terça-feira, 16 de junho de 2015

Uma amiga confessou-me
Que o seu fetiche era
Beijar por horas

Um louco barbudo
Lenhador eremita.

Perguntei-lhe, inocente,
Se não serviria minha
Barbicha grisalha.

A menina gargalhou,
E eu amei seus dentes.

Os mais branquinhos
Da paróquia.
A minha avó entrou em amnésia profunda
Quando perdeu o seu grande amor.

Passava dias catatônica
Com o olhar perdido,
Distante,

Atravessando
O corredor
Escuro.

Ao despertar,
Caminhava pela casa
E pelo quintal enlouquecida

Invocando dos campos de batalha
E dos salões de baralho o seu amado.

Muitas vezes, exausta
Fechava-se em seu quarto,
Orava ladainhas e fazia as malas.

Conseguia sempre alcançá-la
Na esquina do cemitério.

Segurava-lhe o braço,
Beijava-lhe a cabeça.

Entre irritada e lúgubre
A minha avó chorava
E sorria:

"Meu netinho, onde diacho
Meteu-se o meu velho?"

Já registrei em cartório que só as andorinhas
Das oitis de minha calçada serão detentoras
Dos meus poemas com a minha morte.

Ultimamente cuidam
Dos meus suspiros repentinos
Como se meu coração fosse pifar.

E pifa de fato (encantado)
Quando leio teus versos
E vejo tua alma

De polaina
Dançando jazz.

Mesmo se você mancasse das duas pernas
Adoraria oferecer meu ombro e minha poesia.

Sei que haveria uma esquina
Em que a pegaria no colo
E atravessaria a rua.

O meu cavalheirismo
É tão oportunista.


As andorinhas que nesta madrugada fria
Dormem agrupadas com seus bicos trêmulos

Acreditam piamente
Que você existe.

As andorinhas também se arrepiam
E nesta noite é você o fantasma delas.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um dia,
O rato percebeu
Que a ratoeira não era
A sua inimiga, mas quem
Armava o queijo entre arames.

E observando os objetos
Passou a conhecer

O coração
Do dono.

Por compaixão a todos os deuses, não.
Nem ouses, poeta, de novo tal loucura.
Foge, rapaz, dos teus delirantes sonhos.

Conheço um barzinho
Entre os arrebóis
Noturnos.

Beberás até amanhecer
E hás de tirar do teu coração
Esse suspiro com ares de inocência.

Sabemos da fragilidade
De tuas costelas.

Conheço uma capela com uma imagem linda
De uma santa forte dos teus antepassados.

Rezarás até amanhecer
E hás de romper do teu coração
Esse olhar bambo, trêmulo, tímido.

Moedas caem dos olhos
Quando escrevo um poema.

E Lázaro acorda
Do transe:

Vê da janela
Que a noite
Não é triste.

Um blues não afoga
Peixes do Mississippi.

Agora lembrei-me
De onde te conheço:

Das noites loucas
Do final dos anos
Vinte.

Os teus lábios
São dessa época.

As minhas orelhas
São dois corações
Para ouvir sua voz.

Pego no ar os seus pensamentos
E faço origamis dos seus suspiros.

Tantos mistérios em seus lábios
Que navios piratas naufragam.

Ufa.

Ao acordar gargalhe
Dos seus traumas.

Não permita
Que sua mente
Ferre-lhe o espírito.

O seu coração é suave.
Não pertence a esse inferno.

Escape.

Não leve impressão
Da cena do crime.

Deixe que os mortos
Cuidem dos seus mortos
E não ouça seus lamentos.

domingo, 14 de junho de 2015

Costumava deixar versos no escuro
Quando fechava um livro.

Agora, antes de devolver o livro de poesia
À estante, grito alto da boca da caverna
E jogo uma tocha acesa.

Nenhum poeta
Será surpreendido
Por suas úlceras.

Ahh, o mamão
Com seu sorriso amarelo
E os seus mil dentes negros.

Ao abrir a geladeira
Às vezes tomo susto.

Entre um lhama
E um coelho
Meu filho

Quando
Diverte-se.

E ao ir embora
Deixa pela casa
Rastros de comida
E de muita saudade.

Em uma manhã de domingo
Sob chuvinha fina, meu filho
Largadão na cama com os pés
Batendo na parede, os passarinhos
Com seus guarda-chuvas das folhas
De oiti dando pulinhos e reclamando da vida
Impossível, impossível não ser o eleito de meu deus.

Mesmo assim, não perco minha rebeldia
E jogo pela janela carocinhos de laranja.

sábado, 13 de junho de 2015

De uns dias pra cá
Escrevo pra você.

Não lhe digo nada.
Não dou sinal.

Sou mudo
E covarde.

Quando o encanto chega (saiba)
Subo na árvore da minha calçada.

E brigo com as andorinhas
Por um canto quente e escuro.

As  mulheres rendeiras
Entregam-se à vida
Tão apaixonadas.

Quanta volúpia,
Meu bom deus,
Em suas mãos.

Os seus bordados são furinhos
De colmeias das rainhas de seda.

Cancioneiro algum lhes ensinou a namorar.
Nasceram mestras em encantos e febril deleite.
O lenhador caminha
Até a floresta escura
Para colher gravetos:

Que minhocas gritam
Em sua cabeça e que
Fogo arde o seu peito?

A cada passo seu
O poema é construído
Antes da poesia escrita.

Não há pausa
Em estado poético
Nem se divide o tempo.

O que seria de você
Se eu fugisse.

Abrisse aquela porta
Pra comprar pães
E não voltasse.

A qual andarilho você doaria
O meu fígado de Prometeu
E minha caixa de Pandora?

Você não teria mais as minhas mãos
Pra dar tiros no escuro nem meus suspiros
Dentro de garrafas de vinho em noites loucas.

A qual fantasma você ofereceria meus medos tolos,
Minha insônia ridícula e a minha libido exuberante?

Sua sorte que apostei meu coração
Nesse negócio de poesia.

Uma fortuna
Incalculável.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Saudade dos paletós
E calças de linho
Do meu avô.

Sempre sonhei
Em me vestir
Com a sua
Desilusão.

Os sinais
Da sua testa
Não eram faróis.

Mas eram ilhas
De Portugal.
A minha antiga xícara
Que jogaram contra
A parede

Refaço-me
Da sua morte.

Bom é não ter ciúme.
Mas aí o coração seria
De vidro, se é de sangue.

Se você sabe assobiar
Não há o que temer.

Com assobios
Invocamos
Saci.

E Saci sempre dispõe
De uma história incrível.

(Fábulas da cabeça dele
Que lhe amenizam a solidão)
Quando escrevia poesia
A lápis, eu era feliz.

Feliz em todos
Os sentidos.

A minha perdição iniciou-se
Com a máquina de escrever.

Só venda poesia em bares
Se você estiver bêbado.

Então você poderá
Sentar-se à mesa
Dos seus algozes.

Enquanto eles pensam
Que o ridicularizam
É você o cínico
Da história.
A criança que perde
Seu brinquedo no mar,
A partir daí está pronta
Pra poesia e suas reflexões.

Meu filho nunca esqueceu o seu Hulk:
Um dia desses comentou que na África
O sol acorda verde das suas lembranças.

Já comentei sobre
Sua lágrima de rímel

Que escorre por minha
Xícara branca de café.

Mas agora pingou
No meu peito
Sem camisa.
Poeta transplantado
Sabe da dor de um órgão
Em último estágio de vida.

Não se iluda, meu filho:
O coração nunca teve
Vida própria.

Não fumo.

Mas se bebo
Peço cigarros.

As suas rugas
São orquídeas.

Não as retire
Do rosto.

Permita que minhas mãos
Leiam os seus caminhos.

Amo as orquídeas
Por amar os sinais
De comoção e febre.

O que parece solidão
É nosso segredo.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Uma porta que se fecha
Chamo um beija-flor
De bico curvo

Pra abrir
A fechadura.

A poesia fala
Por si mesma.

Mas é louvável
O poeta que tenha
Um coração disposto.

O sujeito que escreve versos
Por muito velho que acorde
Sem cálcio nos ossos
E pupilas secas

Mais fôlego possui
A arrebentar-lhe
Os pulmões.

Não há poema definitivo
Que coroe o seu fim.

Poeta não pendura
As chuteiras.

Uma flor
Mesmo que morta
Atrai mil borboletas.

Quem passou toda a vida
Oferecendo delicadezas
Nunca será posta
De lado

À mercê
De moscas.

Não vá cortar os dedos
Na hélice do liquidificador
Sonhando com o improvável.

Termine de lavar a louça em paz
E não se esqueça da cicatriz
Do seu peito.

Os pontos ainda
Tão frágeis.

O fogo apaga da minha memória
Os livros que li, parei de reler
Os meus clássicos.

Ou teria que passar
Toda a minha vida
Levando debaixo
Do braço almas.

A cada história queimada,
Cinzas dentro dos meus olhos,
Sobra alguma coisa que é purificada.

O meu Alzheimer
É um tipo poético.

É muito azar galinhas-d'angola
Um bando delas em cortejo

Passar cantando diante
Do cadafalso na hora

Em que o enforcado dizia
O seu último discurso.

"Sim, o meu coração está fraco, está fraco,
Está fraco, está fraco..." Concluiu o homem
Com a corda no pescoço.

A sua espirituosidade
Rendeu o perdão
Do rei.
Existe um dedinho meu que é feliz.
Sabe tocar o sino, abrir o portão
Dos jardins encantados.

Sempre chove
Ao primeiro
Sinal.

Ao jogar a moeda pro céu
Você está no jogo.

E não adianta suplicar
Perdão dos gângsteres.

Os corvos são mais suscetíveis.

Então não me chamo mais de poeta.
Sou qualquer outra coisa que o valha.
Sem tanto peso e tolice sobre as mãos.

Afinal, o trabalho não acaba
Quando me levanto da mesa.

As palavras têm cavernas ocultas
Dentro de cada alma que nem desconfiamos.
Esquecemos que quem hiberna não está morto.

Durmo com janela aberta
E o sofá do quarto amanhece
Abençoado pelas folhas de oiti.

Uma festa, até os passarinhos
Entrarem e roubar (essas folhas
São perfeitas pra agasalho de andorinhas).
Descobriram os meus podres.
Agora toda a vizinhança sabe
O que aprontei quando criança:

Fumava da folha seca de bananeira,
Abria barrigas de lagartixas, atravessava
Palitos de picolé nos abdomes de cigarras,
Prendia vaga-lumes em pote de vidro até cansarem de brilhar.

A sociedade livrou-se de um psicopata
Por pura generosidade da poesia.

Conheci um papagaio
Que comia todas.

Passava uma galinha.
"Comia", dizia o papagaio.

Passava uma ema
Debaixo da sua janela.
"Comia", sorria o papagaio.

Passava um porco-espinho.
"Por que não? Comia"

Até que passou
Um da sua espécie.

O papagaio pensou,
Coçou a cabeça,
Cavanhaque:

"Meu caro,
Vale incesto?"

Os peões oferecem a vida
Pela segurança da rainha.

Ofereço
Um ácido.

E a rainha baila
Sobre cubos
De cristal.

Nunca vi a rainha tão solta.

Só não tire a roupa, rainha,
Nem roube o leite da porta
Dos seus súditos.

É fácil, rainha,
Enlouquecermos.

Acredite no amor
Se você estiver feliz.

Bobo, perdido,
Com apetite
Sexual.

Quando se ama
A gente adora
Fantasias.

Não é como se pensa
A prostrar-se apático,
Quimérico, lânguido.

Não, não.

Quando se ama
Vivemos apaixonados.
(Febris e loucos e tesudos)

Amor é paixão
Com docilidade.

Digo isso ao ser cobaia:
Escrevia poemas ternos.
Depois enlouqueci e matei.

Mas aí, baby,
Já não era amor
Nem paixão amorosa.

Era outra coisa
Além da fronteira.

Digamos, um panda
Que se revolta contra
O seu tratador chinês.
E come-lhe o coração.

Não me preocupo
Em passar o tempo
Despertando outras almas

Igual ao anjo
De passagem bíblica
Tentando encher um buraco
Com conchas e conchas de água do mar.

O negócio é existir o mar
E alguém angustiado.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Em outra vida
Fui escravo.

Cuidava do celeiro egípcio
Específico pra calamidades.

O meu posto era no galpão de trigo,
Onde eu e mais dois chapas criamos
Um treco especial chamado aguardente.

Não é pra me gabar,
Mas o faraó bêbado
Via-me um sacerdote.

E oferecia-me mulheres
Lindas com aqueles
Olhos pintados.

Uma luxúria.

Em outra vida
Eu fui escravo.

Tive uma vida boa
No reinado de Ramsés III.

Hoje tenho uma péssima arcada dentária
Por haver acreditado em fada do dente:
Desde muito pequeno arrancava
Os de leite, depois os de aço.

A minha dentista não acredita.
Pensa que é charme
De poeta.

(E se aproxima
Com o sorriso
De nigeriana)

Adoro pleonasmo em um poema.
(Torna os poetas mais humanos)

Quando percebo que dei uma bela mancada,
Sofro por alguns minutos até expurgar-me
A maldição.

Depois mudo de intenção,
Assobio, saio à francesa.

Depois me manda o nome do teu babalorixá.
Tentei alguns xamãs com tendência taoísta.

Mas todos foram enfáticos em me dizer
Que em assunto de coração de poeta
Apenas aos babalorixás cabem
O destino.

E eu vago pela casa de bermudão
Cavanhaque grisalho à toa
Só esperando a hora
Do meu café.

Nem leio mais
Os meus livros.

Alguma entidade piedosa
Viu-me nascer pálido e ossudo.

Não lhe causaria surpresa se eu amasse
Em tempos de chuva o barro de parede fria.

Então essa entidade (cujo nome nunca me foi revelado)
Furou-me o pezinho com um espinho de rosa negra
E sorriu louca por mais um poeta ao mundo.

O frio da tua distância
É tão dolorido que contraio
O abdome e penso em parir um filho.