Graças a deus sou um melancólico, incrédulo, perdido, canalha, egoísta,
Malvado, voluptuoso, decadente, dúbio, possessivo, desgraçado e tímido.
Mas escrevo
Versos.
E jogo tudo na conta
Da minha poesia.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Nem sempre você
Pode falar comigo.
Mandar-me um beijo.
Ler meu último poema.
Nem sempre.
Deve ser muito constrangedor
Para uma mulher de negócios
Ter o poeta lhe beijando os pés
Enquanto uma comitiva de chineses
Espera na antessala pra assinar
O contrato.
Quero
10%.
Não se esqueça da minha ideia
Sobre a bioenergia oceânica através
Das caudas dos cavalos-marinhos solitários.
Pode falar comigo.
Mandar-me um beijo.
Ler meu último poema.
Nem sempre.
Deve ser muito constrangedor
Para uma mulher de negócios
Ter o poeta lhe beijando os pés
Enquanto uma comitiva de chineses
Espera na antessala pra assinar
O contrato.
Quero
10%.
Não se esqueça da minha ideia
Sobre a bioenergia oceânica através
Das caudas dos cavalos-marinhos solitários.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Depois que o poeta conquista uma mulher
Só espera o dia de cortar o pulso desenhando cobrinhas
Com a lâmina enferrujada do seu primeiro barbeador. Creio
Que já desenhei algumas cobrinhas duas ou três vezes na vida.
E trocaram tão rápido de pele essas cobrinhas
Que sequer deu tempo de pingar sangue
Sobre as palavras.
Só espera o dia de cortar o pulso desenhando cobrinhas
Com a lâmina enferrujada do seu primeiro barbeador. Creio
Que já desenhei algumas cobrinhas duas ou três vezes na vida.
E trocaram tão rápido de pele essas cobrinhas
Que sequer deu tempo de pingar sangue
Sobre as palavras.
Li muita poesia na minha vida. Ah, li, baby.
Mal pisava os canteiros da praça de minha infância
Os passarinhos fugiam das árvores de oiti decepcionados
Com o poeta que passava o dia inteiro no banco de cimento
Devorando poesia.
Mas isso foi na mocidade.
Hoje em dia, só escrevo.
Escrevo sob demência uma tal demência
Que me impede a lucidez necessária
Para devotar os meus olhos
Às letrinhas de formiga.
Claro que ainda guardo
Um original de bar do Bukowski
E uma longa reflexão de Ezra Pound.
Sempre é bom
Um ou outro salmo
Nessas horas de silêncio.
Mal pisava os canteiros da praça de minha infância
Os passarinhos fugiam das árvores de oiti decepcionados
Com o poeta que passava o dia inteiro no banco de cimento
Devorando poesia.
Mas isso foi na mocidade.
Hoje em dia, só escrevo.
Escrevo sob demência uma tal demência
Que me impede a lucidez necessária
Para devotar os meus olhos
Às letrinhas de formiga.
Claro que ainda guardo
Um original de bar do Bukowski
E uma longa reflexão de Ezra Pound.
Sempre é bom
Um ou outro salmo
Nessas horas de silêncio.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Aquele ferro de engomar antigo
(Em que ardiam brasas dentro do ventre)
De bico pra cima olhando o telhado da sala de jantar.
A minha vó passando a língua na ponta do dedo
E encostando o dedo na planta do ferro
Pra ver se estava quente.
As camisas e calças de linho
Do meu avô - quase todas,
Ou melhor, todas
Brancas.
E eu meninote distraído
Atento, perdido em sonhos
Entre olhar amoroso a minha vó
E admirar aquele céu azul do quintal.
Erguendo-se através do muro
Os anjos da guarda e as cruzes
Dos jazigos do cemitério da cidade.
O meu coração
Já escrevia
Versos.
E a criança chorava
Sem saber por quê.
(Em que ardiam brasas dentro do ventre)
De bico pra cima olhando o telhado da sala de jantar.
A minha vó passando a língua na ponta do dedo
E encostando o dedo na planta do ferro
Pra ver se estava quente.
As camisas e calças de linho
Do meu avô - quase todas,
Ou melhor, todas
Brancas.
E eu meninote distraído
Atento, perdido em sonhos
Entre olhar amoroso a minha vó
E admirar aquele céu azul do quintal.
Erguendo-se através do muro
Os anjos da guarda e as cruzes
Dos jazigos do cemitério da cidade.
O meu coração
Já escrevia
Versos.
E a criança chorava
Sem saber por quê.
Com grana, muita grana
Você pode estalar os dedos
E algumas mulheres desmaiarem
Aos seus pés, mas aí é fingimento.
Desmaio gracioso, meu filho
É aquele em que uma mulher ao ler
Um poema suspira tão desordenadamente
Que perde o rumo de casa e procura um batom na bolsa.
Sem que você saiba.
(Nem as amigas dela)
Você pode estalar os dedos
E algumas mulheres desmaiarem
Aos seus pés, mas aí é fingimento.
Desmaio gracioso, meu filho
É aquele em que uma mulher ao ler
Um poema suspira tão desordenadamente
Que perde o rumo de casa e procura um batom na bolsa.
Sem que você saiba.
(Nem as amigas dela)
I
O meu santo
Não bateu
Com o
Teu.
Mas nem por isso
Detesto a tua poesia.
Afinal, poemas
Bem escritos
Pairam
Acima das mãos
Do canalha que
Escreveu.
*bilhete que um poeta francês recebeu de um poeta inglês.
II
O meu santo
Também não
Bateu com o teu.
E ainda que nossos santos
Não se odiassem, juro,
Meu caro, que atearia
Fogo ao teu escrito
Chegasse às
Minhas
Mãos.
*bilhete devolvido pelo poeta francês ao poeta inglês.
O meu santo
Não bateu
Com o
Teu.
Mas nem por isso
Detesto a tua poesia.
Afinal, poemas
Bem escritos
Pairam
Acima das mãos
Do canalha que
Escreveu.
*bilhete que um poeta francês recebeu de um poeta inglês.
II
O meu santo
Também não
Bateu com o teu.
E ainda que nossos santos
Não se odiassem, juro,
Meu caro, que atearia
Fogo ao teu escrito
Chegasse às
Minhas
Mãos.
*bilhete devolvido pelo poeta francês ao poeta inglês.
O que guardo de mais valioso
Dentro do baú antigo da minha vó
Não é um livrinho de alquimia de capa
Azul, letras doiradas e costurado com
Hastes de lírios. Não é não. Mas, sim,
O Semancol: um vidrinho frágil de botica
De cujo líquido pingo três gotinhas na língua.
E sumo.
Claro, com muita elegância.
Ainda enviando flores e beijos.
Dentro do baú antigo da minha vó
Não é um livrinho de alquimia de capa
Azul, letras doiradas e costurado com
Hastes de lírios. Não é não. Mas, sim,
O Semancol: um vidrinho frágil de botica
De cujo líquido pingo três gotinhas na língua.
E sumo.
Claro, com muita elegância.
Ainda enviando flores e beijos.
Só acredito na mulher
Que bate à minha porta
E pede-me emprestado
Um livro ou uma xícara
De açúcar ou café.
Machado de Assis
Tão lúgubre com a morte
Da sua amada. Se tivesse
Uma vizinha do segundo andar
A lhe oferecer um pratinho de salgados
Talvez se esqueceria do seu grande amor.
Pelo menos, durante o intervalo
De pegar um quitute e levá-lo à boca.
Que bate à minha porta
E pede-me emprestado
Um livro ou uma xícara
De açúcar ou café.
Machado de Assis
Tão lúgubre com a morte
Da sua amada. Se tivesse
Uma vizinha do segundo andar
A lhe oferecer um pratinho de salgados
Talvez se esqueceria do seu grande amor.
Pelo menos, durante o intervalo
De pegar um quitute e levá-lo à boca.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Não me chames de querido nem de fofo.
Nem beijes meu coração. Eu não mereço
Tamanha docilidade e imensa misericórdia.
Carrega logo o meu cadáver
Pelas montanhas do Curdistão
E sepulta a minha esperança órfã.
Finca uma bandeira
Sobre a minha cova.
Que dos céus os anjos se glorifiquem
E dos infernos os outros anjos
Façam o mesmo:
Toquem banjo.
Nem beijes meu coração. Eu não mereço
Tamanha docilidade e imensa misericórdia.
Carrega logo o meu cadáver
Pelas montanhas do Curdistão
E sepulta a minha esperança órfã.
Finca uma bandeira
Sobre a minha cova.
Que dos céus os anjos se glorifiquem
E dos infernos os outros anjos
Façam o mesmo:
Toquem banjo.
domingo, 9 de agosto de 2015
Você entrou no inferno porque quis.
A chave continua em suas mãos.
Se quiser sair, abra a porta.
O mal não terá força
Contra a sua vontade.
Agora se você adora confusão,
Barulho, balbúrdia, entorpecimento,
Avidez, loucura, contrição, desfalecimento.
Então a sua alma é infernal.
E não existe dor em seu peito.
Você ama o que deseja.
Assim que é, meu caro.
Sem sombras
De dúvida.
E sem
Ameaças.
A chave continua em suas mãos.
Se quiser sair, abra a porta.
O mal não terá força
Contra a sua vontade.
Agora se você adora confusão,
Barulho, balbúrdia, entorpecimento,
Avidez, loucura, contrição, desfalecimento.
Então a sua alma é infernal.
E não existe dor em seu peito.
Você ama o que deseja.
Assim que é, meu caro.
Sem sombras
De dúvida.
E sem
Ameaças.
Guardo um estojo de mãos.
Ninguém sabe. Um estojo.
Mãos miúdas. Enormes.
Todas com penas e canetas.
Quando me bate um cansaço.
Assobio e as mãos saem da gaveta.
Caminham até a mesa redonda de vidro.
Começam a escrever poemas sem piedade.
Penso em usar dessa técnica
Quando estiver morto na cova.
Já disse antes que escreveria versos
Mesmo morto. Mas agora digo
Com mais coerência.
Ninguém sabe. Um estojo.
Mãos miúdas. Enormes.
Todas com penas e canetas.
Quando me bate um cansaço.
Assobio e as mãos saem da gaveta.
Caminham até a mesa redonda de vidro.
Começam a escrever poemas sem piedade.
Penso em usar dessa técnica
Quando estiver morto na cova.
Já disse antes que escreveria versos
Mesmo morto. Mas agora digo
Com mais coerência.
O caçador talvez pense na primeira namorada
Depois de fazer o fogo, pegar a caça pelas orelhas
Grandes e enormes - um roedor amarelo das estepes.
Os seus assovios apesar da tempestade
(De pingos fortes e vento forte na floresta)
São ouvidos pelos pássaros tão silenciosos.
O caçador talvez pense no seu primeiro amor
Sangrando aquele animal peludo de orelhas grandes.
Mas é hora do último golpe abaixo do ventre do mamífero.
O sangue cai em uma bacia de alumínio.
Enche a bacia de alumínio. O caçador
Fecha a porta da varanda.
Entra no seu chalé ainda assoviando sem tirar
Por um minuto do coração o seu primeiro amor.
Que por sinal,
Usava tranças.
Depois de fazer o fogo, pegar a caça pelas orelhas
Grandes e enormes - um roedor amarelo das estepes.
Os seus assovios apesar da tempestade
(De pingos fortes e vento forte na floresta)
São ouvidos pelos pássaros tão silenciosos.
O caçador talvez pense no seu primeiro amor
Sangrando aquele animal peludo de orelhas grandes.
Mas é hora do último golpe abaixo do ventre do mamífero.
O sangue cai em uma bacia de alumínio.
Enche a bacia de alumínio. O caçador
Fecha a porta da varanda.
Entra no seu chalé ainda assoviando sem tirar
Por um minuto do coração o seu primeiro amor.
Que por sinal,
Usava tranças.
A poesia não me deu dinheiro. Fama. Isenção.
Só algumas mulheres (em sua maioria loucas).
Graças a deus.
Uma tatuagem de marinheiro
No braço com fuligem e sangue.
Não sinto nenhuma elevação humana.
Também não há ódio de morte por não
Acender velas a ídolos nem jogar moedas.
Claro que é o meu umbigo.
Haveria de ser, ora bolas.
(Um egoísmo básico
De xamã trôpego)
Coisa de dar três passos pra frente
E dois pra trás a cavar o próprio buraco.
Gargalho pela estúpida segurança
Em saber que os meus ossos
Já se encontram separados
Em uma gaveta.
Não devo razão ao outro
Mas devo ao coração
Coragem, filho.
A minha morte será limpa.
Só algumas mulheres (em sua maioria loucas).
Graças a deus.
Uma tatuagem de marinheiro
No braço com fuligem e sangue.
Não sinto nenhuma elevação humana.
Também não há ódio de morte por não
Acender velas a ídolos nem jogar moedas.
Claro que é o meu umbigo.
Haveria de ser, ora bolas.
(Um egoísmo básico
De xamã trôpego)
Coisa de dar três passos pra frente
E dois pra trás a cavar o próprio buraco.
Gargalho pela estúpida segurança
Em saber que os meus ossos
Já se encontram separados
Em uma gaveta.
Não devo razão ao outro
Mas devo ao coração
Coragem, filho.
A minha morte será limpa.
sábado, 8 de agosto de 2015
I
Uma pessoa basta
Que te traga na alma
(Duas ou mais embriagam)
E tu colherás botões de girassóis
Mendigando do vento as pegadas.
Depois de apontar o revólver
A tua sombra não se moverá.
II
Havemos de amar
A nossa natureza, ainda que
Aborreça nossas manhãs de sábado.
E no lugar do abraço,
Pensemos em saudade.
Uma pessoa basta
Que te traga na alma
(Duas ou mais embriagam)
E tu colherás botões de girassóis
Mendigando do vento as pegadas.
Depois de apontar o revólver
A tua sombra não se moverá.
II
Havemos de amar
A nossa natureza, ainda que
Aborreça nossas manhãs de sábado.
E no lugar do abraço,
Pensemos em saudade.
sábado, 1 de agosto de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Nunca fui bom em paquerar.
Na adolescência, ao tentar
Modificar os olhos pra
Seduzir uma ninfa
Fiquei três dias
Zarolho.
Ou quando ousava
Andar altivo com charme
As meninas gritavam da praça:
"Olha o espantalho sem cabeça!"
Resolvi, então, aos dezessete anos
Fazer alquimia e escrever versos
No sótão de William Blake.
Na adolescência, ao tentar
Modificar os olhos pra
Seduzir uma ninfa
Fiquei três dias
Zarolho.
Ou quando ousava
Andar altivo com charme
As meninas gritavam da praça:
"Olha o espantalho sem cabeça!"
Resolvi, então, aos dezessete anos
Fazer alquimia e escrever versos
No sótão de William Blake.
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