domingo, 19 de julho de 2015

Você bate à porta. Escondo a pistola.
Mas você já conhece a brincadeira,
Joga-me ao sofá, senta no meu colo,
Tira a pistola do meu bolso, aperta.
Esguicham pétalas, pétalas, pétalas.

Mudei-me de casa da infância à juventude
Em torno de oito vezes. A cada casa nova
Tinha de fazer uma ponte entre fantasmas

Da casa anterior que levava comigo e os da nova
Que já estavam lá morando há muito muito tempo.

Pessoas que nascem e morrem em uma única casa
Dever ser estranho criar elos apenas com fantasmas
Conhecidos pelos cantos tão comuns e sem surpresas.

A cada casa nova paira aquele medo
De que realmente não se deem bem
Os nossos fantasmas e os antigos.

Sempre fui um diplomata
Em contemporizar disputas
E ciúmes entre os fantasmas.

(Mamãe passou açúcar
Em meu coração pra
Coisas de encantamento)

O esmero em escrever
Não consiste no tempo
Em que dedicamos
Às palavras.

Mas em ter as palavras
Um perfume específico.

As minhas têm
O teu cheiro.

sábado, 18 de julho de 2015

Os tambores vinham do outro lado da rua. Diziam os antigos que tambores quando tocam assim é o demônio convidando os menos avisados das coisas do demônio pra festejos. Os tambores vinham do outro lado do rio e os pescadores mais antigos diziam que tambores assim era de um perigo afogar-se em alto mar ainda com os pés na praia. Como eu ainda era jovem, ingênuo e gostava de arriscar os meus pulsos perto de lâmina enferrujada, fui, atravessei a rua e atravessei o rio, deparei com mulheres seminuas dançando. Os vestidos de renda, transparentes, alvos que me cegavam. Cego dos olhos, mas vendo outro mundo com o coração pegando fogo, dancei, dancei com aquelas mulheres loiras, negras, caboclas e não parei mais de dançar. A rua fica do outro lado e do outro lado o rio. Hoje durmo por lá exausto com o cheiro forte de amor e carne.

A relação do poeta consigo mesmo não se desgasta.
A cada poema escrito é uma boda de pena, e as coisas
Tendem a piorar (que é felicidade) nessa união promíscua.

O homem que desativa bombas
Sabe que o seu fim está próximo.

O poeta também.
Só que o poeta arma
A sua própria todos os dias.

Cara, você deseja entrar pra história.
Aquela mosca do almoço também queria.
Mas sou muito rápido com um copo de vidro.

Se você erguer os seus braços pro céu
E explodirem do seu pescoço aquelas
Artérias de um colhedor de algodão
Acreditarei então no seu blues.

Não busque uma ponte para o encanto.
Acontece e não se iluda com sobressaltos.

No meu caso, ultimamente
Meu coração perdeu os braços
E postas foram-se as minhas mãos.

Agora quem escreve por mim
É o coração (o outro) do encanto.

Há pouco, troquei as correias
Das sandálias antigas da minha irmã.
Depois que eu percebi como é simbólico
Trocar as correias das sandálias antigas da irmã.

Em uma vida passada (porque são muitas) trabalhei em curtumes.
Desde matar o animal e estender ao sol a pele dos caprinos
Até cortar e modelar as formas do couro.

Ficaram marcas
Nos meus dedos.

E não posso assegurar se do processo
Sobrenatural da outra vida ou desta
Na feitura de poemas.

Leitão assado com aquela maçã
Ou laranja na boca: Ó Pai Mei,
Afastai da minha mente
Tal imagem.

Para um porco chauvinista de outrora,
Presenciar sobre a mesa um antigo
Companheiro ainda moço
Nessa situação
É triste.

Pode ser meiguice,
Mas não consigo
Aproximar-me.

Só em pensar,
Meu coração
Dá um nó.

Garçom, por obséquio,
O meu pirão de peixe.
Como sentir falta do perfume de uma mulher
Se dela tenho uma borboleta que lhe enviei
Para pousar em sua perna.

Não quis assustá-la,
Confesso que até sorri

Sabendo que após o susto
Minha baby conseguiria
Dormir leve.

A borboleta cumpriu seu papel
E trouxe para o meu corpo
O cheiro de lavanda
Da minha amada.

Cinturinha de pilão.
Se tivesses cinturinha
De harpa, tudo bem, baby.

Mas tens cinturinha de pilão.
Por favor, sem falsa modéstia.

Cinturinha de pilão.
Cinturinha de pilão.

A poesia ofereceu-me um capuz de atirador de elite.
Não pra esconder o meu rosto cínico. Diria,
Para que não vejam o meu riso lírico
Quando acerto o corpo
E tomba.

Que o palhaço
Em minha alma
Seja sempre triste.

Amém.
Não deveria ter comprado aqueles cavalos do velho John Petry.
Cavalos de cascos podres e ancas cansadas. Cavalos malhados.
Seis dólares por cada pescoço. Dez pescoços. Uma fortuna.
A minha ruína. Miséria da minha alma. O bando do Billy Caolho
Por essas noites beira por aí. O que dirá o Billy Caolho com esse gasto.
O dinheiro não era meu. Miséria da minha alma. Não conheço caballos.
Como assaltaremos a diligência com esses pangarés. Vou levar um
Tiro na perna. Outro no braço. Vão cortar meu rosto e me enforcar e
Queimar minha casa com meu pobre filho Teddy, a menina Cily
E a desventurada da mãe deles a minha querida Sra. Maffield.
Miséria da minha alma. Deveria ter confiado a missão ao Bobby Maneta.
Miséria da minha alma. Miséria de cavalos. E esse whisky horrível!!!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O encantamento que a ponta da língua causa
Ao corpo febril e sanguíneo do coração
Explode nos amantes o sonho.

E já não sabem
Com que coração
Dedicam-se um ao outro.

Voltarei a dar sermões no alto da montanha.
Não mudarei o meu estilo nem a minha túnica.

Conservarei a mesma cor lilás
E o cordão azul em volta da cintura.

Abrirei os braços com a envergadura de um poeta crucificado.
Chamarei aos meus pés os desconsolados, os febris, os pagãos.

Aliviarei a dor dos angustiados
Por terem roubado doces na infância
E dos anciãos tristonhos pela covardia
Da mocidade em fugirem do primeiro amor.

Sangrarei os meus pés com a subida.
Não calçarei as sandália do ermitão.

Não pouparei minhas lágrimas.
Não deixarei pra depois a salvação.
Farei fogo com os meus cílios e queimarei
Os corações de quem se propor ao desconhecido.

Serei o pai do filho órfão.
Serei a mãe da filha grávida.

Indicarei com a minha voz
O caminho da coragem
E da boa morte.

Voltarei pra minha caverna cansado.
Exausto e feliz do meu encantamento.

Dobrarei a minha túnica lilás
E com o cordão azul apertarei
O meu santo sudário da poesia.

Dormirei despido,
Trêmulo, entre rochas.
Não há santinhos na mesa de baralho.
Nem a freira que guarda entre os seios
Uma carta pra última rodada de champanhe.

Minha curiosidade como diacho
A doce freira escondeu aquela carta.

Nem o prefeito desconfiou
Que é um gambá velho
Em truques.

Muito menos o forasteiro
Que chegou cedo de El Paso
E me parecia pelo silêncio um matador.

Em todo caso,
Creio que é aconselhável
Permanecer detrás do balcão.

O rifle Winchester 44
Ao alcance dos olhos.

Deste um tiro no pé quando atiraste pro céu
Tentando acertar uma lata de leite moça
Em parábola descendente.

Não limpes com as costas dos pulsos
Repetidas vezes o beijo roubado.

Não faças essa cara de espanto,
Indignação e constrangimento.

Um dia,
Os lábios gelados
Dormindo na sepultura
Hão de chorar pelos beijos
Que lhes faltaram coragem e loucura.

Descuidou-se do encanto
E os corvos que eram
Seus criados

De plumagem sedosa
E sensual fugiram
Dos seus olhos.

Vivem hoje em dia
Pelos campos de girassóis
Bicando os espantalhos infelizes.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Baby, nunca mais peguei em um livro de física.
Calcularei agora a velocidade do meu cílio
Até a palma da tua mão assoprado
Por meu pensamento.

Que faço com essa chuva
Súbita e manhosa sobre
Meu corpo dormente...

Nessas horas sou bichano
Brincando com novelos
Em cima da cama
De colcha nova.

Baby, nunca mais peguei em um livro de física.
Calcularei agora a velocidade do meu cílio
Até a palma da tua mão assoprado
Por meu pensamento.

A minha professora de respiração
Aconselhou-me a escrever menos.

Ou perderia a voz
Para sempre.

Bateu a porta
E roubou-me
Os poemas.

(Entre as partituras
De cítara para criança)

Baforadas reflexivas
A fumaça do cachimbo
Minha avó lançava pro alto.

Menino pálido barrigudo
Sentado no batente da cozinha
Pensava: "minha vó é índia, minha
Vó é bruxa, a minha vó é uma santa..."

O cabo do cachimbo pendia-lhe no canto dos lábios
Quando sorrindo minha avó ouvia meus pensamentos.

Se tu encontrares no meio do caminho
Um escorpião encantado com a cauda
Levantada pro céu atraindo toda sorte
De astros, aproxima-te não temas dele

O afeto,
A liberdade.

O veneno do escorpião
Com esses arroubos
Renasce mortos.

Pensou o pescador
Se não está na hora
De voltar do mar aberto

E esquecer as estrelas
Que lhe queimaram o rosto.

Já brilha tanta luz em seu coração
Que pode o pescador perder
O caminho pra casa.

Não é bom muitos peixes
Em um banquete solitário.

Meu primeiro kichute e relógio casio
Tornaram-me uma alma tão materialista.

E eu era um menino feliz.
Ainda não conhecia as formigas
Pelo jardim, as flores e o sol batendo
Nas calçadas depois de uma chuvinha fina.

Quando notei essas maravilhas,
O kichute virou poeira e o relógio casio
Troquei por umas revistas em quadrinhos.

O garrafão de água tá quase vazio.
Levantar o segundo e pô-lo sobre
A pia penso se um dia partirá
A minha coluna em duas.

Até quando, meu bem,
Ainda terei forças para erguer
Um garrafão de água mineral?

Escrever sei que as minhas mãos trêmulas
De velhinho só os ossos de pijama pela casa
Darão um charme especial aos últimos poemas.

Sempre que corto minhas unhas
Aperta-me o peito de saudades
Do tempo em que lixava
Os cascos dourados
Do meu pégaso

Que batia as asas,
Balançava o pescoço
E olhava para os céus
Adivinhando-me os sonhos.

Naquela ocasião
Vivíamos cruzando
Auroras e arrebóis.

Seguia nosso rastro
(Em forma de seta)
Um bando de pelicanos.

Por quantas pessoas
Passamos nessa vida
E só algumas poucas
Reconhecem nosso
Silêncio apavorante.

E entregam-se
Ao que sequer
Sabemos de nós.

Esse mergulho ao coração do poeta
É uma prova de amor no escuro.
Um pacto assinado em brancas
Nuvens que podem escurecer.

Os salmos foram escritos não por passarinhos,
Mas pelos caramujos com as suas casas
Sobre as costas em caminhos
De sol e de chuva.

Ou de raposas
Casando-se.

Desde que perdi o medo de fazer orações,
Escrevo um poema antes de dormir.

E mesmo que eu não consiga fechar os olhos
O poema será escrito pra alguém que dorme feliz.

O tocador de banjo
É um anjo, baby.

Esqueça a cítara,
Harpas e trombetas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Imaginemos que ao morrer
Um ser supremo envolto
Em névoas (e caneta
No bolso)

Perguntasse-me se desejaria
Nascer novamente em pele
De poeta.

Diria: "Não, Pai Mei,  basta uma vida
Pra esse tipo de coração e não me
Arranques um olho."

Ufa.


Alerto a você
Que esqueci
Por completo
Os livros que
Já li um dia.

Por favor, cite-me os livros
Que você já leu. Mas conte
Por alto e não me pergunte
Se conheço ou não tal autor.

Envolva-me, seduza-me, com
As imagens, ideias, sentimentos
Que lhe fizeram tremer as páginas.

Lance-me no jogo e não se envergonhe
Do brilho dos seus olhos e da voz presa.

Precisamos certo talento
Pra contar uma história
Fulminante dos outros.

Às vezes, tão idiota
Comungo da estupidez
Em dizer títulos de obras
Cuja lembrança é incerta.

Mas sou criança
E adoro suspense.

Conte-me.

O fêmur de Edgar Allan Poe
Retirado da terra após um tempo
Não brilhava mais que o bico de um corvo.

O teu desmanchara-se
Nas luvas brancas
Do perito.

Muitas vezes ajudei velhinhos a atravessar a rua,
Já tirei do meio da pista um gatinho morto,
Plantei uma árvore na escola

E quando sobram moedas
Distribuo entre os aleijados.

Não quero, mestre Pai Mei, morrer por esses dias
Sem antes sentir o calor do corpo da amada
Em um sono tranquilo.

Resolve essa parada,
Vê aí a minha ficha
E não arranques
Meu olho.

A minha garota adora pescar peixes de água doce.
Ontem, chegou berrando feliz da porta com uma
Belezura na mão.

Confessou-me, ofegante,
Que usou na isca mel
De abelha uruçu.

E piscou
Os olhos.

As formigas domésticas
Que vivem circulando
O açucareiro sabem
Fazer vodu mais
Que místico
Haitiano.

Alfinetaram-me
E as minhas mãos
Trêmulas deixaram cair
Uma colherinha de açúcar.

Dançaram sobre o armário
Em volta das xícaras e bule
Louvando as suas entidades.

Depois, banquetearam-se
Em profundo silêncio sacro.

Penso naqueles senhores taciturnos
Que escreviam em suas alcovas
À luz de velas

E trancafiavam seus escritos em baús
Ocultando a curiosidade alheia
Da natureza de suas almas.

Decerto bem mais sincera
A companhia dos seus fantasmas
Diante dos meus que acreditam piamente
Que só escrevo ávido pelo coração de quem me escuta.

Não há injustiça em ser fraco e tolo,
Pois sorrio um lampejo de vitória
A pressentir durante meu enterro
Que meus ossos seguirão um
Caminho à parte.

A única mudança de trajetória
Ainda ocorrerá sem que eu saiba.
Poeta, a poesia conversa contigo
Na feitura do poema ou, diáspora,
Some com a presença das palavras?

Os melhores poemas são aqueles
Em que perdemos as unhas
Cavando nosso buraco.

Se para terra
Caminha o corpo,
Havemos então de
Deixar alguma nuvem
No meio da estrada, Caeiro.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Juro que as próximas rosas
Guardo dentro da gaveta
E deixo o jarro de vidro
Morto de ciúme.

As minhas camisas sonham
Com esse ato de ternura.

O quarto dos fundos anda uma bagunça.
Os cupins foram embora há tempos.
(Levaram duas portas nas costas)

Encontrei hoje suspenso
Em uma teia de aranha
Um filhote de escorpião
Rígido, sem vida e feliz.

Muitas roupas sujas pela cômoda.
Além da estante de ferro altiva
Segurando de mau humor
Livros velhinhos.

Bagunça o quarto dos fundos.
Mas quando entro as paredes
Curvam-se e dão palmadinhas
Nos meus ombros "Apaixonado,
Hein?" As paredes sempre joviais.

Boa parte dos poemas
Escrevo sonhando.
Digo, dormindo
Mesmo.

Tão real o poema
Que me vejo fora
Do sonho.

Mordo os lábios,
Belisco meu braço,
Tento mudar palavras
De acordo com o espanto.

Mas poemas assim
Escritos sob outros
Terrenos

Parecem seguir
Um destino traçado.

E como há alívio
Após abrir os olhos.

Não acreditava em milagre.
Você limpou meu coração.
Agora sou um anjo batendo
Pelas paredes doido de amor
A espocar as lâmpadas de casa.

Dos esconderijos de criança
Debaixo da cama e dentro do guarda-roupa
Eram os cantos que mais me encantavam: debaixo
Da cama brincava com formigas e dentro do guarda-roupa
Acendia uma vela e lia quadrinhos. Um dia descobri as sombras
Dos dedos e passei a dedicar-me a cinema com caixa de sapatos.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Nunca entendi por que um narcisista
Sangra o rosto e vela-se moribundo.

Escolhe a poesia
Ao luxo da corte.

A gorda delirante
À esposa fiel.

Não entra na minha cabeça
A falta de juízo de um narcisista
Que segue a sombra sob lua cheia.

E retorna correndo à floresta sombria
Pra conversar com os corvos do amanhecer.

Um louco pode
A qualquer momento
Cortar a ponta do dedo.

Também pode jogar alpiste
Pra passarinhos imaginários.

Ouvir cânticos das paredes
E aprender a tocar violino
Com um lindo sorriso
No rosto.

Em questão de segundos,
Baby, em questão de segundos
Um louco pode tomar seu xarope
Lendo um russo ou um poeta haicai
Sem franzir o cenho e morder a língua.
Então cantarei o amor
Para atrair teu pensamento.

Faço de conta
Que um flamingo
Pousou na varanda.

E não bebo café.
Nem tomo ópio.

As mães Salomé e Jurema
Não precisam ler minha mão.

As ranhuras pelas linhas
São marcas dos teus cílios.

Já joguei tantos poemas no lixo
Que os rapazes da limpeza
Passam com o caminhão
Tocando um blues.

Não fecho mais
A janela do quarto.

Posso morrer na cama
Confabulando segredos.

Não poupe o jovem senhor
De um infarto fulminante
Na terceira rodada.

Depois de mortos
Que os corvos voam
Além do arrebol e loucos.

Tentei algumas vezes me enforcar.
Mas sempre se rompem as asas
Do beija-flor em volta
Do meu pescoço.

Suas asas não nasceram pra tal finalidade.
Talvez eu experimente um colar de búzios.

E deixe sangrar a artéria
À memória dos peixes.