No lábio superior no canto direito
colado a uma cicatriz adquirida
por arte de criança astuta
tenho um sinal a cada dia
mais vivo e negro.
Sempre ao fazer a barba
curiosamente ocorre um desvio
da lâmina que sangra outra margem.
No meu tempo de trevas
[morto e falido do fígado
aos cabelos] era esse sinal
o meu único refúgio:
algo como um talismã
presságio de renascimento
oração silenciosa de combate.
Aprendi a crer no divino
contemplando esse sinal.
[sobretudo naquelas horas
em que divindade para meus olhos
representava somente fúria e fraqueza]
Agora que ando sobre as águas do banheiro
sinto o perfume das calçadas pelas asas das borboletas
alimento-me bem e ouço a paz reinar dentro dos sentidos
esse sinal parece-me ter mais vida:
move-se, curva-se, sorri.
Eu tenho um acima do lábio superior direito.
Outros têm uma pinta no braço.
[caravelas, lágrimas, folhas]
Ainda há aqueles que nem velhos e sambados
perceberam a longa existência de anjos
colados no corpo só esperando
um olhar atento.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
manhã de domingo
Prefiro ficar com os passarinhos.
Acho que foi isso que sempre quis.
Enquanto o mundo enlouquece
[de maneira cínica] eu me encosto
ao parapeito da varanda e escolho
admirar as tolices as brandas tolices
dos passarinhos de galho em galho
conquistando uns os outros sem alarde.
O sol está bonito, bacana
até as nuvens o cortejam à distância
deixando-lhe espaço para seus raios
atravessarem pupilas, peles e vidraças.
Mas eu prefiro ficar com os passarinhos.
Ninguém é tão bobinho que acredite
que eles falam a minha língua
e sabem da minha companhia.
Claro que não.
Os passarinhos apenas permanecem
de galho em galho com suas tolices
suas brandas tolices
uns conquistando outros
sem fúria, dor e ciúmes.
Conquistam-se assim meio dengosos.
Meio preguiçosos. Meio o poeta hoje.
Acho que foi isso que sempre quis.
Enquanto o mundo enlouquece
[de maneira cínica] eu me encosto
ao parapeito da varanda e escolho
admirar as tolices as brandas tolices
dos passarinhos de galho em galho
conquistando uns os outros sem alarde.
O sol está bonito, bacana
até as nuvens o cortejam à distância
deixando-lhe espaço para seus raios
atravessarem pupilas, peles e vidraças.
Mas eu prefiro ficar com os passarinhos.
Ninguém é tão bobinho que acredite
que eles falam a minha língua
e sabem da minha companhia.
Claro que não.
Os passarinhos apenas permanecem
de galho em galho com suas tolices
suas brandas tolices
uns conquistando outros
sem fúria, dor e ciúmes.
Conquistam-se assim meio dengosos.
Meio preguiçosos. Meio o poeta hoje.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
pijama
Estou pensando em dormir agora
mas antes gostaria de lhe dizer
se porventura está envelhecendo
e a saudade só cresce
então cuide-se
do coração e do juízo
pois natural é que o dia
a cada dia que passe
pinte sua alma
mais jovem
e graciosa.
Amanhã não existe
mas é bom vez por outra
não esquecermos que faz parte
esse jogo essa farsa essa alegria.
mas antes gostaria de lhe dizer
se porventura está envelhecendo
e a saudade só cresce
então cuide-se
do coração e do juízo
pois natural é que o dia
a cada dia que passe
pinte sua alma
mais jovem
e graciosa.
Amanhã não existe
mas é bom vez por outra
não esquecermos que faz parte
esse jogo essa farsa essa alegria.
dose de mercúrio
Uniram-se ao meu corpo
duas novas almas:
um par de óculos [esporte fino]
um guarda-chuva asas de corvo.
Os objetos vêm sem que eu peça.
Compre. Roube.Naturalmente vêm.
Espanta-me a grandeza deles
em volta da minha alma
me olhando
de tal forma que às vezes me questiono
quem de fato é o autor da peleja.
duas novas almas:
um par de óculos [esporte fino]
um guarda-chuva asas de corvo.
Os objetos vêm sem que eu peça.
Compre. Roube.Naturalmente vêm.
Espanta-me a grandeza deles
em volta da minha alma
me olhando
de tal forma que às vezes me questiono
quem de fato é o autor da peleja.
Amsterdã
Sempre pensei que louco
fossem aqueles que rasgavam dinheiro
comiam as próprias fezes
andavam despidos.
Agora tenho clara noção
que existe outra espécie:
os que escrevem versos
em demasia.
E pouco importa se os objetos são fictícios
se a lamúria é patética se o olhar é perdido.
fossem aqueles que rasgavam dinheiro
comiam as próprias fezes
andavam despidos.
Agora tenho clara noção
que existe outra espécie:
os que escrevem versos
em demasia.
E pouco importa se os objetos são fictícios
se a lamúria é patética se o olhar é perdido.
os dois crepúsculos
Assim que vivo:
moendo carnes
e fatiando versos.
A poesia é um golpe de samurai
[a única forma de beber o sangue
é escrevendo]
moendo carnes
e fatiando versos.
A poesia é um golpe de samurai
[a única forma de beber o sangue
é escrevendo]
laboratório
Não é a mesma coisa o poema
que surge do nada e ao vazio se derrama
comparado com aquele escrito em outro instante
por simples inércia do teu corpo não da tua alma.
E não foram os outros que te impuseram o engano.
Nem o passado que te roeu o fígado.
Esqueceste que o vento que sopra
some quando se desperta o olhar.
Difícil é pegar uma bolinha de sabão
com a janela aberta e mesmo assim
[idiota] deixaste para outro dia
o momento do milagre.
E não haverá outro folião, outro anjo, outra lagartixa,
outro tubo de barbear com a boca de golfinho
suspirando mil e tantos arco-íris.
que surge do nada e ao vazio se derrama
comparado com aquele escrito em outro instante
por simples inércia do teu corpo não da tua alma.
E não foram os outros que te impuseram o engano.
Nem o passado que te roeu o fígado.
Esqueceste que o vento que sopra
some quando se desperta o olhar.
Difícil é pegar uma bolinha de sabão
com a janela aberta e mesmo assim
[idiota] deixaste para outro dia
o momento do milagre.
E não haverá outro folião, outro anjo, outra lagartixa,
outro tubo de barbear com a boca de golfinho
suspirando mil e tantos arco-íris.
devaneio
Três palmos acima do piso
desenhos amarelos e tristes
me olham.
Eu não retrocedo um milímetro
da minha vista e passamos assim
durante toda a tarde um flerte abstrato
entre as ideias de um autista,
e sabe-se lá os pensamentos
das cerâmicas do banheiro.
desenhos amarelos e tristes
me olham.
Eu não retrocedo um milímetro
da minha vista e passamos assim
durante toda a tarde um flerte abstrato
entre as ideias de um autista,
e sabe-se lá os pensamentos
das cerâmicas do banheiro.
longo e eterno suspiro
Esperança é um bichinho verde
que se guarda na caixa de sapato.
Tem noite que se ouvem seus berros
e se veem seus tremores.
Os pesadelos da esperança
chegam ao ponto de fazer
mudarem de cor
as suas asas.
Não sei se tu já observaste uma esperança
de madrugada berrando e com o suor
descendo pelos olhos
(creio que lágrimas) .
É algo formidável: depois de todas as tormentas
o bichinho verde até esquece que um dia
foi o ilusório passado
de tanta gente.
Mas o que tem o poeta sábado
(logo um sábado) falando sobre
esperança, bichinho verde,
caixa de sapato.
que se guarda na caixa de sapato.
Tem noite que se ouvem seus berros
e se veem seus tremores.
Os pesadelos da esperança
chegam ao ponto de fazer
mudarem de cor
as suas asas.
Não sei se tu já observaste uma esperança
de madrugada berrando e com o suor
descendo pelos olhos
(creio que lágrimas) .
É algo formidável: depois de todas as tormentas
o bichinho verde até esquece que um dia
foi o ilusório passado
de tanta gente.
Mas o que tem o poeta sábado
(logo um sábado) falando sobre
esperança, bichinho verde,
caixa de sapato.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Aquiles
As suas botas não as deixe no trabalho.
Ouviu, rapaz?
O cesto de roupa suja
(sem o peso das suas botas)
não é o mesmo.
Nunca mais cometa a heresia
de deixar por livre vontade
no armário ou no chão largado
o par de botas.
O seu par de botas
é como se fosse
o batom de Lara:
faz falta dentro da bolsinha da poetisa
quando ela quer escrever algum verso
no ombro de algum passarinho.
Traga sempre o seu par de botas
[na mochila nos seus pés presos às suas asas
mas não o largue nunca nunca mesmo
o seu par de botas é sagrado
ouviu, rapaz?]
Ouviu, rapaz?
O cesto de roupa suja
(sem o peso das suas botas)
não é o mesmo.
Nunca mais cometa a heresia
de deixar por livre vontade
no armário ou no chão largado
o par de botas.
O seu par de botas
é como se fosse
o batom de Lara:
faz falta dentro da bolsinha da poetisa
quando ela quer escrever algum verso
no ombro de algum passarinho.
Traga sempre o seu par de botas
[na mochila nos seus pés presos às suas asas
mas não o largue nunca nunca mesmo
o seu par de botas é sagrado
ouviu, rapaz?]
os meus fantasmas prediletos
Um cara que tem muitas garotas
por que escreve versos?
Versos são para moços tristes
e desvalidos [mesmo que desenhem
no ateliê de Marcantonio
rostos maravilhosos]
Versos são para sujeitos contemplativos
feito Assis que ao olhar uma estrela
esquenta-se o seu sangue
de sertanejo.
Marcantonio e Assis são moços tristes
e desvalidos [ainda que leiam pura Filosofia
escrita nos cantos da sala de Zélia Guardiano]
Não entendo por que sujeitos que têm o cabelo
e a moto de Jorge Pimenta escrevem versos.
E Jorge Pimenta o faz fabuloso
(também é um moço triste
e desvalido)
A verdade é que: tivesse eu
o brilho de Jorge Pimenta
a magia de Marcantonio
e a doçura de Assis,
não escreveria versos
não escreveria versos.
Viveria no alto dos telhados
conversando e comendo gatas.
[daria menos trabalho]
por que escreve versos?
Versos são para moços tristes
e desvalidos [mesmo que desenhem
no ateliê de Marcantonio
rostos maravilhosos]
Versos são para sujeitos contemplativos
feito Assis que ao olhar uma estrela
esquenta-se o seu sangue
de sertanejo.
Marcantonio e Assis são moços tristes
e desvalidos [ainda que leiam pura Filosofia
escrita nos cantos da sala de Zélia Guardiano]
Não entendo por que sujeitos que têm o cabelo
e a moto de Jorge Pimenta escrevem versos.
E Jorge Pimenta o faz fabuloso
(também é um moço triste
e desvalido)
A verdade é que: tivesse eu
o brilho de Jorge Pimenta
a magia de Marcantonio
e a doçura de Assis,
não escreveria versos
não escreveria versos.
Viveria no alto dos telhados
conversando e comendo gatas.
[daria menos trabalho]
bibelôs
Somos tão boçais e inúteis
(não serão nossos versos
a redenção do fingimento)
A flor desenhada na toalha
é mais sincera que as batidas
do meu coração.
Não podemos viver sem inimigos.
Um rosto para esbofetear.
Um pneu para enfiar-lhe pregos.
Devemos compartilhar a nossa idiotice.
A nossa sede desenfreada pelo olhar do outro.
A rachadura da cerâmica significa
muito mais que a saudade antiga
que por um esforço supremo
fiz tremer levemente alguns
e poucos cílios.
O tomate que mastigo
engana-me igualzinho
à maçã de ontem.
Tive que cuspir no guardanapo
o que sobra da esperança.
Maçã podre,
tomate podre
são detalhes
da língua.
Revelador é que o guardanapo estava no chão
solitário sendo levado pelo vento:
bastou-me o gosto horrível na boca
para que ele [o guardanapo]
fosse a tábua de salvação
de um tímido vômito.
Sequer consigo ficar de pé
mórbido e preguiçoso
com as costas voltadas
para o ventilador.
Não existe pufe
[agora é uma cadeira
de plástico preta
que geme]
não duram um mês
as suas pernas de alumínio.
(não serão nossos versos
a redenção do fingimento)
A flor desenhada na toalha
é mais sincera que as batidas
do meu coração.
Não podemos viver sem inimigos.
Um rosto para esbofetear.
Um pneu para enfiar-lhe pregos.
Devemos compartilhar a nossa idiotice.
A nossa sede desenfreada pelo olhar do outro.
A rachadura da cerâmica significa
muito mais que a saudade antiga
que por um esforço supremo
fiz tremer levemente alguns
e poucos cílios.
O tomate que mastigo
engana-me igualzinho
à maçã de ontem.
Tive que cuspir no guardanapo
o que sobra da esperança.
Maçã podre,
tomate podre
são detalhes
da língua.
Revelador é que o guardanapo estava no chão
solitário sendo levado pelo vento:
bastou-me o gosto horrível na boca
para que ele [o guardanapo]
fosse a tábua de salvação
de um tímido vômito.
Sequer consigo ficar de pé
mórbido e preguiçoso
com as costas voltadas
para o ventilador.
Não existe pufe
[agora é uma cadeira
de plástico preta
que geme]
não duram um mês
as suas pernas de alumínio.
elas
Apesar da minha voz mansa
e dos meus olhos miudinhos
não cheiro a rosas
que eu corra cem metros
que eu levante trinta quilos
logo desce meu suor forte
borbulha o sangue rubro.
Ainda estou por saber
o que as meninas
veem em mim
[refiro-me, é claro,
às minhas meninas
formigas]
elas estão sempre aos meus pés
ultimamente deram a sumir
já cheguei a levar a sério
o que alguns místicos disseram
sobre as formigas serem do diabo.
Só sendo mesmo tentações abissais
a me fazerem virar o pescoço agora
e admirar no depósito verde
várias delas saboreando
restos de banana,
rodelas de abacaxi,
maçã e mergulhando
no copo suco de uva.
Não entendo por que não engordam.
Decerto quando malho na academia
elas também levantam pesos
dentro das suas cavernas.
e dos meus olhos miudinhos
não cheiro a rosas
que eu corra cem metros
que eu levante trinta quilos
logo desce meu suor forte
borbulha o sangue rubro.
Ainda estou por saber
o que as meninas
veem em mim
[refiro-me, é claro,
às minhas meninas
formigas]
elas estão sempre aos meus pés
ultimamente deram a sumir
já cheguei a levar a sério
o que alguns místicos disseram
sobre as formigas serem do diabo.
Só sendo mesmo tentações abissais
a me fazerem virar o pescoço agora
e admirar no depósito verde
várias delas saboreando
restos de banana,
rodelas de abacaxi,
maçã e mergulhando
no copo suco de uva.
Não entendo por que não engordam.
Decerto quando malho na academia
elas também levantam pesos
dentro das suas cavernas.
ossos espalhados pelo quarto
Dificilmente o poema está completo.
Os meus, pelo menos.
Sou forçado a vê-los sob a luz do dia
se ainda têm graça nas túnicas
ou se o ímpeto noturno
deu-lhes o amarelado
dos sonhos.
Os meus lençóis
lembram-me que a vida
é cada pedacinho deles.
Arrumo a cama
pensando nos versos.
Na falta de juízo
de toda madrugada
naquele facho de luz
que bate na parede
quando não chove.
Os meus versos oscilam.
Seguram-se no braço da cadeira.
Sabem que estou por perto
para se for o caso
um adeus final
[catarse,
eutanásia]
embora eu prefira
podar uma plantinha
debaixo do olhar grave
de um mestre japonês.
Os meus, pelo menos.
Sou forçado a vê-los sob a luz do dia
se ainda têm graça nas túnicas
ou se o ímpeto noturno
deu-lhes o amarelado
dos sonhos.
Os meus lençóis
lembram-me que a vida
é cada pedacinho deles.
Arrumo a cama
pensando nos versos.
Na falta de juízo
de toda madrugada
naquele facho de luz
que bate na parede
quando não chove.
Os meus versos oscilam.
Seguram-se no braço da cadeira.
Sabem que estou por perto
para se for o caso
um adeus final
[catarse,
eutanásia]
embora eu prefira
podar uma plantinha
debaixo do olhar grave
de um mestre japonês.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
o combate da bailarina
Não se preocupe
você viverá bem
sem os outros.
Aproveite e dê margem
aos que vivem dentro
do seu olhar perdido
da sua voz trêmula.
Não creia que os outros
estarão juntos e lúcidos
na sua hora de loucura
naquela hora de pleno vazio.
O mal dos outros
é que a maioria
não se ama
o bastante
para abrir as portas das gaiolas
deixarem os pássaros em paz.
Sempre têm desculpas
neuroses e medo de ser um deles
um pássaro que cruza nuvens
e é queimado por um raio
que ninguém vê.
Não se preocupe
no exato momento da sua dúvida
você ouvirá o vento limpando
os seus ouvidos
e com a vista baixa
você enfim saberá
por que os dedos dos seus pés
sempre foram longos, tortos,
deselegantes.
E o mais incrível
é que amanhã
os seus dedos serão iguais
aos dedos dos pés dos outros
muito lindos, sem um calo
e sem uma nódoa
[é que a luz perde a claridade
quando acordamos]
você viverá bem
sem os outros.
Aproveite e dê margem
aos que vivem dentro
do seu olhar perdido
da sua voz trêmula.
Não creia que os outros
estarão juntos e lúcidos
na sua hora de loucura
naquela hora de pleno vazio.
O mal dos outros
é que a maioria
não se ama
o bastante
para abrir as portas das gaiolas
deixarem os pássaros em paz.
Sempre têm desculpas
neuroses e medo de ser um deles
um pássaro que cruza nuvens
e é queimado por um raio
que ninguém vê.
Não se preocupe
no exato momento da sua dúvida
você ouvirá o vento limpando
os seus ouvidos
e com a vista baixa
você enfim saberá
por que os dedos dos seus pés
sempre foram longos, tortos,
deselegantes.
E o mais incrível
é que amanhã
os seus dedos serão iguais
aos dedos dos pés dos outros
muito lindos, sem um calo
e sem uma nódoa
[é que a luz perde a claridade
quando acordamos]
âmago
Cresci ouvindo falarem sobre maçã bichada.
Não tinha visto de perto.
Era apenas imaginação.
Fábula.
Há pouco com toda a pureza da realidade
mordi uma maçã bichada e senti na boca
o que é a tristeza da carne.
Agora quando meu filho
(furioso) cuspir um pedaço
direi para o pequeno que maçã só é bichada
se houver as duas: rosada por fora,
podre por dentro
e que a ilusão
é artifício do criador.
Não tinha visto de perto.
Era apenas imaginação.
Fábula.
Há pouco com toda a pureza da realidade
mordi uma maçã bichada e senti na boca
o que é a tristeza da carne.
Agora quando meu filho
(furioso) cuspir um pedaço
direi para o pequeno que maçã só é bichada
se houver as duas: rosada por fora,
podre por dentro
e que a ilusão
é artifício do criador.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
uma orquídea no coração
não te falta amor:
todas as coisas
estão por perto
e sempre te dizem
o que nunca imaginas
então não roubes do outro
a moeda que é de César
o ramo que é de Cristo
nunca te faltou amor
nunca ficaram mudas
as coisas ao teu redor
é bom estar atento
diante de uma serpente
ou olhando uma formiga
talvez penses que são anjos
as coisas que se rebolam
para te chamar atenção
[e será que não são?]
mas nada importa
crença ou juízo perdido
o amor não te falta
é inesgotável o olhar
das coisas em tua volta.
todas as coisas
estão por perto
e sempre te dizem
o que nunca imaginas
então não roubes do outro
a moeda que é de César
o ramo que é de Cristo
nunca te faltou amor
nunca ficaram mudas
as coisas ao teu redor
é bom estar atento
diante de uma serpente
ou olhando uma formiga
talvez penses que são anjos
as coisas que se rebolam
para te chamar atenção
[e será que não são?]
mas nada importa
crença ou juízo perdido
o amor não te falta
é inesgotável o olhar
das coisas em tua volta.
Compostela
Antes que eu chegue à pia do banheiro
vislumbro na segunda cerâmica
um morro de poeira da porta podre
e no alto do varal as camisetas molhadas
já me dão um certo frio na espinha
imaginando suas lambidas
nas minhas costas.
Escovar os dentes
começa pelo caminho.
vislumbro na segunda cerâmica
um morro de poeira da porta podre
e no alto do varal as camisetas molhadas
já me dão um certo frio na espinha
imaginando suas lambidas
nas minhas costas.
Escovar os dentes
começa pelo caminho.
flerte
Guardo cada fio dentário que uso
dentro do bolso do bermudão
e da calça jeans
mais tarde
faço laços costuro
entre os dedos
uma rede
e vou pescar borboletas
no jardim da garagem.
Não há como elas escaparem
da teia úmida dos meus dentes.
dentro do bolso do bermudão
e da calça jeans
mais tarde
faço laços costuro
entre os dedos
uma rede
e vou pescar borboletas
no jardim da garagem.
Não há como elas escaparem
da teia úmida dos meus dentes.
tattoo
O marinheiro tem uma âncora tatuada no braço.
O mergulhador uma espécie de água-marinha.
O louco que salta do penhasco uma gaivota.
Fernando Pessoa talvez tivesse um chapéu.
Bukovski uma garrafa de uísque.
Faz tempo que penso
o que tatuar no braço.
Quem sabe a minha xícara
com as suas duas fissuras na borda
cujo traço se assemelha a um sorriso.
Sinceramente não sei bem
o que tatuar no meu braço.
A foto do meu filho
decerto mas receio
que ao crescer ele
considere patético.
Preciso tatuar alguma coisa
alguma coisa que ao morrer
meu herdeiro venda a pele.
O mergulhador uma espécie de água-marinha.
O louco que salta do penhasco uma gaivota.
Fernando Pessoa talvez tivesse um chapéu.
Bukovski uma garrafa de uísque.
Faz tempo que penso
o que tatuar no braço.
Quem sabe a minha xícara
com as suas duas fissuras na borda
cujo traço se assemelha a um sorriso.
Sinceramente não sei bem
o que tatuar no meu braço.
A foto do meu filho
decerto mas receio
que ao crescer ele
considere patético.
Preciso tatuar alguma coisa
alguma coisa que ao morrer
meu herdeiro venda a pele.
efeito sonoro
Vaidade maior
é estar só
tendo por companhia:
muriçocas, formigas
um par de botas
e uma xícara
ainda assim sorrir
trincar os dentes.
Não é loucura
mas debaixo da cama
tem um arco-íris
cruzando o teto
o braço do Amazonas
[e se eu te dissesse
meu coração toca trombone
e os meus pulmões piano?]
Não te assustes cortei o cabelo
barba feita e pelo quarto
uma onda de jazz.
é estar só
tendo por companhia:
muriçocas, formigas
um par de botas
e uma xícara
ainda assim sorrir
trincar os dentes.
Não é loucura
mas debaixo da cama
tem um arco-íris
cruzando o teto
o braço do Amazonas
[e se eu te dissesse
meu coração toca trombone
e os meus pulmões piano?]
Não te assustes cortei o cabelo
barba feita e pelo quarto
uma onda de jazz.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
dormência
Quem disse que água não tem cabelos?
Ei-los agora voando sobre o asfalto
presente da chuva.
Cheguei a senti-los perfumados
o shampoo da primeira namorada.
Tive que fechar a janela.
Meus olhos choram fácil.
[os pingos da chuva
quando aumentam
trazem ciscos]
Ei-los agora voando sobre o asfalto
presente da chuva.
Cheguei a senti-los perfumados
o shampoo da primeira namorada.
Tive que fechar a janela.
Meus olhos choram fácil.
[os pingos da chuva
quando aumentam
trazem ciscos]
coral
Sinto dizer mas tu não és um gênio.
Ou coisa que o valha.
Estás mais para mediunidade
do que assombro filosófico.
Também (sossega)
não és um bosta.
Ou calhorda.
Teus olhos são gentis.
A tua voz embarga.
Bastando uma mulher linda
o dia lindo e a noite fria.
Encaixa os livros que vendeste
os outros que perdeste nos bares
sai um pouco do quarto
esquece o café.
Sinto dizer mas a poesia
é bem diferente do transe.
Não há nada que enlace
seus cachos nem espartilho
que lhe aperte as costelas
e mesmo assim Ela
vive por aí
aos olhos
de todo mundo
(contenta-se com um chiclete
ou uma moeda antiga)
Não é justo morrer pelos versos
nem matar tua mãe por um punhado
de coisas tolas.
Sinto dizer mas tu és um homem comum
às vezes enlouquece com as bochechas
gordas e rosadas que me lembram
Buda sentado bem tranquilão.
Mas (sossega) já te vi no inferno
e tinhas os olhos fundos
de um quase quase
quase morto.
Ou coisa que o valha.
Estás mais para mediunidade
do que assombro filosófico.
Também (sossega)
não és um bosta.
Ou calhorda.
Teus olhos são gentis.
A tua voz embarga.
Bastando uma mulher linda
o dia lindo e a noite fria.
Encaixa os livros que vendeste
os outros que perdeste nos bares
sai um pouco do quarto
esquece o café.
Sinto dizer mas a poesia
é bem diferente do transe.
Não há nada que enlace
seus cachos nem espartilho
que lhe aperte as costelas
e mesmo assim Ela
vive por aí
aos olhos
de todo mundo
(contenta-se com um chiclete
ou uma moeda antiga)
Não é justo morrer pelos versos
nem matar tua mãe por um punhado
de coisas tolas.
Sinto dizer mas tu és um homem comum
às vezes enlouquece com as bochechas
gordas e rosadas que me lembram
Buda sentado bem tranquilão.
Mas (sossega) já te vi no inferno
e tinhas os olhos fundos
de um quase quase
quase morto.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
reflexo
Não me perguntes
o que quis dizer.
Por vezes até minhas botas
espantam-se com suas solas.
As nuvens não dormem.
Os grilos são surdos.
Mesmo em uma noite clara
há pontas de nuvens em volta
há pares de grilos atrás da porta.
Eu não sei por que as nuvens não dormem.
Mas quando criança me diziam que as nuvens
são asas de anjos dentro de travesseiros.
Os meus travesseiros também não dormem.
Estão cheios de asas de anjos ou de nuvens.
Sei lá, não me perguntes
o que eu quis dizer.
Por vezes até as paredes
horrorizam-se dos insetos.
o que quis dizer.
Por vezes até minhas botas
espantam-se com suas solas.
As nuvens não dormem.
Os grilos são surdos.
Mesmo em uma noite clara
há pontas de nuvens em volta
há pares de grilos atrás da porta.
Eu não sei por que as nuvens não dormem.
Mas quando criança me diziam que as nuvens
são asas de anjos dentro de travesseiros.
Os meus travesseiros também não dormem.
Estão cheios de asas de anjos ou de nuvens.
Sei lá, não me perguntes
o que eu quis dizer.
Por vezes até as paredes
horrorizam-se dos insetos.
o ser
todo santo dia planto trigo
e colho girassóis
nublado ou ardente
debaixo desse céu
toda louca noite
faço meu café
bebo absinto
converso com espantalhos
sou tocado pelo fogo
da mula sem cabeça
da varanda mortos caminham
indiferentes ao que pisam
estrelas no alto
bostinha de poodle na esquina
o milagre não é a luz elétrica
mas o tenro pavio da vela
meu quarto é a minha alma
a toalha pendurada no trinco
os pulmões ainda choram
o resto das lágrimas cinzas
morro mas não dou trégua
invado, masco, torço, sangro
e os versos pulam do além
pingam sobre as cerâmicas
nós sabemos que tudo é uma guerra
olhar para dentro, deixar o corpo
viver alinhado às esferas
por míseros segundos
[até que o trigo cresça,
vire girassóis]
e colho girassóis
nublado ou ardente
debaixo desse céu
toda louca noite
faço meu café
bebo absinto
converso com espantalhos
sou tocado pelo fogo
da mula sem cabeça
da varanda mortos caminham
indiferentes ao que pisam
estrelas no alto
bostinha de poodle na esquina
o milagre não é a luz elétrica
mas o tenro pavio da vela
meu quarto é a minha alma
a toalha pendurada no trinco
os pulmões ainda choram
o resto das lágrimas cinzas
morro mas não dou trégua
invado, masco, torço, sangro
e os versos pulam do além
pingam sobre as cerâmicas
nós sabemos que tudo é uma guerra
olhar para dentro, deixar o corpo
viver alinhado às esferas
por míseros segundos
[até que o trigo cresça,
vire girassóis]
infiltrações
Quantos pratos passaram por minhas mãos
e só agora eu vejo os traços abstratos,
rupestres, geométricos em torno
da circunferência da louça.
Quantas toalhas de mesa coloridas,
recortadas, de plástico e de pano
e só agora eu toco na textura
os olhos inebriados.
Quantos insetos acordaram,
espreguiçaram, bocejaram
recém-nascidos viçosos
e só agora eu sorrio
de volta.
Quantas cadeiras, sofás,
cômodas, cristais, ferro
tive diante da minha alma
e só agora eu percebo
a solidão dos objetos.
Quantos chinelos, tênis,
sapatos, jeans e casacos
perderam-se mofados pelo tempo
e eu sequer derramei uma lágrima.
As pessoas não mudam
(o cabelo que embraquece
os dentes que caem
não é definitivo)
os objetos, no entanto, sob o nosso desleixo
renascem todos os dias com uma nova face.
e só agora eu vejo os traços abstratos,
rupestres, geométricos em torno
da circunferência da louça.
Quantas toalhas de mesa coloridas,
recortadas, de plástico e de pano
e só agora eu toco na textura
os olhos inebriados.
Quantos insetos acordaram,
espreguiçaram, bocejaram
recém-nascidos viçosos
e só agora eu sorrio
de volta.
Quantas cadeiras, sofás,
cômodas, cristais, ferro
tive diante da minha alma
e só agora eu percebo
a solidão dos objetos.
Quantos chinelos, tênis,
sapatos, jeans e casacos
perderam-se mofados pelo tempo
e eu sequer derramei uma lágrima.
As pessoas não mudam
(o cabelo que embraquece
os dentes que caem
não é definitivo)
os objetos, no entanto, sob o nosso desleixo
renascem todos os dias com uma nova face.
o corpo
Constato de fato que borboleta
voa alto atinge nuvens rosadas.
Há uma certa cumplicidade
entre bem-te-vis e gaviões
para que ela voe livre
até enroscar-se no céu
(e nem sei mais o que é borboleta
ou nuvens transfiguradas)
Deixo a janela aberta.
(vai que a borboleta e as nuvens queiram
descansar um pouco os tornozelos sobre
meus chinelões)
voa alto atinge nuvens rosadas.
Há uma certa cumplicidade
entre bem-te-vis e gaviões
para que ela voe livre
até enroscar-se no céu
(e nem sei mais o que é borboleta
ou nuvens transfiguradas)
Deixo a janela aberta.
(vai que a borboleta e as nuvens queiram
descansar um pouco os tornozelos sobre
meus chinelões)
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
ceia
um prego
[ainda que torto
e enferrujado]
no alto da parede
é inofensivo
menos para as moscas
que se perderam
e não sabem onde
a porta de saída:
uma a uma
caem feridas
sem olhos
sem asas.
[bebo meu leite
imaginando a tristeza
daquele que não reconhece
a sua própria cozinha]
[ainda que torto
e enferrujado]
no alto da parede
é inofensivo
menos para as moscas
que se perderam
e não sabem onde
a porta de saída:
uma a uma
caem feridas
sem olhos
sem asas.
[bebo meu leite
imaginando a tristeza
daquele que não reconhece
a sua própria cozinha]
letargia
puseram um armário com espelho sobre o cesto de roupa suja
não gosto de ser observado enquanto pratico crimes
amanhã prego essa coisa na parede
há espaço para todos: pasta dental,
escovas, shampoos exceto
o sabonete que continua
na sua saboneteira
(um barco verde)
não gosto de ser observado enquanto pratico crimes
amanhã prego essa coisa na parede
há espaço para todos: pasta dental,
escovas, shampoos exceto
o sabonete que continua
na sua saboneteira
(um barco verde)
gravidade de coisas abstratas
Não vês o pombo de rara espécie
papo branco e asas pretas
no fio de alta tensão?
E as borboletas de escamas vibrantes
finos pincéis lilases nas faces
de quem tomou ácido
também não vês?
Nem falarei do sol hoje
um duelo contra as nuvens
tentando refletir-se
no meu ombro (antes
da chuva)
papo branco e asas pretas
no fio de alta tensão?
E as borboletas de escamas vibrantes
finos pincéis lilases nas faces
de quem tomou ácido
também não vês?
Nem falarei do sol hoje
um duelo contra as nuvens
tentando refletir-se
no meu ombro (antes
da chuva)
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
facho
Lavando os meus pés vi no meu braço
(ao lado da cicatriz da vacina)
uma bolinha transparente
da espuma do sabonete.
No momento em que vi
pensei (por outra voz)
que certamente
era poesia.
Não havia necessidade
do verso, da busca.
O olhar distante
(que permeia)
já me fazia crer em alguma coisa
bem maior que as palavras.
Mas guardei assim mesmo o instante
para depois resgatar o milagre.
Sei que o fogo alto e claro
ficou para trás.
A poesia é um constante passado.
Não me digam que se domina o tempo.
O poeta não é mágico e louco o suficiente.
Reles sujeito apenas escreve
como faz o vento castelos
sobre penhascos.
(ao lado da cicatriz da vacina)
uma bolinha transparente
da espuma do sabonete.
No momento em que vi
pensei (por outra voz)
que certamente
era poesia.
Não havia necessidade
do verso, da busca.
O olhar distante
(que permeia)
já me fazia crer em alguma coisa
bem maior que as palavras.
Mas guardei assim mesmo o instante
para depois resgatar o milagre.
Sei que o fogo alto e claro
ficou para trás.
A poesia é um constante passado.
Não me digam que se domina o tempo.
O poeta não é mágico e louco o suficiente.
Reles sujeito apenas escreve
como faz o vento castelos
sobre penhascos.
veleiro
O pneu de uma moto que estoura
confunde-se com o estampido
de uma escopeta
mas se o coração estiver tranquilo
pode assemelhar-se esse som
a um assobio de gaivota.
O susto é tão ilusório
quanto as batidas do peito.
Não há monstros atrás da porta.
Não é fantasma a sombra do pijama.
confunde-se com o estampido
de uma escopeta
mas se o coração estiver tranquilo
pode assemelhar-se esse som
a um assobio de gaivota.
O susto é tão ilusório
quanto as batidas do peito.
Não há monstros atrás da porta.
Não é fantasma a sombra do pijama.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
barrinha de cereal
Faça uma vez na vida
o que sua mente deseja:
coma chocolate
e cole o papel
na vidraça.
Assobie para as formigas.
Encoste os olhos de perto.
Não escove os dentes.
Beba água e deixe a garrafa vazia
dentro da geladeira atrás do leite.
Volte à janela:
a vidraça manchada
e o papel caído no tapete.
As formigas estão lá
fazendo uma ponte
entre a varanda
e o quarto.
Beije cada uma
e não lhes dobre
as antenas.
(a sua barba rala
maltrata as meninas )
o que sua mente deseja:
coma chocolate
e cole o papel
na vidraça.
Assobie para as formigas.
Encoste os olhos de perto.
Não escove os dentes.
Beba água e deixe a garrafa vazia
dentro da geladeira atrás do leite.
Volte à janela:
a vidraça manchada
e o papel caído no tapete.
As formigas estão lá
fazendo uma ponte
entre a varanda
e o quarto.
Beije cada uma
e não lhes dobre
as antenas.
(a sua barba rala
maltrata as meninas )
claridade
Levei tua mala até o último andar
ajudei na tua mudança depois sumiste
deixando na escadaria o brilho do teu riso
de aparelho ortodôntico.
Três dias seguidos prostrei-me no corredor.
Arriscava sorrateiro à porta do teu apartamento.
Depois no banquinho perto da capela.
Sempre de olho comprido pro teu bloco.
Pra tua garagem.
Bastava ouvir um ronco de carro
interfonava ao comparsa:
"é ela?"
Nunca eras tu.
Tu tens asas?
Quem ganhou com a tua vinda
foi o camarada porteiro:
vivo acampado no hall oferecendo-lhe
cafezinhos e sanduíches por informações
sigilosas a teu respeito.
Sei que és de uma ilha.
Sei que estás de passagem.
Esquento a cachola pensando
se não és de fato um sonho.
Dos sonhos eu fujo
(nem quero conversa
sequer piscadela de cílios)
O porteiro camarada
garantiu-me que és solteira.
Jurou-me de pés juntos
que não recebes visitas.
Pergunto-me se não és um feitiço
adorável presente de Iemanjá.
Búzios costurados em saia branca.
Guizos presos aos tornozelos.
ajudei na tua mudança depois sumiste
deixando na escadaria o brilho do teu riso
de aparelho ortodôntico.
Três dias seguidos prostrei-me no corredor.
Arriscava sorrateiro à porta do teu apartamento.
Depois no banquinho perto da capela.
Sempre de olho comprido pro teu bloco.
Pra tua garagem.
Bastava ouvir um ronco de carro
interfonava ao comparsa:
"é ela?"
Nunca eras tu.
Tu tens asas?
Quem ganhou com a tua vinda
foi o camarada porteiro:
vivo acampado no hall oferecendo-lhe
cafezinhos e sanduíches por informações
sigilosas a teu respeito.
Sei que és de uma ilha.
Sei que estás de passagem.
Esquento a cachola pensando
se não és de fato um sonho.
Dos sonhos eu fujo
(nem quero conversa
sequer piscadela de cílios)
O porteiro camarada
garantiu-me que és solteira.
Jurou-me de pés juntos
que não recebes visitas.
Pergunto-me se não és um feitiço
adorável presente de Iemanjá.
Búzios costurados em saia branca.
Guizos presos aos tornozelos.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
matadouro
Sim, tu ouvirás um blues
e ninguém te acordará.
Passarás a eternidade
ouvindo o giz cortante
da guitarra elétrica.
Dos céus nada de trombetas:
os anjos tocam gaita
e trombone.
Acordarás feito homem
(olhos negros e andado
de buldogue)
deixarás para sempre
morta no jardim
a saudade.
Serás gentil com as tuas vizinhas
comerás cada uma delas
sem tantos detalhes
pros amigos.
Mestres de plano algum
vão saber das tuas noites
dos teus tênis sujos
do teu casaco jeans.
Ouvirás o dia todo
coletâneas de blues.
Colherás algodão
às margens do Mississipi
(o teu violão de doze cordas
nas costas)
Serás homem de verdade
e amarás cada mulher
no altar (esquece
o vinho)
Assim, feliz e endiabrado
louco e santo, morrerás.
Morrerás, baby
feito homem
(calos nos dedos
e doce embriaguez
pelos olhos)
e ninguém te acordará.
Passarás a eternidade
ouvindo o giz cortante
da guitarra elétrica.
Dos céus nada de trombetas:
os anjos tocam gaita
e trombone.
Acordarás feito homem
(olhos negros e andado
de buldogue)
deixarás para sempre
morta no jardim
a saudade.
Serás gentil com as tuas vizinhas
comerás cada uma delas
sem tantos detalhes
pros amigos.
Mestres de plano algum
vão saber das tuas noites
dos teus tênis sujos
do teu casaco jeans.
Ouvirás o dia todo
coletâneas de blues.
Colherás algodão
às margens do Mississipi
(o teu violão de doze cordas
nas costas)
Serás homem de verdade
e amarás cada mulher
no altar (esquece
o vinho)
Assim, feliz e endiabrado
louco e santo, morrerás.
Morrerás, baby
feito homem
(calos nos dedos
e doce embriaguez
pelos olhos)
domingo, 13 de fevereiro de 2011
ondulações
O vento da área de serviço
que toca e faz tremer o lençol da cama
lá fora agita os galhos das árvores
e não há diferença.
Esse vento que invade o quarto
também abraça as calçadas.
A única testemunha é o coração atento
dos pássaros que fecham os olhos
das minhas botas que se calam.
Não sei quantos pássaros suportam
o interlúdio entre o azul do céu
e o cinzento das nuvens
mas as minhas botas com os bicos
enterrados na lixeira
hão de viver mais tempo
que um papagaio de plástico.
que toca e faz tremer o lençol da cama
lá fora agita os galhos das árvores
e não há diferença.
Esse vento que invade o quarto
também abraça as calçadas.
A única testemunha é o coração atento
dos pássaros que fecham os olhos
das minhas botas que se calam.
Não sei quantos pássaros suportam
o interlúdio entre o azul do céu
e o cinzento das nuvens
mas as minhas botas com os bicos
enterrados na lixeira
hão de viver mais tempo
que um papagaio de plástico.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
rinoceronte
Meus óculos fazem falta.
Imensa falta.
Tortura quando avisto um inseto imóvel
e não consigo acertar o alvo
lançando os olhos.
Embora eu tente até três vezes.
Na quarta o inseto sempre voa
(e meus olhos deixam marcas no teto)
Lembro-me de uma noite
em que amanheci caolho.
E pelo quarto desfilava uma espécie
com um olho a mais (pela solidão do olhar
calculei que era o meu) peguei-o na marra
entre chaves de braço
e mordidas.
(imagino o próximo assalto
agora a nova espécie
com meus óculos)
Imensa falta.
Tortura quando avisto um inseto imóvel
e não consigo acertar o alvo
lançando os olhos.
Embora eu tente até três vezes.
Na quarta o inseto sempre voa
(e meus olhos deixam marcas no teto)
Lembro-me de uma noite
em que amanheci caolho.
E pelo quarto desfilava uma espécie
com um olho a mais (pela solidão do olhar
calculei que era o meu) peguei-o na marra
entre chaves de braço
e mordidas.
(imagino o próximo assalto
agora a nova espécie
com meus óculos)
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
happy hour
A verdade é que as mulheres estonteantes
têm em volta homens de puro sangue.
O meu sangue é impuro.
Só tenho aos meus pés
formigas e botas.
E ao lado delas mantenho
uma relação incestuosa
(uma vez que sou pai
de tudo que calço
e admiro)
As mulheres que deus fez
deveriam olhar de perto
o moço com seu guarda-chuva
igual a um corvo bicando grama.
O meu guarda-chuva é um corvo bicando grama.
Isso pra mim é um milagre.
E o sol do entardecer
atrás da torre do casarão
é outro milagre.
têm em volta homens de puro sangue.
O meu sangue é impuro.
Só tenho aos meus pés
formigas e botas.
E ao lado delas mantenho
uma relação incestuosa
(uma vez que sou pai
de tudo que calço
e admiro)
As mulheres que deus fez
deveriam olhar de perto
o moço com seu guarda-chuva
igual a um corvo bicando grama.
O meu guarda-chuva é um corvo bicando grama.
Isso pra mim é um milagre.
E o sol do entardecer
atrás da torre do casarão
é outro milagre.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
praça
Hoje choveu e não vou te dizer
que é a mesma coisa (olhos tenros
e coração apertado) ao contrário
nessa tarde gargalhei qual um louco
e os meus olhos sangraram de felicidade.
Já tenho a epígrafe
que tatuarei no braço.
São três versos simples.
Quando inscritos (modelo tribal)
tu então saberás a que distância
segue firme e forte o meu amor pela vida.
Hoje choveu e eu entendi que aos pombos
não há dia trágico se houver banquete na praça.
Com sensível elegância essas criaturinhas terríveis
bicavam o arroz, desfiavam a carne, guinchavam
(do fundo da marmita) o macarrão molhado.
Se porventura amanhã o sol abrir e lhes queime
o pescoço lá estarão eles com a mesma epifania.
Venho aprendendo muito por esse novo caminho:
a praça inundada ou com as gramíneas secas
os pombos não desejam companhia (apenas
alimento e água) .
A chuva é um descuido dos olhos da mulher.
O sol é a língua de um anjo rebelde.
que é a mesma coisa (olhos tenros
e coração apertado) ao contrário
nessa tarde gargalhei qual um louco
e os meus olhos sangraram de felicidade.
Já tenho a epígrafe
que tatuarei no braço.
São três versos simples.
Quando inscritos (modelo tribal)
tu então saberás a que distância
segue firme e forte o meu amor pela vida.
Hoje choveu e eu entendi que aos pombos
não há dia trágico se houver banquete na praça.
Com sensível elegância essas criaturinhas terríveis
bicavam o arroz, desfiavam a carne, guinchavam
(do fundo da marmita) o macarrão molhado.
Se porventura amanhã o sol abrir e lhes queime
o pescoço lá estarão eles com a mesma epifania.
Venho aprendendo muito por esse novo caminho:
a praça inundada ou com as gramíneas secas
os pombos não desejam companhia (apenas
alimento e água) .
A chuva é um descuido dos olhos da mulher.
O sol é a língua de um anjo rebelde.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
da janela
Para as galinhas
aurora e crepúsculo
é uma coisa só.
Com a diferença que
os cavalheiros galos
cantam logo cedinho
e no fim da tarde as cigarras
com as costelas quebradas
tocam um sax muito louco.
Mesmo que o vento assopre
as páginas do livro sagrado
mesmo que eu leia a parábola
nada deterá a lucidez do fogo:
O sangue dos pulmões cessa
as lágrimas dos olhos invertem caminho
o coração passa a banhar-se com o sal das estrelas.
Para as galinhas baratinhas francesas
é um ótimo petisco e água da chuva
um excelente vinho branco.
Aurora e crepúsculo
para elas têm em comum
unicamente um escuro azulado.
aurora e crepúsculo
é uma coisa só.
Com a diferença que
os cavalheiros galos
cantam logo cedinho
e no fim da tarde as cigarras
com as costelas quebradas
tocam um sax muito louco.
Mesmo que o vento assopre
as páginas do livro sagrado
mesmo que eu leia a parábola
nada deterá a lucidez do fogo:
O sangue dos pulmões cessa
as lágrimas dos olhos invertem caminho
o coração passa a banhar-se com o sal das estrelas.
Para as galinhas baratinhas francesas
é um ótimo petisco e água da chuva
um excelente vinho branco.
Aurora e crepúsculo
para elas têm em comum
unicamente um escuro azulado.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
olhos suspensos
Quem disse
que as minhas botas
são tristes?
Encostadas em uma cortina de vime
elas me dizem: "somos boas meninas"
Passam por elas (e somem)
as sombras das formigas.
Quem disse que os meus fantasmas são humanos?
Dormindo no teto há todos os tipos de insetos.
O único mal fazem para si próprios
quando têm pesadelos e despencam
ao fundo do abismo da minha boca aberta.
Nâo sei se ranger os dentes é meu passatempo predileto.
Nunca ninguém me acordou de madrugada
com algodão-doce e garapa de açúcar.
Os esquilos rangem mais que eu
mesmo assim jamais estão sozinhos.
[têm damas esquilas, senhoras esquilas,
mocinhas esquilas, ninfas esquilas,
colegas de trabalho esquilas,
vizinhas esquilas:
paraíso de esquilas
por apenas
um punhado
de nozes]
que as minhas botas
são tristes?
Encostadas em uma cortina de vime
elas me dizem: "somos boas meninas"
Passam por elas (e somem)
as sombras das formigas.
Quem disse que os meus fantasmas são humanos?
Dormindo no teto há todos os tipos de insetos.
O único mal fazem para si próprios
quando têm pesadelos e despencam
ao fundo do abismo da minha boca aberta.
Nâo sei se ranger os dentes é meu passatempo predileto.
Nunca ninguém me acordou de madrugada
com algodão-doce e garapa de açúcar.
Os esquilos rangem mais que eu
mesmo assim jamais estão sozinhos.
[têm damas esquilas, senhoras esquilas,
mocinhas esquilas, ninfas esquilas,
colegas de trabalho esquilas,
vizinhas esquilas:
paraíso de esquilas
por apenas
um punhado
de nozes]
academia
Se tu estiveres vendo um corpo
colado numa pele de tigresa albina
então olha olha agora
até que as tuas retinas
tornem-se os fios intercalados
do tecido a tua frente:
não leves para o quarto
os rebolados da estranha
que te fez salivar feito asno
postura enlouquecida
pelos campos.
(o momento foge
da mesma forma
que escrevemos)
colado numa pele de tigresa albina
então olha olha agora
até que as tuas retinas
tornem-se os fios intercalados
do tecido a tua frente:
não leves para o quarto
os rebolados da estranha
que te fez salivar feito asno
postura enlouquecida
pelos campos.
(o momento foge
da mesma forma
que escrevemos)
breve entardecer
Dizem que o poeta é um fingidor
porque é inacreditável
a sua tolice humana
enquanto homem comum:
ninguém de perto ou de longe
reconheceria a sua sublimação
os seus versos torrenciais
o seu combate metafísico
o seu olhar translúcido
e as suas asas de fogo
vendo-o gargalhando
contando anedotas fúteis
sendo mais comum e tolo
do que os homens
comuns e tolos.
Pergunto-me depois
(ausente do espantalho)
onde se mete o ente
que voa e rasga nuvens
em qual cidade encantada
esconde-se e morre.
O poeta distante de si
em companhia de outros
ou será um cínico terrível
ou um deus apaixonado
por seus filhos.
Nesse motim de almas
ganha-se a mortalidade
o insignificante lhe morde
fica na sua pele a honra
do humano (e a sua
imensa fraqueza)
porque é inacreditável
a sua tolice humana
enquanto homem comum:
ninguém de perto ou de longe
reconheceria a sua sublimação
os seus versos torrenciais
o seu combate metafísico
o seu olhar translúcido
e as suas asas de fogo
vendo-o gargalhando
contando anedotas fúteis
sendo mais comum e tolo
do que os homens
comuns e tolos.
Pergunto-me depois
(ausente do espantalho)
onde se mete o ente
que voa e rasga nuvens
em qual cidade encantada
esconde-se e morre.
O poeta distante de si
em companhia de outros
ou será um cínico terrível
ou um deus apaixonado
por seus filhos.
Nesse motim de almas
ganha-se a mortalidade
o insignificante lhe morde
fica na sua pele a honra
do humano (e a sua
imensa fraqueza)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
amanhã
Durma comigo,
só comigo
e deus.
Quando acordar
estarei na batalha
do dia
vendo coisas simples,
colhendo flores,
sentindo raiva
de pessoas
pois o animal
em meu coração é livre:
prefiro a quase morte
diária e momentânea
ao equívoco vislumbre
de supor eterno
o que é posse.
Faço questão de amar as pessoas
com todas as minhas armas à vista.
Se alguma delas morrer por minhas mãos
também poderei alegar que estas
há pouco plantaram rosas
e salvaram vidas.
Portanto, durma bem
e saiba que os meus versos
além de mim dançam e se inscrevem
noutras terras, noutros céus e noutros túmulos
e todas as batalhas
e toda a falta de coragem
aliviam o peso e a carga
do que sou enlouquecido
e do que penso
embriagado de clareza.
só comigo
e deus.
Quando acordar
estarei na batalha
do dia
vendo coisas simples,
colhendo flores,
sentindo raiva
de pessoas
pois o animal
em meu coração é livre:
prefiro a quase morte
diária e momentânea
ao equívoco vislumbre
de supor eterno
o que é posse.
Faço questão de amar as pessoas
com todas as minhas armas à vista.
Se alguma delas morrer por minhas mãos
também poderei alegar que estas
há pouco plantaram rosas
e salvaram vidas.
Portanto, durma bem
e saiba que os meus versos
além de mim dançam e se inscrevem
noutras terras, noutros céus e noutros túmulos
e todas as batalhas
e toda a falta de coragem
aliviam o peso e a carga
do que sou enlouquecido
e do que penso
embriagado de clareza.
os dentes dos pré-socráticos
A dra. Renata ordenou-me
(com o seu sorriso doutro mundo)
caso eu comesse goiabas
nada de dentadas infames
(também aconselhável
que eu fatiasse maçãs)
Pensei "meu deus, os meus dentes
como são sensíveis"
Dra. Renata é uma alma feliz.
(e que deus proteja
os seus dentes
de marfim )
Eu (agradecido) seguirei suas recomendações
com o olhar perdido e a faca na mão:
fatiando frutas,
filosofando.
(com o seu sorriso doutro mundo)
caso eu comesse goiabas
nada de dentadas infames
(também aconselhável
que eu fatiasse maçãs)
Pensei "meu deus, os meus dentes
como são sensíveis"
Dra. Renata é uma alma feliz.
(e que deus proteja
os seus dentes
de marfim )
Eu (agradecido) seguirei suas recomendações
com o olhar perdido e a faca na mão:
fatiando frutas,
filosofando.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
dedos de cabelo cortado
Dessa vez não houve como fugirem.
A nova tesourinha até parecia uma guilhotina.
E sem protestos (resignadas à afiada lâmina)
todas as unhas dos pés e das mãos
tombaram sobre a cadeira da varanda
e sobre os jarros.
A brisa (aproveitando-se da vidraça
entreaberta) de leve juntava alguns nacos
daquelas outrora gigantescas unhas de monstro.
Só agora alguns dedos me confessam
que há tempos existe cumplicidade
entre o corte e a unha.
E não importa
se tesourinha
de freira ou ninfa.
(penso comigo como deve ser triste
um cãozinho sem sofá e sem parede)
A nova tesourinha até parecia uma guilhotina.
E sem protestos (resignadas à afiada lâmina)
todas as unhas dos pés e das mãos
tombaram sobre a cadeira da varanda
e sobre os jarros.
A brisa (aproveitando-se da vidraça
entreaberta) de leve juntava alguns nacos
daquelas outrora gigantescas unhas de monstro.
Só agora alguns dedos me confessam
que há tempos existe cumplicidade
entre o corte e a unha.
E não importa
se tesourinha
de freira ou ninfa.
(penso comigo como deve ser triste
um cãozinho sem sofá e sem parede)
cantares
O poema estará pronto
pela manhã quando
os gatos tiverem
descido do telhado
minhas botas pegado sereno
minhas cuecas ainda molhadas
esquecido dentro do bolso
do bermudão (meu pijama)
ao abrir os olhos
será breve o encanto
afinal os poemas são risos de morte
distantes de qualquer previsão
sobre felicidade;
terei forças para meter a mão direita
dentro do bolso e com a esquerda
(trêmula) erguer à vista a face
das palavras
não será diferente de ontem
nem dos últimos dias:
poemas,
bermudão,
pijama.
pela manhã quando
os gatos tiverem
descido do telhado
minhas botas pegado sereno
minhas cuecas ainda molhadas
esquecido dentro do bolso
do bermudão (meu pijama)
ao abrir os olhos
será breve o encanto
afinal os poemas são risos de morte
distantes de qualquer previsão
sobre felicidade;
terei forças para meter a mão direita
dentro do bolso e com a esquerda
(trêmula) erguer à vista a face
das palavras
não será diferente de ontem
nem dos últimos dias:
poemas,
bermudão,
pijama.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
neurose
Expulso meu filho do quarto,
tiro o jazz da vitrola:
é hora do silêncio
arrancar-me
as penas.
Calado eu contemplo
as minhas escamas
que pedem água.
Água que tem vive no mar.
O mar está sombrio nesse instante.
Só caem estrelas tristes
a queimarem os desejos
dos pescadores.
Nada de peixes.
(nem mesmo um cavalo-marinho
com os olhinhos de Neruda)
Pescador faminto não escreve
(o seu cardume dança debaixo do barco)
Difícil escolha: ou furar a jangada
e afogar-se com um peixe na boca
ou se esquecer do tempo
e admirar as estrelas tristes
desabarem.
tiro o jazz da vitrola:
é hora do silêncio
arrancar-me
as penas.
Calado eu contemplo
as minhas escamas
que pedem água.
Água que tem vive no mar.
O mar está sombrio nesse instante.
Só caem estrelas tristes
a queimarem os desejos
dos pescadores.
Nada de peixes.
(nem mesmo um cavalo-marinho
com os olhinhos de Neruda)
Pescador faminto não escreve
(o seu cardume dança debaixo do barco)
Difícil escolha: ou furar a jangada
e afogar-se com um peixe na boca
ou se esquecer do tempo
e admirar as estrelas tristes
desabarem.
aventuras
Aquele velhinho lançado à sorte
andando pela calçada (calvário)
parece ter ao lado
um anjo que lhe cuida
e o que dizer
daquele depenado bebê
no seu berço de espuma
alheio ao tempo
e às esferas?
Na verdade deus é o anjo da velhice
(e da solidão dos recém-nascidos)
Nós poetas ao cruzarmos o corredor escuro
ou dobrarmos a esquina deserta:
estamos por nossa conta
e dúvida.
Oremos para que o tombo
não seja cruel com o velho
tampouco a serpente
chegue à fronha
do pequeno.
andando pela calçada (calvário)
parece ter ao lado
um anjo que lhe cuida
e o que dizer
daquele depenado bebê
no seu berço de espuma
alheio ao tempo
e às esferas?
Na verdade deus é o anjo da velhice
(e da solidão dos recém-nascidos)
Nós poetas ao cruzarmos o corredor escuro
ou dobrarmos a esquina deserta:
estamos por nossa conta
e dúvida.
Oremos para que o tombo
não seja cruel com o velho
tampouco a serpente
chegue à fronha
do pequeno.
episódio
doce de leite
na taça de sorvete
com bolachinhas
de maizena
faz a alma
despregar-se
do corpo
fugir pelo corredor
até o quarto
roubando
o deleite
dos mortais
diabéticos
e não há quem convença
à feliz alma que o corpo
tem a prerrogativa
dos sentidos
em êxtase
(debaixo da cama)
a alma reparte
com as formiguinhas
o último dedo melado
da taça de sorvete:
já não se pode confiar em almas
como antigamente.
na taça de sorvete
com bolachinhas
de maizena
faz a alma
despregar-se
do corpo
fugir pelo corredor
até o quarto
roubando
o deleite
dos mortais
diabéticos
e não há quem convença
à feliz alma que o corpo
tem a prerrogativa
dos sentidos
em êxtase
(debaixo da cama)
a alma reparte
com as formiguinhas
o último dedo melado
da taça de sorvete:
já não se pode confiar em almas
como antigamente.
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