domingo, 17 de fevereiro de 2013

as cinzas de outrora

Então felicidade é esse céu cinzento que não chove.
Essa fresta de luz suspensa pela parede.

Esse quase trovão.
Esse quase raio.

Esse riso cínico no canto da boca
e esse olhar sério, atento, lúcido
a atravessar os livros
da estante.

Então felicidade é esse estado neutro
entre a euforia do mundo
e toda a morbidez
das minhocas.

Então felicidade é esse suspiro,
essa lágrima, essa mordedura
nos lábios.

Esse ar dentro dos pulmões.
Esse vácuo. Esse sangue.

Então felicidade é esse bermudão surrado.
Os bolsos cheios de papel higiênico
de tanto limpar as lentes
dos óculos.

Então felicidade é essa visão estonteante
da minha xícara de café equilibrando-se
sobre outra xícara branca de leite.

Meus chinelos quentes.
Meus dedos frios.

Os pingos da torneira quebrada.
Os vasos vazios na janela.

O barulho das louças
de quem come
na cozinha.

Então felicidade é esse aspecto de morte.
Um adeus embriagado após um passo
depois da porta.

Um passo firme
apesar dos pés
trêmulos.

Um passo firme,
querida, um passo firme.


rito

Antes de dormir um copo de leite.
Não por medo da insônia, mas
para me lembrar das tetas
de uma vaca.

Uma vez que é impossível
seduzir aquela barata
atrás da porta.


botas

Um pequeno tapete vermelho é todo o meu reino.
Deixo que lá descansem as minhas botas.

O trabalho delas
é bem mais difícil.

Levam dentro pedras
de caminhos humanos.

Durmam, minhas santas botas.
Sonhem com o novo dia
de calçadas
e asfalto:

sujeira de cães, folhas secas,
tampinhas de cerveja
e refrigerante.

Fechem os olhos
e ouçam cada estalo
cada som de despedida.

Logo mais não haverá outra vida
senão a música do graveto esmagado.

Da terra úmida.
Do chiclete preso.



sábado, 16 de fevereiro de 2013

amor andante

Nunca se preocupe comigo.
Sou dado a devaneios.

Desde cedo soube:
homem sonhador
é um bom menino.

A noite é longa
se a floresta é escura.

Mas eu não tenho medo:
o que seria do pântano
sem os seus sapos?

Guardo minha escova no bolso
e parto pra mais uma aventura.


tempo

A morte cansada de me ver tão perto
e de não poder me tocar sabe
que o melhor é deixar-me
sozinho.

Sozinho, pensa ela,
eu teria mais tempo

para abrir a porta
do quarto e entrar
o tocador de banjo.

Olhe para as paredes
e veja quantos insetos
felizes com as migalhas.

A morte é uma doce confeiteira
que nunca conhecerá a delícia
de andar com pernas
de insetos.

Há uma parte debaixo dos pés
em que não se sente o frio
nem é sentido o calor.

Sequer existem paredes:
é tudo nuvens, tudo
nuvens.

E em vez de pés
crescem asas.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

dócil

As minhas coisas são simples.
Quase monótonas: livros
que não leio mais,
óculos embaçados
de suor e não
de lágrimas.

Sapatos velhos,
cuecas velhas.

Uma fotografia antiga de chapéu.
Outra entre as plantas da varanda.

Todas elas patéticas
esperando a fome
das traças.

As traças que comerem
as minhas fotografias
hão de gerar outras
traças tristes
e inválidas.

As minhas coisas são sem graça
beirando o infortúnio dos tolos:
papéis com números
de telefones sobre
a escrivaninha.

Mulheres esquecidas da noite.
Que me deram vinho e fugiram ao amanhecer.

Se ligar para elas o que direi?
Que morrerei vil apesar da solidão?

A solidão é para sermos santos.
Lustrarmos os sapatos e lavarmos as cuecas.


fuga

Dou-lhe uma,
dou-lhe duas:

Quem recompensará o poeta
por sua alma fujona?

Ontem era um louco, uma víbora,
hoje é um anjo ouvindo blues.

Tão delicado o moço
que sua xícara treme
a tocar-lhe os lábios.

E amanhã, meninos,
o que será da sua vida
o corpo sem presságios
os passos lúcidos e firmes?

Dou-lhe uma,
dou-lhe duas:

a sua cova está linda
bem arrumadinha
lá no fundo

alguns livros
e uma orquídea.

Vejo coveiros sorridentes
e virgens de preto
bebendo vinho.

Dou-lhe uma,
dou-lhe duas:

juro que esse poeta
conhecerá noutra vida
o pai que não tem seu sangue.

Mas terá o seu rosto.
O seu rosto invisível.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

tácito

Com o tempo eu aprendo
a beijar bem demorado
as paredes da casa
sem causar inveja
à porta da rua.

Beijo-as tanto
que ando pálido.

E as cartas que vêm de fora
não entram por baixo da fresta.

A minha solidão tem nome e corpo:
chama-se paredes e são quentes
as da cozinha e são frias
as do banheiro.



velho quarto

Aquele senhor que caminha distraído
não se iluda ele tem asas dentro
das botas e os gravetos
que ele traz da floresta
são pincéis mágicos.

Aquele senhor de olhar triste
não é triste o seu olhar
é apenas o silêncio
da certeza de que
ninguém sabe 

dos seus sonhos de beija-flor
bebendo água doce em uma florzinha de plástico.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

irmã de alma

Não acredito que você não saiba
que sou o seu melhor amigo
mais amigo seu eu sou
do que sou dos
golfinhos

e olha que hoje estive sentado
na beira do mar olhando
como eles se divertem

fazem de tudo
brincam e assobiam
para me chamar atenção -

ainda trago no rosto
o beijo de um deles

com o sal
de Iracema.

Mas é você que tenho de salvar nesses dias quentes
em que a vida lhe é besta e o gênero humano ridículo.

Cortar os pulsos dói,
juro, pois conheço
as cicatrizes róseas.

Tente afogar-se no mar.
Sempre há por lá um amigo golfinho.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

telúrico

Querida, descobri que cada fio do meu bigode
tem vida própria e há os que se refrescam
com um copo d'água e outros detestam
os pingos lânguidos pelos cantos.

Os fios do bigode
são muito diferentes
das unhas dos dedos.

As unhas sorriem quando veem a tesourinha.
Os fios do bigode se escondem dentro da boca.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

menino

Até um dia desses
pensava que o poema
tinha uma janela de entrada
e outra de saída, mas agora
entendo que o poema não sai
do corredor escuro do casarão dos meus avós.

E é lá brincando pelas paredes
um raio de luz que não tem por onde entrar nem sair
que vejo uma nuvem noturna cansada do longo dia de sol.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

circo

Nunca me encantei com os palhaços -
desde o início soube que eram eles
os mais tristes

e os mais ébrios
tarde da noite.

Mesmo assim os seguia de longe
até a hora em que limpavam o rosto.

E iam às jaulas alimentar os leões
com os olhos ainda mais tristes,
talvez pensando

em oferecer aqueles leões famintos
suas mãos e seus braços.



formiga pelo braço

A poesia tem seus inimigos naturais
como é natural um dia qualquer
amanhecermos sem a morte
por perto.

Sem o seu dente de leite
dentro do nosso bolso.

O que resta a uma boca
se apenas a lembrança
da primeira dor?

Decerto é uma boca murcha.
De poucas palavras.

Pensamos e sofremos pelo tempo
em que a morte era nossa amante.

Uma amante viva e cheia de manias
como acordar tarde de máscara
ou muito cedo segurando
o regador de plástico
e um riso feliz
de bom dia.



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

lassidão

Não se iluda, moço
essa sombra não o deixará em paz
e beberá todo o seu sol pelo resto da sua vida.

O que pensaria você se lhe dissesse
que o seu esforço é ingênuo
e por mais vitórias
que conquiste

a sombra não se afasta
e continua a beber
todo o seu sol.

Mas você é cego
e ainda teima
sorrir.

Não vê que os passarinhos
já fugiram da sua janela
e levaram com eles
as suas costas
e suas unhas.


olhos negros

As minhas camisas há alguém
que adora cheirá-las:
uma barata.

Felizmente
nem todo amor
é compartilhado.

Espero-a sair da gaveta
para matá-la.

Afinal, os meus amores são trágicos.
Não combinaria comigo
oferecer-lhe o braço
para um passeio
matinal.


louvor

Enquanto a morte não vem
eu escrevo versos e estiro
minha pele na cabeceira
da sua cama.

Se houver outro mundo
quero levar a minha pele.

As nódoas, o sujo,
as marcas da lâmina.

Amor, sem drama.
Só digo essas coisas
para abrir os seus olhos.

E não fique triste
se não houver outro mundo.

Faça então da minha pele
sabonete, churros, cotonetes.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

monstro

Não preciso de carbonato de lítio
nem antidepressivos, mas de cortar
a garganta de alguém e enterrar-lhe
o corpo debaixo da minha cama junto
a outros cadáveres e algumas orquídeas.

Essa placidez fingida
e esse sorriso lânguido
no canto da minha boca

é a mais explícita tristeza
por não confiar na própria dor.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

aleluias

A sede do poema
é matar o poeta
definitivamente.

E quando consegue
o poeta morto
exibe-se
feliz.

Com a metade do seu coração a poesia ficou
e a outra metade é o seu segredo
de morto.


flautas e realejos

Havia deixado uma espinha nas costas
daquelas que tu adoras
já virando sinal,

mas como vives distante
ocupada no trabalho
e diversão

resolvi eu mesmo
um homem solitário
espremê-la e fez aquele
barulhinho de quem abre um champanhe.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

pérolas nas conchas das mãos

Como não vive
aquele que escreve?

Não é preciso sentir o peso
de uma pata de elefante
sobre o baço

para pedir perdão
pelo roubo do marfim.

Tampouco espetar o peito
com agulhas de chineses
para ouvir a alma
cantando ópera.

Eu escrevo, vivo,
e a simulação
é apenas

arrojo,
enfeite,

para que a vida escrita
não seja tão óbvia
e infernal.



lúdico

Um cãozinho vira-lata,
bebê ainda, de tanto
brincar e roer

o cadarço
do meu tênis
fez uma linda trança.

E nela se balançam
os amiguinhos
carrapatos.


simbolismo

Eu era um graveto seco
perdido em um bosque
quando te encontrei,
flor do campo.

O tempo passou,
permaneço um graveto
mas agora sou forte e sirvo
como base de um estilingue.

O meu alvo é sempre os teus olhos
contudo, a viveres mudando de olhar

é raro eu me ver feliz
em tua lembrança.

Pois tudo passa tão rápido em tua memória
que já não consigo me desvencilhar
da morte e do espanto.

erotismo

Confesso-lhe por que deixo
crescer o cavanhaque -

só aguardando o dia
em que você fará
um carinho

com as costas
dos dedos

e sorrirá, obscena,
cheia de boas intenções.

confusão de santos

Estou preocupado com as plantinhas.
Desde que eu voltei a aguá-las
vejo algumas cambaleantes
de pontas tristes.

Se as plantinhas morrerem
eu me enveneno das suas
folhas mortas.

O que teria sido aquele curativo no pescoço
daquela mulher que passou debaixo
da minha varanda?

Uma mordida de vampiro?
Uma cirurgia de tireoide?
Uma picada de abelha?

O que tenha sido
não mudará o estado
das minhas plantinhas.

a liberdade da porta

Não lembro o que fiz de mal
com a porta do banheiro,
mas ontem ela soube
junto com o vento,
seu cúmplice,
bater forte

na minha testa
larga e sonhadora.

Talvez ela não saiba
que os cupins só foram embora
porque eu queimei o ninho debaixo da escrivaninha.

Ou ela me odeie justamente por isso.
A porta do banheiro era uma masoquista.
Adorava os cupins comerem-lhe por dentro
vísceras, alma,
coração.


cores de um míope

Gostaria de saber para onde
essa tua alegria infinita,

esse riso estonteante,
esses cílios voadores.

A tua droga
é muito pesada -
não dá pra mim.

O máximo de alucinação
que consigo é quando
vejo da janela

um sol se pondo,
ou alguns passarinhos.


abacatada

Aproveite o dia
e não saia do quarto.

Veja a cama linda
com sua colcha
laranja.

E o que dizer dos travesseiros
bem comportados vestindo
xadrez de irmãos gêmeos.

Deite-se, ouça Bob Dylan
e conte na mente
quantas vezes
a vizinha

bate a carne
e gargalha.

sobras

O que temos pra hoje, poeta?
Ainda estou procurando
debaixo da cama

a barata
de ontem.

Preciso tirar um dúvida
ou não terei paz:

seria mesmo aquela barata
um porco?

Pois eu vi, querida,
a barata fuçando
minhas coisas

como se fosse
um porco.

A mesma atitude desesperada,
faminta, contando os minutos
pra um novo banquete.

família

Meu amigo carpinteiro,
não abandones o serrote.

Não caias na tentação
do assento pomposo
só olhando

a máquina serrar,
adornar, polir

entregar-te
a peça feita.

E tu levas ao olho
as formas sedutoras.

Digo-te, falta o pó da madeira
pregado no teu suor: dedos,
mãos, braços.

Não te livres do serrote,
amigo carpinteiro
ou esquecerás
do teu pai.

Aquele senhor elegante
que sempre após a jornada
vestia o paletó branco e o chapéu preto
e atravessava a praça andando junto da felicidade.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

a lucidez dos versos

Só fiz as malas uma vez
o bastante para remover
toda a terra do meu túmulo.

Depois de lembrar o trauma
deixou de ser requinte a dor.

São lembranças desse tipo
que me fazem forte, quase
uma árvore centenária
com passarinhos
nos ombros.


oferenda

Os meus sapatos estão sujos e velhos.
Não conversam comigo de tão cansados.

Nem mais consigo entendê-los
com suas bocas murchas
e desdentadas.

Serei um bom pai para eles:
construirei uma barca
e no próximo luar
largarei todos.

O pescador
do alto da ponte
terá uma boa surpresa.

Mas pensará duas vezes
antes de lançar o anzol.


entardeceu

Dizem que ao morrer
não se leva nada
dessa vida -

ah, filho,
que tolice.

Há gente que depois de morto
não larga do seu ouro
e da sua dor.

Enquanto outras pessoas
só levam no coração
rostos queridos.

Lembra-se das sombras
que sumiram do chão?

Eram raios do sol
que mudou de casa.


risco

Nem sempre acertamos
a bolinha de papel
dentro da xícara,

mas isso não é motivo
pra que se cortem
os pulsos.

Faça uma bolinha maior
ou tente jogar dentro
da poncheira
de vidro.

É uma questão simples
de amplitude e não de
complexidade.

Não se torture,
amasse mais outra
bolinha de papel dos seus versos.

E lance agora da cama
à lixeira do banheiro.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

um inferno longínquo

Parei de esquecer as xícaras
sobre a escrivaninha
e a estante.

Levanto-me a toda hora,
lavo-as com o pensamento
no filho primogênito que não fiz.

O filho que teria sido feito
em uma jovem moça

que muito me amava
naquele tempo.

Eu não fiz esse filho.
Fugi e hoje lavo
as xícaras -

sem perdão.


capcioso

Já me sinto melhor:
levo um livro
à varanda,
folheio-o,

leio duas ou três páginas
mas são as escrituras
das paredes que me
seduzem.

Isso não significa
aquele olhar perdido
uma flor de cemitério
a vazar o meu coração.

O coração, nesse caso,
bate firme e forte sem
loucuras

de pular
pra calçada.

A calçada do alto
pertence às aldeãs formigas.

Tentarei lembrar quando
os meus pés rudes
pisarem-nas.

Já estou bem melhor:
sinto o oxigênio
dividindo-se
em cada
narina.

É um ótimo sinal
que viverei alguns dias
além daqueles marcados
por minhas unhas nas páginas de um livro.

dá sede a quem tem sede

A cada copo d'água que bebo
lembro-me de você
com sua boca
aberta.

Nunca sairá da minha cabeça
o tempo em que aprendi

a beber água
da sua boca.

Caminhar pelo deserto
não me custou nada
se tinha água
debaixo

da calota
de sua língua.

Hoje em dia
sou um homem
só com sua água
nas minhas veias.

Água boa que vale
o meu sangue.


não acendas a luz

Não é o poema
o tesouro do poeta.

O poema é só mais um dente.
Não há eternidade mesmo
na bravura da mão
e do poema
escrito.

Essa falha, essa falta,
esse vazio e promiscuidade
é o único alimento do poeta

que não se cansa
e não tem fim
o desespero.


intermitência

Amanhã é dia de aguar as plantas.
Conto nos dedos os dias
para ir à varanda,

matar a sede
das plantas

e contar-lhes
os meus segredos.

Sei que é uma troca.
Não sou tão bobo assim, querida.

invólucro

Rompeu-se o lacre de plástico
do estojo da minha escova dental.

Agora o mundo é dela,
da minha ingênua
escova dental.

Vejo felizes as francesinhas
que adoram passear
pelos objetos.

Sussurram -"façamos da escova do poeta
nosso bordel: todas as noites
muita música, lascívia
 e champanhe..."


o cãozinho e a cadeira

O seu cãozinho não é igual a uma cadeira.
A cadeira, com a sua morte,

não ficará à porta
esperando sua volta.

A cadeira não fugirá da sua casa,
atordoado, sem rumo,
caso você demore.

Não chute o seu cãozinho
nem berre com ele

como se fosse
uma cadeira.

A cadeira ainda pode derrubá-lo
naqueles dias de tontura,
embriaguez, vazio.

O seu cãozinho
mesmo de rabo pisado
dirá apenas "au, au, au, cuidado!"


ringue

É urgente um diálogo
um jeito simpático
de dizer àquela
barata

que passe por outro caminho
que não atravesse a cama
para chegar à sua casa.

Acordo com uma sensação
de ter sido desonrado
de mil maneiras
e gestos

por ela, essa barata
confusa mas decidida

que pouco se importando
com o meu asco
e náuseas

passa por meu corpo
todas as noites para cuidar
dos seus filhotes trancafiados
em alguma fenda ao norte da minha cama.

Creio não haver outra saída
senão à cabeceira
um soco inglês
e uma pinça.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

expectativa

O fio de uma toalha
serve-me entre os dentes.

Limpo-os já pensando
a próxima consulta
com a dentista.

Só escolho mulheres
porque elas sabem
como olhar

do alto a boca
de um poeta.

Sobretudo agora
eu com esta barbicha.

Queira ou não
a dentista há
de roçar-me

a luva
de látex.


domingo, 6 de janeiro de 2013

vestido

Abraça tua solidão
e não sonhes.

Somente a ela
tens os bons agouros
das tuas três almas e mais os versos.

Não a abandones, 
a tua solidão.

Não corras o risco da beatitude
do patético fiel a quem
tu não conheces.

A tua solidão,
ela quem te esbanja luz
clareia tua mente cambaleante.

Anda com ela,
com as mãos dadas,
sente o perfume das azaleias.

Somente a ela,
tua solidão

tu deves um sorriso
um arquear de ombros
e um adeus.

o suspiro da estante

Quantos monstros tenho guardado
dentro da minha caixa de sapato

e não são mais sementes
de mucunã nem moedas
encantadas.

São monstros,
querida.

Monstros silenciosos
e cínicos que desdenham,
evoluem, tomam corpo com
a minha loucura e docilidade.

Eles não morrem, querida.
Só mudam de cor o olhar
com a noite.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

figura

Nunca imaginei que dentro do meu colchão
ainda haveria aquela flor que um dia te dei.

Junto com ela, o poema
e o cachecol úmido
de teu perfume.

Os ácaros agora
tu precisas ver:

líricos
e sensuais.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

a morte dos panos

Senti uma tristeza tão grande
que eu nunca sentira antes
ao pisar na minha toalha

na minha antiga felpuda toalha
que agora não passa
de um pano de chão
desprezível.

Assim será com  o meu corpo
quando um bando de verme
dançar um tango sobre
minha caixa torácica.


a propósito

Guardei uma flor
no coração de vocês
pra quando eu morrer

e sempre que ouvirem
meus gemidos vocês terão
alguns minutos para gargalhar.

Não será tarde nem distante
a flor se abrirá e lançará

em chamas
alguns versos.


ida sem volta

Estou vendo a minha vida embora
e não me levanto da cama
e não fecho a porta

e não esmurro o peito
e não faço traqueostomia.

Vejo a minha vida embora
e não tenho forças
para dar adeus.


pelo olhar de uma barata

Quando nasci as mulheres juraram ser cruéis comigo:
minha mãe não me deu o peito, a minha primeira
namorada perdeu um peito e enlouqueceu

e as minhas sucessivas mulheres
fugiram, flertaram, casaram-se
com estivadores, marinheiros
e artistas velhacos.

A minha alma?
Ah, minha alma é de ferro
que sustenta cordas de navios.