terça-feira, 30 de outubro de 2012

frio na barriga

Cuida-te do dia de hoje
ou amanhecerás amanhã

com os dedos cheios
de anéis de mulheres
que nunca mais verás.

Pressinto, tua xícara pressente,
que mais tarde fugirás de tua cela.

Não me surpreendo ao primeiro posto de gasolina
em loja de conveniência peças uma garrafa de vinho
e comeces a boa e longa odisseia até o dia de tua morte.

Só te peço que tenhas cuidado
para não amanheceres com
os bolsos cheios de números
de telefone de mulheres
que nunca mais verás.

banho de sol

Suave e brando a caminhar estalando os músculos do pescoço
vejo um pombo com uma perninha levantada, das duas uma -
ou é mestre shaolin ou delicada bailarina.

Oh, Deus, tantas mulheres solitárias
e eu cá na pracinha escrevendo
versos pra pombo -
dai-me juízo!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

o homem de ossos

Toda vez que deitado
tento coçar as costas
dobrando o braço,
uma dificuldade,
patético, penso
em você -

os seus dedos amavam meus cravos,
não me deixavam mesmo um de pé.

estética

Sinceramente não tenho certeza
se os meus óculos viveriam
sem o suor dos cílios.

É tanta paixão entre eles
que flameja o intestino
de inveja.

Por impulso arranco
do rosto os óculos
e puxo cada fio
de cílio

com a requinte tortura
de solitário maquiador.

resplandecência

A poesia vem de outra alma apaixonada
que vive dentro da minha.

Ela nem me liga.
Para ela eu não existo.

calor dos glóbulos

A cada osso, tendão, músculo,
pele dos cotovelos e do rosto,
a cada tecido de órgão
já morto -

agradeço,
ave!

Sou tão feliz por ser tristonho
que me engasgo com meu riso

e ao descerem lágrimas penso -
amanhã chove, ah, chove
senão me mato!

pra Tania

Inventei agora um jeito
de beber café equilibrando
a colherinha entre os dedos.

Puro charme,
creio.

os passarinhos se recolhem

Já final de tarde
e ainda queima
o meu peito -

amanhã tem peleja, viva!,
amanhã tem batalha, salve!

Preciso ver se dentro das minhas botas
ainda repousam as meias da semana passada.

Os meus pés são loucos
por viverem tão felizes
dentro dessas botas.

Não sei qual o feitiço
até o sol quando bate
a primeira coisa que faz
ao devassar meu quarto
é pular dentro das botas.

Já crepúsculo e nenhum louco
urrou à minha porta à procura
de vinho e cigarro.

dor infernal

Acabei de morder a língua,
dizem que morder língua
no dia do natalício
atrai sorte -

farei então o seguinte:
estiro-a sobre a tábua de bater bife
e lanço todos os meus caninos sobre ela.

lavanda pelo corpo

O que me causa preocupação
é esse teu tremor sem motivo -
era apenas um sabonete
e tu deixaste cair,
poeta.

Hoje não quero nada de chororô,
calafrios e arrebatamentos -

hoje, meu filho,
há de ser um dia
tranquilo e vagaroso.

Veste teu bermudão
aquele azul e sem camisa
vai até à varanda e mostra o teu peito
às plantinhas nas quais nunca mais fizeste carinho.

Algumas delas estão crescidas
outras com os cabelos pintados
tentarão te iludir que são novinhas.

Sorri, meu filho,
que hoje o dia

há de ser festivo
sem mágoas
e sustos.

Agora volta ao quarto,
passa pela cozinha
pega teu café

e não esqueças dar bom dia
para tua cafeteira tão solícita.

legal essa manhã

Desde cedo um amigo meu,
passarinho que canta de flauta e bandolim,
escolheu um delicado repertório para meu dia.

Quando terminar de tomar banho
farei um cafezinho mas agora
já vou pôr na vitrola
Bob Dylan -

creio que hoje
não irei à batalha,

darei mais tempo
ao velho urso faminto
e aos dragões ociosos
repensarem suas vidas.

domingo, 28 de outubro de 2012

reminiscência

Fazia algum tempo
que eu não encostava

o ouvido à parede
e ouvia meu coração.

O meu coração continua o mesmo,
a parede entretanto parece outra
com tosse e tv ligada.

Durante muito tempo essa foi a forma
que eu tinha para sarar do vazio -
encostava o ouvido à parede
e ouvia meu coração.

clímax

Pensava, idiota, que se podia escrever tudo
que se pensa - agora entendo sem aspereza
que há pensamentos que não trazem poesia.

São esses pensamentos que até podem
esquentar o peito e esfriar as costelas
mas a poesia nem sempre disposta
ao frio da carne e quentura
dos ossos.

Então, não me contento, mas me basta
esta luz dentro dos olhos que indica
outro caminho.

Aonde sigo?
Não movo os pés.

sábado, 27 de outubro de 2012

quase despedida

Não duvide - os meus ouvidos ouvem bem
e a minha alma, essa coisa que não se beija,
alegra-se em dormir tarde ouvindo Neruda.

Agora, licença, tenho de me levantar
da cadeira giratória encostar a porta
pela última vez explicar ao vento sua
falta de polidez por tanta insistência.

Enquanto caminho perdoe os meus passos
lentos que enlouquecem os meus chinelos.

Antigamente carregava bolas de ferro
e uma cruz de mármore pesada, baby.

Os meus chinelos viviam debaixo da cama
onde conheciam o medo infantil e o sonho.

Se passar um tempo sem ir à sua casa
não demore sem vir à minha pois vivo
do perfume que você deixa pelo quarto.

a morte de um egoísta

Tremo, tremo
e é bom assim -

sinal que tenho
veias e sangue.

Prepare meu veneno
com pouco açúcar

e me venha à cabeceira,
confesso-lhe o derradeiro sopro -

cuide dos meus versos
como se fossem seus filhos.

almoço com festins

Amor, diga-me, você vê esses fachos de luz
descendo pela parede iluminando formigas
que andam apressadas e se beijam a cada
encontro?

Amor, diga-me sinceramente, você ouve
esse pássaro cantar lá fora de flauta
e bandolim?

Não entendo como ele consegue assoprar a flauta
enquanto suas asas seguram o bandolim
e o seu bico desce até as cordas
e a flauta não cai, meu amor,
não cai!

Amor, diga-me sem rodeios,
porque o poeta pensa
tanto nele próprio

se a vida de quem ele rouba
é dos outros?

fugindo o gás

Eu vivia pensando em como me matar.
Quem pensa muito acaba não fazendo.
Ou um dia consegue, sem tanto desejo.

O máximo que eu consegui até agora
foram algumas nódoas no meu pulso
da lâmina de barbear.

Ainda trago-as comigo,
dependendo do tempo -
róseas ou verdes.

ato contínuo de acordar

Circula em meu coração
um deleite invisível
sem vestígios
de gozo -

não é felicidade isso
não é plenitude isso,

é apenas um tipo de júbilo
sem fogos de artifício
e sem champanhe.

o bom beberrão

Como é difícil controlar esse beberrão
com rosto de anjinho que só espera
uma situação favorável para fugir
do quarto e bailar pelas ruas

e como rodopia esse beberrão
roubando beijos de namorados
dentaduras de velhinhas
pipocas de crianças -

sempre na maior alegria,
aos tropeços e gargalhadas.

Quando volta para sua casa
no dia seguinte é com aquela
lassidão, ombros arqueados,
melancólico, embrutecido,
com uma insana vontade de
meter uma bala na cabeça.

Recomeça da minha parte
todo o antigo ritual -

lavo-lhe os pés,
beijo-lhe os pés,

digo-lhe que tudo bem
que os namorados se curtem mais felizes do que nunca
que as velhinhas não morrem por falta de dentes postiços
que as crianças nessa hora estão frenéticas no videogame
que o mundo na verdade pouco se importa com a sua dor.

Abraço-o forte,
encosto seu rosto
contra o meu peito

faço-o dormir
sem comprimido
e sem a última
saideira.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

migrações

Se eu morrer sob esse estado de graça
vou virar um bichinho esperança
de casaco verde do croché
de minha avó.

Se eu morrer sob esse estado de graça
vou me transformar na cadeira de balanço
do meu avô

e enfim saberei dos seus sonhos
que não foram realizados.

Se eu morrer sob esse estado de graça
terei a ternura de minha avó e a sisudez
de meu avô - acordarei feliz, completo,
uma alma sem rasuras.

chuvinha

Choveu de leve, meu bem,
e a leveza é uma coisa boa

sobretudo quando andamos pelas calçadas
molhadas e as lagartas-de-fogo andam leves,

e as folhas secas mais leves que de costume,
e o céu muito leve, e leves as nuvens,
e leves os pombos.

Leve é o olhar de um ancião tranquilo com o que já viveu
e leves são os seus passos em calçadas como hoje -
molhadas  tão levemente que penso
que foi só pra mim essa graça.

a voar

A alma da gente precisa
de flores diversas e muitas espécies
de animais e de pessoas passeando.

Se a alma da gente só tiver lugar
para as mesmas flores e as mesmas espécies
de animais e de pessoas  a vida já estará morta
e a gente nem nota o valor da explosão das estrelas.

promessa

Hoje o dia será longo
percebo pelos braços
que levanto e me espreguiço.

Hoje o dia será de muitas palavras
percebo pela boca que bocejo e me espreguiço.

apagão

Ontem, acredita, na hora em que lia um poema
faltou luz em casa, na rua, creio na cidade toda.

Eu não fui à varanda admirar o breu das calçadas
[deveria ter ido], levantei-me da cadeira apenas
até a cozinha e aproveitando tanta escuridão
caminhei de olhos fechados pra ver alguma
tocha divina dentro da minha alma.

Testa teu espírito, meu bem,
caminhando pela casa
de olhos fechados
quando ficar tudo
escuro lá fora.

Eu o fiz e te confesso
que cheguei a vislumbrar
faróis de anjos a toda velocidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

boca seca

Tu perderás o teu tempo
se não fizeres das coisas
um retrato da eternidade.

Morre, mas morre de verdade
fazendo gracejos à terra e luar
ao fogo. Dirão que és um louco
e que os teus bordados o vento
leva e que as pontas das lanças
até nuvens quebram. Mas vai e
não ouças os que nunca sonham.

Tu perderás a vida
se não pedires pão.

Pede, mas pede
de verdade como
quem está morto
ou quase vestido
pelas doces mãos.

cabo de guerra

Há quem viva por dinheiro
e outros por sensações perigosas -
confio que eu vivo por estas últimas.

Não me deixam mentir os meus olhos
que parecem olhos de capivara
procurando comida na frente
de caçadores impiedosos.

remendos e colchas exageradas

Apaguei um poema há dois minutinhos
e só fiquei com uma camiseta dele
que dizia "as safadinhas morrem
de qualquer infortúnio, exceto
de solidão porque de solidão
morrem a xícara, botas,
fadas, andorinhas
e quem evangeliza"

O que penso é pra onde vão
esses filhos da gente quando
são apagados e resta somente
uma camiseta de profusas túnicas.

Eu tenho uma ideia -
esses pedaços
de pano e de braços
talvez fiquem no meio
do caminho entre a razão
e o mais perfeito dos delírios.

roubando doces do jardim I

não brigue comigo
nem em pensamentos
eu só escrevo porque
você existe

embora não acredite
passei um dia inteiro
para saírem esses
versinhos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sonolência

Se tu me visses agora sorririas -
eu parecendo um velhinho indo pro quarto
com um copinho d'água na mão e o olhar resignado de dar pena;

se tu tivesses algum trocado sei que me darias
pra eu comprar um livro de posições bacanais
e um óleo afrodisíaco de seduzir as damas
que passam debaixo da minha varanda
e logo tomam chá de sumiço;

talvez, ao contrário do que penso, tu me abraçarias
e me levarias pra cama e lavarias meus pés com teu
bálsamo;

mas não precisas dormir comigo
meus travesseiros poderiam
te assustar tirando de dentro
da fronha todas as minhas
cartas de amor e desespero;

tu me perguntas por que os travesseiros
fariam essa maldade e eu te digo -
ciúme, menina.

mudança de atmosfera

Vendo melhor a xícara sem arrebatamento,
a lágrima de café descida de ponta a ponta

também assemelha-se àquele filete escuro
de rímel dos cílios que desce e mancha
o rosto de uma mulher quando chora.

A xícara sem dúvida alguma
sentiu deleite pela lágrima
do café em seu dorso frio
de cerâmica branca,

enquanto à mulher é evidente
a dor, a angústia e a solidão.

banho

As unhas dos dedos dos pés
simplesmente caem por tanta
ternura, a mesma de que te
falei um dia - ao amarrar
o cadarço e um cordão
de bermuda.

quando o vazio é uma graça

Em mim nada mais existe
que não seja instante -

qualquer resvalar
imagem ou pensamento

bate em meus braços
escorre por meu peito.

Viver do instante
é assim, guardar
tesouros com o
o baú aberto.

Em mim nada deixa de existir
que não seja o instante -

o caminhar, o dormir,
a leveza e o brusco
tudo é festa.

Viver do instante
é assim, pôr água
pros peixes e vê-los
felizes com os raios
do sol - sol que
atravessa mares.

a todo vapor e luzes

Perguntaram-me de onde vinha esse meu ácido.
Antes de sorrir, cogitei: "Deus, que ácido me destes?"

Os pingos de espuma que pulam da esponja
na hora em que lavo o prato e se grudam
na minha camiseta têm mil faces:

pontas de lápis de cor,
olhos de uma esperança,
botões antigos de vovó.

óculos

Os meus bolsos vivem cheios de papel higiênico
de tanto eu limpar as lentes dos óculos.

Às vezes eu sirvo-me desse mesmo papel higiênico
para enxugar as pontas dos meus dedos
do suor excessivo que as palavras
me causam.

Se os meus bolsos vivessem cheios de ouro
teria vassalos para cuidar dos meus óculos
com lenços de fibras suaves e raras.

Pergunto-me se os meus óculos seriam os mesmos:
lentes gordurosas e florestas de arranhões.

Creio, quem tem servos para cuidar
dos próprios óculos deve possuir
uns óculos idiotas.

Melhor assim, bolsos cheios
de papel higiênico.

ventos de outubro

O vento teima em bater na porta
mesmo sabendo que escrevo

com os olhos sobre a palma da mão
brincando de jogá-los pro alto
e para baixo.

Mas ao vento não interessa quem está
no quarto, se velhinhos ou as crianças,
se histriões ou membros de confraria;

o vento não quer saber se há doentes
ou amantes, desterrados, náufragos
ou beatos em consagração religiosa.

De todas as manifestações da natureza
é o vento a que mais temo por parecer
tanto com gente entregue aos instintos,
impaciente, sem tempo pra olhar o céu.

esqueleto festivo

O orvalho de ontem de madrugada
só agora depois de retido na copa
das árvores caiu no meu braço -
para ser mais preciso,
no meu pulso.

Isto é uma bênção?
"Certamente."

Respondem-me os pombos
sempre acompanhando
meus passos.

delirante

A poesia foi a única namorada
que insisti com ela até a morte.

Dos garranchos iniciais até a
falta de sorte com as ideias,
machuquei-a impetuoso e vil.

A poesia sob breves ensinamentos
mostrou-me a suspensão correta
das retinas perdidas e distantes
sempre apontadas a paredes,
objetos, nuvens, chão e teto.

A poesia sob breves encantos
disse-me ao ouvido o que ler
e abriu a minha mente do jeito
que abrimos um melão maduro.

Como me arrepender dos seus dedos
de sua pele e de seus cabelos em mim?

Natural que eu a leve comigo onde ande
sem vergonha dos seus lábios leporinos
nem dos seus grandes olhos estrábicos.

Afinal a minha poesia é feinha e sem jeito
mas foi a única namorada que tive que não
me deu bolo e nunca me fez mal ao coração.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

ouvidos

A vizinha do andar de cima
por celular diz a uma amiga
que não pode sair hoje à noite
porque arrancou um dente
e está sangrando - Quase
gritei debaixo: "joga,
que tô colecionando
canino de musa!"

euforia

Já me viste dançando?

Pois danço quando lavo minhas camisetas
e sorrio pra tudo que olho: saboneteira,
chuveiro, cabides.

Dois minutos depois estão todos comigo
dançando, dançando "Hit The Road Jack."

Lavo minhas camisetas e limpo o teto
das teias de aranha "Hit The Road Jack."

Um dia te mostro minhas pernas loucas
e os meus braços de joão bobo de posto
de gasolina "Hit The Road Jack."

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

fotografia

hoje eu tive medo de ti -
o olhar e o que teu corpo
pode fazer comigo
em uma noite.

Hoje eu entendi que tu não és um anjo,
uma viagem psicodélica, uma brincadeira.

Eu vi no teu olhar e no teu silêncio
o que teu corpo pode fazer comigo
em uma noite.

Não fugirei de ti por isso
mas terei daqui pra frente
muito cuidado com o que
digo ou penso.

Esse papo de delicadeza
é verdade, também é real
a tua supremacia sobre
as outras

no entanto, de hoje em diante
haverá de mim bem mais respeito

por teu olhar melancólico e por tudo
que teu corpo pode fazer comigo
em uma noite.

even

Quantas vezes terei de ir ao quarto
e esquecer o sabonete? Ainda bem
que os meus óculos não reclamam
do calor e dessa euforia toda
que é escrever versos a toa.

Por falar em óculos,
eles são silenciosos
mas combinam mil
segredos com os
cílios.

cristal em gotas

Acredito piamente:
quando esqueço
o copo d'água
sobre a estante
apesar da sede

é que existe alguém
em forma de alma
com mais sede
que eu.

O poeta em seu dever cumprido
por ter dado o que beber a gente
doutro mundo

sente-se em júbilo como se amanhã ou
depois lhe viesse ao encontro uma dama
com os olhos castanhos e um brinco azul
sorrindo, sem parar de sorrir e lhe desse
um desses abraços que ao largar levamos
o cheiro e todos os pensamentos e sonhos
dessa pessoa, no meu caso, anseio que seja
uma dama de olhos castanhos e brinco azul.

das coisas que saem de dentro da porta

Pode haver susto
sem que o coração
demonstre nenhum
tipo de apreensão?

Sim, pode.

A lagartinha de pele transparente,
lânguida, que saiu da fenda da porta
levou-me a urrar uma palavra indevida
e a levantar os pés a sobressalto, lépido,
arisco e os olhos abugalhados e acesos.

Mas nada assombroso ocorreu
nenhum tremor em minhas artérias,
ventrículos e aurículas - o coração
permaneceu intocável, invulnerável,
silencioso quando é do seu interesse.

a vida seria triste

O café mantém com os dentes e a língua
um espetáculo de cumplicidade digno
de infarto.

Coisa que sinto agora
depois de mais uma
xícara.

Enfartar de susto por descobrir-se pobre
ou por desgosto amoroso é terrível, mas

sentir as veias inchando e vasos rompendo
por mais uma xícara do inigualável sabor
desse sujeito que se chama café mas que
poderia se chamar crepúsculo é saudável.

Dito isto, a minha xícara se excita toda
e começa a balançar a asinha serelepe.
Eu não posso recusar um convite desse.

esferas colidem no espaço

Digam-me que não sou normal que eu concordo.
Digam-me que sou um compulsivo que eu aceito.

Mas não me peçam para parar de escrever.
Se o fizer terei depois apenas uma alternativa:
está vendo aquela gravata e aquele sapato preto?

Com eles serei enterrado.

as nuvens do cotidiano

Não feche com tanta força a torneira -
Que aspereza toda é esta, rapaz?

Siga o exemplo do peixinho dourado
dentro do aquário que encosta
a boquinha no vidro e pede
candura a quem passa.

demasiado humano

Este é o momento do corpo:
as vísceras cantam seu hino
"almoço, almoço, almoço!"

farol

Sorria, meu amor,
dessa raiva que circula dentro do seu intestino
e dessa sua vontade de esganar o seu próximo -

não é bom dar tiro em ninguém
nem oferecer um ramalhete
com enxofre nas pétalas.

Apenas sorria , meu amor,
dessa raiva que gira em sua alma
e esquenta seus olhos, oh, vejo que chora.

Venha ao meu quarto,
vamos alimentar as formiguinhas
e procurar debaixo da cama a moeda encantada.

Não é bom odiar tanto as pessoas altivas
as que nunca vacilam e estão sempre
olhando do alto a angústia
dos miseráveis.

Meu amor, nós não somos miseráveis e infames
portanto não é conosco que eles rangem os dentes
e forçam a porta do quarto armados de escopetas.

Sorria, meu amor,
e nunca duvide da ilusão -

da ilusão e do engano deles,
meu amor, porque do seu coração
só evaporam verdades, lucidez e delicadeza.

sanguessuga

há coisas que não mudam -
ah, Deus, essa minha preguiça
essa vontade febril de ficar na cama
e admirar o estábulo pegando fogo e as ovelhas
fugindo desesperadas com o dorso em chamas.

Que me importa o prejuízo,
o caráter, a repulsa dos vizinhos,
o julgamento e a condenação da consciência.

Lá no banquete do vale de poetas ociosos
e inúteis, talvez encontre os meus pares
e me olhe no espelho.

Mas, por enquanto tudo
em meu corpo é parado:
sangue, lágrimas, sêmen.

E a alma, essa coisa
que não se beija,
glorifica-se
do vazio.

Ah, Deus, essa minha indolência de gigante
e esse meu nanismo de rei -

mesmo que desabasse uma montanha sobre minha cabeça
e uma serpente acuada surgisse na minha frente
apenas olharia de esguelha
e prosseguiria deitado
ouvindo o vento -

esse cãozinho faminto
a uivar à minha porta.

domingo, 21 de outubro de 2012

plasma

O meu suor na cadeira
não sairá com o tempo.

Impregnada de sonhos
a cadeira agora suspira.

Creio esta
a maior virtude
que um poeta deixa
para seus descendentes:

uma cadeira suada
dos seus poemas.