segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Banjos & Gaitas

Dia 23 de setembro



Se Deus abriu uma porta, erga uma ponte. Afaste da sua mão a bebida e jogue fora o cigarro. Não perca tempo com distrações. Os cadáveres do passado, deixe-os no caminho. A luz é um ótimo jardineiro e sob ares de primavera enterrará os seus mortos além da sua alma. Desfrute-se da graça e aproveite a fé. Afaste da sua mão o cachimbo de crack e jogue ao mar o saquinho de cocaína. Não perca tempo com o inferno. Há uma íntima ligação de lucidez, ternura e fogo entre você e o seu Deus. Amem-se. Permita o milagre. Deus conversa com você e não é loucura o passarinho no galho de oiti cantando para o seu deleite. Você ofereceu a sua poesia em nome desse amor. Amem-se. Saiba que seu corpo andará trôpego sem a energia divina e o divino não terá tanta graça sem o sangue quente do seu coração. Você e o seu Deus merecem-se. E esse amor que floresce sempre existiu. Acredite, meu filho, desde o seu nascimento o seu Deus nascera e esperou por esse encontro.


Dia 24

O seu inferno é particular, mas as pessoas que o amam sofrem. Imagine, então, a dor sobre-humana do seu Deus. Esse Deus que conhece o seu caminho, as curvas e os abismos em que você se meteu. Impossível, meu filho, haver milagre se o pedinte não oferecer o coração. E você nessas tolices de prazer e altivez distanciou-se cínico da lucidez. Inevitável o seu inferno íntimo. As lágrimas. O vazio. O desejo de matar-se. Agora que a porta foi aberta, não se esqueça da ponte que somente você poderá erguer. Alegre-se com a felicidade dos felizes e não se sujeite ao trono da ridícula perspicácia de quem supõe inteligência e age como um incauto caçador diante da floresta escura. Arme-se de amor por todo o seu corpo. Arme-se de ternura em seus olhos e veja com sabedoria as marcas do seu rosto. Nasce um novo ser e a sua alma é a mesma. Apenas retorna à essência. E a sua essência é de luz, meu filho.


Dia 25

O seu inimigo com barba de anjo pode apertar a sua mão, abraçá-lo e até mesmo comover-se às lágrimas, insinuando-se um companheiro fiel de trincheiras. Atente-se, meu filho. Não se esqueça da prisão. Dos cães. Dos ratos. Da morte sobre os seus ombros. Lembre-se dos pequenos e grandes milagres (como se houvesse distinção). Ontem, você sonhou com um prato predileto que há muito não se deliciava. E veja só, alguém próximo fez a sua comida atendendo a um desejo que apenas você sonhou. Quem mais se rejubila são os seus guias de luz. Os filhos da lucidez. Os netos da ternura. O seu coração não apenas lhe pertence. O seu coração agora, meu filho, também pulsa por todos os homens e mulheres de boa graça. O seu coração é uma fogueira de Deus.


Dia 26

Cínico é o diabo que se maldiz do inferno. Tolo o homem de brando coração que retorna à casa do mal. Meu filho, que você perca todos os seus dentes, mas não volte a experimentar o manjar dos loucos. Aqueles festejos palacianos são armadilhas. Em seguida, ainda cambaleante de prazer, você trilhará o caminho da prisão. E lá, esperam-no os ratos e os cães. Atente-se, meu filho. A salvação não é um fim. Mas o passo a cada dia. O passo firme e lúdico. Não se dê ao trabalho de jogar fardos aos seus ombros. Não queira que as suas costas doam até o seu último suspiro. A insensatez é uma senhora que não dorme e vaga pela casa em trajes sensuais. Você é uma criança e haverá riscos em suas brincadeiras. Brinque. Festeje. Dance. Enlouqueça de amor e candura. Nunca seja amante da insensatez. As crianças são sábias - algumas. Outras são arrebatadas e não pesam os abismos a que se lançam. Assim, aos olhos do seu Deus, você é uma criança. Uma criança que floresce com as cicatrizes de quem conheceu de perto o inferno. O desejo de guerras e de ódio. Troque a água do jarro de rosas e aprecie da sua janela o sol batendo contra as calçadas. Os passarinhos não vieram hoje. Mas esta manhã de sábado brilha. Encante-se, meu filho. Desfrute-se da graça e que os passarinhos voem pelos céus que imaginarem. Você também tem o seu próprio céu. E não lhe faltam imaginação e doçura e coragem.


Dia 28

A esperança é a imortalidade do coração das almas corajosas. Seguir (não buscar) seguir o caminho da Verdade também pode levar à loucura, abismo e morte. Não há contos de fadas quando se trata do Bom Combate. E não há promessas de virtude, gratidão e tranquilidade. Todos os dias serão dias de lucidez ou não se dará um passo firme e divertido no caminho da Verdade. Lucidez não é aspereza. Não é um coração apático. Lucidez é festa. Deleite. Um sorriso farto no rosto. Um olhar cintilante. Uma voz doce e um perfume de almíscar nas mãos. Seguir (não buscar) seguir o caminho da Verdade é um ato contínuo de descobertas e festejos. Nunca mais será uma alma tola aquela que segue a esperança. E não haverá morte em um coração corajoso. Deslumbre-se, meu filho.


Dia 29

Muitas vezes o cansaço da noite de sombras entristece o caçador. E toda aquela energia de permanecer lúcido e feliz perde-se ao acordar. Já não existe uma atmosfera agradável de orgulho sereno. O que se passa quando você dorme, meu filho? Quantos mortos ainda carrega sobre os ombros? Os sonhos tramados pela mente sempre são os mesmos sonhos de perdição. Caminhar firme e doce não será um caminho verdadeiro se você usar métodos ilusórios.  Não, meu filho. Tudo isso é truque. O seu Deus não é um fantasma. Ao acordar, meu filho, não se dê por vencido nem se glorifique como um seguidor do próprio vazio. Viver sob um orgulho sereno é entender que dar voltas em torno de si mesmo também cansa o coração. Não há regras e livros sagrados em seu caminho. O tempo em que você consumiu suas drogas não findará. Enquanto você dorme a sua mente trama novos encontros com o abismo. Na verdade, são os encontros do passado. E você acorda fraco, apático, desiludido. Não há por que viver gargalhando e abraçando árvores e animais e crianças pelo caminho. Lucidez, sobretudo, é silêncio. Contemplação. Não espere de você um Deus mágico. Nem se atordoe enfraquecido de batalhas nas quais você nunca esteve presente. Acorde - e as lembranças dos mortos do passado esqueça no caminho. Beba o seu café. Troque a água das rosas. A felicidade é quase um escombro de um palácio. Silhueta antiga da infância em dias de luz e paz. E todas as manhãs você acordará entre dúvida e fé. A fé é mais justa ao louco que você foi um tempo atrás. Siga o seu caminho, meu filho. Festeje ausente da angústia. 


Dia 30

A mentira infernal é negar a própria natureza. Antes da fuga haverá de conhecer a sua natureza. A serpente não enxerga o mundo com os olhos de pássaro. O que rasteja e o que voa são verdadeiros em suas percepções. Triste e enfadonho é o bêbado sem rumo. Aquele que festeja arrebatado e no dia seguinte esmorece com peso de morte dentro do peito. O abismo é infinito a quem não ousa ouvir a Verdade. Existem facínoras felizes. Aqueles que escolheram lúcidos e ferozes o inferno e dançam sobre brasas alegrando-se da escolha. Angustiante é ver alguém que não se decide. Que prefere o caminho da dúvida. Atira e faz curativo no próprio pé. O caminho da dúvida é arriscado e lá convivem-se os hipócritas. Aquele que percebe a sua natureza e não segue é um demônio sofredor. Os outros demônios que tocam trombetas apenas convidam os incautos à morte eterna. Santo é o ser atento. Jovial. Aquele que encara os riscos da vida. Pássaro ou serpente, meu filho, qual a sua natureza? A natureza de quem beija os tornozelos dos anjos ou de quem se investe das asas e voa cruzando os seus próprios céus?


Dia 01 de outubro

O milagre é palpável. O perfume arrebata o coração. Muda-se o andado e mudam as calçadas e aos trejeitos mais simples do cotidiano paira um frescor silencioso. Angustiante é apreciar o invisível, embora o corpo sinta os novos ares de luz e mansidão. O que lhe falta, meu filho? O milagre da lucidez não o tornará um ser especial a que os animais da terra, dos céus e dos mares se curvarão. Você não terá folga nem trégua. O deleite de perceber a Luz não é para todos. Qual a sua natureza, meu filho? Cansou de atirar no pé e passar bálsamo? Cansou de dar voltas em torno do corpo cambaleante e da mente falastrona? Então, entregue-se a si mesmo e às maravilhas do seu Deus. Não há princípio nem fim. Você não chegará a um porto com navios de velas adornadas a fios de ouro. Os mares navegarão dentro de você em ondas eternas. Rejubilar-se e cair em uma desolação esmagadora não é sinal de esquizofrenia. Apenas perceba os mares. Você se pescará todos os dias. Em todas as horas. Aprecie as ondas e não tema o afogamento. As graças não afogam o coração eleito e febril. Nem se espante com as dádivas. A conspiração divina a favor dos seus sonhos parte do seu Deus que se eleva sobre o seu corpo e alma.


                                                     A resposta do filho:


Dia 5

Serenidade seria não te ouvir. E seguir humano pelo caminho. O meio diabólico de atingir um doente é tentando lançá-lo ao conhecimento de si mesmo. O livro dos mortos talvez cante o caminho da tua Luz. O meu caminho é insignificante, Pai. Descansa de mim a tua salvação.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quanto equívoco
Quando dizem
Que escrever
Poesia

Não é viver,
Meu deus.

Se soubessem
Do oxigênio volátil,
Das contrações, dos
Cabelos brancos, das
Ranhuras das unhas, dos
Calos nos dedos, das peles
E escamas deixadas pelo caminho.

Se soubessem
Da imensa vida
Trocada em silêncio.

Se soubessem da febre,
Inclusive da quase morte.

Se soubessem
Dos pedaços
De flores

E cristais de açúcar
Sobre os ombros
Das formigas.

Se soubessem.
Hoje é dia de jejum.
Já abri a janela
Da varanda

E separei uma
Almofadinha
Pra cada
Um.

Quero vê-los
(Meus passarinhos)
De pernas cruzadas.

Meditando, jejuando,
Orando, refletindo
Sobre suas vidas
De céus.

Alguns andam
Bicando lagartinhas
Com requinte de crueldade.

Olham-me meio sonsos
A esperar um sorriso
De volta.
A primeira coisa que faço
Ao acordar não é abrir os olhos.

Não abro os olhos.

Custa-me a vida
Tirar os seus cabelos
Do meu rosto, então vivo
De olhos fechados esperando
Que você acorde me dê bom dia
E levante-se louca pela casa descalça.

E eu amo os seus pés.
Adoro sujar as minhas bochechas
Dos seus pés empoeirados da manhã.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Acordei com o cheiro
De amendoim torrado
Da minha infância.

O papel, o som
Das cascas quebrando-se,
A pele nos meus dentes.

Pedim que me levava
Aos jogos na quadra
Bicentenária.

Cuidei do seu corpo
Desde que saiu do hospital
Às últimas flores no cemitério.


Você levanta os seus braços
No meio de uma manada
De cavalos selvagens

A milímetros do seu rosto as crinas suadas
O bafo forte os respingos de secreção do focinho
O cheiro de gramíneas, de arbustos, de terra e sal.

E você jura que
Não é um sonho.
Você é um deles.

Construo
Um castelo
E faz tempo.

Não é de areia.
Nem de cartas.

De poemas, meu amor.
E sempre que o vento
Bate páginas voam.

Como voam
Seus cabelos
No meu rosto.
Pegue a sua Bíblia
E os livros de culinária
Da sua falecida senhora
Há trezentos anos e guarde
Dentro da sua mala juntamente
Com suas gravatas de linho e lenços.

Despache pra Sibéria
O seu coração antigo.

Compre na C&A
Bermudões de surfista
E adquira um novo status
De gente boa, feliz e solícita.

Descubra um jeito
De assaltar o banco
(Da sua agência) e não
Roube as pensões dos seus.

Mas raspe até a última moeda
Dos empréstimos favorecidos
Aos empresários bonitões.

Não trema na hora.
Segure firme o revólver.
Não me decepcione, vovô.
Se ninguém levá-lo mais a sério
E a solidão armar aquela rede
Cruzando as duas salas

Faça pelo menos exercícios
Pra ser um velhinho triste
Mas saudável.

Você precisará ir à cozinha
Pra pegar o seu café
Mais vezes que
Imagina.

E o banheiro dos fundos
(Quarto de empregada)
Será o seu glorioso
Inferno.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A minha vó dizia que amor
Só temos um e se perdermos
A vida será apenas de lamúrias.

A minha vó assoprava a brasa
Do fogão a lenha, enquanto
Seu neto palitava o dente
Aberto (um girassol).

Perdi o meu aos dezenove quase vinte.
Desde então (como dizia minha vó
Naquele tempo de fogão a lenha
E dente furado) a minha vida
São lamúrias.

Lamúrias.

As luvas de muay thai do meu filho
Vivem jogadas sobre o cesto
De roupas sujas no quarto
Dos fundos.

Nunca treinei sério com meu filho.
Nunca trocamos socos respeitosos
Entre olhares focados e um riso feliz.

O meu filho também nunca escreveu um poema,
Exceto uma vez na infância quando tinha nove anos.

Não estamos quites.

Devo ao meu filho um round
De cinco minutos no tapete da sala.

Posso dobrar as palavras
Como quem dobra papel
Ou ferro corado do fogo.

Posso.

E isso não é um dom.
É muito trabalho no sótão.

Revirando coisas
Ocultas e frágeis.

Dom foi só
No princípio
Do afogamento.

O pescador entristece
Quando gripa (de cama)
E ouve as ondas do coração
Fazendo pouco da sua miséria.

O coração não é sempre amigo.
Às vezes, alia-se à felicidade alheia
De outro pescador em alto mar louco.

Pescando.

A gaivota e o albatroz
São inimigos íntimos
De longa data.

Desde a criação
Do universo,

Considerando
Que a arca
De Noé

É fábula,
Meu filho.

No princípio,
O criador ofereceu

Ao albatroz uma envergadura
De asas fenomenal, enquanto
À gaivota um bico especial pra
Pescar sardinhas em pleno voo.

A gaivota sentiu-se traída,
Uma vez que pra ela
O albatroz também
Tinha um bico
Privilegiado.

Nunca se entenderam.

O albatroz gargalha
E a gaivota sonha
Em enfiar-lhe

Um arpão
No peito.

Deus não liga.

Deus não se importa
Nem com os seus filhotes
Que são sua imagem e semelhança

Por que haveria de ter dor de cabeça
Com duas aves narcisísticas e solitárias?
Meu bem, por obra
Lírica sobrenatural
Todas as espinhas
Das minhas costas
Foram espremidas.

E nem sinais
Das unhas
Tuas.
Duas ou três
Vezes na vida
Todos os dias

Subo até as nuvens
Nestas velhas patas
De Sátiro e deixo rastros
Dos meus cascos de bode

Por onde nascem lírios
E joaninhas afogam-se
Dentro das poças
De açúcar.


Ainda bem que a vida tem sua mediocridade e brilhantismo.
Assim também a jornada poética de um jovem senhor.

Imagino se o poeta escrevesse
Somente épicos arrebatadores.

O que seria da nossa futilidade,
Apatia, mesmice e insignificância?

O equilíbrio de uma lesma
E de um passarinho
É a indiferença

Entre
Ambos.

Não sabem que morrerão.
Mas o poeta palpa a nuca.

Sente a semente
De mostarda.
A gente troca a lâmpada da cozinha
(A louça brilha) e a gente pensa
Que já alcançou o nirvana.

Sente-se feliz pelo toalete íntimo
Pra reencontrar o primeiro amor.

E o universo conspira
Joga baralho e bebe
Vinho de quinta.
A psique da poesia
É desproporcional ´
Ao corpo do poeta.

Daí o seu andado torto.
A curvatura delta do ombro.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Você já comeu um poema?
Digo, literalmente. Rasgar
A página com os dentes
E mastigar um poema.

Eu já fiz isso.

Rasguei com os dentes
A página de um livro
De um grande
Poeta.

E comi o poema,
Escolhido por acaso.

Quis dividir
E alcançar
Sua alma.

Você teria de gostar muito
Mas muito, muito mesmo
De poesia pra ficar
Comigo.

Não tenho outra voz.
Não tenho outros olhos.

Mas tenho um batalhão
De corações. Portanto,
A porta fica logo ali.

Cuidado com a mesinha de centro.
É de vidro e a quina é cortante.
Sinistro.

Por duas vezes
Escapei que cortasse
A artéria do meu joelho.

Uma flor do Jalapão
Embriagou-me e nem
Encostei os beiços no bico
Da taça, mas me embriagou.

E perdi o chão.
Os céus.

Se me levanto
Caminho zonzo
Tateando paredes
Até a cozinha e o café.

O coveiro de andado arrastado
Indolente, sem um pingo de vontade
Enquanto a família do defunto espera

A cova ser aberta e removidos
Os ossos do antigo hóspede.

"Esse coveiro não tem coração..."
Suspirava a mãe do rapaz
Que morreu de saudade.

Quantos anos?
21. Ah, criança.

A poesia é um oráculo generoso:
Ganha o poeta, ganha o leitor
E ganha a musa (minha
Xícara branca de café).

Passei do tempo
De flertar a paróquia.

Lembro-me de tudo
Quando tinha três anos.

A cor da parede
Da cozinha.

A cor das
Janelas.

Lembro-me de tudo.
Da comida. Do cheiro
Da papa e do arroz.

Lembro-me da queda.
Do iodo. Do furúnculo
No joelho.

Lembro-me do berço.
Do quarto nos fundos.
Da janela. Da altura.
Da chuva forte.

Lembro-me de tudo
Quando tinha três anos.

Lembro-me dos sonhos.
Das assombrações. Do
Fantasma de chapelão.

Lembro-me das mortes no grotão.
Da briga de facas. Do homem
Sangrando (da sua morte
Depois).

Lembro-me das flores.
Das toalhas engomadas.
Da tapioca e das nuvens.

Lembro-me de tudo
Quando tinha três anos.

Lembro-me das batidas do meu coração
Quando a minha prima chegava pra
Pegar-me nos braços.

Lembro-me dos sinais
Do seu pescoço.

Lembro-me
Do seu vestido.

Lembro-me
Do amor.
O meu coração é dançarino
De marca maior, mas
Só dança música
De tertúlia.

Lenta.

Blues é outra
Dor, baby.

Não gosto de trocar lâmpadas.
Requer do meu cérebro muita
Reflexão sobre a vida e morte.

Mas hoje fui um bom samaritano.
Passei a tarde trocando lâmpadas.

Algumas (nova geração)
Tão sensíveis que bastava
Pegar na ponta diziam"morri".

E não serviam mais.
(Joguei ao lixo três)

O que me faz jovem é a poesia:
Um contrassenso, se observo
Que esmago minhas costas
Com espumas de chumbo.

E caminho espigado
Com os ombros soltos.

Em uma situação conflitante
De pavor e dúvida o meu filho
Sussurra pra si mesmo: "Deus
Está comigo..." (o tablet dentro
Da mochila no ponto de ônibus)

Lembra a minha infância
Antes de pular os bancos da praça da Sé
A grama molhada de chuva "Deus está comigo..."

E lá ia eu
Voando.

Quando você abre uma porta
Outras tantas abrem-se juntas.

E serpentes e passarinhos
Você levará sobre seus ombros.

Não enlouqueça
A ponto de esquecer
O que são vozes ou beijos.

Há quem acorde cedo
Para plantar batatas.

Não durmo
Pra colher.

E todas as batatas
Que jogo ao cesto
Parecem maçãs.

O amor se estende
Além das mãos.

Não se acomoda
Em palavras.

A poesia é pouca
- E mínimo grão
O poeta - .

Encher uma garrafinha de água
(Viajando) e sujar toda a cozinha
O leve sorriso admite a inocência.

E resume
O amor.
Agosto é um mês de ventania no meu litoral.
O vento sopra a vela da jangada como aviso
Que vai subir a ladeira da rua até meu quarto.

A porta treme e largando-se
Dos pesos de academia

Bate contra a parede
E retorna lânguida
Depois do gozo.

Eu ergo a sobrancelha
(Escapa um riso) e deixo
Que o mundo faça música.

Corações quando quietos
De ternura e vastidão
Não se assustam.

Logo bem acordava (a despeito de lavar o rosto ou não)
O menino de cabelos lilases pulava da cama e saía pedindo
Beijos: "Beijo mãe, beijo pai, beijo vó..." E continuava a procissão
De pedinte de beijos descendo a ladeira do seu morro até à cidade:

"Beijo dona Maria, seu traficante cadê meu beijo?, beijo dono da botica,
Beijo seu prefeito, beijo primeira dama, beijo coveiro, beijo artistas de tv,
Beijo banqueiro, beijo mendigo, beijo palhaço, beijo mulher da janela, cadê
O meu beijo?" O menino de cabelos lilases era habilidoso em seu ofício de
Pedinte de beijos: não demorava muito tempo colhendo beijos no seu rosto.
Pontualmente antes que o sino badalasse 11h o menino subia o morro feliz.

Atravessava o jardim do quintal (mirtos e margaridas) e dentro do seu esconderijo - um alçapão que dava para um túnel - o menino ungia
Seu rosto com a lavanda da sua vó. Embolava nas mãos os beijos.

Fazia grandes e pequenas bolas de beijos.
Depois jogava em uma fornalha que subia
Uma fumaça da cor dos seus cabelos.

A cidade respirava
Os seus beijos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Acredito no amor, baby.
Por isso, todas as tardes
Corro pra debaixo da cama:

O último feixe de luz do dia doirando uma folha de oiti
É um espetáculo tão amoroso que lágrimas
São poucas as que tenho no coração.

Quem levará o meu corpo?
Quem vai segurar nas argolas?

Se estiver velhinho, não pesarei mais do que 50kg.
Se morrer agora, estou com (creio) razoáveis 74kg.

Fiz as contas de quantas andorinhas e pombos
Seriam necessários pra levar meu corpo até
O cemitério do Crato.

Só quero ir voando.
Mas dentro do caixão.

Imagino meu corpo dentro do caixão de mogno
Com argolas douradas e um bando de passarinhos.

Sei que largadão em uma rede cem por cento algodão
Seria bacana e pra turminha alada bem mais logístico.

Então, resolvido:
Uma rede artesanal cem por cento algodão
Sob um doce arrebol levado pelos bicos de andorinhas
E pombos até a Chapada do Araripe na cidade do Crato.

Bata aqui na minha mão.
Fechado, passarinhos.

(Se derem pra trás
O poeta capa, hein?)
Após o último poema escrito
Calcifica-se o osso do joelho
Colo a asa do ombro direito
(Do ombro esquerdo é inútil)
Levanto o nariz abro o olho
E nunca me acostumo com
O frio da escada que desço.

domingo, 16 de agosto de 2015

O coração torturado com um lenço úmido sobre o rosto
Bebe cada gota das lágrimas sugando a própria pele.

A agonia dos peixes
Sussurra versos.

Em noites de leveza (em que
Entendo não valer a pena
Fúria pelo efêmero)

Reúno todos os meus fantasmas
Sentados no chão e brincamos de
Espocar bolas de sabão nos braços.

Alguns correm pela casa
E as bolinhas de sabão
Espocam nas costas.

Por vezes, atendo
Às minhas vozes

E saio pela casa sem camisa
(Após meu banho) mostrando
Aos objetos os pingos
Dos meus ombros
Afogando-se no
Meu umbigo.

A minha xícara branca tem mais sorte
E bebe dos meus lábios a nossa saudade.

Parto do princípio
Que os meus amores
Nunca mentem, portanto

Não perco a cabeça, não me embriago,
Não estiro a mão sobre o balcão de um bar
E fico dando golpes de faca entre os vãos dos dedos.

Os meus versos mais loucos e desesperados
São aqueles que trato da minha natureza reflexiva
Quando uma fresta de luz atravessa a porta e ilumina a parede.

Sempre há uma silhueta no canto da parede
Que parece com o rosto da minha avó
Ao entardecer.

Vou tomar banho agora
E levo a sua imagem
(O seu sorriso)

Pra escrever no sabonete
Com a ponta da unha.

Um soldado quando atravessa
Os corpos estirados pelos campos
De batalha tem o mesmo olhar distante
Do espantalho com os braços abertos fincado
No meio de um campo de girassol sob uma nevasca.

Não podemos enxergar
Vitória ou felicidade
No que parte
O peito.

sábado, 15 de agosto de 2015

Se você já viu um coração
Dentro de um tubo de vidro
Desses de laboratório, então
Você entende por que a poesia

Precisa de palavras:
É em vão o silêncio.

Não me lembro por que simpatizei com São Bento.
Até usava em volta do meu pescoço uma medalha.

Depois que eu perdi passei a guardar
Na minha carteira (no compartimento
Das moedas) a sua oração poderosa.

Claro que posso trocar a oração poderosa
Por um ramo dos seus cílios, minha rainha.

São Bento entende
As paixões de monge.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Não prometo eternidade
Mas darei um jeito de convencer
Os deuses dos objetos e das aparições
Pra que não ousem apagar do seu lençol
O meu cheiro e do seu celular minhas digitais.

A minha voz será fácil de ouvir, baby:
Prenda sua respiração por um minuto.

O prazer da quase morte
Sou eu aos seus ouvidos.
Devo ser antipático (sou)
Mas se gosto de alguém
Mato roubo trafico minto.

Até dedico
Poemas.

Veja só,
Até dedico
Poemas, baby.

Não é um
Tesouro?

Antes que eu morra
Darei meus sinais
De nascença.

E você levará, baby,
Dentro da sua bolsa
As minhas cicatrizes.

Os regalos da vida
Não duram um segundo
Se a natureza de quem atravessa o rio
É sempre deixar partes nas duas margens.

Navio que se perde em alto mar
Sem nunca haver conhecido
Um naufrágio de perto.

Se a poesia não salva,
Pelo menos pega na mão
Do louco e leva-o ao paraíso.

Poeta que não anda torto
Nunca usou os sapatos
Dos passarinhos.

Não faz mal nem é pecado
Roubar um dia os sapatos
Dos passarinhos.

Ou ande trôpego
A seu modo
E desejo.

Mas não largue
A mão da poesia.

O meu amor foi dormir
Beijou meu rosto
E cheirou

Os
Meus
Cabelos.

Perguntou que shampoo
Eu usava, não menti
E disse que o dela.

O meu amor puxou meus cabelos
Puxou a minha orelha me deu
Um beliscão e um tapa.

Meu amor
Foi dormir
Com ódio.