quinta-feira, 23 de julho de 2015

Nunca gostei de jogo de baralho.
O meu avô perdeu armazéns de rapadura
E a minha vó a conviver com aquele silêncio.

Fazia o fogo, mascava fumo,
Reflexiva que me dava dó.

Enquanto o meu avô
Na cadeira de balanço
Ainda vivia em um trono.

O reino da memória
É intocável (pro bem
Ou desgraça própria).

O amor é livre,
Até deixar
De sê-lo
Espanto.

João Cabral de Melo Neto
Nunca teve um bom ouvido.
(Comungo da sua dor de cabeça)

Voltaire tinha poucos dentes,
Mas uma peruca fabulosa.

E esta minha vontade
Nessa tarde de atear
Fogo aos meus livros
Já é um caso antigo.

Só que
Não.

Meus livros deixaram de existir um dia
Quando me viciei e troquei os Malditos,
Toda a Poesia e os Clássicos por baques.

Limpo, fiquei com a estante
De ferro, orgulhosa, fria.

Imagino a minha poesia quando perder o encanto sobre o teu coração
Nossas mãos não terão mais forças para catar o arroz e o feijão juntas.

Por isso, medroso que sou,
Todos os dias lanço-me
Às covas e mato
Um leão.

Quando ouvi seus passos subindo a escada, corri à despensa
Pra constatar se tudo ok os condimentos que você adora,
Mudei as roupas de cama e não me esqueci
De enfileirar os seus discos na frente.

Atendi à porta,
Beijei-lhe o rosto.

Em três minutos, tomei banho (não passei óleo nas pernas
Porque você detesta) vesti aquele vestido sem nada por dentro.

Após a segunda taça de vinho,
Os seus olhos armaram o sensual efeito
Que sempre deixa meu coração bambo e o corpo mole.

Você sorriu e sussurrou "Ah, querida..."
Com a mão no meu joelho. Pronto,
Já estava perdida.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

E se faltasse luz em sua casa, hein?
Onde se meteriam seus amigos fantasmas?

Não esqueça de quem pode estar perto agora.
Com quem possa conversar de fato sentindo
Cheiro, olhando olhos de verdade.

Trocar de lugar na mesa,
Acender uma vela
E fitar o outro
É lindo.

A poesia cansa
De ser escrita.


Tu me ofereceste outra vida,
Sangue novo e sexo febril.

Os teus problemas,
Apertos de coração
E todo tipo de loucura,
Meus desde criancinha.

O meu nariz, baby, não nasceu apenas
Pra cheirar flores, mas também
Aos ferrões das abelhas.

E olha só
Que narigão.

Percebes agora
Que sou nuvens?

Palpável em mim
Apenas as lágrimas.

(Em noites de cão
Fumaças e sexo)

Há tempos
Que não subo
Ao telhado de casa.

Sabe aquelas gatas prenhas?
Agora seus amores tocam banjo.

Um pirata amigo meu comparsa de nevoeiros e pilhagem
Sabedor da minha habilidade em descascar batatas
Convidou-me a fazer parte da sua nova tripulação
Sob anseios de loucos mares e tesouros.

Alertei-o que até poderia seguir em sua companhia,
Desde que me elevasse agora a um novo posto:
Aprendiz de chefe de cozinha.

Estou um craque
Em fazer feijão
E lavar louça.

Durante toda a minha vida fui um observador de passarinhos:
Atravessei estepes, escalei desfiladeiros, arrastei-me
Por matas exóticas. Cheguei a virar pinguim
Em noites no alto de geleiras.

No dia em que te vi sorrindo
Desisti de minhas andanças.

Passei a não sair de casa e da varanda (minha fronteira com o mundo)
Sentado na cadeira de vime vivo a observar encantado tua intimidade
Em tocar violino com o bico, bater asas e dar pulinhos com a chuva.

Tu és um passarinho
Muito raro e não sei
O nome da espécie
Que me batizou
O coração.

Decerto, nunca saberei
Da tua mágica natureza.

O maravilhoso espanto de um céu azul de brigadeiro sobre o deserto,
Os temores de um desfiladeiro, o jazz do banjo de um anjo, os botões
De girassóis levados pelo vento do oitavo mês, as esculturas de musgo:

O criador é um poeta, baby
E eu sou o seu filho caolho
E manco lépido pela estrada.

Você indicou-me o meu Orixá
Desde o primeiro olhar e só
Os búzios sabiam desse
Segredo.

Por esses dias, oxalá o meu filho pinte com seu riso e a sua loucura.
O skate encostado à porta da cozinha sempre que vou beber café
Olha-me meio ressentido com se o meu rapazinho tivesse
Dos últimos tombos se assustado e fugido.

O meu filho nunca fugiria
De um mágico pacto.

Arranhões, cortes e hematomas
São pra o Vinicius o que as nuvens
De chumbo são para o seu pai poeta.

Quanto mais temido o voo
(De skate ou de palavras)
Mais delicioso o risco.

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Um a um poema que tu escreves
Ligas o teu coração a outros
Corações e ao criador..."

Disse-me o ermitão
E seguiu o seu caminho
Ouvindo um blues das antigas.

Voltar ao poema
E tratá-lo em silêncio
Tentando ouvir o esquecido
Durante a avidez das palavras
Não é falta de elegância e tirania.

O poema, por vezes,
Precisa retornar à mesa
De cirurgia (não à força).

E belo é o salto
Das suas pernas
Quando recupera
O sangue das veias.

Não entendo,
Em nome do sagrado
Como conhecer o mundano?

Se deus explora os corações humanos,
Então sabe como é bom e sensual
A dúvida, o risco, a melancolia.

Ou não tem a mínima noção
Da vida cativante do corpo.

A rosa com seus espinhos quando picam
Ainda assim não é adorada a flor?

Fui picado várias vezes
E não deixei de amá-las.

Embora caminhasse com o vaso de vidro
Para mudar a água e jogar ao lixo
As hastes e pétalas murchas.

Incrível olhar-me no espelho
E vê-la sorrindo a tirar
O vestido.

Pego a xícara de café
E você levita acima
Do açúcar.

Enxáguo os meus bermudões
Seus cílios voam com as espumas.

Loucura boa
Esse ópio,
Anjo.

Não sou dono da palavra,
Mas faço com ela
O que imagino.

Tratando-se de escrever versos
Perco total a timidez e o equilíbrio.

Rodopio bêbado ao redor da fogueira com uma cigana.
Danço música lenta de tertúlia com o primeiro amor.

Todas as noites antes de dormir
Faço uma oração de amor eterno
Para ti e peço que os anjos líricos

Cuidem do teu coração do jeito que as sacerdotisas
Acenderam em meu peito a paixão por teu corpo.

E te cultuo em palavras
Com a volúpia dos deuses.

Os meus segredos
Nem mesmo a poesia
Tem força para revelar.

Digamos que seja discreta
Nessas ocasiões de silêncio.

Nunca vi coisa mais discreta
Do que a poesia nessas horas.

Força a poesia tem
Até pra fulminar
O coração.

Quem pagou o pato foi a mocinha do marketing
Que me ligou em uma hora de extrema sensibilidade.

Ouviu os meus lamentos, murmúrios,
Decadência de um solitário maldito,
Toda a melancolia de um poeta.

Ouviu-me até o último soluço,
Por fim: "Você mora em Fortaleza,
Amado? Olha que providência, amado!
Você conhece a Igreja Deus é Fogo? Amado, frequento.
Ah, amado, que bom se você frequentasse a minha Igreja..."
"A partir de agora, sou o mais devotado fiel da Igreja Deus é Fogo..."

Espero que a mocinha do marketing realize os devaneios
Que a sua voz de ninfa proporcionou a este poeta
Em uma tarde de fervorosa solidão.

Em nome da Igreja Deus é Fogo,
Amém.

Quando levanto com as pontas das unhas o bico do detergente
E faz aquele barulhinho lembro-me do falecido plástico bolha.

Eram parentes.

Cada poema que escrevo, baby
É uma forma sutil de marcar
Um encontro contigo.

Tu com aquele vestido azul de bolinhas
(Acima do joelho) da década de 60.

Sessão das seis.

Chego como estou agora
De bermudão marrom,
Camiseta preta
E tênis.

A propósito,
A menina da pipoca
É só minha prima. (Ufa)

O jardineiro quando entristece
Não grita com suas flores
Nem as tortura

Arrancando-lhes
Pétalas, botões.

O jardineiro em silêncio de tempestades
Tira suas botas, lança-as a um canto
E caminha em direção ao mar.

O jardineiro é um pescador de ouriços
Nessas horas de desgosto, tolice e dor.

Chegaram. Os irmãos Buddy são os melhores dos piores assassinos do meio- oeste. Do Missouri a Minnesota. Do Lowa a Ohio. Carregam nas costas o odor putrefato de centenas de cadáveres. Mataram homens maus os irmãos Buddy. Também mataram homens inocentes. A família Spencer foi destroçada. Queimaram a fazenda. Enforcaram os coitados e deixaram os corpos suspensos em cordas nas pistaches. Os corvos do demônio não paravam de bicar os corpos. Arrancaram os olhos da família Spencer. Família correta a família Spencer. O reverendo Still abençoou os corpos e fez um enterro decente. O que pôde ser feito. Os irmãos Buddy chegaram com as primeiras nuvens vermelhas do amanhecer. Estão no Saloon do mexicano. Aquele desgraçado que vende Whisky de comanche. Miserável aquele mexicano. Com certeza ofereceu o melhor Whisky pros irmãos Buddy. Não é besta o mexicano. Os irmãos Buddy já estão bêbados feito gambás. O xerife é louco. O xerife é meu irmão. Não vou socorrer o meu irmão xerife. Não sou louco. Os tiros são muitos. Os tiros foram muitos no corpo do meu irmão xerife e louco. Jogaram o corpo no lamaçal. Chove no meio-oeste. Os irmãos Buddy. Esses demônios. Subiram com as francesas. Tenho que tirar do lamaçal o corpo do meu irmão. Meu pobre irmão. Xerife morto. Muitas balas de colt 44. Os irmãos Buddy subiram para o quarto com as francesas. Tenho que ter certeza. Podem me ver próximo do corpo do meu pobre irmão. Atiram bem os irmão Buddy. Do meio do lamaçal sou um alvo fácil. Malditos. Malditos. Malditos irmãos Buddy. Os melhores dos piores assassinos do meio-oeste. Carregam agora mais um odor putrefato nas costas. Do meu irmão xerife. Malditos. Malditos irmãos Buddy. E esse Whisky horrivel!!!

Baby, não consigo
Ser mais o homem e poeta
Que antes viviam apartados.

Pois se caminho
Ou se viajo,

Você me indica
Com o pensamento
Minha direção em alto mar.

Nunca duvide
De que meu
Naufrágio

Será sempre justo
À medida do meu amor.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Não faltavam às crianças antes de dormirem
Um pãozinho seco e um café ralo com leite.

Comiam apressados, correndo com a boca,
Pois sabiam que depois do banquete haveria
Na sala de mesinha de centro e três cadeiras
Uma atmosfera de magia e sonhos delirantes.

O pai e a mãe sentavam-se
Enquanto os três pequenos
Cruzavam as pernas no chão.

As bocas abertas,
Pescoços às nuvens.

Começavam, então, a mãe e o pai a se revezar
Com um livro de capa e páginas amarelas
Contando fábulas deslumbrantes.

O fim era sempre a cama
Entre lágrimas e sorrisos.

"Precisamos inventar mais histórias
Os meninos já percebem algo estranho
Nas páginas que folheamos... são espertos..."

A mãe (sorrindo) guardou o livro
Em cuja capa era visível o título:

"Compêndio de Homeopatia"
Há mulheres de lábios tão bem feitos,
Tão bem feitos, tão bem feitos, que
Até o batom gela de encanto.

Em uma taça de cristal
E mão de luva branca
Paira um desenlace
De almas,

Como se o chão
Clamasse a queda
E o céu o desespero.

Murmuro pela cozinha
E só a minha xícara
Ouve meu café.

O que você quer comigo, Rebeca.
Diga o que você deseja com este poeta.
Nós nos conhecemos desde nossa infância
Quando calçava eu meu kichute e você seu conga
E apostávamos corrida na pracinha da rua do cemitério.

Você jogava bola com os meninos e jogava bem, Rebeca.
Mas somente em minha companhia sentava no patamar
Da Catedral e nos grudávamos de algodão-doce
Admirando os jatos de águas coloridas
Da fonte.

Você passou uma eternidade fora de casa, Rebeca.
Tão distante dos meus braços que eles perderam
A força contumaz de antigamente.

Então, de uma hora pra outra, dá-lhe a doida e você retorna
Sem um telefonema, inbox, email, bilhete preso na pata de pombo.

Não posso, Rebeca
O que direi às andorinhas das oitis
E às formigas domésticas do açucareiro?

sinto.
Graças, Pai Mei, graças.
Ainda bem que a Rebeca
Retornou para vossa casa.

Aprenderá sob vosso ensinamento o Toque da Morte.
(O golpe dos cinco pontos fatais que explode o coração).

Rebeca tentou uma vez
Uma noite bebendo vinho

E o meu coração
Não bate mais
Como antes.

Beber um copo d'água, baby.
Pois hoje baixaram todos os santos
E sentaram-se ao meu lado para presenciar
Minhas mãos fazendo fogo com gravetos de palavras.

Não os culpo
Por me amarem.
Nunca digo quem sou
Ou quando partirei de verdade.

O que me atrai em um gênio fracassado
É a macumba que fazem pra que corte
Os pulsos, estoure miolos, sufoque-se
Com um saco plástico.

O gênio fracassado
Não sabe falar outra língua
Senão a sua materna e pródiga.

Às vezes, russo e mandarim
Sob o seu delirium tremens.

Não imaginem que anjos ou passarinhos
Conversam com ele (é tudo sedução,
Baby).

O gênio fracassado
Hoje em dia é um luxo.
O mundo é narciso e feliz.

Nas antigas
Sabia bater figurinhas:
Passava saliva na palma da mão
(Sem que percebessem os ingênuos)

E virava três
De uma só
Vez.

Como esquecer as primeiras
Extorsões da minha infância.

Não me tornei nenhum gângster,
Embora o meu filho não acredite
E pense que todo poeta é fingidor.

(Culpa do português
De Lisboa)

Não acredite no meu olhar fora do jogo.
Arde a verdade quando escrevo versos.

Ao levantar-me da mesa de baralho
A minha vida é patética e enfadonha.

Um saco de batatas
Sobre a cabeça frágil.

E se tropeço
O coração
Explode.

Daí a minha avidez
Em andar trôpego.

Outrora fui um masoquista de marca maior.
Oferecia feito um miserável o meu coração.
E admirava sob o silêncio de um psicopata
O coração em tiras expostas e todo sangue.

A ciência do amante do próprio sofrer
Compara-se ao amor pela tragédia do outro.

Seguindo o ritual da entrega e da indiferença
Extraía lágrimas dos meus olhos furando
Os olhos alheios.

E sorria no fundo do poço
A mentir que colhia
Orquídeas.


O exercício poético é pra fortalecer o punho
Durante a travessia do desfiladeiro segurar
A corda por horas a fio suspenso e incrédulo.

(Nenhuma margem
É digna da minha
Morte)

domingo, 19 de julho de 2015

Em masmorras, meu filho,
Aprendemos a conversar
Com ratos.

Mas, acredite, pintam dias claros
Em que surgem das fendas do esgoto
Esperanças (aqueles bichinhos verdes).

Tão indefesos a nos trazer
Uma alegria de morte.

Nessas ocasiões, meu filho, guardo
Uma colherinha de doce de leite
Pra recompensá-las.

Por todos os poemas que já escrevi
Não há outra alternativa pro meu coração
Senão uma vida própria após a minha morte.

Coração venturoso
Vermelho flamboyant.

Não existe graça
Em poeta preso
A sessões

De filantropia
E boa índole.

Se a palavra
Não me libertasse
Seria eu um El Chapo.

Pois saibam,
Faço maldades
Com gafanhotos,
Cigarras e formigas.

E de lambuja (penso)
Ainda sou o queridinho
Dos seus muitos deuses.

Ou vocês não sabiam
Que todo solitário
É um sedutor?

Não aparto brigas.
Aprendi desde criança.

Posso dizer um poema
Em voz alta e distante.

Talvez comova os facínoras.
Os brigões. Os covardes.

Mas não me meterei em desavença.
Não sou santo, herói, um bom moço.

Como disse, posso passar uma vida
Dizendo poesias em voz alta ao mundo.

Mas afastado.
Sem oferecer
A minha pele.

O meu corpo
Só pra fazer
Amor.

Meu filho, falta-lhe coragem?
Então não ouse meter-se
Com essas espadas
De samurai.

Somente em olhar a lâmina
Corta-se do supercílio
Ao lábio.

O meu enforcamento será penoso aos carrascos.
O pescoço do poeta só cede a massagens de musas.

A minha forca quem dá o nó na corda serei eu o dia em que
Todo o povo da aldeia estiver morrendo de medo em suas casas
Ouvindo as bestas de Hades em suas carruagens de fogo e enxofre.

Correrão ao meu encontro
E suplicarão a minha ternura.

Mas pra fazer.algazarra
Cantarei um blues e zap!

Certa noite bebi três garrafas de vinho
E viajei por aí distribuindo cartas de amor.

No outro dia, uma multidão
Com tochas e estacas nas mãos
Bateram-me à porta acusando-me
De galinha e pusilânime cachorrão.

Não conseguia ouvi-los.
A minha cabeça explodia.

Mas no fim da fila
Pude vislumbrar
Uma aldeã

Com um sorriso lindo
De dentinho quebrado.

No fim da jornada
A poesia revela
O que somos.

Mas nunca chega
O último baque.

Névoas seguindo marés.

A preguiça faz bem ao escorpião encantado
Sempre a desconfiar do céu azul que hoje
Quebrou a janela e bateu-lhe no peito
Como aviso de novas invasões líricas.

Mas se do abismo
Nunca se deve fugir
Que quebre meus ossos
Esse vapor azul do paraíso.

Passou rápido, lépido e saltitante
O passarinho pela janela cruzando
Os galhos das oitis da minha calçada.

Mas gostei de ouvi-lo
Com a sua gaita.

Na chuva
É violino.

Havemos de seguir atentos
Com o encanto em nossas
Almas: o monstro não vive
Longe em cavernas frias,
Mas dentro de nós

Espreitando-nos
Com os olhos
Do ciúme

E o vício, baby,
Da desconfiança.

Cabe ao encanto do nosso encontro
Afiar a lâmina com a verdade das juras
E cortar fumaças do joguinho de baralho.

Você bate à porta. Escondo a pistola.
Mas você já conhece a brincadeira,
Joga-me ao sofá, senta no meu colo,
Tira a pistola do meu bolso, aperta.
Esguicham pétalas, pétalas, pétalas.

Mudei-me de casa da infância à juventude
Em torno de oito vezes. A cada casa nova
Tinha de fazer uma ponte entre fantasmas

Da casa anterior que levava comigo e os da nova
Que já estavam lá morando há muito muito tempo.

Pessoas que nascem e morrem em uma única casa
Dever ser estranho criar elos apenas com fantasmas
Conhecidos pelos cantos tão comuns e sem surpresas.

A cada casa nova paira aquele medo
De que realmente não se deem bem
Os nossos fantasmas e os antigos.

Sempre fui um diplomata
Em contemporizar disputas
E ciúmes entre os fantasmas.

(Mamãe passou açúcar
Em meu coração pra
Coisas de encantamento)

O esmero em escrever
Não consiste no tempo
Em que dedicamos
Às palavras.

Mas em ter as palavras
Um perfume específico.

As minhas têm
O teu cheiro.