Deve ser a construção ao lado
que afugentou os pássaros
da minha janela.
Deles sinto falta
como nunca antes
senti de alguma coisa -
exceto da perda
dos primeiros dentes.
E caíram todos no sonho.
Eram apenas dois
da frente.
A fada dos dentes
é uma sádica.
Que raios de dentes!
Não são importantes.
Mas os pássaros
que sumiram da minha janela -
sim, o motivo da minha desgraça.
E se hoje não os vejo
lembro-me apenas
dos seus bicos
batendo contra os galhos da oiticica
para em seguida martelar a grade
do muro do vizinho.
Se tivesse bico
não seria poeta
seria passarinho.
Mas tenho dentes
borrados de café.
domingo, 15 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
lonjuras
Escrever cartas de amor
é um exercício de encanto,
mesmo que não exista uma amada
encostada ao portão do jardim.
Mesmo que não exista rua
e árvores nas calçadas.
Mesmo que o carteiro
tenha morrido de infarto.
Mesmo que a sua mão
já não se lembre
das sombras dos dedos
iludindo a palidez
do papel.
é um exercício de encanto,
mesmo que não exista uma amada
encostada ao portão do jardim.
Mesmo que não exista rua
e árvores nas calçadas.
Mesmo que o carteiro
tenha morrido de infarto.
Mesmo que a sua mão
já não se lembre
das sombras dos dedos
iludindo a palidez
do papel.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
língua bifurcada
A serpente cínica que louva
o seu inútil veneno parece
não entender que sangue
de poetas
é um sangue
em que borbulham
só os venenos dos versos.
Quem morre
é quem não entende
que a poesia não tem princípios
senão o de rodopios dentro da gente.
A escolha foi minha
ser paralítico
e viver
rastejando pela casa
a lamber as pegadas
das minhas formigas.
Não me interessa a morte
sem a ilusão e o peso
da poesia.
o seu inútil veneno parece
não entender que sangue
de poetas
é um sangue
em que borbulham
só os venenos dos versos.
Quem morre
é quem não entende
que a poesia não tem princípios
senão o de rodopios dentro da gente.
A escolha foi minha
ser paralítico
e viver
rastejando pela casa
a lamber as pegadas
das minhas formigas.
Não me interessa a morte
sem a ilusão e o peso
da poesia.
os primeiros românticos
O poeta está fadado
a ouvir até a morte
o coração
da amada -
as costelas do poeta
sempre foram encaixe
dos mistérios da mulher.
a ouvir até a morte
o coração
da amada -
as costelas do poeta
sempre foram encaixe
dos mistérios da mulher.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
nuvens
Se quisesse encanto,
eu beberia teu vinho -
queima primeiro a tua alma
com a melancolia do poeta.
Só depois que me tragas teus pés
que eu pinto de lilás as tuas unhas.
eu beberia teu vinho -
queima primeiro a tua alma
com a melancolia do poeta.
Só depois que me tragas teus pés
que eu pinto de lilás as tuas unhas.
os arrebóis de Gogh
O que tu fazes,
meu amor, quando
o peito arde e os cílios caem?
No meu caso
escrevo um poema
e bebo uma xícara de café.
E tu, meu amor,
cantas um blues?
meu amor, quando
o peito arde e os cílios caem?
No meu caso
escrevo um poema
e bebo uma xícara de café.
E tu, meu amor,
cantas um blues?
fortuna
Quando aprendemos a andar trôpegos
quem nos vê do alto (os pássaros)
imaginam que somos deuses
e nos seguem o caminho
sob o inconfundível
zigue-zague
daquele que leva
na palma da mão
um coração louco.
quem nos vê do alto (os pássaros)
imaginam que somos deuses
e nos seguem o caminho
sob o inconfundível
zigue-zague
daquele que leva
na palma da mão
um coração louco.
além da sobrevivência
O grande amor
de uma baratinha francesa
é um escorpião que escreve versos.
E passeiam eles de bicicleta
pelas cerâmicas da cozinha.
de uma baratinha francesa
é um escorpião que escreve versos.
E passeiam eles de bicicleta
pelas cerâmicas da cozinha.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
cúmplice de fadinhas
Creio que há poemas
que seguem o caminho
do coração de alguém
sem que o poeta diga.
Este poema com minhas botas
caminha na direção da sua casa.
Sei que é tarde da noite
você cansada
dorme.
Mas não é o poeta -
é o poema e ele vai
com a minha alma.
que seguem o caminho
do coração de alguém
sem que o poeta diga.
Este poema com minhas botas
caminha na direção da sua casa.
Sei que é tarde da noite
você cansada
dorme.
Mas não é o poeta -
é o poema e ele vai
com a minha alma.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
troca de dádivas
Ao encher o copo de água
duas sementes de maçã,
ao acaso, do fundo
boiaram -
pensei comigo
e sorri:
"é uma bela resposta de Deus
ao meu delirante amor pela vida."
duas sementes de maçã,
ao acaso, do fundo
boiaram -
pensei comigo
e sorri:
"é uma bela resposta de Deus
ao meu delirante amor pela vida."
a sabedoria de um bambu
O único objetivo do demônio
é iludi-lo a pensar derrotado.
Se isso acontecer,
seja mais esperto -
não se mexa,
não ligue as vozes,
não pule do abismo,
não corte seus pulsos,
não envenene seus filhos.
Permaneça inútil
e detestável até o fim.
O demônio entenderá a sua força -
rangendo os dentes o deixará sozinho.
E sozinho você saberá enxugar as lágrimas
é iludi-lo a pensar derrotado.
Se isso acontecer,
seja mais esperto -
não se mexa,
não ligue as vozes,
não pule do abismo,
não corte seus pulsos,
não envenene seus filhos.
Permaneça inútil
e detestável até o fim.
O demônio entenderá a sua força -
rangendo os dentes o deixará sozinho.
E sozinho você saberá enxugar as lágrimas
boneco de pano espetado por alfinetes
Tenho plena consciência
de que o meu santo
não é de todo
amigo
de outros
santos.
O meu santo além de psicótico
é boçal, possessivo, romântico.
Se eu fosse outros santos
e logo cedo batesse de cara
com esse meu ar presunçoso
também tentaria afogar-me
na minha xícara
de café.
de que o meu santo
não é de todo
amigo
de outros
santos.
O meu santo além de psicótico
é boçal, possessivo, romântico.
Se eu fosse outros santos
e logo cedo batesse de cara
com esse meu ar presunçoso
também tentaria afogar-me
na minha xícara
de café.
sinais de epifania
Esqueceram de molho
na pia da área de serviço
pequenas estatuetas de cerâmica.
Encontra-se de tudo:
miniaturas de jogos de cozinha,
gueixas, uma arca de noé com duas girafinhas.
Mas o que me chamou atenção,
seduziu-me de fato, foi uma camponesa
com um cestinho de flores. Pareceu-me tão real
que pisquei para ela e juro que recebi um sorriso de volta.
na pia da área de serviço
pequenas estatuetas de cerâmica.
Encontra-se de tudo:
miniaturas de jogos de cozinha,
gueixas, uma arca de noé com duas girafinhas.
Mas o que me chamou atenção,
seduziu-me de fato, foi uma camponesa
com um cestinho de flores. Pareceu-me tão real
que pisquei para ela e juro que recebi um sorriso de volta.
domingo, 8 de setembro de 2013
o doce delírio dos pagãos
O único fim proveitoso
quando escrevo versos
é esperar no dia seguinte
mais coragem do coração.
quando escrevo versos
é esperar no dia seguinte
mais coragem do coração.
a velocidade dos insetos
Embora eu não fugisse,
a cada tom de sílaba
um osso do dedo
se fragmentava -
o poema era muito longo
para quem só se esforçava
em pôr de pé a alma
orgulhosa da solidão.
a cada tom de sílaba
um osso do dedo
se fragmentava -
o poema era muito longo
para quem só se esforçava
em pôr de pé a alma
orgulhosa da solidão.
escultor de sopros
Cortarei o mármore do nosso túmulo
com as minhas próprias unhas
e esculpirei um lindo anjo
de asas descomunais
fincado na entrada
como espantalho
de corvos.
com as minhas próprias unhas
e esculpirei um lindo anjo
de asas descomunais
fincado na entrada
como espantalho
de corvos.
códigos
A poesia desestabiliza -
pense bem em que terreno
você deseja subir a sua casa.
Todos os dias
os seus cílios
darão nós
em seus
olhos.
pense bem em que terreno
você deseja subir a sua casa.
Todos os dias
os seus cílios
darão nós
em seus
olhos.
cerejeira
A sua inocência purifica
a minha loucura
e de mãos
dadas
passeamos entre
girassóis e serpentes.
Não se acanhe da sua dor
mas não seja tão cruel
com a esperança.
a minha loucura
e de mãos
dadas
passeamos entre
girassóis e serpentes.
Não se acanhe da sua dor
mas não seja tão cruel
com a esperança.
idílio entre o asceta e a camponesa
Tu me perguntas
para que serventia
os meus braços longos.
Querida, são pontes
para borboletas
e beija-flores
atravessarem o quintal
da tua casa ao meu quarto.
para que serventia
os meus braços longos.
Querida, são pontes
para borboletas
e beija-flores
atravessarem o quintal
da tua casa ao meu quarto.
cupins
A tragédia dos ferozes cupins
não é o que causaram
à estante -
inútil agora
aquela altivez
de jacarandá.
A loucura dos cupins
é o breve tempo
que precisam
para devorar
além da estante
todos os livros
antigos.
E vejo a estante em estado de choque.
Enquanto os mercenários cupins
ainda festejam com seus fuzis
dando tiros pro alto
embriagados
de querosene.
não é o que causaram
à estante -
inútil agora
aquela altivez
de jacarandá.
A loucura dos cupins
é o breve tempo
que precisam
para devorar
além da estante
todos os livros
antigos.
E vejo a estante em estado de choque.
Enquanto os mercenários cupins
ainda festejam com seus fuzis
dando tiros pro alto
embriagados
de querosene.
sábado, 7 de setembro de 2013
anacoreta
Vivemos por conjecturas.
Nem a morte é certa -
pois sua natureza
é ambígua.
Se queres saber uma verdade -
vê, meu bem, o amarelo
dos meus dentes
de muito beber
café.
Nem a morte é certa -
pois sua natureza
é ambígua.
Se queres saber uma verdade -
vê, meu bem, o amarelo
dos meus dentes
de muito beber
café.
tempo de lápis
Não apenas ganhei uma vida
escrevendo versos - suportei
outras tantas em meus dedos.
Vi mil sombras de falanges
criando destinos sobre
papéis que hoje
penso -
"onde vivem aquelas palavras
de antigamente escritas
no embrulho de pães?"
escrevendo versos - suportei
outras tantas em meus dedos.
Vi mil sombras de falanges
criando destinos sobre
papéis que hoje
penso -
"onde vivem aquelas palavras
de antigamente escritas
no embrulho de pães?"
corpo
Tu terás o meu corpo
porque da minha alma
creio que estás cansada.
E pelo meu corpo
descobrirás sinais,
cicatrizes, marcas
de vacina, músculos
adormecidos, artérias.
A cada descoberta, peço-te
que dês um beijinho
no local -
a batizar o território
com teu batom
e saliva.
Serás a senhora
deste velho corpo
em que a febre
é eterna.
porque da minha alma
creio que estás cansada.
E pelo meu corpo
descobrirás sinais,
cicatrizes, marcas
de vacina, músculos
adormecidos, artérias.
A cada descoberta, peço-te
que dês um beijinho
no local -
a batizar o território
com teu batom
e saliva.
Serás a senhora
deste velho corpo
em que a febre
é eterna.
adaga que corta névoa
Anterior ao poema
há uma atmosfera
por muitas vezes
personificada -
perfume, objeto,
um inseto pela casa.
Agora foi uma pequena lagartixa -
dessas domésticas que vivem
fugindo entre as paredes
da cozinha
com ar de surpresa
e medo.
há uma atmosfera
por muitas vezes
personificada -
perfume, objeto,
um inseto pela casa.
Agora foi uma pequena lagartixa -
dessas domésticas que vivem
fugindo entre as paredes
da cozinha
com ar de surpresa
e medo.
criação
Para fazer uma menina linda
basta Deus amanhecer feliz
mas para fazer uma mulher
Deus tem de estar em transe
e Deus te fez tendo um troço
que os cardiologistas chamam
de infarto - teve o infarto Deus
e te fez entre os sonhos e morte.
basta Deus amanhecer feliz
mas para fazer uma mulher
Deus tem de estar em transe
e Deus te fez tendo um troço
que os cardiologistas chamam
de infarto - teve o infarto Deus
e te fez entre os sonhos e morte.
lírios
Os erros do passado
são ridículos a quem perdeu
um olho e o outro brilha cego.
Não há caminho a seguir
senão permanecer silencioso
rasgando os antigos poemas
com flores brotando da nuca.
A mente é um demônio cansado
que só espera do seu dono lucidez.
são ridículos a quem perdeu
um olho e o outro brilha cego.
Não há caminho a seguir
senão permanecer silencioso
rasgando os antigos poemas
com flores brotando da nuca.
A mente é um demônio cansado
que só espera do seu dono lucidez.
sabatina
Enfim caiu-me dos céus
coragem para lavar o banheiro -
diante dos meus olhos o escovão sorri
e o sabão em pó me diz que a vida é bela.
Mas se tal primeiro
bebesse um café
e lesse Rimbaud?
coragem para lavar o banheiro -
diante dos meus olhos o escovão sorri
e o sabão em pó me diz que a vida é bela.
Mas se tal primeiro
bebesse um café
e lesse Rimbaud?
monge
Exausto da beleza
que enlouquece
a alma
descanso
sobre
meu túmulo
acompanhado
dos teus suspiros -
tu que és saudade
da eterna euforia.
que enlouquece
a alma
descanso
sobre
meu túmulo
acompanhado
dos teus suspiros -
tu que és saudade
da eterna euforia.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
cânones do vazio
A poesia não escolhe os seus poetas -
se alguém escreve versos e morre
[e renasce] por cada palavra
quem haverá de dizer
que não é real a sua dor?
Siga o seu caminho
e não esqueça
de olhar
para o céu
e para depois
das suas nuvens.
Quem o segue, logo some -
assim é o vento e o chumbo.
se alguém escreve versos e morre
[e renasce] por cada palavra
quem haverá de dizer
que não é real a sua dor?
Siga o seu caminho
e não esqueça
de olhar
para o céu
e para depois
das suas nuvens.
Quem o segue, logo some -
assim é o vento e o chumbo.
quase dengue e dengo
Há um deleite na virose:
deixa o meu corpo humilde.
Sobretudo
os ossos.
Antes da maldita
o esqueleto anda altivo
sem destino e senhor de si.
Basta a virose fincar a sua bandeira
sobre meus músculos e sangue
os ossos afugentam-se
ao que a alma vê.
E correm pras cartas amorosas
e aos lenços do passado.
Incrível o que uma madrugada chuvosa
e livros antigos não fazem com o poeta.
deixa o meu corpo humilde.
Sobretudo
os ossos.
Antes da maldita
o esqueleto anda altivo
sem destino e senhor de si.
Basta a virose fincar a sua bandeira
sobre meus músculos e sangue
os ossos afugentam-se
ao que a alma vê.
E correm pras cartas amorosas
e aos lenços do passado.
Incrível o que uma madrugada chuvosa
e livros antigos não fazem com o poeta.
por tabela
Já tive um olhar mais triste
e três almas desesperadas.
E ando sorrindo por dentro
das viagens do meu coração.
Pergunta-me sempre
como vão as lágrimas.
"como hão de estar -
aflitas e dóceis."
Respondo
e volto a viver.
e três almas desesperadas.
E ando sorrindo por dentro
das viagens do meu coração.
Pergunta-me sempre
como vão as lágrimas.
"como hão de estar -
aflitas e dóceis."
Respondo
e volto a viver.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
ciganas
As quiromantes não conseguem ler minha mão.
Confessam-me: "as linhas da palma
o vento levou, agora o seu navio
vive à revelia..."
Que raios isso significa
não entendo mesmo.
A última que saiu do meu quarto
foi-me mais convincente apenas
beijando-me os dedos,
um a um, silenciosa
e de olhos febris.
Com esta posso contar
para um jantar romântico.
Confessam-me: "as linhas da palma
o vento levou, agora o seu navio
vive à revelia..."
Que raios isso significa
não entendo mesmo.
A última que saiu do meu quarto
foi-me mais convincente apenas
beijando-me os dedos,
um a um, silenciosa
e de olhos febris.
Com esta posso contar
para um jantar romântico.
baque e rumores
Quando os poemas se escondem
caminho até a cozinha e faço um café.
No trajeto sempre há uma sombra
de algum objeto contra a parede,
um som de inseto,
uma conversa
de vizinho.
Não é difícil ver a poesia dando sopa
com sua saia rodada de bicos floridos.
caminho até a cozinha e faço um café.
No trajeto sempre há uma sombra
de algum objeto contra a parede,
um som de inseto,
uma conversa
de vizinho.
Não é difícil ver a poesia dando sopa
com sua saia rodada de bicos floridos.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
efígie
Naturalmente, sem esforço e perdas
o pássaro cansou-se das nuvens
e decidiu andar entre pessoas -
entendeu que o amor
é bem mais belo
sentindo o perfume
de quem se ama
perto,
e lançou fora
as asas.
o pássaro cansou-se das nuvens
e decidiu andar entre pessoas -
entendeu que o amor
é bem mais belo
sentindo o perfume
de quem se ama
perto,
e lançou fora
as asas.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
ponte sob névoas
Confesse ao mundo
que o seu coração
não pertence
a esta terra
e lá estarei -
no outro lado
da margem -
esperando
seus sonhos,
pois é no invisível
que se colhe a saudade
e não morremos em paz.
que o seu coração
não pertence
a esta terra
e lá estarei -
no outro lado
da margem -
esperando
seus sonhos,
pois é no invisível
que se colhe a saudade
e não morremos em paz.
sábado, 31 de agosto de 2013
balzaquiano
Exausto desta minha beatitude fingida
tiro a máscara de anjo, visto a de demo
e vou ao bordel da outra rua beber uma taça
de vinho barato e fazer uma verdadeira mulher feliz.
Aos meus pés
bastam as formigas inúteis
do meu dia meloso de poeta.
Leve para baixo as plantas da varanda -
esta manhã elas morrerão de sede
se desejarem minhas lágrimas.
E seria um pecado se fossem testemunhas
dessa loucura infantil de quem esqueceu
o remédio e o revólver em casa.
tiro a máscara de anjo, visto a de demo
e vou ao bordel da outra rua beber uma taça
de vinho barato e fazer uma verdadeira mulher feliz.
Aos meus pés
bastam as formigas inúteis
do meu dia meloso de poeta.
Leve para baixo as plantas da varanda -
esta manhã elas morrerão de sede
se desejarem minhas lágrimas.
E seria um pecado se fossem testemunhas
dessa loucura infantil de quem esqueceu
o remédio e o revólver em casa.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
voyeur
Talvez não saibas,
mas logo farei um transplante:
doarei o meu coração à árvore da tua calçada -
em troca, a velha oiticica
confessará o que os galhos e folhas e passarinhos
espiam da tua janela aberta quando tu vais dormir.
mas logo farei um transplante:
doarei o meu coração à árvore da tua calçada -
em troca, a velha oiticica
confessará o que os galhos e folhas e passarinhos
espiam da tua janela aberta quando tu vais dormir.
manobras
A um homem triste, meu bem, não importa
se floresta densa ou margem lisa e rosada -
ao atravessar o caminho,
forte e amoroso, o mundo
que era lúgubre escuridão
será total e doce felicidade.
se floresta densa ou margem lisa e rosada -
ao atravessar o caminho,
forte e amoroso, o mundo
que era lúgubre escuridão
será total e doce felicidade.
amor de Neandertal
Vou à floresta caçar -
não prometo trazer um mamute nos ombros,
mas deixo pintadas de vermelho pelas paredes da nossa caverna
as marcas das palmas das minhas mãos. Veja quantos sonhos, meu bem.
E suspire
de saudades.
não prometo trazer um mamute nos ombros,
mas deixo pintadas de vermelho pelas paredes da nossa caverna
as marcas das palmas das minhas mãos. Veja quantos sonhos, meu bem.
E suspire
de saudades.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
pastoril
Acordei pensando nos meus dentes de leite da infância.
Quantos enterrei no quintal dos meus avós debaixo
de árvores frutíferas e outros tantos joguei
ao telhado.
Desde pequeno o meu reino
foi a magia, o faz de conta,
os sonhos, a quimera,
as nuvens.
Não é à toa que ando com o dente de leite
da minha primeira namorada embrulhado
em um lenço de seda dentro do bolso.
Aquele sorriso de janelinha
do meu inocente amor
viverá comigo
até a morte.
Quantos enterrei no quintal dos meus avós debaixo
de árvores frutíferas e outros tantos joguei
ao telhado.
Desde pequeno o meu reino
foi a magia, o faz de conta,
os sonhos, a quimera,
as nuvens.
Não é à toa que ando com o dente de leite
da minha primeira namorada embrulhado
em um lenço de seda dentro do bolso.
Aquele sorriso de janelinha
do meu inocente amor
viverá comigo
até a morte.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
gentilezas
Não é uma simples asinha de barata
dentro da minha gaveta que me levará à loucura
e me fará atear fogo aos meus bermudões, camisetas e jeans.
Gentilmente retiro meus panos,
espano todas as cinzas dos insetos
e de sorriso no canto dos lábios dobro
as peças surradas de algodão e de brim.
Afinal, um rei de poucas vestes
há de dar valor às túnicas
que lhe restam.
dentro da minha gaveta que me levará à loucura
e me fará atear fogo aos meus bermudões, camisetas e jeans.
Gentilmente retiro meus panos,
espano todas as cinzas dos insetos
e de sorriso no canto dos lábios dobro
as peças surradas de algodão e de brim.
Afinal, um rei de poucas vestes
há de dar valor às túnicas
que lhe restam.
outra canção nem tão desesperada
E se os nossos lábios se tocassem uma única vez
nasceriam orquídeas dentro dos nossos corações?
Dizem os bárbaros
que um jardineiro apaixonado
tem o olhar da violeta - lilás e aveludado.
nasceriam orquídeas dentro dos nossos corações?
Dizem os bárbaros
que um jardineiro apaixonado
tem o olhar da violeta - lilás e aveludado.
fim de agosto
Se vivo em constante
névoa de arrebatamentos
é ao outro que ofereço a verdade
que em mim próprio eu não imagino.
Esqueça então essa tal dor de fingimento
porque os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas, mas as nuvens
com destreza e carinho
não se arrependem
dos beijos.
"todo fogo finda
com a primeira
lágrima.
Ou vira fumaça
escura e mata."
Mas como disse:
os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas e agora
é o sol quem lhes dá
dentadas.
Dessas dentadas boas
que ficam as marcas
do batom
no braço.
névoa de arrebatamentos
é ao outro que ofereço a verdade
que em mim próprio eu não imagino.
Esqueça então essa tal dor de fingimento
porque os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas, mas as nuvens
com destreza e carinho
não se arrependem
dos beijos.
"todo fogo finda
com a primeira
lágrima.
Ou vira fumaça
escura e mata."
Mas como disse:
os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas e agora
é o sol quem lhes dá
dentadas.
Dessas dentadas boas
que ficam as marcas
do batom
no braço.
outrora
Não entendo essa euforia poética
o mundo a pegar fogo e acabar-se
e no momento em que o poema é posto
sobre a escrivaninha o açougueiro gargalha -
já não existe beleza na carne
nem no sangue e todo o doce
das palavras causa-me asco.
O poeta enganado
pelo poema é um sinal óbvio
de que as nossas mãos às vezes
trazem colheita do inútil e da tolice.
Só a tristeza não brinca
e quando diz é hora
das lágrimas -
é bom pegar um lenço
de mandacaru verdejante.
o mundo a pegar fogo e acabar-se
e no momento em que o poema é posto
sobre a escrivaninha o açougueiro gargalha -
já não existe beleza na carne
nem no sangue e todo o doce
das palavras causa-me asco.
O poeta enganado
pelo poema é um sinal óbvio
de que as nossas mãos às vezes
trazem colheita do inútil e da tolice.
Só a tristeza não brinca
e quando diz é hora
das lágrimas -
é bom pegar um lenço
de mandacaru verdejante.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
cena
Um ramalhete de rosas brancas
dentro da lixeira da área de serviço
é uma imagem tão forte quanto as próprias
crescendo no jardim ao lado de duendes.
E dói jogar a água do jarro fora
com aquele perfume de sonhos
apodrecidos.
dentro da lixeira da área de serviço
é uma imagem tão forte quanto as próprias
crescendo no jardim ao lado de duendes.
E dói jogar a água do jarro fora
com aquele perfume de sonhos
apodrecidos.
o bardo
Por acaso acreditas que a minha cabeça
esteve em algum lugar senão nas nuvens?
Da última vez em que bebi
uma cerveja de puro trigo
meio embriagado e feliz
cheguei a uma joalheria
disposto a comprar
uma linda aliança
pros teus dedos
sem um tostão
no bolso -
não é crime
ser um sonhador
a ponto dos pombos
e das outras criaturas
dos céus e da terra e do mar
rirem dos seus passos e dos seus olhos.
Claro que não comprei as alianças.
Mas a convite da simpática gerente
experimentei de um ótimo espumante.
esteve em algum lugar senão nas nuvens?
Da última vez em que bebi
uma cerveja de puro trigo
meio embriagado e feliz
cheguei a uma joalheria
disposto a comprar
uma linda aliança
pros teus dedos
sem um tostão
no bolso -
não é crime
ser um sonhador
a ponto dos pombos
e das outras criaturas
dos céus e da terra e do mar
rirem dos seus passos e dos seus olhos.
Claro que não comprei as alianças.
Mas a convite da simpática gerente
experimentei de um ótimo espumante.
amor
Sabe o que é amor,
meu bem?
É ver uma folha seca de oiticica sobre o sofá
e chorar de emoção pela árvore da calçada -
imaginando quanta chuva
e quanto sol fizeram-na
crescer.
Para que em uma tarde como esta
venha a sua alma ao meu encontro.
Isso é amor,
meu bem.
meu bem?
É ver uma folha seca de oiticica sobre o sofá
e chorar de emoção pela árvore da calçada -
imaginando quanta chuva
e quanto sol fizeram-na
crescer.
Para que em uma tarde como esta
venha a sua alma ao meu encontro.
Isso é amor,
meu bem.
dose cavalar de vazio
Patético bermudão
despenca do varal
ágil e soberbo
não consigo
segurá-lo.
Houve um tempo não muito distante,
querida, que brincava com o sabonete
sem deixá-lo cair ao chão sob piruetas.
Não é velhice -
mas exaustão de viver.
despenca do varal
ágil e soberbo
não consigo
segurá-lo.
Houve um tempo não muito distante,
querida, que brincava com o sabonete
sem deixá-lo cair ao chão sob piruetas.
Não é velhice -
mas exaustão de viver.
coadjuvante do tédio
A pior ressaca
é aquela em que
se acorda furioso
e cansado da lucidez
que trazemos debaixo
das pálpebras cinzentas.
E há tortura tão inocente
quanto a chuva que bate no telhado
e descemos a escada louco para um banho
chega-se à calçada
e a chuva acaba
de repente?
é aquela em que
se acorda furioso
e cansado da lucidez
que trazemos debaixo
das pálpebras cinzentas.
E há tortura tão inocente
quanto a chuva que bate no telhado
e descemos a escada louco para um banho
chega-se à calçada
e a chuva acaba
de repente?
insônia é uma adaga de prata
Deito sobre o meu coração uma rocha
de mil quilos de mina abandonada
e acendo o pavio.
Não acredito que sairá vivo
algum poeta apaixonado.
Ok, benditas minhocas
da minha cabeça
e má menina
da minha
alma -
vocês venceram a batalha
e chega de andar exausto
de madrugada pela casa.
A esperança agora
só será um bichinho verde
em que possa pisar-lhe o abdome.
de mil quilos de mina abandonada
e acendo o pavio.
Não acredito que sairá vivo
algum poeta apaixonado.
Ok, benditas minhocas
da minha cabeça
e má menina
da minha
alma -
vocês venceram a batalha
e chega de andar exausto
de madrugada pela casa.
A esperança agora
só será um bichinho verde
em que possa pisar-lhe o abdome.
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