sexta-feira, 17 de abril de 2015

Papiloscopista

Consertar um poema
Alegra-nos tanto que
Tirei a noite pra dar
Pilha aos objetos
De casa.

Vou pôr o relógio de parede
Sobre a mesa redonda de vidro.

Examinarei em minúcias
As pequenas peças
Que hipnotizam
Moscas.

Depois farei um poema
Comovido pelo vazio da sala.
Esquecer a porta da geladeira aberta
Três vezes ao dia não é um lapso,
Simples distração doméstica,
Uma cabeça avoante:

Exemplo de devaneio clássico
De um poeta atirado de paixão.


tirando todos os alfinetes dos bolsos
tirando todos os espinhos das luvas
tirando todas as pedras das botas:

espero que a porta não trave
quando eu der o primeiro passo.
Cautela, moço
Em criar elos
Com a luz.

Nunca ouviste
Quem muito vê
Cega-se de desgosto?

A ilusão também
Move moinhos.
Quando digo que passarinhos
Soltos que não se deixam iludir
Chegam à minha janela, acredite.

Ontem, na varanda, um assustou
A minha testemunha com seu
"Boa tarde, poeta!"

E até demorou mais do que de costume
Esperando que registrassem sua presença.

E a testemunha
Supôs aquela onda
Efeito do meu café.
Para merecer os pés
Tive de venerar os calos.

Eduquei a minha alma
Escrevendo, rasgando
E queimando poemas.

E não é nada mágico
O lápis e a folha de papel
Debaixo da cama quando durmo.

Um truque simples
Se o meu coração
Parar.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ao tocar na palavra
A poesia passa antes
Pelo dedão do meu pé
E pelo fio dos meus cabelos.

O recurso que disponho
É o meu corpo e não
Conheço célula
Mais orgânica
Que a alma.
tão íntimo teu batom
e por total paradoxo
tão à vista de todos

que me senti
um intruso

quase um vândalo
sobre o meu sonho.
Não é pecado uma mulher
Guardar o lenço na bolsa
E imaginar onde borrar
O seu batom.

Nem em cigarros.
Nem circunferência
De copo ou taça de bebida.

Só digo
Que não
É pecado.
Naquela noite enlouqueci.
Puseram alguma coisa
Dentro da minha taça:

Cheguei a ver um coração
De mulher dissolvendo-se.

Aí, vistas escureceram
E eu não me lembro
De mais nada.
Não quero ninguém para mim.
Por que haveria de querer alguém para mim?
Que loucura é essa de querer uma pessoa para mim?
Que a pessoa seja dela própria e a ela somente pertença.

Posso ser um parceiro atuante em seus múltiplos orgasmos,
Um convidado espirituoso aos saraus de sábado, um gentleman
Aos passeios bucólicos de domingo com o sol no rosto e por toda
A semana um ótimo, atento e risonho aluno às aulas da sua lógica abstrata.

Até que um dia
Ela se canse da minha companhia
Diga chega e fuja feliz levando meu mundo.

Aliás, nem precisa fugir.
Basta perguntar se a chave
Ainda está na fechadura da porta.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O meu filho quando me pega
Falando sozinho no banho
Ou lavando as louças

Sabe que não se trata
De uma loucura desprezível
E que em minha volta há uma plêiade
De anciãos com alma de meninos a-do-ran-do.

[Criar versos
Causa espantos]
poema de vingança amorosa
só de lupicínio rodrigues
naquela voz dolorida
que no fim é uma
Lágrima doce.
Enquanto o mundo estiver cansado das suas vidas
Estarei fazendo fogo com os gravetos bifurcados
Das linhas das palmas das minhas mãos.

Não há cansaço
Em iluminar o abismo
Acima do carvão da terra.

Das estrelas pode ser o encanto
Uma ilusão de ótica espacial
Mas não de espírito.

Quem morre
Não brilha

Tanto
Assim.

Um dia, a minha tosse
E os parafusos soltos
Da minha cabeça

Hão de perder o sagrado
E só haverá sentido
O fogo do carvão
Da terra.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tive medo não da porta aberta
Depois que adormeci tive medo
Das palavras dentro do coração.

Não é lugar
Pras palavras.
Depois, leio
Os teus poemas
Com calma, garota.

Agora tenho
Hora marcada
Com o psiquiatra.

Os poemas, apesar de loucos
(Cavalos de sangue selvagem)
Merecem da nossa parte lucidez.
Às vezes, penso
No poema não escrito
A partir da palavra esquecida.

Pois, o outro
Que se desenvolve
Nunca será o mesmo.

Mistério sagrado
O fim do corpo
Do poema

Que por uma palavra
(Esquecida logo no princípio)
Ofereceu vida a uma segunda alma.
A última vez em que me vi gordo,
Bochechas rosadas e olhos brilhantes
Tomava pílulas pros nervos, minha querida.

Não me queira
Ver assim.

Fico mais patético
Do que de costume.
Ainda não cuspo sangue,
Mas o coração está ferido.

(Não seja tão dramático, poeta.
Sinta o cheiro das calçadas molhadas,
Olhe pro alto das árvores e descubra algum
Passarinho oculto entre as folhas de oiti. Dou
Um doce se encontrar um só que não esteja de
Varizes trêmulas e beiços roxos e asas dobradas)
Você vem à minha casa,
Bebe do meu café, come
Dos meus morangos, dorme

Na minha cama, brinca nos meus sonhos,
Lava os cabelos com meu shampoo, usa do meu perfume,
Calça meus chinelos com os pés molhados e ainda se recusa
A levar contigo o meu coração?

Maldade.

domingo, 12 de abril de 2015

O nariz de uma pequena sujo
De bola gigante de chiclete
Comove meu coração.

Desde ontem que não paro de chorar.
(Próximo dos cinquenta o poeta é frágil)
Outra tortura bárbara, baby
É aquela em que o sujeito
Com calafrios a morrer
De febre

Passa pela área de serviço
E a toalha molhada
Bate nas costas
Por capricho
Do vento.


Apagar um poema ruim
Ensina ao criador caráter.

Há poemas que só merecem
A eternidade do vale de sombras.

Sou perito em apagar os meus horríveis
Sem um pingo de piedade ou remorso.

Caráter poético
O poeta aprende.

Por vezes, aproveito
Uma clavícula do morto.

Ou um cílio.
Muitos são os processos criativos
Que nos estimulam a escrever poemas.

No meu caso,
Descascar uma laranja
Em longa tira sob forma de serpentina
É especial e requer toda a atenção do poeta.

Quase sempre
Não consigo.

O homem romântico adora
Jogar pôquer com uma mulher
Valendo a alma e sem revanche.

O riso cínico
No canto da boca
Do trovador é só desespero.
Assim é tortura:
O corpo desvalido (febril)
E uma chuvinha fina na calçada.

Quem disse que deus
Não sabe das técnicas
De um sádico torturador?

Até parece que cresceu
Vendo os senhores frios
Nos porões das ditaduras.

E eu fujo das cobertas,
Tomo banho e bebo café.
Creio que descerei até o jardim do prédio
Só pra ver como se comportam as flores
Sentindo as minhas mãos quentes e frias.

Amor é quando as flores do jardim
Correm ao encontro do enfermo
Sem comentários sobre
Ontem à noite.

Ninguém precisa saber dos pesadelos de madrugada.
Os cavalos-marinhos acenando com a cabeça adeus aos filhotes.
Nessas horas, o cadavérico bardo
Ofereceria seu coração por um colo.

Não há panaceia mais eficaz
Em diminuir a febre do que
Um colo de mulher.

De vestido.

Não é segredo pra nenhum filho de deus
Que o corpo quando prostrado na cama
Sob sua frágil plena qualidade de corpo

Provoca uma atenção especial
E o sujeito questiona-se como

Cargas d'água o caramujo
Chegou até aqui trazendo
Nas costa um templo.

E não me refiro ao templo sagrado da alma.
Andamos cansados de saber que alma é só
Um pensamento poético [alguma coisa que
Dentro não se molha quando tomamos banho].

sábado, 11 de abril de 2015

Na minha infância,
Passava dias de cama
Com febre e feliz gripado.

[Bebendo guaraná
Ouvindo o barulho
Da cream cracker]

A alma muda, baby.
E o corpo acompanha.

Hoje, ando descalço
Pelo quarto tentando lembrar
Onde guardei a lâmina de barbear.

Não se morre
Com 39 graus.
A poesia não perde a importância.
(Ó bardo) e pode desabar o teto
E pode o mar pegar fogo.

A propósito, adoro sardinhas
Queimadas e lagostas
Aos gritos.


Quando eu ainda meninote
Era comum na minha cidade
Ouvir de um estranho (ao ser
Questionado onde trabalhava)
"Viajante, sou viajante." E os
Inquiridores faziam uma cara
De aprovação e assombros,

Como se o estranho pudesse
Ter em seu alforje uma pepita
Ou uma carta do rei de cinco
Estrelas recém-empossado.

Debaixo da mesa, suspirava:
"Um dia, um dia, serei viajante."
As minhas coisas
São simples demais.
E o reino é este vazio.

Sem essa de iluminação.
Sou um animal muito indelicado
Ao dedicar-me a assuntos terrenos.

As minhas coisas são simples
Por vê-las também despojadas
Do meu corpo e dos meus olhos.

Um dia desses posso voltar a tomar um trago.

Há um tempinho que vago pela casa
(Sete dias?) com o mesmo bermudão.

E nem se trata do meu bermudão-mor de delicadezas
Onde dentro dos bolsos guardo flores secas, búzios
E uma moeda de mil reis encantada.

Emagreci,
Daí o cinto.

Não posso desfilar pela casa
Qual um velhinho risonho
Segurando o cós.

Uma mão tem de estar livre.
Ou pra dar tchau às andorinhas.
Ou pra escrever um ou dois poemas.
Antes de dormir escovo demoradamente os dentes.
Ao passar pela cômoda branca pego o desodorante.

Perfumo minhas axilas,
Afinal a fada dos dentes
Adora dormir com o rosto
Colado ao meu peito gostoso.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Ao aproximar dos cinquenta anos
Posso cuspir dentro dos meus sapatos.

E não sentir um pingo de dor.
Não sentir uma nuvem
De desdém.

[Sob a possibilidade plausível
De não chegar aos cinquenta]
O cúmulo da tolice
É a poesia gerar
Inimigos.

Logo a poesia
Que oferece
O que some.

Que sequer dá tempo
Pra que o rei engorde.

Eu queimei poemas.
Conheço desse tipo
De fumaça que sangra.

E não posso dizer
Que é a mesma fumaça
De que se queima os ossos.
Sempre serei a favor
Da queda da Bastilha,
Do rompimento do hímen,
Da espinha na ponta do nariz.

Dentro do meu coração
Nunca caberá o mundo.

A minha alma não queiram.
Pende pro que causa horror.
Vive a um passo do espanto.

Sempre serei a favor
Do Curinga e do lado
Oculto do milagre.

E por curiosa que é a vida,
(Vejam) os passarinhos ainda
Conhecem o caminho de casa.
Desde cedo
Uma folha de oiti
Dorme sobre meu sofá.

Ainda não tive coragem de tocá-la.
A folha de oiti traz pelo seu corpo
As primeiras brisas da aurora.

Sei disso por que fez frio e bateu vento forte
Dois minutos antes que as nuvens corassem.

Durmo de janela aberta
Por dois motivos, meu bem:

Para ver as nuvens corando
E convidar as folhas de oitis
Ao sono imperturbável de órfãs.
Poesia é o voto de silêncio do coração.
O meu suor é uma forma singela
Do meu corpo lembrar que é hora
De escrever versos ou fazer amor.

O primeiro sinal não é o batimento cardíaco.
Mas o suor das mãos, meu peito e pescoço.


Não conheço outra força
Que aperte os grilhões
Aos meus tornozelos

Empurre-me
Do abismo

E alguma luz se faça
Entre os vãos das costelas.

O tombo é seco.

[E só me lembro da folha
No ar a fazer firulas antes
De cair na minha calçada]
Óbvio que viveria sem pão, sem circo e sem fé.
A ausência da poesia é que seria uma dose letal.

Como enganaria os pombos
Que chegam à minha janela?

Além de dar-lhes atenção
E farelos de bolachas
Tenho de ser tão
Cínico quanto
Eles:

Olhar o céu chuvoso
Dizer que são orvalhos
De nuvens ontem floridas.
Sai deste corpo
Que este coração
Nunca te pertenceu.

[Um belo timbre de blues
Para esta manhã chuvosa]

E fizera-se uma fila indiana
Das mulheres que o poeta se iludiu.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O boticário vê coisas
Tarde da noite no sótão
Manipulando fragrâncias.

Escapam dos frascos transparentes
Fantasmas de damas francesas
Com seus chapéus de renda
E broches de flores
Secas.

O boticário morre e mata
Por um perfume especial.

Mas neste momento
Uma lagartixa albina
(Dessas pequeninas
Que comem insetos)

Passeando pelo tapete
Debaixo da mesinha
De centro

Oferece-lhe
Mais encanto.

E o boticário alegra-se
Por sentir arrepios
No seu braço.
Parece-me um assombro.
Mas a poesia não é pessoal.

Ainda que fique a cicatriz na palavra.
[Também fica no olhar e no silêncio]

Mas não é pessoal.

Não daria conta
De tantas vidas.
De tanto admirar
Uma formiguinha

Que dava voltas
E voltas em torno
Do açucareiro azul

Desci meio grogue
A escada do prédio

Pra te devolver o livro emprestado
E você já pensava que era absinto.


Você viu a minha foto?
Cafona. Sou um poeta cafona.
E aquela mão no ombro? Ainda dói.
A bala alojou-se entre ossos das asas.

Lanço ao solo sementes de mostarda
Com as palmas das mãos e unhas sujas.

E ao fim do dia
Ainda colho
O paraíso.

Explica-me como uma alma torta
(Sob nevoeiros) encontra debaixo da cama
Uma pena de andorinha dentro do teu chinelo de dormir.
Mudei de lugar
Meu coração
Pra você.

Agora o meu coração
Bate no cotovelo direito.

Aquele com o qual
Empurro a porta
Da geladeira.