Falemos de morte.
A minha não sei.
Não sou adivinho, meu bem.
E agora não escrevo poema.
Falo sério da minha morte.
Não sei nem faço a mínima ideia.
Conjecturar sobre a idade
seria um desperdício de papo.
O que posso te adiantar
é que a minha morte
será fria.
Tenho até medo de pensar
o seu vestido pelo quarto.
Agora já escrevo poema.
Não é justo contigo.
segunda-feira, 31 de março de 2014
idílio entre alados
Você não me viu piscando o olho.
Portanto, não reprove as minhas andorinhas.
Não diga que elas são garotas fáceis. Piriguetes.
Foi uma luta trazê-las
à minha janela.
E pouco importa
se caiu um temporal.
As minhas andorinhas
mudam de tom, mas
cantam pra mim
com outra
flauta.
Portanto, não reprove as minhas andorinhas.
Não diga que elas são garotas fáceis. Piriguetes.
Foi uma luta trazê-las
à minha janela.
E pouco importa
se caiu um temporal.
As minhas andorinhas
mudam de tom, mas
cantam pra mim
com outra
flauta.
montanhas
Tenho rompantes
de loucura e romantismos
que deixaria meu primo Quixote
boquiaberto, queixo caído, pernas bambas.
Só uma taça
consigo escrever.
As minhas formigas olham-me
com um olhar de fria censura.
de loucura e romantismos
que deixaria meu primo Quixote
boquiaberto, queixo caído, pernas bambas.
Só uma taça
consigo escrever.
As minhas formigas olham-me
com um olhar de fria censura.
a solidão é uma doceira
Descubro um cacho
encobrindo o olho
o olho mais lindo
da vida.
Desvendo em seu andado
um convite safado
pra pularmos
na cama.
Quando as coisas
começam a cair
das minhas
mãos,
é hora
de amar.
encobrindo o olho
o olho mais lindo
da vida.
Desvendo em seu andado
um convite safado
pra pularmos
na cama.
Quando as coisas
começam a cair
das minhas
mãos,
é hora
de amar.
flores silvestres
Você viverá muito,
minha querida.
Andará pela casa
segurando-se em mesas,
cadeiras, cômoda, portas.
Beberá seu vinho
às gargalhadas.
E tarde da noite fará amor
com a minha fotografia.
Você, minha querida,
não mudará de gosto.
Os seus vestidos
continuarão azuis.
Não queira saber onde estou
depois que parti desse mundo.
Faça amor com a minha fotografia.
Não é um insulto você velhinha
e eu com essa barba rala
ainda jovial.
Você me conhecia bem por dentro.
Somos todos tão velhos, minha querida.
Aqui também envelhecemos e tropeçamos.
Você viverá muito tempo.
Saberá o que fazer da saudade.
Mas o que me emociona é você
na cama com a minha fotografia.
É maravilhoso vê-la
com as mãos trêmulas
procurando me fazer feliz.
minha querida.
Andará pela casa
segurando-se em mesas,
cadeiras, cômoda, portas.
Beberá seu vinho
às gargalhadas.
E tarde da noite fará amor
com a minha fotografia.
Você, minha querida,
não mudará de gosto.
Os seus vestidos
continuarão azuis.
Não queira saber onde estou
depois que parti desse mundo.
Faça amor com a minha fotografia.
Não é um insulto você velhinha
e eu com essa barba rala
ainda jovial.
Você me conhecia bem por dentro.
Somos todos tão velhos, minha querida.
Aqui também envelhecemos e tropeçamos.
Você viverá muito tempo.
Saberá o que fazer da saudade.
Mas o que me emociona é você
na cama com a minha fotografia.
É maravilhoso vê-la
com as mãos trêmulas
procurando me fazer feliz.
farmacologia
Limpando o nariz,
distante de mim:
o que queres,
poesia?
Tu ainda não és poema.
Mas já me partes as costelas.
Como respirar feito
um homem normal?
É hora de tratar da barba.
Não cresce como a inveja.
Precisa, contudo,
que eu ajeite seus lados.
Nessa manhã espero sangue
na lâmina do barbeador.
distante de mim:
o que queres,
poesia?
Tu ainda não és poema.
Mas já me partes as costelas.
Como respirar feito
um homem normal?
É hora de tratar da barba.
Não cresce como a inveja.
Precisa, contudo,
que eu ajeite seus lados.
Nessa manhã espero sangue
na lâmina do barbeador.
domingo, 30 de março de 2014
lêmur de briga
O poeta
olha seus poemas
como quem vê ovos de ouro:
não se pode tocar-lhes
pensa que é heresia
roubo.
olha seus poemas
como quem vê ovos de ouro:
não se pode tocar-lhes
pensa que é heresia
roubo.
por um final de semana
Um filhote de escorpião
no piso da cozinha.
De imediato pensei no meu filho
andando descalço pelo apartamento.
Ia chamá-lo atenção,
mas o filhote de escorpião
estava morto. Até seco.
Não havia perigo. Seco.
Pisei-o algumas vezes
(sabe como é pai)
e joguei o filhote
de escorpião
à lixeira.
E o mundo nesse final de semana
só não foi melhor porque o garoto
não gosta de matemática e brinca.
Brinca mas brinca
que me tira do sério.
E eu penso o que será do pequeno
se também detesta poesia.
no piso da cozinha.
De imediato pensei no meu filho
andando descalço pelo apartamento.
Ia chamá-lo atenção,
mas o filhote de escorpião
estava morto. Até seco.
Não havia perigo. Seco.
Pisei-o algumas vezes
(sabe como é pai)
e joguei o filhote
de escorpião
à lixeira.
E o mundo nesse final de semana
só não foi melhor porque o garoto
não gosta de matemática e brinca.
Brinca mas brinca
que me tira do sério.
E eu penso o que será do pequeno
se também detesta poesia.
taciturno
Quis escrever um poema de amor,
não vi um súdito que me seguisse:
todos meus objetos calados,
mortos nos seus cantos.
Nem o bermudão
abriu a boca.
Tá difícil, muito difícil,
escrever um poema
de amor.
As minhas plantinhas da varanda
ensopadas não me querem por perto.
não vi um súdito que me seguisse:
todos meus objetos calados,
mortos nos seus cantos.
Nem o bermudão
abriu a boca.
Tá difícil, muito difícil,
escrever um poema
de amor.
As minhas plantinhas da varanda
ensopadas não me querem por perto.
pérolas em alto mar
Daqueles poemas
que nos caem nas mãos
de mão beijada - tive um insight:
não são eles plantados
ainda quando dormimos
ou quando caminhamos
da padaria pra casa
em total silêncio?
Ou mesmo em outra vida
quando éramos uma janela,
cafeteira, tênis brancos sujos?
Não seriam esses poemas
que nos banham de espanto
somatória de pequenos suspiros?
Desses suspiros
(já falei tantas vezes)
que nos partem costelas.
Ando pensando
sobre esses poemas
que não nos permitem
nem um ai
ou morte.
Ontem um deles
caiu sobre minha cabeça
e pesava o peso de uma pena.
que nos caem nas mãos
de mão beijada - tive um insight:
não são eles plantados
ainda quando dormimos
ou quando caminhamos
da padaria pra casa
em total silêncio?
Ou mesmo em outra vida
quando éramos uma janela,
cafeteira, tênis brancos sujos?
Não seriam esses poemas
que nos banham de espanto
somatória de pequenos suspiros?
Desses suspiros
(já falei tantas vezes)
que nos partem costelas.
Ando pensando
sobre esses poemas
que não nos permitem
nem um ai
ou morte.
Ontem um deles
caiu sobre minha cabeça
e pesava o peso de uma pena.
campanário
O meu crânio furado
com um arranjo
de flores
dentro:
bela peça
ornamental.
Agora sim, minha querida,
meus poemas têm vida própria.
com um arranjo
de flores
dentro:
bela peça
ornamental.
Agora sim, minha querida,
meus poemas têm vida própria.
o bom infarto
Já me custa escrever um poema
(e é um susto quando o faço)
agora hei de defendê-lo
na rinha?
Os meus remédios
(todos os meus remédios)
estão dentro da fruteira sobre
a mesa de visita pra todo mundo ver.
Não tenho mais cabeça nem estômago
para confrontos tribais.
Não são os poetas
os teus inimigos.
(e é um susto quando o faço)
agora hei de defendê-lo
na rinha?
Os meus remédios
(todos os meus remédios)
estão dentro da fruteira sobre
a mesa de visita pra todo mundo ver.
Não tenho mais cabeça nem estômago
para confrontos tribais.
Não são os poetas
os teus inimigos.
clausura
Mesmo os poemas mais risonhos
que porventura inspirem gracejos:
há uma língua mordida,
uma lâmina de sangue.
que porventura inspirem gracejos:
há uma língua mordida,
uma lâmina de sangue.
sábado, 29 de março de 2014
diálogos
Eu falo sozinho,
é normal.
Cheiro a toalha de banho
e digo pra mim mesmo:
"não, não, não está
bem lavada..."
Mesmo assim
deixo-a estendida
no varal do banheiro.
Quem sabe o orvalho
da madrugada traga
a lavanda dos teus
lençóis.
é normal.
Cheiro a toalha de banho
e digo pra mim mesmo:
"não, não, não está
bem lavada..."
Mesmo assim
deixo-a estendida
no varal do banheiro.
Quem sabe o orvalho
da madrugada traga
a lavanda dos teus
lençóis.
lúdico amor
Torcicolo de um gafanhoto
não é igual ao de um elefante.
Mas nem um
nem outro
se cansam
de virar o rosto
a cada movimento
das nuvens ou da lua.
Foi difícil fazer
esse estudo.
Tive que passar um longo tempo
na curva do pescoço do gafanhoto
e na dobra do pescoço do elefante.
não é igual ao de um elefante.
Mas nem um
nem outro
se cansam
de virar o rosto
a cada movimento
das nuvens ou da lua.
Foi difícil fazer
esse estudo.
Tive que passar um longo tempo
na curva do pescoço do gafanhoto
e na dobra do pescoço do elefante.
segredo
As minhas mãos brincam
sem a minha permissão.
Um dia saberei
a verdade sobre elas.
Se dentro do caixão
no escuro da cova
elas abrirão a janela
ou escreverão poemas.
sem a minha permissão.
Um dia saberei
a verdade sobre elas.
Se dentro do caixão
no escuro da cova
elas abrirão a janela
ou escreverão poemas.
sábado blues
Se você conheceu
o abismo de perto,
não siga novamente
os mesmos passos
até aquela casa.
Sabe as orquídeas que lhe falei
que crescem pelas paredes?
Também iludem
e cegam a gente.
É bom ver o corpo saudável.
A barba crescendo,
sem grilo.
o abismo de perto,
não siga novamente
os mesmos passos
até aquela casa.
Sabe as orquídeas que lhe falei
que crescem pelas paredes?
Também iludem
e cegam a gente.
É bom ver o corpo saudável.
A barba crescendo,
sem grilo.
o ciúme
O ciúme tem um olhar míope.
Veste-se de preto (sempre).
Deixa o arroz queimar, o leite subir,
a água da banheira chegar à cozinha.
O ciúme não para quieta.
Não relaxa. Não descansa os pés
sobre a mesinha de vime da varanda.
O ciúme vive com a faca nas mãos.
Não corta bem a carne do almoço.
Mas já tem marcas
no pulso direito.
O ciúme não é confiável.
Ora picos de felicidade,
ora abismo sem fim.
Soletra a-mor
com a voz mais doce.
E bate no peito
que não existe
amor mais belo.
O ciúme tem o olhar calmo.
Veste-se de azul (sempre).
É atenta: o arroz bem feito,
o leite com canela na xícara,
a banheira estonteante de sais.
O ciúme lê um bom livro.
Bebe suco da fruta.
Vive na varanda
os pés balançando
sobre a mesinha de vime.
Adora a varanda.
Cuida das plantas.
Alimenta as andorinhas.
O ciúme é um anjo.
Lava os colarinhos de batom.
Jura que não vê os números de telefone.
Veste-se de preto (sempre).
Deixa o arroz queimar, o leite subir,
a água da banheira chegar à cozinha.
O ciúme não para quieta.
Não relaxa. Não descansa os pés
sobre a mesinha de vime da varanda.
O ciúme vive com a faca nas mãos.
Não corta bem a carne do almoço.
Mas já tem marcas
no pulso direito.
O ciúme não é confiável.
Ora picos de felicidade,
ora abismo sem fim.
Soletra a-mor
com a voz mais doce.
E bate no peito
que não existe
amor mais belo.
O ciúme tem o olhar calmo.
Veste-se de azul (sempre).
É atenta: o arroz bem feito,
o leite com canela na xícara,
a banheira estonteante de sais.
O ciúme lê um bom livro.
Bebe suco da fruta.
Vive na varanda
os pés balançando
sobre a mesinha de vime.
Adora a varanda.
Cuida das plantas.
Alimenta as andorinhas.
O ciúme é um anjo.
Lava os colarinhos de batom.
Jura que não vê os números de telefone.
infância
Alguns objetos
já mandam
em mim.
Olham-me qual meu avô.
Corro pra debaixo
da mesa.
E lá escrevo versos
pra cada olhar sisudo deles.
já mandam
em mim.
Olham-me qual meu avô.
Corro pra debaixo
da mesa.
E lá escrevo versos
pra cada olhar sisudo deles.
sexta-feira, 28 de março de 2014
lavrador
Volto a arar a terra
e a jogar sementes
de girassóis.
Comum nascerem
dentro das flores
os pardais
bicando os cílios
amarelos de Gogh.
e a jogar sementes
de girassóis.
Comum nascerem
dentro das flores
os pardais
bicando os cílios
amarelos de Gogh.
o silêncio da escrivaninha
O mais rico dos reis
com suas pedras preciosas
e ouro e tapetes bordados a lírios
se nunca escreveu um poema na vida
decerto não entende a alma febril (a lágrima).
Repare aquele pássaro quieto
no topo da árvore respirando
nuvens após nuvens
sem desejo.
O pássaro sabe que o céu é dele
mesmo quando o vento devora
todas as nuvens e queima-se
a terra.
Daí ele tem febre,
e mais febre e mais febre.
com suas pedras preciosas
e ouro e tapetes bordados a lírios
se nunca escreveu um poema na vida
decerto não entende a alma febril (a lágrima).
Repare aquele pássaro quieto
no topo da árvore respirando
nuvens após nuvens
sem desejo.
O pássaro sabe que o céu é dele
mesmo quando o vento devora
todas as nuvens e queima-se
a terra.
Daí ele tem febre,
e mais febre e mais febre.
quinta-feira, 27 de março de 2014
puchaput
Os temerosos da cidade
(na minha adolescência)
diziam que o patchouli
era uma fragrância
de gente à toa,
malucos e
artistas.
O que eu via
passar por minha calçada
era uma gente descolada e bonita.
Depois soube que fumavam maconha,
acendiam incensos, curtiam rock
e liam gurus indianos.
Quando atingiam a libertação
nasciam em forma de unguento.
E faziam sexo aberto
com todos os tipos
de arbustos.
(na minha adolescência)
diziam que o patchouli
era uma fragrância
de gente à toa,
malucos e
artistas.
O que eu via
passar por minha calçada
era uma gente descolada e bonita.
Depois soube que fumavam maconha,
acendiam incensos, curtiam rock
e liam gurus indianos.
Quando atingiam a libertação
nasciam em forma de unguento.
E faziam sexo aberto
com todos os tipos
de arbustos.
o pombo
Os pombos adoram sol.
Usam botinas (antes
pensava que eram
tênis) .
Uma grade de ferro
nessa hora (sob
esse sol)
é terrível,
mas lá está ele,
bica-se todo debaixo das asas,
arrepia-se: por um minuto me vê.
Usam botinas (antes
pensava que eram
tênis) .
Uma grade de ferro
nessa hora (sob
esse sol)
é terrível,
mas lá está ele,
bica-se todo debaixo das asas,
arrepia-se: por um minuto me vê.
anfitriões
Se tu plantas batatas
hás de querer a loucura
por perto junto dos cães.
Não há vencedor
no sorriso largo,
meu filho.
Prefiro a dor
à felicidade.
Esta passa,
e logo.
A dor é um estado
de virtude e de crença.
Creia na dor,
meu filho,
e haverá um dia
o romper de correntes.
hás de querer a loucura
por perto junto dos cães.
Não há vencedor
no sorriso largo,
meu filho.
Prefiro a dor
à felicidade.
Esta passa,
e logo.
A dor é um estado
de virtude e de crença.
Creia na dor,
meu filho,
e haverá um dia
o romper de correntes.
terça-feira, 25 de março de 2014
turbilhão
Quanto vale o coração usado de um poeta?
Diga um preço decente e você terá
meu coração dentro de um saco.
Já lavei o peito e marquei a pele
com pontinhos de pincéis
e alfinetes.
Apresse.
Tem uma fila de miseráveis
à minha porta e um corvo
saltitante na janela.
Diga um preço decente e você terá
meu coração dentro de um saco.
Já lavei o peito e marquei a pele
com pontinhos de pincéis
e alfinetes.
Apresse.
Tem uma fila de miseráveis
à minha porta e um corvo
saltitante na janela.
segunda-feira, 24 de março de 2014
cantiga de ninar
De casa à farmácia
nunca vi uma mulher
tão branquinha quanto tu.
Um copo de leite,
um chocolate branco.
Envolvida nesse vestido
as formas roliças brincam.
E eu canto: "de casa à farmácia
nunca vi uma mulher tão branquinha
quanto tu um copo de leite um chocolate branco."
nunca vi uma mulher
tão branquinha quanto tu.
Um copo de leite,
um chocolate branco.
Envolvida nesse vestido
as formas roliças brincam.
E eu canto: "de casa à farmácia
nunca vi uma mulher tão branquinha
quanto tu um copo de leite um chocolate branco."
outono
O que me tranquiliza
é que morrerei de verdade:
caixão, funeral, última pá de terra.
Já terei no fundo da cova
os meus bons vermes.
Rasguem a minha carne
e a única vaidade
são os sonhos.
é que morrerei de verdade:
caixão, funeral, última pá de terra.
Já terei no fundo da cova
os meus bons vermes.
Rasguem a minha carne
e a única vaidade
são os sonhos.
candelabro
No baile de fantasia
não careço de máscara.
Entre os convivas
rodopiarei com a mesma
cara lavada de poeta: anjo,
sátiro, rosto de outra alma.
não careço de máscara.
Entre os convivas
rodopiarei com a mesma
cara lavada de poeta: anjo,
sátiro, rosto de outra alma.
lorde
A minha varanda é um pequeno retângulo
onde cabem com folga sete plantinhas,
alguns jarros vazios, duas cadeiras
de vime, um sol e algumas nuvens
cinzentas que me embebedam
de fascínio essa manhã.
As plantinhas (três delas) precisam ser podadas.
Seus cabelos amarelados não lhe caem bem nos olhos.
onde cabem com folga sete plantinhas,
alguns jarros vazios, duas cadeiras
de vime, um sol e algumas nuvens
cinzentas que me embebedam
de fascínio essa manhã.
As plantinhas (três delas) precisam ser podadas.
Seus cabelos amarelados não lhe caem bem nos olhos.
domingo, 23 de março de 2014
bolero
A boa notícia
é que você vive
sem a minha poesia.
A má é que meu corpo
já tem outro nome.
Não me jogue à fogueira
com tanta pressa e felicidade.
Conheço bem esse riso trêmulo.
O meu é cínico, distante,
no fim da rua.
é que você vive
sem a minha poesia.
A má é que meu corpo
já tem outro nome.
Não me jogue à fogueira
com tanta pressa e felicidade.
Conheço bem esse riso trêmulo.
O meu é cínico, distante,
no fim da rua.
sábado, 22 de março de 2014
sorte
Um comprimido minúsculo
é quase impossível encontrar
depois que saltita sobre o tapete.
Mas não é que ele caiu
no meu chinelo?
Dei um leve impulso
com o pé direito
e apanhei-o
ainda no
ar.
é quase impossível encontrar
depois que saltita sobre o tapete.
Mas não é que ele caiu
no meu chinelo?
Dei um leve impulso
com o pé direito
e apanhei-o
ainda no
ar.
a sina de arar
Não passo mal
a cada poema
que apago.
Acostumei-me
aos seus gritos.
A primeira vez que vi o meu sangue
foi quando um inimigo quebrou
meu nariz.
Desde então soube
que um dia vingaria.
Eis-me no cadafalso
encapuzado cortando
cabeças de poemas.
cavalos selvagens
A poesia, meu bem, é mundana:
qual um par de botas e um pombo.
Se tirarem do meu peito o mundo
eu morrerei sufocado de anjos.
E pra que servem os anjos
se não estivermos com o par de botas sujo
e com um pombo doente no parapeito da janela?
qual um par de botas e um pombo.
Se tirarem do meu peito o mundo
eu morrerei sufocado de anjos.
E pra que servem os anjos
se não estivermos com o par de botas sujo
e com um pombo doente no parapeito da janela?
plantações no outono
Versos que escrevo em vão
além de me irritarem deixam
um ar de ruína, declínio, derrota.
Como se já fosse muito velho
e não enxergasse a beleza
da xícara.
E ao tropeçar nos próprios pés
não entendesse a delicadeza
dos passos.
além de me irritarem deixam
um ar de ruína, declínio, derrota.
Como se já fosse muito velho
e não enxergasse a beleza
da xícara.
E ao tropeçar nos próprios pés
não entendesse a delicadeza
dos passos.
sexta-feira, 21 de março de 2014
leilão
Troco os meus poemas
(todos os meus poemas)
por uma Harley Davidson
e três noites com uma russa.
Sou barato
e estou à venda.
(livre de melancolia
e de ópio)
(todos os meus poemas)
por uma Harley Davidson
e três noites com uma russa.
Sou barato
e estou à venda.
(livre de melancolia
e de ópio)
o rato
Concluo então que sou um rato.
O focinho apurado pela casa
à procura de vestígios
humanos.
Perdoem esse rato
que vive longe da poesia.
Os olhos trêmulos
quando vê queijo.
E não come o queijo.
E não crescem seus bigodes.
Concluo então que sou um rato pela casa
beliscando uma coisa aqui outra ali
enquanto derem chance
e fecharem os olhos.
O focinho apurado pela casa
à procura de vestígios
humanos.
Perdoem esse rato
que vive longe da poesia.
Os olhos trêmulos
quando vê queijo.
E não come o queijo.
E não crescem seus bigodes.
Concluo então que sou um rato pela casa
beliscando uma coisa aqui outra ali
enquanto derem chance
e fecharem os olhos.
o reino de cada dia
Acordei bem melhor do punho, meu bem.
Já posso carregar na palma da mão
uma formiga obesa.
Custa-me ainda fazer origamis
e podar as plantinhas da varanda.
No mais, até consigo
digitar as palavras
próstata, rótula
e amígdala.
Já posso carregar na palma da mão
uma formiga obesa.
Custa-me ainda fazer origamis
e podar as plantinhas da varanda.
No mais, até consigo
digitar as palavras
próstata, rótula
e amígdala.
quinta-feira, 20 de março de 2014
escola
Quando pequeno,
bem pequeno,
meus primeiros trabalhos
eram desenhos: casas,
pontes, serras,
jardins.
Um dia a professora me disse:
"por quê não tenta desenhar palavras?"
Daí em diante não consigo
parar de desenhá-las
e sempre acho
que são
garranchos.
bem pequeno,
meus primeiros trabalhos
eram desenhos: casas,
pontes, serras,
jardins.
Um dia a professora me disse:
"por quê não tenta desenhar palavras?"
Daí em diante não consigo
parar de desenhá-las
e sempre acho
que são
garranchos.
tribunal
O nosso papo ficou pelo meio do caminho
e eu me sinto bem com a corda
em volta do pescoço.
Se tivéssemos conversado mais um pouco
você saberia alguns dos meus segredos:
como durmo, por que parei de beber
café, os meus remédios dentro
da fruteira.
Comecei jogando pela janela
uma pena de passarinho,
depois um poema
amassado.
e eu me sinto bem com a corda
em volta do pescoço.
Se tivéssemos conversado mais um pouco
você saberia alguns dos meus segredos:
como durmo, por que parei de beber
café, os meus remédios dentro
da fruteira.
Comecei jogando pela janela
uma pena de passarinho,
depois um poema
amassado.
química
Sonhei com serpentes.
Voavam por cima
da minha cabeça.
Um belo palpite
pra jogar no bicho.
Dois reais
ganha-se
quanto?
Seria o bastante
para um jantar
à luz de velas?
Eram serpentes voadoras,
meu bem, e tão tolas:
não sabem elas
que já tive veneno
e vivia trocando de pele.
Voavam por cima
da minha cabeça.
Um belo palpite
pra jogar no bicho.
Dois reais
ganha-se
quanto?
Seria o bastante
para um jantar
à luz de velas?
Eram serpentes voadoras,
meu bem, e tão tolas:
não sabem elas
que já tive veneno
e vivia trocando de pele.
dossiê
Sempre tive poucos amigos.
Ou quase nenhum.
Não me amedronta a tristeza
dos meus tênis e chinelos.
O que me aborrece
é nunca ter uma alma viva
que me dê banho se estou doente.
Ainda não domino a língua dos pássaros.
Mas um dia há de entrar por aquela janela
um bando de andorinhas: que maravilha será
a assepsia que farão nas minhas costas com seus bicos.
Ou quase nenhum.
Não me amedronta a tristeza
dos meus tênis e chinelos.
O que me aborrece
é nunca ter uma alma viva
que me dê banho se estou doente.
Ainda não domino a língua dos pássaros.
Mas um dia há de entrar por aquela janela
um bando de andorinhas: que maravilha será
a assepsia que farão nas minhas costas com seus bicos.
quarta-feira, 19 de março de 2014
pinturas
Os sinais do seu corpo
alguém de outro mundo
injetou-os em minha alma.
Sempre que sonho vejo uma ilha
na sua virilha e uma lágrima
na sua coxa.
alguém de outro mundo
injetou-os em minha alma.
Sempre que sonho vejo uma ilha
na sua virilha e uma lágrima
na sua coxa.
totalidade
Os poemas sou eu quem os escolhe.
Há muito tempo pensei que fossem eles
que me pegavam pelas mãos e eu ia com aquela cara
de desamparado que um gato de botas canalha sabe fazer.
Agora tenho consciência (e transe)
de que sou eu quem os escolhe.
Sobretudo aqueles
que adentram as minhas luvas
e me ferroam os dedos: ocultos,
sagrados, completos senhores de si.
Há muito tempo pensei que fossem eles
que me pegavam pelas mãos e eu ia com aquela cara
de desamparado que um gato de botas canalha sabe fazer.
Agora tenho consciência (e transe)
de que sou eu quem os escolhe.
Sobretudo aqueles
que adentram as minhas luvas
e me ferroam os dedos: ocultos,
sagrados, completos senhores de si.
ofício
O dia de São José é o dia em que mais trabalho.
Mas hoje com o punho inflamado a doer - sem condições.
Não descerei pra carpintaria (logo agora que bolei um desenho
incrível). Imagine, meu doce, uma cadeira de balanço de vime joia.
Hoje só me dedicarei a trabalhos leves:
uma carta de amor dita em silêncio
e um soneto alexandrino escrito
com os pés na areia da praia.
Mas hoje com o punho inflamado a doer - sem condições.
Não descerei pra carpintaria (logo agora que bolei um desenho
incrível). Imagine, meu doce, uma cadeira de balanço de vime joia.
Hoje só me dedicarei a trabalhos leves:
uma carta de amor dita em silêncio
e um soneto alexandrino escrito
com os pés na areia da praia.
terça-feira, 18 de março de 2014
sertão
Basta uma tola chuvinha
esfriar um tiquinho o clima
o punho da mão esquerda
começa a inchar e a doer.
Reminiscências do tempo
em que escrevia feito louco
naquele ovo apertado do útero
da minha mãe: lavar a toalha de banho
e espremê-la é fogo, minha querida, é fogo.
esfriar um tiquinho o clima
o punho da mão esquerda
começa a inchar e a doer.
Reminiscências do tempo
em que escrevia feito louco
naquele ovo apertado do útero
da minha mãe: lavar a toalha de banho
e espremê-la é fogo, minha querida, é fogo.
pescaria
Após um poema vem outro.
Acalme-se, veja aquela traça
lutando contra o próprio corpo.
As traças não deveriam cair das paredes.
Mas caem, meu filho, e lutam
pra voltar pra casa.
Após um poema vem outro.
Levante-se, beba água
e espere a hora
do remédio.
Você me parece obstinado.
Contente só depois
de fazer amor.
Acalme-se, veja aquela traça
lutando contra o próprio corpo.
As traças não deveriam cair das paredes.
Mas caem, meu filho, e lutam
pra voltar pra casa.
Após um poema vem outro.
Levante-se, beba água
e espere a hora
do remédio.
Você me parece obstinado.
Contente só depois
de fazer amor.
sótão
Ultimamente quero pessoas simples ao meu redor,
comida simples, uma noite simples, dois comprimidos
simples de engolir.
Lembranças simples
de uma mente que
já se ferrou.
comida simples, uma noite simples, dois comprimidos
simples de engolir.
Lembranças simples
de uma mente que
já se ferrou.
sacerdotisas
As mulheres fazem mágica
com os cabelos, os cílios,
os lábios -
e se escrevem poemas,
enlouquecem-me
de espantos.
Sigo-as cego
seus passos.
Também sei
dos seus trovões
e raios. Quedo-me.
com os cabelos, os cílios,
os lábios -
e se escrevem poemas,
enlouquecem-me
de espantos.
Sigo-as cego
seus passos.
Também sei
dos seus trovões
e raios. Quedo-me.
lázaro
Quando o poema vem
esquenta meus pés
e tinge de cadáver
meu olhar.
Pareço um morto
esperando milagre.
esquenta meus pés
e tinge de cadáver
meu olhar.
Pareço um morto
esperando milagre.
segunda-feira, 17 de março de 2014
epifania
Aguarde o dia da minha felicidade.
Não terá pra ninguém coração tão festivo.
As minhas botas (faz tempo que falei delas)
fugirão sozinhas do quarto e calçarão
os pássaros.
Ajeite-se na varanda
que passarei por aí.
Não jogue suas tranças.
Subirei pelos seus cílios.
Não terá pra ninguém coração tão festivo.
As minhas botas (faz tempo que falei delas)
fugirão sozinhas do quarto e calçarão
os pássaros.
Ajeite-se na varanda
que passarei por aí.
Não jogue suas tranças.
Subirei pelos seus cílios.
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