Se você quiser as minhas mãos
terá que vir ao meu quarto
buscá-las.
Os cães do subterrâneo
que guardavam a porta
dei-lhes veneno.
Agora é só um passarinho
simpático que traz boas-
novas.
Ele canta uma ópera antiga
e patético rodopia.
Se você quiser
poderá levá-lo
também.
Faça-me
esse favor.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
emoção
A segunda vez que me surpreendo
com a imagem formada no fundo
da minha xícara.
Para alguns adivinhos é comum
ver o destino de alguém
no fundo da xícara.
Mas eles, esses delirantes adivinhos,
têm toda uma formação ancestral
de quimeras e delírios.
Fato é que pela segunda vez
deparo-me com a mesma imagem
no fundo da minha xícara formando
um cínico sorriso, sim, um cínico sorriso.
De palhaço, de milionário, de peixe,
de passarinho, da ilustríssima
senhora morte.
Sabe-se lá,
mas um cínico sorriso.
Na terceira vez
eu lanço a xícara
contra as paredes.
com a imagem formada no fundo
da minha xícara.
Para alguns adivinhos é comum
ver o destino de alguém
no fundo da xícara.
Mas eles, esses delirantes adivinhos,
têm toda uma formação ancestral
de quimeras e delírios.
Fato é que pela segunda vez
deparo-me com a mesma imagem
no fundo da minha xícara formando
um cínico sorriso, sim, um cínico sorriso.
De palhaço, de milionário, de peixe,
de passarinho, da ilustríssima
senhora morte.
Sabe-se lá,
mas um cínico sorriso.
Na terceira vez
eu lanço a xícara
contra as paredes.
diálogo
I
Rapaz, bom lavar as louças do almoço.
Não vês que as baratas lambem as antenas?
Mentira, na minha casa nunca houve baratas.
Só francesinhas.
E francesinhas, por favor,
não são baratas - diria,
ninfetas de bolsinha.
II
De qualquer forma,
levanta-te da escrivaninha
e vai lavar as louças do almoço.
Não vês que os ratos espreitam a cozinha?
Que calúnia, na minha casa não existem ratos.
Só ratitas.
E ratitas, por favor,
não são ratos - diria,
psicóticos da outra rua.
Rapaz, bom lavar as louças do almoço.
Não vês que as baratas lambem as antenas?
Mentira, na minha casa nunca houve baratas.
Só francesinhas.
E francesinhas, por favor,
não são baratas - diria,
ninfetas de bolsinha.
II
De qualquer forma,
levanta-te da escrivaninha
e vai lavar as louças do almoço.
Não vês que os ratos espreitam a cozinha?
Que calúnia, na minha casa não existem ratos.
Só ratitas.
E ratitas, por favor,
não são ratos - diria,
psicóticos da outra rua.
paralelos da capela sistina
Dormir de janela aberta
só há um risco - tarde
da noite me espantar
com uma sombra
de anjo sobre
o galho.
A árvore da minha calçada
já quase dormindo comigo.
Não falta à oiticica
vontade.
só há um risco - tarde
da noite me espantar
com uma sombra
de anjo sobre
o galho.
A árvore da minha calçada
já quase dormindo comigo.
Não falta à oiticica
vontade.
exposição
A carta debaixo da manga
no final do jogo será surpresa.
Nem eu tenho noção
da felicidade ao morrer.
Dizem alguns que é leve
quando o corpo fica
na terra, outros
que o bagulho
é pesado.
O que sei realmente
que três dias atrás
tirei da gaveta
uma jaqueta
antiga -
e você não imagina
como fiquei contente
ao vê-la bem, embora
rasgada, furada, cerzida.
Pensei comigo quantos insetos
não passaram por ela nesse longo tempo
dentro de gavetas entre guarda-roupas e cômodas.
Por isso me comovi -
estava mais bela
e confortável.
no final do jogo será surpresa.
Nem eu tenho noção
da felicidade ao morrer.
Dizem alguns que é leve
quando o corpo fica
na terra, outros
que o bagulho
é pesado.
O que sei realmente
que três dias atrás
tirei da gaveta
uma jaqueta
antiga -
e você não imagina
como fiquei contente
ao vê-la bem, embora
rasgada, furada, cerzida.
Pensei comigo quantos insetos
não passaram por ela nesse longo tempo
dentro de gavetas entre guarda-roupas e cômodas.
Por isso me comovi -
estava mais bela
e confortável.
dos embalos
Qual a importância
de onde tu vieste
que interesse
tenho
dos teus mares
e desertos
ultrapassados por tuas pernas
a longos passos ou de mansinho.
O portal é o mesmo,
meu amor - a pergunta
que te faço quem tu serás
diante do teu último suspiro:
uma lebre atônita
sob tremores?
ou uma gaivota
ainda trazendo
preso ao bico
um peixe?
Quem serás tu, meu amor,
no último momento da fala
quando o silêncio te arrancar a voz
e os únicos sons não possam
ser ouvidos?
Bebe teu vinho em paz
e deixa que o poeta
arruma a cama.
de onde tu vieste
que interesse
tenho
dos teus mares
e desertos
ultrapassados por tuas pernas
a longos passos ou de mansinho.
O portal é o mesmo,
meu amor - a pergunta
que te faço quem tu serás
diante do teu último suspiro:
uma lebre atônita
sob tremores?
ou uma gaivota
ainda trazendo
preso ao bico
um peixe?
Quem serás tu, meu amor,
no último momento da fala
quando o silêncio te arrancar a voz
e os únicos sons não possam
ser ouvidos?
Bebe teu vinho em paz
e deixa que o poeta
arruma a cama.
domingo, 29 de setembro de 2013
da vigília
Se fosse fácil
não dar ouvidos
aos maus pensamentos
os diabinhos seriam infantis.
Coisa que não são os diabinhos - infantis.
São todos macacos velhos e velhacos
de primeira sutileza
e última viagem.
Não lute contra eles,
afinal a nossa natureza
parte da loucura das vozes.
E não há nesse mundo
voz que a sua mente
ouça que não tenha
vindo do inferno.
Todas, meu filho,
sem exceção.
No alto da montanha
ou debaixo da sua cama
a voz que chega aos seus ouvidos
parte do inferno - que nada mais é
a sua alma indecisa a que caminho:
se seguir a lucidez do escárnio
ou, apática, debruçar-se
sobre os encantos
deles -
todos são vistosos,
meu filho, de fato
encantadores.
Não é fácil ultrapassá-los
se o corpo deles é semelhante
ao nosso corpo e a alma deles
conhece mais segredos dos céus.
Tente apenas não lhes dar cabimento
esticando tanto o palavrório
nem ofereça tanta seda
ao silêncio.
Nunca se sabe,
meu filho -
se lã nas palavras
ou carrapato na ausência.
não dar ouvidos
aos maus pensamentos
os diabinhos seriam infantis.
Coisa que não são os diabinhos - infantis.
São todos macacos velhos e velhacos
de primeira sutileza
e última viagem.
Não lute contra eles,
afinal a nossa natureza
parte da loucura das vozes.
E não há nesse mundo
voz que a sua mente
ouça que não tenha
vindo do inferno.
Todas, meu filho,
sem exceção.
No alto da montanha
ou debaixo da sua cama
a voz que chega aos seus ouvidos
parte do inferno - que nada mais é
a sua alma indecisa a que caminho:
se seguir a lucidez do escárnio
ou, apática, debruçar-se
sobre os encantos
deles -
todos são vistosos,
meu filho, de fato
encantadores.
Não é fácil ultrapassá-los
se o corpo deles é semelhante
ao nosso corpo e a alma deles
conhece mais segredos dos céus.
Tente apenas não lhes dar cabimento
esticando tanto o palavrório
nem ofereça tanta seda
ao silêncio.
Nunca se sabe,
meu filho -
se lã nas palavras
ou carrapato na ausência.
existência
Quando a cafeteira
faz aquele barulhinho
de voz roufenha e sensual
é sinal de que a minha alma
logo experimentará outro deleite:
nunca é igual a mesma xícara de café.
Aos pulos o meu coração dentro do peito
explica às costelas que é normal esse rubor.
faz aquele barulhinho
de voz roufenha e sensual
é sinal de que a minha alma
logo experimentará outro deleite:
nunca é igual a mesma xícara de café.
Aos pulos o meu coração dentro do peito
explica às costelas que é normal esse rubor.
quando se poda a alma
Uma planta de longos braços
agora são tentáculos mortos
dentro de um saco
[a faca na pia,
esverdeada
lâmina].
Se tivessem abatido um touro
costelas à mostra e sangue
não ficaria tão comovido.
Mas aquela planta extirpada
eu conhecia há muito tempo.
Conversamos sobre a solidão
e cortei as minhas unhas
em sua companhia.
Se fosse um coelho abatido
o couro e pele secando
ao sol da primavera
não estaria
tão comovido.
Mas aquela planta
tínhamos intimidade.
Vejo-a do quarto -
o saco inclinado
não suporta
o peso.
Eram braços viçosos,
longos, verdes.
agora são tentáculos mortos
dentro de um saco
[a faca na pia,
esverdeada
lâmina].
Se tivessem abatido um touro
costelas à mostra e sangue
não ficaria tão comovido.
Mas aquela planta extirpada
eu conhecia há muito tempo.
Conversamos sobre a solidão
e cortei as minhas unhas
em sua companhia.
Se fosse um coelho abatido
o couro e pele secando
ao sol da primavera
não estaria
tão comovido.
Mas aquela planta
tínhamos intimidade.
Vejo-a do quarto -
o saco inclinado
não suporta
o peso.
Eram braços viçosos,
longos, verdes.
levitação
Digo a mim mesmo -
se o corpo coça
coce-o,
mas lúcido
igual à porta do quarto
devorada por cupins famintos.
Existem bactérias bacanas
nesse jogo de quimeras -
nem todo delírio
é insano.
se o corpo coça
coce-o,
mas lúcido
igual à porta do quarto
devorada por cupins famintos.
Existem bactérias bacanas
nesse jogo de quimeras -
nem todo delírio
é insano.
das madeixas
Às vezes a poesia
em seu estado
mais bruto
é bem mais louca
e me foge da mão.
Da mão,
não dos olhos.
E olhando-a de longe
reinicia-se o idílio
até o coito
final.
em seu estado
mais bruto
é bem mais louca
e me foge da mão.
Da mão,
não dos olhos.
E olhando-a de longe
reinicia-se o idílio
até o coito
final.
antes dos sonhos
No tempo em que era noviço
livros e amores minhas ilusões.
Os livros as traças da estante
comeram e outras traças
apagaram da memória.
E os amores,
ainda hoje,
somem.
Não havia alternativa
à minha alma desiludida
senão mesmo escrever poemas.
livros e amores minhas ilusões.
Os livros as traças da estante
comeram e outras traças
apagaram da memória.
E os amores,
ainda hoje,
somem.
Não havia alternativa
à minha alma desiludida
senão mesmo escrever poemas.
sábado, 28 de setembro de 2013
arroubos normais em outras galáxias
Você entenderá a poesia
ao olhar para um eclipse
ver um furto escandaloso
entre o sol, a lua e a terra
e acreditar um fenômeno.
O sol que lança os raios,
lua que atravessa o meio
e a terra que nos embala
em movimentos ilusórios.
Tudo lá em cima
é sorrateira lábia.
ao olhar para um eclipse
ver um furto escandaloso
entre o sol, a lua e a terra
e acreditar um fenômeno.
O sol que lança os raios,
lua que atravessa o meio
e a terra que nos embala
em movimentos ilusórios.
Tudo lá em cima
é sorrateira lábia.
risos
A doce intimidade
dos amantes ébrios
que se espantam tolos
das descobertas incríveis.
Um sinal na virilha, um cílio mais escuro,
um pequeno corte acima da sobrancelha.
E ao caminhar até a cozinha
outra fantástica observação:
o lascivo e mole requebro da amada
nada mais é que a escrivaninha
em falso.
que se espantam tolos
das descobertas incríveis.
Um sinal na virilha, um cílio mais escuro,
um pequeno corte acima da sobrancelha.
E ao caminhar até a cozinha
outra fantástica observação:
o lascivo e mole requebro da amada
nada mais é que a escrivaninha
em falso.
quimerista
Aquela infância que andava
contando quantas calçadas
até a padaria e praça - é ela
quem voltou a viver comigo.
Conto agora quantas calçadas
até o ponto de ônibus e prédio.
Olho para o céu,
olho para o chão -
não encontro
nenhum passarinho
cercado por formigas.
contando quantas calçadas
até a padaria e praça - é ela
quem voltou a viver comigo.
Conto agora quantas calçadas
até o ponto de ônibus e prédio.
Olho para o céu,
olho para o chão -
não encontro
nenhum passarinho
cercado por formigas.
despedida de girassóis
Se a montanha anda muito longe,
traga-a para perto do seu coração.
Que deleite haveria na vida
se não subíssemos uma montanha
nos pelando de medo e de encanto?
E você silenciosa e tão distante
apenas me pergunta se pode ficar
com a minha jaqueta roída e usada.
Depois da minha morte
até minha alma é de alguém.
traga-a para perto do seu coração.
Que deleite haveria na vida
se não subíssemos uma montanha
nos pelando de medo e de encanto?
E você silenciosa e tão distante
apenas me pergunta se pode ficar
com a minha jaqueta roída e usada.
Depois da minha morte
até minha alma é de alguém.
as flores não são as mesmas
Não me acostumo
café com adoçante -
na boca um gosto
de quem beijou
uma morta.
E eu não sou necrófilo, meu amor -
bebo então um café amargo, frio,
coado da meia de minha bota.
café com adoçante -
na boca um gosto
de quem beijou
uma morta.
E eu não sou necrófilo, meu amor -
bebo então um café amargo, frio,
coado da meia de minha bota.
o vazio tem um timbre gracioso
O pântano espera
o dia do renascimento.
E os corvos (alegro-me)
pouco caso fazem
do errante.
O que os corvos desejam
é anoitecer para caçar corujas
ou seriam as corujas devoradoras
de corvos? Só se forem corvos idiotas.
Não os de Poe. Os de Poe eram especiais.
Embora não me lembre
dos detalhes da fuga.
A ponte sustenta o corpo?
Terrível medo do transeunte.
Deveríamos temer se a ponte
segura a nossa pesada alma.
Mas, passaram os corvos
e as corujas e não se ouve
coisa alguma senão a chuva.
o dia do renascimento.
E os corvos (alegro-me)
pouco caso fazem
do errante.
O que os corvos desejam
é anoitecer para caçar corujas
ou seriam as corujas devoradoras
de corvos? Só se forem corvos idiotas.
Não os de Poe. Os de Poe eram especiais.
Embora não me lembre
dos detalhes da fuga.
A ponte sustenta o corpo?
Terrível medo do transeunte.
Deveríamos temer se a ponte
segura a nossa pesada alma.
Mas, passaram os corvos
e as corujas e não se ouve
coisa alguma senão a chuva.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
IML
Enquanto liberam a papelada do meu óbito
deitado na mesa fria passeio os olhos entre
aquela gente triste, sem brilho, em silêncio.
Pelo que vejo não há um poeta
nessa minha plateia
tão fúnebre.
Dormem todos mortos
igual ao tempo outrora
quando pensavam vivos.
Vontade de escrever um poema.
A única caneta está presa à lapela
do jaleco daquela jovem de branco.
Vou até lá,
não resisto.
deitado na mesa fria passeio os olhos entre
aquela gente triste, sem brilho, em silêncio.
Pelo que vejo não há um poeta
nessa minha plateia
tão fúnebre.
Dormem todos mortos
igual ao tempo outrora
quando pensavam vivos.
Vontade de escrever um poema.
A única caneta está presa à lapela
do jaleco daquela jovem de branco.
Vou até lá,
não resisto.
bilhete
Se caírem no seu jardim
tiras do meu coração,
não se assuste -
vá juntando
de pedacinhos
em pedacinhos.
Antes da lua cheia
colho o coração inteiro.
não se assuste -
vá juntando
de pedacinhos
em pedacinhos.
Antes da lua cheia
colho o coração inteiro.
ácido
I
Com um pano molhado
pelo corpo da escrivaninha
consegui remover algumas nódoas:
café, caju, manga, chocolate, vinho.
II
As minhas lágrimas
já corroeram a alma
da minha escrivaninha.
Essas nódoas
não há como
tirá-las.
Com um pano molhado
pelo corpo da escrivaninha
consegui remover algumas nódoas:
café, caju, manga, chocolate, vinho.
II
As minhas lágrimas
já corroeram a alma
da minha escrivaninha.
Essas nódoas
não há como
tirá-las.
teoria básica dos suspiros
Em uma obra poética
existem aqueles suspiros
que partem costelas e outros
que só deixam costelas dormentes.
De ambos os suspiros
eu me alimento quando
escrevo e sei a diferença
de morrer olhando o céu
e de pensar que estou morto.
Olhando o céu
a gente espera
alguma coisa
cair do alto.
Supondo morte imediata
tudo que desejamos
é jamais acordar
no dia seguinte.
existem aqueles suspiros
que partem costelas e outros
que só deixam costelas dormentes.
De ambos os suspiros
eu me alimento quando
escrevo e sei a diferença
de morrer olhando o céu
e de pensar que estou morto.
Olhando o céu
a gente espera
alguma coisa
cair do alto.
Supondo morte imediata
tudo que desejamos
é jamais acordar
no dia seguinte.
amiga de outonos
Alguns centímetros e os seus galhos
tocarão a vidraça da minha janela -
como antigamente, lembra,
adorável oiticica?
Dessa vez se vierem os bárbaros
loucos pra podar os seus dedos -
comprei uma espingarda
de chumbinho.
tocarão a vidraça da minha janela -
como antigamente, lembra,
adorável oiticica?
Dessa vez se vierem os bárbaros
loucos pra podar os seus dedos -
comprei uma espingarda
de chumbinho.
das admoestações
Fato é que preciso
que alguém puxe
a minha orelha
ou a sujeira do meu quarto
matará minhas aranhas,
traças, baratas
e cupins.
Qual a serventia
de uma cela de mosteiro
sem essas doces criaturinhas?
Também preciso, máxima urgência,
que alguém emocione meu coração
e me faça doar todos os tênis sujos
que só juntam lembranças e chicletes.
No mais, meu amor,
caminho como deus
deseja de um poeta.
Sereno -
na paz
delirante.
que alguém puxe
a minha orelha
ou a sujeira do meu quarto
matará minhas aranhas,
traças, baratas
e cupins.
Qual a serventia
de uma cela de mosteiro
sem essas doces criaturinhas?
Também preciso, máxima urgência,
que alguém emocione meu coração
e me faça doar todos os tênis sujos
que só juntam lembranças e chicletes.
No mais, meu amor,
caminho como deus
deseja de um poeta.
Sereno -
na paz
delirante.
dos pequeninos seres
Tolice extasiar-se
só por que beija-flores
entraram por sua varanda
para beber água com açúcar.
De se espantar mesmo se um beija-flor
pousasse sobre a poncheira de vidro
e lhe fizesse companhia
na sua leitura
de Cervantes.
E depois,
em um breve encanto,
dissesse adeus triscando as asas
pelas paredes do seu corredor escuro.
só por que beija-flores
entraram por sua varanda
para beber água com açúcar.
De se espantar mesmo se um beija-flor
pousasse sobre a poncheira de vidro
e lhe fizesse companhia
na sua leitura
de Cervantes.
E depois,
em um breve encanto,
dissesse adeus triscando as asas
pelas paredes do seu corredor escuro.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
sentado à cabeceira da mesa
Você precisou de três dias
para descobrir que eu tinha
morrido: três dias, três dias.
Não sei se em três dias
o tempo de putrefação
do corpo de um poeta,
mas você precisou de três dias
para sentir a falta do meu perfume
pelos corredores e salões do castelo.
Você precisou de três dias
para se dar conta da inutilidade
dos poemas que eu escrevia no sótão.
Três dias é muito tempo.
Creio que em três dias
a alma do poeta
encontra
uma árvore
ou uma formiga
para descansar.
E você precisou justamente
de três dias para descobrir
que eu tinha morrido
e que a minha alma
estava solta
por aí.
Em três dias ocorrem tantos fenômenos
dentro do meu coração - orquídeas
que nascem e jardineiros
que morrem.
E você precisou desses malditos três dias
para entender que a sua vida é mais importante
que qualquer imaginação de infelicidade e doença.
para descobrir que eu tinha
morrido: três dias, três dias.
Não sei se em três dias
o tempo de putrefação
do corpo de um poeta,
mas você precisou de três dias
para sentir a falta do meu perfume
pelos corredores e salões do castelo.
Você precisou de três dias
para se dar conta da inutilidade
dos poemas que eu escrevia no sótão.
Três dias é muito tempo.
Creio que em três dias
a alma do poeta
encontra
uma árvore
ou uma formiga
para descansar.
E você precisou justamente
de três dias para descobrir
que eu tinha morrido
e que a minha alma
estava solta
por aí.
Em três dias ocorrem tantos fenômenos
dentro do meu coração - orquídeas
que nascem e jardineiros
que morrem.
E você precisou desses malditos três dias
para entender que a sua vida é mais importante
que qualquer imaginação de infelicidade e doença.
tumores invisíveis
Um neurocirurgião feliz
é um neurocirurgião feliz.
Imagino que muito
abrirá o cérebro
do paciente
cheio de boas
intenções.
Depois lavará as mãos
até que caiam os dedos.
Nada mais que isso.
Corra, então. E não deixe
que cozinhem a sua mente.
Dentro da sua cabeça
são sementes de mostarda e ideias.
é um neurocirurgião feliz.
Imagino que muito
abrirá o cérebro
do paciente
cheio de boas
intenções.
Depois lavará as mãos
até que caiam os dedos.
Nada mais que isso.
Corra, então. E não deixe
que cozinhem a sua mente.
Dentro da sua cabeça
são sementes de mostarda e ideias.
cócegas entre os dentes
"louco, louco, louco"
você me diz aflita.
sou louco, querida,
não pelo fato de escrever
essas coisas tolas e medíocres.
mas -
veja bem, além de escrever essas coisas
me sinto feliz, revigorado, com vontade
de dar um tiro no meu peito apenas pra
ouvir como ele suspira depois de ferido.
você me diz aflita.
sou louco, querida,
não pelo fato de escrever
essas coisas tolas e medíocres.
mas -
veja bem, além de escrever essas coisas
me sinto feliz, revigorado, com vontade
de dar um tiro no meu peito apenas pra
ouvir como ele suspira depois de ferido.
canção dos rouxinóis
Só esperando a morte
de bermudão caindo,
criando barriga.
Enquanto a morte,
teimosa, não vem -
bebo café,
escrevo poema.
de bermudão caindo,
criando barriga.
Enquanto a morte,
teimosa, não vem -
bebo café,
escrevo poema.
nuvens de papoula
Se as suas mãos
não fizeram bem
o trabalho sujo -
ampute
os dedos.
Seja forte
e tente outro
poema, meu filho.
não fizeram bem
o trabalho sujo -
ampute
os dedos.
Seja forte
e tente outro
poema, meu filho.
quando não se é safado é ridículo
Dificilmente o homem maduro
em meio a adolescentes
jovens e adolescentes
na menor pausa
não veste também a máscara
dos ridículos e passa
a bailar saltitante
sob gracejos.
Compreendo.
Não há como um homem maduro
ser um homem de bom senso,
senhor dos seus atos,
entre adolescentes
jovens e outros
adolescentes
na menor
pausa.
Por isso, a quem preza as asas tortas
e não deseja fazer papel de tolo
cai fora da festa antes
do último improviso
de clarinete.
Ser criança
é outra coisa
bem saudável.
Mas homem maduro embevecido
dos rompantes dos adolescentes jovens
e dos outros adolescentes na menor pausa -
é vergonhoso, sobretudo,
a quem foi bárbaro um dia
e bebeu da cerveja
de Bukowski.
em meio a adolescentes
jovens e adolescentes
na menor pausa
não veste também a máscara
dos ridículos e passa
a bailar saltitante
sob gracejos.
Compreendo.
Não há como um homem maduro
ser um homem de bom senso,
senhor dos seus atos,
entre adolescentes
jovens e outros
adolescentes
na menor
pausa.
Por isso, a quem preza as asas tortas
e não deseja fazer papel de tolo
cai fora da festa antes
do último improviso
de clarinete.
Ser criança
é outra coisa
bem saudável.
Mas homem maduro embevecido
dos rompantes dos adolescentes jovens
e dos outros adolescentes na menor pausa -
é vergonhoso, sobretudo,
a quem foi bárbaro um dia
e bebeu da cerveja
de Bukowski.
dois velhacos
Um velho cínico e sisudo
perguntou a outro velho
cínico e sisudo
o que eles faziam
na praça entre
tantos velhos
santinhos...
fez uma pausa,
concluiu :
"vamos à minha casa
beber uns uísques."
"tem morfina?"
Quase gritou
o segundo velho
cínico e sisudo.
E lá foram eles os dois velhos
cínicos e sisudos com seus pijamas
encardidos - na esquina, um coçou o traseiro
e escarrou no poste e o outro pôs uns óculos ray-ban.
perguntou a outro velho
cínico e sisudo
o que eles faziam
na praça entre
tantos velhos
santinhos...
fez uma pausa,
concluiu :
"vamos à minha casa
beber uns uísques."
"tem morfina?"
Quase gritou
o segundo velho
cínico e sisudo.
E lá foram eles os dois velhos
cínicos e sisudos com seus pijamas
encardidos - na esquina, um coçou o traseiro
e escarrou no poste e o outro pôs uns óculos ray-ban.
banquete em Amsterdã
Por muito tempo sempre tive
boa comida, roupa lavada,
cama confortável e ainda
uns tragos.
Hora de pegar a enxada,
prender bandidos, fazer cálculos,
chegar aos planetas mais distantes,
descobrir o veneno de um novo inseticida,
encontrar a alquimia dos místicos do mar morto,
investir na bolsa, mergulhar no escuro atrás de petróleo,
conversar com macacos aquáticos, fazer o dever de casa,
amar as flores, amar os pombos, amar as velhinhas da igreja,
inventar na garagem outra janela virtual, compor sete sonetos.
Agora é só me levantar da cama,
dois pulos na altura do teto,
dar bom dia às aranhas,
ser forte, feliz
e sadio.
Não esquecer meu bermudão,
calçar meu chinelão, ouvir
um blues.
boa comida, roupa lavada,
cama confortável e ainda
uns tragos.
Hora de pegar a enxada,
prender bandidos, fazer cálculos,
chegar aos planetas mais distantes,
descobrir o veneno de um novo inseticida,
encontrar a alquimia dos místicos do mar morto,
investir na bolsa, mergulhar no escuro atrás de petróleo,
conversar com macacos aquáticos, fazer o dever de casa,
amar as flores, amar os pombos, amar as velhinhas da igreja,
inventar na garagem outra janela virtual, compor sete sonetos.
Agora é só me levantar da cama,
dois pulos na altura do teto,
dar bom dia às aranhas,
ser forte, feliz
e sadio.
Não esquecer meu bermudão,
calçar meu chinelão, ouvir
um blues.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
dos deleites
Formigas bebidas no café são de um tipo,
outra espécie é a que se come
na taça de sorvete.
Contudo,
tanto uma
quanto a outra
dão prazer inquestionável.
Vejam só
a minha cara
de poeta sonso.
outra espécie é a que se come
na taça de sorvete.
Contudo,
tanto uma
quanto a outra
dão prazer inquestionável.
Vejam só
a minha cara
de poeta sonso.
limpeza
Quando estiverem cansados
da festa inútil dos outros
venham à minha casa -
pois aqui é tudo sal,
açúcar e muito
baque.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando estiverem mortos
fantasmas pelas ruas
não se esqueçam
do endereço -
aqui na solidão
da minha casa
o ouro queima
as mãos e não
se bajula alma.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando entenderem
que ídolos são todos ótimos
para se lançarem do precipício -
a porta da minha casa
estará aberta e o trinco
envenenado ao leve toque
um aperto terrível no peito.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando deixarem de ser tolos
cortejando a beleza da família real
não pensem duas vezes visitem minha cela -
aqui entre insetos e paredes
tem uma parada invisível
que nos causa festim
embora fúnebre
e tediosa.
Mas corram,
não se acanhem.
Falta faria eu a mim mesmo.
da festa inútil dos outros
venham à minha casa -
pois aqui é tudo sal,
açúcar e muito
baque.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando estiverem mortos
fantasmas pelas ruas
não se esqueçam
do endereço -
aqui na solidão
da minha casa
o ouro queima
as mãos e não
se bajula alma.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando entenderem
que ídolos são todos ótimos
para se lançarem do precipício -
a porta da minha casa
estará aberta e o trinco
envenenado ao leve toque
um aperto terrível no peito.
Falta faria eu a mim mesmo.
Quando deixarem de ser tolos
cortejando a beleza da família real
não pensem duas vezes visitem minha cela -
aqui entre insetos e paredes
tem uma parada invisível
que nos causa festim
embora fúnebre
e tediosa.
Mas corram,
não se acanhem.
Falta faria eu a mim mesmo.
das riquezas
Não interessa quantos
você pensou em matar:
estupradores, políticos,
falsos profetas, boçais.
Graças ao bom deus
você não apagou
nenhum inseto.
E agora pode deitar-se
com as roupas de cama
trocadas cheirando ainda
aos seus cabelos e costas.
você pensou em matar:
estupradores, políticos,
falsos profetas, boçais.
Graças ao bom deus
você não apagou
nenhum inseto.
E agora pode deitar-se
com as roupas de cama
trocadas cheirando ainda
aos seus cabelos e costas.
aneurisma
As lágrimas de hoje
são exclusivas do poema -
essa capacidade de rastejar-se
pela casa sem pele e sem ossos.
Só as palavras.
são exclusivas do poema -
essa capacidade de rastejar-se
pela casa sem pele e sem ossos.
Só as palavras.
das ternuras
Os porcos não gostam
do meu coração fatiado.
Os passarinhos,
ao contrário,
todas as manhãs
batem na vidraça
da minha janela -
"e aí, compadre, cadê
o coraçãozinho
no espeto?"
do meu coração fatiado.
Os passarinhos,
ao contrário,
todas as manhãs
batem na vidraça
da minha janela -
"e aí, compadre, cadê
o coraçãozinho
no espeto?"
das salivas a mais pura
Se um dia você me visse
chorando (sem motivo
aparente)
só por que vi
um facho de luz
bater na parede
talvez então
você entenderia
o amor delirante -
das botas,
das xícaras,
das formigas.
chorando (sem motivo
aparente)
só por que vi
um facho de luz
bater na parede
talvez então
você entenderia
o amor delirante -
das botas,
das xícaras,
das formigas.
a alma é a fuga
Em silêncio e distante
me perguntas por que
a eternidade da alma
se tudo que sabemos
que ela não se molha
se estamos no chuveiro
ou não arde se no fogo.
O motivo óbvio?
Vê a melancolia
dos meus olhos.
me perguntas por que
a eternidade da alma
se tudo que sabemos
que ela não se molha
se estamos no chuveiro
ou não arde se no fogo.
O motivo óbvio?
Vê a melancolia
dos meus olhos.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
pedintes
Não se iluda
da generosidade
de quem é soberano.
Generoso é aquele
que atravessa a ponte
entre a festa e a solidão.
E confabula consigo mesmo
a maneira mais simples
de oferecer a alma
ao poema.
da generosidade
de quem é soberano.
Generoso é aquele
que atravessa a ponte
entre a festa e a solidão.
E confabula consigo mesmo
a maneira mais simples
de oferecer a alma
ao poema.
torre de babel
Quando eu aprenderei
a língua dos homens
comuns e felizes?
Em casa ou na casa alheia
é a língua do poeta
que me escapa
da boca -
atravesso a linguagem
compreensível do outro
passo por tolos enganos.
Enquanto único desejo
era o profundo silêncio.
a língua dos homens
comuns e felizes?
Em casa ou na casa alheia
é a língua do poeta
que me escapa
da boca -
atravesso a linguagem
compreensível do outro
passo por tolos enganos.
Enquanto único desejo
era o profundo silêncio.
deusas de marfim e porcelana
A beleza de uma mulher
já não me derruba -
o que me intriga
é o perfume
das mãos.
Comerei ou não
os seus dedos?
já não me derruba -
o que me intriga
é o perfume
das mãos.
Comerei ou não
os seus dedos?
minimalista
Ando cansado
e o poema longo
me mata de tédio.
É bom morrer
sem tanto hálito
e sílabas, amor.
e o poema longo
me mata de tédio.
É bom morrer
sem tanto hálito
e sílabas, amor.
da humildade
O poema permite-se,
se o poeta abrir a mente:
o coração é para depois.
Ou você bebe café
sem açúcar?
se o poeta abrir a mente:
o coração é para depois.
Ou você bebe café
sem açúcar?
açaí no pulso
Escrever versos
não te faz uma pessoa
melhor ou pior que as outras.
Mesmo que tu detestes -
não há palco para exibição.
Verme que és,
passarinho
também.
não te faz uma pessoa
melhor ou pior que as outras.
Mesmo que tu detestes -
não há palco para exibição.
Verme que és,
passarinho
também.
sons de Hermeto
Caiu o garfo,
somente isso:
caiu o garfo no piso
da área de serviço.
E eu antes de abaixar-me
pensar em lavar o garfo
pensei primeiro
em escrever
um poema.
somente isso:
caiu o garfo no piso
da área de serviço.
E eu antes de abaixar-me
pensar em lavar o garfo
pensei primeiro
em escrever
um poema.
guizos nas asas
Os passos do tolo
ainda que debaixo
do clarão do fogo
são os passos
do tolo.
No fim do mar
[se pondo] o horizonte
queima os olhos de quem foge.
ainda que debaixo
do clarão do fogo
são os passos
do tolo.
No fim do mar
[se pondo] o horizonte
queima os olhos de quem foge.
apelação
Ando pela casa com o bermudão caindo -
assim que encanto os meus objetos
e as plantinhas da varanda.
assim que encanto os meus objetos
e as plantinhas da varanda.
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