sexta-feira, 19 de abril de 2013

pétalas brancas

Choveu -
há uma calçada molhada
dentro da minha barriga.

Tudo isso, querida,
só pra lhe dizer
que faz frio
no quarto.

E os seus sapatos
eu os comi de saudade.

Agora fazem companhia
à calçada molhada
nessa noite
fria.


um velhinho solitário

Você desligou o telefone na minha cara
e nem se excitou com meus sussurros.

Cadê aquela moleca febril
debruçada sobre o parapeito da janela?

Sejamos carne um dia
antes da certeza morte.

Atenda o telefone
e vamos pra cama.

Saiba que a minha voz hoje
acordou um pouco rouca

qual a voz de sátiro
caçando andorinhas.



quarta-feira, 17 de abril de 2013

a placidez de um raio

É muito bom saber, garoto,
que você enfim percebe
que nem todas aves
gostam de voar.

Muitas preferem passear
pela varanda com seu amor.

É maravilhoso saber, garoto,
que você enfim desvenda
os segredos de filósofos
escondidos no olhar
difuso e repentino.

Serradeiras lá fora
fazem o trabalho
de gente forte.

Precisa-se de mãos calosas e firmes
para segurar aquelas máquinas, garoto.

E os filósofos com suas almas graves
sequer dão um passo, logo sentem dor.

Estou tão contente, garoto,
por saber que você não dormiu.

Mas as palavras
têm suas regras.

A primeira delas, garoto,
é que não existe eternidade
nem no que se escreve tampouco
naquilo em que lemos embevecidos.

Vista sua luva de muay thai
e vá treinar, meu filho.

Lá fora as serradeiras
comungam do meu silêncio.


sondando o dedão do pé

O poema aos meus olhos depois de escrito
e por mais leituras que sejam feitas
é um corpo etéreo

que não me leva
a lugar algum.

Se parto antes dele para algum ponto
é a partir da reflexão dos seus versos.
Ou melhor, do princípio da escrita.

Embora nem todos poemas tenham
entrelaçados em sua malha meditações.

Há muitos que caem em minhas mãos
como lágrima que leva o rímel
de uma dama traída.

Deveria ser um lenhador.
Mas os lenhadores refletem
sobre seus gravetos mais fracos.

Deveria ser um aviador.
Mas os aviadores refletem
sobre as suas nuvens mais densas.

Então me bastam os poemas
os que me fazem pensar

e os que me colam
às unhas feito esmalte
ainda fresco de uma dama feliz.


terça-feira, 16 de abril de 2013

los terribles

Há algum tempo observo
os cupins ao pé da porta
passeando indiferentes.

Pensam que sou bobo
e não sei que a qualquer instante
afiam suas garras, navalhas e dentes

e recomeça-se aquela comilança cruel
pela madeira podre que restou.

Não me sai da cabeça
que eles têm os olhinhos de chineses
e são ferozes quando querem alguma coisa.

Olho pra porta,
suspiro.


arte plástica

O que faço com a minúscula aranha
pendurada no pano de prato?

Ela não dorme nem se enforcou.
Só me disse "olá, cadê seus óculos?"

Imóvel zomba do poeta
pois sabe do meu coração de manteiga.


os olhos de nina

Dormir com um livro de poesias
é como fazer amor com duas mulheres:

uma santa
e a outra gente.

Sei que hoje o poema não foge,
mesmo assim há o risco dele se perder
dentro de mim se eu não contar algum segredo.

Revelo, então, que o poema
é meio castanho
meio verde.


um louco amoroso

Como pode um poeta
que saiu espalhando arroz pela casa
saber onde se escondeu o último grão?

Permitam ao poeta
após o seu doce regresso
toda a sua santidade e esquecimento.

Há jovens senhores encantadores de serpentes,
eu encanto anjos - por isso tenho dez
anjos da guarda nas duas mãos.



terça-feira, 9 de abril de 2013

o bom sonho

As lágrimas saem dos meus olhos quando desejam:
os cílios para elas são cadarços de crianças
que podem puxar, torcer, fazer nós
e laços.

E olhos sem cílios
são sacerdotes
sem guardiães.

Ou crianças
descalças.


sedução

Lutar contra o corpo
é nadar com um só braço
em mar revolto e ao chegar à praia
não haver coqueiros tampouco peixes na brasa.

O corpo tem as suas artimanhas
e de onde surgem tais peripécias
senão da psique que é mestra
em abrir mariscos.

O pescador quando envelhece
já não acredita tanto em sereias
mas continua ouvindo os seus cantos.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

poema guardado pra depois

É muito fácil apaixonar-me por ti,
pois teus olhos são de Deus

e Ele me disse que posso
cuidar de cada uma
de tua pérola.

Vejo então da janela aberta tua alma.
Mas é preciso atenção com os pombos.

Não respeitam os casais apaixonados -
podem cagar no teu vestido azul
e na minha camiseta branca.


o fujão

Fujão, prazer.
E se levitar é quase morrer
ontem quase morri várias vezes.

Perdão meu prato por não lavá-lo tão bem.
Perdão lâmpada do quarto que por preguiça
ainda vive lá queimada singela e desamparada.

Fujão é meu nome, prazer.
E se ter relâmpagos dentro da mente
é quase morrer ontem de madrugada
quase morri e disse a mim mesmo que
eu era do bem e se houvesse outra vida
gostaria imensamente de não existir dor.

Perdão cuecas minhas amontoadas.
Perdão banheiro que penso quando hei de ter coragem e deixá-lo brilhando.
Perdão plantinhas da varanda pelo tempo relapso e perdão minha xícara
por tê-la deixado cair e hoje ter outra no seu lugar, perdão, perdão.

Fujão é meu nome, prazer.
E se ajoelhar-se é quase morrer
se houver outra noite assim será para sempre.

Prazer, meu nome é sr. fujão.


domingo, 7 de abril de 2013

um prolongado suspiro

O meu coração não vai parar.
Tenho absoluta certeza disso.

Que os olhos se fechem.
Que a boca se cale.
Que as pernas
caiam.

O meu coração não vai parar.

As coisas dele, os segredos dele,
são tão fortes e suaves que tenho
absoluta certeza que o meu coração
por morte alguma meu coração vai parar.

Você já viu uma flor morrer?
As flores apenas nos iludem
quando se ressecam e se fingem.

As flores não morrem, meu caro,
porque as flores são doces e loucas.

Quantos amantes já não choraram
com uma porção delas nas mãos
e quantas amadas já não as jogaram
ao lixo com ódio do mundo e dos homens?

Mas esses instantes de arroubos e de incrível verdade
também é só uma óbvia declaração de que as flores
e o meu coração não morrem.

E ao fecharem-se meus olhos
e ao calar-se minha boca
e ao caírem as pernas

creio piamente
que lá estará
meu coração.

Doce, firme e suave
como uma flor.


dei as contas do meu psiquiatra

Procure-me melhor,
se eu não estiver debaixo da cama
certamente estarei em cima do guarda-roupa.

Debaixo da cama tenho as formigas
para conversar sobre o meu estado.

Em cima do guarda-roupa
fico mais próximo dos céus
e pulo com minha capa mágica.

Segure a barra,
não faça tolices,
ria dos seus vacilos.

Hoje de manhã no banho
enquanto pensava em bela
como é a solidão tranquila

dois passarinhos um de papo amarelo
e o outro de papo branco abraçavam-se.

E nem sabia o nome desses passarinhos
(se João ou se José) e raios por que 
foram parar sobre a grade de ferro 
do prédio vizinho.

Só sei que se abraçavam
como velhos amigos
de longa estrada.

Pensei: não vale a pena 
meter uma bala na cabeça.


a natureza dos atos

O meu barco virou em alto mar.
Só não me afoguei porque
uma tartaruga grande e velha
jogou-me sobre seu casco
e levou-me à praia.

Depois de fazer respiração boca-a-boca
e tirar dos meus pulmões toda a água
salgada do mar,

pediu-me apenas que eu cuidasse
com muito zelo e atenção
dos seus ovinhos
que ela havia
posto

ali perto,
em um lugar secreto.

A grande e velha tartaruga com seu casco riscado do tempo
deu-me as costas e foi-se vagarosamente.

E eu fiquei sentado dias após noites
vigiando atento os seus ovinhos.

Em uma bela manhã
rompeu-se do abrigo
um monte de filhotes
cada um mais afoito
do que o outro.

Corriam em direção ao mar
atropelando-se, atolando-se,
aqueles que pareciam perdidos
eu dava um empurrãozinho
com a ponta do dedo.

Salvaram-se todos -
graças a Deus e à ponta do meu dedo.

Voltei para casa
mas algo dentro do bolso
mexia-se e ao meter a mão o que vi?
Uma tartaruguinha a cara da mãe que me dizia:
"pa... pai, pa... pai..."

Ora, eu não tenho cara de tartaruga.
Ou tenho?


quinta-feira, 4 de abril de 2013

na hora da morte de uma galinha

A galinha antes que lhe torçam o pescoço
e sangrem passa um filminho
na cabeça dela -

do tempo em que ela punha
seus ovinhos sentindo
aquela dorzinha
prazerosa

bem aquecida,
e lá fora aquela chuvinha.

Depois ia ela ciscar a terra molhada
e degustar apetitosas minhocas
e outros besourinhos.

Também lhe vem à cabeça
aquele chato do seu marido
um galo todo metido que
sempre ao amanhecer
acordava-a com aquele
canto estridente.

Somente por tal lembrança
a galinha não se importa
que lhe torçam o pescoço
e sangrem.

Diz ela pra si mesma:
"morro mas estou livre daquele galo inútil
gritando aos meus ouvidos
durante meus melhores
sonhos."

E é morta a galinha
e tu comes feliz
o ensopado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

batatas

Hoje plantei batatas
tanto que as costas
estão a me matar.

Mas é bom plantar batatas
chegar o fim da tarde
com aquele cansaço
de quem plantou
batatas.

E eu planto batatas
alucinadamente
não perco
tempo.

Sei que na alma de alguém
essas minhas batatas matam a fome.

Por isso, sem pestanejar, todo santo dia
eu planto batatas e mais batatas
feito um louco.


domingo, 31 de março de 2013

cônjuges pela eternidade

Poesia como solidão
é para poetas, deuses
e semideuses - portanto,
acostume-se a ela
porque ela

é o osso do seu cotovelo
é o lóbulo da sua orelha.

Mesmo que você quebre um e corte outra
sinuosamente ela invade seu sangue.

E sangue depois de contaminado
é uma dor a separação.


carta marcada

Às vezes procurando um poema
encontramos um abismo.

E nem era do abismo
que queríamos falar.

Era só pra dizer
que doem as costelas.

Mas eis o abismo na nossa frente
altivo e pegajoso nos chupando
para fora de nós.


mãos

Peço-lhe um favor,
quando vier novamente
traga-me suas mãos dentro
da sua bolsa e deixe-as sobre
a minha escrivaninha - é que sinto
muita falta delas alisando meu rosto
fresco de sabonete após a barba feita.

O resto do seu corpo -
bunda, seios e pescoço -

pode levar em paz, mas
as suas mãos, clemência,
deixe-as sobre a escrivaninha.


domingo de páscoa

O que aquele bichinho esperança
fazia na varanda e o que refletia
nesse domingo de páscoa
não sei mesmo,

mas seus olhos estavam tristes
e o seu silêncio era bem maior
do que o de costume.

Talvez pelo fato de minha irmã
ter em punho uma vassoura
daquelas que investiga
até os mais recônditos
cantos debaixo
da poltrona.

Eu agachei-me e notei nele
um pensamento distante.

Deixei-o em paz
na ponta do batente.

Espero que minha irmã
também o tenha visto
como eu o vi
silencioso
e triste.

E tenha lhe poupado a vida.


orgasmo

Equilíbrio não é manter contato com o chão.
Equilíbrio é manter contato com as nuvens.

Elas mudam de faces,
você muda de pensamentos.

Mas o céu azul ou cinzento
permanece acima de sua cabeça.

Não percamos um minuto
com o que amarga
lembrança.

Se o nosso amor for forte
será levado pela corrente.


sábado, 30 de março de 2013

blefe

Há dias em que as maravilhas da solidão
alcançam-me de tal forma a alma
que não me resta outra saída

senão perdoar a mim mesmo
da ínfima humanidade
e ser eterno.

Para isso tenho duas mãos
e um papel em branco
que meu sangue
não tinge.


pecado do bom moço

Sim, eu sinto inveja
desses cavaleiros loucos
tatuados até a alma com
suas donzelas também loucas
tatuadas na nuca um dragão e uma flor.

Sim, eu sinto uma inveja terrível
que chego a limpar meu revólver
e troco as balas comuns pelas de prata.


todos os encontros dos céus

Se eu abraçá-la por muito tempo
se eu abraçá-la por muito tempo
tenho medo de que você leve
para seu quarto não apenas
o meu perfume mas
a minha solidão.

E não seria agradável
ao nosso primeiro encontro
você passar toda a tarde paradona
deitada só olhando o teto e seus insetos.

Do teto podem cair aranhas.
Do teto podem cair aranhas.

Esqueça estrelas,
do teto só caem aranhas.

Algumas tão sutis
descem por finas teias
que mais parece missão impossível.


páscoa

Não paro de tomar meus remédios
e deixarei meus cabelos crescerem.

Andarei pisando neles
brancos e fininhos.

Os passarinhos hão de pegar carona
nos cachos ainda úmidos do banho
como se fosse uma orquídea
minha cabeleira.

Vai demorar um ano,
dois, sabe-se até um século.

Mas não paro de tomar meus remédios
e deixarei os meus cabelos crescerem.

Quando morrer estarei belo
com os cabelos grandes
tomando minha testa
a minha grandiosa
e larga testa.

Poderei enfim suspirar para cima
e ver uma madeixa levantar-se
feito braço de bailarina
ao vento.


o rei

Cansei de pedir esmolas
agora sou um sábio
a oferecer sua barriga

pra que vocês passem a mão
alisem de mansinho e agradeçam
por todos os seus sonhos realizados.

Cansei de pedir esmolas
agora sou um samurai
que parte ao meio
um poema

e depois costura
cada palavra
com os dentes.

Eia, eia!
Um novo poeta
escapa de sua caixa de sapato
levando junto os seus amuletos -

sementes de mucunã
e um punhado de sal grosso.


terça-feira, 26 de março de 2013

frivolidades

Falo sozinho, sabia, meu bem?
Às vezes até discuto seriamente.

As paredes não se metem.
Quedam-se no lugar delas.

Os livros estão cansados demais
para dizer alguma coisa a favor
ou contra.

E eu falo sozinho que é uma beleza.
Esmurro meu próprio peito

e não entendo por que
meu coração é uma mocinha.

As discussões podem chegar a várias noites.
E no final do surto estou morto e desvalido.

As minhas botas riem cinicamente
dessa minha falta de juízo,
mas no outro dia

lá estão elas solícitas
oferecendo-me o calor
do seu útero para que eu
meta-lhes meus pezinhos de anjo.

As minhas botas são as únicas meninas
dessa minha vida insignificante
que me entendem.

E eu meto-lhes meus pezinhos de anjo
com tesão e delicadeza de um flamingo.


segunda-feira, 25 de março de 2013

oração pro meu filho e os amigos dele

Oro pra vocês, meninos
que pelo menos uma vez na vida
quebrem o nariz dos seus algozes
mas não se acostumem com a violência.

Oro pra vocês, meninos
que namorem bastante
e só leiam o essencial
pra que o corpo
reconheça
a alma.

Oro pra vocês, meninos
que enfrentem seus medos

e não se acomodem
às paredes do quarto.

Oro pra vocês, meninos
que façam algum esporte
mas que prefiram escaladas.

Subam montanhas, meninos.
Segurem-se bem - em algumas
nuvens não se pode mesmo confiar.

Oro pra vocês, meninos
que fujam do demônio
que tem uma face
brilhante de ouro

e a outra face
fuligem de crack.

Oro pra vocês, meninos
que não caminhem com os maus
tampouco sonhem em salvar os cínicos.

Oro pra vocês, meninos
que tenham fé em seus corações
quando eles falarem sobre o amor.

Oro pra vocês, meninos
que tratem com elegância
as meninas e nunca confundam
o sorriso delas com o que elas pensam.

Oro pra vocês, meninos
que não pensem em se matar
quando as meninas fugirem com outros
e voltarem das férias mais belas e felizes.

Oro pra vocês, meninos
se forem pais cedo

que aprendam
com seus filhos.

Que brinquem com seus filhos.
Que não assustem seus filhos
com assombrações
de falsos deuses.

Oro pra vocês, meninos
que plantem uma flor
e escrevam um verso.

Um só, meninos
e fujam dos poemas.

Eles podem levá-los à loucura
e de loucos já bastam os poetas que existem.


festim

Passarinhos felizes são uns palhaços exibidos.
Se chove então é festa, bacanal,
folia sem fim.

Agora, por exemplo, alguns jogaram
pela janela do banheiro gravetos
e ramos dos seus ninhos
só pra me chamar
atenção.

Outros abrem o bico
e mostram suas cordas vocais.

Mas nada se compara a um em especial
que dança frevo usando uma sainha colorida.

Palhaços,
exibidos.


alianças trocadas

A minha presença é pesada
mas com outras pessoas
fico leve, paspalho.

Chego a sorrir -
acredite, eu sorrio.

E imagino que será assim sempre.
Mas retorna a minha presença
quando chego ao quarto.

Sai de trás da porta a senhora poesia
uma mulher sangrando
e me pede apenas
que eu seja
delicado.

Beijo-lhe o ventre,
a virilha, e troco
sua roupa.


domingo, 24 de março de 2013

brasão de pó

Não tenho filha para ler os meus poemas
quando eu morrer: o que faço
então com a minha fé?

Por enquanto engano a morte
trocando de xícara e chorando
pela outra antiga despedaçada.


pedintes de moedas de ouro

Você ainda não sentiu o ar de um suspiro
arrebentando com as costelas.

Nessas horas, seu moço,
a única saída é ficar quieto
tentar estabilizar a respiração
e arrancar as loucas mãos do corpo.

E virá novamente com outro suspiro o fogo
um ar quente que estraçalha
costelas.

Mas já não temos as loucas mãos,
seu moço, para aliviar as palavras.


sopro dominical

Regozija-me saber que a minha rebeldia
não envelhecerá nunca e quanto mais
cabelos brancos e teias de aranha
debaixo das minhas axilas
estarei atento e folgado.

Não há guerreiros mais revoltados
que os habitantes do meu coração.

E todos os dias rezo por eles
para que tenham uma boa morte.

A minha eu já escolhi e marquei hora
e aguardo-a sentado no sofá

também esperando uma folha de oiticica
que o vento traz pela janela aberta.


sábado, 23 de março de 2013

escamas e penas

Queria lhe falar da minha tristeza -
um bicho-de-pé que floresce
orquídeas.

E eu cuido de cada uma delas
com um agasalho de veludo
sobre meus ombros.

Uma é para você
quando visitar
meu quarto.

Outra para seu anjo da guarda
que a proteja desse infortúnio.


cândido

Não posso beber
mas posso impedir

com o meu cuspe
que uma formiguinha
folha verde no ombro
chegue ao seu destino.

Não posso beber mas posso
tirar a pele dos meus calos

e jogar pela janela pra que algum pombo
experimente o gosto das minhas botas.

É insuportável essa clareza
essa cabeça sã e esse espírito
que anda pela casa e não move

uma palha pelas plantinhas da varanda
muitas delas que acabaram de morrer.


sarro

Sei o que você fez debaixo
da minha janela ontem
de madrugada.

Mas sou um deus bonzinho
e não contarei pra sua mãe.

Só não entendi depois de tanta loucura
vocês jogarem cartas ingênuos
o cara lhe ensinando
e você com um ar
de freira.

Não percam mais tempo.
Da próxima vez mudem de posições.
E esqueçam essa desculpa tola de jogar cartas.

Carne é carne
e pela idade de vocês
ainda há muita sofreguidão

em suas bocas
e dedos.


sexta-feira, 22 de março de 2013

o rato

As meninas do andar de cima estão enlouquecidas:
encontraram um rato. E pelos gritos dever ser
um ratão.

Sou cavalheiro, mas não me atrevo
acuar um rato estressado na cozinha.

Se elas assim desejarem
posso oferecer-lhes
a minha cama.

Para que elas descansem
quando voltarem da noitada.

Sim, porque com esse perfume
certamente não vão passear
com o rato no playground
e depois ler um livro
no sofá.


amor de minha vida

Se querias um motivo para brigar:
usei teu sabonete e deixei
três cabelinhos do púbis
como lembrança.


quinta-feira, 21 de março de 2013

atrás dos montes

Vou parar de escrever poemas.
O negócio está ficando sério.

As mãos não se compreendem mais.
As pernas esqueceram de caminhar.

Só querem agora carona
nas asas de gaivotas.

E eu digo pra elas que as gaivotas
já têm muito peso sobre suas penas.

É bom eu parar de escrever poemas
e viver do que foi escrito - qual
o coveiro que vive de ossos
alheios.

É melhor eu ficar do lado de fora.
Sem pretensão de cortar com os dentes
uma folha de papel que voa e passa na minha frente.

As gaivotas me perguntam que história é essa
de muito peso sobre suas penas.

Eu consigo pegar uma com os dentes.
Parto-lhe o coração ao meio.

Penso que sou um espadachim.
Um samurai. E as minhas mãos
enlouquecidas aplaudem
meu último ato poético.


solidão

Marteladas de um pedreiro lá fora
e pingos caindo de uma torneira quebrada
é tudo que tenho para te oferecer nesta manhã.

Forças ainda me restam
para abrir a boca de um hipopótamo
até que o bicho me peça clemência, clemência.

Mas que onda é essa, rapaz, hipopótamo
de boca torta? Melhor é pensar na velhinha
do prédio vizinho.

Talvez eu seja mesmo sua única alegria nessa vida.
E deixo que ela me espie sem constrangimentos.

Banho-me naturalmente,
pensativo, distante.

Às vezes o sabonete cai
e eu olho pra janela da velhinha.

Lá está ela -
atenta e simpática.

terça-feira, 19 de março de 2013

entre os tendões e as nuvens

Já estou bem melhor da perna, querida.
Até ontem eu era um urso velho
a encantar camponesas
com o andado

e um salmão
entre os dentes.

Agora, querida, veja que incrível -
posso me alongar até o teto
e ver de perto a cara
das minhas amigas
aranhas.

Elas nunca dormem.
Sempre tocando harpa.


chá das seis

Faço parte de um grupo de solitários
que todos os dias se reúnem
em um buraco

para rir da mazela humana:
do carro novo que bateu no poste
sem ainda ter seguro ou do vestido de noiva
que sujaram de lama pouco antes do casamento.

E rimos à beça
que seguramos a pança.

Só bebemos água porque há aqueles
se beberem vinho enlouquecem -

e loucura é o que não desejamos
em nossas divertidas reuniões.

Exceto no dia do nosso protetor
em que cada um escolhe
seu próprio desfrute.

É uma celebração nesse dia
e todos se transformam
noutros seres:

lagartixas, passarinhos,
baratas, formigas,
rinocerontes.

Há um que sempre escolhe
ser uma xícara.

E fica lá sobre a estante
esquecido por todos.


paquera

A cada dia a árvore da minha calçada
está mais próxima do quarto
os galhos já batendo
à janela

e os passarinhos
com ciúme.

Ou a árvore de fato
está apaixonada
por mim

ou estou vendo coisas.


feriado

Não se preocupem,
depois da minha morte

não lhes puxarei
os pés dormindo.

Morto
não lançarei fora os meus chinelos
não coçarei minhas costas
não passarei a língua
pelos meus dentes

não terei nenhum laço
com os meus inimigos nem
com as minhas doces andorinhas.

Só os meus ossos que dançarão felizes
quando alguém por descuido disser
com a voz trêmula alguns
dos meus versos.

Coitado - a partir daí
não o deixarei
em paz.

Serei seu anjo.
Seu encosto.


domingo, 17 de março de 2013

três acordes

Sou um amante incorrigível das palavras,
embora as minhas sejam ralas
e presumíveis.

Acredito que o poema escrito
é anteriormente sugerido

por outra atmosfera
distante do vocábulo.

Como o olhar do apaixonado
que antevê o rosto da amada.

E nesse buraco negro
sequer existe espaço
para a respiração
do poeta.


ossos trincados

Nunca pensei tão cedo
ser coxo nessa vida
e tu me perguntas:
cadê suas asas?

Quem tem asas
é passarinho.

E mesmo assim apesar de todo o frêmito de quem voa
batem à minha janela passarinhos
enfadonhos e tristes.

Agora entendo o sorriso
da serpente que rasteja.

Ao coxo nenhum milagre é oferecido.
Nem a epifania dos entes alados.
Nem a troca de muda do réptil.

Ao coxo apenas aquele andado sofrível,
patético, dissimulado, de quem será
amanhã um belo assassino.


sábado, 16 de março de 2013

encantamento

A lâmpada do quarto queimou.
Sinto pelos besouros que lhe
tinham tanto afeto.

Sou testemunha de inúmeras mortes
desses besouros apaixonados
que colidiam contra
a luz.

O que farão eles agora
que a escuridão reina?

Com a lâmpada queimada
hão de procurar outra paixão
para tentar o suicídio em paz.


andejo

Morro de medo quando lavo o liquidificador.
Aquelas lâminas lá no fundo parecem
tentáculos de monstro

cujo único propósito
é cortar os dedos
da gente.

Mas não era isso que queria te falar, meu bem.
É que hoje completa dez dias de tratamento
e cada osso beijado pelo carbonato
de lítio é uma dor desumana.

Talvez tu agora estejas a gargalhar do meu exagero.
Mas o que seria da simplicidade das coisas
sem o vexame do poeta?

Sei que é uma arte manter-me sensato.
Prender bem preso o meu demônio.
Lavar o liquidificador em paz.



convite de um bufão

Se você estiver cansada
de agradar ao seu namorado

malhando direto
e só na dieta

venha até minha alcova
que aqui dentro é tudo sincero -
só vejo a alma de quem me visita.

E lhe juro que sua alma
se dará maravilhosamente bem
com a alma dos meus bichinhos de estimação:

cupins, baratas e uma andorinha solitária
que bebe água com açúcar
na minha janela.