quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Vira-lata

Tive um dia
Cheio de tesão.

Nem te conto
Como bebi
Meu café.

A forma em que segurava
A asinha da minha xícara.

O meu olhar míope
Pro seu corpo de
Cerâmica
Branca.

Teria sido um dia perfeito, baby,
Pra cortar as unhas na varanda
E aguar as plantinhas.

A poesia é mais volúpia
Do que solidão.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Café

Faço um café muito louco
Com todas as borras
Do meu passado.
Aceite meu abismo
E não ouse me dizer
Que sou um bom moço.
O coração perdido e pecador
Nunca me deixou morrer iludido.
Os pequenos flashes de lucidez
Confirmam a minha coragem.
Não penso por quanto tempo
Suportarei a minha preguiça.
Mas é essa languidez
Que devo amar agora.
A poesia é um ato de fogo
Das mãos de quem caiu.
Você só ouvirá a minha gargalhada
E só verá os meus dentes amarelos.
A minha lágrima é pecado.
E só pra mim, meu bem.

Televisão

Gostaria imensamente
De completar sessenta anos.

Sei, entretanto,
Que posso pisar

No rabo de um pombo,
Perder o equilíbrio, bater
A têmpora na quina da calçada

E nunca mais acordar
Nesse mundão de sonhos.

Mas gostaria imensamente
De completar sessenta anos.

Ver se minha mão tremeria
Segurando a xícara de café.

Se ainda saberia jogar facas.
Se meus dedos segurariam
Com força a pena ou se
Pensaria só em sexo.

Sei, contudo,
Que posso pisar

No rabo de um pombo,
Perder o equilíbrio, bater
A têmpora na quina da calçada

E nunca mais acordar
Nesse mundão de bosta.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

As Plantas Da Varanda

Houve um tempo
Em que cortava
As unhas

E jogava os pedacinhos
Dentro dos jarros das
Plantas da varanda.

Algumas cresceram
Próximas à minha alma.

Quando o céu desabava
E a tristeza consumia
Meus olhos

Murchavam
As folhas.

Nos dias de histeria alucinógena
Pintavam os cabelos as plantas
De amarelo e verde.

A minha solidão definitiva
Ocorreu com a chegada
Dos pombos.

Armados de malícia
Flertaram e conquistaram
O coração das minhas plantinhas.

A partir dessa dor de cotovelo
Resolvi virar noites em bares.

Postos de gasolina,
Becos, barracos,
Pracinhas.

Nunca mais fui o mesmo
Amante de poesia.


Ioga Bikram

Tenho um problema sério na coluna
E vivo me abaixando pra colher
As folhinhas de oiti

Espalhadas
Pela casa.

(Tenho medo
Que minha mãe
Escorregue)

Escrever poemas
Endireita minha postura
E apaga maus pensamentos.

Sobretudo
Com a xícara
De café na mão.

Bar Nirvana

Quando penso
Que na juventude
Quis ser um Buda

E depois me apaixonei
Por Charles Bukowski

Não me admira
Os passarinhos
Seguirem meus
Pensamentos.

Os pequenos sabem
Que os céus são
Tenebrosos.

A cada passo
Uma ratoeira.

Convalescença

Que pena não morri.
Cheguei perto do inferno.
Não vi nenhum tocador de blues.
Esses caras vivem nas nuvens
De fumaças e muita solidão.
O inferno é um lugar
Pra barbárie feliz.
Que pena não morri.
Voltei pra minha xícara.
Só não tive ainda coragem
De ver as plantinhas da varanda.
Nem chego perto
Da janela.
A rua é linda
E anjos usam
Trombetas e cítaras
Pra me conquistar.
Sei o que brilha
Por trás dos sons.
Deixei o meu filho
Ontem no ponto
De ônibus
E quase
Não voltei
Para casa.
A rua é muito sensual.

Superlua

As mulheres mais incríveis desse planeta
Dormem comigo, acordam comigo,
Passeiam comigo.

À noite,
Toco clarinete
Em uma banda de jazz

Enquanto as mulheres
Mais incríveis desse planeta
Bebem seus drinques vestidas
De vermelho e batom da mesma cor.

De manhãzinha,
Caminhamos pra casa
Sob uma garoa gelada.

Woody Allen nos oferece
Uma carona até nosso galpão
De mercado do século dezenove.

Faço um café.

As minhas mulheres
Mais incríveis desse planeta
Despem-se (ouço o zíper da parte detrás
Do vestido descendo até a vértebra do pecado)

Preciso ir vê-las.
Não perco por nada
Esse momento mágico.

domingo, 16 de outubro de 2016

Bula

A poesia é uma doença silenciosa,
Mas não é um mal. Os seus sintomas
Inicias podem ser: calafrios, tremores,
Histeria, apatia, olhos fundos, lábios frios,
Formigamento nos pés, tontura, raiva e doçura.

Não tem cura.

A única forma
De tratamento
É a escrita.

Há quem acometido
Viva muito tempo.

86 anos
É um luxo.
55 é a média.

Pode comprometer
A visão, o olfato
E o modo de
Caminhar.

Muitos voam.
Outros rastejam;
Todos são trôpegos.

Quem sofre dessa doença silenciosa
Naturalmente e com frequência
Remete-se à sua infância

E tem mania
De sonhar.

Embora viva o momento presente
Sob névoas de esquecimento e febre.

Tem muita febre
Quem é acometido
Dessa doença silenciosa.

Que não é um mal.
Nem tem cura.

Aconselha-se ouvir
O coração e não brincar
Com drogas desconhecidas.

Ou não.

Cada caso
É estranho.

Só o tempo
Dirá o nível
De degradação.

Medo, fuga, vontade de chorar,
Isolacionismo, melancolia, tesão,
Ocorrem após instalado o verme.

Recomenda-se
Mergulhar.

Máscaras é bom
Perdê-las e aceitar
A morte da consciência.

Lucidez é o seu sintoma principal.
Há quem pense que é insanidade.

Quem é acometido dessa doença silenciosa
Pensa que é um louco ou coisa que o valha.

Já é efeito
No sangue.

.



Fotografia

Outro dia fiz
Um nu artístico
De uma andorinha
Solta no galho de oiti.

Peguei de surpresa
A criaturinha do céu.

Estava grávida
De um pardal.

Sim, meu doce,
Os passarinhos
Não se importam

Com espécie
E família.

Só querem
Amar.

Visita Desconhecida

A minha mão direita
Quando coça
É sinal de outro poema
Queimando as velas
Do navio fantasma.
Capitão, ó meu capitão,
Vamos bater nas nuvens!
Puxe
Os cílios.

Visita Desconhecida

A minha mão direita
Quando coça
É sinal de outro poema
Queimando as velas
Do navio fantasma.
Capitão, ó meu capitão,
Vamos bater nas nuvens!

Dominical

Você abre os olhos
E quase cega
Do céu tão
Azul

E das folhas de oiti
Batendo na janela.

Você acomoda
As pernas no sofá

Enquanto o seu filho
Deleita-se largadão
Na sua cama.

Você sorri
E jura em
Silêncio

Que não
Morrerá
De novo.


Suave Na Nave

Com o que você quiser
Concordo contigo, amor.
Canalha?
Sim, canalha.
Frio e egoísta?
Evidentemente.
Louco?
Louco.
Cínico?
Claro.
Diga,
Amor,
E assino
Embaixo.
Não precisa
Queimar meus
Últimos poemas.
Nem jogar
Contra a parede
Minha xícara branca.
Você não imagina
Como dói juntar
Os cacos
De uma xícara antiga de café.

sábado, 15 de outubro de 2016

Hélia

Do meu tempo de escola
Só me lembro da minha
Professora de Inglês:

Estalava a língua
Entre os lábios

E me pedia
Pra repetir
Mil vezes

A mesma
Palavra.

Não conseguia
Mover meus olhos
Da sua camisa branca
Transparente e sensual.

De bordado
Hippie.

Combate De Gafanhotos

Não será fácil
Encher a mão
De ouro

E não seguir
O caminho
Da treva.

Um prisioneiro
Ama suas baratas

Enquanto o sol lá fora
Queima seus pássaros.


Uma Eternidade De Blues

Morte?
Não conheço.
Estamos brigados.

E só nos veremos
No dia em que
Não for mais
O poeta

Filho da
Palavra.

Cozinha

Depois que minha cafeteira pifou
E faço café em uma artesanal
De alumínio

Os meus dedos
Ainda reconhecem
A textura do silêncio.

A poesia tem uma relação
Tão íntima com os objetos.

Com o tempo
Muda o meu olhar

E o amor passa
Por outros ângulos
De ternura e espanto.


Vale Das Cerejeiras

Você não me conhece.
É bom parar de acender velas.

Já morri
E o tombo
Foi tão triste.

Não pensei em lhe contar,
Mas minhas formiguinhas
Abandonaram-me:

Ultimamente
Bebo o meu café
Sem as suas patinhas.


Amor

As dobras das tuas axilas
Eram o meu ponto fraco.

Quantas vezes, meu bem,
Morri asfixiado em teu
Perfume de lavanda.

Os meus melhores sonhos
Aconteceram debaixo
Das tuas asas.

Tremia de febre
E não queria
Voar.

Homens Diáfanos São Patéticos

De tanto expulsar
Os meus demônios

Sobrou apenas
Uma folhinha
De oiti

No meio
Da sala.

Exílio

O poeta quem fez merda.
Haverá de ter muita honradez
Para comê-la antes que nasçam
Cogumelos e o louco se sinta feliz.

Apesar de ser adorado por passarinhos,
O poeta foi um rato e viveu como
Viviam os ratos:

Focinho frio,
Olhos brilhantes.

Um gentleman
Diante do queijo.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Magia

Já te contei
De quando
Hipnotizei
Uma galinha?

Eu tinha nove anos.

E foi a farofa
Mais gostosa
Da minha vida.

Outro dia te conto
Da minha moeda mágica
Que se encantou dentro de uma parede.

Conjurei raios
E trovões de tristeza.

Tinha cinco
Anos

Névoas De Chumbo

Sabe aquele poema ingênuo?
É um monstro de garras loucas.
Não conhece outro espaço
Senão as grades do meu crânio.
Todas as noites
Derrete o ferro
E faz balas.
Calibre
Grosso.
Não pense que é doce
A sua voz infantil.

Babau

Sofri muito bullying na escola
Porque tinha asas nas costas
E medo de altura.

Depois que cresci
As asas caíram
Mas o medo
Ficou.

A cabeça gira e vomito
Só de olhar as estrelas.

Noivado

Estive pensando
Como te pedir
A mão.
Os pés,
As batatas
Das pernas.
Um poema não resolve.
Talvez um gatinho
Ou um filhote
De hiena
Dentro de um cesto
De vime.

Doméstico

Cadê as colherinhas da casa?
Por vezes, somem sob
Uma névoa de
Mistério.

Não há outro jeito então:
Meu dedo fará as honras
Na latinha de doce de leite.


Pastoreio

Ultimamente
Sou um pastor

De ovelhas indiferentes
Ao tempo, ao pasto,
Ao amanhã.

Seguem meus passos
Ladeira acima e abaixo
Porque sou seu único dono.

E elas, as minhas ovelhas indiferentes,
Não abrem mão da minha companhia.

Uma companhia
Dúbia e patética.

Desfiladeiro De Girassóis

A poesia existe
Pra aproximar
As pessoas

(Disse-me
Um pardal)

De maneira
Tão especial
Que não precisa
Conhecer o poeta.
Cheirar o seu braço.
Beber com ele alguma coisa.
A poesia é uma ponte
Pra algo mais real.

Confidencial

Há duas coisas
Que você deve saber
Sobre a minha pessoa:
Fui um louco
E não ando bem
Da minha cabeça.
Em compensação (acredite)
Converso com passarinhos.
Um agora mesmo
Espia-me pelas costas.
Quer me dizer que hoje é sexta.
Hoje é sexta, sexta, sexta, sexta.
A sobrancelha
Nem se move.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Alguma Coisa Como Um Salmo

Se você bebeu, fumou e cheirou muito
Durante séculos e o seu espírito
Não suporta mais a sua
Cabeça de porco,

Tenha coragem
Pra fugir.

Não atenda
Ao telefone.

Aprenda a matar
Os seus inimigos.

Se a sua cabeça de porco
Explodir, jogue uma flor
Na calçada e acenda
Um incenso.

Coragem, meu poeta,
Não morra por suas mãos.
Outros fantasmas querem viver.

.


Não Jogo Baralho

Os meus dias estão contados.
Não sei quem contou, mas
Fizemos um acordo:

Não falo de Deus
E Este me devolve
O meu livre-arbítrio.

Cujo papel foi rasgado
Por um anjo pomposo
Na noite em que nasci.

Veleidades

Tentei escrever vários poemas.
Alguns morderam meus dedos
E me mandaram sumir da vista.

Os que aceitaram, baby,
Fizeram o serviço sujo:
Lavaram e beijaram
Os meus pezinhos.

A dor de cabeça
Deu um tempo,
Obrigado.




Botija De Ouro

Desde criança
Que sou doente
Por coisas invisíveis.

A poesia foi
Só um pulo.

Olhe bem a palma
Da minha mão.

Não vê mesmo velas
De navios fantasmas?


Dama De Copas

A tua língua,
Imagino, é doce
E salgadinha depois.
(propícia pra plantar sonhos)

Não sei por que acordei
Pensando em tua língua.
Nunca vi os teus lábios.

Digo, ver de perto.
Mordê-los na ponta.

Enquanto o solitário
Vivia preso no vale sombrio
Tu vendias maçãs envenenadas.

Quero uma.
Adoro maçã
Que faz sonhar.

A tua língua,
Suponho, é fria
E quentinha depois.

Coisa de romântico
Esquecer a dor de cabeça
Pra pensar em uma língua distante.







Platônico

Namorar à distância
É tortura, meu doce.

Depois que se briga
Não dá pra fazer as pazes
Beijando o pescoço e os pés.

Sobram apenas
As frias palavras
De morte e muita dor.

Pra te esquecer
Não tive outra saída
Senão pular da janela.

E levar junto
Uma andorinha
Das minhas oitis.


Vivência

Conhecer a si mesmo
É um pé no abismo.
Precisei de cinquenta anos
Pra bater a ideia que
Poesia
Não é
Sonho.

Pijama

As paredes racham
Mas o teto não
Desaba.

O meu cotidiano
É um cínico complô
De entidades sacanas,

Um cético com figas
Em volta do pescoço.

Sou o tolo da vez pra elas
Que chegam de todos os buracos.

Cruzam as pernas,
Acendem velas,
Batem palmas.

Beliscam meu braço
Com pontas de agulhas
Procurando meu passado.

Uma lembrança boa
Pra tocar fogo.

Abajur De garrafa De Vinho

Longe de mim invadir teu coração.
Deixemos o coração e o blues
Fora deste meu tédio.
Não é angústia
A minha dor
De cabeça.
Um livro
Que guarda
Entre as páginas
Uma flor de pétalas secas
Não deveria nunca ser tocado.
.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Carta


Separei alguns poemas
Pra te dizer, mas esqueci.
Não consigo
Passar muito tempo
Com um poema na cabeça.
Multidão de palavras
Dentro da cabeça acaba
Em tédio e muita preguiça.
Não paro de dormir.
Não sonho. Só durmo.
Deixo a barba criar terreno.
E não lavo meus bermudões.
Aliás, não te contei,
A cafeteira pifou.
A segunda em pouquíssimo tempo.
Faço o meu café em uma artesanal.
Queimo meus dedos
Com frequência.
Não passo
Pasta nem
Ponho gelo.
Os meus dedos queimados, baby,
Seguem os passos da minha solidão.
(Precisava terminar
Beijando teus olhos)

Poema


Tive tantos filhos
Nesta minha vida
De louco e monge.
Escrevi debaixo de árvores.
Escrevi muitas coisas dormindo.
Embora fossem nuvens,
Brilhavam carne e ossos.
As palavras nunca são
Uma coisa só, por isso
Que o poeta vive
Acendendo
Uma vela pra deus
E outra pro diabo.
Muitos dos meus filhos
Nasceram tortos e trôpegos.
Antes que me dessem pena
Sumi com eles no berçário.
Alguns meteram-se
Entre os meus dedos
De tal forma que acabaram
Pontinhos brancos nas unhas.
Não me canso de amá-los.
Nem me arrependo por esquecê-los.
Meus filhos
Não são bons
Nem maus.
Digamos que os meus filhos
Com a minha morte apenas tocarão
Um blues em homenagem à minha alma.
E pronto.
Seguirão depois os meus filhos
As suas vidas de pontinhos brancos
Nas unhas de outras mães e outros pais.
Tive tantos filhos
Nesta minha vida
De louco e monge.
Você nem imagina
Como dói amá-los.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Flerte Na Clínica

Você passou seu batom
E vestiu seu conjuntinho
Em atenção a meus olhos.
Até mostrou-me
O seu aplique
Rabo de
Cavalo.
Se você fosse uma ninfomaníaca
Como me contaram e juraram
As cozinheiras
Teria me atacado
Sem piedade.
Mas não,
Você era apenas
Uma professora cansada
Com doce voz de passarinho.

A Solidão Que Amamos

Queimei meus dedos
Fazendo café, baby.
Sou normal,
Acredite.
Nunca mais vi
Uma efígie de lobo
Com cara de cavalo.
As silhuetas
No teto também
São belos girassóis.

Floresta Sombria


O mal que plantei
Atravessará a vida
Junto às minhas mãos.
Um dia, baby,
Voltará a coragem.
Caminharei até a varanda
Sentarei na cadeira de vime
Não pensarei em pular da janela.
Por enquanto, meu doce,
O cansaço é minha salvação:
Fingir-me de morto de cortina aberta.

Infância Amorosa

Todos os dias
Meus dentes
Caem
E cada
Dente
Que cai
Livro-me
Jogando-os
No telhado
De sua casa.
Nascerá uma linda coleção
De florezinhas selvagens.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

18 horas

O que sabemos
Da dor do outro?
A natural ausência
De uma alma triste
Não é o princípio
Da melancolia.
A melancolia é um dom.
Um sinal de nascença
Que nunca se apaga.
O corpo estendido
Durante o sonho
Da morte
Não salvará
O dono.
Aquela lágrima
Que faz o caminho
Pra dentro da gente
Ninguém vê nem sabe.

Pátio de Clínica


Pensei em conjurar ventanias,
Mas isso é coisa pra entidades
Das matas
Ou dos mares.
Fique bem quietinho, poeta
E nem se dê ao trabalho
De levantar os olhos
Aos céus:
Sombras de passarinhos
Brincam no telhado.

Sitiado


Enquanto estive longe
Não houve rebelião.
A minha cafeteira
Preferiu a morte.
Ainda não tive coragem
De olhar as plantinhas.
A rua é uma paranoia.
Sei que os espiões
Não dormem
Muito bem.
Os últimos passarinhos
Reconhecem terreno.
Falta pouco
Pra minha
Janela.
Não reze
Por mim.
Os que não
Conseguiram fugir
Merecem a sua prece.
A sopa
Não esfria.

Drinque


Você sabe
O que o amor
Faz conosco, baby.
Precisamos
Virar a página,
Embora muitos insetos
Morram de tosse.
Uma tosse
Triste e seca,
Dessas de caubói
Após uma longa
Jornada

domingo, 9 de outubro de 2016

Decadência

Querer a poesia é um inferno.
Tê-la na cabeça durante séculos
É um inferno ainda mais terrível.

Depois que se pesca um peixe
O mar passa a seguir
Nossos olhos.

Sumiram as moedas encantadas.
As palavras tornaram-me um gângster.
Odeio com a facilidade de quem perdeu o amor.

Mereço um tiro.
Outra vida vazia.
Um túmulo penoso.

Um blues
Distante.