quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Segunda metade do século XIX

Entre uma garrafa de vinho
E uma vodca com Dostoiévski
Avaliamos o ano que já se finda.

O russo diz que tem saudade
Dos campos da sua infância.

Pergunto se ele jogava baralho
Naquele tempo ou se namorava.

O russo anda triste
Com as feridas
Dos pés.

Não me responde.
Caminha absorto
Pela floresta.

Grãos de neve
Caem sobre
Seu capote.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Visita de um monge peregrino

Imaginem quem chegou agora à janela da varanda.
Canta enlouquecido das vertigens dos céus e voos.

Penso que esse pássaro (não me seduz saber
A sua espécie) às vezes me suplica água.

E eu (patife)
Ofereço-lhe
Poema.

Epifanias de um ogro

Tenho mania de querer enxergar
A alma da mulher pelo seu corpo.

(Só aos vestidos finos e transparentes
Os meus olhos tocam sedas e nuvens)

Infância

À beira do abismo a pipa colorida
Encantava o telhado antigo
Do casarão dos meus avós.

Não consegui buscá-la.
Mas foi selado o amor

Entre as palavras
E minhas mãos.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Quarto

Dois poemas mortos
Por minhas mãos
Não é sacrifício.

Já apaguei milhares
Dos meus ombros
E vista.

(Outro dia agradecerei
E saberei assentar
O meu santo)

Pétalas em flor

Inacreditável, mas o jardineiro (apaixonado)
Esquece completamente as suas obrigações.

As suas mãos só seguem
O caminho das coxas
Da sua amada.

E quando pensa em molhar o jardim da praça
O outro jardim ensopa seus dedos de encantos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Galante

Cedo ou tarde acordo
E o poema acorda junto:

Beija-me mãos, rói-me unhas,
Coça-me as costas com os cílios.

O poema é uma extensão do meu corpo.
(Esta manhã tirei o dia pra seguir formigas)

celeiro de margaridas

Se uma mente vazia
É a casa do diabo,

O coração vazio
É o próprio
Inferno.

Limpe as suas gavetas,
Mas nunca jogue fora
Os poemas antigos.

Azaleias de um santo

Da outra margem
Jogo o meu braço.

Agora,  poderás
Atravessar o rio.

O amor é um braço
Sobre as correntezas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Arte final

Enquanto você dorme
Desenho os seus pés
Sobre meu colo.

Logo que acorde
Pisará em nuvens.

(Serão minhas costelas)

Tonel de carvalho

Desde o tempo
Em que quebrava
As pontas do lápis

E fazia calos nos dedos
Da minha máquina de escrever
Que tento refinar os meus poemas.

No final, quem apura cada verso é o leitor.
(Claro, meu anjo, que o olhar do poeta cega)

Vívido

Quando o poema pesa
Eu penso que sou ave.

Vou até a varanda
E pulo de guarda-
Chuva ou capa
De plástico.

Sabe aquele plástico
Que adoramos espocar
As bolinhas? Pois então.

Cântico

Não há como colher grãos de tempestades
Se não abrirmos os olhos e entrarmos
No olho do furacão.

Os pedaços da gente
Ainda que se confundam
Com pedaços de outros seres
São ossos de homens e mulheres.

Humanamente,
Sem traços
Do além.

Minha fuga há de ser nesta terra.
Neste mundo. Admirando
As artérias das mãos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Cafeteira

Minha cafeteira deve ter cerca de oito anos.
Não sei qual a equivalência entre a idade
De uma cafeteira e a do humano.

Talvez, a cada ano de vida de uma cafeteira
Seis anos da gente. Logo, a cafeteira de casa
É uma jovem senhora de quarenta e oito anos.

Distinta. (Só não gosta
De fazer amor em silêncio).

Adora uns sussurros
Quando faz meu café.
(E passo por perto dela)

a promiscuidade pode ser delicada

O lenço que tu enxugas teus olhos
Se tu imaginasses que nesse lenço
Guardei filhos que nunca vingaram.

E sinto uma espécie de gozo
De assistir a meus filhos órfãos
Sendo conduzidos por tuas lágrimas.

(Até os lábios)

Bodas de lírios

Desamparo, meu bem, conhecerás ao chegar aflita
(Fraca e débil da tua ressaca) e não encontrar uma alma viva.

Sequer um bilhete preso à porta da geladeira. Um travesseiro
Rasgado ao meio. Um copo de conhaque jogado no tapete da sala.

Nem um grito dentro das gavetas.
Nem um gesto mais brusco pelos cantos.
Nem o espelho quebrado manchado do meu sangue.

Só o meu perfume
No centro da casa.

De quem já foi
E levou os sapatos.

Trombeta dos anjos

Se for tristeza
Dentro do seu peito,
Cante: não enrole a dor.

Licores

Por meu coração
Os meus dedos correm
A soltar as rédeas do poema.

(A carruagem voa)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A Ceia do meu bem

O meu ofício
De fazer poemas
Não tem tanto glamour.

Cigarro entre os dedos,
Uma garrafa de uísque,
Olhar charmoso distante:
Quimeras, minha querida.

Escrevo poemas sem camisa.
De bermudão. Com palito nos dentes.
(O máximo uma xícara de café ao lado)

Não há ouro dentro dos meus bolsos.
Nem mágica nas palavras que escrevo.

Basta-me aquele olhar de quem parte.
De quem diz adeus mil vezes e não parte.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crepúsculo

Parece que perdi outra alma.
Sempre a mesma sensação de perda
Quando bebo meu café antes do sol morrer
Nas grades da varanda. (As páginas de um livro
De um escritor da segunda metade do século XIX
Gordurosas dos meus dedos. Isso já é outra morte).

Botequim

O poema de amor é livre
Para ser tatuado nas costas
De uma gaivota ou serpente.

O poema de amor
Há de ser fantástico

Tais as cartas
De Fernando
Pessoa.

Ou as epístolas
De um padre
Pro filho
Pagão.

O poema de amor é como perder
Um amendoim no tapete da sala.

E nunca mais encontrar.
E se encontrar, já não servir.


Éden

Prova de amor pra um Sátiro
É deixar a marca do batom da amada
No seu casco de bode por toda a eternidade.

Nem que as outras ninfas o crucifiquem
Aos pedaços pelas cerejeiras dos bosques.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Fábulas de um caolho

Quando amo
Paira a certeza
Da minha morte.

Meu coração (arguto)
Tenta enganar a mente:
"Sonha, poeta, sonha..."

Mas é só na morte que penso.

Não há como viver
Com esse peito
Acelerado.

Um segundo
Pra bater asas.

perfume secreto dos clãs apaixonados

Tinha o hábito, meu bem,
De fazer ritual com as plantinhas da varanda
Juntando à água da chuva pedacinhos das minhas unhas.

Acreditava que ao aguá-las
Com essa poção mágica
Uma mulher especial
Furaria meus olhos.

E tu acendeste
A minha alma.

Ah, como é divino andar cego pela casa
Tropeçando na mesa redonda de vidro
E pedindo perdão por tanto amor.

Alforje de sátiros

Ao primeiro encontro
Guardarei pra ti
(Sem medo)

Meus dentes amarelos.
Meus cabelos brancos.
As unhas dos pés
Enormes.

Só não levo este meu olhar triste.
Pois vejo que mudou um pouco
Meu jeito de olhar o mundo
E não fazer a barba.

Religião

Será um duro golpe
Ao pássaro que crê
Em eternidade

Diante das suas asas
(Só os finos gravetos)
Alimento das formigas.

Entenderá o pássaro
Que o eterno já acontecera
A cada nuvem de chumbo e névoa.

Agora é tempo do renascimento das formigas.
Vê-las andando pela mesa com ares de arcanjo.

Olhos
De fogo
E perdão.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Crioula Blues

O poeta feliz seria um desastre:
O sinal de carne dentro do olho,
O corte da gillette no pulso direito,
O andado trôpego de um náufrago,

O universo que tu amas,
Amor, deixaria de existir.

Diz-me se as nuvens cinzentas
Não brilham mais dentro da alma.


Antes de dormir

Sabe, meu bem,
Onde habita minha alma?
Vê dentro do seu coração.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Laboratório

Por muito tempo
Imaginei que a alma
Vivesse dentro dos olhos.

E olhava pessoas
A causar espanto.

Hoje, antes dos olhos,
Vejo primeiro as mãos.

Os gestos.
(As palavras)

As mãos
Que indicam
Se a alma mente.

Sisudo

O sol bate na toalha
De símbolos natalinos.

Um ursinho pula.
Dois ursinhos pulam.
Três ursinhos (não vou contar
A toalha inteira) basta dizer que o sol
Bate na toalha verde de símbolos natalinos.

Artífice dos Querubins

Aguardo o poema
Enquanto a poesia
Beija os meus pés:

É um jovem senhor
Esse vento que entra
Pela janela da varanda.

Traz na mão uma pinga.
E um relógio de bolso
Preso à cintura.

Parece meu pai
Após esculpir
Seus anjos.

Meu pai tapava-me os olhos
Com os seus dedos trêmulos.

Só depois de traçar
A musculatura das asas
Dos seus anjos de cemitério
Dizia-me que ainda faltava o olhar.

Meu pai nunca esqueceu
O olhar melancólico
Dos seus anjos
De jazigo.

Sabia como ninguém
Cinzelar a tristeza dos céus.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Os anjos de libra

Os anjos da terra
São aqueles anjos
Que cansados
Dos céus

Escolheram
Ser musas.

Algumas delas (até hoje)
Cuidam dos sonhos
Do seu poeta.

Luto

Enquanto não ouvir a tua voz estarei de luto.

A minha xícara branca estará de luto.
A mesa redonda de vidro estará de luto.
As plantinhas que respiram meu ar estarão de luto.

Enquanto não ouvir a tua voz
A minha poesia estará de luto.

E não haverá tempo
Que não paire luto
Sobre as palavras.

Lembrarei do velho corvo
Que me beijava os pés
De alegria.

(E eu tinha
Medo).

Altar de palavras

O esmero
Dos poemas a que nos esforçamos
Não impede o princípio da angústia.

A arte da carpintaria
É justamente polir
O que falso
Brilha.

Capela

Desde criança
O que me atraía
Em uma vela acesa

Não era o fulgor
Das cores da chama.

Mas as lágrimas da sua cera
Que queimavam meus dedos.

Inevitável, mais tarde,
Não escrever poemas.

A mecânica das nuvens

Filho, escreva com a necessidade
Básica e urgente de pôr o corpo
De pé:

De quem se alimenta,
Bebe água e tem vícios.

Esses poemas, filho,
São os que viverão
Após sua morte.

primeira xícara de café

Os babuínos
Quando comem
Frutas silvestres
Esquecem suas presas.

Lição de casa

O coração é só um coração
Com seus fluxos sanguíneos
Que pode salvar a vida
De um doente.

Mas se escutarmos atentos
O que o coração nos diz
Em uma manhã
De sexta

Será como ver
Pela primeira vez
As nossas calçadas.

A poesia é uma palavra tênue
Entre dois mundos cabíveis
(Um na realidade
Do outro)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Auréola de fogo

Existem pássaros que nascem
Com um pesar de grilhões
Preso aos tornozelos:

Sempre que voam
Rasgam a terra
Escurecem
Os céus.

campos de margaridas

pra  Janice

Os mitos caem
E tornam-se poetas
Quando se levantam:

Cientes da eternidade
(E da dor humana).

Moinhos

Quisera fosse uma espinha de peixe
Atravessada em minha garganta,
Baby.

Pediria ao porteiro do prédio
Bater-me forte as costas
Com um martelo.

Mas o suspiro
(Revestido de cianeto)
É bem mais assombroso.

O destino de um ouriço

A solidão é o sinal de carne
Dentro dos meus olhos,
Meu amor.

Arde, mas
É meu olhar.

O estúpido

(Guardo uma dor intransponível
Que nem o próprio poema revela)

Embora a perdição do náufrago,
Em alto mar o brilho das estrelas
É um convite à morte tranquila...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O sal

O mar cansado da menina
Que lhe roubava com um balde
Todo o seu sal e de noite refinava o sal
Debaixo da cama com os seus pesadelos
Afastou dos pés da menina todas as praias.
.
A menina não resistiu ao sorriso:
(Ocultamente sabia que nunca faltariam
Ciscos e traves a lhe queimarem os cílios)

Lara Amaral passou a colher o sal das estrelas.
E todas às noites subia ao telhado com o balde.

Flores de jambo sobre capô de carro antigo

O perdão não vem por palavras.
Pelo cansaço, sim. Quando apenas
Suspiramos (entediados) indiferentes

Ao ódio
E mal.


Maquinista

Lavo as louças do almoço
Com um olhar tão brando
Que os talheres caem
Das minhas mãos.

Antes que cheguem aos pés,
Consigo trazê-los de volta
Com um sorriso.

Só o garfo tenta
Espetar-me
Os olhos.

Epifanias

Sabe aquelas palavras beijando-lhe
Os braços e um ósculo que molha
Seu rosto?

Então você desperta
E percebe que o poema

(Raiz dos ossos)
Já tomou-lhe
A alma.

Preguiça de um metafísico

Não arrumo a cama
Logo que eu acordo.

O deleite das férias
É voltar aos lençóis
Tépidos de outros
Corpos.

(E são tantos fantasmas
Ainda quentes que dormem).

A virtude dos vermes

As baratas ao sair dos seus buracos
Não deveriam temer a luz dos meus olhos.
Desde criança que elas conhecem meu santo.

Não as odeio, apenas são asquerosas.
As minhas formigas, por exemplo,
São bem mais impuras
E cínicas:

Fingem comer só açúcar (puritanas)
Mas sabe-se lá onde se metem
Quando durmo.

As baratas não mentem. Não precisam.
Afinal, não têm elo comigo. o negócio delas
É ocultar-se em porões, buracos de encanamentos
E caixas de sapatos. E apreciar a decadência humana
De camarote comendo sobras e lambendo louças de ontem.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Estreitos de mediterrâneos

As minhas mãos
Além de escrever
Poemas e poemetos
Sentem-se mais felizes
Fora de ação das palavras.
(Onde meu corpo sua diferente)

Palavreador

Se meu poema
Não me quebrar
Uma costelinha
Enquato suspiro

Fico, então, meio sem
Graça, indeciso, triste.

Uma moeda de ouro
Não é o suficiente
Pra cada costela
Que quebro.

Das névoas de chumbo

Já não consigo dizer a palavra amor
Com a mesmíssima pureza e doçura.

Amanheci manco, caolho,
Preso a um coração
Desconhecido.

Levanto minhas botas
Pra ver se debaixo
Há as nuvens
De outrora.

Quem salvará
Aquele inseto
Da parede?

Só tenho uma chance
De acertá-lo no exoesqueleto
(Entre o abdome e a sua cabeça).

Tamarindos

De volta à terra sagrada do tédio.
(Como é bom estar em casa
Lúcido e sem uma gota
De esperança)

Que os passarinhos
Não me venham
Esta manhã
À janela.

Estou ótimo

O magnífico vazio

O dom da poesia
Não é enfurecer
O poeta ou
Educá-lo.

Mas, apenas (tão somente apenas)
Trazer o poeta à realidade do corpo.

Sério, alma
É um alento.

E como todo alento
Há manhãs de fracasso.

Perdemos o rumo do que foi escrito.
(Só aí encontramos alguma verdade)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Palavras

O encanto é como
Uma bolinha de sabão:

Deixe que flutue pela casa,
Pelos móveis antigos,
Pelo jarro de rosas
Brancas.

E ao chegar ao seu braço
Não assopre não fique ansioso
Espere que o vento rompa o sonho.

Mas nunca toque.
Nunca toque.

(Não peças tempo
Ao amor)

Subterrâneos de uma taberna

O ferreiro (quando melancólico)
Queima as mãos ao forjar
A espada.

O rei precisa de uma lâmina nova
(Invencível) que rasgue pétalas
Com a doçura de partir
Aços.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Encruzilhada

Não é apagando uma palavra
Que se esquecerá do poema.

O que é escrito na areia da praia
É escrito pelas nuvens dos céus.

(Mesmo após retirarmos
Os anéis dos dedos

E lavarmos
As mãos).

Das epopeias amorosas

Esperei o pessoal de casa dormir
Para chorar em paz sobre a mesa
Redonda de vidro da sala de estar.

Demonstro pras minhas formigas
Que o cristal dos seus açúcares
Tem o mesmo brilho das minhas
Lágrimas. Agora estamos quites
(Eu e as minhas tristes formigas).

Sem modéstia e sem rancores
Deixo a jangada em alto mar
(Recuso a carona no dorso
Dos meus golfinhos)

E como um Cristo
Atravesso as águas
Andando em sonhos.


Crepúsculo

Se o passarinho
Pedir trégua dos céus
Haverá algo muito estranho:

Ou um céu lânguido, sem luz,
Ou investido de nuvens de fogo.

Monta em teu cavalo malhado,
Meu bom e doce e louco
Quixote.

Segue.

(Por trás das montanhas
Novos moinhos te esperam)

Botequim

As lágrimas belas
Não são aquelas
Que descem
Pelo rosto,

Mas as que
Coração bebe

(E fortalece)
Embriagado.

O tempo dos assombros

Tive na mocidade uma máquina de escrever
E uma escrivaninha de madeira nobre e rude.

Não me lembro do sumiço
Da máquina de escrever.

Mas, como se hoje, vejo a escrivaninha
Sendo desparafusada e encaixotada
Debaixo da cama.

Há tardes em que me faltam a volúpia
Das ranhuras dos meus pulsos sobre
A escrivaninha e os calos das pontas
Dos meus dedos que eu conseguia
A cada palavra imposta das teclas
Da máquina de escrever.

Mato a saudade
Da textura da morte
Segurando firme o lápis.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Noviço em campos de dálias

Não é céu
O nosso amor
Em nossa cama,

Embora meu corpo voe
E minha alma penetre
Tua carne (em calda).

O nosso amor
Em nossa cama
São raízes e caules
Amêndoas e sândalos.

Não existem nuvens (nem estrelas nem pássaros)
Sobre o nosso amor aos gemidos em nossa cama.

Só mãos e lábios,
Peles e mordidas.

Louca a tua alma
Guardará o vinho
Pro último adeus.

(E tu levarás a febre
Da minha despida).
O nosso amor é belo
(Eterno e fulgurante)

Por existir poesia
Tesão (e muita febre)
Em nossos olhares e mãos.

Baby, a verdade
É que sou um Sátiro
Com asas de passarinho.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Esfinge

O poema tem predileção
Pelo pó, cinzas, traças,
O escuro das gavetas.

O poema se conforta
Por entre páginas amareladas
De um dicionário antigo de latim.

O poema sem leitores é um poema sábio:
As palavras não alcançam a sua vaidade.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Das divindades

Dizemos que é amor.
Afinal, não encontramos
Outra palavra tão generosa.

Se disséssemos paixão
Resumiria nosso encontro
Às nossas peles e aos desejos.

Se fosse aos nossos olhos
Nosso encontro apenas
Amizade

À carne dos nossos corpos
Haveria limites e fronteiras.

Mas se nós confessamos
Aos nossos corações
(E ao mundo)

Tratar-se de amor
Nosso encontro

Esclarecemos, então, aquele mistério
De algo dentro das nossas almas
Que não se molha enquanto
Tomamos banho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Exclusividade amorosa

Aquele embevecido
Ainda que conheça
Os corvos da noite

Dele não cessará o doce
Do suspiro da sua amada.

O mundo egoísta e triste
Ainda que egoísta o amado
O seu olhar não será diabólico.

E lá (onde os corvos sobrevoam
E a tristeza paira) aquele embevecido
Sequer notará que seu egoísmo é encantado.