Lembra-se do tempo em que jogava búzios
e convidava entidades para sentar-se
ao seu lado?
Você era um louco, meu chapa
e até a lua cheia ajoelhava-se
diante das suas retinas.
Você jogava xadrez,
lia muitos livros secretos,
pulava de montanhas, andava
pela mata no escuro, colhia lírios
e bebia na mesma fonte das onças pintadas e das serpentes.
Veja só o resultado dessa loucura toda:
virou um monge preso em sua cela
acariciando uma velha estante
e falando sozinho.
sexta-feira, 15 de março de 2013
bolero
Sem ópio, sem vinho
o poeta descobre
que cupins
ao alho
são deliciosos, sobretudo como vingança
por esses diabinhos terem devorado
a porta do seu quarto.
E é tão triste
uma porta oca
caindo da sua cabeça
cachos de madeira podre.
o poeta descobre
que cupins
ao alho
são deliciosos, sobretudo como vingança
por esses diabinhos terem devorado
a porta do seu quarto.
E é tão triste
uma porta oca
caindo da sua cabeça
cachos de madeira podre.
quinta-feira, 14 de março de 2013
convulsões no córtex frontal
Ah, quantos poemas cadáveres tenho
no cemitério de rascunhos
dentro do meu computador
e nos papéis amassados
dentro da lixeira.
Às vezes aproveita-se o braço de um
as vértebras de outro, mas sem o sacrilégio
de fuçar-lhes os ossos: simplesmente na hora
do transe e da ciência encaixa-se uma ideia a uma imagem.
E sinto o frio na espinha
dos mortos que se levantam.
Mesmo depois de morto
o poema morto não morre nunca.
E isso é extraordinário.
no cemitério de rascunhos
dentro do meu computador
e nos papéis amassados
dentro da lixeira.
Às vezes aproveita-se o braço de um
as vértebras de outro, mas sem o sacrilégio
de fuçar-lhes os ossos: simplesmente na hora
do transe e da ciência encaixa-se uma ideia a uma imagem.
E sinto o frio na espinha
dos mortos que se levantam.
Mesmo depois de morto
o poema morto não morre nunca.
E isso é extraordinário.
etéreo
Digo-lhe que sua alma
é feita de nuvens
e a cada dia
um novo rosto se forma
e se desfaz com a mesma surpresa.
Digo-lhe que é pouca a minha saliva
para embebedar o seu corpo,
mas ambos andamos trôpegos
pelo som silencioso das palavras.
As nuvens ora eu pego,
ora você pega e todos os rostos
que conseguimos guardar o deleite maior
é vê-los sumindo do céu que bate no espelho.
é feita de nuvens
e a cada dia
um novo rosto se forma
e se desfaz com a mesma surpresa.
Digo-lhe que é pouca a minha saliva
para embebedar o seu corpo,
mas ambos andamos trôpegos
pelo som silencioso das palavras.
As nuvens ora eu pego,
ora você pega e todos os rostos
que conseguimos guardar o deleite maior
é vê-los sumindo do céu que bate no espelho.
lúcido
As penas que expio hoje em dia
são frutos de um tempo
em que era eu
um menino
maligno
que atravessava palitos
nos abdomes das cigarras
somente para vê-las
voando a cantar
com dor.
são frutos de um tempo
em que era eu
um menino
maligno
que atravessava palitos
nos abdomes das cigarras
somente para vê-las
voando a cantar
com dor.
quarta-feira, 13 de março de 2013
dores postais
O seu travesseiro que você esquentava
entre suas pernas em um tempo
saudosa de mim ou morrendo
de cólica
já fiz dele um boneco de Judas
e todas as noites eu o esfaqueio.
Serei forte do meu jeito
tropeçando nos seus chinelos
e levando-os às narinas sedento.
Se fui um peso para você
saiba que sou uma montanha
para meus ombros e é difícil pedir gentileza
a um estivador no momento em que ele segura
com a mão o navio que parte...
entre suas pernas em um tempo
saudosa de mim ou morrendo
de cólica
já fiz dele um boneco de Judas
e todas as noites eu o esfaqueio.
Serei forte do meu jeito
tropeçando nos seus chinelos
e levando-os às narinas sedento.
Se fui um peso para você
saiba que sou uma montanha
para meus ombros e é difícil pedir gentileza
a um estivador no momento em que ele segura
com a mão o navio que parte...
tambores de um saltimbanco
Dois carocinhos de mamão
esquecidos dentro da geladeira
é uma poesia arrebatadora, meu bem.
Não acredita?
Veja-os com os olhos da imaginação.
Pode-se até dizer que é a mesma coisa
de tirar as botas e ver na sola
uma tampinha de refrigerante
colada a um chiclete.
E o que diria de uma folhinha de oiticica
todas as manhãs uma diferente sobre
o sofá?
Poesia, meu bem,
é tão natural
quanto
viver.
Embora às vezes
a gente pense
em se matar.
Ora, mas o que seria dos carocinhos de mamão
esquecidos dentro da geladeira e da tampinha
de refrigerante colada a um chiclete
se não fosse eu um poeta suicida?
Pra você, meu bem,
basta abrir os olhos.
E se piscar,
não chore.
esquecidos dentro da geladeira
é uma poesia arrebatadora, meu bem.
Não acredita?
Veja-os com os olhos da imaginação.
Pode-se até dizer que é a mesma coisa
de tirar as botas e ver na sola
uma tampinha de refrigerante
colada a um chiclete.
E o que diria de uma folhinha de oiticica
todas as manhãs uma diferente sobre
o sofá?
Poesia, meu bem,
é tão natural
quanto
viver.
Embora às vezes
a gente pense
em se matar.
Ora, mas o que seria dos carocinhos de mamão
esquecidos dentro da geladeira e da tampinha
de refrigerante colada a um chiclete
se não fosse eu um poeta suicida?
Pra você, meu bem,
basta abrir os olhos.
E se piscar,
não chore.
pinça e bisturi
Preciso adotar uma baratinha como amiga de infância
para discutirmos sobre esse vazio existencial
que nos comove tanto.
As baratinhas também sofrem horrores
desse mal que é olhar pras paredes
e ver um sorriso cínico de dentro
das fendas.
Não tenho dúvida de que ela concordaria comigo
que melhor é parede com rachaduras
do que aquelas outras lisinhas,
frescas, recém-saídas
de um conto de fadas.
Seria bacana ouvir uma baratinha
com seus olhos brilhantes gesticulando a mil
a discorrer sobre literatura, filosofia, ocultismo.
E eu do meu jeito bonachão
fingindo ouvi-la só de olho
em suas asas pensando
em como extraí-las.
A verdade é que não me conformo
as baratas terem asas e não voarem
por medo dos céus - que a baratinha não me ouça
mas acho que hoje experimentarei um voo rasante pela casa.
para discutirmos sobre esse vazio existencial
que nos comove tanto.
As baratinhas também sofrem horrores
desse mal que é olhar pras paredes
e ver um sorriso cínico de dentro
das fendas.
Não tenho dúvida de que ela concordaria comigo
que melhor é parede com rachaduras
do que aquelas outras lisinhas,
frescas, recém-saídas
de um conto de fadas.
Seria bacana ouvir uma baratinha
com seus olhos brilhantes gesticulando a mil
a discorrer sobre literatura, filosofia, ocultismo.
E eu do meu jeito bonachão
fingindo ouvi-la só de olho
em suas asas pensando
em como extraí-las.
A verdade é que não me conformo
as baratas terem asas e não voarem
por medo dos céus - que a baratinha não me ouça
mas acho que hoje experimentarei um voo rasante pela casa.
terça-feira, 12 de março de 2013
cântico de Apolo
A poesia me faz chorar quando me mostra a verdade
e não me diz uma palavra. Não é por maldade
que ela age assim: é para que eu me acostume
um pouco mais com o ar
dos seus pulmões.
Penso, que mulher possessiva é essa
que só me quer silêncio, fervura,
dormência , afogamento
e nunca divide comigo
o outro lado da morte.
Entender não entendo,
por isso permaneço
aos seus pés.
Fazendo suas unhas
e limpando seus calos.
e não me diz uma palavra. Não é por maldade
que ela age assim: é para que eu me acostume
um pouco mais com o ar
dos seus pulmões.
Penso, que mulher possessiva é essa
que só me quer silêncio, fervura,
dormência , afogamento
e nunca divide comigo
o outro lado da morte.
Entender não entendo,
por isso permaneço
aos seus pés.
Fazendo suas unhas
e limpando seus calos.
marinheiro
Além de escrever versos
tenho um andado capenga.
E se estou em alto mar
meu olhar é um olhar perdido
pro céu azul
ou cinzento.
Um olhar perdido
sem tábua de salvação,
sem passarinhos e sem golfinhos em volta.
Só os cabelos das ondas
para segurar e fazer
cachos.
tenho um andado capenga.
E se estou em alto mar
meu olhar é um olhar perdido
pro céu azul
ou cinzento.
Um olhar perdido
sem tábua de salvação,
sem passarinhos e sem golfinhos em volta.
Só os cabelos das ondas
para segurar e fazer
cachos.
o menino do dedo lilás
Ainda sou uma criança que come sabonete
de tão apaixonado por chocolate.
Que brinca com os cadarços dos tênis
imaginando tentáculos de monstros marinhos.
Que conversa com as paredes,
conversa com as nuvens,
conversa com formigas
e mata baratas
com requinte
de crueldade.
Ainda sou uma criança barriguda,
lombriguenta, amarela, silenciosa,
distraída, invejosa, olhos tristes
e uma boca grande.
Se vivo só não é por querer
é que sigo ordem do anjo da guarda.
Ele é um tolo,
esse meu anjo da guarda,
mas é somente ele que segura minha mão
naquelas noites em que penso abrir
a porta dos fundos
e ir embora.
de tão apaixonado por chocolate.
Que brinca com os cadarços dos tênis
imaginando tentáculos de monstros marinhos.
Que conversa com as paredes,
conversa com as nuvens,
conversa com formigas
e mata baratas
com requinte
de crueldade.
Ainda sou uma criança barriguda,
lombriguenta, amarela, silenciosa,
distraída, invejosa, olhos tristes
e uma boca grande.
Se vivo só não é por querer
é que sigo ordem do anjo da guarda.
Ele é um tolo,
esse meu anjo da guarda,
mas é somente ele que segura minha mão
naquelas noites em que penso abrir
a porta dos fundos
e ir embora.
a fragilidade dos loucos
Um rato quando está cansado
entra no seu buraco e come queijo.
Mas um poeta não é simplesmente um rato.
Quando estou cansado, querida
corto meu pulso ou bebo
mil comprimidos.
Um dia eu aprendo a gargalhar
a estufar o peito e andar de bicicleta.
entra no seu buraco e come queijo.
Mas um poeta não é simplesmente um rato.
Quando estou cansado, querida
corto meu pulso ou bebo
mil comprimidos.
Um dia eu aprendo a gargalhar
a estufar o peito e andar de bicicleta.
o bufão
Ando com a solidão
em volta do meu pescoço
fazendo aquele barulhinho
de guizos e chocalho de cascavel.
É o meu amuleto a minha velha e boa solidão:
dá-me sorte e me traz tudo que é improvável
de se ver apenas com os olhos de quem
está vivo.
em volta do meu pescoço
fazendo aquele barulhinho
de guizos e chocalho de cascavel.
É o meu amuleto a minha velha e boa solidão:
dá-me sorte e me traz tudo que é improvável
de se ver apenas com os olhos de quem
está vivo.
segunda-feira, 11 de março de 2013
declaração
Não sou eu quem te leva comigo
mas tu desde cedo que trocaste
meu sangue por versos
e tudo que circula em minhas veias
são palavras mudando de pele
entre pedregulhos
e gravetos.
Quando eu estiver bem velhinho
tu ainda serás minha bela camponesa
a amar-me com tanta loucura como no início.
E do meu sangue
havemos de beber
as mesmas palavras
fermentadas pelo tempo.
Que serão outras serpentes
marcando território
pela língua.
mas tu desde cedo que trocaste
meu sangue por versos
e tudo que circula em minhas veias
são palavras mudando de pele
entre pedregulhos
e gravetos.
Quando eu estiver bem velhinho
tu ainda serás minha bela camponesa
a amar-me com tanta loucura como no início.
E do meu sangue
havemos de beber
as mesmas palavras
fermentadas pelo tempo.
Que serão outras serpentes
marcando território
pela língua.
passagem
Você acredita que me conhece.
E se eu lhe dissesse que tenho o rabo
preso entre a porta do céu e a do inferno?
Bom é saber que nem os anjos legais
nem os outros decaídos se importam
com meus versos e minha tenra angústia.
Não creio em coisa alguma senão na poesia.
E o mais belo é que o poema passa
como os carros de boi
passam.
Mas aquele som das rodas de madeira
fica eterno dentro da alma da gente.
E se eu lhe dissesse que tenho o rabo
preso entre a porta do céu e a do inferno?
Bom é saber que nem os anjos legais
nem os outros decaídos se importam
com meus versos e minha tenra angústia.
Não creio em coisa alguma senão na poesia.
E o mais belo é que o poema passa
como os carros de boi
passam.
Mas aquele som das rodas de madeira
fica eterno dentro da alma da gente.
o coxo
Mais uma noite sem dormir andando pela casa de muleta
feito um monge a pagar pelos pecados da juventude.
Até os fantasmas se compadeceram
do meu patético estado e me fizeram
companhia relembrando velhos tempos
em que eu os prendia no guarda-roupa
a torturá-los sem piedade.
Veja só, querida.
Hoje são eles que me aliviam
dessa solidão terrível de tendões inflamados.
Se houvesse ópio na casa
eu encheria minha alma
mas no meu quarto
só há versos.
Alguns já velhinhos de bengala bebendo
seu chazinho e seus biscoitos de gergelim.
Os meus fantasmas nunca mais vou prendê-los
dentro do guarda-roupa ou debaixo da cama.
Foram justamente os meus fantasmas
nessas duas noites seguidas de sofrimento
que me deram a mão e passearam comigo.
Na cozinha de madrugada
as baratas pensam que o reino é delas.
Mas como matá-las
caxingando sem forças
sequer pra segurar um copo d'água?
Aliás, foi uma fantasminha interessante
que me levou o copo à boca e me disse:
"bebe, mocinho, e não se esquece
do seu comprimido, hein?"
Quando eu morrer, querida,
vou me casar com essa fantasminha.
feito um monge a pagar pelos pecados da juventude.
Até os fantasmas se compadeceram
do meu patético estado e me fizeram
companhia relembrando velhos tempos
em que eu os prendia no guarda-roupa
a torturá-los sem piedade.
Veja só, querida.
Hoje são eles que me aliviam
dessa solidão terrível de tendões inflamados.
Se houvesse ópio na casa
eu encheria minha alma
mas no meu quarto
só há versos.
Alguns já velhinhos de bengala bebendo
seu chazinho e seus biscoitos de gergelim.
Os meus fantasmas nunca mais vou prendê-los
dentro do guarda-roupa ou debaixo da cama.
Foram justamente os meus fantasmas
nessas duas noites seguidas de sofrimento
que me deram a mão e passearam comigo.
Na cozinha de madrugada
as baratas pensam que o reino é delas.
Mas como matá-las
caxingando sem forças
sequer pra segurar um copo d'água?
Aliás, foi uma fantasminha interessante
que me levou o copo à boca e me disse:
"bebe, mocinho, e não se esquece
do seu comprimido, hein?"
Quando eu morrer, querida,
vou me casar com essa fantasminha.
domingo, 10 de março de 2013
um gato rixento
Meu filho é um garotão de onze anos
que adora artes marciais
e quando me visita vive
a esmurrar portas e paredes.
Certo dia quebrou a pata
do gato da sua vó
em uma chave
de braço.
A partir daí (tenho impressão)
o gato ao vê-lo acena
com os dedos juntos
para um novo
desafio.
Se o gato da sua vó aparecer novamente
com a outra pata quebrada
ou o olho roxo
a culpa será
desse gato brigão.
que adora artes marciais
e quando me visita vive
a esmurrar portas e paredes.
Certo dia quebrou a pata
do gato da sua vó
em uma chave
de braço.
A partir daí (tenho impressão)
o gato ao vê-lo acena
com os dedos juntos
para um novo
desafio.
Se o gato da sua vó aparecer novamente
com a outra pata quebrada
ou o olho roxo
a culpa será
desse gato brigão.
uma alma gentil
Romântico é um homem muito feliz.
Eu que não conheço felicidade
sou apenas um bárbaro.
Mas isso não me impede
de quando venho do trabalho
estender o braço e tocar as flores
dos jardins alheios ou passar mais de uma hora
observando um pombo coçando as costas e dando pulinhos.
Eu que não conheço felicidade
sou apenas um bárbaro.
Mas isso não me impede
de quando venho do trabalho
estender o braço e tocar as flores
dos jardins alheios ou passar mais de uma hora
observando um pombo coçando as costas e dando pulinhos.
simpatia
Você não precisa gostar de mim
mas me convide às vezes
pra passearmos juntos
que lhe mostro o segredo do sol
que bate na calçada e ilumina
uma fenda no pé da árvore
onde mora uma lagartinha-
de-fogo.
Há quanto tempo que você
não vê uma lagartinha-de-fogo?
Vou contar-lhe um segredo:
sabe por que nos queima a pele
se a lagartinha-de-fogo nos toca?
Porque ela vive ocupada
com seus mil braços
e mil pernas
passando roupas
e frisando os cabelos
com chapa quente de ferreiro.
mas me convide às vezes
pra passearmos juntos
que lhe mostro o segredo do sol
que bate na calçada e ilumina
uma fenda no pé da árvore
onde mora uma lagartinha-
de-fogo.
Há quanto tempo que você
não vê uma lagartinha-de-fogo?
Vou contar-lhe um segredo:
sabe por que nos queima a pele
se a lagartinha-de-fogo nos toca?
Porque ela vive ocupada
com seus mil braços
e mil pernas
passando roupas
e frisando os cabelos
com chapa quente de ferreiro.
isla negra
Quando conheci Pablo Neruda
eu era um peixe pequeno,
asmático e trêmulo.
O poeta chileno teve muito cuidado
em retirar da minha boca o anzol
e mais zelo ainda ao jogar-me
no cesto.
Não houve tempo para me debater.
Pablo Neruda acarinhou minhas escamas.
Olhou-me amorosamente e deu-me um beijo.
Na mesma boca ainda sangrando do anzol.
Subiu uma ladeirinha íngreme assobiando
uma canção de sua aldeia e do alto
respirou fundo admirando o mar.
Eu, peixe pequeno e asmático,
também suspirei emocionado.
Sabia que meu destino
era o fogo e o sal.
Meti logo o dedo na minha goela e entreguei-lhe uma carta
de um jovem que sonhava em ser poeta e aprender coisas.
Coisas do tipo:
pescar e amar
os peixes.
eu era um peixe pequeno,
asmático e trêmulo.
O poeta chileno teve muito cuidado
em retirar da minha boca o anzol
e mais zelo ainda ao jogar-me
no cesto.
Não houve tempo para me debater.
Pablo Neruda acarinhou minhas escamas.
Olhou-me amorosamente e deu-me um beijo.
Na mesma boca ainda sangrando do anzol.
Subiu uma ladeirinha íngreme assobiando
uma canção de sua aldeia e do alto
respirou fundo admirando o mar.
Eu, peixe pequeno e asmático,
também suspirei emocionado.
Sabia que meu destino
era o fogo e o sal.
Meti logo o dedo na minha goela e entreguei-lhe uma carta
de um jovem que sonhava em ser poeta e aprender coisas.
Coisas do tipo:
pescar e amar
os peixes.
sábado, 9 de março de 2013
o degredado
A poesia é uma excelente prisão:
todos os dias eu limpo a vidraça
com meu hálito para que aves
sintam inveja da mocidade
das minhas asas.
As grades lustro usando meus cílios.
E o teto é o bico das minhas botas.
As francesinhas que passeiam
sobre meu prato sempre me
guardam uma migalha
em noites de fome.
E água quem me traz
é uma velha lagartixa.
Bebo da boca dela
e só reclamo quando
sinto gosto de formiga.
No mais, a poesia é uma excelente prisão.
Sobretudo para jovens senhores
cansados da velhice.
todos os dias eu limpo a vidraça
com meu hálito para que aves
sintam inveja da mocidade
das minhas asas.
As grades lustro usando meus cílios.
E o teto é o bico das minhas botas.
As francesinhas que passeiam
sobre meu prato sempre me
guardam uma migalha
em noites de fome.
E água quem me traz
é uma velha lagartixa.
Bebo da boca dela
e só reclamo quando
sinto gosto de formiga.
No mais, a poesia é uma excelente prisão.
Sobretudo para jovens senhores
cansados da velhice.
saudades de marinheiro
Creio que já falei que a minha xícara antiga
em cujos lábios deixei as marcas dos meus dentes
quebrou-se e tive de jogá-la à lixeira da área de serviço.
Por alguns minutos mantive a parte intacta
sobre a estante e até pensei em conservá-la
com o resto de café que havia colado no fundo.
Logo acordei do delírio
e entendi que a minha xícara
mesmo esfarelada dentro da lixeira
não concordaria com essa espécie de mumificação.
Poderia, isso sim,
ter guardado em uma caixa de sapato
suas cinzas e a parte dela que não se quebrou.
Todas as tardes beijaria seus lábios
e lembraria do tempo em que
éramos uma só cerâmica
e uma só alma.
em cujos lábios deixei as marcas dos meus dentes
quebrou-se e tive de jogá-la à lixeira da área de serviço.
Por alguns minutos mantive a parte intacta
sobre a estante e até pensei em conservá-la
com o resto de café que havia colado no fundo.
Logo acordei do delírio
e entendi que a minha xícara
mesmo esfarelada dentro da lixeira
não concordaria com essa espécie de mumificação.
Poderia, isso sim,
ter guardado em uma caixa de sapato
suas cinzas e a parte dela que não se quebrou.
Todas as tardes beijaria seus lábios
e lembraria do tempo em que
éramos uma só cerâmica
e uma só alma.
tríade
O grande trabalho do pescador não é lançar a rede.
Bem antes há de ter o faro de um lenhador.
Escolher a árvore certa.
E depois toda a sensibilidade do carpinteiro
para deixar nos trinques o seu pequeno barco.
Só aí, então, o pescador
ora aos céus e joga
sua rede ao mar.
Bem antes há de ter o faro de um lenhador.
Escolher a árvore certa.
E depois toda a sensibilidade do carpinteiro
para deixar nos trinques o seu pequeno barco.
Só aí, então, o pescador
ora aos céus e joga
sua rede ao mar.
não chores
Estive pensando como amo o mundo.
Seus sorvetes e suas bombas.
Como amo,
como amo
o mundo.
Seus algozes
e seus jardineiros.
O céu que nos engana
fazendo cara que vai chover.
E lá vem o sol
com seus óculos escuros.
Um dia desses atravessei a praia
de um extremo a outro descalço
conversando com as ondas
pra que não molhassem
meu bermudão.
Como amo o mundo.
Seus caranguejos e seus tubarões.
Um tubarão quando não está faminto
parece um golfinho ansioso
por um afago.
O risco é ser esse tubarão um vigarista
e nos comer a mão, o braço, o corpo inteiro.
Como eu amo os golfinhos.
Estes se estão entediados
podem nos atacar,
mas de leve.
Pelo menos os meus golfinhos.
Nunca se sabe o golfinho do outro.
Há golfinhos de certa gente
que é mais carnívoro
que um tubarão
louco.
Por isso, meu filho,
olhe bem pro seu coração.
Indague-se que tipo de golfinho
você alimenta quando está sozinho.
Seus sorvetes e suas bombas.
Como amo,
como amo
o mundo.
Seus algozes
e seus jardineiros.
O céu que nos engana
fazendo cara que vai chover.
E lá vem o sol
com seus óculos escuros.
Um dia desses atravessei a praia
de um extremo a outro descalço
conversando com as ondas
pra que não molhassem
meu bermudão.
Como amo o mundo.
Seus caranguejos e seus tubarões.
Um tubarão quando não está faminto
parece um golfinho ansioso
por um afago.
O risco é ser esse tubarão um vigarista
e nos comer a mão, o braço, o corpo inteiro.
Como eu amo os golfinhos.
Estes se estão entediados
podem nos atacar,
mas de leve.
Pelo menos os meus golfinhos.
Nunca se sabe o golfinho do outro.
Há golfinhos de certa gente
que é mais carnívoro
que um tubarão
louco.
Por isso, meu filho,
olhe bem pro seu coração.
Indague-se que tipo de golfinho
você alimenta quando está sozinho.
os pássaros são formigas
Mudaram-me de quarto
depois que fantasmas
fugiram da porta
da velha porta
morta de cupins.
Não sofram, meus amores.
Já estou quase completo
nessas questões
de dor.
Não da dor trivial do corpo.
Dor normal que é dor de dente
nem da unha do dedão arrancada de um chute.
Mudaram-me de quarto
para estarem próximos
do meu corpo.
Não sabem eles que o meu corpo é um guardião cansado.
A qualquer instante pode acordar atordoado imaginando
o fim do mundo e pular da varanda.
Da varanda, meus amores, é um pulo insignificante.
No final do ano viajarei pras bandas do Tibete.
Dizem que lá há verdadeiros penhascos
dignos de uma morte definitiva.
Mudaram-me de quarto.
E me sinto melhor.
Não pelo quarto em si
mas pelos novos amigos
que estou conquistando:
insetos ainda desconfiados
meio incrédulos da minha solidão.
depois que fantasmas
fugiram da porta
da velha porta
morta de cupins.
Não sofram, meus amores.
Já estou quase completo
nessas questões
de dor.
Não da dor trivial do corpo.
Dor normal que é dor de dente
nem da unha do dedão arrancada de um chute.
Mudaram-me de quarto
para estarem próximos
do meu corpo.
Não sabem eles que o meu corpo é um guardião cansado.
A qualquer instante pode acordar atordoado imaginando
o fim do mundo e pular da varanda.
Da varanda, meus amores, é um pulo insignificante.
No final do ano viajarei pras bandas do Tibete.
Dizem que lá há verdadeiros penhascos
dignos de uma morte definitiva.
Mudaram-me de quarto.
E me sinto melhor.
Não pelo quarto em si
mas pelos novos amigos
que estou conquistando:
insetos ainda desconfiados
meio incrédulos da minha solidão.
olhares
Uma torneira pingando
apenas uma torneira pingando
e o inepto poeta não consegue trocar por outra
falta a chave apropriada embora eu já tenha
tentado com os dentes mas os meus dentes
de bom vampiro não servem pra morder
e girar torneiras pingando.
Os meus caninos são adaptados para morder
pescoços de meninas ingênuas e também
daquele tipo de menina esperta
que no fim da noite
convida-nos toda maliciosa
pra uma última taça de vinho.
Engraçado, nunca soube ao certo
depois de morder os pescoços
das minhas meninas
o que de fato é vinho na taça
e o que é sangue manchado
na minha camisa branca.
apenas uma torneira pingando
e o inepto poeta não consegue trocar por outra
falta a chave apropriada embora eu já tenha
tentado com os dentes mas os meus dentes
de bom vampiro não servem pra morder
e girar torneiras pingando.
Os meus caninos são adaptados para morder
pescoços de meninas ingênuas e também
daquele tipo de menina esperta
que no fim da noite
convida-nos toda maliciosa
pra uma última taça de vinho.
Engraçado, nunca soube ao certo
depois de morder os pescoços
das minhas meninas
o que de fato é vinho na taça
e o que é sangue manchado
na minha camisa branca.
uma manhã singela
Vale a pena estar vivo por esse momento
de há pouco vindo da padaria uma chuvinha fina
e como não havia de ser comendo
o biquinho do pão com os olhos chorosos.
Os pequenos animais que não vemos
mas que andam nos seguindo pelas calçadas
certamente também conviveram comigo desse deleite.
E eu andava vistoso, altivo, meio preguiçoso
cheio de esperança de um mundo tranquilo
em que nos bastaria apenas ir à padaria
debaixo de uma chuvinha fina
e comer os biquinhos dos pães.
de há pouco vindo da padaria uma chuvinha fina
e como não havia de ser comendo
o biquinho do pão com os olhos chorosos.
Os pequenos animais que não vemos
mas que andam nos seguindo pelas calçadas
certamente também conviveram comigo desse deleite.
E eu andava vistoso, altivo, meio preguiçoso
cheio de esperança de um mundo tranquilo
em que nos bastaria apenas ir à padaria
debaixo de uma chuvinha fina
e comer os biquinhos dos pães.
zumbi
O poema tem suas manias.
E cada um é mais louco que o outro.
Tive de acordar já tarde porque
um certo poema simplesmente
ordenou-me que eu fosse ao banheiro
e não me esquecesse de fazê-lo vivo.
E como se faz vivo um poema,
digam-me, senhores, quando o artífice
já anda morto do cansativo dia debaixo de sol.
O poema não se importa com minhas frescuras.
Se trabalhei como peão ou se havia tomado
comprimido para dormir.
Os poemas, como disse, cada um tem sua tática.
Este que agora escrevo levantou-me da cama
a apavorar-me sob um pesadelo
em que eu mijava sem fim.
Na minha idade não há escapatória.
Vai que de fato realiza-se a maldição do poema?
Como de costume venceu-me o poema
e por mistérios e armadilhas
desses sujeitos -
levantei-me,
pus-me as mãos sobre o teclado
e fiz dele, desse poema sacana,
um verdadeiro homem distinto
com mil palavras na boca e um riso
envaidecido de quem ganha a batalha
contra o seu próprio parceiro de trincheira.
Satisfeito, senhor poema?
Agora, por favor, leve-me pra cama.
E cada um é mais louco que o outro.
Tive de acordar já tarde porque
um certo poema simplesmente
ordenou-me que eu fosse ao banheiro
e não me esquecesse de fazê-lo vivo.
E como se faz vivo um poema,
digam-me, senhores, quando o artífice
já anda morto do cansativo dia debaixo de sol.
O poema não se importa com minhas frescuras.
Se trabalhei como peão ou se havia tomado
comprimido para dormir.
Os poemas, como disse, cada um tem sua tática.
Este que agora escrevo levantou-me da cama
a apavorar-me sob um pesadelo
em que eu mijava sem fim.
Na minha idade não há escapatória.
Vai que de fato realiza-se a maldição do poema?
Como de costume venceu-me o poema
e por mistérios e armadilhas
desses sujeitos -
levantei-me,
pus-me as mãos sobre o teclado
e fiz dele, desse poema sacana,
um verdadeiro homem distinto
com mil palavras na boca e um riso
envaidecido de quem ganha a batalha
contra o seu próprio parceiro de trincheira.
Satisfeito, senhor poema?
Agora, por favor, leve-me pra cama.
sexta-feira, 8 de março de 2013
o amor é um troço bacana
As mulheres mesmo que me matem
adoro-as sufocando-me debaixo
do travesseiro ou aplicando
cianureto em minha veia.
O meu grande sonho é morrer pelas mãos de uma mulher.
Seja segurando firme um travesseiro ou uma seringa.
Agora, se possível, deem-me antes um aceno,
um beijo, um afago, uma lágrima sobre
meu ombro e se despeçam.
Eu não me perdoaria a mim mesmo se porventura acordasse
noutro mundo sem a voz feminina dentro do meu coração
dizendo apenas que foi inevitável minha morte.
Que eu era muito triste e cínico
e tudo que escrevi o vento
sem esforço levou.
Digo-lhes, minhas mulheres,
que existe um segredo:
o vento não sabe das suas unhas
que guardo dentro do bolso
do meu bermudão.
As suas unhas vento algum leva.
E mesmo depois de morto darei um jeito
de plantar na minha cova novas orquídeas das unhas de vocês.
adoro-as sufocando-me debaixo
do travesseiro ou aplicando
cianureto em minha veia.
O meu grande sonho é morrer pelas mãos de uma mulher.
Seja segurando firme um travesseiro ou uma seringa.
Agora, se possível, deem-me antes um aceno,
um beijo, um afago, uma lágrima sobre
meu ombro e se despeçam.
Eu não me perdoaria a mim mesmo se porventura acordasse
noutro mundo sem a voz feminina dentro do meu coração
dizendo apenas que foi inevitável minha morte.
Que eu era muito triste e cínico
e tudo que escrevi o vento
sem esforço levou.
Digo-lhes, minhas mulheres,
que existe um segredo:
o vento não sabe das suas unhas
que guardo dentro do bolso
do meu bermudão.
As suas unhas vento algum leva.
E mesmo depois de morto darei um jeito
de plantar na minha cova novas orquídeas das unhas de vocês.
quinta-feira, 7 de março de 2013
caridade
O meu cheiro é forte, meu bem.
De búfalo, de camelo.
Desde criancinha eu tinha um cheiro forte assim.
Inclusive as flores do jardim da minha pracinha
prendiam a respiração quando por perto
eu colhia algumas azaleias.
Faça como as flores da minha infância, meu bem.
Prenda a respiração mas não me deixe sozinho
sem um pouco de perfume nas mãos.
De búfalo, de camelo.
Desde criancinha eu tinha um cheiro forte assim.
Inclusive as flores do jardim da minha pracinha
prendiam a respiração quando por perto
eu colhia algumas azaleias.
Faça como as flores da minha infância, meu bem.
Prenda a respiração mas não me deixe sozinho
sem um pouco de perfume nas mãos.
femininas
Entendo aos poucos mas definitivo
que não são eus que tenho aos montes.
São almas apartadas
que vivem fora.
Agora mesmo há uma que olha da varanda
um passarinho triste equilibrando-se
no fio de alta tensão.
Outra tenta consertar a torneira.
E mais outra oculta debaixo da cama
cata com a língua formigas e saboreia-as.
Os meus eus são complicados.
Racionais e senhores.
As minhas almas, ao contrário,
são leves e cheias de encanto
e passionais.
As minhas almas são moças,
e todas virgens, acredite.
O único conceito que têm de mim
é que não sou atado a nenhuma delas.
As minhas almas só me pedem liberdade.
E olha que até pouco tempo eu pensava
que só eram três.
Vejo que são muitas e muitas delas
ainda bebês se enroscando
entre minhas pernas.
Eu tenho leite, meus amores.
Não se queixem da sede.
Eu tenho braços, meus amores.
Trarei todas para meu peito.
solidão silvestre
Vou tomar pílulas dessas que papagaios assanhados tomam
e vivem se declarando pra mulheres bonitas que passam
debaixo da sua janela -
"curupaco, curupaco, curupaco,
moça bonita quer se casar comigo?"
Mas, que tosca figura a minha,
sou muito tímido e o máximo
que digo -
"curupaco, moça bonita, curupaco,
leu o livro? curupaco, gostou do livro?"
Eis o meu fim
de papagaio velho
mais triste que uma porta
depois que os cupins lhe levaram a alma.
e vivem se declarando pra mulheres bonitas que passam
debaixo da sua janela -
"curupaco, curupaco, curupaco,
moça bonita quer se casar comigo?"
Mas, que tosca figura a minha,
sou muito tímido e o máximo
que digo -
"curupaco, moça bonita, curupaco,
leu o livro? curupaco, gostou do livro?"
Eis o meu fim
de papagaio velho
mais triste que uma porta
depois que os cupins lhe levaram a alma.
o pródigo náufrago
Esquecer uma palavra é o bastante para o poema fincar os pés.
Esconder-se em labirintos de nuvens.
Rejeitar a camisa nova,
os tênis velhos.
Uma palavra esquecida quando já dançava
no dorso da língua é um ato demoníaco
confabulado por certos anjos
que detestam o poema.
E dentro dele, do poema,
incutem-lhe desprezo
por aquele artesão
que perde a vida
para encontrar uma janela aberta.
A palavra que some por essa janela aberta
não causa dor nem saudade porque ela
existiu e foi sã e transparente.
Mas a palavra que escapa do coração
por um tal de esquecimento estranho
que nem esquecimento é,
esse sumiço sim
é uma desordem.
Um pássaro que voa sisudo
descontente do tempo chuvoso.
Esconder-se em labirintos de nuvens.
Rejeitar a camisa nova,
os tênis velhos.
Uma palavra esquecida quando já dançava
no dorso da língua é um ato demoníaco
confabulado por certos anjos
que detestam o poema.
E dentro dele, do poema,
incutem-lhe desprezo
por aquele artesão
que perde a vida
para encontrar uma janela aberta.
A palavra que some por essa janela aberta
não causa dor nem saudade porque ela
existiu e foi sã e transparente.
Mas a palavra que escapa do coração
por um tal de esquecimento estranho
que nem esquecimento é,
esse sumiço sim
é uma desordem.
Um pássaro que voa sisudo
descontente do tempo chuvoso.
a justa sombra da luz
A poesia é um travecão
inebriante sobre o palco
mas quando chega em casa
joga longe os sapatos
e com um cigarro colado
nos lábios de batom vermelho
anda firme
até a varanda.
Se a noite foi boa sorri cínica
mas se a noite foi péssima
dá uma banana e manda
o mundo às favas.
Impressionante a coragem e o esplendor
desse travecão novamente sobre o palco
as mãos glamourosas de quem segura uma flor
e ao mesmo tempo calosas de quem levanta uma parede.
E será o mesmo show dentro de casa uma taça de gim
os sapatos largados debaixo da cama
o sutiã sobre a mesa
o mesmo andado até a varanda
com o cigarro colado nos lábios de batom vermelho
e se a noite foi boa gargalha
e se a noite foi uma droga
fica em silêncio.
A lágrima que desce não é pela noite
nem pela desgraça nem pelo luxo -
a lágrima que desce
é porque é uma lágrima
e tem de descer e não cegar os olhos.
inebriante sobre o palco
mas quando chega em casa
joga longe os sapatos
e com um cigarro colado
nos lábios de batom vermelho
anda firme
até a varanda.
Se a noite foi boa sorri cínica
mas se a noite foi péssima
dá uma banana e manda
o mundo às favas.
Impressionante a coragem e o esplendor
desse travecão novamente sobre o palco
as mãos glamourosas de quem segura uma flor
e ao mesmo tempo calosas de quem levanta uma parede.
E será o mesmo show dentro de casa uma taça de gim
os sapatos largados debaixo da cama
o sutiã sobre a mesa
o mesmo andado até a varanda
com o cigarro colado nos lábios de batom vermelho
e se a noite foi boa gargalha
e se a noite foi uma droga
fica em silêncio.
A lágrima que desce não é pela noite
nem pela desgraça nem pelo luxo -
a lágrima que desce
é porque é uma lágrima
e tem de descer e não cegar os olhos.
imperecível
Penso um dia tatuar meu peito
com o rosto do amor eterno
que é essa vida que levo
esse suicídio que às vezes tento.
O amor não vai embora de mim tão cedo
porque ele ocupa um lugar de vime
e quanto mais chove
ou esquenta
a nossa cabana
fica mais forte
e tenra.
com o rosto do amor eterno
que é essa vida que levo
esse suicídio que às vezes tento.
O amor não vai embora de mim tão cedo
porque ele ocupa um lugar de vime
e quanto mais chove
ou esquenta
a nossa cabana
fica mais forte
e tenra.
terça-feira, 5 de março de 2013
tosco
Ofereça sua narina direita
pra uma enfermeira
entubar-lhe um cano
de borracha
abaixo
e ouça a música do seu vômito
chegando dos seus pulmões,
aí então, menino
você é poeta
e poderá dizer aos sete ventos
que tem um punhal cravado
no seu peito.
pra uma enfermeira
entubar-lhe um cano
de borracha
abaixo
e ouça a música do seu vômito
chegando dos seus pulmões,
aí então, menino
você é poeta
e poderá dizer aos sete ventos
que tem um punhal cravado
no seu peito.
do submergir-se
Por que vocês querem tanto minha alma?
Ela é minha e há
dentro das minhas botas
e pela circunferência
da minha xícara
recanto e lugares
somente dela.
Deixem minha alma em paz quando ela morrer.
Estarei vivo, decerto, mas tão distante
que só poderei ouvir-lhe
seus cantos ou
suas lágrimas.
Esticar a língua, a minha língua,
e bater-lhe contra o seu céu
será impossível.
Ela é minha e há
dentro das minhas botas
e pela circunferência
da minha xícara
recanto e lugares
somente dela.
Deixem minha alma em paz quando ela morrer.
Estarei vivo, decerto, mas tão distante
que só poderei ouvir-lhe
seus cantos ou
suas lágrimas.
Esticar a língua, a minha língua,
e bater-lhe contra o seu céu
será impossível.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
desaparecimento
Aquele poema que nos soa tão verdadeiro
é dito e assoprado aos nossos ouvidos
por nossa alma mais quieta.
Mesmo que falemos de trovões
destroçando nossas costelas
ou de lágrimas ácidas
a queimar nossos
lábios.
Aquele poema que nos vem tão límpido
sem manchas do dia louco que tivemos
e da noite anterior tão pesada
é forjado em nossos pulsos
por nossa alma mais quieta.
Essa alma que não se queixa da chuva
nem da nostálgica lembrança do orvalho.
Aquele poema que nos parece o único
aquele poema que nos acalenta
com suas mãos de fogo
e o seu olhar doce
de menino
é levado à nossa cabeceira
pelas mãos da nossa mãe -
um copo d'água e um comprimido
naquele tempo em que ter febre
era apenas um presságio
da ausência da morte.
Aquele poema que nos salva
é um grito sereno de alguém
que dentro de nossa alma
é a nossa alma
mais quieta.
é dito e assoprado aos nossos ouvidos
por nossa alma mais quieta.
Mesmo que falemos de trovões
destroçando nossas costelas
ou de lágrimas ácidas
a queimar nossos
lábios.
Aquele poema que nos vem tão límpido
sem manchas do dia louco que tivemos
e da noite anterior tão pesada
é forjado em nossos pulsos
por nossa alma mais quieta.
Essa alma que não se queixa da chuva
nem da nostálgica lembrança do orvalho.
Aquele poema que nos parece o único
aquele poema que nos acalenta
com suas mãos de fogo
e o seu olhar doce
de menino
é levado à nossa cabeceira
pelas mãos da nossa mãe -
um copo d'água e um comprimido
naquele tempo em que ter febre
era apenas um presságio
da ausência da morte.
Aquele poema que nos salva
é um grito sereno de alguém
que dentro de nossa alma
é a nossa alma
mais quieta.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
brandura
Delicado assim hoje como estou
não haverá andorinha que resista.
Já preparo a mesa com migalhas de bolo
e um restinho de café na minha xícara
que há pouco
bebi.
As andorinhas adoram
beber a sobra do meu cafezinho
no mesmo canto da xícara
em que colei meus lábios trêmulos.
Dizem elas que é pra começar bem o dia.
Atravessarem nuvens cinzentas
e se molharem da chuva
cantando.
não haverá andorinha que resista.
Já preparo a mesa com migalhas de bolo
e um restinho de café na minha xícara
que há pouco
bebi.
As andorinhas adoram
beber a sobra do meu cafezinho
no mesmo canto da xícara
em que colei meus lábios trêmulos.
Dizem elas que é pra começar bem o dia.
Atravessarem nuvens cinzentas
e se molharem da chuva
cantando.
pescador
Os meus óculos estão velhinhos,
velhinhos, bem velhinhos
mas com eles
que pesco versos
dentro de mim
usando cílios
como anzol
e na ponta
lágrimas
como
isca.
Às vezes eu pesco um par de botas.
Outras vezes um guarda-chuva.
Mas tudo é peixe, meu amor.
usando cílios
como anzol
e na ponta
lágrimas
como
isca.
Às vezes eu pesco um par de botas.
Outras vezes um guarda-chuva.
Mas tudo é peixe, meu amor.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
limpo
Lânguido e sorridente
desvendei sua alma
e agora não há mais tristeza
quando planto uma flor
no jarro da varanda.
O sol lá fora frita ovos na calçada
e o céu de tão azul lembra-me
meu primeiro bermudão.
São só coisas boas, querida
que ultimamente me espantam.
Bob Dylan com sua gaita
e uma banda de nova orleans.
desvendei sua alma
e agora não há mais tristeza
quando planto uma flor
no jarro da varanda.
O sol lá fora frita ovos na calçada
e o céu de tão azul lembra-me
meu primeiro bermudão.
São só coisas boas, querida
que ultimamente me espantam.
Bob Dylan com sua gaita
e uma banda de nova orleans.
míope
É muita sorte agarrar um cílio em plena queda.
Quando ocorre colo o cílio nas pontas dos dedos
e como dizia a minha vó,
faço um pedido.
Às vezes a gente se engana,
não é um cílio -
é uma formiguinha
de asas.
Quando ocorre colo o cílio nas pontas dos dedos
e como dizia a minha vó,
faço um pedido.
Às vezes a gente se engana,
não é um cílio -
é uma formiguinha
de asas.
palavras
São as histórias das palavras
que me fazem curvar a coluna
à procura dos
meus óculos.
Não sou eu quem carrega os sonhos.
São as palavras com as suas mil histórias.
E elas sabem como me deixar maluco
com o seu olhar de perda
e entrelaçamento.
Se eu te contasse os segredos
de cada poema que escrevo,
tu me deixarias sozinho
e correrias atrás
das palavras.
que me fazem curvar a coluna
à procura dos
meus óculos.
Não sou eu quem carrega os sonhos.
São as palavras com as suas mil histórias.
E elas sabem como me deixar maluco
com o seu olhar de perda
e entrelaçamento.
Se eu te contasse os segredos
de cada poema que escrevo,
tu me deixarias sozinho
e correrias atrás
das palavras.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
nirvana
Fiz amor com a plantinha da varanda.
Nascerá um filho com meus olhos
e os cabelos da mãe -
meio amarelos
esverdeados.
As andorinhas ao entardecer que chegarem à janela
terão muito cuidado com suas algazarras
para não perturbar minha plantinha
durante a gravidez.
Nascerá um filho com meus olhos
e os cabelos da mãe -
meio amarelos
esverdeados.
As andorinhas ao entardecer que chegarem à janela
terão muito cuidado com suas algazarras
para não perturbar minha plantinha
durante a gravidez.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
perfume
Os passos de uma mulher
de sapato alto subindo
a escada
fazem-me tremer a medula
de um frio gelado.
Tenho plena consciência
do que ela esconde
dentro da bolsa.
Um cigarro e um batom
depois de largar-me morto.
Morto sobre a cama
vejo-a sorrir e levar minha alma.
Os passos são os mesmos
descendo a escada.
de sapato alto subindo
a escada
fazem-me tremer a medula
de um frio gelado.
Tenho plena consciência
do que ela esconde
dentro da bolsa.
Um cigarro e um batom
depois de largar-me morto.
Morto sobre a cama
vejo-a sorrir e levar minha alma.
Os passos são os mesmos
descendo a escada.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
o bichinho esperança
Dentro do bolso da farda
cabe uma esperançazinha.
E ela veio-me inesperada
apropriando-se dos versos
que guardo no final da tarde.
Meteu-se entre os rabiscos.
Fez das palavras acolchoados.
Tive, entretanto, de retirá-la
do seu deleite entre poemas.
Pois o bolso da minha farda não é confiável.
Tanto pode haver versos quanto veneno.
E eu morreria se aquela esperançazinha
que caiu sobre meu ombro experimentasse
em vez da seiva das árvores o ópio do poeta.
cabe uma esperançazinha.
E ela veio-me inesperada
apropriando-se dos versos
que guardo no final da tarde.
Meteu-se entre os rabiscos.
Fez das palavras acolchoados.
Tive, entretanto, de retirá-la
do seu deleite entre poemas.
Pois o bolso da minha farda não é confiável.
Tanto pode haver versos quanto veneno.
E eu morreria se aquela esperançazinha
que caiu sobre meu ombro experimentasse
em vez da seiva das árvores o ópio do poeta.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
éter
Pergunto-me o que farei com as minhas vértebras
quando eu aprender de vez a levitar
sobre o telhado antigo
da capela do cemitério.
Lá pelo musgo do telhado antigo da capela do cemitério
existem segredos que somente pássaros e gatos conhecem.
Os coveiros sabem da terra.
Sobre os segredos do telhado antigo da capela do cemitério
somente pássaros e gatos são mestres e misteriosos.
Quando eu aprender a levitar definitivamente
sobre o telhado antigo da capela do cemitério
lançarei fora as minhas vértebras ao vento
e convidarei os coveiros a se juntarem
aos gatos e pássaros
sobre o telhado antigo
da capela do cemitério.
Não estou pedindo para que eles se esqueçam das suas covas.
Só quero que os coveiros sorriam um pouco
sem ter que beber pinga
para olhar as unhas.
quando eu aprender de vez a levitar
sobre o telhado antigo
da capela do cemitério.
Lá pelo musgo do telhado antigo da capela do cemitério
existem segredos que somente pássaros e gatos conhecem.
Os coveiros sabem da terra.
Sobre os segredos do telhado antigo da capela do cemitério
somente pássaros e gatos são mestres e misteriosos.
Quando eu aprender a levitar definitivamente
sobre o telhado antigo da capela do cemitério
lançarei fora as minhas vértebras ao vento
e convidarei os coveiros a se juntarem
aos gatos e pássaros
sobre o telhado antigo
da capela do cemitério.
Não estou pedindo para que eles se esqueçam das suas covas.
Só quero que os coveiros sorriam um pouco
sem ter que beber pinga
para olhar as unhas.
luxo
Há dias em que não gosto de ver cadáveres.
Como há dias em que sinto uma saudade
do meu guarda-chuva preto
com o qual eu furava os
olhos dos pombos.
Há dias em que meu coração bate solto entre as costelas
feito um rei preso à sua rainha passeando em um jardim
de uma pequena cidade holandesa.
Em dias assim em que estou cansado
de pintar os cílios dos mortos
e de ouvir meu coração
maluco por uma flor
faço então algo comum aos poetas -
escrevo versos com os olhos
pequeninos de vovó.
E vovó sabia ler em silêncio
como os mortos sabem
ficar quietos
tanto quanto os reis sabem subjugar-se às suas rainhas
e também sabem subjugar-se às tulipas roxas
de uma cidadezinha holandesa.
Como há dias em que sinto uma saudade
do meu guarda-chuva preto
com o qual eu furava os
olhos dos pombos.
Há dias em que meu coração bate solto entre as costelas
feito um rei preso à sua rainha passeando em um jardim
de uma pequena cidade holandesa.
Em dias assim em que estou cansado
de pintar os cílios dos mortos
e de ouvir meu coração
maluco por uma flor
faço então algo comum aos poetas -
escrevo versos com os olhos
pequeninos de vovó.
E vovó sabia ler em silêncio
como os mortos sabem
ficar quietos
tanto quanto os reis sabem subjugar-se às suas rainhas
e também sabem subjugar-se às tulipas roxas
de uma cidadezinha holandesa.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
calçada molhada da chuva
Se você acredita ou não em outra vida
é uma questão insignificante
quando chove
e uma lagartinha
quando chove
e uma lagartinha
passa por cima
do seu chinelo.
almas trôpegas
As minhas lágrimas
são de farinha
de trigo -
beba-as comigo
e deixe-as cair
sobre nossos
corações.
Lágrimas que se compartilham
viram flores dentro do peito
e um dia crescem
até os céus.
são de farinha
de trigo -
beba-as comigo
e deixe-as cair
sobre nossos
corações.
Lágrimas que se compartilham
viram flores dentro do peito
e um dia crescem
até os céus.
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