domingo, 15 de setembro de 2013

bicos e dentes

Deve ser a construção ao lado
que afugentou os pássaros
da minha janela.

Deles sinto falta
como nunca antes
senti de alguma coisa -

exceto da perda
dos primeiros dentes.

E caíram todos no sonho.
Eram apenas dois
da frente.

A fada dos dentes
é uma sádica.

Que raios de dentes!
Não são importantes.

Mas os  pássaros
que sumiram da minha janela -
sim, o motivo da minha desgraça.

E se hoje não os vejo
lembro-me apenas
dos seus bicos

batendo contra os galhos da oiticica
para em seguida martelar a grade
do muro do vizinho.

Se tivesse bico
não seria poeta
seria passarinho.

Mas tenho dentes
borrados de café.


sábado, 14 de setembro de 2013

lonjuras

Escrever cartas de amor
é um exercício de encanto,

mesmo que não exista uma amada
encostada ao portão do jardim.

Mesmo que não exista rua
e árvores nas calçadas.

Mesmo que o carteiro
tenha morrido de infarto.

Mesmo que a sua mão
já não se lembre

das sombras dos dedos
iludindo a palidez
do papel.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

língua bifurcada

A serpente cínica que louva
o seu inútil veneno parece
não entender que sangue
de poetas

é um sangue
em que borbulham
só os venenos dos versos.

Quem morre
é quem não entende

que a poesia não tem princípios
senão o de rodopios dentro da gente.

A escolha foi minha
ser paralítico
e viver

rastejando pela casa
a lamber as pegadas
das minhas formigas.

Não me interessa a morte
sem a ilusão e o peso
da poesia.


os primeiros românticos

O poeta está fadado
a ouvir até a morte

o coração
da amada -

as costelas do poeta
sempre foram encaixe
dos mistérios da mulher.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

nuvens

Se quisesse encanto,
eu beberia teu vinho -

queima primeiro a tua alma
com a melancolia do poeta.

Só depois que me tragas teus pés
que eu pinto de lilás as tuas unhas.


os arrebóis de Gogh

O que tu fazes,
meu amor, quando
o peito arde e os cílios caem?

No meu caso
escrevo um poema
e bebo uma xícara de café.

E tu, meu amor,
cantas um blues?


fortuna

Quando aprendemos a andar trôpegos
quem nos vê do alto (os pássaros)
imaginam que somos deuses

e nos seguem o caminho
sob o inconfundível
zigue-zague

daquele que leva
na palma da mão
um coração louco.


além da sobrevivência

O grande amor
de uma baratinha francesa
é um escorpião que escreve versos.

E passeiam eles de bicicleta
pelas cerâmicas da cozinha.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

cúmplice de fadinhas

Creio que há poemas
que seguem o caminho
do coração de alguém
sem que o poeta diga.

Este poema com minhas botas
caminha na direção da sua casa.

Sei que é tarde da noite
você cansada
dorme.

Mas não é o poeta -
é o poema e ele vai
com a minha alma.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

troca de dádivas

Ao encher o copo de água
duas sementes de maçã,
ao acaso, do fundo
boiaram -

pensei comigo
e sorri:

"é uma bela resposta de Deus
 ao meu delirante amor pela vida."


a sabedoria de um bambu

O único objetivo do demônio
é iludi-lo a pensar derrotado.

Se isso acontecer,
seja mais esperto -

não se mexa,
não ligue as vozes,
não pule do abismo,
não corte seus pulsos,
não envenene seus filhos.

Permaneça inútil
e detestável até o fim.

O demônio entenderá a sua força -
rangendo os dentes o deixará sozinho.
E sozinho você saberá enxugar as lágrimas



boneco de pano espetado por alfinetes

Tenho plena consciência
de que o meu santo
não é de todo
amigo

de outros
santos.

O meu santo além de psicótico
é boçal, possessivo, romântico.

Se eu fosse outros santos
e logo cedo batesse de cara
com esse meu ar presunçoso

também tentaria afogar-me
na minha xícara
de café.


sinais de epifania

Esqueceram de molho
na pia da área de serviço
pequenas estatuetas de cerâmica.

Encontra-se de tudo:
miniaturas de jogos de cozinha,
gueixas, uma arca de noé com duas girafinhas.

Mas o que me chamou atenção,
seduziu-me de fato, foi uma camponesa
com um cestinho de flores. Pareceu-me tão real
que pisquei para ela e juro que recebi um sorriso de volta.


domingo, 8 de setembro de 2013

o doce delírio dos pagãos

O único fim proveitoso
quando escrevo versos
é esperar no dia seguinte
mais coragem do coração.


a velocidade dos insetos

Embora eu não fugisse,
a cada tom de sílaba

um osso do dedo
se fragmentava -

o poema era muito longo
para quem só se esforçava

em pôr de pé a alma
orgulhosa da solidão.

escultor de sopros

Cortarei o mármore do nosso túmulo
com as minhas próprias unhas

e esculpirei um lindo anjo
de asas descomunais
fincado na entrada
como espantalho
de corvos.


códigos

A poesia desestabiliza -
pense bem em que terreno
você deseja subir a sua casa.

Todos os dias
os seus cílios
darão nós
em seus
olhos.


cerejeira

A sua inocência purifica
a minha loucura
e de mãos
dadas

passeamos entre
girassóis e serpentes.

Não se acanhe da sua dor
mas não seja tão cruel
com a esperança.


idílio entre o asceta e a camponesa

Tu me perguntas
para que serventia
os meus braços longos.

Querida, são pontes
para borboletas
e beija-flores

atravessarem o quintal
da tua casa ao meu quarto.

cupins

A tragédia dos ferozes cupins
não é o que causaram
à estante -

inútil agora
aquela altivez
de jacarandá.

A loucura dos cupins
é o breve tempo
que precisam

para devorar
além da estante
todos os livros
antigos.

E vejo a estante em estado de choque.
Enquanto os mercenários cupins
ainda festejam com seus fuzis
dando tiros pro alto

embriagados
de querosene.


sábado, 7 de setembro de 2013

anacoreta

Vivemos por conjecturas.
Nem a morte é certa -
pois sua natureza
é ambígua.

Se queres saber uma verdade -
vê, meu bem, o amarelo
dos meus dentes
de muito beber
café.


tempo de lápis

Não apenas ganhei uma vida
escrevendo versos - suportei
outras tantas em meus dedos.

Vi mil sombras de falanges
criando destinos sobre
papéis que hoje
penso -

"onde vivem aquelas palavras
de antigamente escritas
no embrulho de pães?"


corpo

Tu terás o meu corpo
porque da minha alma
creio que estás cansada.

E  pelo meu corpo
descobrirás sinais,
cicatrizes, marcas
de vacina, músculos
adormecidos, artérias.

A cada descoberta, peço-te
que dês um beijinho
no local -

a batizar o território
com teu batom
e saliva.

Serás a senhora
deste velho corpo

em que a febre
é eterna.

adaga que corta névoa

Anterior ao poema
há uma atmosfera
por muitas vezes
personificada -

perfume, objeto,
um inseto pela casa.

Agora foi uma pequena lagartixa -
dessas domésticas que vivem
fugindo entre as paredes
da cozinha

com ar de surpresa
e medo.


criação

Para fazer uma menina linda
basta Deus amanhecer feliz

mas para fazer uma mulher
Deus tem de estar em transe

e Deus te fez tendo um troço
que os cardiologistas chamam
de infarto - teve o infarto Deus
e te fez entre os sonhos e morte.


lírios

Os erros do passado
são ridículos a quem perdeu
um olho e o outro brilha cego.

Não há caminho a seguir
senão permanecer silencioso

rasgando os antigos poemas
com flores brotando da nuca.

A mente é um demônio cansado
que só espera do seu dono lucidez.


sabatina

Enfim caiu-me dos céus
coragem para lavar o banheiro -

diante dos meus olhos o escovão sorri
e o sabão em pó me diz que a vida é bela.

Mas se tal primeiro
bebesse um café
e lesse Rimbaud?


monge

Exausto da beleza
que enlouquece
a alma

descanso
sobre

meu túmulo
acompanhado
dos teus suspiros -

tu que és saudade
da eterna euforia.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

cânones do vazio

A poesia não escolhe os seus poetas -
se alguém escreve versos e morre
[e renasce] por cada palavra

quem haverá de dizer
que não é real a sua dor?

Siga o seu caminho
e não esqueça
de olhar

para o céu
e para depois
das suas nuvens.

Quem o segue, logo some -
assim é o vento e o chumbo.


quase dengue e dengo

Há um deleite na virose:
deixa o meu corpo humilde.

Sobretudo
os ossos.

Antes da maldita
o esqueleto anda altivo
sem destino e senhor de si.

Basta a virose fincar a sua bandeira
sobre meus músculos e sangue
os ossos afugentam-se
ao que a alma vê.

E correm pras cartas amorosas
e aos lenços do passado.

Incrível o que uma madrugada chuvosa
e livros antigos não fazem com o poeta.


por tabela

Já tive um olhar mais triste
e três almas desesperadas.

E ando sorrindo por dentro
das viagens do meu coração.

Pergunta-me sempre
como vão as lágrimas.

"como hão de estar -
aflitas e dóceis."

Respondo
e volto a viver.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

ciganas

As quiromantes não conseguem ler minha mão.
Confessam-me: "as linhas da palma
o vento levou, agora o seu navio
vive à revelia..."

Que raios isso significa
não entendo mesmo.

A última que saiu do meu quarto
foi-me mais convincente apenas
beijando-me os dedos,

um a um, silenciosa
e de olhos febris.

Com esta posso contar
para um jantar romântico.


baque e rumores

Quando os poemas se escondem
caminho até a cozinha e faço um café.

No trajeto sempre há uma sombra
de algum objeto contra a parede,

um som de inseto,
uma conversa
de vizinho.

Não é difícil ver a poesia dando sopa
com sua saia rodada de bicos floridos.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

efígie

Naturalmente, sem esforço e perdas
o pássaro cansou-se das nuvens
e decidiu andar entre pessoas -

entendeu que o amor
é bem mais belo

sentindo o perfume
de quem se ama
perto,

e lançou fora
as asas.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ponte sob névoas

Confesse ao mundo
que o seu coração

não pertence
a esta terra

e lá estarei -
no outro lado
da margem -

esperando
seus sonhos,

pois é no invisível
que se colhe a saudade
e não morremos em paz.


sábado, 31 de agosto de 2013

balzaquiano

Exausto desta minha beatitude fingida
tiro a máscara de anjo, visto a de demo

e vou ao bordel da outra rua beber uma taça
de vinho barato e fazer uma verdadeira mulher feliz.

Aos meus pés
bastam as formigas inúteis
do meu dia meloso de poeta.

Leve para baixo as plantas da varanda -
esta manhã elas morrerão de sede
se desejarem minhas lágrimas.

E seria um pecado se fossem testemunhas
dessa loucura infantil de quem esqueceu
o remédio e o revólver em casa.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

voyeur

Talvez não saibas,
mas logo farei um transplante:
doarei o meu coração à árvore da tua calçada -

em troca, a velha oiticica
confessará o que os galhos e folhas e passarinhos
espiam da tua janela aberta quando tu vais dormir.


manobras

A um homem triste, meu bem, não importa
se floresta densa ou margem lisa e rosada -

ao atravessar o caminho,
forte e amoroso, o mundo
que era lúgubre escuridão
será total e doce felicidade.


amor de Neandertal

Vou à floresta caçar -
não prometo trazer um mamute nos ombros,
mas deixo pintadas de vermelho pelas paredes da nossa caverna
as marcas das palmas das minhas mãos. Veja quantos sonhos, meu bem.

E suspire
de saudades.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

pastoril

Acordei pensando nos meus dentes de leite da infância.
Quantos enterrei no quintal dos meus avós debaixo
de árvores frutíferas e outros tantos joguei
ao telhado.

Desde pequeno o meu reino
foi a magia, o faz de conta,
os sonhos, a quimera,
as nuvens.

Não é à toa que ando com o dente de leite
da minha primeira namorada embrulhado
em um lenço de seda dentro do bolso.

Aquele sorriso de janelinha
do meu inocente amor
viverá comigo
até a morte.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

gentilezas

Não é uma simples asinha de barata
dentro da minha gaveta que me levará à loucura
e me fará atear fogo aos meus bermudões, camisetas e jeans.

Gentilmente retiro meus panos,
espano todas as cinzas dos insetos
e de sorriso no canto dos lábios dobro
as peças surradas de algodão e de brim.

Afinal, um rei de poucas vestes
há de dar valor às túnicas
que lhe restam.


outra canção nem tão desesperada

E se os nossos lábios se tocassem uma única vez
nasceriam orquídeas dentro dos nossos corações?

Dizem os bárbaros
que um jardineiro apaixonado
tem o olhar da violeta - lilás e aveludado.


fim de agosto

Se vivo em constante
névoa de arrebatamentos
é ao outro que ofereço a verdade
que em mim próprio eu não imagino.

Esqueça então essa tal dor de fingimento
porque os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas, mas as nuvens
com destreza e carinho
não se arrependem
dos beijos.

"todo fogo finda
com a primeira
lágrima.

Ou vira fumaça
escura e mata."

Mas como disse:
os passarinhos não têm tempo
de coçar as costas e agora
é o sol quem lhes dá
dentadas.

Dessas dentadas boas
que ficam as marcas

do batom
no braço.


outrora

Não entendo essa euforia poética
o mundo a pegar fogo e acabar-se
e no momento em que o poema é posto
sobre a escrivaninha o açougueiro gargalha -

já não existe beleza na carne
nem no sangue e todo o doce
das palavras causa-me asco.

O poeta enganado
pelo poema é um sinal óbvio
de que as nossas mãos às vezes
trazem colheita do inútil e da tolice.

Só a tristeza não brinca
e quando diz é hora
das lágrimas -

é bom pegar um lenço
de mandacaru verdejante.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

cena

Um ramalhete de rosas brancas
dentro da lixeira da área de serviço

é uma imagem tão forte quanto as próprias
crescendo no jardim ao lado de duendes.

E dói jogar a água do jarro fora
com aquele perfume de sonhos
apodrecidos.


o bardo

Por acaso acreditas que a minha cabeça
esteve em algum lugar senão nas nuvens?

Da última vez em que bebi
uma cerveja de puro trigo
meio embriagado e feliz

cheguei a uma joalheria
disposto a comprar
uma linda aliança
pros teus dedos
sem um tostão
no bolso -

não é crime
ser um sonhador
a ponto dos pombos
e das outras criaturas
dos céus e da terra e do mar
rirem dos seus passos e dos seus olhos.

Claro que não comprei as alianças.
Mas a convite da simpática gerente
experimentei de um ótimo espumante.


amor

Sabe o que é amor,
meu bem?

É ver uma folha seca de oiticica sobre o sofá
e chorar de emoção pela árvore da calçada -

imaginando quanta chuva
e quanto sol fizeram-na
crescer.

Para que em uma tarde como esta
venha a sua alma ao meu encontro.

Isso é amor,
meu bem.


dose cavalar de vazio

Patético bermudão
despenca do varal
ágil e soberbo
não consigo
segurá-lo.

Houve um tempo não muito distante,
querida, que brincava com o sabonete
sem deixá-lo cair ao chão sob piruetas.

Não é velhice -
mas exaustão de viver.


coadjuvante do tédio

A pior ressaca
é aquela em que
se acorda furioso
e cansado da lucidez
que trazemos debaixo
das pálpebras cinzentas.

E há tortura tão inocente
quanto a chuva que bate no telhado
e descemos a escada louco para um banho

chega-se à calçada
e a chuva acaba
de repente?


insônia é uma adaga de prata

Deito sobre o meu coração uma rocha
de mil quilos de mina abandonada
e acendo o pavio.

Não acredito que sairá vivo
algum poeta apaixonado.

Ok, benditas minhocas
da minha cabeça
e má menina
da minha
alma -

vocês venceram a batalha
e chega de andar exausto
de madrugada pela casa.

A esperança agora
só será um bichinho verde
em que possa pisar-lhe o abdome.