traças usando
vestidos cauda de peixe.


quando sátiro toca sax

Se você me pega a mão
e me diz que caminho
ao contrário da luz
do sol

que lhe doura
os cabelos negros
deixando-os áureos
com filtros de magia

e que ao caminhar
sigo em passos
tristes,

dou-lhe a mão com prazer
e passo para a sua rua
sua trilha -

eu não temo, minha querida,
que a felicidade me faça mal.


cítaras

Não é descascando batatas
que atravessarei o atlântico

nem recitando meus poemas
para marujos bêbados e cortesãs diabólicas
tampouco na cabine do capitão fumando ópio.

Deem-me apenas a pilha de louças:
os cristais, as xícaras de cerâmica
e porcelana, os bules antigos da vovó,
as frigideiras de aço, as panelas de alumínio,
os garfos, colheres de sopa e de chá, as facas.

Não se acanhem,
deem-me todo o trem
que a cada peça brilhando sobre a mesa
é um poema que abro ao meio como abriria um peixe.

E ainda tenho a vantagem
de não lavar as mãos
após o trabalho
sujo.


a gravidade da melancolia

Os cães, dizem os seus donos,
nunca esquecem quem os alimenta.
E as botas largadas debaixo da escrivaninha
haverão de esquecer os pés do lenhador de gravetos?

Receio que ao calçá-las
elas rosnem e me mordam.

Faz séculos que mofam
com os seus bicos sisudos
presos às paredes por teias.

Como me lembro da felicidade delas
mascando chicletes e pisando folhas secas
imbatíveis em calçadas douradas ou chuvosas.

Era um reino de músculos,
de passos fortes e sonhos.

Agora, ei-las -
com os seus bicos sisudos
presos às paredes por teias.


blasé

Escreva o seu discurso na hora da sua morte.
Em que todos estiverem em volta do buraco.
Tome a palavra do padre, seja breve, elegante.
Peça para que os aldeões retornem aos vilarejos.
Andem descalços pela casa, descasquem laranjas.
Leiam pros seus filhos fábulas, filosofia, ensinem
matemática e não esqueçam poesia e jardinagem.
Que namorem mais do que sonham e sejam leais.
Se o filho quer ser médico explique-lhe o que raios
é amigdalato e se o sal em excesso é um veneno
também o açúcar é uma péssima companhia desmedido.
Se a filha deseja ser sacerdotisa caminhe com ela pelas
matas e acampe três dias e três noites em volta de um rio.
Se o mais novo sonha em ser lutador profissional não gargalhe.
Mas não escreva o seu discurso antes da sua morte que traz má sorte.
Diga todas essas bobagens a quem estiver presente só na hora em que
a corda ranger as argolas de bronze do seu caixão de janelinha embaçada.
Devolva a palavra ao padre, conforte-se, embora seja cedo e nunca anoiteça.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

glândulas salivares

Por onde anda aquela toalha
e os incensos e o óleo
quando deitávamos
para não dormir...

por onde andam
os teus sinais
na virilha...



lágrimas

Aprendi a rezar quando escrevi o primeiro poema.
Deus abriu os dois olhos e piscou para mim -
"não vás tão longe, rapaz, só a chuva
não floresce o jardim..."


blues

Na infância assediava as esperanças
aqueles bichinhos verdes que chegavam
à soleira da minha porta e sempre que os via
era um encanto - atualmente assedio a árvore
da minha calçada e as formigas da minha xícara.

Uma justa troca
ou apenas uma troca humana
da inocência pela doce canalhice.


um filho de luz ou um filho de ácaros

De nada sei ausente do entardecer:
as nuvens que mudam de cor
também mudam de olhar.

E não me apavora o sabor de mundos estranhos
se a minha língua nesta hora tem o gosto de café.


baby

Se me vem esse contentamento
de chegar ao quarto e ver
sobre o sofá uma pena
sei lá de qual ave
já é sagrado
meu dia.

Pela textura,
leveza e cor

deve ser pena
de abutre ou corvo.

Os bem-te-vis
e os beija-flores
fugiram da calçada.

Creem eles
por esses dias
ando muito pesado.

Com mania
de escuridão
e embriaguez.


um bolero das antigas

Desilusão teria nesta minha fabulosa vida
se o meu coração não fosse um aprendiz:

é moço ainda,
um rapazote
atraído

por amores
descabidos.

Aproxime-se do infinito
e finde-se, amigo
passarinho.


a loucura da senhora escrivaninha

A minha escrivaninha queima de melancolia.
E a cada poema em labaredas - ela geme,
descabela, suplica "por favor, subindo
mais pelas pernas..."


o medo

Coragem não é cortar os pulsos
quando a alma deixa o corpo
e diz "tudo bem, garoto
faça-o."

Coragem e passar um longo tempo
vendo uma formiga carregar na cabeça
todo o peso da árvore nas matizes da folha.

E se a formiga me olha os olhos e me diz
"tudo bem, garoto, faça alguma coisa..."

O que faço então com a faca:
corto o pão, corto os pulsos
ou passo margarina
na bolacha?


terça-feira, 8 de outubro de 2013

das febres e dos frêmitos

Preciso de alguém que me olhe
mesmo morto, frio e sem palavras.

Olhe os meus olhos e apare
nas pontas dos dedos a lágrima da vida
que nunca tive, que nunca tive, que nunca tive.

Se houvesse magia suficiente
estaria ao teu lado dormindo.


o deserto dos gafanhotos

Por ser carne há ossos
que festejam a queda.

E a quantas tolices estarei atento
quase pronto para mais abismos.

Por alguma coisa
além da carne
e dos ossos

dá vontade
de sorrir.

E a quantas tolices estarei atento
sujeito sem um fim próximo
que não seja o tempo
do poema.

E se passa tão rápido
entre as falanges
dos dedos

cada verso
roído de fogo

tenho então por mim
que alguma eternidade
é feita logo mais adiante.


revirando papiros antiquíssimos

O desejo existe,
não é lutando
contra ele

que serás forte
e sábio -

mas conhecê-lo
e entender-lhe
a fraqueza.

A vida é uma cicatriz ilusória,
não um ferimento aberto.

Olha pela janela
e nesse minuto
de euforia

alguém que não és tu
ainda é alguém e vive.


supremos paralelos

O poema não é o de mais valioso
que o caçador traz aos ombros -
o poema é apenas a caça do dia.

Valiosos são os gravetos
em que o poeta pisa
silencioso.

E não me diga que é uma pena
os gravetos depois de pisados
virarem nuvens - assim é a vida
pra quem adora os dois mundos.


aliança fora do dedo

Quando voltar a tristeza eu te juro
que não me escondo debaixo da cama.

Receberei a tristeza
com o mesmo respeito
que agora alimento essa alegria.


os jardins do ébrio

O que nos cabe
senão o amor
a lotar a alma
até sorrirmos?

O que nos cabe
senão a doçura
a gemer o peito
até sorrirmos?

O que nos cabe
senão o silêncio
a furar o dedo
até sorrirmos?

O que nos cabe
senão a saudade
a florir o jardim

e o jardineiro
a cuidar-lhe
do sorriso?

terça-feira, 1 de outubro de 2013

deduções e carapuças

Para escrever poemas
não preciso que o céu
caia nem que o inferno
levante-se até os olhos.

Para teu governo,
não finjo na cama

nem quando as mãos
sem sentido se perdem.

A questão é chegar ao gozo
com o olhar meio bambo
e lágrima.