quinta-feira, 11 de junho de 2015

É muito azar galinhas-d'angola
Um bando delas em cortejo

Passar cantando diante
Do cadafalso na hora

Em que o enforcado dizia
O seu último discurso.

"Sim, o meu coração está fraco, está fraco,
Está fraco, está fraco..." Concluiu o homem
Com a corda no pescoço.

A sua espirituosidade
Rendeu o perdão
Do rei.
Existe um dedinho meu que é feliz.
Sabe tocar o sino, abrir o portão
Dos jardins encantados.

Sempre chove
Ao primeiro
Sinal.

Ao jogar a moeda pro céu
Você está no jogo.

E não adianta suplicar
Perdão dos gângsteres.

Os corvos são mais suscetíveis.

Então não me chamo mais de poeta.
Sou qualquer outra coisa que o valha.
Sem tanto peso e tolice sobre as mãos.

Afinal, o trabalho não acaba
Quando me levanto da mesa.

As palavras têm cavernas ocultas
Dentro de cada alma que nem desconfiamos.
Esquecemos que quem hiberna não está morto.

Durmo com janela aberta
E o sofá do quarto amanhece
Abençoado pelas folhas de oiti.

Uma festa, até os passarinhos
Entrarem e roubar (essas folhas
São perfeitas pra agasalho de andorinhas).
Descobriram os meus podres.
Agora toda a vizinhança sabe
O que aprontei quando criança:

Fumava da folha seca de bananeira,
Abria barrigas de lagartixas, atravessava
Palitos de picolé nos abdomes de cigarras,
Prendia vaga-lumes em pote de vidro até cansarem de brilhar.

A sociedade livrou-se de um psicopata
Por pura generosidade da poesia.

Conheci um papagaio
Que comia todas.

Passava uma galinha.
"Comia", dizia o papagaio.

Passava uma ema
Debaixo da sua janela.
"Comia", sorria o papagaio.

Passava um porco-espinho.
"Por que não? Comia"

Até que passou
Um da sua espécie.

O papagaio pensou,
Coçou a cabeça,
Cavanhaque:

"Meu caro,
Vale incesto?"

Os peões oferecem a vida
Pela segurança da rainha.

Ofereço
Um ácido.

E a rainha baila
Sobre cubos
De cristal.

Nunca vi a rainha tão solta.

Só não tire a roupa, rainha,
Nem roube o leite da porta
Dos seus súditos.

É fácil, rainha,
Enlouquecermos.

Acredite no amor
Se você estiver feliz.

Bobo, perdido,
Com apetite
Sexual.

Quando se ama
A gente adora
Fantasias.

Não é como se pensa
A prostrar-se apático,
Quimérico, lânguido.

Não, não.

Quando se ama
Vivemos apaixonados.
(Febris e loucos e tesudos)

Amor é paixão
Com docilidade.

Digo isso ao ser cobaia:
Escrevia poemas ternos.
Depois enlouqueci e matei.

Mas aí, baby,
Já não era amor
Nem paixão amorosa.

Era outra coisa
Além da fronteira.

Digamos, um panda
Que se revolta contra
O seu tratador chinês.
E come-lhe o coração.

Não me preocupo
Em passar o tempo
Despertando outras almas

Igual ao anjo
De passagem bíblica
Tentando encher um buraco
Com conchas e conchas de água do mar.

O negócio é existir o mar
E alguém angustiado.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Em outra vida
Fui escravo.

Cuidava do celeiro egípcio
Específico pra calamidades.

O meu posto era no galpão de trigo,
Onde eu e mais dois chapas criamos
Um treco especial chamado aguardente.

Não é pra me gabar,
Mas o faraó bêbado
Via-me um sacerdote.

E oferecia-me mulheres
Lindas com aqueles
Olhos pintados.

Uma luxúria.

Em outra vida
Eu fui escravo.

Tive uma vida boa
No reinado de Ramsés III.

Hoje tenho uma péssima arcada dentária
Por haver acreditado em fada do dente:
Desde muito pequeno arrancava
Os de leite, depois os de aço.

A minha dentista não acredita.
Pensa que é charme
De poeta.

(E se aproxima
Com o sorriso
De nigeriana)

Adoro pleonasmo em um poema.
(Torna os poetas mais humanos)

Quando percebo que dei uma bela mancada,
Sofro por alguns minutos até expurgar-me
A maldição.

Depois mudo de intenção,
Assobio, saio à francesa.

Depois me manda o nome do teu babalorixá.
Tentei alguns xamãs com tendência taoísta.

Mas todos foram enfáticos em me dizer
Que em assunto de coração de poeta
Apenas aos babalorixás cabem
O destino.

E eu vago pela casa de bermudão
Cavanhaque grisalho à toa
Só esperando a hora
Do meu café.

Nem leio mais
Os meus livros.

Alguma entidade piedosa
Viu-me nascer pálido e ossudo.

Não lhe causaria surpresa se eu amasse
Em tempos de chuva o barro de parede fria.

Então essa entidade (cujo nome nunca me foi revelado)
Furou-me o pezinho com um espinho de rosa negra
E sorriu louca por mais um poeta ao mundo.

O frio da tua distância
É tão dolorido que contraio
O abdome e penso em parir um filho.

Não quebre um vaso
Na cabeça do seu amor
Só por que não gostou das flores.

Mas mande-o à pracinha
Negociar outras (e sem abelhas).

O novo jardineiro
É propenso ao suborno.

Um dia
Já dei laços
Nos seus cílios
Pra você não chorar.

Agora são os meus
Que caem nas minhas mãos.

Lembro-me daquela brincadeira mágica:
Aperto-os entre os polegares e faço um pedido.

Uma hiena não morderia
Tão forte assim, até penso
Que é algum tipo de alergia.

Caminho pela casa
Com o peito dilacerado.

E não há bálsamos,
Unguentos, hipoglós.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Imagino que você guarde entre os seios
O primeiro poema que lhe escrevi, também
Imagino aquele sutiã de renda que o prenda.

O seu coração pula,
Não fogem os versos.

Com a minha morte
Os meus travesseiros
Serão queimados, baby.

Não quero que ninguém sinta
O cheiro dos meus sonhos
E leve pra casa.

Sempre rolam lágrimas
Em jogo final.

Com o tempo de poesia
As minhas mãos criaram
Calos nos dedos e já posso

Levantar a tampa quente
Da panela de feijão
Segurando firme
Sem frescura.

(Creio que mais
Dois copos d'água
Será o suficiente)
Na minha infância
Os peixes que pescava
Viviam no topo das árvores.

Eram as folhas
De manga rosa
E manga espada.

E eu menino
Subia até o céu.

Um menino que pescava
No quintal dos seus avós.

Não é só pôr as mãos sobre o teclado
Que os dedos encontrarão o tom perfeito.

É preciso amar o piano,
Gastar as suas teclas,
Levá-lo nas costas.

As flechas que me atravessaram o corpo
Perderam a força do ódio e caíram, uma a uma,
Aos meus pés. Beije as cicatrizes e me renasça humano...

"Corta!"

(Rapaz, você é um bom ator,
Mas precisa de uma entonação trágica na voz
E aquele olhar de São Sebastião pro céu... sacou?)
A verdade é que aquelas plantinhas da varanda
Nunca me pertenceram e não sentirão minha falta.

Elas têm seus pombos
A cortejá-las e minha irmã
Para aguar-lhes os cabelos.

Estão todas mais fortes,
Altivas, brilhando de verdes.

Sequer notaram
Os meus suspiros.
Já tive meu tempo de ratos,
Baratas, escorpiões, formigas,
Lagartas-de-fogo, embuás, borboletas.

Passou.

Só não passa o tempo
De passarinhos.

O lenhador que parte
Pra floresta escura
Ou leva a fúria
Ou clareza.

Os poemas que apago
Parecem-me sempre
Dormentes.

Apáticos.
Distantes.

Como se a poesia renunciasse
Ao cargo de senhora louca
Das minhas mãos.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Que significa século vinte e um
Para alguém que não enxerga
Com o coração?

Pessoas que guardam espinhos
Dentro dos olhos não aceitam
O próximo e a diferença.

Violentas e tristonhas
Essas pessoas sofrem.

No íntimo vivem perdidas
Sem clareza dos grilhões
Que levam aos tornozelos.

Família nasce do amor
E não de gêneros.

Amem-se.

Rir sozinho de si mesmo
É sinal de loucura e pureza.

Desde criança investigo meu olhar
Pra ver se existe alguém dentro
Do espelho.

Às vezes,
Ouvia uma voz.
Agora é uma algazarra.

Cada entidade sonha
Com a última palavra.

Você já leu o mesmo livro
Com alguém ao mesmo
Tempo?

Rostos colados,
Mãos tocando-se
Ao virar as páginas.

Cada um no seu ritmo,
Cúmplices, generosos.

Isso é prova de amor.

Não controle o tremor
Das suas pernas nem
Prenda as borboletas
Do seu estômago.

O seu Sátiro chegou
Com o cavanhaque
Grisalho e as patas
De bode a luzir.

Os moralistas são muito tristes.
(A natureza é uma criança febril)

Contanto que você
Não me abandone,
Pode levar meu
Coração.

Tenho outro
Com alguém.

"Cachorro"

Não, não, não.
Não é o que pensa.

Imagine um mestre bonsai
Cuidando dos seus afetos.

Todos os dias desperta
Com os olhos cheios
De espanto.

Encosta o nariz
Nos ramos das
Suas pequenas.

(Sabe que sua alma
Nunca será perfeita)

Assim, minha amiga,
Que escrevo poemas.

Ao poeta a eutanásia será permitida,
Desde que sejam os passarinhos
Da sua infância a desligar
Os aparelhos.

E que tragam em seus bicos
Gravetos úmidos de nanquim
Para o último poema em vida.
Tu achas que sou maluco o bastante
A ponto de me meter nos amores
Dos outros?

Cisne que ame lagarta-de-fogo.
Javali que se apaixone por andorinha.

O meu negócio é vender flores.
E cobrar uma taxa extra ao casal
Que quiser um poema no ramalhete.
Há poetas que não precisam
De uma força oculta dirigindo-lhes
Os pensamentos, as mãos e planos.

São poetas práticos, objetivos, realistas.
Nunca encontram dificuldade no cotidiano.

Trocam lâmpadas,
Escrevem matérias geniais,
Abrem garrafas de espumante,
Não esquecem o aniversário da esposa.

Outros sequer dão um passo imaginam
Que as suas pernas não lhes pertencem.

Não entendo as mulheres
Que suportam homens felizes.

Aquele sorriso de encantamento,
Perdoo se estiverem amando.

A questão é que há homens felizes
Durante toda a vida solitários ou não.

Não entendo como os passarinhos
Suportam os poetas melancólicos
Que têm a janela de frente
Pros seus ninhos.

Que mundo
Especial,
Baby.
Aquele almoço
Que lhe parece
Apático e chinfrim
Use sua imaginação:

Junte o arroz ao feijão,
Misture-os com legumes
Ainda no vapor por minutos.

O peixe tão sem graça,
Embebede-o com azeite
E fatie sobre ele uma maçã.

Eis o milagre
Do banquete.

E nem precisei
Andar sobre águas
Para ser um messias.

O poeta que em tempos atrás foi tão romântico
Hoje em dia viaja com o semblante de homem-bomba.

Manco.

Amor bonito é aquele
Marcado pelo tempo:

Rugas, cicatrizes,
O amarelo dentro
Dos olhos, riso
Distante, névoa,
Um leve tremor
Nas veias das
Mãos.

Aquele outro tipo de euforia
É apenas aguardente de trigo.
Queria um momento a sós com você:
Ouvi-la, ouvi-la, ouvi-la, falar-lhe
De alguns segredos meus,

Beijar seu pescoço,
Morder-lhe orelha,
Fazer amor.

Depois iria pra casa da minha mãe
E você pra sua. Se a saudade apertasse,
Eu lhe enviaria um vídeo meu erótico e você
Escreveria um poema romântico. Simples assim.

O meu evangelho é a poesia.
Grande coisa, responderam-me
Os passarinhos nesta manhã fria.

Seja mais convincente, meu poeta.
Sorriu minha xícara branca de café.

domingo, 7 de junho de 2015

Só você sabe
Quando tagarelo
Com língua de fogo

E derrubo os insetos
Dos cantos das paredes

É que tarda meu coração
Dentro de um vespeiro
E ninguém consegue

Com as mãos trêmulas
De viciado em sétimo dia
Parar os cavalos selvagens.

Um brinde à falência
Múltipla dos órgãos.
A silhueta de um ancião
Sob a penumbra da janela
De um quarto soturno assusta
As andorinhas da minha calçada.

Gostaria de dizer a esse senhor
Que não vale a pena estourar
Os miolos.

Mas como pode
Um vampiro sombrio
Aconselhar outro tristonho?
Confesso que ao apagar
Um poema de amor
Longo e inútil

Sinto-me no céu
(Febre nos pulmões)

Ares de tolice
Pesam mais
Que a vida.

As unhas que caem
Não doem, meu bem.
Dizem que não é o poeta
Que encontra a poesia,

Mas a poesia
Que escolhe
O poeta.

No meu caso,
Corri atrás dela

Segurando-lhe o rabo de elefante
E as antenas de formiga diabética.

Exausta,
A poesia
Olhou-me:

"Tu és louco,
Serve-me."

Quantas vezes, meu deus,
Já fiz café nesta minha vida.

Se tivesse contado,
Eu e minha cafeteira
Não nos amaríamos
De forma tão pura.

A cada xícara
Selamos o amor.
Minha cabeça explodirá
Mas o meu coração
Está salvo.

Rejeito panaceias
Que me tragam
Sossego.

Rejeito os livros sagrados.
Rejeito amores furtivos.
Rejeito o absinto
De Epicuro.

Quebro as minhas costelas, piso-as:
Há um efeito sagrado neste meu drama.
Meu filho, ultrapasse o corredor escuro
Do casarão de seus avós e só dê ouvidos
À sua sombra. Junte sua coragem ao alforje,
Prenda na crina do seu cavalo, cavalgue, conquiste
Mundos, enfrente demônios, dragões, moinhos e não
Acredite que Sancho Pança quem cuidava de Dom Quixote.

Era o Cavaleiro da Triste Figura
Que iluminava a vida do seu vassalo.

A poesia é mais bela, meu filho,
Com o sol atravessando brumas.