quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vó Vicência

Existe gente que voa e não deixa nunca
impressões digitais nas nuvens brancas.

Incólume,
serena,
pacificadora.

Penso em minha vó,
sinto seu hálito:

fumo de cachimbo,
um alhozinho oculto na gengiva.

Doía-lhe o queixo,
mesmo assim sempre solícita:
"um naquinho de rapadura, meu filho?"

Seis horas,
o caldo à mesa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Árdua Tarde

Após sucessivos partos
as mãos imprestáveis
caem sobre o teclado:

não matam formiguinhas
nem limpam a gordura
do bolo de chocolate.

Primeiro tenho que aprender
a desenhar uma casa
com todas as portas
e janelas abertas;

depois, sim,
abrir o baú antigo da minha vó:
moedas de bronze, lençóis brancos
o escapulário, o crucifixo de prata.

Achar meu estojo
de lápis coloridos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sonho

Saiba que você
ainda não foi encontrada
ainda continua perdida
na praça, na última fila
do cinema.

...
Saiba que você
ainda é um sonho
um brilhante
no fundo do cano da pia.

Penso em meter a mão
mas só o coração é de látex.

Arranco o olho direito,
lanço minha alma pelo labirinto.

Dois minutos depois,
puxo de volta:

meu olho direito
não me diz coisa alguma
senão "manda agora o esquerdo".

Arranco o olho esquerdo,
lanço minha mente pelo corredor escuro.

Após três minutos,
puxo de volta.

Meu olho esquerdo apenas sussurra
"precisas ver quanta beleza"

...
Saiba que você
ainda é um sonho

e eu um lunático
fardado de cáqui
com calo no calcanhar.

Engrandecer-se

Quem tirou minha armadura
não sabia que toda brisa
de planície arenosa
purifica almas -

eis-me renovado
espinhas carnais no queixo

o olhar firme
bem mais contemplativo.

Lavo os pratos,
ouço os devaneios do meu filho

[entre os dentes uma espinha de peixe
me pede mais cuidado com as sensíveis gengivas]

...

Quem arrancou do braço meu escudo
não imaginava que a lua do pântano
encanta nosso lado sombrio

surpreendente como um suspiro
sem nada desejarmos.

Lavei os pratos,
meu filho comeu seu macarrão

e talvez ainda me faltem roubar
os cílios envelhecidos -

muito fracos não caem
orgulhosos se agarram
às últimas remelas.

Perfeição

A cruz ao ombro
para que o corpo
permaneça plantado

e a alma não se atreva
além dos céus.

A cruz ao ombro
para que o corpo entenda
da leveza dos sonhos

e a alma não se iluda tanto
com outras verdades.

Não é covardia a mão trêmula,
a companhia enlouquecida dos anjos.

A cruz ao ombro
deixa claro -

é bom viver feito boi
com as patas fincadas

o sol nos olhos
carrapatos na parte de baixo

e muita indiferença.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Arado

Onde se esconderam
os diabinhos da dengue?

Terei forças ao dia caçá-los
e à noite escrever versos?

Sinto-me aliviado
em saber que hoje

minha dor de cabeça
é culpa do sol de novembro.

Ausentam-se da minha mente
ancestrais mediúnicos tagarelas.

De volta ao batente:
bota nova,
os tropeços de sempre.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Vísceras

Penso seriamente
em sair sábado.

Vestir-me com zelo,
piscar para o espelho
[sorrir diabólico]

Uma energia abissal
Já me traga

deixando sobre a mesa
solitária a fruteira

e sobre o armário
aquela flor agora curva.

Pensando bem,
ainda não é tempo
de queimar os ossos.

Minha urna funerária
perdi em meio a bagunça

das caixas marrons
cuecas encardidas

livros antigos
versos rasgados

cascas de laranja
ossinhos de galinha

vestígios macabros
da primeira separação.

[Talvez seja o momento
jogar as sementes de mucunã

na toalha branca engomada
e invocar os orixás]

Eternidade

Não leves a sério
teus sonhos -

são filhos do vento, das nuvens
dos grãos de areia, dos búzios.

Observa-lhes o esplendor
da morte súbita.

Acalma-te -
logo mais tarde

outras mortes,
vêm mais sonhos.

Por enquanto,
contenta-te

com o cursor
piscando.

a solidão do parasita

Caso fechasse os olhos
agorinha mesmo para sempre

pensaria em ti
cuidando dos meus despojos

e plantando a árvore
que esqueci.

Se a febre
me queimasse as retinas
ficasse cego dentro da tua alma

sei que não seria triste
nem muito difícil

encontrar teu silêncio
e nele envolvido
abrigar-me.

Mas deixemos de tolices,
prepara-me um banquete.

Apenas não te esqueças:
quero as verduras lavadas
com o perfume das tuas mãos.

Maturar-se

O vento
mesmo fraquinho
quando bate nas minhas pernas
arrasta meu corpo

enquanto alguma coisa dentro
(alma, talvez vazio)
um centímetro não se move.

Da mesma forma
debaixo do chuveiro

cabelos molhados
cílios, unhas, cutículas

mas algo dentro
(alma, talvez vazio)
continua fogo aceso.

Deitado agora
na cama box solteiro

as pernas cruzadas
os dedos dos pés siameses

tenho clara ideia da minha presença -
a boca do estômago se contrai
involuntariamente.

Lá fora
as calçadas desafiam-me:

"vem, poeta
descobrir nossos segredos
de meio-fio"

Travessuras

Quando criança
fiz delicadas cirurgias
no abdome de lagartixas -

era comum extrair-lhes
pequenos besouros
e sementes.

Também normal
submeter as cigarras
ao exame de próstata -

do palito de fósforo uma estaca
enfiava-lhes entranhas adentro.

Cruzavam paralelos, canteiros, eixos, calçadas
igualzinho a helicópteros de guerra americanos.

Entretanto
o que mais me extasiava -

pisar nas bundinhas das tanajuras
em noite de calçadas chuvosas.

Havia quem saboreasse
tal iguaria ao óleo.

Eu tinha nojo -
e com meu tênis kichute

continuava a esmagar-lhes
as suntuosas bundinhas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a flacidez da alma

Ao teu redor
as flores sorriem

e a hóstia suplica
um pouco de vinho.

Não estás salvo,
foge -

mergulha a cabeça
dentro do vaso sanitário.

Conta até 60.

Não acredito:
nem um minuto consegues
debaixo do teu próprio mijo?

Antigamente
com a concha da mão cheia
curavas até tua dor de ouvido.

Lembras?

Deixa de nojo patético
e mergulha -

Agora conta até 120.

Celibato

Os óculos sujos
da banha dos cílios.

Um canguru no ventre
esquentando meu sangue.

Ainda tenho que ensinar ao meu filho
sua tarefa escolar, oxalá, ele não durma.

O pequeno é péssimo
em matemática.

Pressinto um crepúsculo
de dor de cabeça,
palmadas,
castigo.

A Mente

A grande responsável pela luxúria
é a carambola com seus grandes lábios

maduros ou verdes
sempre sensíveis ao toque.

A maçã não tem culpa.
A maçã é uma pobre coitada.

A carambola carnal reina soberana
com seus grandes lábios entreabertos.

Nem a serpente lhe recusa uma mordidela
embora distante o perfume -

nem eu me lembro do seu gosto,
apenas uma vaga lembrança.

Focinho Atento

O rio por qual passas
ilusão as águas mansas,

a um palmo
debaixo dos teus pés -

areia movediça,
buraco negro.

Não te enganes,
o livre-arbítrio
é mão dupla -

menos se espera
surge bêbado um cavalo alado
atravessando o caminho,

e o abismo continua
nostálgico,

plantado em volta
de orquídeas
e ervas daninhas.

Brandura

Absolutamente nada desejo -
grana, mulher, as sete virtudes.

A felicidade percebo
é esse sobrado aberto -

sem nuvens no alto,
sem folhas secas pisadas.

Basta meu cafezinho quente
e o riso do meu filho
antes de ir à escola.

O dedo no nariz,
uma melequinha aprazível.

O meu anjo da guarda me diz
que não é de todo seguro
essa túnica transparente

enquanto meu lado sombrio
rói as unhas neurótico.

Agora sou eu
quem limpa o nariz
e sorri de soslaio.

Também não desejo
essa falta de querência
por eternidade.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Óvulos Mágicos

O poeta tão semelhante
à mulher -

ao mês sangra

e em noite de lua cheia
diferente corre o sangue.

Mas há mulheres cansadas
de tanto vinho debaixo das saias

e poetas bissextos
alcançam a menopausa
quando escrevem versos.

Mulheres engravidam
e por alguns meses

as calcinhas engomadas
sempre secas

enquanto poetas enlouquecidos
sofrem avc -

partem para o além divididos
entre uma alma delicada
e dedos frios.

Lar

Esse prato sobre a pia
esquecido após ser lavado

compartilha com seu olhar distante
o frescor da ausência.

Esse simples objeto
quem diria lhe comove as lágrimas.

Apesar de tanto tempo
em diária convivência
só agora percebe
a textura,
os contornos.

Esse prato sobre a pia
há muito lavado e enxuto
é a sua alma contemplativa.

Assim todos os objetos domésticos
resguardados em inanimado mistério:
à espera.

um espinho atravessado

Tudo que for
vício em você
queimarei -

seu cigarro fraco,
sua cocaína bruxa

seu álcool inferno,
sua lata fuligem.

Serei seu inimigo
número um

sempre que abrir um olho
e, descuidado, fechar o outro.

Não me peça clemência
trégua, só um tempinho -

não terei dó da sua carcaça,
dos seus caprichos

das suas manhas,
dos seus erros.

Tudo que for
vício em você
lançarei ao fogo -

seu egoísmo automático,
sua vaidade inveterada

sua arte em matar o próximo
e a si mesmo.

Não me jure abstinência,
pureza de alma -

eu não acredito
e lhe digo:

ao buraco levarei
todos os seus vícios.

A sobra sobre a mesa
cabe-lhe:

banquete
ou migalhas.

É o seu fim.

Varanda

O meu coração trancafiado
dentro da concha
é um molusco
exuberante.

Ninguém sabe
o quanto é prazeroso
seus sonhos.

As últimas lembranças
do primeiro beijo,
um desastre -

a doce virgem já fumava
e tinha um hálito cancerígeno.

Manhã de Segunda

Passei a madrugada
curando a asma
do meu filho.

É tempo do pequeno
fazer natação.

Não será igual ao pai -
um incauto.

Até hoje o poeta nunca aprendeu
a nadar nem andar de bicicleta
muito menos a dirigir.

Seu mundo,
sua alcova:
paredes, teto.

Às vezes surgem
alguns fantasmas
arrastando correntes.

Meu divertimento predileto
erguer a espada e partir ao meio
os grilhões.

É claro, em certas ocasiões,
feria-lhes os calcanhares.

Os vultos urravam de dor.
Ao mesmo tempo gargalhavam.

Felizes, beijavam-me as faces,
e prometiam nunca mais assustar-me.

Era eu então quem sorria:

"ingênuos fantasmas,
não entendem eles
que suas sombras
vêm da minha luz..."

Quanto ao meu filho
tomou seu aerosol

e agora se diverte
com seu playstation:
"Def Jam Fight For NY"

domingo, 15 de novembro de 2009

O Nefasto

Não subestimes o lunático -
um dia ele larga

de furar os canos
de lamber o prato
de conquistar a lua

e retorna à origem vital
à milagrosa fonte
à doce essência

enquanto tu,
ó frio sóbrio,
ó maquiavélico tolo

não tens loucura a perder
tampouco paraíso para encontrar

lentamente morres
furioso por não entender
o simples e suntuoso milagre
que escapa dos olhos do lunático.

Romantismo

Lágrimas embutidas
por leve assopro

sangram pelas faces,
rasgam-me a garganta.

Desde muito pequeno
forjado no soluço

crescido entre
arrebatamentos
e profunda contemplação.

O que sou de fato
um penhasco

com neves no topo
e lavas nas entranhas -

um poço abissal
de sentimentos

dos quais retiro
uma lagarta de fogo
de uma flor.

Sininhos

Mulher,
pequemos juntos -

o meu corpo
é um templo.

As minhas mãos sabem o caminho
meus dedos se tremem é para seu deleite

e a língua, querida,
é a minha alma

empurrando o portãozinho
do seu jardim.

sábado, 14 de novembro de 2009

Brumas

I
Se este coração apertado
não for reflexo do que a mente sonha

então o sofrimento humano
é uma farsa.

De nada adianta
o verso,
o pensamento

ambos suspensos
atravessados
pela sombra.

II
Se este ventre em chamas
não for refluxo de lembranças antigas

então a angústia humana
é galhofa.

De que serve
o verso,
o pensamento

ambos entreabertos
entrelaçados
pela dúvida.

Redentoras Bobagens

Alguém ganhou uma flor
esqueceu dentro do copo.

Passei por ela muitas vezes
não percebi o presente.

Até que em um estalo
dei-me conta

que aquela flor
não era mais de ninguém

abandonada no copo,
afogada na água suja.

Então agradecido
peguei-a,

levei ao nariz
seus cabelos com bobes

(não tinha cheiro)

troquei a água,
passei uma esponja no copo

esqueci a flor sobre o armário
entregue ao seu silêncio.

Não tive surpresa:
a minha mão permanecera

uma mão sem perfume
sem esperança.

O Riso

Sempre soube,
não é segredo:

"muita luz cega."

Que farei agora
caolho de um
míope de outro?

A minha esperança
é que eu logo

me acostume
com a nova casa -

os móveis antigos
ainda no meio

ocupando espaço
despertando angústia.

Mas é o jeito,
não posso enganar o tempo -

cresceu a corcunda,
a cruz perdeu o peso.

Do alto da montanha
não sinto vontade

nem de arriscar um voo rasante
nem de enforcar o último monge.

Apenas espremo
uma espinha no queixo.

Tramas

I
Meus olhos veem
coisas abstratas

passeando pelas paredes
debruçando-se sobre a cama

somem,
reaparecem

visíveis,
enlouquecedoras

e no exato momento
que me levanto

o raio de luz desloca-se
por debaixo da porta do banheiro

entra no vaso
flutua

II
Um raio de luz
que desce dos céus
em uma tépida tarde

é capaz fingir-se
muitas coisas,

muitas coisas visíveis
abstratas

e nem a descarga
força-lhe o sumidouro

uma vez que ainda flutua
dentro do vaso

apenas o raio
um raio de luz
em tarde de trégua -

aberto,
transparente.

Repente

que sábado massa
de alfenim quente

entre os dentes
um suspiro -

meu filho
no playstation

minha mãe na canção nova

meu diabinho resmungando
meu anjinho fazendo a unha

lá fora um sol tomando a calçada
as árvores mostrando as saias

que sábado perfeito
de bila no buraco

sem tremer o queixo
sem arroubos

um sábado encantado
de achar dinheiro

no armazém da esquina

em seguida
ganhar aquela musa

com suas coxas grossas
com suas meias jazz

chupar um picolé de morango
sujar as mãos, lamber os dedos

sonhar sem fim
até o fim dos sonhos

acordar assustado
supondo mijo na cama

mas são sonhos

sonhar sem fim
até o fim dos sonhos

um dia eu entro
no meu coração
faço sala

rejeito beber sozinho
um cafezinho quente

espero a outra metade
uma fábula

tenho quarenta e quatro
como está minha próstata?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ideias

Todos os poemas escritos
suspiros, nuvens etéreas

são carne da minha carne
ossos dos meus ossos

nenhum escapa
do tato, do olfato

do sentido brusco
da tosse inesperada.

Os versos não caem do além
da árvore imaginária -

existe uma ponte
entre o frêmito
e a consciência

uma loucura plausível
no instante de total euforia.