Uma amiga confessou-me
Que o seu fetiche era
Beijar por horas
Um louco barbudo
Lenhador eremita.
Perguntei-lhe, inocente,
Se não serviria minha
Barbicha grisalha.
A menina gargalhou,
E eu amei seus dentes.
Os mais branquinhos
Da paróquia.
terça-feira, 16 de junho de 2015
A minha avó entrou em amnésia profunda
Quando perdeu o seu grande amor.
Passava dias catatônica
Com o olhar perdido,
Distante,
Atravessando
O corredor
Escuro.
Ao despertar,
Caminhava pela casa
E pelo quintal enlouquecida
Invocando dos campos de batalha
E dos salões de baralho o seu amado.
Muitas vezes, exausta
Fechava-se em seu quarto,
Orava ladainhas e fazia as malas.
Conseguia sempre alcançá-la
Na esquina do cemitério.
Segurava-lhe o braço,
Beijava-lhe a cabeça.
Entre irritada e lúgubre
A minha avó chorava
E sorria:
"Meu netinho, onde diacho
Meteu-se o meu velho?"
Quando perdeu o seu grande amor.
Passava dias catatônica
Com o olhar perdido,
Distante,
Atravessando
O corredor
Escuro.
Ao despertar,
Caminhava pela casa
E pelo quintal enlouquecida
Invocando dos campos de batalha
E dos salões de baralho o seu amado.
Muitas vezes, exausta
Fechava-se em seu quarto,
Orava ladainhas e fazia as malas.
Conseguia sempre alcançá-la
Na esquina do cemitério.
Segurava-lhe o braço,
Beijava-lhe a cabeça.
Entre irritada e lúgubre
A minha avó chorava
E sorria:
"Meu netinho, onde diacho
Meteu-se o meu velho?"
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Por compaixão a todos os deuses, não.
Nem ouses, poeta, de novo tal loucura.
Foge, rapaz, dos teus delirantes sonhos.
Conheço um barzinho
Entre os arrebóis
Noturnos.
Beberás até amanhecer
E hás de tirar do teu coração
Esse suspiro com ares de inocência.
Sabemos da fragilidade
De tuas costelas.
Conheço uma capela com uma imagem linda
De uma santa forte dos teus antepassados.
Rezarás até amanhecer
E hás de romper do teu coração
Esse olhar bambo, trêmulo, tímido.
Nem ouses, poeta, de novo tal loucura.
Foge, rapaz, dos teus delirantes sonhos.
Conheço um barzinho
Entre os arrebóis
Noturnos.
Beberás até amanhecer
E hás de tirar do teu coração
Esse suspiro com ares de inocência.
Sabemos da fragilidade
De tuas costelas.
Conheço uma capela com uma imagem linda
De uma santa forte dos teus antepassados.
Rezarás até amanhecer
E hás de romper do teu coração
Esse olhar bambo, trêmulo, tímido.
domingo, 14 de junho de 2015
Em uma manhã de domingo
Sob chuvinha fina, meu filho
Largadão na cama com os pés
Batendo na parede, os passarinhos
Com seus guarda-chuvas das folhas
De oiti dando pulinhos e reclamando da vida
Impossível, impossível não ser o eleito de meu deus.
Mesmo assim, não perco minha rebeldia
E jogo pela janela carocinhos de laranja.
Sob chuvinha fina, meu filho
Largadão na cama com os pés
Batendo na parede, os passarinhos
Com seus guarda-chuvas das folhas
De oiti dando pulinhos e reclamando da vida
Impossível, impossível não ser o eleito de meu deus.
Mesmo assim, não perco minha rebeldia
E jogo pela janela carocinhos de laranja.
sábado, 13 de junho de 2015
O que seria de você
Se eu fugisse.
Abrisse aquela porta
Pra comprar pães
E não voltasse.
A qual andarilho você doaria
O meu fígado de Prometeu
E minha caixa de Pandora?
Você não teria mais as minhas mãos
Pra dar tiros no escuro nem meus suspiros
Dentro de garrafas de vinho em noites loucas.
A qual fantasma você ofereceria meus medos tolos,
Minha insônia ridícula e a minha libido exuberante?
Sua sorte que apostei meu coração
Nesse negócio de poesia.
Uma fortuna
Incalculável.
Se eu fugisse.
Abrisse aquela porta
Pra comprar pães
E não voltasse.
A qual andarilho você doaria
O meu fígado de Prometeu
E minha caixa de Pandora?
Você não teria mais as minhas mãos
Pra dar tiros no escuro nem meus suspiros
Dentro de garrafas de vinho em noites loucas.
A qual fantasma você ofereceria meus medos tolos,
Minha insônia ridícula e a minha libido exuberante?
Sua sorte que apostei meu coração
Nesse negócio de poesia.
Uma fortuna
Incalculável.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de junho de 2015
É muito azar galinhas-d'angola
Um bando delas em cortejo
Passar cantando diante
Do cadafalso na hora
Em que o enforcado dizia
O seu último discurso.
"Sim, o meu coração está fraco, está fraco,
Está fraco, está fraco..." Concluiu o homem
Com a corda no pescoço.
A sua espirituosidade
Rendeu o perdão
Do rei.
Um bando delas em cortejo
Passar cantando diante
Do cadafalso na hora
Em que o enforcado dizia
O seu último discurso.
"Sim, o meu coração está fraco, está fraco,
Está fraco, está fraco..." Concluiu o homem
Com a corda no pescoço.
A sua espirituosidade
Rendeu o perdão
Do rei.
Descobriram os meus podres.
Agora toda a vizinhança sabe
O que aprontei quando criança:
Fumava da folha seca de bananeira,
Abria barrigas de lagartixas, atravessava
Palitos de picolé nos abdomes de cigarras,
Prendia vaga-lumes em pote de vidro até cansarem de brilhar.
A sociedade livrou-se de um psicopata
Por pura generosidade da poesia.
Agora toda a vizinhança sabe
O que aprontei quando criança:
Fumava da folha seca de bananeira,
Abria barrigas de lagartixas, atravessava
Palitos de picolé nos abdomes de cigarras,
Prendia vaga-lumes em pote de vidro até cansarem de brilhar.
A sociedade livrou-se de um psicopata
Por pura generosidade da poesia.
Conheci um papagaio
Que comia todas.
Passava uma galinha.
"Comia", dizia o papagaio.
Passava uma ema
Debaixo da sua janela.
"Comia", sorria o papagaio.
Passava um porco-espinho.
"Por que não? Comia"
Até que passou
Um da sua espécie.
O papagaio pensou,
Coçou a cabeça,
Cavanhaque:
"Meu caro,
Vale incesto?"
Que comia todas.
Passava uma galinha.
"Comia", dizia o papagaio.
Passava uma ema
Debaixo da sua janela.
"Comia", sorria o papagaio.
Passava um porco-espinho.
"Por que não? Comia"
Até que passou
Um da sua espécie.
O papagaio pensou,
Coçou a cabeça,
Cavanhaque:
"Meu caro,
Vale incesto?"
Acredite no amor
Se você estiver feliz.
Bobo, perdido,
Com apetite
Sexual.
Quando se ama
A gente adora
Fantasias.
Não é como se pensa
A prostrar-se apático,
Quimérico, lânguido.
Não, não.
Quando se ama
Vivemos apaixonados.
(Febris e loucos e tesudos)
Amor é paixão
Com docilidade.
Digo isso ao ser cobaia:
Escrevia poemas ternos.
Depois enlouqueci e matei.
Mas aí, baby,
Já não era amor
Nem paixão amorosa.
Era outra coisa
Além da fronteira.
Digamos, um panda
Que se revolta contra
O seu tratador chinês.
E come-lhe o coração.
Se você estiver feliz.
Bobo, perdido,
Com apetite
Sexual.
Quando se ama
A gente adora
Fantasias.
Não é como se pensa
A prostrar-se apático,
Quimérico, lânguido.
Não, não.
Quando se ama
Vivemos apaixonados.
(Febris e loucos e tesudos)
Amor é paixão
Com docilidade.
Digo isso ao ser cobaia:
Escrevia poemas ternos.
Depois enlouqueci e matei.
Mas aí, baby,
Já não era amor
Nem paixão amorosa.
Era outra coisa
Além da fronteira.
Digamos, um panda
Que se revolta contra
O seu tratador chinês.
E come-lhe o coração.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Em outra vida
Fui escravo.
Cuidava do celeiro egípcio
Específico pra calamidades.
O meu posto era no galpão de trigo,
Onde eu e mais dois chapas criamos
Um treco especial chamado aguardente.
Não é pra me gabar,
Mas o faraó bêbado
Via-me um sacerdote.
E oferecia-me mulheres
Lindas com aqueles
Olhos pintados.
Uma luxúria.
Em outra vida
Eu fui escravo.
Tive uma vida boa
No reinado de Ramsés III.
Fui escravo.
Cuidava do celeiro egípcio
Específico pra calamidades.
O meu posto era no galpão de trigo,
Onde eu e mais dois chapas criamos
Um treco especial chamado aguardente.
Não é pra me gabar,
Mas o faraó bêbado
Via-me um sacerdote.
E oferecia-me mulheres
Lindas com aqueles
Olhos pintados.
Uma luxúria.
Em outra vida
Eu fui escravo.
Tive uma vida boa
No reinado de Ramsés III.
Depois me manda o nome do teu babalorixá.
Tentei alguns xamãs com tendência taoísta.
Mas todos foram enfáticos em me dizer
Que em assunto de coração de poeta
Apenas aos babalorixás cabem
O destino.
E eu vago pela casa de bermudão
Cavanhaque grisalho à toa
Só esperando a hora
Do meu café.
Nem leio mais
Os meus livros.
Tentei alguns xamãs com tendência taoísta.
Mas todos foram enfáticos em me dizer
Que em assunto de coração de poeta
Apenas aos babalorixás cabem
O destino.
E eu vago pela casa de bermudão
Cavanhaque grisalho à toa
Só esperando a hora
Do meu café.
Nem leio mais
Os meus livros.
Assinar:
Postagens (Atom)