Sinal que estou bem e quase feliz
Quando eu penso no último poema.
Se não der tempo de vocês lerem
Terei escrito no coração.
Mas isso já faço,
Ora bolas.
terça-feira, 30 de junho de 2015
Meia dúzia de gatos pingados
Subiu ao telhado levando
Uma garrafa de uísque
E um violão.
Não é que tocam
Um blues incrível
Com levada de soul.
Não, baby,
Não tenho mais discos
E os livros vendi pra comprar
Os sonhos da década de oitenta.
A meia dúzia de gatos pingados
Bebeu todas e se unharam
Loucos por uma gata.
Sabemos que uma gata
Entre gatos bêbados
Tocadores de blues
Dá em morte.
Subiu ao telhado levando
Uma garrafa de uísque
E um violão.
Não é que tocam
Um blues incrível
Com levada de soul.
Não, baby,
Não tenho mais discos
E os livros vendi pra comprar
Os sonhos da década de oitenta.
A meia dúzia de gatos pingados
Bebeu todas e se unharam
Loucos por uma gata.
Sabemos que uma gata
Entre gatos bêbados
Tocadores de blues
Dá em morte.
Não tenho a menor dúvida.
Nenhuma nuvenzinha de interrogação
Em volta e pairando sobre minha cabeça.
Se você aceitasse minha companhia
Seríamos dois golfinhos mágicos
Em alto mar.
Não faço barulho à mesa
Em cafés de contemplação.
Não reclamo das coisas femininas
Espalhadas pela casa nem jogo
As minhas pelas cadeiras.
Abraço forte, com paixão mesmo
Quem amo, sobretudo em noites frias.
Só tenho um defeito,
Por sinal, terrível.
Quando acordo
Troco de chinelos
Com minha amada
E esqueço os meus.
Nenhuma nuvenzinha de interrogação
Em volta e pairando sobre minha cabeça.
Se você aceitasse minha companhia
Seríamos dois golfinhos mágicos
Em alto mar.
Não faço barulho à mesa
Em cafés de contemplação.
Não reclamo das coisas femininas
Espalhadas pela casa nem jogo
As minhas pelas cadeiras.
Abraço forte, com paixão mesmo
Quem amo, sobretudo em noites frias.
Só tenho um defeito,
Por sinal, terrível.
Quando acordo
Troco de chinelos
Com minha amada
E esqueço os meus.
Meus filhos, não forcem a barra,
Não supliquem exclusividade.
Se forem especiais,
Garanto-lhes que um
Não largará do pé do outro.
E lançarão pétalas
Por onde caminharem.
E cingirão as cabeças
Com flores de cerejeira.
O princípio básico do encantamento
É a delicada liberdade dos corações.
Vão por mim,
Meus adolescentes
E anciãos tão tolinhos.
Não supliquem exclusividade.
Se forem especiais,
Garanto-lhes que um
Não largará do pé do outro.
E lançarão pétalas
Por onde caminharem.
E cingirão as cabeças
Com flores de cerejeira.
O princípio básico do encantamento
É a delicada liberdade dos corações.
Vão por mim,
Meus adolescentes
E anciãos tão tolinhos.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Fomos roubar frutas
E antes que subíssemos
Até aos apetitosos sonhos
Um cão enorme apostou corrida
Com o vento e babava riscando
A grama ao nosso encontro.
Éramos moleques fortes e lépidos.
O muro devia ter uns três metros.
Pulamos, aliás,
Voamos alto.
Sentados na calçada do cemitério,
Ainda sob espasmos e maravilhados,
Conversávamos, ou melhor, atropelávamos
Extasiados em palavras e gargalhadas e berros.
Só depois soube
Que o nome daquele troço
Que queimara o meu coração
E me fez voar através do muro da paróquia
Chamava-se adrenalina. Adrenalina. Um lindo nome.
E antes que subíssemos
Até aos apetitosos sonhos
Um cão enorme apostou corrida
Com o vento e babava riscando
A grama ao nosso encontro.
Éramos moleques fortes e lépidos.
O muro devia ter uns três metros.
Pulamos, aliás,
Voamos alto.
Sentados na calçada do cemitério,
Ainda sob espasmos e maravilhados,
Conversávamos, ou melhor, atropelávamos
Extasiados em palavras e gargalhadas e berros.
Só depois soube
Que o nome daquele troço
Que queimara o meu coração
E me fez voar através do muro da paróquia
Chamava-se adrenalina. Adrenalina. Um lindo nome.
I
Existem poemas que retornam pra casa
Confiando nas árvores e passarinhos
O caminho de volta.
Esses poemas pródigos
Trazem da floresta encantada
Gravetos fabulosos que jogados
Ao fogo sobem fagulhas de amor.
Dá pra ver de longe, de muito longe,
O brilho da aurora boreal pela chaminé.
II
Segunda-feira não é dia
Pra escrever um poema
Meloso de amor e fábula.
Disse-me a formiga
Do alto da colherinha.
E não pensou duas vezes
Em morrer dentro do café.
Existem poemas que retornam pra casa
Confiando nas árvores e passarinhos
O caminho de volta.
Esses poemas pródigos
Trazem da floresta encantada
Gravetos fabulosos que jogados
Ao fogo sobem fagulhas de amor.
Dá pra ver de longe, de muito longe,
O brilho da aurora boreal pela chaminé.
II
Segunda-feira não é dia
Pra escrever um poema
Meloso de amor e fábula.
Disse-me a formiga
Do alto da colherinha.
E não pensou duas vezes
Em morrer dentro do café.
domingo, 28 de junho de 2015
Acabei de assinar uma papelada.
A partir de agora, meus ossos,
Minha carne e coração
Serão partes das oitis
Da minha calçada.
Há um bom tempo
Que essas doces árvores
Seduzem-me com algumas cláusulas.
"Se o poeta em questão
Desejar sentir o batimento
Cardíaco das andorinhas
Ao crepúsculo poderá
Fazê-lo sem objeção
Das mesmas."
Não podia recusar
Um acordo em que
A minha alma será
Alma das minhas oitis.
E sentirei o que os seus galhos
Vibram quando as andorinhas
Reúnem-se ao entardecer.
A partir de agora, meus ossos,
Minha carne e coração
Serão partes das oitis
Da minha calçada.
Há um bom tempo
Que essas doces árvores
Seduzem-me com algumas cláusulas.
"Se o poeta em questão
Desejar sentir o batimento
Cardíaco das andorinhas
Ao crepúsculo poderá
Fazê-lo sem objeção
Das mesmas."
Não podia recusar
Um acordo em que
A minha alma será
Alma das minhas oitis.
E sentirei o que os seus galhos
Vibram quando as andorinhas
Reúnem-se ao entardecer.
A verdade, meu terrorista,
Os inimigos que cultuas
Vivem do ódio entre
Ti e tu mesmo.
A tua mente é uma alma bélica
Um cadáver insone que vive
A te arrastar à forca.
E tu sonhas
Debaixo do alçapão
Setenta e sete virgens e mel.
Não apertes a minha mão
Nem beijes o meu rosto.
Os meus passarinhos
Detestam a tua voz.
Os inimigos que cultuas
Vivem do ódio entre
Ti e tu mesmo.
A tua mente é uma alma bélica
Um cadáver insone que vive
A te arrastar à forca.
E tu sonhas
Debaixo do alçapão
Setenta e sete virgens e mel.
Não apertes a minha mão
Nem beijes o meu rosto.
Os meus passarinhos
Detestam a tua voz.
Ainda não te falei da minha primeira xícara.
Bebia café como se conversasse em outro reino
Segurando sua asinha de porcelana. Um dia alguém
Bebeu nela, deixou-a cair e a minha primeira xícara espatifou-se.
Passei três dias sob depressão.
Sequer podia olhar pra cafeteira.
Até que me presentearam outra.
A que bebo agora café é branca.
A cor da tua alma
Que enfeitiça a minha.
Bebia café como se conversasse em outro reino
Segurando sua asinha de porcelana. Um dia alguém
Bebeu nela, deixou-a cair e a minha primeira xícara espatifou-se.
Passei três dias sob depressão.
Sequer podia olhar pra cafeteira.
Até que me presentearam outra.
A que bebo agora café é branca.
A cor da tua alma
Que enfeitiça a minha.
sábado, 27 de junho de 2015
Trouxeram-me rosas.
O jarro de vidro voltou
A existir com água e rosas.
O bonsai agora
Adivinho que o bonsai está
Sobre a outra mesinha da sala.
Trouxeram-me rosas.
E eu ainda não lhes troquei
A água. Não lembrarei o tempo
Em que caminhava até a área de serviço
Cheirando as pétalas e sonhando alto com outra mulher.
Sei que os meus ossos
Secarão sozinhos e as minhas mãos
Não terão outra xícara para encher de café.
Mas trouxeram-me rosas.
E o que mais desejo
Antes de morrer?
"Morrer" caiu-me
Como fim de poema.
Não da nossa história.
O jarro de vidro voltou
A existir com água e rosas.
O bonsai agora
Adivinho que o bonsai está
Sobre a outra mesinha da sala.
Trouxeram-me rosas.
E eu ainda não lhes troquei
A água. Não lembrarei o tempo
Em que caminhava até a área de serviço
Cheirando as pétalas e sonhando alto com outra mulher.
Sei que os meus ossos
Secarão sozinhos e as minhas mãos
Não terão outra xícara para encher de café.
Mas trouxeram-me rosas.
E o que mais desejo
Antes de morrer?
"Morrer" caiu-me
Como fim de poema.
Não da nossa história.
Desde muito cedo, fui um corruptor de criaturinhas dos céus.
Lembro-me claramente quando a professora pedia que escrevesse
Uma redação corria pra janela da classe, assobiava e logo chegava
Aos galhos das árvores do pátio uma turminha malandra de passarinhos.
Ordenava-lhes (com o olhar firme de uma criança corruptora
De criaturinhas dos céus) que escrevessem a tal redação.
Os meus cúmplices (ora andorinhas, ora pintassilgos)
Desembrulhavam dos bicos um papel de embrulhar pães
Com letras, ou melhor, garranchos em que me custava ler.
Mas conseguia traduzir.
E sempre tirava dez.
Como era fácil escrever uma boa redação
Com ajuda das criaturinhas dos céus.
Lembro-me claramente quando a professora pedia que escrevesse
Uma redação corria pra janela da classe, assobiava e logo chegava
Aos galhos das árvores do pátio uma turminha malandra de passarinhos.
Ordenava-lhes (com o olhar firme de uma criança corruptora
De criaturinhas dos céus) que escrevessem a tal redação.
Os meus cúmplices (ora andorinhas, ora pintassilgos)
Desembrulhavam dos bicos um papel de embrulhar pães
Com letras, ou melhor, garranchos em que me custava ler.
Mas conseguia traduzir.
E sempre tirava dez.
Como era fácil escrever uma boa redação
Com ajuda das criaturinhas dos céus.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Tenho dezenas de palavras xodós
Que me acompanham um tempão.
Antes de escrevê-las,
Pulam dos meus olhos
E me fazem um poeta
Menos doido traumático.
Essas palavras xodós
Trazem em sua morfologia
Algum encanto de sílabas mágicas.
Ainda que o poema
Pareça-me melancólico,
Atroz, sombrio, de fígado ruim,
As minhas palavras xodós aliviam
O vácuo do pacote de café já aberto.
Como se fossem mãe de 78 anos
Que abraça o filho após uma guerra.
Que me acompanham um tempão.
Antes de escrevê-las,
Pulam dos meus olhos
E me fazem um poeta
Menos doido traumático.
Essas palavras xodós
Trazem em sua morfologia
Algum encanto de sílabas mágicas.
Ainda que o poema
Pareça-me melancólico,
Atroz, sombrio, de fígado ruim,
As minhas palavras xodós aliviam
O vácuo do pacote de café já aberto.
Como se fossem mãe de 78 anos
Que abraça o filho após uma guerra.
Que história é essa de parar o tempo.
Não teria graça a eternidade do contentamento.
Você suportaria saber que a sua morte é tal dia?
Houve um tempo
Em que eu amava
Heráclito de Éfeso.
E no meu jardim de infância
Já tinha calculado minha cova.
Então chegou uma formiga
Comeu uma folha e sumiu.
Não faz sentido o meu coração
Nessas horas em que não me pertenço.
O meu único amigo é quem me fala aos ouvidos.
Não escrevo à toa
Tudo que ouço.
Nada dessa conversa
De parar o tempo,
Por favor.
Não teria graça a eternidade do contentamento.
Você suportaria saber que a sua morte é tal dia?
Houve um tempo
Em que eu amava
Heráclito de Éfeso.
E no meu jardim de infância
Já tinha calculado minha cova.
Então chegou uma formiga
Comeu uma folha e sumiu.
Não faz sentido o meu coração
Nessas horas em que não me pertenço.
O meu único amigo é quem me fala aos ouvidos.
Não escrevo à toa
Tudo que ouço.
Nada dessa conversa
De parar o tempo,
Por favor.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Se consertassem a minha cabeça
(Um choque, um chip novo, outro
Sopro de vida) em que subterrâneos
A minha mórbida alma se esconderia?
Pois a outra chegaria
Lépida e contagiante.
Mas aí, não seriam minhas
As mãos lisas e a barbicha
De quem escreve estes versos.
Ou tolice esse papo de almas,
Se é o poeta que maneja
As espadas.
E todo o seu corpo
Não traz outras cicatrizes
Senão aquelas que desconhece.
(Um choque, um chip novo, outro
Sopro de vida) em que subterrâneos
A minha mórbida alma se esconderia?
Pois a outra chegaria
Lépida e contagiante.
Mas aí, não seriam minhas
As mãos lisas e a barbicha
De quem escreve estes versos.
Ou tolice esse papo de almas,
Se é o poeta que maneja
As espadas.
E todo o seu corpo
Não traz outras cicatrizes
Senão aquelas que desconhece.
Você se lembra daquele cheiro
De calçadas molhadas e insetos
Quando chovia lentamente por horas?
E depois saíamos com os olhos brilhando
De alguma coisa a navegar dentro de nós?
Você se lembra daquele meu relógio
Que eu escondia pra não ver água?
Roscofe, sim,
Um relógio roscofe.
Onde você se meteu?
Não sinto mais o cheiro
Das calçadas molhadas
Nem dos insetos cambaleantes.
De calçadas molhadas e insetos
Quando chovia lentamente por horas?
E depois saíamos com os olhos brilhando
De alguma coisa a navegar dentro de nós?
Você se lembra daquele meu relógio
Que eu escondia pra não ver água?
Roscofe, sim,
Um relógio roscofe.
Onde você se meteu?
Não sinto mais o cheiro
Das calçadas molhadas
Nem dos insetos cambaleantes.
Por três meses, cuidei de um cãozinho.
Seu nome era Mike, um pastor capa preta.
Não conseguíamos dormir. Passava toda a madrugada
Brincando e eu cuidando das suas sujeiras entre
Os fios do computador.
Ao meu filho que tinha cinco anos
Sugeri que dividisse comigo as tarefas.
O meu pequeno sorriu "pai, o senhor limpa
A sujeira do Mike e eu brinco com nosso amiguinho."
Muito triste o fim da história.
E hoje estou um tanto melancólico
Pra final foda de lágrimas e orfandade.
Mas adianto, Mike
Não viveu muito.
Seu nome era Mike, um pastor capa preta.
Não conseguíamos dormir. Passava toda a madrugada
Brincando e eu cuidando das suas sujeiras entre
Os fios do computador.
Ao meu filho que tinha cinco anos
Sugeri que dividisse comigo as tarefas.
O meu pequeno sorriu "pai, o senhor limpa
A sujeira do Mike e eu brinco com nosso amiguinho."
Muito triste o fim da história.
E hoje estou um tanto melancólico
Pra final foda de lágrimas e orfandade.
Mas adianto, Mike
Não viveu muito.
Assinar:
Postagens (Atom)