quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sarei daquela alergia
Abaixo do ombro esquerdo.

Vivia convencido de que era
Marca da sua mordida e compartilhava
Dessa obsessão com as visitas no hospício.

Mas nós sabíamos quando você me entregava
O doce de leite, o maço de cigarros e as três peças
De roupas limpas que aquela erupção cutânea no peito
Não passava de um estigma banal e dilacerante da saudade.

Essa chuvinha fina que cai agora
É um presente que arranjei pra você.

Nem foi preciso arrancar cílios,
Chorar, desesperar-se, bater
Com violência os punhos
Contra a mesa redonda
De vidro.

O meu coração urrou
Igual a um bisão velho
No alto da colina de neve.

Até as minhas andorinhas resolveram
Tocar violinos com os gravetos de oitis.

Tenho uma lesão cerebral
Espécie de fissura em que

Encaixo rente bilhetes amorosos,
Orações, lembretes domésticos.

Graças a esse vazio mental
Ultimamente ando atento
Às asas que nunca
Floriram

Em minhas
Costelas.

Já falei disso antes,
Voar é com passarinhos.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Gasto muita testosterona
Escrevendo meus versinhos.

Há homens que preferem brincar de tiro ao alvo
Em garrafas vazias de uísque ou latas de ervilha.

Os Sátiros
Escrevem.

Não me espanta que a poesia
Reúna em uma só alma
Tantos blues.

Não importa de qual rua você fugira,
Aproxime-se e beije a minha mão.

O êxodo dos corações
É mais grave.

A poesia deu-me respeito
Com o pessoal do outro mundo.

Agora os fantasmas
Que batem à minha porta
Não querem mais quebrar meu nariz.

Abraçam-me forte
E perguntam-me
Se já esqueci
A última
Morte.

Poucos minutos
Pro café invadir
A minha alma.

(Ainda anda
Pela cozinha
O seu aroma)

Então me levanto, encho a minha xícara branca,
E só não vou à varanda por que as andorinhas
São cruéis ao entardecer.

Óbvio que às vezes
(Ou quase sempre)
Apelo pra você.

E escrevo versos
De querubim.

O seu sorriso
Corrompe-me.

Essas eternas andanças
Em volta do teu coração

Abrem-te tantas portas,
Dão um poder especial

Que pra teu deleite e agonia
Só divides por completo sob
A sangria das tuas lágrimas.

Colher lágrima na ponta do dedo
Não é o que sugere uma joaninha feliz?

Espera, vê comigo essa formiga
Na ponta da colherinha indecisa
Entre pular no abismo de açúcar

Ou fugir por minha mão,
Braço, até meus cílios.

Depois faço
Nosso café.

Um truque pra te dizer
Por que escrevo versos
(Talvez já percebas) são
Esses olhares incrédulos
Que lanço contra a parede.

Claro, também
Essas explicações
Sem cabimento, vazias,
Que depois gargalho bêbado.

Cuidemos das nossas unhas
Pois unha inflamada dói,
Baby.
Uma garrafa de vinho
E me transformo
Em animal

A exalar um cheiro forte
De cavanhaque grisalho.

Encosto meu coração
Contra o peito da amada

E por mais que ela dance
Pise meus pés e morda
Meu pescoço

Minha alma foge
Recusando-se
A casar.

Ou assinar
Algum pacto
Com o demônio.

Quando for embora
Sentirei saudades
Dessas frutinhas
E legumes

De plástico
Colados com ímã
Na porta da geladeira.

Só dessas coisinhas
Que me fazem sorrir
Sentirei falta, não de livros
Nem discos nem dos teus sapatos.

O meu peito foi atingido.
Troquei de lugar
O coração.

E tive hoje bem cedinho
Que chamar uma andorinha
Com o seu bico gelado desentrançar
Os pontos que deram nós em teus cabelos.
Não há mais rosas
Pra mudar de água

E o jarro de vidro
Anda escondido
Atrás de um
Bonsai.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O grande amor da cebola
São os olhos de quem a corta.

Entre a faca
E os cílios

Dançam
Lágrimas
Confiáveis.

Os primeiros poetas não sabiam que nome dar àquela escrita
Suja de âmbar que escreviam em suas costelas com pontas
De pedras. Gostavam mais do som das pedras
Contra as costelas.

Muitos dormiam e sonhavam com palavras
Ouvindo o som das pedras pontudas
Contra as suas costelas.

Os primeiros poetas não escreviam para eles
Nem para o tão próximo ou tão distante.

Escreviam por que havia a luz do fogo
Que iluminava seus corpos em cavernas úmidas.

Os primeiros poetas não escreviam
À luz das estrelas.

Os primeiros poetas nunca foram bons caçadores.
Nem eram dotados de perspicácia e delírios
Para alcançar os céus.

Os primeiros poetas escreviam com pedras pontudas
Contra suas costelas e talvez fosse âmbar aquela resina.

Sei que morreram no inverno.
Cobertos de neves.

Muitos tinham nas mãos e rostos
Mordidas de cães selvagens
E outros bichos.

Mas por seus corpos estarem cobertos de neves
Parecia-lhes uma morte tranquila. Alguns
Não morreram e chegaram a conhecer
Mais dos céus do que da alma.

E a alma aos primeiros poetas
Era só o corpo, o corpo e as costelas
Feridas pelas pedras pontudas de âmbar.



terça-feira, 16 de junho de 2015

Costumo imaginar o meu coração
De fraque e cartola te convidando
Pra um jantar delicioso no telhado.

Pergunta onde se mete
O teu bichano quando
Não brinca aos teus pés.

Na década de oitenta,
Nasceram muitos gatinhos.

E muitas garrafas de vinho
Foram jogadas das estrelas.

Uma amiga confessou-me
Que o seu fetiche era
Beijar por horas

Um louco barbudo
Lenhador eremita.

Perguntei-lhe, inocente,
Se não serviria minha
Barbicha grisalha.

A menina gargalhou,
E eu amei seus dentes.

Os mais branquinhos
Da paróquia.
A minha avó entrou em amnésia profunda
Quando perdeu o seu grande amor.

Passava dias catatônica
Com o olhar perdido,
Distante,

Atravessando
O corredor
Escuro.

Ao despertar,
Caminhava pela casa
E pelo quintal enlouquecida

Invocando dos campos de batalha
E dos salões de baralho o seu amado.

Muitas vezes, exausta
Fechava-se em seu quarto,
Orava ladainhas e fazia as malas.

Conseguia sempre alcançá-la
Na esquina do cemitério.

Segurava-lhe o braço,
Beijava-lhe a cabeça.

Entre irritada e lúgubre
A minha avó chorava
E sorria:

"Meu netinho, onde diacho
Meteu-se o meu velho?"

Já registrei em cartório que só as andorinhas
Das oitis de minha calçada serão detentoras
Dos meus poemas com a minha morte.

Ultimamente cuidam
Dos meus suspiros repentinos
Como se meu coração fosse pifar.

E pifa de fato (encantado)
Quando leio teus versos
E vejo tua alma

De polaina
Dançando jazz.

Mesmo se você mancasse das duas pernas
Adoraria oferecer meu ombro e minha poesia.

Sei que haveria uma esquina
Em que a pegaria no colo
E atravessaria a rua.

O meu cavalheirismo
É tão oportunista.


As andorinhas que nesta madrugada fria
Dormem agrupadas com seus bicos trêmulos

Acreditam piamente
Que você existe.

As andorinhas também se arrepiam
E nesta noite é você o fantasma delas.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um dia,
O rato percebeu
Que a ratoeira não era
A sua inimiga, mas quem
Armava o queijo entre arames.

E observando os objetos
Passou a conhecer

O coração
Do dono.

Por compaixão a todos os deuses, não.
Nem ouses, poeta, de novo tal loucura.
Foge, rapaz, dos teus delirantes sonhos.

Conheço um barzinho
Entre os arrebóis
Noturnos.

Beberás até amanhecer
E hás de tirar do teu coração
Esse suspiro com ares de inocência.

Sabemos da fragilidade
De tuas costelas.

Conheço uma capela com uma imagem linda
De uma santa forte dos teus antepassados.

Rezarás até amanhecer
E hás de romper do teu coração
Esse olhar bambo, trêmulo, tímido.

Moedas caem dos olhos
Quando escrevo um poema.

E Lázaro acorda
Do transe:

Vê da janela
Que a noite
Não é triste.

Um blues não afoga
Peixes do Mississippi.

Agora lembrei-me
De onde te conheço:

Das noites loucas
Do final dos anos
Vinte.

Os teus lábios
São dessa época.

As minhas orelhas
São dois corações
Para ouvir sua voz.

Pego no ar os seus pensamentos
E faço origamis dos seus suspiros.

Tantos mistérios em seus lábios
Que navios piratas naufragam.

Ufa.

Ao acordar gargalhe
Dos seus traumas.

Não permita
Que sua mente
Ferre-lhe o espírito.

O seu coração é suave.
Não pertence a esse inferno.

Escape.

Não leve impressão
Da cena do crime.

Deixe que os mortos
Cuidem dos seus mortos
E não ouça seus lamentos.

domingo, 14 de junho de 2015

Costumava deixar versos no escuro
Quando fechava um livro.

Agora, antes de devolver o livro de poesia
À estante, grito alto da boca da caverna
E jogo uma tocha acesa.

Nenhum poeta
Será surpreendido
Por suas úlceras.

Ahh, o mamão
Com seu sorriso amarelo
E os seus mil dentes negros.

Ao abrir a geladeira
Às vezes tomo susto.

Entre um lhama
E um coelho
Meu filho

Quando
Diverte-se.

E ao ir embora
Deixa pela casa
Rastros de comida
E de muita saudade.

Em uma manhã de domingo
Sob chuvinha fina, meu filho
Largadão na cama com os pés
Batendo na parede, os passarinhos
Com seus guarda-chuvas das folhas
De oiti dando pulinhos e reclamando da vida
Impossível, impossível não ser o eleito de meu deus.

Mesmo assim, não perco minha rebeldia
E jogo pela janela carocinhos de laranja.

sábado, 13 de junho de 2015

De uns dias pra cá
Escrevo pra você.

Não lhe digo nada.
Não dou sinal.

Sou mudo
E covarde.

Quando o encanto chega (saiba)
Subo na árvore da minha calçada.

E brigo com as andorinhas
Por um canto quente e escuro.

As  mulheres rendeiras
Entregam-se à vida
Tão apaixonadas.

Quanta volúpia,
Meu bom deus,
Em suas mãos.

Os seus bordados são furinhos
De colmeias das rainhas de seda.

Cancioneiro algum lhes ensinou a namorar.
Nasceram mestras em encantos e febril deleite.
O lenhador caminha
Até a floresta escura
Para colher gravetos:

Que minhocas gritam
Em sua cabeça e que
Fogo arde o seu peito?

A cada passo seu
O poema é construído
Antes da poesia escrita.

Não há pausa
Em estado poético
Nem se divide o tempo.

O que seria de você
Se eu fugisse.

Abrisse aquela porta
Pra comprar pães
E não voltasse.

A qual andarilho você doaria
O meu fígado de Prometeu
E minha caixa de Pandora?

Você não teria mais as minhas mãos
Pra dar tiros no escuro nem meus suspiros
Dentro de garrafas de vinho em noites loucas.

A qual fantasma você ofereceria meus medos tolos,
Minha insônia ridícula e a minha libido exuberante?

Sua sorte que apostei meu coração
Nesse negócio de poesia.

Uma fortuna
Incalculável.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Saudade dos paletós
E calças de linho
Do meu avô.

Sempre sonhei
Em me vestir
Com a sua
Desilusão.

Os sinais
Da sua testa
Não eram faróis.

Mas eram ilhas
De Portugal.
A minha antiga xícara
Que jogaram contra
A parede

Refaço-me
Da sua morte.

Bom é não ter ciúme.
Mas aí o coração seria
De vidro, se é de sangue.

Se você sabe assobiar
Não há o que temer.

Com assobios
Invocamos
Saci.

E Saci sempre dispõe
De uma história incrível.

(Fábulas da cabeça dele
Que lhe amenizam a solidão)
Quando escrevia poesia
A lápis, eu era feliz.

Feliz em todos
Os sentidos.

A minha perdição iniciou-se
Com a máquina de escrever.

Só venda poesia em bares
Se você estiver bêbado.

Então você poderá
Sentar-se à mesa
Dos seus algozes.

Enquanto eles pensam
Que o ridicularizam
É você o cínico
Da história.
A criança que perde
Seu brinquedo no mar,
A partir daí está pronta
Pra poesia e suas reflexões.

Meu filho nunca esqueceu o seu Hulk:
Um dia desses comentou que na África
O sol acorda verde das suas lembranças.

Já comentei sobre
Sua lágrima de rímel

Que escorre por minha
Xícara branca de café.

Mas agora pingou
No meu peito
Sem camisa.
Poeta transplantado
Sabe da dor de um órgão
Em último estágio de vida.

Não se iluda, meu filho:
O coração nunca teve
Vida própria.

Não fumo.

Mas se bebo
Peço cigarros.

As suas rugas
São orquídeas.

Não as retire
Do rosto.

Permita que minhas mãos
Leiam os seus caminhos.

Amo as orquídeas
Por amar os sinais
De comoção e febre.

O que parece solidão
É nosso segredo.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Uma porta que se fecha
Chamo um beija-flor
De bico curvo

Pra abrir
A fechadura.

A poesia fala
Por si mesma.

Mas é louvável
O poeta que tenha
Um coração disposto.

O sujeito que escreve versos
Por muito velho que acorde
Sem cálcio nos ossos
E pupilas secas

Mais fôlego possui
A arrebentar-lhe
Os pulmões.

Não há poema definitivo
Que coroe o seu fim.

Poeta não pendura
As chuteiras.

Uma flor
Mesmo que morta
Atrai mil borboletas.

Quem passou toda a vida
Oferecendo delicadezas
Nunca será posta
De lado

À mercê
De moscas.