terça-feira, 28 de junho de 2016

Antes que eu tenha cálculo renal
Entupimento das artérias
Acidente vascular
Cerebral,
Escrevo versos
De manicômio.
Da janela,
Vejo que os pombos
Agora respeitam minha falta de juízo.
Não ousam flertar
Com as plantinhas
Da minha varanda.

Uma trupe de hienas
Expulsa leões e rouba
A carne. Deus, livrai-me.
Quero ser bonzinho
Nesta linda manhã
De terça.
Não mentir,
Não ser irônico,
Ajudar os vizinhos,
Escovar meus dentes.
Beber o meu café
Contemplando
As árvores
De oiti.
Se um anjinho
E um diabinho
Vierem me pedir
Pra escrever coisas,
Serei duro,
Cruel, enérgico
E me esconderei
Debaixo da cama.

Nunca cuidei dos meus amigos imaginários.
Certa noite, deram no pé e só me deixaram
Um bilhete: "Caro menino, não suportamos
A sua falta de sensibilidade diante da nossa
Tristeza. Adeus." Nas costas do bilhete, deu
Pra escrever um poema que havia sonhado.

Temo os puros, justos e felizes.
Não é bem temer, mas fujo.
Conheço esse tipo.
Prefiro confabular
Com os loucos
A respeito
Do fim
Do mundo.
As criaturas
De primeira
Grandeza
Não me
Ouvem.
De tanta pureza
E de tanta justiça
E de tanta felicidade
Também fogem da poesia.
E nós sabemos
Que fugir da poesia
É quase como enforcar Deus.
Ou qualquer força que o valha.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Na infância,
Os meus fantasmas
Vinham dos sonhos
E tentavam me sufocar
Enquanto inventava
Que dormia.
Na juventude,
Saíam dos livros
E rezavam contos
Aos meus ouvidos.
Não cresci,
A minha cabeça
Permanece vazia,
Mas o coração aberto
Não teme as palavras.
Perdi a confiança em meus juramentos.
E a poesia deu-me uma mãozinha.
Sou bem mais limpo
Com as pontas dos dedos
Sujas de carvão: nos muros
E nas calçadas escrevo que te amo.

Não darei testemunho sobre o meu inferno:
Cada palhaço de circo reconheça a tolice
Em colocar a cabeça dentro da boca
Do leão, se o domador é inimigo.
Espadas são boas
Quando atravessam
O peito do malandro.
Nós sabemos
Quando dou
Um golpe.
E o que escrevo
Não é um poema.
Não se enraiveça, minha baby.
Não me veja um falastrão de primeira.
Esses poemas mancos
[Que não são lá uma fortuna]
Necessários pra que caminhos firmes
Ergam-se sobre as minhas mãos loucas.
São Francisco de Assis
Nem sempre adorava
Passarinhos pulando
Nos seus ombros.
E Baudelaire
Quando cozinhava
Um ovo na sua chaleira de fuligem
Às vezes, imaginava mesmo que fosse santo.
Não sou de amanhecer cantando,
Mas amanheci cantarolando Chico.
Talvez tenha sido
O bilhete que encontrei
Entre os seios da camponesa.
Vivia feliz e me vangloriando
De que nunca, nunca, nunca
Roubaria sequer uma pétala
Das flores dos seus cabelos.
E nesta manhã saqueei-lhe todos
Os sonhos e sementes de mostarda.
O poeta tenta encaixar a poesia
Em um nível aceitável de crença.
Rompe
Amizade
Com deuses.
Só pra dominar
A técnica dos
Suspiros.
Há poemas que amam brincar conosco:
De fraque e cartola, esperam serenos
Uma manhã de sol e vento 
E vestem o bermudão.
Desmontamos
O castelo de cartas,
Construímos outro de areia.
E seguimos
As marcas
Dos pés.
A primeira vez
Em que fiz um pião
Girar na palma da mão
Foi um verdadeiro milagre:
De tão emocionado, ajoelhei-me
E agradeci aos céus. O pião pulou,
Atingiu-me com o bico de ferro o olho direito.
Desde então, queridos,
Resolvi escrever versos.
Camões, para
Os bondosos.
1557
Confio piamente
Na absurda força
Que me move entre
Meu quarto e cozinha.
Mastigando um pedacinho
De frango assado, reflito:
"A poesia tem mesmo gosto
Dessa espetacular asinha
Ou trata-se de sonho?"
Já pesquei
Em Isla Negra
Ouvindo Neruda
Ler as suas cartas.
Naquele tempo,
O poeta vivia
Apaixonado
(E quando
Não?)
O vento batia
Em sua cabeça
Soprava sua boina.
O poeta corria atrás
Como se corresse
Atrás de uma pipa.
Em vez da boina,
Trazia um peixe
E outro poema
De amor.
Um poema 
Que salva o mundo
Acaba uma obsessão, tal como
Verificar várias vezes tarde da noite
Se aberta a torneira do botijão de gás.
Prefiro muitos filhos pequenos
Pela casa entre as cadeiras
Quebrando porcelanas,
Ainda que velho
Com dor nas
Costas.

domingo, 26 de junho de 2016

Não existe espaço tão fraterno
Quanto um poleiro de morcegos.
Alguns dividem a glicose do coração,
Outros o sangue dos olhos. E quando
Amanhece, há sonhos de novas famílias.
Comovo-me [às lágrimas] assistindo
A documentários sobre mamíferos.
E olha, baby,
Que um dia
Fui um réptil.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Um suspiro teu
São todos os
Meus ais,

Desde o dia
Em que me deitei
No quintal dos meus avós

E as nuvens
Dançando ciranda
E soltando as mãos

Entraram
Em meus
Olhos.
O mundo,
A aldeia,
A corte,

Sacam nossos corpos queimando
Dentro dos nossos olhos de criança.

Tiro as luvas,
Você tira as luvas,

Descemos a escadaria,
Passeamos pelo jardim:
"Edward Mãos de Tesoura
Quem esculpiu esse jardim?"

Sorrio acanhado,
Você me puxa
Pela nuca.

A suposta fragilidade do poeta,
A sua maior força: toca flauta
Com um riso na ponta
Dos lábios

E a serpente
Dança.

Não te falei
Que tenho
Visão de
Raio X?

As meninas
Que apresentam
A previsão do tempo na tv
Conhecem a minha sensibilidade.

De tanta paixão,
Chego a tocar-lhes
As saias, vestidos, tailleur.
Quando vejo as tranças
Queimadas de sol e sal
De um rasta, lembro-me

Dos camarões
Da minha serra.

Naquele tempo,
Não era bruxo
(Nem sou
Agora)

Mas adorava
Contemplar
De perto

O céu,
As fontes,
As grutas.

Seguia borboletas
Pelas trilhas e nunca
Esquecia o caminho de volta.

Chove, meu bem:
Cadê os seus cabelos
Pra me esquentar o rosto?

Não conheço, menina,
Outra forma tão doce
De enxugar lágrimas
Quanto seus cachos.

Há manhãs em que o poeta
Acorda tão bondoso que
Perdoa e poupa
A vida

Das baratas
Que passaram
A noite toda sobre a mesa
Confabulando a favor da câmara dos lordes.

Complacência que dura exatamente
(Olhando o relógio de parede)
Um minuto.

Cedo ou tarde,
Voltarei a aguar

As plantinhas
Da varanda.

Só preciso de um tempo
Pra me acostumar com
A ideia de que
Não morri.

Existia uma verdade
[A única verdade que existe]
Durante as minhas mentiras.

Um anjo que segurava
Os meus braços

E pulávamos
Do precipício.

A morte pode ser
A porta do entendimento
Ou um eterno jogo de dados

De sete
Faces.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O meu coração
Faz o que quer
Com as palavras.

E a poesia
O que quer
Com o coração.

E o poeta
Escapa de fininho
Pra beber o seu café.


O meu coração
Faz o quer com
Com as palavras.

E a poesia
O que quer
Com o coração.

E o poeta
Escapa de fininho
Pra beber o seu café.

Vergonha
De me aproximar
De você e oferecer-lhe
Uma flor da minha pracinha
Mais um poema. Certamente,
Chorarei perto dos seus cabelos
A sentir o seu perfume, veja, ponha
A sua mão sobre o meu peito e ouça
O coração do meu amigo de infância:

Quixote
De bermudão.

Só precisava de uma mão amiga pra escrever meus poemas.
Sabe, guardei uma camisa especia pro dia que te conhecer.
Desbotada, que acabei de tingir.

As manchas lembram minha juventude,
A parte boa, menos as espinhas
E a languidez de dormir
Séculos na escola.

Muito rápido
A minha paixão
Pela professora de inglês:

Enroscava a língua
Entre os dentes
A molhar

Os lábios
De batom
De cereja.

Jamais passei um ano novo sozinho.
Sempre matei um fantasma e ressuscitei
Um morto e, nessa manobra sem fim de matar
Fantasmas e ressuscitar mortos, definho-me a ponto
De um sabiá assombrar-se das minhas clavículas (tapando
O bico com as asinhas) compadecido da minha figura de poeta.

O meu primeiro amor
Tinha um nariz que
Parecia uma
Batatinha.

Charme
Ou trabalho feito
Que me fez enlouquecer
Ao separar-me da pequena:

Rapei a cabeça, cortei o pulso,
Pintei na parede do quarto
A sombra de Hades.

A poesia não me desaponta.
Nunca. Não se apega
Às coisas desse
Mundo,

Embora mais carne
Que espírito.

O encantamento dos dedos
Apenas pra luzir os anéis.

E convidar os ladrões
À outra palma da mão.
Em ponto de bala
Basta que você encoste
O seu joelho no meu joelho

O meu coração dispara e lhe
Mostro um lírio dentro do bolso.

Beije-o
Com amor.

Não entendo
Como a poesia
Poderia perder a força

Ao ser revelado
Mau caráter
O poeta.

Desde muito cedo,
Emociono-me bebendo
O café da minha vó xamã.

Depois, espano
O meu estojo

De dardos
Envenenados

E vou
Pra selva caçar
Macaquinhos e capivaras.
A poesia nunca perderá o seu amante.
Só uma questão de tempo, Sincronicidade
Junguiana, providência divina. E um dia, pá!

Você dá de alma
Com o poema

Mais lindo
E espantoso
Da sua vida.
Adivinhe o presente
Que ganhei cedinho
Ao abrir a janela
Da varanda:

Um coro de passarinhos,
Inclusive os pombos,

"O poeta voltou,
Ô, ô, ô, o poeta
Voltou..."

Imagine as minhas lágrimas,
O tremor dos meus lábios,
A minha xícara branca
De café aos prantos.
Miserável o homem
Que não se emociona
Dos encantos da mulher.

As lágrimas
(A queimar os cílios)
Que são riso de criança.

A alegria frenética
Que é uma melancolia
Tão profunda, tão profunda.

Ao dizer que dói a cabeça,
O corpo todo até os pés,
Entrega-se à paixão.

E sonha
Com um filho.
Se o poeta sofre um infarto fulminante,
Os passarinhos já lhe roubaram
O coração.

E não tem papo.
Não há volta.

Sabe-se lá
O que os passarinhos
Planejam com nosso amor.

Sonhei com uma sinfonia de garrafas
Debaixo da sua janela soprando
As boquinhas.

Garrafas
De suco
De uva.

Se fosse de vinho,
Teria virado a noite
E ainda estaria louco.

domingo, 29 de maio de 2016

Assim que os meus cabelos cresçam
E eu dê um jeito nos meus dentes
Jantarei com os seus pais.

Entendo a preocupação
Da família real diante
Do louco e herege

Mamando
O tesouro
Da filha.

Juro que parei
De dar golpes
Depois que te
Conheci, milady.

Uma dúvida,
Aquele colar
Que sua mãe
Desfila

Diamante
Rosa?

Desisti de aprender a dirigir
Quando sofremos aquele
Acidente subindo à
Serra

Em que
Atropelamos
Um cavalo.

O poeta não estava ao volante,
Mas o cavalo ficou segurando
Firme a direção

Ao atravessar
O para-brisa.

Quando estudava matrizes
As colunas imaginárias
Enlouqueciam-me.

Supunha déficit de atenção,
Mas era só agitação poética.

Resolvi então preencher
Os espaços vazios
Com palavras.

E fez-se luz
Augusto de Campos!

Ao descobrir
Que meu encantamento
Não finda (nem minha lábia)
Você cairá em um triste cansaço.

Não tenho responsabilidade
Por meus sonhos, meu bem.

E isso é difícil
De conviver
Ou aceitar.

Não quero pensar
Que é felicidade
Esse estágio
Final.

Não matarei meu cavalo
Alongando o caminho.

Já cavalgamos
Por muito tempo.

Minhas pistolas remington
Estão geladas e as balas
Não fazem barulho
Na noite.

Não me lembro de muita coisa quando nasci:
Se havia um anjo torto à cabeceira
Ou Nossa Senhora rezando
O terço.

Só ouço o fórceps jogado à bandeja de aço
E a premonição do  médico: "Esse
Dará desgosto..."

Danço lavando
A louça do almoço
Ao som do rádio ligado
Na área de serviço: um dia,

Ensino-lhe os passos
De um mamulengo
Embevecido.

Imagine um espantalho de varetas
E papel de seda ao vento
No meio de um campo
De girassol.

As palmas das minhas mãos envelhecidas
Com desenhos de velas de navios fantasmas

Tateiam o caminho
Da mesa, da xícara.

Acima do vento
Os dedos quase
Batucam o silêncio.

Cheguei a um nível de amor
Com as formiguinhas que
Consigo deixar

O pote
De açúcar
Destampado

E as meninas
Ficam estátuas.

As que se atrevem
Amo mais.

A serpente
Que cospe
Engole

Em maior
Proporção
O veneno.

Daí, aquele
Olhar malsofrido
A imaginar que o mundo

Anseia
Matá-la.

Sabonete de namorada
Que arde nos olhos
Derrama lágrimas
De saudade.