domingo, 29 de maio de 2016

Você tem certeza
Que vai querer
Esfaquear
O peito

Por nuvens sujas
No solado dos tênis brancos
Que você imagina, meu caro?

Você não sabe
Do céu novo
Que arde.

Guarde sua ira,
Procure pela casa
O chiclete antigo do
Seu primeiro amor, rapaz.

Abençoe
O seu dia.

Bom dia, Pateta.

Dia, Mickey.
Como passou
A noite?

Acordado.
Rolando
Na cama.
Sonhando
Com Minnie.
Apaixonadão.

É, Mickey, desde
Os anos vinte.

A propósito, Pateta
Noite passada fui
Ao quarto da Minnie.
Sabe, cara, presenteei-lhe
Uma peça deslumbrante
Da Victorias's Secret.
Conhece esses sapatos enormes?

Parecem meus, Mickey.
São meus, sim, meus.
Onde os encontrou?

Debaixo da cama
Da Minnie, brother.

Opss. Foi mal, cara.

Tranquilo, Pateta. Minnie explicou.
Tu precisavas trocar os cadarços.
Sei que é uma confusão
Pro você.

sábado, 28 de maio de 2016

Os braços raquíticos,
As costelas aparecendo,
O olhar louco de indiano.

Iluminação
É isso.

Só falta criar um cachorrinho
No apartamento de mamãe.

De uns dias pra cá
Sorrio sozinho
E choro -

Uma
Graça.

Não posso ver uma menina
Segurando o seu cãozinho

Que pergunto
Se é aquele
Voyeur

Da propaganda
Espionando
A vizinha

Com uma
Xícara à boca.

Aliás,
Ótima
Cantada.


Por favor, meu bem,
Quando escrever
Poemas

Em seus cílios
Não passe rímel.

Chorar
Pode.

Como tu gostas de passear pela casa após o banho.
Ora soltando a toalha a sorrir fingindo-se assustada,
Ora séria jogando o guarda-roupa sobre a cama.

Minto se não amo
As tuas manhas.

Dostoiévski entre
Os meus dedos
Suspira.

Meu bem,
Ciúme da minha
Xícara branca de café?

Da delicadeza
Em que seguro
A asinha, bem?

Do biquinho
Que faço?

Não se esqueça, meu doce,
Que foram minhas xícaras
De café quem me ensinou
A beijar: se agora os seus
Lábios estão dormentes,
Viçosos, corados,
Viva!

Agradeçamos
A elas, amor.

Os passarinhos
Amam as lagartinhas,

Mas não dispensam
Uma tenra carne.

Alguns choram
Sobre o prato.

E bicam delicados
Entre a cabeça
E o abdome.

Nem me olhem,
Criaturinhas.

Não vi nada,
Não sei de nada,
Não escutei nada.

Um sapoti sobre
O parapeito da janela
Da área de serviço: Ah, que
Passarinho gentil trouxe-me
Esse presente. Nem tocarei.

Acenderei uma vela
E oferecerei tal dádiva
Às divindades da doçura.

Mais tarde tratamento de pele.
As niñas do salão da lojinha
Logo estarão à cabeceira
Da minha cama.

Espero que venham à vontade:
De sainha, camiseta sem sutiã,
Felizes e com creme de maçã.

Maçã, serpente, pecado:
Que abençoado dia,
Ó meu deus!
Quase peguei
Em pleno voo
O sabonete,

Coisa que fazia
Normalmente
Aos nove
Anos.

Só que aos cinquenta
Os joelhos não são
Mais de gafanhoto.
Quem anda me regulando
São as formiguinhas
Do açucareiro

Sob ordem e regência mediúnica
Da anciã, a xamã, que se veste
De túnica laranja e colares
Do planalto Asteca.

Batem na minha mão,
Na terceira colherinha cheia.

Lembram-me que tenho
Histórico familiar de diabetes.

Ora, também tenho
Histórico familiar
Messiânico.

Nem por isso
Ando sobre
Águas.

Mal acordar, ainda bambo,
Entrar na cozinha e uma
Banda de abacate
Sorrir-lhe:

Ah, que
Milagre.

Agora, só o açúcar
E a farinha. Amor,
Depois você
Espreme

Das minhas costas
Algumas espinhas?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ó minha flor, é que o miserável
Quando ganha no jogo de dados
Pensa que o mundo é o teu jardim.

E danço cego
De tantas estrelas.

Claro que emagreci,
Minha querida.

Mas já devolvi
O cachimbo
De minha
Vó.

Agora são os passarinhos
Que seguram os meus ombros.
Ou o vento da tarde leva junto
O meu coração e minhas costelas.

Voe e pegue
Minha mão:

Os dedos trêmulos
Loucos pra escrever
Sonham com seu sorriso.

Antes que as gaivotas
Mergulhem e pesquem
No bico todas as sardinhas

Consideremos
Aquele golfinho
Um tanto tímido

Espreitando de longe
A ganância das aves.

A sua solidão
É tão faminta.
Mas delicada.
A energia da meditação transcendental
De tal ordem comovente e louca
Que lavo a cuscuzeira
Com os olhos.

Lindas as bolinhas
De detergente
Que suspiro
E assopro.


Penetro em você
Com a polpa
Da palavra

E forma-se fila
Uma a uma
Palavras

Ligando
Versos.

Você suspira ardente
Grávida da palavra
Que é nervo, suor,
Corpo.

(foi bom
pra você,
meu doce?)



As plantinhas da varanda
Cresceram e multiplicaram-se
Sob a minha loucura e desleixo.

Felizes os pombos
Em doce e eterno
Idílio

Com as pequenas,
Exuberantes,
Viçosas.

Até enxergo
Casamento.

O meu sorriso gostoso
É só para os íntimos:
A minha xícara
Branca de
Café

E a formiguinha anciã
A xamã do açucareiro.

Nunca te contei, meu amor,
Mas já limpei dos meus dentes
Fiapos de manga e de carne com
O teu cabelo longo, doirado e macio
Enquanto tu dormias de conchinha. Feliz.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O que sugere redundância em um poema
É só um suspiro a mais que o poeta
Não consegue segurar.

Perdoemos a aurora
Que atravessa
O mar.


Já pensou em tatuar
As batatas das suas
Pernas?

Um navio,
Um girassol.

Sei lá, alguma coisa
Que eu possa morder
E sonhar feito criança.




Teu ventre
Tão perto
Do fogo

Enquanto
Preparavas
Meu banquete:

A lembrança
Que tenho
Do teu
Peixe

Com
Cogumelos.

O que o poeta
Quis dizer ou disse
Não tem importância.

A chave do reino
Vem em silêncio.

Parece até
Confusão.
O milagre é uma força suave
Que desmorona a altivez
E dobra em veludo
Sobre o coração
A doçura,

Ainda que a espada
Corte em fatias
Os cílios.

Guardar uma formiga
Dentro de um pote
De açúcar

Pra vê-la feliz
É um equívoco.

Há formigas
Que somente sonham
Com os sussurros da cafeteira.



Lanço a isca
Da melancolia

Pra ver se você
Sente dó da minha pena
E vem pra casa de cachinhos.


A arte dói na carne
E a poesia não poupa
As mãos do criminoso.

Por influência dos túmulos
Que meu pai ergueu
Meu fim será
Breve.

Nem ai.
Nem ui.

Só olhos
Cansados.

Chorosos
De passarinho.
Há um preço alto
Por essas asas
Que crescem
Pra dentro

Quebrando costelas
Rasgando carne
Bebendo
Sangue.

Quando ouvia
Ana Cañas
Sonhava.

Você perdeu
A minha inocência
De sorvetes e licores.

Você jamais imaginaria
Que o inferno estivesse
Tão perto da porta da
Sua casa.

E que surpresa
O caminho da luz
Ao lado da miséria.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Há tempos
Não fazia
Pipoca.

Então era isso
Que o meu coração
Queria: fazer pipoca,
Salvar minha alma e acordar
Os bebês e os poodles do prédio.

Em manhãs como esta,
Acordo com o braço
Sobre a boca
Do fogão

E esqueço
O cigarro
Na ponta
Do lábio.

Forte,
Sadio
E feliz:

Canta meu anjo da guarda
Horrorizado das queimaduras
Em forma de desenhos infantis.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Jurei por minha alma
Que não foi o poeta
Quem roubou
O relógio
Cartier.

Minha mãe e minha irmã
Não acreditam, mas eu vi
Um bando de formiguinhas

Levando a peça
Como se em procissão
Conduzissem um totem
Ao buraco da parede.

Minhas cúmplices
Precisam saber
A hora exata
Da minha
Morte.

Um festão,
Baby.


Há cadáveres que dormem a vida eterna.
Outros despertam ao distante ruído
De ratos dentro do fogão.

O primeiro comprimido do dia
Lembra-me as calçadas da infância.

O saudoso raio de sol
Descama meus cílios.

Nunca viste um cadáver
Que chora, meu bem?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

As musas enlouqueceram-me -
Nem sequer toquei em um fio
Dos seus cachos.

Enlouqueceram-me
Por belas e ricas

E eu um velhaco
Devedor de cervejas
Em esquinas perigosas.

Um dia,
Retornarei à cena do crime
Com a velha lâmina enferrujada.

Será o pulso direito
A ser talhado da cor de sangue
Dos arrebóis dos trovadores malditos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Poética

Para quem nasceu
Com um girassol
Plantado na
Janela
O coração não guarda
A mínima vontade
De amar outras
Flores.

Clínica

Desligue
Os aparelhos
Do seu poema
Caso não exista
Aquela fúria do princípio.
E observe com coragem
A morte das palavras
Agonizantes.
As asas dos corvos
Sob a floresta escura
Brilham quanto ardem.

O vazio que morde

O perigo da poesia é o costume
Por tê-la em volta do pescoço
Um nó de forca
Ou um colar
De búzios.
A morte que alcançará os céus
Não ocultará meus pés sujos.

Espinho

Penso nos primeiros versos sob a ingenuidade de um coração louco.
Sei que a rosa branca morreu e chegou a hora de guardar a ânfora.
Nunca me esqueci das palavras que você um dia amou.
Ânfora é a mais doce e misteriosa.

O senhor da doce melancolia

Trôpego ainda crédulo
Saberás como caminhar
Entre névoas de chumbo.
As chagas dos teus pulsos
Não te iludiram a esperança.
Segurarás com mais delicadeza
As tuas próprias asas (tuas cruzes?).
Segue que a vida não se calará
Enquanto tu sonhas e ouves um blues.

Vinho tinto

Vampiro é o meu coração. E para beber do próprio sangue, rouba os meus sonhos para junto de si atrair outros corações. O meu coração um dia cansará de tanta avidez e deixará os meus cílios em paz.
As lágrimas não morrerão tão cedo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dose única

Ainda tenho muitas orquídeas para enfeitar as árvores da minha rua. Nessas horas, em que só os gatos pretos e outros malhados andam pelas calçadas, planto orquídeas aos caules das oitis. Amanhecerá a minha alma encantada e o mundo nunca saberá quem concedeu ao poeta a triste euforia da palavra.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Solidão

Quem por raríssimas vezes ouve-me em minha plena loucura poética foge de mim em silêncio como se tudo que conversei e gargalhei tivesse sido em vão. Sobre desenganos e exílio conheço bem. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A poesia é fogo

O dinheiro não compra o coração do poeta. Só o seu cinismo e cínico o poeta seduz o rei e faz amor com a rainha. Sem viajar pra Pasárgada. 

Grife

Os meus dentes estão péssimos, meu amor, mas posso trocá-los por parafusos de ouro. E o meu coração permanecerá apaixonado.



pra uma menina de trajes deslumbrantes

sábado, 5 de dezembro de 2015

Artífice de latão

As sete plantinhas em seus jarros de zinco [as que prometi dar banho de sol cedinho e retirá-las do sereno diante da rua deserta] não sei como vivem. As minhas promessas perdem rápido o título de nobreza. Aproxima-se por minhas vértebras uma preguiça e meu coração esquece o valor dos brasões de batalhas impossíveis. Muitas plantinhas morreram infelizes esperando o meu amor. Nem todas as manhãs de sábado invadem minha alma com extrema brandura. Há manhãs de ouvir, apenas ouvir, os cílios cansados debaterem-se entre si e as últimas lágrimas. Sem mendicância e sem santidade. O amor não espera honrarias de lunático. Crer já é muito. E não cole as asas dos passarinhos que colidiram contra a janela. Você ouvirá um som mais delicado do peito de quem voa trôpego ainda ferido.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Frêmitos dentro de uma ânfora

O meu suor é aquele da infância a chamar passarinhos e formigas. E chegavam entidades felizes ao meu lado e brincavam com os meus olhos. Os jardins eram tão inocentes. As lagartas-de-fogo não queimavam a minha pele. Nunca havia solidão entre o meu silêncio e as palavras. Ainda preciso de coragem para ser essa criança. Não existe tempo. Sei o que somos até o fim. A morte é um descuido da ausência.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Barquinhos de papel e um jazz

Um dia disse que não era mais poeta e você acreditou. Ou aquele sorriso era puro escárnio? Você mestra dos assuntos do ventre e dos filhos mais do que o meu coração sabia que seria tormenta em taça de vinho minha lágrima. Ou aquele sorriso era puro cinismo? As mulheres criadoras dos vãos entre nossas costelas de criança sabem que a maternidade não terá volta depois do espanto. E era toda a certeza da chuva o seu sorriso.

Cozinha

Uma semente de mamão sobre a mesa é uma pérola negra aos olhos de um visionário. Seduzo uma formiga em silêncio.