quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Livro de Veludo

Eu berro, uivo, corto o dedo
acho a vida intragável
já acendi velas
vomitei no travesseiro
nunca fui amado
nem amei criatura alguma

Eu forjo provas do crime
minto, iludo quem me cerca
tenho inveja do homem belo
meu sonho é traçar divas superstars
sugar-lhes a alma, roubar-lhes os diamantes

Eu não presto atenção no outro
aproveito-me da amizade sincera
adoro minhas flatulências
não tenho paciência com idosos
nem com mancebos arrebatados
amo minhas paredes
já comi na infância muito barro
engordei solitárias
fui um mísero sonhador
sempre levando chutes na bunda
das musas estonteantes e cruéis
experimentei alfenim quente
mastiguei raízes químicas
bebi, fumei, queimei o nariz

Sou um sujeito horrendo
e entre mortos, feridos e loucos
a Poesia sempre vence e nunca vacila.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ciranda

Sinto, mas não quero bebida.
Esfriar os dedos segurando um copo.

Também não quero fuligem nos lábios
tampouco queimar meu nariz beduíno.

É chegada a hora da lucidez
vasculhar minhas gavetas
queimar todos os papéis.

Cansei de tapar os poros
com cal e barro.

A ponte faz tempo
espera meus passos
sobre as tábuas soltas.

Quem sabe eu despenque.
Plante orquídeas nas nuvens.

Sangue Quente

Nem na tristeza nem na alegria
à minha alma prometo fidelidade.

Se versos me cansam
rasgo-os.

Se flores me entediam
piso, destrincho, escarro.

Sou um ateu queimado
pelos primeiros raios da noite.

Palavras ásperas no céu da boca
onde pela manhã somente havia
chocolate e patchouli.

Manhã

Não importa a lua
o jardim suspenso
a musa bailarina
o vinho
o ópio.

Ao poeta apenas
o eterno deleite
do amor sem fraudes.

Não carece dinheiro
coroa de louros
títulos
algodão doce
cavalo alado.

Faça um poeta esperançoso
oferecendo-lhe em bandeja
de prata ou de zinco
o amor sem fraudes.

Aguardo a cafeteira dar o sinal:
"pronto seu cafezinho quente."

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um Pai Melhor

Abraço meu filho,
coço-lhe a orelha,
faço-o dormir.

Pressinto entre nossas almas
eternidade em jogo

e até vejo
nos seus sonhos
o moço valente que é

com sua espada
me salva dos dragões
e monstros

ou, simplesmente
do ladrão em casa.

Quimera

Enquanto tu não vens
faço tricô com meus cílios.

Portanto
será longo o tempo

até endurecer a lágrima
no canto esquerdo.

Como podes vir
se és um sonho?

Que eu saiba
todo sonho
é lagarta
descuidada
no meio da praça.

Pronto.
Lá se foi seu abdome.

A andorinha
tem olhos inocentes
mas um bico frio e cortante.

Suntuosa Indolência

Amontoam-se cuecas
no balaio de roupas sujas.

Fico no osso
mas não lavo.

Nem tiro a barba.
Nem corto as unhas.

Do sepulcro
contemplo quem passa,
hesita, tenta empurrar a pedra:
"Em nome de Jesus, vem pra fora Lázaro!"

Insônia

O lençol é curto
mas faz um barulho
asas de albatroz

é o ventilador
com sua ventania própria

levanta almas,
desnuda corpos -

[a muriçoca aproveita
e me atinge as costas]

domingo, 8 de novembro de 2009

Efeito do Ócio

A loucura abriu a porta
em noite quente de lua
(não olhei pra cima)
talvez ainda cheia
ou bem fininha.

A loucura veste-se
com pele de embuá colorida.

Ai do poeta
que não olhou pra cima
não sabe se a lua engordou
ou faz regime.

Minha barba rala.
Meus dedos barulhentos.
Meus olhos que vivem caindo
sobre as sandálias japonesas.

Digam adeus poeta
que já me encheste o saco

e eu digo:
castrem-me.

Abstêmio

Antes de saborear o frango assado
com uma belíssima taça suco de uva

sento-me na cadeira giratória
imagino um poema da infância

onde o musgo mais verde
onde as formigas aos encontrões
trocavam impressões sobre o quintal vizinho.

Meus pulmões tão limpos, bem.
O coração sempre batendo tambor.

Levanto-me agora:
a saliva prende-se no canto da boca.

Engulo.

Nuvens Alaranjadas

Preciso da candura infantil
senão viro bicho.

Saio por aí com olhos vermelhos
presas pontiagudas
garras afiadas.

Por demais enfadonho
canibal dos próprios sentimentos.

Morder o pescoço.
Sorver o mesmo sangue.

Esperar o amanhecer:
enfiar a estaca no peito,
descansar da vida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mensagem

Hora de deitar-se.
Leve consigo a fronha.

Aquela fronha perfumada.
Camões capa dura.

Hora de deitar-se.
Leve consigo o travesseiro.

Aquele travesseiro babado
de Fernando Pessoa.

O chapéu ao vento -
lusitanas saudades.

Hora de deitar-se.
Não esqueça de lavar os pés
e não molhe os tamancos.

Pense em coisa boa -
ao abrir os olhos
uma borboleta
dentro dos seus ouvidos.

Hora de deitar-se.
Beba seu copo de nescau.

Sinta o corpo mortinho da silva.
A alma não implore.

Quando se dorme
a mente é déspota.

Dê-lhe as rédeas -
os cavalos voam
e atiçam nos cascos fogo.

[contente-se com seus tênis sujos
debaixo da estante
e ensine ao poeta amar seus sonhos]

Sutilezas

Até ontem
lançara aos céus
sementes estéreis.

Acabo de colher
as últimas maçãs podres.

Mas não é o fim
dos pulmões fuligem.

Caem lágrimas dos brônquios -
engraçado, mãe.

Agora sei que os brônquios
também choram.

E choram cinzas.

Servos

Não se preocupem com a lucidez
que me pega pelos dedos.

Temos muito a caminhar.
Agora o crepúsculo baixou de vez.

Sinto falta do papel
outrora amarelado
sem pauta.

Os dedos mais vândalos
apertavam a caneta sem pena.

Espremiam versos mancos.

Tais versos trôpegos
desfilavam altivos sobre a folha.

Quanta saudades do papel de embrulhar pães.
A última salvação quando todos os cadernos riscados.

O cúmulo de fato naquele dia
em que a lixeira do banheiro
ofereceu sua alma ao solitário poeta.

Escrevi feito louco
separando as palavras
do sólido excremento.

[Quem na infância
percorreu um corredor escuro
sabe que as paredes sem aviso
atravessam-nos o caminho]

Assim eram os meus dedos
sensíveis e atentos
escrevendo nos papéis
da lixeira do banheiro.

Deleite

Esta alma é um vão
entre rachaduras dos pés.

Os antigos mestres sabem
que nunca fui um sujeito confiável.

Negócio enlouquecedor mesmo
é andar com os próprios pensamentos.

Deter-se diante de uma lanchonete -
e perceber que o óleo do pastel
queimou as narinas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

uma faca de cortar pão bem amolada

Quando tu estiveres alegre
alegre mesmo de dá dó

por um segundo
fica em suspense

e percebe
que estarei triste

triste de fato
como quem come jiló.

Se por tuas faces
rolarem duas lágrimas -
agradeço.

Mas somente soltarei festins
se dançares sobre a mesa.

E ao final do tango
fizeres um brinde:

"Ao patético!"

Outro brinde:

"Ao verme!"

Patética Contrição

Apenas para confessar meus pecados
escrevo algo: uma pedra dentro do meu peito
e deixo lá no meio da sala um corpo estendido.

Se alma tenho ela partiu hoje
logo que subiram o portão de ferro.

O corpo estendido não diz nada, meu velho.
A pedra no peito há tempo virou cinza.

Tu mentes,
eu minto.

Não é um corpo que vejo
tampouco uma alma sumida.

São migalhas do tempo
que vem com a velhice -

e não importa se ela sopra
quarenta e quatro ventos.

Bebe então do meu vazio
e façamos uma manta de algodão.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Couraça

Não lateja sofrimento em minha alma -
apenas um certo sumiço,
uma unha roída.

Vejo meu coração músculo enfadonho
zombar do sangue e bombear lágrimas.

Lamaçal distante de um cálice
permanece úmido no travesseiro.

Não se trata de angústia
a vergonha da própria solidão.

Afinal como pensar que sou só
cercado por tantas sombras e vultos?

Os objetos, as paredes,
os bichinhos domésticos
gargalham de tal embuste.

Agora deitado com as pernas e os braços cruzados
apenas descanso da presença dos meus ossos e da minha carne.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

luvas postas sobre a cama

Deixo na calçada da minha primeira rua
meus sonhos ultrajantes, minha tolice humana,
meu cinismo, meus vícios, meus desgostos,
minha lânguida descrença.

Esqueço para sempre o espelho -
os olhos vagos, a mente canina.

Não mais reparto com os vizinhos
meus uivos e meu silêncio materno.

A lucidez que me busca
é uma morte mascarada.

Então que seja profundo o abismo
e tenra a queda.

Prometo que os pés tortos
um dia hão de voar.

E dos céus cairemos juntos:
eu, andorinhas e oitis maduros.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crisálida

De volta ao batente:
sento-me nas nuvens
deixo o vento bater nos olhos.

O coração sabe onde a porta de saída.
Mas adora passear no corredor escuro.

A tosse a mesma.
A espinha cervical calafrios.

A alma partida
não mais retorne -

Sempre tive medo
do súbito arco-íris.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Reencontro

Voltaram as muriçocas.
Sobretudo às seis horas.

Momento em que alma levita.
O corpo tomba.

E uma dor comum
em mim mesmo
é tragada.

Queridas muriçocas
digam aos meus ouvidos
por onde viveram longe do meu sangue.

Sentia saudades daquele tempo
em que seus violinos agudos
trespassavam minha carne.

Voltaram.
Minhas adoráveis muriçocas.

Não percam tempo -
Meu sangue continua doce,
creio.

Quinta-Feira

Amanhã é meu dia:
Vinho (um litro, dois litros, sei lá).

Algo me diz
que vai chover.

Espero que chova mesmo
na minha alma franciscana.

Mas o vinho hei de ter (três litros talvez)
ao alcance dos meus dedos trêmulos.

Cedinho comprarei pães.
Cafezinho especial.

Não sujarei minha mão direita
ao metê-la no pote.

4 medidas bem cheias.
Café forte.

No almoço, então, o vinho.
Minha mãe aproveitará o frango de ontem.

Ótimo.
Excelente iguaria.

Vou buscar meu filho.
Até brincarei de playstation.

Depois do primeiro litro,
aumentarei o som.

Por favor, amanhã blues não.
Quero samba.
Quero rock.

Existe alguém que gostaria
estivesse ao lado da minha alma poética.

Uma certa amiga Sacerdotisa
(com coração de noviça)

Mas ok, beleza.

Não peço muito -
pode até chover
ou um sol tremendo
rachar meu couro cabeludo.

Amanhã é meu dia:
pois bem, três litros de vinho.

À noite, qualquer barzinho -
milhares de cervejas.

Todos saibam que é meu dia.
Não escondam nenhuma garrafa debaixo da mesa.

Algo me diz
que vai chover.

Badaladas

Meu coração hoje mais apertado -
muitas nuvens cinzentas tapando-lhe os vasos.

Mas tenho o cotidiano dos cantos domésticos
dilatando os olhos miúdos de Neruda.

Minha Ilha tem um coqueiro mágico
no qual basta encostar-se -
caem versos.

Meu coração hoje mais estreito -
nuvens escuras esbarram meu quase sorriso.

Mas tenho o teto e as paredes -
limpo as teias de aranha.

Se sinto saudades,
agasalho-me nas suas perninhas.

Olhos Abertos

As asas de borboleta morta
são disputadas a tapas
por formigas espertas.

Estas nutrem na alma
o mesmo sonho humano:
voar e encantar-se.

Geometricamente retalham as asas multicoloridas.
Lançam às costas.
Sobem ao galho mais alto.
Sorrindo, despencam.

Até hoje não se tem notícia
que formiga alguma tenha cruzado
uma calçada, um canteiro, um jardim.

A verdade é que asas de borboleta morta servem apenas
para que o vento apague seus desenhos e cores
usando como esfoliante grãos de areia.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Enfim

Emagreci.
Os olhos fundos.

Perdi três jeans.
Um bermudão.

Pensaram que tinha tuberculose.
Que estava viciado no crack.
Mas era tão somente uma alma magra.
Os olhos perdidos lançados às paredes.

A caixa torácica aberta.
Ossos embotados levados pelo vento.

Emagreci mesmo.
Olhos de alma.

Andava pelo quarto segurando o pijama
admirando o dedão cadavérico.

Não tomei remédios.
Não chorei tanto.

Agora é outra tarde.
Só em pensar me fazes mal.

Quem disse que por ti preciso
apaixonar-me novamente?

Não existe metade que complete o vazio.
Passaste.

Amizade

Mostro ao meu filho de oito anos
o raio de luz na parede.

O pequeno sorri e diz
que todas as tardes
o mesmo raio cruza a porta
e prega-se sempre da mesma forma.

E quando tem uma nuvem escura
o que faz o raio de luz?

Indago-me.

Meu filho ouve meu pensamento
e completa misterioso -

"Quando vem uma nuvem escura
o raio de luz é levado pelos pingos."

Olhamos assustados
um para o focinho do outro.

Milagre.
Gargalhamos juntos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Desperto

Após o jantar
deito-me na cama box solteiro
e cruzo os braços -

tenho absoluta certeza
que estou sendo observado.

Talvez pelo ventilador (agora limpo)
pelas paredes ainda assustadas
pelo armário de hospital silencioso.

Após o jantar
só me levanto da cama box solteiro
e descruzo os braços

quando sinto
que o ventilador me esqueceu
que as paredes adormeceram
que o armário de hospital fechou a porta.

É hora então de escrever um poema.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ainda Vivo

Não procures queimaduras nos braços
tampouco dinheiro nos bolsos.

Aproveita tua ressaca debaixo do chuveiro
lembra dos moinhos de Quixote -

quanta ventania...

Agora vai:
põe teu cafezinho quente
com bastante açúcar

e nunca prometas
o último suspiro.

Logo, logo (não saibas quando)
outro mar pegando fogo
outra nuvem espinhosa

e verás que o suspiro
também não é o mesmo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Vestígio

Ouço as paredes
vestidas em chocolate creme
(desses de café expresso)
sussurrando entre si:
O poeta está descontrolado.

Não sabem elas
que houve um tempo
em que incorporado
da testa luzidia de Picasso
e do hirto bigode de Dali
riscava eu os vestidos
de outras damas.

Se o café frio,
ainda lhes cuspia nas faces.

Então graciosas paredes
do meu novo quarto
ponham-se de joelhos
sobre o milho
e me beijem a testa.

Presente

No meu aniversário
espero que o Bom Pai
com o poeta seja misericordioso
e me mande uma musa palpável:
carne muita carne nas ancas e nos lábios.

Se ganhar um sorriso
da colega de faculdade -
basta.

Tenho observado
seu penteado novo -
os cabelos mais loiros,
ora lisos, ora ondulados.

Ôpa,
ela quase me viu -
e olha que escorria
do canto da boca
uma gosma de desejo.

Pensando bem,
no meu aniversário
mereço mesmo um babador
de doente mental iluminado.