O vinho abre a porta do inferno
e eu um diabo manco e caolho
desço as escadas espumando
no canto da boca loucura.
Mas como pode um infortúnio
em uma alma de santo?
Vinde então cruéis carrascos
decepai minha cabeça
e lançai aos porcos.
Doravante andarei apenas com o tronco.
Lúcido e delicado com o coração vivo
na concha das mãos.
E quem beber do meu sangue
beberá da vitória do mendigo
que acordou um rei -
um rei manso
que colhe flores.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
fraqueza
Os mortos quando partem
não se refugiam no céu
nem no inferno -
prostram-se ao nosso lado,
nos nossos calcanhares,
nas nossas mãos,
na nossa nuca
e ai dos fracos que não suportam
o peso desagradável do morto
que não consegue fugir
desse vazio ridículo.
De tanto nos pesar nos ombros
e de tanto nos arrastar pelos calcanhares
e de tanto dizer palavras por nossas bocas
há momentos em que a nossa salvação é simples
como é natural um gatilho leve e uma forca perfeita.
Mas, faça-me o favor,
ser igual a um deles depois de morto
sorvendo a vida dos tolos que vivem feito fantasmas,
não,
isso não.
não se refugiam no céu
nem no inferno -
prostram-se ao nosso lado,
nos nossos calcanhares,
nas nossas mãos,
na nossa nuca
e ai dos fracos que não suportam
o peso desagradável do morto
que não consegue fugir
desse vazio ridículo.
De tanto nos pesar nos ombros
e de tanto nos arrastar pelos calcanhares
e de tanto dizer palavras por nossas bocas
há momentos em que a nossa salvação é simples
como é natural um gatilho leve e uma forca perfeita.
Mas, faça-me o favor,
ser igual a um deles depois de morto
sorvendo a vida dos tolos que vivem feito fantasmas,
não,
isso não.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
ausência
Eu não fiz amigos durante a caminhada pelo deserto
nem quando cruzei o mar pescando.
Eu não fiz amigos enquanto caçava borboletas
ou quando deixava meus barquinhos de papel
tomarem o rumo da água da chuva
pelo meio-fio.
Eu não fiz amigos no telhado olhando as estrelas
nem sequer dentro das paredes naquele tempo
em que eu procurava um tesouro.
Eu não fiz amigos no funeral das minhas formiguinhas.
E estavam todos lá - minhas botas, minha xícara
e minha flauta doce.
Eu não trouxe nenhum amigo comigo
para tomar chá nem ouvir um blues.
Continuei só no quarto
olhando pras migalhas.
Um quarto sem formiguinhas
é um quarto triste
e sujo.
nem quando cruzei o mar pescando.
Eu não fiz amigos enquanto caçava borboletas
ou quando deixava meus barquinhos de papel
tomarem o rumo da água da chuva
pelo meio-fio.
Eu não fiz amigos no telhado olhando as estrelas
nem sequer dentro das paredes naquele tempo
em que eu procurava um tesouro.
Eu não fiz amigos no funeral das minhas formiguinhas.
E estavam todos lá - minhas botas, minha xícara
e minha flauta doce.
Eu não trouxe nenhum amigo comigo
para tomar chá nem ouvir um blues.
Continuei só no quarto
olhando pras migalhas.
Um quarto sem formiguinhas
é um quarto triste
e sujo.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Drummond
Drummond, não escreverei nenhum verso em tua homenagem.
Já escrevi poemas para flores e para meu filho, mas não creio
haver necessidade de escrever versos para teus ouvidos
nem para ouvidos de outros.
Primeiro tu não me ouves, estás morto.
Depois os outros estão cansados
da minha vaidade.
Drummond, posso dizer-te secretamente
que muitas vezes andei com livros teus
debaixo do braço em praças,
bares e não me lembro
onde os perdi.
Tu ficaste em mim de propósito.
Além da estante e do velho baú.
Vê, os peixes todos te saúdam enquanto eu [um trôpego]
caminho em sentido contrário para onde teus amigos
não nos vejam e eu possa te abraçar oculto
e sentir na tua camisa o cheiro do meu avô.
Já escrevi poemas para flores e para meu filho, mas não creio
haver necessidade de escrever versos para teus ouvidos
nem para ouvidos de outros.
Primeiro tu não me ouves, estás morto.
Depois os outros estão cansados
da minha vaidade.
Drummond, posso dizer-te secretamente
que muitas vezes andei com livros teus
debaixo do braço em praças,
bares e não me lembro
onde os perdi.
Tu ficaste em mim de propósito.
Além da estante e do velho baú.
Vê, os peixes todos te saúdam enquanto eu [um trôpego]
caminho em sentido contrário para onde teus amigos
não nos vejam e eu possa te abraçar oculto
e sentir na tua camisa o cheiro do meu avô.
meditação
Da minha varanda também vejo
um rabo de cavalo na nuca
de uma mulher
que anda apressada
com sua roupa de ginástica
[na sala ao lado
a luminária oscila
sem ninguém
por perto]
mas eu não tenho medo
de fantasmas, aliás
na minha mente só vejo a mulher
com seu rabo de cavalo
correndo apressada
e balançando a cabeça
feito um cavalo comendo milho -
seriam castanhos os olhos da mulher
iguais ao mel dos olhos do cavalo?
um rabo de cavalo na nuca
de uma mulher
que anda apressada
com sua roupa de ginástica
[na sala ao lado
a luminária oscila
sem ninguém
por perto]
mas eu não tenho medo
de fantasmas, aliás
na minha mente só vejo a mulher
com seu rabo de cavalo
correndo apressada
e balançando a cabeça
feito um cavalo comendo milho -
seriam castanhos os olhos da mulher
iguais ao mel dos olhos do cavalo?
domingo, 30 de outubro de 2011
escapulário
Mal amanhece ou anoitece
eu tiro um pedaço do meu coração
e colo em um poema. No dia seguinte
a mesma coisa sem pensar duas vezes.
A minha sorte é que o coração de poeta
é igual a fígado de bêbado após um mês -
não viu nada,
não ouviu nada
e nem se lembra
da última pinga
ou do último
verso.
eu tiro um pedaço do meu coração
e colo em um poema. No dia seguinte
a mesma coisa sem pensar duas vezes.
A minha sorte é que o coração de poeta
é igual a fígado de bêbado após um mês -
não viu nada,
não ouviu nada
e nem se lembra
da última pinga
ou do último
verso.
é hora de queimar seus versos
O pingo do chuveiro
dentro do balde
emite um som
de sapo,
um sapo preguiçoso
coachando pela metade.
Embora tanto delírio
o poeta não viaja
além do poema.
Os versos têm faces ocultas
cujos disfarces podem
enlouquecer um
iluminar outro.
Que o poeta queime seus versos
sequer uma vez na vida
para sua própria
salvação.
A fumaça é outra
a tosse é de outra asfixia.
dentro do balde
emite um som
de sapo,
um sapo preguiçoso
coachando pela metade.
Embora tanto delírio
o poeta não viaja
além do poema.
Os versos têm faces ocultas
cujos disfarces podem
enlouquecer um
iluminar outro.
Que o poeta queime seus versos
sequer uma vez na vida
para sua própria
salvação.
A fumaça é outra
a tosse é de outra asfixia.
sábado, 29 de outubro de 2011
chuva
por isso nunca me cansei
nem dos versos
nem dos sonhos.
A chuva é um sinal
que mais tarde
vem vindo
arco-íris.
E todo arco-íris lava a alma
depois que a chuva
molha os cabelos
das rosas
e os bermudões
das orquídeas.
Se já adultos e velhos não vimos arco-íris algum
havemos de ter por encanto na memória
aquele desenho que fizemos
quando éramos crianças.
E se rosas e orquídeas
é papo de jardineiro tristonho
havemos de lembrar que um dia
mesmo de passagem
desejamos os canteiros da praça.
O cansaço nem por morte minha
e a fuga de mim é um absurdo.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
uma nuvem de suspiros
Eu já fui um cavaleiro fiel e dedicado
mas um dia a minha frágil
e doce mocinha
levantou-se altiva e louca,
fechou todas as portas
e sumiu do castelo.
Eu também já tive
sobre o baú antigo
uma caixinha de música
mas em uma noite fria
a minha bailarina
pulou do palco
esqueceu suas sapatilhas
desceu as escadas do prédio
e sem olhar para trás
não se despediu
do meu jardim.
Não é fácil para um cavaleiro
acostumado a batalhas
por honra e amor
acordar sem ouvir os gritos
de uma mocinha linda
apavorada com insetos
com trovões, sombras
e pios de coruja.
Terrível olhar para o baú antigo
e só ver aquelas sapatilhas
sem os pezinhos
da bailarina.
Até hoje tenho pesadelos -
se lobos comeram a mocinha do castelo
ou se peixes engoliram a minha bailarina.
Não vivo um minuto em paz,
como posso.
Um cavaleiro precisa de mocinhas sensíveis
para proteger e um ogro de uma bailarina
para vê-la girando e girando
quem sabe um dia o vento
derrube-a ao seu colo.
mas um dia a minha frágil
e doce mocinha
levantou-se altiva e louca,
fechou todas as portas
e sumiu do castelo.
Eu também já tive
sobre o baú antigo
uma caixinha de música
mas em uma noite fria
a minha bailarina
pulou do palco
esqueceu suas sapatilhas
desceu as escadas do prédio
e sem olhar para trás
não se despediu
do meu jardim.
Não é fácil para um cavaleiro
acostumado a batalhas
por honra e amor
acordar sem ouvir os gritos
de uma mocinha linda
apavorada com insetos
com trovões, sombras
e pios de coruja.
Terrível olhar para o baú antigo
e só ver aquelas sapatilhas
sem os pezinhos
da bailarina.
Até hoje tenho pesadelos -
se lobos comeram a mocinha do castelo
ou se peixes engoliram a minha bailarina.
Não vivo um minuto em paz,
como posso.
Um cavaleiro precisa de mocinhas sensíveis
para proteger e um ogro de uma bailarina
para vê-la girando e girando
quem sabe um dia o vento
derrube-a ao seu colo.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
tríade
Se eu fosse o que penso
seria um céu cheio de nuvens
mudando a cada minuto
de fisionomia.
Também seria o crepúsculo
com suas cores silenciosas
às vezes tristes.
Mas o que sou
nem a mim mesmo digo
durante o tempo em que morro.
Apenas quando durmo
e tomam meu corpo
outros pensamentos,
revelo então uma ponta do céu
além deste acima do teto
e outro entardecer
que não é o mesmo
de lá fora.
Uma luz difusa entretanto
não me deixa confiar tanto
no que sou sob sonhos
pois esses pensamentos
têm a vida daqueles
quando acordo.
Graças! [grito às paredes]
dormindo ou acordado
eu não sou o morto
nem desperto.
seria um céu cheio de nuvens
mudando a cada minuto
de fisionomia.
Também seria o crepúsculo
com suas cores silenciosas
às vezes tristes.
Mas o que sou
nem a mim mesmo digo
durante o tempo em que morro.
Apenas quando durmo
e tomam meu corpo
outros pensamentos,
revelo então uma ponta do céu
além deste acima do teto
e outro entardecer
que não é o mesmo
de lá fora.
Uma luz difusa entretanto
não me deixa confiar tanto
no que sou sob sonhos
pois esses pensamentos
têm a vida daqueles
quando acordo.
Graças! [grito às paredes]
dormindo ou acordado
eu não sou o morto
nem desperto.
domingo, 23 de outubro de 2011
o náufrago
Quando a tempestade veio e derrubou-me
passei quase uma eternidade em alto mar
agarrado às minhas botas.
Os amigos que tive dos céus as gaivotas
desciam até minha boca oferecer peixes.
Os golfinhos fizeram um cerco
dia e noite ao meu lado
aos gracejos.
Os golfinhos foram tão importantes
para que eu não sucumbisse
à terrível solidão do mar.
Em certos momentos os golfinhos
e as gaivotas conversavam entre si
sobre a minha sorte
e penúria.
Não entendia muito bem o que diziam.
Era uma confusão, sei que festejavam
o milagre de não ter me afogado
mas logo se abatiam
pela minha morte
já visível dentro
dos meus olhos.
Os golfinhos para me distrair
purificavam a água do mar
nos seus pulmões
e me jogavam
no rosto.
Eu aproveitava a brincadeira
e conseguia beber uns goles.
Alguma porção havia de mágico nessa água
que vinha dos pulmões dos golfinhos:
dois minutos após o primeiro gole
olhava para o céu esperançoso
e sorrindo.
E o que dizer das adoráveis gaivotas
das mamães gaivotas que repartiam
o peixe dos seus bebês comigo.
Passei quase uma eternidade em alto mar.
Nenhum pescador me viu ninguém me salvou a alma.
Quando eu morri,
as gaivotas prometeram
nunca mais comer peixes
e os golfinhos choraram durante todo o tempo
em que as ondas arrastavam meu corpo
até a hora em que as minhas botas
largaram-se das minhas mãos.
passei quase uma eternidade em alto mar
agarrado às minhas botas.
Os amigos que tive dos céus as gaivotas
desciam até minha boca oferecer peixes.
Os golfinhos fizeram um cerco
dia e noite ao meu lado
aos gracejos.
Os golfinhos foram tão importantes
para que eu não sucumbisse
à terrível solidão do mar.
Em certos momentos os golfinhos
e as gaivotas conversavam entre si
sobre a minha sorte
e penúria.
Não entendia muito bem o que diziam.
Era uma confusão, sei que festejavam
o milagre de não ter me afogado
mas logo se abatiam
pela minha morte
já visível dentro
dos meus olhos.
Os golfinhos para me distrair
purificavam a água do mar
nos seus pulmões
e me jogavam
no rosto.
Eu aproveitava a brincadeira
e conseguia beber uns goles.
Alguma porção havia de mágico nessa água
que vinha dos pulmões dos golfinhos:
dois minutos após o primeiro gole
olhava para o céu esperançoso
e sorrindo.
E o que dizer das adoráveis gaivotas
das mamães gaivotas que repartiam
o peixe dos seus bebês comigo.
Passei quase uma eternidade em alto mar.
Nenhum pescador me viu ninguém me salvou a alma.
Quando eu morri,
as gaivotas prometeram
nunca mais comer peixes
e os golfinhos choraram durante todo o tempo
em que as ondas arrastavam meu corpo
até a hora em que as minhas botas
largaram-se das minhas mãos.
sábado, 22 de outubro de 2011
um duende apaixonado
Os teus sonhos são meus
pois todas as noites
sou eu que rego
desde cedinho
teu dia
fico à cabeceira
cantando aos teus ouvidos
entrançando meus dedos
aos teus cachos
e ao teu limiar suspiro
conheço o princípio
da felicidade
pois sou eu quem cuida
desde nosso primeiro encontro
das coisas simples da tua vida -
trocar lâmpadas,
descer a escada com o lixo
e aos sábados comprar pão.
O que seria de mim
sem a tua presença
decerto um louco
um mendigo
um falastrão
mas graças ao meu bom pai e meu deus
tu existes todos os dias de manhã
quando dou mais vida
às tuas plantinhas
até planto outras flores [escondido]
e te faço aquela surpresa
logo que o perfume
chega ao teu nariz.
O que seria da tua varanda
sem o dom das minhas mãos.
Então nunca esqueças
que os teus sonhos
são meus
desde quando teu paizinho e tua mainha
brincavam na primavera e te concebiam.
Não aceito distância.
Não aceito morte.
Jamais aceitarei viver sozinho
e dormir tarde distante do teu corpo.
O teu corpo é meu
e tu sabes que sou capaz
de enfrentar todos os brutamontes
do ufc e todas as gangues de skinhead.
O que seria de mim sem as tuas unhas e o teu esmalte
certamente um eremita de olhos vermelhos e distraído.
Então já sabes,
não fujas dos meus versos
pois cada sílada que acorda
gosta e adora
quando estás por perto
rindo ou caladinha
mas bem perto
onde possam meus cílios
tocar tua alma e fazer cócegas.
Não aceito outro encanto.
Não aceito outra vida.
Se um dia partires
parto em seguida
meu coração
em mil
tiras.
Junto tudo na mesa
e deixo para que vejam.
Para que vejam
como brilha
meu amor
ou minha
loucura.
pois todas as noites
sou eu que rego
desde cedinho
teu dia
fico à cabeceira
cantando aos teus ouvidos
entrançando meus dedos
aos teus cachos
e ao teu limiar suspiro
conheço o princípio
da felicidade
pois sou eu quem cuida
desde nosso primeiro encontro
das coisas simples da tua vida -
trocar lâmpadas,
descer a escada com o lixo
e aos sábados comprar pão.
O que seria de mim
sem a tua presença
decerto um louco
um mendigo
um falastrão
mas graças ao meu bom pai e meu deus
tu existes todos os dias de manhã
quando dou mais vida
às tuas plantinhas
até planto outras flores [escondido]
e te faço aquela surpresa
logo que o perfume
chega ao teu nariz.
O que seria da tua varanda
sem o dom das minhas mãos.
Então nunca esqueças
que os teus sonhos
são meus
desde quando teu paizinho e tua mainha
brincavam na primavera e te concebiam.
Não aceito distância.
Não aceito morte.
Jamais aceitarei viver sozinho
e dormir tarde distante do teu corpo.
O teu corpo é meu
e tu sabes que sou capaz
de enfrentar todos os brutamontes
do ufc e todas as gangues de skinhead.
O que seria de mim sem as tuas unhas e o teu esmalte
certamente um eremita de olhos vermelhos e distraído.
Então já sabes,
não fujas dos meus versos
pois cada sílada que acorda
gosta e adora
quando estás por perto
rindo ou caladinha
mas bem perto
onde possam meus cílios
tocar tua alma e fazer cócegas.
Não aceito outro encanto.
Não aceito outra vida.
Se um dia partires
parto em seguida
meu coração
em mil
tiras.
Junto tudo na mesa
e deixo para que vejam.
Para que vejam
como brilha
meu amor
ou minha
loucura.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
noiva
Amor, sabe por que não enlouqueço?
Porque eu não me canso
de olhar para as paredes
e elas não se cansam
de piscar de volta.
E assim passamos o tempo -
eu olhando-as sério
e elas rachando-se
sorridentes.
Porque eu não me canso
de olhar para as paredes
e elas não se cansam
de piscar de volta.
E assim passamos o tempo -
eu olhando-as sério
e elas rachando-se
sorridentes.
os tênis
Falta desfazer um laço
apenas um laço
para que os meus tênis sujos abram os braços
e impeçam as formiguinhas de chegarem
ao banheiro.
Quando os meus tênis sujos
estiram os braços no meio do quarto
ninguém passa.
As formiguinhas resignadas
pegam um atalho em torno
da cadeira giratória.
Algumas voltam a ser crianças
e voam agarradas às rodinhas.
apenas um laço
para que os meus tênis sujos abram os braços
e impeçam as formiguinhas de chegarem
ao banheiro.
Quando os meus tênis sujos
estiram os braços no meio do quarto
ninguém passa.
As formiguinhas resignadas
pegam um atalho em torno
da cadeira giratória.
Algumas voltam a ser crianças
e voam agarradas às rodinhas.
os pregadores de roupa
Os pregadores de roupa
ainda que soltos no varal
vivem presos à lembrança
do perfume dos panos
e foram tantos -
algodão,
elastano,
jeans.
ainda que soltos no varal
vivem presos à lembrança
do perfume dos panos
e foram tantos -
algodão,
elastano,
jeans.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
pretexto
Exceto o momento em que sento para escrever,
eu sou por completo um tolo -
nos assuntos,
nos olhares
e na voz.
Natural então que eu escreva incessante
cada dia distraído e cada noite atento
lançando meus olhos
contra as paredes
e pelas calçadas.
É nesse mundo de faz de conta
a doer o dente e curvar-se a espinha
que me depuro das tolices em minha volta.
Sei de mim e do meu fracasso
quando me levanto
e deixo de lado
a imaginação.
Cai sobre a minha cabeça uma folha seca
com o peso gigantesco de uma montanha.
eu sou por completo um tolo -
nos assuntos,
nos olhares
e na voz.
Natural então que eu escreva incessante
cada dia distraído e cada noite atento
lançando meus olhos
contra as paredes
e pelas calçadas.
É nesse mundo de faz de conta
a doer o dente e curvar-se a espinha
que me depuro das tolices em minha volta.
Sei de mim e do meu fracasso
quando me levanto
e deixo de lado
a imaginação.
Cai sobre a minha cabeça uma folha seca
com o peso gigantesco de uma montanha.
outra terra além do silêncio
Uma forca no pescoço de um gafanhoto
não faz nenhum sentido, portanto
que ele atravesse vagarosamente
com suas longas pernas
o campo de girassóis -
e que seus olhos perdidos
enxerguem outra terra
além do silêncio.
não faz nenhum sentido, portanto
que ele atravesse vagarosamente
com suas longas pernas
o campo de girassóis -
e que seus olhos perdidos
enxerguem outra terra
além do silêncio.
consolação
também não sei muito sobre poesia
eu só sei que sou um peixe
e aproveito a rede
do pescador
pra tomar um banho de sol
depois dou um pulo
de volta pro mar
também não sei o que é solidão
mas sempre que encontro meus chinelos
é como se encontrasse parte da minha alma
sei que as pessoas precisam de um abraço
o mundo todo precisa de um abraço
mãe e filha e netos
sobretudo se alguém da famíla
morre cedo e deixa saudade
na casa, nos objetos,
no telhado
é assim mesmo
sendo peixe
sem saber muito de poesia
mas tomando meu banho de sol
procurando e encontrando os chinelos perdidos
abraçando quem chora pela perda
de um filho
que vou vivendo
e hei de viver
apenas
e somente.
eu só sei que sou um peixe
e aproveito a rede
do pescador
pra tomar um banho de sol
depois dou um pulo
de volta pro mar
também não sei o que é solidão
mas sempre que encontro meus chinelos
é como se encontrasse parte da minha alma
sei que as pessoas precisam de um abraço
o mundo todo precisa de um abraço
mãe e filha e netos
sobretudo se alguém da famíla
morre cedo e deixa saudade
na casa, nos objetos,
no telhado
é assim mesmo
sendo peixe
sem saber muito de poesia
mas tomando meu banho de sol
procurando e encontrando os chinelos perdidos
abraçando quem chora pela perda
de um filho
que vou vivendo
e hei de viver
apenas
e somente.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
caboclo reflexivo
A palavra é o pensamento do poeta.
Mesmo que se negue a verdade
ou meta-se ele em mentiras.
Suspenso entre querer ser
e aquele claro segredo
do que já foi feito
desperta o poeta o seu caminho
lançando aos céus as mudas
da sua pele.
A palavra do poeta
como o seu pensamento
embora possam enlouquecê-lo
nem um nem outro
tem o poder do sangue
do seu coração, se ameno.
Mesmo que se negue a verdade
ou meta-se ele em mentiras.
Suspenso entre querer ser
e aquele claro segredo
do que já foi feito
desperta o poeta o seu caminho
lançando aos céus as mudas
da sua pele.
A palavra do poeta
como o seu pensamento
embora possam enlouquecê-lo
nem um nem outro
tem o poder do sangue
do seu coração, se ameno.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
o eremita
Nunca direi qual o caminho o louco há de seguir
nem a nuvem em qual terreno árido deve chover.
Os meus pés já me doem
as minhas mãos tremem.
O louco precisa conhecer de perto
o seu olhar fundo e o brilho oculto.
A nuvem com o tempo há de fugir
da altivez e da desordem do vento.
Não sou o escolhido para indicar ao louco
o seu tesouro escondido atrás das costelas.
Nem à nuvem mesmo a mais solitária
apontar onde dorme e sonha o oceano.
Amanhã o louco pode se cansar da sua loucura
e a nuvem simplesmente se perder da sua vista.
nem a nuvem em qual terreno árido deve chover.
Os meus pés já me doem
as minhas mãos tremem.
O louco precisa conhecer de perto
o seu olhar fundo e o brilho oculto.
A nuvem com o tempo há de fugir
da altivez e da desordem do vento.
Não sou o escolhido para indicar ao louco
o seu tesouro escondido atrás das costelas.
Nem à nuvem mesmo a mais solitária
apontar onde dorme e sonha o oceano.
Amanhã o louco pode se cansar da sua loucura
e a nuvem simplesmente se perder da sua vista.
domingo, 16 de outubro de 2011
terror
Quase o fim da minha xícara.
Decerto seria a minha morte.
Juro que meu coração também saiu pulando
junto com ela e que rezei todo o credo
em questão de segundos
enquanto o seu corpinho de porcelana
saltitava sob frêmitos pelas cerâmicas
da área de serviço.
Xícara de poeta é forte e brincalhona -
girou em torno do próprio umbigo,
deu piruetas e cambalhotas
até, enfim, inocente
pousar debaixo da pia.
Parecia um cachorrinho
pedindo afago.
E eu beijei-a como beija
um marinheiro a fotografia
da amada.
Prometi-lhe [com lágrimas
no rosto] colar sua asinha
aos meus dedos, polegar
e indicador.
Decerto seria a minha morte.
Juro que meu coração também saiu pulando
junto com ela e que rezei todo o credo
em questão de segundos
enquanto o seu corpinho de porcelana
saltitava sob frêmitos pelas cerâmicas
da área de serviço.
Xícara de poeta é forte e brincalhona -
girou em torno do próprio umbigo,
deu piruetas e cambalhotas
até, enfim, inocente
pousar debaixo da pia.
Parecia um cachorrinho
pedindo afago.
E eu beijei-a como beija
um marinheiro a fotografia
da amada.
Prometi-lhe [com lágrimas
no rosto] colar sua asinha
aos meus dedos, polegar
e indicador.
zumbi
Onde perdi meu sonho
e quando esqueci
de visitá-lo
e abrir-lhe
as janelas?
Ando exausto das ruas lá fora,
das estrelas e da lucidez
das corujas.
Não tenho lar,
minha casa é uma casa
sem largas janelas
e sem sonhos.
Tudo que vejo é um marasmo
um ranger de dentes
um suspiro fraco.
Onde, meu deus,
perdi minha vida
e quando roubei
essa alma silenciosa
e louca?
e quando esqueci
de visitá-lo
e abrir-lhe
as janelas?
Ando exausto das ruas lá fora,
das estrelas e da lucidez
das corujas.
Não tenho lar,
minha casa é uma casa
sem largas janelas
e sem sonhos.
Tudo que vejo é um marasmo
um ranger de dentes
um suspiro fraco.
Onde, meu deus,
perdi minha vida
e quando roubei
essa alma silenciosa
e louca?
sábado, 15 de outubro de 2011
do outro lado do jardim
Deve ter morrido aquela rosa lilás no canteiro perto da garagem.
Nunca mais desci a escada e tratei do seu ferimento.
Tinha ela na orelha esquerda uma mordida
de gafanhoto e outra de borboleta.
As rosas cruelmente são esquecidas
quando os poetas só têm olhos
pras suas botas.
As rosas não entendem que a etérea beleza das suas pétalas
é um insulto à ressaca do solado das botas -
tampas de cerveja
pregadas em chicletes.
Nunca mais desci a escada e tratei do seu ferimento.
Tinha ela na orelha esquerda uma mordida
de gafanhoto e outra de borboleta.
As rosas cruelmente são esquecidas
quando os poetas só têm olhos
pras suas botas.
As rosas não entendem que a etérea beleza das suas pétalas
é um insulto à ressaca do solado das botas -
tampas de cerveja
pregadas em chicletes.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
alma jovial
Sê forte, meu caro
não te deixes afundar
sob as ondas gigantescas
nem te escondas no porão.
Lá tem rato de todo tipo
certamente tu não és
um daqueles ratos
que vivem no escuro,
umidade e mau cheiro.
Abre teus olhos -
os objetos que te cercam [acredita]
têm vida própria e são cheios de graça.
Vê tua caneta que ganhaste de presente.
Presta atenção no biquinho dela -
parece soltar suspiros.
Muitas vezes cansada
por tão pouco uso.
Olha, meu amigo
uma caneta desprezada
é um demônio de saia
com ciúme.
Um dia lançará toda a tinta
sobre teus papéis e livros.
não te deixes afundar
sob as ondas gigantescas
nem te escondas no porão.
Lá tem rato de todo tipo
certamente tu não és
um daqueles ratos
que vivem no escuro,
umidade e mau cheiro.
Abre teus olhos -
os objetos que te cercam [acredita]
têm vida própria e são cheios de graça.
Vê tua caneta que ganhaste de presente.
Presta atenção no biquinho dela -
parece soltar suspiros.
Muitas vezes cansada
por tão pouco uso.
Olha, meu amigo
uma caneta desprezada
é um demônio de saia
com ciúme.
Um dia lançará toda a tinta
sobre teus papéis e livros.
o sol no meu chinelão antigo
A minha poesia é uma prosa decaída
como eu sou - torto e trôpego.
Além de viver esbarrando em cadeiras
e tropeçando nas minhas botas
meu pescoço sempre pende
pro lado sujo da parede.
A minha poesia é uma formosa dama
convalescente de um longo sarampo.
Tento, por deus, tento mesmo
beijá-la na boca mas seu rosto
defeituoso de tanta febre
causa-me medo.
Pode ser que a minha língua caia.
Qual a utilidade de um poeta sem língua?
Não quero perder por paixão alguma
a minha língua com suas extremidades
azuis e flexíveis.
Nessas horas a formosa dama
supõe indiferença da minha parte.
Aventuro-me então a ser lúcido o possível
e explicar-lhe que ela na verdade
não é uma dama nem formosa
apenas um ato voluntário
sabe-se lá de quem.
Concluo [para sua surpresa]
que tanto eu quanto ela
não somos absolutamente
o que imaginamos.
A minha língua com suas extremidades azuis e flexíveis
talvez seja de fato o único elo perdido.
como eu sou - torto e trôpego.
Além de viver esbarrando em cadeiras
e tropeçando nas minhas botas
meu pescoço sempre pende
pro lado sujo da parede.
A minha poesia é uma formosa dama
convalescente de um longo sarampo.
Tento, por deus, tento mesmo
beijá-la na boca mas seu rosto
defeituoso de tanta febre
causa-me medo.
Pode ser que a minha língua caia.
Qual a utilidade de um poeta sem língua?
Não quero perder por paixão alguma
a minha língua com suas extremidades
azuis e flexíveis.
Nessas horas a formosa dama
supõe indiferença da minha parte.
Aventuro-me então a ser lúcido o possível
e explicar-lhe que ela na verdade
não é uma dama nem formosa
apenas um ato voluntário
sabe-se lá de quem.
Concluo [para sua surpresa]
que tanto eu quanto ela
não somos absolutamente
o que imaginamos.
A minha língua com suas extremidades azuis e flexíveis
talvez seja de fato o único elo perdido.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Dom Quixote
Padre, perdoa-me
pois pequei.
Ultimamente venho seduzindo e molestando
todas as formiguinhas do quarto
todas as borboletas da pracinha
e até as ingênuas andorinhas
que chegam à varanda
eu as papo.
Padre, embora essa vida de desfrutes
idílios e sarros pareça um paraíso,
tu te enganas
pois ando melancólico,
dormindo tarde
mais solitário que um pé de meia
perdido debaixo da cama.
Padre, talvez seja minha sina
minha fortuna e meu carma
essa onda de penúria
mesmo tendo ao lado
as mais tesudinhas formigas
as mais sensuais borboletas
as mais gatas andorinhas
e não há um dia
em que eu não acorde
com uma formiguinha
mordendo meus lábios
e logo que desço à calçada
surgem como por enquanto
mil safadinhas borboletas.
Padre, nem com a lua alta
vivo em paz com minha insônia -
penso em ler um livro
ou simplesmente
olhar os furos
do teto
mas eis que entram pela janela do banheiro
duas irmãs gêmeas duas sapecas andorinhas.
Não é loucura, padre
já tardão da noite
fria madrugada
duas irmãs gêmeas
duas sapecas andorinhas.
Padre, aconselha-me
dá-me um rumo
purifica-me.
Não é mais do desejo da minha alma
seduzir e molestar formiguinhas,
borboletas e andorinhas.
Juro, padre
quero morrer seco sem escrever um verso
se eu voltar a flertar e bolinar minhas meninas.
pois pequei.
Ultimamente venho seduzindo e molestando
todas as formiguinhas do quarto
todas as borboletas da pracinha
e até as ingênuas andorinhas
que chegam à varanda
eu as papo.
Padre, embora essa vida de desfrutes
idílios e sarros pareça um paraíso,
tu te enganas
pois ando melancólico,
dormindo tarde
mais solitário que um pé de meia
perdido debaixo da cama.
Padre, talvez seja minha sina
minha fortuna e meu carma
essa onda de penúria
mesmo tendo ao lado
as mais tesudinhas formigas
as mais sensuais borboletas
as mais gatas andorinhas
e não há um dia
em que eu não acorde
com uma formiguinha
mordendo meus lábios
e logo que desço à calçada
surgem como por enquanto
mil safadinhas borboletas.
Padre, nem com a lua alta
vivo em paz com minha insônia -
penso em ler um livro
ou simplesmente
olhar os furos
do teto
mas eis que entram pela janela do banheiro
duas irmãs gêmeas duas sapecas andorinhas.
Não é loucura, padre
já tardão da noite
fria madrugada
duas irmãs gêmeas
duas sapecas andorinhas.
Padre, aconselha-me
dá-me um rumo
purifica-me.
Não é mais do desejo da minha alma
seduzir e molestar formiguinhas,
borboletas e andorinhas.
Juro, padre
quero morrer seco sem escrever um verso
se eu voltar a flertar e bolinar minhas meninas.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
ciranda
Não gosto de enlaçar o búfalo
quando o bicho está distraído
passarinhos sobre seu dorso
comendo parasitas -
gosto quando o búfalo
corre seguindo a manada
cruzando planícies e charcos.
Então é a hora - subo, aperto seu pescoço,
meto-lhe os dedos nas narinas, desabamos.
Corro o risco [e sempre acontece]
de ser pisoteado e partirem-se costelas.
Mas é prazeroso, eu e o búfalo
caídos, sujos, suados, entregues:
ele ao seu instinto natural de búfalo;
eu ao meu frenesi de peão louco.
Não gosto de balear pato
quando ele nada no lago
em círculos,
aquele ar ingênuo
beirando a santidade -
gosto quando o pato voa
atravessando céus
feito uma seta.
Então é a hora, miro seu peito,
aperto o gatilho e só vejo penas
dentro dos meus olhos.
Deleite maior é pegar o seu corpo na água
ressuscitá-lo com um canudinho de bambu.
Os patos nunca morrem quando a bala é rolha de vinho.
Há uma certa cumplicidade no oxigênio que assopro
e no seu suspiro depois do desmaio.
Não gosto de pisar formigas
quando no chão comem migalhas.
Sinto-me feliz quando elas
sobem pelas paredes
chegando ao teto.
Dou um salto de Bruce Lee
e quebro as pernas de três.
Mas todos sabem -
botas de visionário
não machucam formigas.
Ao contrário, quanto mais pisões
multiplicam-se abdome e antenas.
quando o bicho está distraído
passarinhos sobre seu dorso
comendo parasitas -
gosto quando o búfalo
corre seguindo a manada
cruzando planícies e charcos.
Então é a hora - subo, aperto seu pescoço,
meto-lhe os dedos nas narinas, desabamos.
Corro o risco [e sempre acontece]
de ser pisoteado e partirem-se costelas.
Mas é prazeroso, eu e o búfalo
caídos, sujos, suados, entregues:
ele ao seu instinto natural de búfalo;
eu ao meu frenesi de peão louco.
Não gosto de balear pato
quando ele nada no lago
em círculos,
aquele ar ingênuo
beirando a santidade -
gosto quando o pato voa
atravessando céus
feito uma seta.
Então é a hora, miro seu peito,
aperto o gatilho e só vejo penas
dentro dos meus olhos.
Deleite maior é pegar o seu corpo na água
ressuscitá-lo com um canudinho de bambu.
Os patos nunca morrem quando a bala é rolha de vinho.
Há uma certa cumplicidade no oxigênio que assopro
e no seu suspiro depois do desmaio.
Não gosto de pisar formigas
quando no chão comem migalhas.
Sinto-me feliz quando elas
sobem pelas paredes
chegando ao teto.
Dou um salto de Bruce Lee
e quebro as pernas de três.
Mas todos sabem -
botas de visionário
não machucam formigas.
Ao contrário, quanto mais pisões
multiplicam-se abdome e antenas.
domingo, 9 de outubro de 2011
proscrito
na minha aldeia o rio é transparente
pode-se banhar o coração com água limpa
na minha aldeia a caça é boa
e nas pontas das flechas
o macaco despenca
o veneno também é bom
não lhe queima o sangue
assim todos da aldeia
meninotes, anciãos
mulheres e homens
põem-se a comer a carne
sem prejuízo do caldo
na minha aldeia alegria é o batuque
em noites que o povo perde a alma
e a fúria
dançam frenéticos
como se o mundo
chegasse ao fim
na minha aldeia quando nasce o dia
ninguém sabe onde raios
meteu-se o pajé
mas quem não se lembra
das estrelas.
pode-se banhar o coração com água limpa
na minha aldeia a caça é boa
e nas pontas das flechas
o macaco despenca
o veneno também é bom
não lhe queima o sangue
assim todos da aldeia
meninotes, anciãos
mulheres e homens
põem-se a comer a carne
sem prejuízo do caldo
na minha aldeia alegria é o batuque
em noites que o povo perde a alma
e a fúria
dançam frenéticos
como se o mundo
chegasse ao fim
na minha aldeia quando nasce o dia
ninguém sabe onde raios
meteu-se o pajé
mas quem não se lembra
das estrelas.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
beatitude
Quantas vezes te roguei,
não laves minha xícara
com os teus dedos.
A minha xícara é sensível.
Acostumada somente
aos meus lábios.
Há uma verdade especial entre eles.
Os meus lábios são os responsáveis
pelas fissuras na circunferência dela.
E ela de tanto queimar-lhes a pele
modelou-me o bico a tal ponto
que aprendi assobiar.
Há uma mística relação entre eles.
A minha xícara só sossega
quando meus lábios sorvem
o último cafezinho,
aí, então, ela dorme
sobre a estante.
A minha xícara é sagrada.
Os meus lábios o que há de corpo em mim.
não laves minha xícara
com os teus dedos.
A minha xícara é sensível.
Acostumada somente
aos meus lábios.
Há uma verdade especial entre eles.
Os meus lábios são os responsáveis
pelas fissuras na circunferência dela.
E ela de tanto queimar-lhes a pele
modelou-me o bico a tal ponto
que aprendi assobiar.
Há uma mística relação entre eles.
A minha xícara só sossega
quando meus lábios sorvem
o último cafezinho,
aí, então, ela dorme
sobre a estante.
A minha xícara é sagrada.
Os meus lábios o que há de corpo em mim.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
o jardineiro
Trata bem das tuas plantinhas.
Não te esqueças de lavar as raízes.
Se de fato vais mesmo plantá-las
então muda a água do jarro.
Não as deixes afogadas
em uma água turva.
Se cultivas plantinhas
não esqueças -
troca a areia,
muda a água,
faz nelas
cafunés.
Não as deixes solitárias
de pé, em um terreno árido
ou afogadas em água lodosa.
Afaga tuas plantinhas.
Apara os cabelos delas.
Não as deixes furiosas.
Sob toda fúria há tanta tristeza.
Vai à tua varanda,
conversa com tuas plantinhas.
Não as ouves?
Precisas de uma gota de amor
dentro de cada ouvido.
Não te esqueças de lavar as raízes.
Se de fato vais mesmo plantá-las
então muda a água do jarro.
Não as deixes afogadas
em uma água turva.
Se cultivas plantinhas
não esqueças -
troca a areia,
muda a água,
faz nelas
cafunés.
Não as deixes solitárias
de pé, em um terreno árido
ou afogadas em água lodosa.
Afaga tuas plantinhas.
Apara os cabelos delas.
Não as deixes furiosas.
Sob toda fúria há tanta tristeza.
Vai à tua varanda,
conversa com tuas plantinhas.
Não as ouves?
Precisas de uma gota de amor
dentro de cada ouvido.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
lucidez
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Que o mundo permaneça alheio
e as coisas inalteradas.
Que a montanha não se mova
em minha direção e o mar
não se corte ao meio
por minha causa.
Que as estrelas nasçam e morram
sem mandarem notícias
do corredor escuro
de outras galáxias.
Que o meu bermudão não mostre seus bolsos
nem procurem nas minhas mãos moedas.
Que as minhas botas durmam
sem sonhar com as calçadas.
Que anjos não pensem em mim
nem façam da minha alma
uma aurora.
Que demônios esqueçam
o vazio da minha mente.
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Sei muito bem das emboscadas.
Da luz que finda e do grito.
Do olhar cúmplice
e da revolta.
Apartem-se do meu coração os arautos da felicidade.
Esses cães dos próprios ossos e da própria carne.
Sei do descuido, da farsa,
da longa vida que é a morte.
Que ninguém e nada prometam-me
a vida e o seu deleite em outra terra.
Que a paz dos meus chinelos
seja toda a verdade
que vejo -
sem truque,
sem medo.
conspirem a meu favor.
Que o mundo permaneça alheio
e as coisas inalteradas.
Que a montanha não se mova
em minha direção e o mar
não se corte ao meio
por minha causa.
Que as estrelas nasçam e morram
sem mandarem notícias
do corredor escuro
de outras galáxias.
Que o meu bermudão não mostre seus bolsos
nem procurem nas minhas mãos moedas.
Que as minhas botas durmam
sem sonhar com as calçadas.
Que anjos não pensem em mim
nem façam da minha alma
uma aurora.
Que demônios esqueçam
o vazio da minha mente.
Que ninguém e nada
conspirem a meu favor.
Sei muito bem das emboscadas.
Da luz que finda e do grito.
Do olhar cúmplice
e da revolta.
Apartem-se do meu coração os arautos da felicidade.
Esses cães dos próprios ossos e da própria carne.
Sei do descuido, da farsa,
da longa vida que é a morte.
Que ninguém e nada prometam-me
a vida e o seu deleite em outra terra.
Que a paz dos meus chinelos
seja toda a verdade
que vejo -
sem truque,
sem medo.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
castelos de fumaça
A casa foi construída, baby.
As portas abrem-se e fecham-se
de acordo com o humor do vento.
O teto não suporta o brilho das estrelas
e vive vazado cheio de furinhos.
O piso é uma areia movediça,
e a cada passo que se dê,
notam-se mil armadilhas
mas também é uma planície
uma vasta planície de girassóis.
Só não há janelas na casa.
Digo, há janelas, no entanto,
só o espaço aberto
sem grades e trancas.
[qualquer gatinho
pula e entra]
A casa foi construída, baby.
E é sua, traga as flores
para dentro.
As portas abrem-se e fecham-se
de acordo com o humor do vento.
O teto não suporta o brilho das estrelas
e vive vazado cheio de furinhos.
O piso é uma areia movediça,
e a cada passo que se dê,
notam-se mil armadilhas
mas também é uma planície
uma vasta planície de girassóis.
Só não há janelas na casa.
Digo, há janelas, no entanto,
só o espaço aberto
sem grades e trancas.
[qualquer gatinho
pula e entra]
A casa foi construída, baby.
E é sua, traga as flores
para dentro.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
amálgama
Antes que eu morra meus lábios ficam dormentes
uma borboleta azul entra por meu ouvido direito
e sai uma bailarina de porcelana pelo esquerdo.
Amor não é somente o mel das abelhas.
Mas os zangões com seus infortúnios
e as escravas que tecem
a pelugem da rainha.
Amor não é saudade.
É delicada ausência
que junta os pontos
da cicatriz do ferido.
Amor não é posse.
É uma fatia de pão
dividida com todas
formigas do quarto.
Antes que eu morra meus olhos explodem
e duas estrelas ocupam o lugar no rosto.
uma borboleta azul entra por meu ouvido direito
e sai uma bailarina de porcelana pelo esquerdo.
Amor não é somente o mel das abelhas.
Mas os zangões com seus infortúnios
e as escravas que tecem
a pelugem da rainha.
Amor não é saudade.
É delicada ausência
que junta os pontos
da cicatriz do ferido.
Amor não é posse.
É uma fatia de pão
dividida com todas
formigas do quarto.
Antes que eu morra meus olhos explodem
e duas estrelas ocupam o lugar no rosto.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
arroubo
Aquela noite eu parecia um doido,
os cabelos de Ezra Pound
os olhos de Baudelaire
o sorriso de Neruda
entrando em bares
e correndo nas praças
berrando versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
Aquela noite assombração alguma me vencia
nem Cérbero nem Anderson Silva,
estava mesmo um doido varrido
um anjo de porta em porta
abraçando pessoas,
cães e gatos.
Aquela noite eu era uma coisa do outro mundo,
filho de D. Quixote com Dulcineia Del Toboso.
Os óculos embaçados,
as faces vermelhas,
os lábios trincados
cuspindo versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
os cabelos de Ezra Pound
os olhos de Baudelaire
o sorriso de Neruda
entrando em bares
e correndo nas praças
berrando versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
Aquela noite assombração alguma me vencia
nem Cérbero nem Anderson Silva,
estava mesmo um doido varrido
um anjo de porta em porta
abraçando pessoas,
cães e gatos.
Aquela noite eu era uma coisa do outro mundo,
filho de D. Quixote com Dulcineia Del Toboso.
Os óculos embaçados,
as faces vermelhas,
os lábios trincados
cuspindo versos,
bebendo todas,
colhendo flores.
domingo, 25 de setembro de 2011
pausa
É um segredo,
mas te confesso:
a seiva do poeta,
embora ele envelheça,
é o brilho que seus olhos
não perdem diante das coisas.
Tudo em volta,
do lápis à camiseta,
dos tênis ao ventilador,
da calçada lá fora
às estrelas,
tudo faz seus olhos brilharem
apesar da ilusão que ele,
embora envelheça,
também não perde.
A sua oferenda
é rasgar a cada dia
uma veia do pulso
e abrir no dia seguinte
um janelão no peito.
O brilho que seus olhos não perdem,
a ilusão sempre delirante na sua alma,
na verdade, é a sua maior crença
em puro estado de graça.
O poema antes que escape da sua mão
[é um segredo, mas te confesso] anda
anda muito por muitos caminhos
que ele, embora envelheça,
não sabe.
mas te confesso:
a seiva do poeta,
embora ele envelheça,
é o brilho que seus olhos
não perdem diante das coisas.
Tudo em volta,
do lápis à camiseta,
dos tênis ao ventilador,
da calçada lá fora
às estrelas,
tudo faz seus olhos brilharem
apesar da ilusão que ele,
embora envelheça,
também não perde.
A sua oferenda
é rasgar a cada dia
uma veia do pulso
e abrir no dia seguinte
um janelão no peito.
O brilho que seus olhos não perdem,
a ilusão sempre delirante na sua alma,
na verdade, é a sua maior crença
em puro estado de graça.
O poema antes que escape da sua mão
[é um segredo, mas te confesso] anda
anda muito por muitos caminhos
que ele, embora envelheça,
não sabe.
retrato
Sinceramente duvido se haverá o dia em que
sentado na cadeira e o olhar perdido
direi: "eu vos amo,
meus netinhos."
Primeiro, se eu estiver bem velhinho
eu quero correr na calçada
e deixar o sol da manhã
queimar meus cabelos.
Digo-vos, meus prováveis netos,
quando eu estiver bem velhinho
não me venham com essa
de sentar-me na sala
cercado de gente.
Não tirem fotografias
nem me filmem sentado.
Já disse, quero estar na calçada
correndo feito um louco atrás
de uma borboleta
de três olhos.
Se possível,
acompanhado de uma jovem.
Não quero nenhuma velhinha comigo.
Nem que eu sofra ameaças dessa jovem.
Mas é uma jovem que quero ao meu lado
correndo também feito uma louca
atrás de uma borboleta
de três olhos.
Acreditai, se a morte vier assim
e me pegar bem acompanhado
passará pelo menos dois minutinhos
admirando a beleza da moça.
Tempo suficiente
para que eu fuja
pro meu quarto.
sentado na cadeira e o olhar perdido
direi: "eu vos amo,
meus netinhos."
Primeiro, se eu estiver bem velhinho
eu quero correr na calçada
e deixar o sol da manhã
queimar meus cabelos.
Digo-vos, meus prováveis netos,
quando eu estiver bem velhinho
não me venham com essa
de sentar-me na sala
cercado de gente.
Não tirem fotografias
nem me filmem sentado.
Já disse, quero estar na calçada
correndo feito um louco atrás
de uma borboleta
de três olhos.
Se possível,
acompanhado de uma jovem.
Não quero nenhuma velhinha comigo.
Nem que eu sofra ameaças dessa jovem.
Mas é uma jovem que quero ao meu lado
correndo também feito uma louca
atrás de uma borboleta
de três olhos.
Acreditai, se a morte vier assim
e me pegar bem acompanhado
passará pelo menos dois minutinhos
admirando a beleza da moça.
Tempo suficiente
para que eu fuja
pro meu quarto.
sábado, 24 de setembro de 2011
duas irmãs
Sim, há solidão alegre.
Aquela que nos estreita os laços
com nossos objetos de cada dia.
Que nos lança à plenitude
e coça nossos pés
e nos deixa livres
para nós mesmos.
Que bobagem ficar de mal da cafeteira
só por ela nos ter queimado o braço.
Que tolice insana ignorar um livro
apenas porque ele nos leva
a uma caverna escura
e fria.
Miséria é o homem que não beija
é a mulher que não beija
que se apartam da vida
sisudos, coléricos, fúteis
e acabam morrendo sufocados
por uma solidão, Deus, tão triste.
Esta é uma solidão triste.
Aquela que nos estreita os laços
com nossos objetos de cada dia.
Que nos lança à plenitude
e coça nossos pés
e nos deixa livres
para nós mesmos.
Que bobagem ficar de mal da cafeteira
só por ela nos ter queimado o braço.
Que tolice insana ignorar um livro
apenas porque ele nos leva
a uma caverna escura
e fria.
Miséria é o homem que não beija
é a mulher que não beija
que se apartam da vida
sisudos, coléricos, fúteis
e acabam morrendo sufocados
por uma solidão, Deus, tão triste.
Esta é uma solidão triste.
terapia
Escovar os dentes dançando
ou debaixo do chuveiro
ouvindo blues
é a minha terapia
valiosa e cotidiana.
Exceto quando há uma montanha
de roupa suja assobiando
e piscando os olhos.
Mudo então de terapeuta.
Ora nuzão, ora de cueca
vou à pia da área de serviço
e inicia-se um ritual entre
minhas mãos e a espuma
do omo.
No fim da sessão [às vezes
dura uma madrugada inteira]
sinto o corpo mais leve
e a alma delirante.
É o que espero de todas as sessões:
um corpo leve, uma alma delirante.
ou debaixo do chuveiro
ouvindo blues
é a minha terapia
valiosa e cotidiana.
Exceto quando há uma montanha
de roupa suja assobiando
e piscando os olhos.
Mudo então de terapeuta.
Ora nuzão, ora de cueca
vou à pia da área de serviço
e inicia-se um ritual entre
minhas mãos e a espuma
do omo.
No fim da sessão [às vezes
dura uma madrugada inteira]
sinto o corpo mais leve
e a alma delirante.
É o que espero de todas as sessões:
um corpo leve, uma alma delirante.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
seu pedro
Há cinco dias não pesco.
Juro que a minha jangada
se não estivesse com o bico enterrado
correria pro mar e me deixaria sozinho.
Conhecedor dessa sua natureza impetuosa
afundei-lhe o bico na areia e a parte detrás
amarrei aos meus cabelos.
Só se mexe se balanço o pescoço.
E se vou à cozinha preparar um cafezinho
levo-a junto cruzando o quarto e a área de serviço.
Há cinco dias não vejo meus irmãos golfinhos
nem abraço as minhas amigas baleias.
Na verdade só vou pro alto mar
pra me sentir bem acompanhado.
Conversar com as estrelas,
paquerar a lua que hoje,
grávida de quíntuplos,
suspira lembrando-me
que há cinco dias
não me vê.
Juro que a minha jangada
se não estivesse com o bico enterrado
correria pro mar e me deixaria sozinho.
Conhecedor dessa sua natureza impetuosa
afundei-lhe o bico na areia e a parte detrás
amarrei aos meus cabelos.
Só se mexe se balanço o pescoço.
E se vou à cozinha preparar um cafezinho
levo-a junto cruzando o quarto e a área de serviço.
Há cinco dias não vejo meus irmãos golfinhos
nem abraço as minhas amigas baleias.
Na verdade só vou pro alto mar
pra me sentir bem acompanhado.
Conversar com as estrelas,
paquerar a lua que hoje,
grávida de quíntuplos,
suspira lembrando-me
que há cinco dias
não me vê.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
digressão
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Vejo sombras das amantes: resquícios de unhas,
batons, sedas, chicletes.
Cuido debaixo da cama um gatinho.
Ele nunca sai, passeia, desce
até a garagem.
Vive pregado às correias
do meu chinelão antigo.
Se fosse um cachorrinho o meu gatinho
viveria mordendo meu tornozelo,
suplicando pra ir à praça
e abraçar os postes.
Mas é de um gatinho que cuido.
Míope, bigodes longos.
A última vez que ousou peregrinar pela casa
queimou-se no forno e os bigodes
entrançaram-se pelas pernas
das cadeiras.
[desastre]
Agora vive acuado debaixo da cama
pregado às correias do meu chinelão
do meu chinelão antigo.
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Quase andam as sombras das minhas amantes.
E cada uma tem uma unha diferente,
uma voz diferente, mas rebolam
do mesmo jeito mascando
o mesmo chiclete.
Vejo sombras das amantes: resquícios de unhas,
batons, sedas, chicletes.
Cuido debaixo da cama um gatinho.
Ele nunca sai, passeia, desce
até a garagem.
Vive pregado às correias
do meu chinelão antigo.
Se fosse um cachorrinho o meu gatinho
viveria mordendo meu tornozelo,
suplicando pra ir à praça
e abraçar os postes.
Mas é de um gatinho que cuido.
Míope, bigodes longos.
A última vez que ousou peregrinar pela casa
queimou-se no forno e os bigodes
entrançaram-se pelas pernas
das cadeiras.
[desastre]
Agora vive acuado debaixo da cama
pregado às correias do meu chinelão
do meu chinelão antigo.
Preciso trocar as fronhas dos meus travesseiros.
Quase andam as sombras das minhas amantes.
E cada uma tem uma unha diferente,
uma voz diferente, mas rebolam
do mesmo jeito mascando
o mesmo chiclete.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
credo
Triste quando alguém nos detesta.
Torce o nariz e franze o cenho.
Triste quando alguém nos odeia.
Muda de calçada e foge da praça.
Pensa em nos assaltar
e nos matar na esquina.
Pensa em pôr nossa fotografia
debaixo do ninho de uma coruja,
uma coruja cega e manca
em noite de lua cheia.
Aterrorizante quando alguém
planeja nossa morte.
Testa veneno em camundongos,
compra uma arma de traficante.
Suo frio só de pensar nas artimanhas diabólicas
que um estranho nutre mentalmente sonhando
com a nossa desgraça.
Triste e patético quando alguém se desvencilha
do nosso abraço e prefere pular do desfiladeiro.
É tão triste quando alguém que nunca nos viu dormindo
nem chorando nem atormentado com a própria sorte
ainda tenta nos esfolar como se esfola um bode.
Triste quando alguém não vai com a nossa cara.
E pede ao vizinho o telefone da polícia.
E pega no nosso pé.
E enche nosso saco.
É triste, meu deus
quando o santo de alguém
não bate com o nosso arcanjo.
É bem mais triste, confesso,
quando esse alguém consegue
incutir em nossa alma tal tristeza.
Ou essa vingança,
uma vontade inebriante
de roubar da mão
do carrasco
a lâmina.
É triste ver a cabeça do nosso inimigo
rolando escadaria abaixo com os olhos abertos.
São Jorge me proteja
e São Benedito me prepare
um cafezinho quente
na sua choupana.
Torce o nariz e franze o cenho.
Triste quando alguém nos odeia.
Muda de calçada e foge da praça.
Pensa em nos assaltar
e nos matar na esquina.
Pensa em pôr nossa fotografia
debaixo do ninho de uma coruja,
uma coruja cega e manca
em noite de lua cheia.
Aterrorizante quando alguém
planeja nossa morte.
Testa veneno em camundongos,
compra uma arma de traficante.
Suo frio só de pensar nas artimanhas diabólicas
que um estranho nutre mentalmente sonhando
com a nossa desgraça.
Triste e patético quando alguém se desvencilha
do nosso abraço e prefere pular do desfiladeiro.
É tão triste quando alguém que nunca nos viu dormindo
nem chorando nem atormentado com a própria sorte
ainda tenta nos esfolar como se esfola um bode.
Triste quando alguém não vai com a nossa cara.
E pede ao vizinho o telefone da polícia.
E pega no nosso pé.
E enche nosso saco.
É triste, meu deus
quando o santo de alguém
não bate com o nosso arcanjo.
É bem mais triste, confesso,
quando esse alguém consegue
incutir em nossa alma tal tristeza.
Ou essa vingança,
uma vontade inebriante
de roubar da mão
do carrasco
a lâmina.
É triste ver a cabeça do nosso inimigo
rolando escadaria abaixo com os olhos abertos.
São Jorge me proteja
e São Benedito me prepare
um cafezinho quente
na sua choupana.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
o sono do velho urso
Tiro os chinelos e dois segundos
antes que meu corpo desabe
penso em escrever
um verso.
Sei que não será um verso somente.
Sempre vem um trem atrás de uma montanha.
Se escrevesse um verso não bastaria para o mar
que tem nas suas águas profundas mil corais
e outros mil peixinhos dourados.
Um verso não bastaria.
Um pai nosso não bastaria.
As mãos postas e os dedos cruzados
seria patético para quem olha
a imensidão do teto
e além dele.
As estrelas furam o teto do quarto.
Um verso não bastaria nem o trincar de lábios.
Basta-me um suspiro,
um suspiro alto.
Desses que engolem um mar inteiro
e todos os seus mil corais e mais
outros mil peixinhos dourados.
antes que meu corpo desabe
penso em escrever
um verso.
Sei que não será um verso somente.
Sempre vem um trem atrás de uma montanha.
Se escrevesse um verso não bastaria para o mar
que tem nas suas águas profundas mil corais
e outros mil peixinhos dourados.
Um verso não bastaria.
Um pai nosso não bastaria.
As mãos postas e os dedos cruzados
seria patético para quem olha
a imensidão do teto
e além dele.
As estrelas furam o teto do quarto.
Um verso não bastaria nem o trincar de lábios.
Basta-me um suspiro,
um suspiro alto.
Desses que engolem um mar inteiro
e todos os seus mil corais e mais
outros mil peixinhos dourados.
o beijo
Fui testemunha da maravilha
que é um beijo demorado
entre um casal de sapos.
Eu vi com estes olhos [que a terra
há de oferecer às minhocas]
a suntuosidade e sutileza das línguas
do moço sapo e da senhorita sapa.
Eu vi com estes olhos [que o mar
há de oferecer aos moluscos]
a sensualidade das pontas
em leves gracejos e toques.
Não há mortal [gente
ou bicho] que beije
semelhante aos dois
anfíbios.
Fui testemunha de cada intervalo mágico
em que as línguas tremiam, suspiravam,
tomavam fôlego e retornavam
só as pontas para que depois
por inteiras sumissem as línguas
dentro daquelas bocas.
Eu vi com estes olhos [que o vento
há de oferecer às calçadas]
o casal estremecido,
as jugulares pulsando,
as glândulas ruborizadas.
Não tem gente ou bicho ou entidade
que beije tal qual o casal de sapos.
É um beijo longo e molhado,
tenro, doce, frenético
e ardente.
Eu vi,
eu juro que vi.
Com estes olhos
que a mim pertencem
por obra e divina graça
nunca cabendo posse deles
às minhocas nem aos moluscos
tampouco às calçadas em noites frias.
que é um beijo demorado
entre um casal de sapos.
Eu vi com estes olhos [que a terra
há de oferecer às minhocas]
a suntuosidade e sutileza das línguas
do moço sapo e da senhorita sapa.
Eu vi com estes olhos [que o mar
há de oferecer aos moluscos]
a sensualidade das pontas
em leves gracejos e toques.
Não há mortal [gente
ou bicho] que beije
semelhante aos dois
anfíbios.
Fui testemunha de cada intervalo mágico
em que as línguas tremiam, suspiravam,
tomavam fôlego e retornavam
só as pontas para que depois
por inteiras sumissem as línguas
dentro daquelas bocas.
Eu vi com estes olhos [que o vento
há de oferecer às calçadas]
o casal estremecido,
as jugulares pulsando,
as glândulas ruborizadas.
Não tem gente ou bicho ou entidade
que beije tal qual o casal de sapos.
É um beijo longo e molhado,
tenro, doce, frenético
e ardente.
Eu vi,
eu juro que vi.
Com estes olhos
que a mim pertencem
por obra e divina graça
nunca cabendo posse deles
às minhocas nem aos moluscos
tampouco às calçadas em noites frias.
domingo, 18 de setembro de 2011
orquídea de fogo
Quando pensamos em alguém
e nos ferimos, cortando a unha
ou mordendo a bochecha
ou quebrando uma taça
decerto essa pessoa
não é merecedora
do nosso devaneio.
Sonhemos então com passarinhos.
Ou tartaruguinhas ou formiguinhas.
Embora no íntimo saibamos
que a dor da unha partida
ou da bochecha sangrando
ou da taça espatifada
em nossas mãos
é o motivo da loucura
do amor extremo
por tal criatura.
e nos ferimos, cortando a unha
ou mordendo a bochecha
ou quebrando uma taça
decerto essa pessoa
não é merecedora
do nosso devaneio.
Sonhemos então com passarinhos.
Ou tartaruguinhas ou formiguinhas.
Embora no íntimo saibamos
que a dor da unha partida
ou da bochecha sangrando
ou da taça espatifada
em nossas mãos
é o motivo da loucura
do amor extremo
por tal criatura.
alvorada
De que adianta sumir por um dia -
a vida pela sua própria natureza
é uma exímia caçadora
e antes que eu sorria
ela me atinge
na barriga.
Para um toureiro é trágico
dormir com um curativo
atando as tripas.
Chora feito um desesperado quando se deita
e chora ainda mais quando se abaixa
pra pegar suas sapatilhas,
pois amanhece
e o touro na praça
já bufa e trinca os beiços.
a vida pela sua própria natureza
é uma exímia caçadora
e antes que eu sorria
ela me atinge
na barriga.
Para um toureiro é trágico
dormir com um curativo
atando as tripas.
Chora feito um desesperado quando se deita
e chora ainda mais quando se abaixa
pra pegar suas sapatilhas,
pois amanhece
e o touro na praça
já bufa e trinca os beiços.
sábado, 17 de setembro de 2011
fátuo
O poema depois de escrito
perde pra mim o brilho,
é como uma nuvem
que desaba dentro
do meu tênis sujo.
Parto pra outra vida.
E não ligo se vão comigo
meus ossos, minhas costelas,
meus olhos tristes não sei de quem.
perde pra mim o brilho,
é como uma nuvem
que desaba dentro
do meu tênis sujo.
Parto pra outra vida.
E não ligo se vão comigo
meus ossos, minhas costelas,
meus olhos tristes não sei de quem.
o velho sansão de guerra
Os meus cabelos crescem
crescem pra chuchu,
tudo pra guardar entre os cachos grisalhos
uma bolsa de couro e uma orquídea
pro seu aniversário.
crescem pra chuchu,
tudo pra guardar entre os cachos grisalhos
uma bolsa de couro e uma orquídea
pro seu aniversário.
domingo, 11 de setembro de 2011
o meu pequeno vinicius
O meu filho sempre vem ao navio
feito um belo pirata e foge
deixando dentro dos canhões
seus chinelos.
É hora de comer o chocolate
que ele esqueceu na geladeira.
Dois dias com o filho
não se pode ensinar-lhe
caçar baleias cinzentas.
Ninguém matará baleia alguma.
Só mostrarei como dormem as mamães -
barriga pra cima e cauda feliz balançando.
Agora se o pequeno quiser chamar atenção
mergulhando próximo e puxando os cílios
das mamães baleias
estarei por perto
fazendo cócegas
ora na barriguinha da baleia
ora nos pezinhos do meu pirata.
O meu filho é um pirata.
E as baleias mamães dormem
como digo, de barriga pra cima
balançando a cauda feliz.
feito um belo pirata e foge
deixando dentro dos canhões
seus chinelos.
É hora de comer o chocolate
que ele esqueceu na geladeira.
Dois dias com o filho
não se pode ensinar-lhe
caçar baleias cinzentas.
Ninguém matará baleia alguma.
Só mostrarei como dormem as mamães -
barriga pra cima e cauda feliz balançando.
Agora se o pequeno quiser chamar atenção
mergulhando próximo e puxando os cílios
das mamães baleias
estarei por perto
fazendo cócegas
ora na barriguinha da baleia
ora nos pezinhos do meu pirata.
O meu filho é um pirata.
E as baleias mamães dormem
como digo, de barriga pra cima
balançando a cauda feliz.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
as zombeteiras
A verdade é que não penso na morte.
A morte é um caso esquecido.
Já teve seus dias de fama.
As marcas rosadas da faca de cortar pão
no meu pulso é um retrato claro
do tempo em que ela
dava as cartas.
Agora só tenho duas covinhas nas bochechas.
E mesmo que eu pouco sorria são visíveis.
Essa estória de covinhas
foram certas andorinhas
que me iludiram.
Uma dizia pra outra,
"olha, coisa linda
quando o poeta sorri"
A outra completava,
"meu deus, que covinhas
delicadas e sensuais"
Para um cara solitário feito eu
que não acredita em alma gêmea
nem em metade de laranja predestinada
nem em formiga gigante de três olhos
ter diante de si
duas espetaculares
e maravilhosas andorinhas
sussurrando aos ouvidos
que tenho duas covinhas
evidente,
acabei acreditando.
E de fato tenho
duas covinhas.
Mas só quando levanto os braços
e vejo uma covinha em cada axila.
S'eu fosse uma mulher vaidosa faria cirurgia plástica.
Extraía essas covinhas das axilas e pregava no rosto.
As minhas andorinhas são umas sacanas.
Mentem pra burro e ainda se irritam
quando retruco, "são seus olhinhos
de mr. magoo".
Levantam-se da cama
e deixam o cigarro aceso .
A morte é um caso esquecido.
Já teve seus dias de fama.
As marcas rosadas da faca de cortar pão
no meu pulso é um retrato claro
do tempo em que ela
dava as cartas.
Agora só tenho duas covinhas nas bochechas.
E mesmo que eu pouco sorria são visíveis.
Essa estória de covinhas
foram certas andorinhas
que me iludiram.
Uma dizia pra outra,
"olha, coisa linda
quando o poeta sorri"
A outra completava,
"meu deus, que covinhas
delicadas e sensuais"
Para um cara solitário feito eu
que não acredita em alma gêmea
nem em metade de laranja predestinada
nem em formiga gigante de três olhos
ter diante de si
duas espetaculares
e maravilhosas andorinhas
sussurrando aos ouvidos
que tenho duas covinhas
evidente,
acabei acreditando.
E de fato tenho
duas covinhas.
Mas só quando levanto os braços
e vejo uma covinha em cada axila.
S'eu fosse uma mulher vaidosa faria cirurgia plástica.
Extraía essas covinhas das axilas e pregava no rosto.
As minhas andorinhas são umas sacanas.
Mentem pra burro e ainda se irritam
quando retruco, "são seus olhinhos
de mr. magoo".
Levantam-se da cama
e deixam o cigarro aceso .
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
cotidiano
Tenho algumas coisas sagradas comigo.
Alguns trejeitos, olhares, nuances.
Quando pego minha xícara
já ao entardecer e ponho açúcar
minhas faces mudam, há um certo júbilo.
Sinto que meu olho direito treme.
Mas treme de modo singular,
dando voltas em torno
da própria órbita.
Outro instante delicado
é quando faço a cama.
Estendo os lençóis, bato os travesseiros,
puxo a colcha aqui e acolá
e pareço sorrir.
Já ao fazer a cama quando acordo
muitas vezes não a faço.
Deixo os lençóis cansados da longa noite
espremidos entre as dobras
e os travesseiros loucos por não terem
conseguido dormir.
Se durmo bem,
meus travesseiros não dormem.
É natural,
se durmo bem
estou sempre enforcando
um ou outro em forma de abraço.
A minha vida é recheada de intervalos mágicos.
Beber café sob o crepúsculo e fazer a cama
são epifanias próprias de um solitário.
Existe, entretanto, um ato em si mesmo
mais elevado, existencial, que carrego
desde a mais tenra infância:
limpar os ouvidos.
Com o dedo mindinho.
Com o dedo indicador.
E ao cheirá-los
nunca muda o cheiro.
É um cheiro forte,
um cheiro de parto.
Alguns trejeitos, olhares, nuances.
Quando pego minha xícara
já ao entardecer e ponho açúcar
minhas faces mudam, há um certo júbilo.
Sinto que meu olho direito treme.
Mas treme de modo singular,
dando voltas em torno
da própria órbita.
Outro instante delicado
é quando faço a cama.
Estendo os lençóis, bato os travesseiros,
puxo a colcha aqui e acolá
e pareço sorrir.
Já ao fazer a cama quando acordo
muitas vezes não a faço.
Deixo os lençóis cansados da longa noite
espremidos entre as dobras
e os travesseiros loucos por não terem
conseguido dormir.
Se durmo bem,
meus travesseiros não dormem.
É natural,
se durmo bem
estou sempre enforcando
um ou outro em forma de abraço.
A minha vida é recheada de intervalos mágicos.
Beber café sob o crepúsculo e fazer a cama
são epifanias próprias de um solitário.
Existe, entretanto, um ato em si mesmo
mais elevado, existencial, que carrego
desde a mais tenra infância:
limpar os ouvidos.
Com o dedo mindinho.
Com o dedo indicador.
E ao cheirá-los
nunca muda o cheiro.
É um cheiro forte,
um cheiro de parto.
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