domingo, 7 de junho de 2015

Por alimentar o desejo
De ainda tê-la na minha cama
Conservo seus chinelos do jeito
Que você deixou debaixo da mesa:

Um sobre o outro,
Navios naufragando.
Se as palavras tivessem tanto poder
O poeta seria majestade e mandava
À forca os caretas cínicos e libertava
As bruxas do calabouço sombrio, mas

O que pressinto é que a cada poema escrito
O poeta se perde dentro dos próprios sapatos.

Os sapatos de Drummond
Eram uma coisa, uma coisa.
E poucos pensam naqueles
Que detestam os crédulos,
Os fiéis, os bons e justos.

Detestam, mas convivem
Sem pensar em estrangulá-los.

Pensar até pode.

E poucos compreendem aqueles
Que não sonham em salvar a alma.

Nem por isso vivem ao lado
Dos tolos demoníacos e ávidos.

Esses tristes, esses vazios,
Esses homens de péssima vontade,
Apenas ficam em seus cantos melancólicos.

Lendo um livro
E acarinhando
Um bichano.

Felizes.

sábado, 6 de junho de 2015

Deixei pra trás o último fantasma.
Um bêbado de antepassado que vivia
Seguindo-me os passos sobre meus ombros.

O poeta não julga
As suas ações.

Mas no fundo sabe
Da loucura do vinho.

Não me sinto forte
Por haver sumido
Com o corpo.

Não me iludo.
Sei que há
Outros.

Meus ombros são largos
E onde pousam passarinhos
Também caem auras de parentes
Distantes perdidos que só querem diversão.

Muita coragem bater o sino de bronze
Dentro de um mosteiro enquanto
Luzes piscam lá fora.
No dia em que uma gaivota
Morrer engasgada com uma
Espinha de peixe atravessada

Não ouvirei este coração
Que rejeita o rum e as
Cartas de baralho

Mas não esquece
As palavras e cria
Fórmulas alquímicas

Misturando carne e espírito
Só pra dizer de que são compostas
Estas mãos que nunca foram minhas.

Não me perdoe
Pela poesia.

Tu me perdeste
Por ouvir as tuas amigas
Agora para ter companhia
Terás que ouvir os oráculos.

Todos loucos no alto da colina
Jogarão búzios de estrelas

E negarão à tua alma
Uma nova chance
De morte.

A serpente não me mostrou o inferno.
Ao contrário, presenteou-me o paraíso.

Ela, o réptil bíblico e sensual,
Que ensinou ao solitário poeta

Com chantili
E chocolate
Na língua

As mulheres felizes
Jamais esqueceriam.

Só não revelou
(Por maldade
Ou distração)

Que um dia
Haveria saudade
Loucura e poemas.

E sob essas horas
Que a virtuosa serpente
(Réptil bíblico e sensual)

Escorrega pelos arbustos e cerejeiras
À espera do peito triste do sonhador.
Ontem não dormi
E achei curioso

Da minha janela
Um gatinho amarelo

Atravessando a rua
Repetidas vezes

Como se seguisse
O seu fantasma.

De madrugada,
Um pombo cinza
Que surgiu

Bicando insetos
Do meio-fio

E bebendo
Água de chuva.

Imagina meu rosto
De encanto e tédio.
E foi tão lânguido
E foi tão fino o pio

Que não mais parecia
Um corvo com toda
A sua maldição.

O frio afugentava as muriçocas,
Mas partia os meus ossos.

E era tão doce o blues
Que o poeta cantava
Em sonhos.

Aurora é um segredo
Quase passional
Do teu deus.


Durante toda a minha vida
Não me lembro de ter existido
Fora de mim mesmo: Não sou
O morador, sou a própria casa.

A casca do ovo,
O núcleo da gema.

Quando vi vocês
Com seus martelos
E ferramentas pensei

Epa, vão me tirar à força
Da minha cabeça, sabe naquela
Noite alguém entrou e era você
Tão linda com seu vestido de peles.

Uma ave de ribanceira,
Uma codorna ferida.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pois o que passa
O que de mim foge
Tem gosto de corpo.

Mordidas
E marcas.

As maçãs
Apodrecem
De outra forma.

Não levam a sério
O éter, a dor de dente.
Ao morrer
Não levarei
O meu corpo
Nem a poesia.

Ambos
São arranjos
Para adornar
O teu coração.

Ainda me banho
Com espumas
Das tuas
Costas.

Vi um passarinho
Quebrar as patas
De um gafanhoto

E com lentidão
Bicar os olhos
Do inseto.

Gritaram-me aos ouvidos
Que havia um demônio
Dentro do coração
Do passarinho.

Tolice, filho,
É só a natureza
Bebendo mais um drinque.
Bolo com café
Olhar triste
À janela.

Moças que passam pela calçada
Sabem do meu estado apocalíptico.

Nem olham pra
Dizer coitado.

A minha doçura
(Imprevisível)
Assusta.
O meu contentamento
(Nunca houve outro)
É o ruído da corda

Em volta
Do pescoço.

Parece-me
Que mataremos
Um rato que não soube
Roubar com elegância um beijo.

Desde cedo compreendi a farsa
Dos sorrisos fáceis e perigosos.

E não levei adiante
Tal descoberta como arma,
Tatuagem no peito, um brasão.

Subi às estrelas escuras
Partilhando a poesia.
O único propósito é não entregar os pontos do peito.
Permitir ao meu coração todo o meu tragável inferno.
Sequer uma mísera ponta de dúvida da minha solidão.

Já pedi esmolas
Aos loucos.

Eis a hora
Dos amores.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Deixa tocar,
Baby.

Impossível atender
Ao telefone com
As duas mãos
Ocupadas.

Uma escrevendo poemas
E a outra debaixo da mesa

Levando-te
À luxúria.
Não confio em teu coração.
Mas amo as aréolas dos teus seios.

Sobretudo
No tempo frio.
Acabei de apagar um poema
E consegui ouvir do último verso:
"Vida que segue, poeta, vida que segue."

Agora dei pra ouvir
Os últimos versos
Sumindo do mapa.
Você morre
E todo aquele
Amor dos outros
Some em três dias.

Você morre
E há quem
Sorria.

Levantei-me da cama
Com um pressentimento
De que viverei até cair todos
Os meus dentes de aço e leite.

Não me peça pra abrir a boca.
A minha arcada dentária tá dormente.

Aliterações perseguem-me
Até de madrugada, baby.

Ainda bem que a poesia
Perdoa aqueles distraídos
Que só depois de cadavéricos
Sentem falta de uma alma aérea.

Não tenho visto mais formigas.
Gostaria que você soubesse.

Creio que agora
Pertenço ao vazio
Da casa dos meus avós.
Já joguei búzios
Por minha intenção.

Os poemas que escrevo
Penso em alguém.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Um golfinho em alto mar
Seduzido pela lua cheia
Não se esforça tanto pra
Conquistar a sua parceira.

Basta o olhar
De quem vai
Morrer,

Caso o seu amor
Não tire o vestido.
Nunca vasculhei tua bolsa.
Mas não duvides que ao dormir
Invadia o teu coração sem piedade.

Qualquer mero pensamento
Em que eu não existisse
Era um tormento.

Daí o mau humor
Das noites sofridas.

E tu imaginavas
Que fosse falta
De grana.

Ou ausência
De inspiração.

A solidão é um presente dos deuses
Pra gente fazer origamis, bonsai
E casinhas de palitos.

Outros enlouquecem
A escrever versos.
Se um dia arranquei tuas unhas
A ideia foi plantar uma cerejeira
Com as cores dos teus esmaltes.

Cabível ao sonhador
O ciúme das flores.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Desapego não é fazer
Uma lista de mil coisas

E sob epifania
Doar a asilos
E parentes.

Desapego é esquecer-se de si
Durante o milésimo de segundo
No último suspiro de vida: coisa
Que só se sabe no fim da jornada.

E não haverá
Como mentir.
Você tem o direito
De me sacanear
Por dias.

Voltar da praia
Com o corpo
Todo marcado.

E ainda me pedir
Um café especial
Que só o poeta
Sabe fazer.

Claro que você
Tem esse direito.

Somos apenas
Amigos e tristonhos.
Não compro mais remédio pra minha cabeça.
Sou mesmo louco e canalha pelo resto da vida.

O que desejo agora é uma âncora
Pro meu coração, uma linda cobaia.
Casar e ser feliz
É possível um
Dia. Os outros
Dias são de
Sonhos.

Sob tempestade
O navio revela
Sua beleza.

Não há outra saída ao capitão,
A não ser jogar baralho
Com o cozinheiro.

Verdade, marujos:
Peixes não comem
Olhos de covardes.

No fundo do mar
Dura pouco tempo
O transe de outra vida.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Leal espero que a poesia
Cumpra com o seu dever
E ofereça-me a cada dia
Uma morte e um poema.

Preciso levar ao túmulo
Meus ossos reluzentes.

Tive tanto dó das minhas botas
Esquecidas debaixo da estante.

Tristes.
Mofadas.

Outro dia te escrevo uma carta.
Ainda não perdi o tato com o papel.
Choveu há pouco
Quando nem as calçadas
Esperavam chuva tão doce.

Não fiz a tatuagem
Que havia lhe prometido.

Pensei em seus cachos
Dos cabelos e nos laços
Das suas peças íntimas.

E a minha mão
Esqueceu o poema
Para tocá-la de verdade.

Com o tempo,
Sátiro criou asas
E hoje é um passarinho.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Não emoldure aquele poema
Cuja alma você imagina especial
E não pregue na parede da sua sala.

Os poemas pródigos
Que esquecemos na rua
São mais sinceros e dignos.

Não lembramos bem
De como foram escritos
Se com sangue ou lágrimas.

Mas não saem
Do nosso crânio

Os versos de fogo.
Os versos de lama.
Passo pela varanda fugindo das plantinhas.
Algumas dormem sobre as cadeiras de vime.

Não seria bacana da minha parte acordá-las
Quando elas sonham com os seus pombos.

Há séculos que não pergunto
Como batem os seus corações.

Ando frio, perdido,
De cavanhaque.

Já pertenço a alguém
Que me aguarda
No fim da rua.

O seu rosto é névoa.
As suas vestes são brumas.

O seu andado é de lua
Sobre as ondas do mar.
Inventei esse negócio
De escrever poemas
Pro meu coração

Não parar
Em paz.

Tinha medo
De morrer
Dormindo.

Como morreu
O meu avô.

domingo, 24 de maio de 2015

Que validade tem o verso
Se não apertarmos o gatilho,
A forca e os nós dos sapatos.

A poesia brilha
Nas roupas sujas
Do andarilho incrédulo.

E o caminho não acaba
Quando o corpo tomba.
Amo o fim
De qualquer
Sentimento.

Muito mais
Que o princípio
Do que é sonhado.

Após o último passo
Não existem só
Pegadas.

Há um sol
Que nasce.

sábado, 23 de maio de 2015

Não perdoo
Nem a mim
Nem o outro.

Meu coração
Não se machuca.

Aperta-se sozinho
Como é comum
Aos efêmeros.

A quem perdoa
É fácil esperar
A vingança.

Angústia própria
Dos puros de caráter.

O que tenho a oferecer
São versos que servem
Para esquentar os ossos.

Perdão?
Não seja tolo.

Os pássaros
Só desejam
Um pouco
Da noite.

A vigília inicia
Ao amanhecer.
As cicatrizes das minhas mãos
Que amassam meus cílios
Mostram o meu engano.

Não durmo feliz
Por que escrevo.

Nem acordo profético
Imaginando entre as costelas
Aquele suntuoso vazio dos tristes.

O poeta que sou
É tão inútil quanto
Uma xícara de chá.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

E ao me beijar o rosto
Beije os meus olhos.

Minhas lágrimas
Têm um perfume
Especial de queda.

Nunca passarei
Pelas nuvens
Inteiro.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Se não te basta a dor
De plantar flores,

Bastará a fúria
Do fim do sonho.

Não repouses tua cabeça
Sobre o teu coração
E a mentira.

Aos que veem o céu azul
Há merecimento na solidão.
Ofereceram-me uma tocha
Para iluminar o caminho
E queimei o coração.

A minha natureza é a fuga
E a morte nunca chega
Quando chamamos.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sonho com um poema
(Até canto acompanhado
Por um sax sensual e tímido)
Acordo e o que me sobra são
Dois versos de imaginação tola.

Antigamente acordava
Com uma carta no bolso.

E o peito riscado
Por tuas unhas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Com que responsabilidade escrevo versos.
À espera que alguém me pague um drinque.
E me convide à sua casa e aos seus medos.
Quando eu morrer
Não quero ir pro céu
Onde ouvi dizer que lá
Só vivem os justos e corretos.

Nem penso em pagar passagem pro inferno
Onde os cínicos festejam o vazio e a derrota.

Rogo distância do meu coração o caminho do medo
Onde dormem os hesitantes trôpegos e mais covardes.

Quando morrer só desejo
Ser alimento da terra
E oxalá de alguns
Passarinhos

De bicos curvos,
Asas reluzentes,
Olhos miúdos
E alegres.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Outro dia falaremos
Sobre nossa ausência.

As asas pertencem
Aos passarinhos.

Bebeu o seu café?
Escreveu poemas?

Não se apegue ao que você não ouve
Do seu travesseiro as batidas do coração.

As lágrimas esquentam-lhe o peito
E procuram portas em casas distantes.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Cometo galicismos com tanta doçura
Que reconheço o poeta cafona que sou.

Assim, meu amor,
Nós dois juntinhos
Descobriremos segredos
Dos trovadores das montanhas.
Deixe as suas lágrimas,
Por um instante, dentro

Dos seus olhos, sinta
O fogo e não acredite
Que as suas costelas

Sustentarão
Para sempre
O seu coração.