terça-feira, 26 de maio de 2020

Óleos

Sabe, meu docinho,
às vezes a sua alma durona
de uma filha de um cossaco durão
impede que o meu coração romântico
expanda-se em nuvens abstratas e patéticas.

Guardo a pólvora e o láudano
dentro das minhas ânforas
e jogo fora os cachos
dos seus cabelos.

Por séculos
aguardei 
a carta.

Esfolei muitos pombos
que chegavam à minha janela
embriagados de conhaque e vodca
e mentiam explicando o seu esquecimento.

As estepes da sua terra são encantadoras,
mas dentro da minha cabeça o deserto é florido.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Deidades

O que me arrebata
não é a cor do olho
nem a formosura
da boca,

mas o que diz 
a alma da mulher.

Os seus segredos
dentro da bolsa
de estimação

no fundo
da gaveta.

As marcas dos dedos
naqueles chinelos antigos.

Os frasquinhos de esmalte
perdidos debaixo da cama.

Cântaro

Sardas no rosto
e a voz do encanto:
Ah, céus, como é fácil
uma poeta entrar na minha casa.

E chega assim
cheirando a sândalo
com os tornozelos nus.

Os versos que saem da sua garganta, menina,
trazem-me um frenesi medonho ao meu silêncio.

Só de bem,
vou molhar
uma plantinha.

domingo, 24 de maio de 2020

Selos

O poema após limpar o próprio corpo 
e a própria alma passa a ser o próximo.

As escamas não cheiram mal
e todo o acúmulo de sujeiras
é queimado pela clareza
da própria memória.

O poema passa 
a ser um ente liberto
que abençoa ou que revolta
em sua forma transformada.

Mas o poço permanece lá,
a água permanece lá.


sábado, 23 de maio de 2020

Fogueira

Quando criança
já admirava os arrebóis 
contemplando as asas da joaninha.

Só não imaginava
que as cores dos céus

também
voassem.

Peixinho Dourado

O princípio de toda
elevada ação é interior
e propaga-se a energia
por camadas superiores.

Qual o ser 
que confuso
segue evoluído?

Confusão
como mentira
são folhas secas
que nascem para ser 
consumidas no vento.

O desejo comum
é caminhar cego
entre mortos:

Envaidecer-se,
enfurecer-se,
morrer
bruto.

O Primeiro Sopro

A verdade de cada qual
é um véu sagrado
de cada um.

Os cadáveres entendem
a nostalgia do perfume
das flores dos túmulos

e procuram fugir
das lembranças.

Cada um com seu véu sagrado
de ilusões, fúria e esperança.

Os meus peixes
não servem para
matar a sua fome.

Pesque seus peixes
com as suas mãos.

Comovida, minha xícara
chora lágrimas de café
por seu rosto branco.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Filho

Quem de fato
trilhou o caminho
usando minhas pernas?

Quem pisou nuvens,
terra e lama calçando
os meus miseráveis pés?

Quem sangrou meus inimigos
com espadas e adagas de luz?

Quem me trouxe
esse entendimento
de que nunca morrerá
minha nobre consciência?

Quem beijará meu corpo
quando algo em mim tiver
partido do meio dos mortos?

Algo de mim
que não sou
e que morre.

Harpa

Acredito que hoje será a manhã todinha de chuva.
Essa chuvinha fina que as lagartas-de-fogo adoram.

As botas do trabalho
suspiram encolhidas
com as meias dentro.

Já fiz e bebi
o meu café
de lei.

Você sabe
que o meu café
é o mais saboroso
de todas as galáxias.

Conquistei muitas mulheres
conversando sobre a vida mística
das lagartinhas-de-fogo bebendo meu café.

Algumas entravam em epifania
relembrando a infância de garotinha, 

enquanto outras de vestidinho e saínha a cruzar 
e descruzar as pernas levaram-me à demência.

Hoje, imagino,
será a manhã todinha
com esses ares espirituais
de conforto e chuvinha fina.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Lilás

O poder da cicatriz
sempre será a memória
do dia em que o ferimento
despertou de qualquer mágoa.

O ser que dantes
morria de pavor
da própria luz

hoje em dia
conhece muito
das mil sombras.

Não há força na dor
que tece vinganças.

Mas a memória da cicatriz
que eleva a alma não passa.

Os Amores Do Mundo

Brincava contigo
quando escrevi
que debaixo
da minha
janela

nascera
um girassol.

Mas te juro
(eu cegue)

que é verdade
o semblante

de uma doce
orquídea.

Sabe, nem me importo muito
quem segura a minha mão
na hora em que escrevo.

Mas ao toalete
sei que é a tua mão
que deliciosa me depila.

As Calçadas Amam O Sol Do Fim De Tarde

O que posso
é escrever
poemas.

E ficamos próximos
trocando olhares.

O teu olho âmbar
o meu carvão.

Não falemos
sobre as nossas almas,
pois elas merecem o silêncio.

Docilidade

Enfim, aconteceu:
Conheci de perto
a sujeira de Lola.

Lola tinha ao seu bel-prazer
a sala, o tapete, a cozinha,
a suíte e os dois quartos,
a área de serviço,
a varanda.

Mas dama elegante que é
foi ao quarto dos fundos
e lá fez a sua necessidade.

Os cães têm caráter,
emoção e perspicácia.

Lola procurou por toda a casa
um lugar em que fosse decente
expor toda a sua ração digerida.

A garota Lola só se esqueceu do livro
de páginas entreabertas sobre o cesto.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Balsâmico

Assim que pensamos
em escrever um poema
pra alguém muito especial

tal poema já nasce
sob o selo da corrupção.

Ninguém é tão especial
que mereça um poema
fruto de dupla vaidade.

A vaidade de quem escreve
e a vaidade de quem inspira.

A propósito, 
meu docinho,

se eu quiser tirar meu bigode
não preciso pedir permissão
aos passarinhos do pé de oiti.

Mas a você (acredite)
escreveria uma carta.

Romãs

Querida, às vezes um poema erótico
de tantas metáforas acaba frio e obscuro.

Então, baby, serei claro
o mais explícito possível:
Tu me permites com os dedos
brincar na tua caixinha de música?

Juro que as pontas dos meus dedos
são uma gracinha de delicadeza.

Quanto à minha língua,
advirto, ela é louca,
imprevisível.

Atrai ostras
só no biquinho.

Besouro da Sorte

O fogo não terá fim
e pelo que vejo

esse amor
é eterno.

Você será seduzido
todos os dias da sua vida
a entrar na floresta escura

e trazer gravetos para alimentar
o fogo que não tem vestígios de fim.

As paixões do corpo
continuam um doce.

A questão é que você agora cria imagens extraordinárias 
com areia colorida dentro da sua garrafa de náufrago.

Aquela muriçoca 
de violino quebrado
agradece por sua paciência.



domingo, 17 de maio de 2020

Antecâmara

As sombras existem
pela vida útil da luz.

Apague a lâmpada
e nem as sombras
terão vez.

Ninguém sobrevive
na total e plena treva.

O desapego das ideias
é um belo sinal de morte.

Que os poemas escritos
não sejam pontes entre
meu corpo e o devaneio.

Mas o que sabe
a mente do lugar
que não se conhece?

Poemas são afagos
no olhar trêmulo
que já se foi.

Episódios

Depois que as lágrimas
salgam o rosto e vão embora 
segue o caminho também a lucidez.

Quem detestava o sol
já revê seus princípios.

Até Nosferatu
vai à padaria
com ombros
de fora.

A passos lentos e sonhadores
conta o tempo desperdiçado
dormindo dentro do caixão.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Oxímetro

Sentir-se humano
não é caso de tristeza.

As sensações do corpo 
são nuvens que se transformam.

Não pule de um penhasco
por sofrer de vertigem.

Nem se esmague
sob as paredes
por temer
as aves.

Beije suas mãos,
entrelace seus dedos.

Sentir-se humano
não é caso de morte.

Em alto-mar
cante um blues
e aproxime-se dos corais.

Há peixes ocultos
dentro dos olhos.

Istmo

O apito do trem
é igual ao do navio
se o coração desperta
de saudade ou remorso.

Quando criança
os fantasmas
faziam festa.

Mas deixaram a casa
no tempo da clareza.

E não pensam em voltar
porque sabem que a casa
não tem um senhor absoluto.

A casa é do vento
da chuva e do sol.

O telhado
e a terra

florescem
a cada dia.

Disparos

A segurança vem da fé
e a fé não é cega nem
enxerga com olhos

que a terra
há de beijar.

O que posso adiantar
é que as minhas vísceras
não têm essência enquanto
forem vísceras apenas do corpo.

O valor de um tesouro
não é a verdade que
outros julgam.

Só saberá quem lhe fala
quando você não tiver
os seus ouvidos

colados 
às orelhas.

Ócio

Além dos ossos
sou a consciência
dos meus ossos, baby.

A morte da consciência
não existe como é uma fábula
acreditar na eternidade desta vida.

E enquanto a consciência me esclarecer
de que sou os meus ossos e a consciência se apoderar
dos ossos secos e da carne exposta ao banquete dos vermes

as ilusões deste mundo
forjam apenas um propósito:
A total percepção da consciência.

Por isso que é inacreditável
o envaidecimento das criaturas.

Também é tão triste, baby,
o medo dos seus corações.

A consciência dos meus ossos
alegra-me as manhãs e a única vez
em que me senti tão alegre foi no dia

do meu primeiro relógio 
que parou debaixo da chuva.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Chuva

Escrevo e apago poemas
com a mesma facilidade
que afogava formigas 
na xícara de café.

Agora nem o açúcar mascavo
no fundo da xícara branca
seduz as meninas.

Crescemos,
o poeta e as formigas.
Uns morcegos, outros elefantes.

Repentino

Quando a minha língua começa o frenesi
da estúpida oratória e não há fim entre
os pensamentos e as palavras,

recorro ao meu caderno
e escrevo versos de morte:

"Os teus brincos de argola
que ofereci à outra mulher."

Crime

A grande sacada
é entender o mau humor
da poesia e aceitar da tal Senhora

a migalha para que nos vejamos
vivos, especiais, filhos de uma força.

Se a poesia adora contemplar seus ossos
e não lhe oferece um verso de socorro,

então vingue-se
como um selvagem

e guarde dentro da gaveta do inimigo
as mãos frias sem uma gota de sangue.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Haxixe

Da minha janela
tantas meninas
passeando

com seus cachorrinhos
que já perdi a noção:

Quem sorriu toda diabinha?
A do vestido preto é a mesma de azul?
E qual o nome da que atravessou a rua?


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Oráculo De Delfos

O que você acha
do meu bigode,
garota Lola?

Sei que me ouve,
embora se finja
de cadela órfã.

E se esconda debaixo da mesa
morta de medo até do próprio vento
que derruba quadros e lhe beija as patas.

Diga-me, garota Lola,
o meu bigode é melancólico
ou me deixa com cara de dono
de armazém de rum contrabandeado?

sábado, 9 de maio de 2020

Confraria

Pode ser que a poesia canse,
mas o poema se não for escrito
pesará um século de assombrações.

Ofício é quebrar os ossos
e amaciar a carne nos dentes.

Escreva o poema, filho,
e livre-se da sua cruz.

Ou melhor,
escreva os poemas
na madeira da sua cruz.

Como antigamente o poeta francês 
escrevia versos de amor nos caixotes de fuzis.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Gralha

A verdade é um segredo
entre você e quem
não é você.

Falar sobre morte
para quem tirou
o véu do sono
profundo

é como espremer cravos
das faces de uma rosa.

Macieiras

O máximo que posso
fazer por ti é ouvir
tua cabecinha.

Os teus sonhos
que me forçam
o riso em silêncio.

Os teus ares
de vingança.

A tua fragilidade
diante do poder.

Do poder ridículo
das coisas ridículas
que passam e te roem.

Mas sou um simpático coveiro
e na hora de plantar teus ossos
cavarei uma linda e fértil horta.

Juro que nascerá
das tuas cinzas
agrião.

Ora, meu docinho,
tu sempre amaste
a tua pele irradiante
de jovem camponesa.

E assim será (prometo)
por toda a tua eternidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Aurora Boreal

A minha mente é muito poderosa,
mas a última palavra é sempre da poesia.

Portanto, o que cultivo
só é digno aos corajosos:

Aqueles bêbados
que um dia acordam
cansados da embriaguez.

E passam a conviver de perto
com todos os seus atrozes pedintes
que caminham conforme a natureza

dos trôpegos,
dos cegos
e fujões.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Designer De Interiores

Você comprou
tolhas de banho
floridas e felpudas.

Vi da minha
área de serviço.

O que você guarda
de especial na gaveta
da sua cômoda branca?

Sei, ui,
imagino.

Adoro os seus segredos
de quem vive longe de casa.

terça-feira, 5 de maio de 2020

As Flores Do Princípio

Tenho uma relação muito querida com o mês de maio.
Conto nos dedos das mãos e dos pés as noivas 
que fugiram dos meus braços.

Ou me deixaram plantado 
no altar chorando abraçado
ao padre ou logo me deram o fora
durante o primeiro mês de núpcias.

Apaixonaram-se
pelo mecânico,
padeiro

ou o garotão
entregador
de água.

A viagem do espírito
é igual ao vento
de maio

que toca os dois vasos de orquídeas
sobre o parapeito da minha janela.

Não há risco de queda, baby,
que apavore as formiguinhas.

domingo, 3 de maio de 2020

O Tempo

Se você não tiver um caminho
que o aproxime dentro de si
como sairá do que
vive fora?

E o que se vive
não é verdadeiro
a partir da lucidez?

Abra as janelas
da casa e peça

gentilmente ao caramujo
que esqueça toda a lamúria.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Trabalhador

Já malhei,
arrumo a mochila

e vou passar uns dias
em companhia do filho.

Ora, arejar as ideias
com um verdinho.

Sou forte,
sadio e feliz.

Eis o mantra
da minha
avó.

Uma xamã de altíssimo grau
que adorava mascar fumo
e juntar moedas antigas.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Peixe Fora D'água Também Vive

Os familiares
terão uma grande
dor (e angústia no peito)
quando abrirem minhas caixas.

Ninguém em moral enlouquecida
imagina as minhas coisas ocultas.

Mas não pensem, cordeirinhos,
que voltarei correndo ao quarto
queimar as cartas e testemunhos.

Cresci sob o fogo
e minhas asas
dão voltas
e voltas

circulando o outro
dentro de mim.

Daí essa voz, querida,
já precisando de respirador.

Salomé

Você se lembra
de que lhe prometi

um par de brincos,
ou melhor, argolas,

e nunca
comprei?

Ora, você também
nunca me fez aquela
massagem prostática.

Caverna

Depois que tiramos da pele
aquela mácula criminosa
dos profetas irados
e tristes

sobra-nos um coração forte
sem meio-termo entre
dor e loucura.

Acordamos muito bem e nem uma gripe
em tempo de pandemia assusta nosso olhar.

O fogo que nasce é tão puro
quanto uma palavra irmã

da ação lúcida
em escrevê-la.

O Sátiro

Ok, já fiz minha toalete de fim de mês
e amanhã recebo o salário do pecado.

Guardei de memória
os celulares das diabinhas.

Eis-me limpinho,
limpinho, limpinho.

As diabinhas
hão de babar
minhas bolas

com seus batons cereja
e aquele risinho do inferno.

Só não sei se devo
chegar lá de bermudão
ou minha túnica de linho.



quarta-feira, 29 de abril de 2020

Anônima

Ui, tu hoje estavas de preto
e viste como é delirante
romântico e ácido
o meu olhar.

O teu rostinho pareceu-me
uma barra de chocolate branco.

Da janela
lancei a minha espécie
de alma e acredito que gostaste
do meu gênio e da minha química.

Uma breve viagem
por meu sangue
para quem 
seduzo.


Deleitante

Ah, como é extraordinário sentir os meus olhos
regressando à orbita lunática de imensa luz, baby.

Agora, enfim,
posso voltar
a fazer 

bichinhos
usando minhas mãos
e brincar com as sombras.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Draculagem

Não creio que você não imagine
que alguém da janela a vê
passeando na calçada
com seu buldogue.

Tão fascinante
nesta tarde 

de vestido
camisa social

em que as pernas
vagarosas de sensualidade
parecem senhoras da minha alma.

Onde você guarda
a minha taça de sangue?

Tertúlia

O único livro sagrado que possuo
é uma coleção de cartas todas
escritas para meu primeiro
amor.

Não há um dia
em que não desça
ao túmulo da década

de oitenta e leia aos meus anjos
e aos meus demônios os ais do coração.

Sorriem felizes
abraçados os anjos
aos demônios e dizem
que sou um perfeito maluco.

O Sumiço Da Máquina De Escrever

Por ato contínuo de escrever poemas
um poeta não é igual a outro poeta.

Por exercício 
de liberdade 

bastam
as sombras
de cada poeta
entre suas paredes.

O alimento
não será outra coisa
senão ossos da própria carne.

Ninguém morrerá de fome
queimando os cabelos
no seu enxofre

e salgando suas moedas antigas
dentro das ânforas do seu terreiro.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A Natureza Apaixonante De Uma Cadela

Nunca mais passeei com Lola.
A dama morre de vergonha
de fazer sua necessidade
fisiológica

em minha
companhia.

Embora eu olhe pro céu,
feche os olhos e até
solte a coleira.

Não tem mesmo jeito,
a dama morre de timidez.

A partir de agora apenas indico a porta
para que a jovem senhora saia com um livro
debaixo do braço e corra atrás dos pombos e gatos
depois canse, abra o livro de contos, leia algumas páginas

e faça tranquila
a sua obra-prima
na calçada das oitis.

As Túnicas Da Caveira

A questão fundamental da minha existência
é que me apaixono com absurda facilidade
pelos passarinhos, pelas lagartas-de-fogo,
pelas garotas desconhecidas da rua.

Perco o tato
entre amores
sobrenaturais.

Não durmo,
não me divirto,
passo a escrever
cartas de náufragos
para qualquer um solitário.

E assim vivendo
acabo estranho
assobiando

para os passarinhos,
lagartas-de-fogo
e  pras garotas

que chegaram agora à minha rua
e já cantam alto das suas janelas
arrastando o meu coração
à encruzilhada.

Aquele anão cínico
de sorriso iluminado
saiu das floresta escura

tocou o meu ombro
oferecendo-me o banjo

e aos primeiros acordes
as garotas recém-chegadas
silenciaram-se e o céu explodiu.

Certos Sopros Quebram Costelas

Desde o primeiro momento do poema
o caminho é sempre para seguir em frente.

Desde o primeiro movimento do moinho
o mergulho é sempre para dentro.

Se o poço for muito escuro
grite mais forte.

Se a clareza vive distante
acorde dos seus sonhos.

A melancolia dos fortes
é arrancar a pele
do coração

escrevendo
um blues.

Do Penhasco O Farol Arde

Caso um drink
levará sua alma
a mergulhar dentro
de um barril de rum

dê as costas
ao capitão
do navio

e não entre
no porão.

Salvação é lucidez
e quanto mais luz
mais sombras.

Mas essas sombras
testemunham o quanto
a verdade é extraordinária?

Pegue o leme das mãos
dos seus fantasmas

e atravesse
o nevoeiro.

sábado, 25 de abril de 2020

Planos

Se você jogar uma bomba
sobre o telhado de quem
não gosta,

então prepare-se 
para construir 
uma fábrica
de pólvora.

Não seria melhor
sentar-se na cadeira
de vime e ler Dostoiévski?

Não sei se sua cabeça está boa
pra jogar xadrez com o seu amor.

Dostoiévski
é mais seguro.

Transmigração

Ninguém precisa esmagar uma abelha
só porque entrou em casa e voa solta
pelo quarto da querida e doce avó.

Basta um guardanapo
embalar a abelha
de maneira 
delicada

e jogar a visitante da janela 
na direção das oitis da calçada.

Os discípulos de Pitágoras
sabem do que estou falando.