Espero que não cure
a tua mordida
no meu peito
que fiquem pra sempre
as marcas vermelhas
dos teus dentes
e o pouco do meu sangue
já guardei dentro
de um potinho
de mel.
Hei de abrir a tampa e cheirar enlouquecido
quando me doer mais tarde a lembrança
do teu riso.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
xícara de chá
a tarde se foi
e tudo que ela levou
um sinal do ombro
e um cravo das costas
sempre assim,
todas as tardes
ela se vai e leva
um sinal do ombro
e um cravo das costas
vou ficando limpinho
sem precisar dos seus dedos
pra tirar sinais antigos dos ombros
e espremer cravos sombrios das costas.
e tudo que ela levou
um sinal do ombro
e um cravo das costas
sempre assim,
todas as tardes
ela se vai e leva
um sinal do ombro
e um cravo das costas
vou ficando limpinho
sem precisar dos seus dedos
pra tirar sinais antigos dos ombros
e espremer cravos sombrios das costas.
passarinho coxo
fiquei louco
por sua causa
não foi droga nem religião
que me danaram o juízo
foi você, agora vejo
nítida a tragédia
do meu peito
procurando sangue pra beber
e só encontrando um poço
de lágrimas salgadas
foi você com seus fantasmas
que me enlouqueceram
não foi trabalho
nem preguiça
só agora vejo nítida
a tragédia do meu peito
cansado de chorar e não beber
uma lágrima sequer santa
e cristalina.
por sua causa
não foi droga nem religião
que me danaram o juízo
foi você, agora vejo
nítida a tragédia
do meu peito
procurando sangue pra beber
e só encontrando um poço
de lágrimas salgadas
foi você com seus fantasmas
que me enlouqueceram
não foi trabalho
nem preguiça
só agora vejo nítida
a tragédia do meu peito
cansado de chorar e não beber
uma lágrima sequer santa
e cristalina.
enjaulado
A minha dor é minha
e de mais ninguém
faço com ela
sequilhos
e queimo a porta do quarto
sorrindo dos cupins
que não foram
embora
se você arriscar-se
pular essa dor
queimará seu rosto
o seu lindo rosto
e seus cabelos.
e de mais ninguém
faço com ela
sequilhos
e queimo a porta do quarto
sorrindo dos cupins
que não foram
embora
se você arriscar-se
pular essa dor
queimará seu rosto
o seu lindo rosto
e seus cabelos.
domingo, 16 de dezembro de 2012
a ausência é um bolo cremoso
há tanta penúria
em acordar sozinho
sem alguém pra beijar
e trocar insultos em seguida
há tanto sofrimento
em acordar sozinho
sem alguém pra nos trazer café à cama
e depois tramar como jogá-la da escada
é infinito o martírio
de quem acorda sozinho
sem alguém pra fazer cócegas
e dois minutos adiante pedir
a aliança de volta
é triste, tão desumano
acordar sem alguém ao lado
pra perguntar que horas é o casamento
e procurar debaixo do travesseiro o veneno pro champanhe.
em acordar sozinho
sem alguém pra beijar
e trocar insultos em seguida
há tanto sofrimento
em acordar sozinho
sem alguém pra nos trazer café à cama
e depois tramar como jogá-la da escada
é infinito o martírio
de quem acorda sozinho
sem alguém pra fazer cócegas
e dois minutos adiante pedir
a aliança de volta
é triste, tão desumano
acordar sem alguém ao lado
pra perguntar que horas é o casamento
e procurar debaixo do travesseiro o veneno pro champanhe.
sábado, 15 de dezembro de 2012
jardim abandonado
Se eu fosse mesmo um bruxo
tiraria teu corpo da cama
vestiria tua pele
de algodão
e iria te iludir novamente
com aquele papo
de solidão
e dor.
Mas sou só um gafanhoto
aprendendo kung fu
para lutar contra
abelhas ferozes
que comem
minhas
flores.
E elas comem bonitinho
pondo ovos e mel
e mel e mais
ovos.
Até eu estou encantado
com a suposta morte
dos meus amores.
E elas comem bonitinho
pondo ovos e mel
e mel e mais
ovos.
tiraria teu corpo da cama
vestiria tua pele
de algodão
e iria te iludir novamente
com aquele papo
de solidão
e dor.
Mas sou só um gafanhoto
aprendendo kung fu
para lutar contra
abelhas ferozes
que comem
minhas
flores.
E elas comem bonitinho
pondo ovos e mel
e mel e mais
ovos.
Até eu estou encantado
com a suposta morte
dos meus amores.
E elas comem bonitinho
pondo ovos e mel
e mel e mais
ovos.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
em volta do fogo
Ponha a sua mão no meu peito
cole seu ouvido no meu peito
e ouça
esse batuque,
esse blues.
Sou um homem frágil feito
uma caixa de porcelana
de mudança.
Se os seus dedos forem alados
bata no meu peito
e tire um som.
cole seu ouvido no meu peito
e ouça
esse batuque,
esse blues.
Sou um homem frágil feito
uma caixa de porcelana
de mudança.
Se os seus dedos forem alados
bata no meu peito
e tire um som.
faixa
Acordei pra te dizer das crianças
que jogam pedras em soldados
e recebem em troca balas
de borracha outras
de verdade.
Acordei pra te mostrar as mães que arrancam os cabelos
acompanhando seus filhos sobre tábuas
mortos.
Acordei pra não ouvir os passarinhos
à minha janela com suas gaitas
hoje não quero ouvi-los
quero o pão seco
da dor
das tristes crianças
que não caçam lebres
que nunca caçaram lebres nas montanhas.
que jogam pedras em soldados
e recebem em troca balas
de borracha outras
de verdade.
Acordei pra te mostrar as mães que arrancam os cabelos
acompanhando seus filhos sobre tábuas
mortos.
Acordei pra não ouvir os passarinhos
à minha janela com suas gaitas
hoje não quero ouvi-los
quero o pão seco
da dor
das tristes crianças
que não caçam lebres
que nunca caçaram lebres nas montanhas.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
psico
Quando o poeta estiver curado
guarde-o dentro de um aquário
junto a um peixinho dourado
de boquinha miúda
e olhar bobo.
Quando o poeta estiver curado
mande-o plantar batatas
e esquecer orquídeas.
Quando o poeta estiver curado
peça-lhe de volta as asas
e dê-lhe a mão pálida
sem cor e sem veias.
guarde-o dentro de um aquário
junto a um peixinho dourado
de boquinha miúda
e olhar bobo.
Quando o poeta estiver curado
mande-o plantar batatas
e esquecer orquídeas.
Quando o poeta estiver curado
peça-lhe de volta as asas
e dê-lhe a mão pálida
sem cor e sem veias.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
um coração de pudim
Os meus olhos sempre foram uns chorões
e ultimamente a minha voz acompanha
o andado dos cílios úmidos
levados pelas lágrimas
e largados na cama.
Os meus cílios não entendem
que o lugar deles é onde
os olhos dormem
e choram.
A cama é pra doente
e pros amantes,
explico-lhes.
Não me ouvem,
enrolam-se no teu lençol
e sonham com a tua volta.
e ultimamente a minha voz acompanha
o andado dos cílios úmidos
levados pelas lágrimas
e largados na cama.
Os meus cílios não entendem
que o lugar deles é onde
os olhos dormem
e choram.
A cama é pra doente
e pros amantes,
explico-lhes.
Não me ouvem,
enrolam-se no teu lençol
e sonham com a tua volta.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
doce é o zumbido
Assopro o fogo da minha solidão
e queimo os dedos
e as unhas
caem
graveto a graveto
junto sobre os ombros
e caminho entre dor e desvelos
só mais tarde, outro dia
quem saberá das outras almas
que edifico - pele a pele e palavras.
e queimo os dedos
e as unhas
caem
graveto a graveto
junto sobre os ombros
e caminho entre dor e desvelos
só mais tarde, outro dia
quem saberá das outras almas
que edifico - pele a pele e palavras.
a idade das articulações
Faz um tempinho que perdi um parafuso do joelho
não encontro nem debaixo da cama
nem pelo caminho entre
a cozinha e a varanda
é parafuso importante
para eu dobrar bem
o joelho
apoiar todo o peso da alma
e deixar o corpo mais leve
a cada pirueta
quando ela
voltar.
Que ela regresse logo
ou encontrará um monge
de joelho bichado saindo
de dentro rãs e borboletas.
não encontro nem debaixo da cama
nem pelo caminho entre
a cozinha e a varanda
é parafuso importante
para eu dobrar bem
o joelho
apoiar todo o peso da alma
e deixar o corpo mais leve
a cada pirueta
quando ela
voltar.
Que ela regresse logo
ou encontrará um monge
de joelho bichado saindo
de dentro rãs e borboletas.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
os jacarés são seres tristes
Esqueceram de avisar a quem retorna
que o caminho não é mais deslumbrante
e as pedrinhas coloridas outrora seixos encantados
são pontiagudas e ferem de verdade os pés
e a mente.
Esqueceram de dizer aos perdidos
que para deixar de lado uma muleta
tem de existir no mínimo uma asinha
encostada atrás da porta pra gente
varrer o quarto e se der vontade
voar pra longe ou parar na esquina
com um olhar distante
e a boca triste
aberta
engolindo andorinhas felizes
que esqueceram como dobrar a rua
e caem dentro da minha boca aberta e triste.
Não gosto disso,
ouviu?
Não gosto,
não gosto.
que o caminho não é mais deslumbrante
e as pedrinhas coloridas outrora seixos encantados
são pontiagudas e ferem de verdade os pés
e a mente.
Esqueceram de dizer aos perdidos
que para deixar de lado uma muleta
tem de existir no mínimo uma asinha
encostada atrás da porta pra gente
varrer o quarto e se der vontade
voar pra longe ou parar na esquina
com um olhar distante
e a boca triste
aberta
engolindo andorinhas felizes
que esqueceram como dobrar a rua
e caem dentro da minha boca aberta e triste.
Não gosto disso,
ouviu?
Não gosto,
não gosto.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
furadinha e band-aid
Agora há pouco tiraram meu sangue pro exame
queria que você tivesse visto meu sangue
não era um sangue triste
como tantas vezes,
nem sozinho
também não tocava trombeta,
era apenas um sangue
com cor de sangue vivo
e com cor de sangue morto.
queria que você tivesse visto meu sangue
não era um sangue triste
como tantas vezes,
nem sozinho
também não tocava trombeta,
era apenas um sangue
com cor de sangue vivo
e com cor de sangue morto.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
vício
A poesia não é a minha segunda pele
nem a primeira, se fosse a poesia
minha pele [segunda ou primeira]
como explicar essa névoa
que se sente além
do corpo?
A poesia é uma capa.
A minha capa mágica.
nem a primeira, se fosse a poesia
minha pele [segunda ou primeira]
como explicar essa névoa
que se sente além
do corpo?
A poesia é uma capa.
A minha capa mágica.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
candura
Cuidado,
amor.
O limão, a bandinha de limão
dentro da geladeira usei há pouco
pra aliviar meu suor forte de sátiro.
Por favor, não vás espremer o resto
pensando em fazer pra ti um refresco.
A não ser que queiras
além de minha alma
também meu suor
e minha volúpia.
amor.
O limão, a bandinha de limão
dentro da geladeira usei há pouco
pra aliviar meu suor forte de sátiro.
Por favor, não vás espremer o resto
pensando em fazer pra ti um refresco.
A não ser que queiras
além de minha alma
também meu suor
e minha volúpia.
a modorra das segundas-feiras
Muito sonolento
pra escrever versim,
perdoa eu, meu benzim -
pega a minha mão aquela de unha machucada
e escreve por mim versos bonitim,
bonitim
que digam pro povo
que não bebo mais café
como de costume a cada minuto
pois o médico, doutor bonzim,
recomendou apenas uma xícara,
imagina, docim, só uma xícara por dia.
Tou tão sonolento,
não gosto de tá assim
mas que fazer se mesmo
molenga, maluco, molusco,
bichinho-de-seda ainda me sobra
um tiquim de vontade de escrever versim?
pra escrever versim,
perdoa eu, meu benzim -
pega a minha mão aquela de unha machucada
e escreve por mim versos bonitim,
bonitim
que digam pro povo
que não bebo mais café
como de costume a cada minuto
pois o médico, doutor bonzim,
recomendou apenas uma xícara,
imagina, docim, só uma xícara por dia.
Tou tão sonolento,
não gosto de tá assim
mas que fazer se mesmo
molenga, maluco, molusco,
bichinho-de-seda ainda me sobra
um tiquim de vontade de escrever versim?
decorando a casa
Estou juntando sementes de jerimum
pra trazer de volta aquele passarinho
tocador de blues.
Estou juntando farelos de bolacha cream cracker
pra trazer de volta aquela barata [magricela]
exímia improvisadora de jazz no trompete.
Estou juntando pedaços de madeira podre
que sobrou da janela pra trazer de volta
aqueles cupins de filarmônica
que tocavam tão bem
Bach e Mozart.
Estou juntando livros velhos,
centenas deles, pra trazer
de volta aquelas traças
que tinham na boca
fantásticos instrumentos
de percussão: dentes,
pinça, tesoura,
arpão.
Estou juntando meus chinelos antigos
para quando chegarem as lagartas-de-fogo,
as centopeias, as mariposas, as esperanças,
os gafanhotos e os louva-a-deus tenham todos
onde descansarem seus pezinhos sofridos da viagem.
pra trazer de volta aquele passarinho
tocador de blues.
Estou juntando farelos de bolacha cream cracker
pra trazer de volta aquela barata [magricela]
exímia improvisadora de jazz no trompete.
Estou juntando pedaços de madeira podre
que sobrou da janela pra trazer de volta
aqueles cupins de filarmônica
que tocavam tão bem
Bach e Mozart.
Estou juntando livros velhos,
centenas deles, pra trazer
de volta aquelas traças
que tinham na boca
fantásticos instrumentos
de percussão: dentes,
pinça, tesoura,
arpão.
Estou juntando meus chinelos antigos
para quando chegarem as lagartas-de-fogo,
as centopeias, as mariposas, as esperanças,
os gafanhotos e os louva-a-deus tenham todos
onde descansarem seus pezinhos sofridos da viagem.
domingo, 25 de novembro de 2012
boas lembranças
Sempre que eu ouço something
lembro da minha mão direita
e de tudo que ela é capaz -
colher flores no jardim do prédio,
escrever bilhetinhos e colá-los na porta da geladeira
o mais lindo te fazer cerrar os olhos e morder os lábios.
Sempre que ouço something lembro que a minha mão direita
tem vida própria e um dia trará de volta a tua lágrima
e o teu gozo junto.
Que seria de mim se tivesse nascido no islã
e roubado uma fruta, como viveria
com a mão direita decepada?
Sempre que eu ouço something
penso na delícia de ter uma mão direita assim
voluntariosa que faz andorinhas morrerem de cócegas
e as estrelas tremem as bochechas se eu aperto-as feliz.
Que seria de minha vida se fosse eu um tratador de animais
e o urso irritado da falta de mel me pegasse o braço
comesse a minha mão direita, como viveria
maneta dizendo adeus com o olhar?
sábado, 24 de novembro de 2012
apressa-te, Odisseu
Você deve pensar, lá vem ele de novo
esse bipolar de uma figa me trazer rosas
isso mesmo, estou de volta com a mão cheia
das mais frescas e perfumadas rosas que roubei agora
do jardim do prédio, jurei dez tostões ao zelador e tudo ok.
Receba de volta esse jovem senhor poeta
e essas flores que juro pela segunda vez
que são suas por merecimento
não por que me sinto
péssimo.
Você deve pensar, meu deus, que coisa mais tola
eu concordo contigo e com bob dylan
e digo sorrindo, baby, seremos jovens
eternamente.
Aceite essas rosas
antes que alguma abelha
queira resgatar o cachecol
esquecido na pétala de uma.
esse bipolar de uma figa me trazer rosas
isso mesmo, estou de volta com a mão cheia
das mais frescas e perfumadas rosas que roubei agora
do jardim do prédio, jurei dez tostões ao zelador e tudo ok.
Receba de volta esse jovem senhor poeta
e essas flores que juro pela segunda vez
que são suas por merecimento
não por que me sinto
péssimo.
Você deve pensar, meu deus, que coisa mais tola
eu concordo contigo e com bob dylan
e digo sorrindo, baby, seremos jovens
eternamente.
Aceite essas rosas
antes que alguma abelha
queira resgatar o cachecol
esquecido na pétala de uma.
dia de gato egípcio
hoje é um sábado
daqueles sábados
em que a gente mata
e morre em seguida.
Morrer é fácil, aprendi com
as tantas unhas que perderam
o equilíbrio e caíram dos meus dedos.
Agora matar é bem mais difícil.
Só mato, e sem querer,
formigas quando ando
em zigue-zague
pela praça.
Hoje é um sábado em que nem xarope na colher
lembra minha infância e me faz sentir
um sobrevivente.
Parar diminuir esse batuque de pajelança dentro do meu peito
não me há outra alternativa senão matar alguém
e morrer depois.
daqueles sábados
em que a gente mata
e morre em seguida.
Morrer é fácil, aprendi com
as tantas unhas que perderam
o equilíbrio e caíram dos meus dedos.
Agora matar é bem mais difícil.
Só mato, e sem querer,
formigas quando ando
em zigue-zague
pela praça.
Hoje é um sábado em que nem xarope na colher
lembra minha infância e me faz sentir
um sobrevivente.
Parar diminuir esse batuque de pajelança dentro do meu peito
não me há outra alternativa senão matar alguém
e morrer depois.
emotivo
Quantas professorinhas me provocaram maravilhosos sonhos
muitas delas morreram e hoje são ossinhos debaixo da terra.
Se pudesse fazer-lhes carinho passaria a mão
em seus crânios lisinhos
e deixaria cair
uma lágrima.
muitas delas morreram e hoje são ossinhos debaixo da terra.
Se pudesse fazer-lhes carinho passaria a mão
em seus crânios lisinhos
e deixaria cair
uma lágrima.
liberdade das escamas
Por que eu tenho de mostrar meu bagulho pra vocês?
Estranho e tolo o maluco que gosta da convivência
com gente normal, cínica, capaz de dar um tiro
no meu olho.
A partir de hoje então todos vocês façam o favor
de deixar meu quarto com esse riso debochado.
Não morro, meus amores, entendam:
a morte pra mim é uma companhia
que me revigora a cada minuto.
Depois que completei a maioridade
pedi pra que ela fosse a minha ama de leite.
Pergunto-lhes agora:
gostam tanto assim
do meu sangue?
Misturem no sorvete e no drinque
um pouco também do meu esperma.
Vocês terão um filho meu,
bacana, não?
Estranho e tolo o maluco que gosta da convivência
com gente normal, cínica, capaz de dar um tiro
no meu olho.
A partir de hoje então todos vocês façam o favor
de deixar meu quarto com esse riso debochado.
Não morro, meus amores, entendam:
a morte pra mim é uma companhia
que me revigora a cada minuto.
Depois que completei a maioridade
pedi pra que ela fosse a minha ama de leite.
Pergunto-lhes agora:
gostam tanto assim
do meu sangue?
Misturem no sorvete e no drinque
um pouco também do meu esperma.
Vocês terão um filho meu,
bacana, não?
máscaras da antiguidade
O meu sangue segue por outras trilhas.
Não é coisa de mocinha esse vazio.
Sou bem mais homem
com essa cara de mau,
perdido e cheio de lembranças.
Não é coisa de mocinha esse vazio.
Sou bem mais homem
com essa cara de mau,
perdido e cheio de lembranças.
pílula passageira
A minha dor dura o instante do poema.
Da mesma forma a alegria idiota.
Tirando o poema da minha vida
não valho um maço de cigarro fraco.
Da mesma forma a alegria idiota.
Tirando o poema da minha vida
não valho um maço de cigarro fraco.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
comunidade alternativa
Não devíamos pagar por nosso alimento.
Se quiséssemos uma laranja apenas andar
até o pomar, levantar o braço e pegar
a laranja. Se quiséssemos peixes
bastaria ir à beira de um rio
assobiar, estender a mão
e tilápias pulariam
fresquinhas.
Pra quem gosta de peixes de água salgada
haveria de pegar um barco até alto mar
jogar a rede e eis sardinhas
frenéticas.
Aquelas pessoas que gostam de carne
olhariam dentro dos olhos de uma vaca
e pediriam humildemente, "senhora vaca,
por favor, dai-me um bife
do vosso traseiro."
E a vaca cairia mortinha
com as peças fatiadas
e já embrulhadas.
Não devíamos pagar por nosso alimento.
Ganharíamos assim tempo pra amar
as mulheres felizes e as outras
desgostosas da vida.
Se quiséssemos uma laranja apenas andar
até o pomar, levantar o braço e pegar
a laranja. Se quiséssemos peixes
bastaria ir à beira de um rio
assobiar, estender a mão
e tilápias pulariam
fresquinhas.
Pra quem gosta de peixes de água salgada
haveria de pegar um barco até alto mar
jogar a rede e eis sardinhas
frenéticas.
Aquelas pessoas que gostam de carne
olhariam dentro dos olhos de uma vaca
e pediriam humildemente, "senhora vaca,
por favor, dai-me um bife
do vosso traseiro."
E a vaca cairia mortinha
com as peças fatiadas
e já embrulhadas.
Não devíamos pagar por nosso alimento.
Ganharíamos assim tempo pra amar
as mulheres felizes e as outras
desgostosas da vida.
reflexões de um cleptomaníaco
A minha prioridade é perder o interesse pelas coisas.
Ou serei preso roubando um mamão na feira.
Ou, mais grave, baleado
ao tentar roubar a pistola
de um policial.
Preciso com urgência,
pra ontem, parar com
essa mania de realizar
desejos dos meus olhos.
Eles olham, desejam,
e eu vou lá e roubo.
O verdureiro não me perdoará se eu correr
levando seu mamão e o policial vai acertar
meu peito se eu tentar roubar-lhe a pistola.
Preciso entender que meus ossinhos de versos
posso guardá-los tranquilão na última gaveta
que ninguém roubará meus ossinhos,
mas se o policial conseguir um mandado
e o verdureiro corromper o porteiro?
Haveria algum interesse do verdureiro
e do policial para com meus ossinhos?
Não são ossinhos de gente
são ossinhos de versos,
oxalá eles entendam.
Ou serei preso roubando um mamão na feira.
Ou, mais grave, baleado
ao tentar roubar a pistola
de um policial.
Preciso com urgência,
pra ontem, parar com
essa mania de realizar
desejos dos meus olhos.
Eles olham, desejam,
e eu vou lá e roubo.
O verdureiro não me perdoará se eu correr
levando seu mamão e o policial vai acertar
meu peito se eu tentar roubar-lhe a pistola.
Preciso entender que meus ossinhos de versos
posso guardá-los tranquilão na última gaveta
que ninguém roubará meus ossinhos,
mas se o policial conseguir um mandado
e o verdureiro corromper o porteiro?
Haveria algum interesse do verdureiro
e do policial para com meus ossinhos?
Não são ossinhos de gente
são ossinhos de versos,
oxalá eles entendam.
impropérios
A poesia é a arte
dos psicóticos
e enfermos.
Não conheço um poeta
que não tenha tiques
nervosos.
Costumo me iludir pensando
que não é tique nervoso,
mas batuque
de pajelança
do coração.
Conheço poeta sereno,
sim, poeta manso
e doce -
mas ele esconde
o ruflar da tarola.
Na verdade esse poeta
tem mais psicoses
que uma lagarta-
de-fogo.
E tem mais tiques nervosos
que Frankenstein passeando
de noite em uma rua deserta.
dos psicóticos
e enfermos.
Não conheço um poeta
que não tenha tiques
nervosos.
Costumo me iludir pensando
que não é tique nervoso,
mas batuque
de pajelança
do coração.
Conheço poeta sereno,
sim, poeta manso
e doce -
mas ele esconde
o ruflar da tarola.
Na verdade esse poeta
tem mais psicoses
que uma lagarta-
de-fogo.
E tem mais tiques nervosos
que Frankenstein passeando
de noite em uma rua deserta.
um dia florido
Ando em zigue-zague
até à pracinha e lá
esperam-me eles,
os pombos.
Por meu olhar mortão e suave,
sabidos que são, suspeitam
que estou tomando
remédio.
Peço que deem o fora
que tenho muito trabalho.
Os pombos sabem a que me refiro.
Espalham-se e me deixam, enfim,
sozinho com as flores.
Ponho meu chapelão de palha
e inicio meu estudo complexo
sobre a vida íntima das flores.
Sou um ótimo terapeuta
pras flores revoltadas
com o calor
ou para aquelas enlouquecidas
de tantas abelhas em suas pétalas.
Explico pras primeiras
que realmente o sol é um caso sério
e o melhor que fazem é rezar pra chuva.
Às últimas, psicóticas, determino
diariamente a cada uma
20 ml de água do mar.
20 ml de água do mar.
Chamo o jardineiro
repasso a orientação médica
e volto pra casa em zigue-zague.
tristezas iguais
As chaminés de padarias
abandonadas são almas
que assustam nuvens.
Foram-se os padeiros,
sumiu do meu nariz
aquele cheiro.
Da minha janela
vejo uma alma
triste -
como se o meu baço
pedisse pro coração
parar de bater
ou os ossos das costelas
confessassem seus pecados
aos cílios do meu olho direito.
Se existe uma tristeza mais cruel
parada em uma esquina
sobre o telhado,
não conheço.
abandonadas são almas
que assustam nuvens.
Foram-se os padeiros,
sumiu do meu nariz
aquele cheiro.
Da minha janela
vejo uma alma
triste -
como se o meu baço
pedisse pro coração
parar de bater
ou os ossos das costelas
confessassem seus pecados
aos cílios do meu olho direito.
Se existe uma tristeza mais cruel
parada em uma esquina
sobre o telhado,
não conheço.
melindre
Quero acreditar que não seja
apenas vaidade essa loucura
do poeta mostrar suas penas.
Augusto dos Anjos
sentia fortes dores
de cabeça só em
imaginar a solidão
dos seus poemas.
E nós que somos pássaros
de olhos ultravioletas
ainda sofremos
do mesmo
mal?
Não nos cansa essa insanidade
de não nos bastar ser pássaro:
temos de mostrar para o outro
as penas desse pássaro e o pio.
Inacreditável,
até o pio.
apenas vaidade essa loucura
do poeta mostrar suas penas.
Augusto dos Anjos
sentia fortes dores
de cabeça só em
imaginar a solidão
dos seus poemas.
E nós que somos pássaros
de olhos ultravioletas
ainda sofremos
do mesmo
mal?
Não nos cansa essa insanidade
de não nos bastar ser pássaro:
temos de mostrar para o outro
as penas desse pássaro e o pio.
Inacreditável,
até o pio.
curupira
Sua mãe não lhe aconselhou
ficar longe de poetas?
Sua mãe estava certa
ao dizer que poeta
hoje é um lírio,
amanhã um trator.
Você já viu um lírio
depois que um trator passa?
O lírio vira mel
que entorpece quem
dele beba um só gole.
Veja aquelas formigas andando
meio tontas a desabarem.
A sua mãe deveria ter lhe dito
passar léguas de distância
quando ouvisse o nome
poeta.
Veja o que deu,
você é minha.
Acabou sua vida,
seus sonhos,
seu dengo.
Um dia você aprende a deixar de lado esse mistério
e abrir a porta do meu quarto à base de pontapé.
ficar longe de poetas?
Sua mãe estava certa
ao dizer que poeta
hoje é um lírio,
amanhã um trator.
Você já viu um lírio
depois que um trator passa?
O lírio vira mel
que entorpece quem
dele beba um só gole.
Veja aquelas formigas andando
meio tontas a desabarem.
A sua mãe deveria ter lhe dito
passar léguas de distância
quando ouvisse o nome
poeta.
Veja o que deu,
você é minha.
Acabou sua vida,
seus sonhos,
seu dengo.
Um dia você aprende a deixar de lado esse mistério
e abrir a porta do meu quarto à base de pontapé.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
rastros
Antes que a minha unha caia
observo as cores do machucado.
Uma unha esmagada muda de tom
em duas semanas: primeiro o roxo
até o grená.
Que não caia a minha unha moribunda
quando eu estiver andando sem notar
o seu último adeus ao meu dedo.
Não é minha a intenção
de que a unha o vento
leve à praça e ao bico
de algum pombo.
Tenho dentro de uma caixinha de fósforo
o primeiro dente do meu filho, espero
guardar a minha unha.
observo as cores do machucado.
Uma unha esmagada muda de tom
em duas semanas: primeiro o roxo
até o grená.
Que não caia a minha unha moribunda
quando eu estiver andando sem notar
o seu último adeus ao meu dedo.
Não é minha a intenção
de que a unha o vento
leve à praça e ao bico
de algum pombo.
Tenho dentro de uma caixinha de fósforo
o primeiro dente do meu filho, espero
guardar a minha unha.
passeios
Ninguém é culpado
se o poema não vingou
e pouco a pouco foram
murchando seus poros
caindo suas escamas
soltando as penas
das asas opacas.
Outro dia você saberá
qual a técnica apropriada -
se a ferramenta contundente
de um fórceps ou o bico
de uma pinça banhada
a ouro 18.
Talvez no outro dia
você esteja de fato atento
e não se deixe levar por um ruído
ou por uma imagem descabida que lhe veio
à mente justo no momento em que você mordia
os lábios e abria a boca para a sua língua respirar.
Não foi sua culpa,
acalme-se.
A palavra final é do poema:
ele tem de estar a fim
de sair da toca
e oferecer o corpo para uma doação de órgão
em que o poeta também tem de estar pronto
para morrer e receber de braços abertos
o poema e todas as suas minúcias.
Morra,
poeta.
se o poema não vingou
e pouco a pouco foram
murchando seus poros
caindo suas escamas
soltando as penas
das asas opacas.
Outro dia você saberá
qual a técnica apropriada -
se a ferramenta contundente
de um fórceps ou o bico
de uma pinça banhada
a ouro 18.
Talvez no outro dia
você esteja de fato atento
e não se deixe levar por um ruído
ou por uma imagem descabida que lhe veio
à mente justo no momento em que você mordia
os lábios e abria a boca para a sua língua respirar.
Não foi sua culpa,
acalme-se.
A palavra final é do poema:
ele tem de estar a fim
de sair da toca
e oferecer o corpo para uma doação de órgão
em que o poeta também tem de estar pronto
para morrer e receber de braços abertos
o poema e todas as suas minúcias.
Morra,
poeta.
arca de bombons
Se eles forem embora
o que você dirá pra si mesma?
Caminhará em circulos,
subirá à montanha mais alta,
pagará drinques pra novas companhias?
Amor, não se apegue aos anjos
nem aos seres dessa terra.
Seja como uma folha seca
que pousa na poltrona
pensam todos
porque ela
é frágil -
não, amor, a folha seca
é bem mais forte que imaginamos:
é ela quem faz o seu próprio caminho,
ela quem escolhe as janelas por onde
quer entrar.
Amor, o fim não é definitivo
e a dor, a dor grandiosa,
é um toque da vida
pra gente respirar
melhor que antes.
Se os outros forem embora
não jogue seu chapéu
da ponte.
Ele é lindo e combina com sua cabeça
de cabelos longos
e brilhantes.
o que você dirá pra si mesma?
Caminhará em circulos,
subirá à montanha mais alta,
pagará drinques pra novas companhias?
Amor, não se apegue aos anjos
nem aos seres dessa terra.
Seja como uma folha seca
que pousa na poltrona
pensam todos
porque ela
é frágil -
não, amor, a folha seca
é bem mais forte que imaginamos:
é ela quem faz o seu próprio caminho,
ela quem escolhe as janelas por onde
quer entrar.
Amor, o fim não é definitivo
e a dor, a dor grandiosa,
é um toque da vida
pra gente respirar
melhor que antes.
Se os outros forem embora
não jogue seu chapéu
da ponte.
Ele é lindo e combina com sua cabeça
de cabelos longos
e brilhantes.
luz sobre a cabeça
Meu bem, se você me pergunta
se o meu dia é sempre assim
com girassóis pra colher
e papoulas pra dourar -
não posso mentir
e lhe digo, isso
mesmo.
Desde quando acordo, meu bem, e ponho os pés
no chão e os dedos saem à procura dos chinelos
que o meu dia é assim - girassóis pra colher
e papoulas pra dourar no parapeito
da varanda.
Às vezes ainda tenho a sorte
de dar de cara com um passarinho
de papo amarelo e perninhas esbeltas.
se o meu dia é sempre assim
com girassóis pra colher
e papoulas pra dourar -
não posso mentir
e lhe digo, isso
mesmo.
Desde quando acordo, meu bem, e ponho os pés
no chão e os dedos saem à procura dos chinelos
que o meu dia é assim - girassóis pra colher
e papoulas pra dourar no parapeito
da varanda.
Às vezes ainda tenho a sorte
de dar de cara com um passarinho
de papo amarelo e perninhas esbeltas.
de madrugada os gatos brincam
Descascando batata-doce
a essa hora da noite
é uma dádiva,
é um luxo.
A calma é tanta
que ouço meus ouvidos
jogando dominó e conversando.
a essa hora da noite
é uma dádiva,
é um luxo.
A calma é tanta
que ouço meus ouvidos
jogando dominó e conversando.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
limpo
Tu que foste meu inimigo,
entende: já não o és.
Como?
Antigamente não sabia
que eras tu os botões
do trompete
que hoje toco
meu blues.
Da queda de braços
quem mais sofre
é a mesa.
Guardo então meus punhos
dentro dos bolsos.
Salvei-me na última curva
e levo meu trompete -
meu entardecer,
meu blues.
entende: já não o és.
Como?
Antigamente não sabia
que eras tu os botões
do trompete
que hoje toco
meu blues.
Da queda de braços
quem mais sofre
é a mesa.
Guardo então meus punhos
dentro dos bolsos.
Salvei-me na última curva
e levo meu trompete -
meu entardecer,
meu blues.
sóbrio de fogo
Agora quando fecho os olhos e suspiro
não tenho mais a esperança de um trago.
Morrerei com a garganta seca
e os passarinhos à minha janela
gritam desesperados -
"não, poeta!"
Mas é tarde.
O fundo do poço
secou e lá não posso
cruzar as pernas e voar.
As nuvens brincando
confortam os passarinhos.
Brincam mudando de rosto,
e o que vejo? Eu sorrindo.
Riso amplo e confortável
de quem lavou as mãos
e não bebeu do vinho.
não tenho mais a esperança de um trago.
Morrerei com a garganta seca
e os passarinhos à minha janela
gritam desesperados -
"não, poeta!"
Mas é tarde.
O fundo do poço
secou e lá não posso
cruzar as pernas e voar.
As nuvens brincando
confortam os passarinhos.
Brincam mudando de rosto,
e o que vejo? Eu sorrindo.
Riso amplo e confortável
de quem lavou as mãos
e não bebeu do vinho.
a taça que Bukowski bebeu
Mulher grávida ou mãe que perdeu o filho,
eis o que pareço nesses dias chorando
pelos cantos -
sensível feito uma pata,
sensível feito um ganso.
eis o que pareço nesses dias chorando
pelos cantos -
sensível feito uma pata,
sensível feito um ganso.
pinturas rupestres
Meu bem, se você me visse tomando banho
morreria de rir: meu olhar perdido e atento
aos raios que batem na janela
e a voz baixa dizendo versos
que suponho ossinhos
de um novo poema.
Se você tomasse banho comigo,
meu bem, não morreria de frio.
Simples assim.
morreria de rir: meu olhar perdido e atento
aos raios que batem na janela
e a voz baixa dizendo versos
que suponho ossinhos
de um novo poema.
Se você tomasse banho comigo,
meu bem, não morreria de frio.
Simples assim.
macaca
Hoje acordei com a macaca
e hei de escrever versos
como quem come
banana.
Que o sr. macaco não me ouça
nem me veja com sua senhora.
Mas a verdade tem de ser proferida:
hoje acordei com a macaca
e será uma festa na copa
das árvores.
Hoje o dia é da macaca,
sumam andorinhas!
e hei de escrever versos
como quem come
banana.
Que o sr. macaco não me ouça
nem me veja com sua senhora.
Mas a verdade tem de ser proferida:
hoje acordei com a macaca
e será uma festa na copa
das árvores.
Hoje o dia é da macaca,
sumam andorinhas!
rebelião
A segurança dos miseráveis
que atravessam avenidas
cruzando carros
sem medo,
nada muda
da minha valentia
quando escrevo versos -
no íntimo pedimos ajuda
e choramos escondidos
no banheiro.
que atravessam avenidas
cruzando carros
sem medo,
nada muda
da minha valentia
quando escrevo versos -
no íntimo pedimos ajuda
e choramos escondidos
no banheiro.
dentro da cartola um avestruz
O vento que entra pelo
espaço da porta
entreaberta
e bate na quina da cama
fazendo tremular o lençol
não é uma mágica?
Diga-me, meu amor,
que mágica é essa?
Vejo sorrindo o lençol
e os pelos das minhas canelas
só faltam deslizar de skimboard.
Não tenho razão, meu bem,
de ficar louco diariamente?
espaço da porta
entreaberta
e bate na quina da cama
fazendo tremular o lençol
não é uma mágica?
Diga-me, meu amor,
que mágica é essa?
Vejo sorrindo o lençol
e os pelos das minhas canelas
só faltam deslizar de skimboard.
Não tenho razão, meu bem,
de ficar louco diariamente?
cessar-fogo
Parem de soltar bombas
que os poetas precisam de paz
para o eterno glamour de sua dor.
Este filme é tão antigo matar crianças,
mulheres, velhinhos e encher os bolsos
de moedas de ouro.
Parem de soltar bombas
porque o único pesar
genuíno e milenar
e a dor grandiosa
dos poetas.
Como namorar a pequena
e beber o cafezinho tranquilo
se vocês soltam bombas feito loucos?
Parem de soltar bombas
e tratem de cultivar novos lírios
nas montanhas sujas de carvão.
Dor clara e beatificada
só existe uma, a dor
dos poetas
que mordem os pulsos
que raspam a cabeça
que plantam bananeira
no alto de uma ponte
só para chamar atenção de vocês,
meus queridos, parem de soltar
bombas e vão cuidar
dos seus filhos
e das suas mulheres.
que os poetas precisam de paz
para o eterno glamour de sua dor.
Este filme é tão antigo matar crianças,
mulheres, velhinhos e encher os bolsos
de moedas de ouro.
Parem de soltar bombas
porque o único pesar
genuíno e milenar
e a dor grandiosa
dos poetas.
Como namorar a pequena
e beber o cafezinho tranquilo
se vocês soltam bombas feito loucos?
Parem de soltar bombas
e tratem de cultivar novos lírios
nas montanhas sujas de carvão.
Dor clara e beatificada
só existe uma, a dor
dos poetas
que mordem os pulsos
que raspam a cabeça
que plantam bananeira
no alto de uma ponte
só para chamar atenção de vocês,
meus queridos, parem de soltar
bombas e vão cuidar
dos seus filhos
e das suas mulheres.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
piquenique
Baby, como eu estou sedento -
quase arranquei meu mamilo
com as próprias unhas
ao vestir a camiseta.
O médico disse que o vinho
é uma amante morta
e enterrada.
Se eu ouvi-la e bebê-la
será o dia do apocalipse.
Está tudo certo,
tudo certo.
Minha indignação é lívida,
branca, pálida com ar
de cadáver velho.
Mas está tudo certo,
tudo certo.
O que me salva dessa dor
são meus versos que escapam
loucos e embriagados - eles podem.
bilhetinho
A poesia é mãe, meu filho -
uma mãe amorosa sem limite.
De tão generosa acolheu-me
quando vi tudo escuro
no fundo do mar.
E ela mandou-me ao meu resgate
um dos seus filhos mais queridos -
Sabe quem? Acertou,
um golfinho.
Fui salvo por um golfinho
com nadadeiras de mergulhador.
Igual ao desenho do seu roupão.
Quando eu morrer, meu rapazinho,
deixarei em seu nome os meus poemas.
Lembre-se que a poesia é minha mãe -
não queime os versos nem os jogue
dentro de um baú antigo.
Só agora entendo, meu filho,
que os poemas escritos
precisam de ar.
Também precisam de sol
e, se possível, do olhar
de uma moça tímida.
Tu, meu garotão,
será o único detentor
da minha caminhada.
E que bacana, rapazinho, eu ter andado nesse mundo
e ter criado tantos laços e comunhão com outra vida.
Beijo do teu pai.
uma mãe amorosa sem limite.
De tão generosa acolheu-me
quando vi tudo escuro
no fundo do mar.
E ela mandou-me ao meu resgate
um dos seus filhos mais queridos -
Sabe quem? Acertou,
um golfinho.
Fui salvo por um golfinho
com nadadeiras de mergulhador.
Igual ao desenho do seu roupão.
Quando eu morrer, meu rapazinho,
deixarei em seu nome os meus poemas.
Lembre-se que a poesia é minha mãe -
não queime os versos nem os jogue
dentro de um baú antigo.
Só agora entendo, meu filho,
que os poemas escritos
precisam de ar.
Também precisam de sol
e, se possível, do olhar
de uma moça tímida.
Tu, meu garotão,
será o único detentor
da minha caminhada.
E que bacana, rapazinho, eu ter andado nesse mundo
e ter criado tantos laços e comunhão com outra vida.
Beijo do teu pai.
brincantes
Esses meus lençóis são uma graça:
se não os dobro quando acordo
menos espero eles embolam-se
praticando jiu-jitsu.
Separá-los é dose e num vacilo
eles me pegam e dão-me
uma chave de braço.
Mas te liguei não foi pra contar esse delírio,
sim pra dizer que para me amar há uma condição -
veja-me como uma criança,
um louco meninão.
Terminando o que dizia:
os lençóis conseguiram
vencer-me no 3 round.
Ok, perdi a luta
mas vejo agora
que eles suaram
pra me imobilizar.
se não os dobro quando acordo
menos espero eles embolam-se
praticando jiu-jitsu.
Separá-los é dose e num vacilo
eles me pegam e dão-me
uma chave de braço.
Mas te liguei não foi pra contar esse delírio,
sim pra dizer que para me amar há uma condição -
veja-me como uma criança,
um louco meninão.
Terminando o que dizia:
os lençóis conseguiram
vencer-me no 3 round.
Ok, perdi a luta
mas vejo agora
que eles suaram
pra me imobilizar.
o conquistador de passarinhos
diacho de amor platônico é esse meu deus que tenho pelos passarinhos
não posso pôr o pé fora de casa saio à procura de pombos, andorinhas
e aqueles outros de papo amarelo, ah, deus, dai-me uma luz
e trazei logo aos meus olhos e à minha boca uma mulher
espartana que manuseie bem espada porque chega
já não suporto esse meu tesão delicado
que tenho pelos passarinhos
que só de mal voam
pela minha cabeça
bicam as orelhas
deixam-me nos ombros e na nuca o perfume das nuvens e sabe-se lá mais onde
se metem esses passarinhos bonitinhos e fantásticos que me avassalam
sem dó nem piedade tirando de mim tudo que me resta -
lágrimas, riso, loucura.
não posso pôr o pé fora de casa saio à procura de pombos, andorinhas
e aqueles outros de papo amarelo, ah, deus, dai-me uma luz
e trazei logo aos meus olhos e à minha boca uma mulher
espartana que manuseie bem espada porque chega
já não suporto esse meu tesão delicado
que tenho pelos passarinhos
que só de mal voam
pela minha cabeça
bicam as orelhas
deixam-me nos ombros e na nuca o perfume das nuvens e sabe-se lá mais onde
se metem esses passarinhos bonitinhos e fantásticos que me avassalam
sem dó nem piedade tirando de mim tudo que me resta -
lágrimas, riso, loucura.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
o convalescente
Da forma que estou escovando os dentes, meu amor,
pode me levar pra sua casa que me sinto bem melhor.
Antes deixe-me perguntar uma coisa:
um cara que sobe uma montanha
é natural que lhe falte oxigênio
lá no ápice, mas que raios
de cansaço é esse
ofegante eu feito
um cão obeso?
Antes que você me pergunte
se subi uma montanha, não!
E a questão é essa - estou só,
paradão, entre a cozinha
e o quarto e não paro
de ofegar...
Ah, seria saudade? Pronto,
pode me levar pra sua casa.
pode me levar pra sua casa que me sinto bem melhor.
Antes deixe-me perguntar uma coisa:
um cara que sobe uma montanha
é natural que lhe falte oxigênio
lá no ápice, mas que raios
de cansaço é esse
ofegante eu feito
um cão obeso?
Antes que você me pergunte
se subi uma montanha, não!
E a questão é essa - estou só,
paradão, entre a cozinha
e o quarto e não paro
de ofegar...
Ah, seria saudade? Pronto,
pode me levar pra sua casa.
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