terça-feira, 17 de novembro de 2015

Ao vencedor, as batatas!

Há mulheres de panturrilhas fascinantes. Nativas do Congo. Camponesas Quakers. Mas o que me fascina nesse divino momento é uma novinha a pular do ônibus. Saltitante. Tão mocinha e já senhora de si. O meu filho, um rapazote de 14 anos, decerto também se encantaria por essa pequena e teria nas mãos a chave do deslumbramento. Sim, falava das panturrilhas maravilhosas de certas mulheres. Amei, em um tempo distante, um par de batatas e chorava sobre essas batatas e fazia massagens nessas batatas quentes com as minhas lágrimas. Um dia, fugiram do meu alcance essas doces batatas. A partir desse infortúnio, nunca mais admirei as panturrilhas de uma mulher. Exceto hoje, no corredor do ônibus, uma feirante. Uma cabocla de tez cintilante.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Espectro

Do amor nada soube. Nada trouxe. Do amor apenas inventei. O ciúme foi meu aliado em questões de delírios e farsas. Cresci sob sua sombra - a do ciúme, não do amor. O amor não tem sombra nem sol. Do amor que nunca aprendi, imagino que não tenha sombra nem sol. Apenas imagino. Do amor sou um pateta. Um servo caolho. Um infeliz. E gente assim não deve mesmo conhecer o amor.

Aleluia

Não duvide do milagre. Só o náufrago sabe da alegria em receber de presente a memória de volta. O testemunho é valioso aos quase mortos no fundo do mar. Não gosto mais de mim bêbado. Chega ao fim minhas peripécias infernais. De tanta sobriedade a porta do meu quarto rangerá piedade por meu coração e suplicará loucuras. Morrerá tísica a porta do meu quarto. Não lhe darei ouvido. Ainda sou um náufrago. Peixes carnívoros beijam minhas mãos. E ao descer a escada do teu prédio as minhas pernas correm ao fundo do mar. Uma estrela em forma de papoula encanta-me.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Pastilha

Natural que ao beijar e sorver teu monte de vênus eu beba a delícia do teu gozo de mulher. Assim, canto melhor com a voz rouca um blues.

Comédia

Meu amor, perdão. Ando tão confuso de encantamentos que sigo meu caminho chamando todo o mundo de meu amor. Antigamente chamava os passarinhos de meu amor, as formiguinhas de meu amor, a minha xícara de meu amor. Perdão, se chamei as tuas primas de meu amor, as tuas amigas de meu amor, a tua mãe de meu amor e o teu pai de meu amor. Também morri de vergonha quando chamei o garçom de meu amor. Não almoço mais no mesmo lugar. 

Cordel

Há um quê de farsa em meus tormentos. Gracejos de graúna que nunca será corvo. A dor é tão pequena diante da minha infantil palavra. Já não busco céus. O abismo é comum a quem mais rasteja do que voa. Convido os comparsas para tabernas com a singeleza do homem sóbrio. Os dentes mordem a língua em espaços de tempo que não dou conta. O tempo é um demônio. O único que existe e faz de tolo o curioso. O novelo dentro do novelo só tem pulga. Atente-se, bichano. 

Sexta 13

Depois que você abrir seu coração se acostumará com a minha melancolia e espirituosidade. Reconhecerá que sou uma boa companhia. Só segure minhas mãos. Segure as minhas mãos. Não deixe que eu erga e brinde aos céus a primeira taça. Cante um blues aos meus ouvidos e cubra-me com as suas asas, meu anjo. Dói virar bicho e as noites são eternas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Fortitudine

O amanhã é uma hipótese. Não engomar a farda seria ingenuidade. Se o meu corpo não levantar e o espírito for plantar girassóis em outra freguesia, no mínimo, como prova da minha paixão pela vida,  os desconhecidos que entrarem em casa [sempre aparecem vizinhos para olhar o morto] encontrarão no varal do banheiro, bem passadas e repousando no cabide, a camisa e a calça do trabalho. Incrível o inseto que saiu do bolso da camisa de asas trôpegas. Quase beijou a palma do ferro de engomar em brasa viva. Não sou tão psicopata assim. Só dei um peteleco. E voaram os pelos das asas do inseto sujando o brasão. Inseto de sorte, baby.

Novembro Azul

Deixe-me tomar um banho primeiro. Ou você prefere o meu beijo da rua? Bonachão pra chuchu o seu jovem senhor ultimamente. Completei cinquentinha, lembra? Onde você estava que nem me enviou de presente uma ânfora de cerâmica para os meus novos cabelos brancos? Você sempre soube o quanto simpatizo com esta palavra "ânfora" e também com "próstata". Espero que o dedo do senhor urologista seja um dedo comum. Sem essa de aberrações de circo. Um tempo atrás escrevi um poema onomatopeico em que lembrava um cavalo trotando "prós-ta-ta... prós-ta-ta-ta..." Se a minha glândula de mostarda estiver do tamanho de uma tangerina, por favor, não desapareça. Quero você perto dos tubos. Desligue todos.

O alquimista de vazios

Ando tão contente da vida que faço a barba no escuro para não me apaixonar pelo sinal do meu lábio. Mas não se surpreenda, se eu escrever um texto medonho de um órfão que acabou de matar os pais adotivos e planeja decepá-los. Percebe, meu amor, como é fácil mudar o rumo dos seus sentimentos?

Coroinha

Catei as mais deslumbrantes pedrinhas nas margens do rio da minha cidade. Lavei e sequei as lindas  pedrinhas. Pintei as pedrinhas encantadas de vermelho, azul, amarelo e verde, à tinta guache. Juntei e colei as coloridas pedrinhas esculpindo um palhaço. Guardei o palhacinho dentro de uma caixa de sapatos  forrada a gramíneas e pétalas e ofereci [com todo o amor de um mancebo de treze anos] à minha professora de inglês que esboçou um sorriso e brincou cruel "Cadê as espinhas do palhaço? faltam as suas espinhas no palhaço..." Chorei. Arranquei das mãos da professora Hélia a delicada escultura e fugi ao casarão dos meus avós. Abraçado à caixa de sapatos [forrada a gramíneas e pétalas] chorava lágrimas de ódio. Calei-me. Despertei da manjedoura o palhacinho e lancei-o contra o muro do quintal dos meus avós - que era o mesmo do cemitério. "Palhaço, palhaço, palhaço..." Repetia centenas de vezes e ouvia de volta o palhaço repetir "Palhaço, palhaço, palhaço..."

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Brisa que levanta a toalha da mesa

Não escorrem pelo rosto as lágrimas. Estas são iguais àquelas palavras que não se eternizam pela escrita. Mas pelo que se guarda e se diz murmurando só pra gente ouvir. Estas lágrimas não chegam aos lábios. Não forçam lembranças más ou boas. Como tocam as pontas dos cílios, somem sem deixar os cantos dos olhos nem sequer úmidos. Chamas que eram fogo, apagam-se. E permanece a palma da mão quente e a boca sussurra o que ainda será dito.

Templário

Sempre borrifo um perfume especial no colarinho da minha farda. Nunca se sabe [nem mesmo o Oráculo de Delfos] qual a estagiária que entrará na sala, caminhará até a minha mesa e com o rosto tépido sobre meus ombros exigirá um ofício para o gabinete do secretário. Nessas ocasiões, os meus delirantes escritos são inúteis. O que seduzirá, e despertará encanto na menina, apenas o perfume especial borrifado no colarinho. O poeta e boticário William Blake é um grande amigo. Vive enclausurado no seu sótão a elaborar e me oferecer fragrâncias místicas. Não há estagiária novinha que resista e não enlouqueça.

O Bosque

Lisos à base de pranchinha ou encaracolados a fios de ouro, amo os seus cabelos com tão cálida paixão que cortaria os meus pulsos e ungiria a sua cabeça com o sangue da minha poesia. Entenda, meu bem, que a minha poesia é o Universo silencioso do meu amor - de onde não se roubam nem se perdem palavras. É tudo muito raro, fino, um sopro de canário.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Escritura

Minha mãe de 78 anos [ministra da sagrada eucaristia] acabou de chegar do Shalom e presenteou-me com um saquinho de pipoca doce. Temi que estivesse benta. Pipoca doce só serve se estiver benta para um diabinho como eu. Dona Beatriz sorriu e perguntou-me o que seu filho andava lendo. "Bocage, mãe, o santinho Bocage." A ministra fez o sinal da cruz.

Atordoado

Se você se engraçar, eu me engraço. Viu meu comportamento de lord, nesta manhã, ao pegar o ônibus? Dei-lhe passagem com as mãos de um cândido cavalheiro. Sou muito educado e falastrão, afinal só penso em levá-la pra cama. Dormir contigo seria uma dádiva divina de um deus pagão. Mas sei lá o que ocorre com meu espírito. Acredito que os fantasmas das mulheres a quem escrevi poemas, ou amedrontam quem se apaixona ou me fazem trabalhos específicos carregados de solidão e eu fujo. Tranco a cara. Faço de conta que leio um livro de Eça. Sou mesmo um padreco de Leiria.

Um francês maldito perdido entre tulipas

As palavras antes das sílabas e dos pensamentos são entidades. Germinam-se por simbiose próximas dos seus servos. O ventre do homem e das mulheres comungam-se da fertilidade das palavras. Dos rodopios e dos passos cautelosos das palavras. O mundo que parte da minha realidade é assombrado. A carruagem passa defronte das tabernas. Ouço os ruídos dos dentes frenéticos dos possessos e felizes homens. As mulheres, lânguidas, desmaiam em sonhos com um batom. Distraídas? Nunca. As mulheres quando se olham no espelho com o batom suspenso em sinceros afagos nos lábios jamais viajam distantes de quem amam. E as palavras atacam-nas. Sem piedade. Os caballos arrastam minha carruagem pelas tabernas. As palavras se forjam no silêncio [antes das sílabas e dos pensamentos]. Não vivo nessas horas. Não conto com a vida nessas horas. O meu mundo é assombrado, baby.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Angico

Quando conheci Dom Quixote de La Mancha ainda não era responsável juridicamente por meus atos, fato que me levou aos abusos sobre a alma do Cavaleiro da  Trista Figura. Não o deixava em paz um segundo. Galopava ao seu lado entre os campos de girassóis e de papoulas e bebia da fonte luminosa dos seus delírios. Os moinhos eram de fato terríveis gigantes e nunca meus olhos toparam diante de uma dama tão formosa quanto a senhorita Dulcinea del Toboso. Sancho Pança servia-nos a cada terço de hora um cachimbo com cactos da Patagônia e sorríamos muito quando o meu mestre dançava xaxado fingindo-se incorporado da altivez e sobriedade de Lampião. Ao cair da noite, Dom Quixote reservava-se intimo e confidenciava aos meus ouvidos em voz roufenha o seu pesar. Nessas horas, Sancho Panço dormia ruidosamente envolvido entre as patas do seu burrico. O meu mestre confessava-me que não tinha certeza das suas ideias e dos seus arroubos. Insistia que era eu o seu verdadeiro mestre e que minha a divina incumbência de ensinar-lhe a arte do flerte e da conquista através das palavras escritas. Sofrendo um absurdo, respondia ao meu senhor [tantas vezes o mesmo angustiante assunto do coração de um bêbado] que há tempos rasguei e queimei as minhas cartas amorosas de idílios, namoros e matrimônios. O meu mestre Dom Quixote de La Mancha, O Cavaleiro da Triste Figura, gargalhava e mudava de assunto crente que um dia eu daria mostras do meu amor por seu espírito venturoso e dedicaria todas as noites de lua cheia a segredar-lhe os meus escritos líricos. Confiante em tal esperança, oferecia-me mais vinho dos monges do Mar Morto e voltava a dançar xaxado abraçado à sua lança como os cangaceiros abraçavam seus fuzis Mauser com delicadeza e luxúria.

domingo, 8 de novembro de 2015

Periodontia

Os dentes de uma hiena estão melhores de que os meus. Depois que a minha dentista segurou-me as mãos e disse que andava sofrendo muito, nunca mais retornei ao consultório. Só queria que cuidassem dos meus dentes. O meu coração não tem cura. São nervos loucos.

Patchouli

Creio que as mulheres percebem o meu amor e minha volúpia. As mulheres que sentam ao meu lado no ônibus, as que trabalham na mesma sala, as da fila dos caixas de supermercado e lotérica, as que tocam meus braços nas calçadas. Em todos os lugares que as mulheres passam e olham os meus olhos, envio algum sinal de amor e volúpia. Nunca se encantam mais que um minuto dentro da alma dos meus olhos. Dentro da alma dos meus olhos as mulheres entendem o risco de amar um santo. Minha mãe disse que sou um santo, portanto sou um santo. [Quem é louco de duvidar de uma ministra da sagrada eucaristia?] Nem os deuses presenciam os meus rituais de homem perverso e egoísta, exceto quando amo e me perfumo. Neste caso, baby, o mundo todo sabe.

Cisne

Fugi do manicômio devendo algum dinheiro. Não voltarei pra pagar a minha dívida nem oferecerei cigarros ao porteiro. O meu pescoço roliço e meus ombros fortes esqueceram o passado. As musas se não forem desvirginadas antes do banquete, a tragédia será eterna ao homem ingênuo de olhos fraternos. Distante de toda aquela vaidade de morfina, as vozes que não cooperam com meu estado criativo não duram muito tempo no meu quarto. A solidão sabe criar amigos. Naquele tempo, cercado de artistas, poetas e escritores fabulosos, a vida não era delicada como agora. O que escrevo não tem importância aos olhos cúmplices e cínicos. O que escrevo é uma força a mais para mover o moinho e deixar quieto o manicômio com sua vaidade de morfina. A cegueira surge dos olhos cúmplices e cínicos. E já estou bem de óculos novos.

O campanário

Quem me vê engomando a camisa de linho do trabalho [o cuidado em não passar o ferro sobre o brasão do fardamento] decerto, pensariam tratar-se de um tecnocrata meticuloso. Ora bolas, tolice. Não veem o outro olho medonho de Kafka ansioso por uma nódoa de fezes de pombo no colarinho? A língua entre os dentes é apenas uma questão de transe e mordida. A lucidez é epiléptica, catatônica e apocalíptica. Às vezes, ousamos calçar sapatos para que as asas não fujam dos ombros.

Cana da Nazaré

Costumava, a séculos atrás, empilhar livros na palma direita e na esquerda. Com os olhos fechados, calculava o peso e a mão que mais pesasse seria escolhida como leitura da semana. Depois que virei pescador, em alto mar, faço o mesmo com um punhado de peixes em cada palma de mão. Certa manhã, chovia bem fininho, abri os olhos e dançava na palma da mão direita um cavalo-marinho. Não pesava coisinha de nada, mas era um cavalo-marinho grávido que trazia no coração sonhos de corais. Uma arraia-manta que pesava na palma da minha outra mão lancei fora. O meu irmão, admirando tal loucura, apenas sorria e sussurrava "irmão louco... meu irmão louco..."  As ondas - obra do corpo cheio de tentáculos de um aterrorizante monstro a debater-se e a mergulhar - afundaram nosso barco. Seríamos náufragos e possíveis comida do monstro, se não nos socorresse o cavalo-marinho. Segurando-lhe a cauda, e puxando meu irmão pelo punho, segui o meu mágico cavalo-marinho que nos conduziu a uma ilha encantada. Casei-me por lá com uma nativa que havia enviado sob feitiço de matrimônio esse cavalo-marinho. O meu irmão retornou pro Ocidente. E canta essa história em mesas de bares de pescador. Depois do terceiro trago, prestam mais atenção e depois de duas garrafas de pinga os pescadores da minha aldeia juram que estavam ao meu lado e que ainda têm na lembrança o meu doce sorriso de felicidade, no altar, segurando a mão da filha do Grã-Sacerdote. Só me falta ter coragem e aprender a surfar. A menina adora ondas gigantes de Nazaré. 

Platônico

De tantos amores à distância, em companhia de filósofos, dentro de cavernas a comer pão sírio e beber vinho de alto teor alcoólico, aprendi algumas palavras devastadoras à alma feminina. De todas que ouvi da boca de hedonistas, a mais infeliz é "adúltera." A mulher não suporta ser chamada de adúltera. Morre. Enlouquece. Adúltera, aos seus ouvidos, é como cravar um punhal de ponta envenenada em seu coração. Até suporta a mulher ser reconhecida como vadia e cachorra - algumas, por sinal, cantam felizes em bailes funk, na cozinha ou na cama. Adúltera não, por misericórdia. Adúltera lembra aquela passagem bíblica em que um messias desencoraja e envergonha um bando de homens brutos e tolos - já munidos de pedras nas mãos ansiosos a apedrejar uma mulher. Adúltera é além da traição. Adúltera é seduzir a própria serpente e fazê-la experimentar da própria maçã. Adúltera é o reconhecimento de toda a força carnal e religiosa de que uma mulher dispõe ao seu deleite e tragédia. O homem adúltero é um canalha. Apenas um canalha. Nunca atingirá a elevação espiritual da mulher. Um canalha é um canalha. Enquanto a mulher adúltera, quase sempre, é uma alma superior e bela. Amo as mulheres adúlteras. E lavo os seus pés e beijo o seu ventre e faço-lhes um penteado novo.

sábado, 7 de novembro de 2015

Ciclope

O cego que é puro ama as multidões e prepara o banquete. O cego que é puro, de vez em quando, envolve-se entre as vozes e os perfumes. Perde a noção. Dirige seu barco ao precipício. A pureza não é falta de sentidos, mas acúmulo e vazão de sentidos apurados. O cego que é puro mergulha. Admira-se com o fundo do poço. Embriaga-se da própria falta de ar. Apaixona-se pelos calafrios. Sagrada vertigem quando a porta fecha-se diante dos seus olhos. Ninguém por perto. Ninguém distante. O cego que é puro lembra-se das ovelhas a roubar da caverna. Alimentá-las sob as estrelas. O vento da planície. A brisa que parte do meio do mar. O cego que é puro pesca sardinhas. Faz fogueiras. Bebe vinho. Ninguém a lembrar. Ninguém que se lembre dos seus olhos. A pureza nasce de tal calidez que o cego que é puro não controla as mãos. Ainda tem dentro do alforje peles das últimas ovelhas. Estica sobre a perna a pele de uma ovelha. Rasga com os dentes algumas palavras. Diria que é um poema, mas o cego que é puro não enxerga bem. E levanta a pele da ovelha contra o brilho das estrelas. É, parece um poema. 

Teu silêncio

A ação em contemplar da janela uma árvore é libertadora. Os meus braços acordaram longos para derrubar os antigos vícios. Caem da mesa cartas, poemas e fotografias. Por que, baby, tantos segredos e arrebatamentos, se um dia acordamos bem? Quase conscientes de que a vida é cruel e mansa qual um bisão em época de florescimento dos cabelos das cerejeiras. Um bisão apaixonado é louco. Um homem é menos. As cerejeiras balançam os cabelos e caem meus vícios da mesa: poemas, cartas, fotografias e um cálice de absinto. Acordei bem. Quase liberto das tragédias que me ofereceram com o meu nascimento. Não falarei das minhas cicatrizes. Os meus cílios que por vontade própria voaram dos olhos à palma da minha mão trouxeram-me mais sorte. Coisa boa é saber [sem palavras] que existe amor. Um bisão apaixonado é cruel e manso como a vida. E sou um homem loucamente apaixonado pela vida. De onde, baby, você imagina que surge queimando minhas artérias a doce melancolia?

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

2,5 em química

Incrível como o Universo mudou. No meu tempo, não havia tantas estrelas. Cada poeta vivia em uma. Abraçado até o fim da vida a essa estrela de nascença. Hoje, pelo que vejo, são tantas estrelas e poetas que me emociono. Tanta gozação e luxo. Ninguém corta pulsos. Ou mete o rosto em um saco plástico e abre a torneirinha do botijão de gás. Hoje em dia, escolhe-se quantas estrelas desejar. Mentir é um bom caminho. Ninguém é mais aleijado. Passos endireitados e altivos. Sorrisos de felicidade. Na base do meu cérebro, meu amor, não existe estrela. Só um caroço. E explodirá de cansaço. O ermitão cansado é uma piada. Um fim trágico. O céu não me diz o que fazer [tantas estrelas assim, meu amor, a quem confiar minha melancolia?] Não sairei para beber nem beberei em casa debaixo da mesa. Por favor, nem me lembre de que em certas noites cuidei de rosas. Troquei a água do jarro de vidro. Joguei ao lixo as hastes secas e mais espinhosas. Se hoje é sábado? Dizem os poetas que é a melhor noite para enlouquecer. As bruxas vestem cinta-liga.

sábado, 31 de outubro de 2015

Quadro de família

Quando todas as pessoas da fotografia morrerem, retirem o quadro. Passem duas ou três mãos de cal ocultando a marca vazia do retângulo da parede. Apaguem a lâmpada da sala e fechem a porta. Não entreguem as chaves nas mãos de desconhecidos. As lembranças da minha família são sagradas. E todos mortos, inclusive eu, seremos mais vistosos como fantasmas de um século atrás. Guarde-nos na boa memória de risos e de lágrimas, meu filho. E convide os filhos dos seus filhos para um último adeus.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Anjo da guarda de jazigos

Não corri para abraçar tuas pernas e impedir a tua partida. Os meus irmãos mais velhos, aos prantos, tentavam te arrastar de volta pra casa. Da janela, não movi um músculo. Duas lágrimas queimaram meu rosto. Tenho poucas lembranças de ti. As que sobraram, minhas mãos gastaram todas a fantasiar e embelezar sobre tua cabeça e teu espírito o heroísmo de D. Quixote. A verdade que tu construías túmulos com um pano em volta da cabeça e depois do trabalho bebias uma pinga no boteco da esquina da rua do cemitério. Sabemos que é perigoso mexer em cicatrizes mortas. A criança, depois de atingir um delicado nível de sofrimento, prefere o silêncio. Estamos quites e não devemos [nem a nós próprios nem ao outro] algum tipo de perdão. Somos muito parecidos. Temos os mesmos cabelos brancos. Os mesmos cabelos brancos, pai.

Psicografado

Meu fraco é sorrir. Daí, a alcunha "Risadinha". Gente que tem compulsão por bebida. Outros por sexo. Minha fraqueza é o riso frouxo. Certa vez, na missa de corpo presente do finado Joca, meu primo "grande Joca", uma abelha pousou no seu nariz. Entrou pela narina. Saiu. Chegou aos lábios. Forçou entrada no canto da boca. Jovita, sua esposa, enlouquecida  de tanta aflição, esbofeteou o rosto do defunto Joca. Caí na gargalhada e não existia alma viva, ou morta, que interrompesse a hilária febre do meu vício. A família, então, sob assembleia de notáveis, chegou ao seguinte veredicto: expulsão da minha pessoa a pontapés. Deolindo, mais três vaqueiros do Exu, solícitos e felizes, resolveram a pendenga. E me expulsaram com requinte de crueldade. Não me avexo com hematomas e fraturas, se sou agraciado com o riso frouxo. O meu bálsamo. O meu ópio de Charles Dickens. Nunca mais fui convidado a batizados, casamentos e atos fúnebres. Tornei-me um pária na minha cidade. Minha mãe deserdou-me. Meu vô baniu-me. Exu ficou mais triste. Conheci um monge andarilho. Segui seus passos. Alcancei a Iluminação. Hoje, vivo nas montanhas da Patagônia, rindo à toa pras lhamas de lá. Tranquilo. Sem ser apontado na rua como um louco e canalha.

domingo, 25 de outubro de 2015

Mística

Já joguei búzios, acredita? Antes de fechar os olhos, e abrir as portas do sobrenatural, mastigava uma flor de cacto do Atacama. Trouxe amados sumidos às suas apaixonadas mulheres saudosas e solitárias. Indiquei caminhos de luz. Quebrei encantos do mal. Cobrava o preço justo. Após cada consulta, ouvia um blues e fumava um charuto. Charuto bom, afinal só pedia aos meus clientes, como honorários dos orixás, charutos e uísques dos bons. Escrevia cartas também. Cobrava mais caro por esse tipo de transe. Muita força e emoção ouvir entes queridos em outro plano. Fiz minha aposentadoria aos 47 anos, acredita? Tenho umas terras no interior de Minas. Uns gados. Não tenho automóveis. Nunca aprendi a dirigir. Não, nunca mais joguei búzios. A intimidade com seres de outras dimensões tem o seu tempo certo de acabar. Uma noite, avisaram-me: ao jogar os búzios, estrelas do mar caíram no tapete vermelho e explodiram. Subiu uma fumaça, sabe. Nunca mais joguei búzios. Agora sou jornalista, ou melhor, consultor de gastronomia. Tenho receitas ótimas de comida africana e asiática. Vem, preparo pra você. Não me peça pra ler sua mão. Não acredito que as linhas das mãos mostrem o destino ou o passado. As linhas das mãos, no meu inocente julgamento, são apenas marcas do tempo em que éramos crianças na lavoura ou na boa vida de burguês. As minhas linhas não me confessam coisa alguma da minha solidão. Vem, preparo um prato especial da culinária africana ou asiática. Você escolhe. A propósito, gosto de vinhos e você vai adorar uma garrafa holandesa do século XVII. Presente que ganhei de uma alma antiga que precisou dos meus serviços. Não me peça pra ler suas mãos, por favor. 

Teu nome

O meu primeiro amor era leonina. Cabelos castanhos e olhos de mel. 17 anos de sedução e malandragem. Risinho no canto dos lábios e bochechas rosadas. A partir do nosso providencial encontro, acreditei em milagres. E como não poderia ser diferente, a nossa energia amorosa causou tanta inveja, ciúme, ódio. O seu perfume Eau de L'arc, ainda hoje, circula pelos vasos sanguíneos da minha alma. E todas as cartas tive de queimar ou enlouqueceria para sempre. Vivíamos grudados no batente da igreja, nos bancos da praça da Sé, nas almofadas e sofá da casa de minha tia. E os nossos inimigos faziam trincheiras nas calçadas e nos bosques. Forjavam flechas com pontas de veneno de rã. Escreviam e espalhavam missivas anônimas. Invocavam as forças demoníacas para nos separar. Perdi muito tempo com sonhos de eternidade. Na hora em que tinha de ser, a minha mestiça ofereceu-me as chaves dos seus segredos. Perdi muito tempo com palavras e sensações de perda. Escaparam as chaves dos meus olhos e caíram no bueiro onde um rato enorme [há muito de olho na minha pequena] roubou a minha felicidade. Enlouqueci para sempre. E o meu primeiro amor perdeu um seio. 

Banquete

Meus amores, joguem nas minhas mãos todos os tipos de louças e lavarei cada textura de prato e panela e feitios diversos de xícaras e talheres com o mesmo zelo e contemplação. Amo lavar os trens, sobretudo do almoço, e odeio engomar. As minhas camisas e calças do trabalho, os jeans e os bermudões, entrego para uma portuguesa fazer o serviço infernal. Da minha avó imagino o martírio das inúmeras e infindáveis peças de linho do meu avô. Nunca vi, na minha infância, minha vó franzir o cenho, morder os lábios, balbuciar azedumes ao engomar as vestes do seu amado. Se a portuguesa, a quem ofereço as dobras dos meus panos, não fosse comprometida e mãe de quatro filhos, até poderia considerá-la um belo partido. Casaria. Claro, uma única condição, se a matrona admitisse extrair aquele sinal acima do lábio. Um sinal exótico de pelos ruivos. Ou não, bem. Vai que sou apaixonado justamente pelo sinal da portuguesa. Um sinal de pelos ruivos tem o seu charme. Quase um convite lúbrico.

Orgias de um noviço

Não é lenda, baby. De fato, a leitura pode enlouquecer. Imagine uma dúbia alma entre a filosofia oriental e o mundo bukovskiano. Lembro que acordei em um sofá estranho abraçado aos meus livros, de botas e um cigarro apagado na boca e outro aceso nos dedos. Sob a luz natural do candeeiro - que é a lua cheia - cheguei à cidade e os bares todos abertos. Recomecei a misturar bebidas com xarope e só então as vagas imagens das noites anteriores iam se refletindo nos rostos dos boêmios, putas, traficantes. E não largava os meus livros. Deveria ter sido padre ou matador sniper, mas naquela noite ainda era um fraco errante de mente furada e coração viciante. Não desprezo o meu tempo insano. Não cuspo contra o vento. Entretanto, hoje em dia, longe desses lugares posso adivinhar com clareza a minha morte. O meu espírito junta no alforje as minhas últimas memórias e não me arrependo do vazio. A pureza não cai do céu, meu amor. O sórdido caminha com desenvoltura, após lembrar-se dos abismos. Nem sequer uma cicatriz em carne viva. Parece-me que passei incólume pelo inferno. Só que não. Morderam-me a ponta da língua. Lembra que lhe falei do seu fantasma a me visitar, baby?

Noivado

Prometo-lhe orgasmos múltiplos e uma rosa branca todas as manhãs. Juro ouvi-la sobre o seu trabalho, as suas amigas, o vestido novo, o best seller adolescente e a antiga novela das oito. Em dias estressantes, farei massagens nos seus pés, costas e ombros. Depilarei as suas pernas. E se for seu sonho, depilarei o seu jardim de mel. Caso você goste de andar de bicicleta, darei voltas contigo na pracinha e, à noite, se você se embebedar com aquele vinho de jabuticaba, limparei seu vômito, tirarei seus sapatos e deitarei o seu corpo sobre lençóis novos e travesseiros perfumados. Minha palavra que nunca a deixarei sozinha naqueles dias de pura sensibilidade da sua alma feminina [em que você imagina o fim do mundo e que é a mais infeliz das mulheres]. Se algum amigo ligar não atenderei. Se o número for privado, permitirei que você vasculhe a agenda do meu celular. Palavra. Só lhe peço duas coisas: não me faça perguntas sobre minha infância no orfanato e não ria do meu nariz.

sábado, 24 de outubro de 2015

Pai & filho

Comprei mil batatinhas, amendoins e um garrafão de três litros de guaraná. Eu não, meu filho. Grana dele. Não comprei nem uma latinha. A minha lucidez é necessária em sua presença. O rapaz argumenta situações delicadas e complexas sobre as quais ou estou lúcido ou perco a delícia do papo cabeça. Meu filho tem quatorze anos e ama a tecnologia do militarismo de ponta. Não gosta de poesia. Mas inclina-se, agora, a ler os meus escritos. Uma vez que lhe confessei que não escrevo mais versinhos de moça tísica. A poesia é pura, esclareço-lhe. O poeta é um errante. E precisa o poeta ter coragem. Não tive. E entupo-me de batatinhas e amendoins. O rapaz gargalha e pergunta qual dos últimos escritos que gostei. "A maçã" E completo: "Trata-se do desejo de uma mulher pela imortalidade da sua bunda." O carinha espanta-se. Fita-me em silêncio. Creio que talvez o rapaz leia. Melhor que leia "A maçã" primeiro, depois poderá ler o Corvo.

Lírica

Apaixonar-se por uma violinista é viver chorando pelos cantos da casa. Depois que os passarinhos sumiram da minha janela, a ideia que tive para permanecer cálido com os olhos febris foi apaixonar-me por uma violinista. Bárbara não costuma conversar. Sorri muito, entretanto. E passa o tempo da eternidade afiando e modelando as unhas no seu violino. E choro. Sobretudo após o almoço quando Bárbara escolhe a mais doce melodia para que o seu amado repouse. Quem há de sentir saudade de passarinhos, se Bárbara viaja em gestos gentis tocando o seu instrumento? Apaixonar-me por uma violinista salvou a minha alma. Já andava triste da minha vida com tanta melancolia, apatia e fúria. Bárbara adivinha meu silêncio e entorpece o meu coração com nuvens de fumaças sopradas de uma distante chaminé.

Bordados

Mulheres têm medo de barata. Normalmente, as de sangue mais frio e acostumadas a pisar no coração do poeta. Merece. O poeta merece o salto alto agulha trespassado em seu coração. O poeta que não merecesse viveria traficando armas, papoulas e figurinhas raras de álbum de infância. Graças que não sou mais poeta. Cansei de escrever poemas e da vaidade ridícula do invisível. Se o antigo poeta que vestia minha carne e calçava os meus ossos ousar invadir a minha alma - explode. Não sou tolo, baby, vivo protegido por minas terrestre e naval. Chego a ouvir gritos de pavor e voam artérias por sobre a minha cabeça de santo. Sou um santo. No mínimo, o meu nome é de um santo. O mais jovem não mártir canonizado pela igreja católica. Puxa, baby, você não imagina como esse meu nome de santo ajudou-me [facilitou as coisas] quando passei uma temporada no inferno. Notou minha ausência? Poetas têm medo das mulheres que não têm medo de barata. Que coisa, hein? 

O poder do delírio

"Pecaminoso, carnal, distraído, mas com o coração cheio de amor." A frase que usei para flertar uma dama. "Fútil." Respondeu-me a senhora com o dedo entre as páginas 19 e 20 de Stendhal. "Desculpe, mas não sou fútil." Retruquei. A dama suspendeu os óculos sem tocá-los. "Não me referi a você, estranho. Digo que esse cara que escreveu esse livro é um fútil." Espantei-me. "Stendhal?!" A moça levantou-se. Encaixou o livro entre outros na estante da biblioteca da UFSC e perguntou-me séria. "Vamos cair fora desse lugar e fazer sexo lá em casa?" "Libidinosa e maluquinha..." Sorri. Assim que chegamos, a dama acendeu um cachimbo de ópio e me confessou que era sacerdotisa. "Não ligo." Beijava-lhe as coxas. "Tem certeza que não se importa?" Sussurrava a dama. "Sim, meu doce... claro..." As suas pernas mudaram de forma. E o que eram pés passaram a nadadeiras. E os braços asas. Uma entidade naquela hora era muito azar. A mulher era sacerdotisa. Vesti-me e voltei pra biblioteca da UFSC. É batata sempre encontrarmos por lá jovens deslumbrantes. Sacerdotisas e entidades também.

A maçã

O tesouro de Jackeline era a sua bunda. Uma dádiva da natureza. Descrevê-la? Impossível, meu filho. Nem mesmo os artistas do submundo parisiense conseguiriam uma imagem visível e palpável daquele monumento de bunda. Uma coisa fabulosa, mágica, estonteante. E Jacke, desde adolescente, fazia um imenso sucesso no colégio, shopping, pracinha e até na missa quando Jacke caminhava na fila da comunhão. Era um pecado a bunda de Jacke. Os niños morriam de amor pela bunda de Jacke e venderiam serenos suas almas. As amigas de Jacke e as inimigas de Jacke viviam com edema de glote de tanto ciúme. Jacke não teve filhos para não desfigurar a sua bunda. Tinha medo que virasse geleia o seu tesouro. E muitas portas abriram-se para Jacke, ou melhor, para o seu encanto de bunda. Aos cinquenta e três anos Jacke cuida muito bem do seu prêmio divino. Malha, faz dieta especial, não passa muito tempo sentada [que é pra não achatar a forma celestial da sua bunda], caminha na pracinha e adora quando os cavalheiros inclinam a cabeça e levantam a cartola em respeito à sua bunda e muito mais adora quando os peões das obras gritam dos andaimes elogios descarados em honra da sua extraordinária bunda. Jacke não tem namorado. Só fãs. Um dia escrevi um poema pra Jacke, digo, pra sua bunda e recebi uma mensagem de volta. "Obrigada, poeta, "ela" adorou..." A bunda de Jacke é uma entidade à parte. E se "ela" - a bunda - gostou do poema que escrevi, sinto-me lisonjeado. Não interessa o que Jacke pensa. As suas ideias. Seu espírito. Doce e carnal é a sua bunda arrebitadinha. Quando Jacke completar a idade cruel do corpo humano em que tudo despenca, tenho medo que Jacke tente o suicídio. Motivo pelo qual, nesses últimos anos, vivo trancado no meu sótão entre fórmulas da Renascença tentando uma poção secreta para oferecer a Jacke. Seria uma heresia um dia a bunda de Jacke perdesse o seu feitiço. Já consegui algum êxito em agrupar células sintéticas sem enfraquecer a longevidade da natureza espontânea. Creio que a bunda de Jacke [sob o deleite dos pagãos] logo será uma bunda imortal.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Carruagem

No final do século XIX, fui cocheiro. Não existia toda essa intimidade com os passageiros de que alguns taxistas se vangloriam. O meu lugar era fora da cabine. Sentado no alto, lá fora, recebendo no rosto geada, chuva, poeira, fuligem, sol e sereno. E pagavam míseras moedas. Ninguém queria saber das minhas mazelas. Da sopa rala. Da minha esposa tísica. Do meu filho que tinha epilepsia e sofria do boato que circulava pela vila de que era um fruto maligno o meu garoto. Não justifico os meus crimes. Mas enforcar as damas e esfaquear os senhores, em noites escolhidas por acaso, causava-me um certo prazer imaginando que as minhas vítimas não jogariam mais pro alto as míseras moedas como se eu fosse um mendigo. Um maldito bêbado. Estrangulei muitos pescoços de damas indefesas. Pescoços alvos com medalhas de santos. E sujei as mãos de sangue do baço e fígado dos senhores entre 60 e 70 anos. No final do século XIX, sobrevivi conduzindo [no meu veículo puxado a cavalos] mulheres elegantes e homens abastados. E muitos eu matei. E ao chegar em casa era um cocheiro igual a muitos. Um inútil fantasma.

O maravilhoso mundo dos gatos

O que pensam os bichanos? Descobri que os mais novos só pensam em brincar. Os mais velhos só pensam em sexo. E brincam nos telhados e nos becos. O maravilhoso mundo dos gatos é uma brincadeira. Só não entendo por que vejo tantos deles mortos: encostados ao meio-fio, canteiros e no meio das ruas. Para onde vai aquela contemplação? E todo aquele sexo? Descobri que os mais novos quando morrem acabam espíritos que cuidam dos poetas tristes e os mais velhos cuidam dos mais tristes. Os poetas vivem por graça dos gatos que morrem na juventude e na velhice. A história de passarinhos, poeta com alma de passarinhos, é uma lenda, meu amor. Os poetas são gatos tristes. Debaixo da mesa ou largados pelas calçadas em noites frias. Pelo menos, quando fui poeta, era triste. Contudo, há outros poetas que são ratos, rinocerontes, pardais, lagartas-de-fogo, elefantes e tartarugas.

Jocoso

As minhas amigas [em tom de galhofa] perguntam-me se não tenho medo que roubem a tua aliança de aço cirúrgico. Explico-lhes que anteriormente usava uma de latão, em seguida, alumínio, depois bronze e que, na verdade, espero a mulher que valha uma de ouro. Algumas amigas entendem e requebram-se em sorrisos e simpatia. As mais radicais [daí, pouco espirituosas] passam a me odiar ferozmente e dizem que sou presunçoso e machista. Veja só, minha pequena, como este jovem senhor de óculos novos e sem cavanhaque é incompreendido. Nem imaginam, quando volto pra casa, o mais gentil dos homens com a mulher que senta ao meu lado. Agora à tarde, por exemplo, ofereci a uma menina uma caixinha de caramelos que um vendedor amputado vendia com a voz de locutor de corrida de cavalos. Só depois, lembrei que não é de bom-tom um lobo mau oferecer doces às menininhas. Quase morri do coração. Sou tímido demais pra essas aventuras pueris e delicadas.

Sexta

Curioso, baby, ultimamente os meus lençóis e travesseiros tão perfumados. Embora não acredite em eventos sobrenaturais que o coração não explique, inclino-me a suspeitar que o seu fantasma [mais vaidoso que você enquanto era viva] visita-me todas as noites. E acordo feliz atordoado entre jasmins, almíscar e patchouli. Feliz não é bem a palavra. Acordo com um riso no canto dos lábios. Você sempre me disse que este meu sorriso é maldoso, cínico e superior. A felicidade talvez seja assim, baby. Perversa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Homérico

Quando o circo pega fogo é um equívoco imaginar que o palhaço foge. Quando o circo pega fogo o palhaço realiza os seus sonhos: entra na jaula dos leões, gira de moto no globo da morte, lança facas contra o corpo da bailarina, equilibra-se na corda bamba, cruza a plateia feito uma bala de canhão, veste a cartola de dono do circo e anuncia o último e aguardado número. Quando o circo pega fogo o palhaço é o homem mais feliz do mundo. Ninguém imagina como o palhaço é feliz quando o circo pega fogo. Chega a apaixonar-se e dorme acompanhado das meninas do cabaré. As francesinhas de cílios postiços e sinais com lápis delineador acima dos lábios, quando o circo pega fogo o palhaço engravida todas elas. Sujeito de sorte. Só lhe falta coragem para atear fogo enquanto há tempo e vida.

Charme

Você não acredita, nunca mais te vi, mas continuo com a aliança de aço cirúrgico que você me deu de presente. E vivo mostrando às minhas amigas, às conhecidas e às desconhecidas o dedo vizinho ao mindinho da minha mão direita. Claro que é sedução. Não sei jogar pôquer, então, tento o meu silêncio deixando à mostra a aliança de aço cirúrgico que você me deu de presente naquele final de tarde em que bebi todas. O dedo vizinho ao mindinho da mão direita o que significa mesmo, baby? A propósito, as mulheres sacam o jogo e sorriem da minha ansiedade em mostrar tua aliança de aço cirúrgico. Algumas até supõem a minha solidão. Outras reconhecem que não sou um homem confiável. E sorriem mais sapecas e felizes.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lentes progressivas

Os óculos chegaram, meu bem. Custaram-me os olhos da cara, literalmente. E escrevo sem foco. Baixando a cabeça, girando o globo ocular, buscando uma vista agradável ao espírito que move minhas mãos. Escrevo ainda incerto das palavras. Da estrutura física das palavras. Estiro o braço e a minha mão não toca nos seus cabelos. Claro que não, você nunca entendeu a minha poesia e os seus cabelos voavam de medo. Agora que não escrevo poesia, até que os seus cabelos poderiam caminhar ao meu encontro. Deixar de tanta frescura. No dia em que eu cheirar os seus cabelos morrerei feliz. Parece-me que a dor de cabeça era mesmo por falta de grau nos meus olhos apaixonados. Era cego o poeta.

Aurora

Iniciar o dia admirando as coxas desnudas de uma fêmea é um belíssimo presságio. Nem sempre sou agraciado com tal dádiva. O desapontamento, entretanto, foram os míseros minutos em que o carro de passeio [da fêmea em questão] parou abaixo da janela do meu ônibus. Nem sequer deu tempo do meu coração confabular com as artérias carótidas do sangue divino o despertar da minha alma. Em todo caso, levo esse encanto à monotonia da manhã que segue. E juro [depois de bater o ponto] não cometer uma chacina.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Acidente

Não vi a morte de perto. Mas, ontem, rodopiou na minha frente um fiat depois de haver batido na frente do meu ônibus. Sempre pego Papicu-Parangaba quando retorno do meu trabalho. Uma senhora que estava ao meu lado, na cadeira alta, próxima ao motorista, entrou em pânico. Abraçou-me. Pediu-me o telefone. Confessou-me, ainda tresloucada, tremendo muito, que foi Deus que me enviou como anjo. Perguntei por que anjo e o que fiz. A senhora, elegante, apesar de louca, jurou-me que se eu não estivesse ao lado dela provavelmente nunca teria tido coragem pra olhar os meus olhos e perceber que sou um filho-da-mãe solitário e cheio de tristeza no coração e na alma. Eu gargalhei. E fugi. Muitos passageiros ainda ficaram na calçada esperando outro ônibus. Eu fui caminhando até em casa. Uns bons e longos quarteirões. Não tenho barriga. Mas fico muito tempo sentado diante do computador na sala de Epidemiologia e almoço besteira. Já pensei em levar marmita. Não tenho quem a prepare e entregue nas minhas mãos com aquele ar de ternura de uma nutricionista apaixonada. Não vi a morte de perto. Só uma senhora carente que lia um livro e quase se lançou contra o para-brisa. Em outra situação, convidava-a pra beber um café. Se a dama quisesse uma bebida, teria de pagar o meu drink e ouvir toda a minha loucura.

Um sonho de verão

O meu amor liga pra uma clínica. "Bom dia, qual o endereço da clínica?" Do outro lado, ouve-se a voz de uma recepcionista entre triste e distraída. "Que clínica, senhora?" O meu amor não entende. "Ué, aí não é uma clínica?" A recepcionista acorda. "Ahhh.... desculpe, senhora... é que ontem o meu namorado... sabe, eu soube tudo do canalha com minha prima... " O meu amor consola a recepcionista. "Puxa, menina, sei bem como é... sabe, também tenho primas tipo cachorras gostosonas..." Sorri e olha pra mim o meu amor. Uma mulher não esquece.