Consertar um poema
Alegra-nos tanto que
Tirei a noite pra dar
Pilha aos objetos
De casa.
Vou pôr o relógio de parede
Sobre a mesa redonda de vidro.
Examinarei em minúcias
As pequenas peças
Que hipnotizam
Moscas.
Depois farei um poema
Comovido pelo vazio da sala.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Quando digo que passarinhos
Soltos que não se deixam iludir
Chegam à minha janela, acredite.
Ontem, na varanda, um assustou
A minha testemunha com seu
"Boa tarde, poeta!"
E até demorou mais do que de costume
Esperando que registrassem sua presença.
E a testemunha
Supôs aquela onda
Efeito do meu café.
Soltos que não se deixam iludir
Chegam à minha janela, acredite.
Ontem, na varanda, um assustou
A minha testemunha com seu
"Boa tarde, poeta!"
E até demorou mais do que de costume
Esperando que registrassem sua presença.
E a testemunha
Supôs aquela onda
Efeito do meu café.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Não quero ninguém para mim.
Por que haveria de querer alguém para mim?
Que loucura é essa de querer uma pessoa para mim?
Que a pessoa seja dela própria e a ela somente pertença.
Posso ser um parceiro atuante em seus múltiplos orgasmos,
Um convidado espirituoso aos saraus de sábado, um gentleman
Aos passeios bucólicos de domingo com o sol no rosto e por toda
A semana um ótimo, atento e risonho aluno às aulas da sua lógica abstrata.
Até que um dia
Ela se canse da minha companhia
Diga chega e fuja feliz levando meu mundo.
Aliás, nem precisa fugir.
Basta perguntar se a chave
Ainda está na fechadura da porta.
Por que haveria de querer alguém para mim?
Que loucura é essa de querer uma pessoa para mim?
Que a pessoa seja dela própria e a ela somente pertença.
Posso ser um parceiro atuante em seus múltiplos orgasmos,
Um convidado espirituoso aos saraus de sábado, um gentleman
Aos passeios bucólicos de domingo com o sol no rosto e por toda
A semana um ótimo, atento e risonho aluno às aulas da sua lógica abstrata.
Até que um dia
Ela se canse da minha companhia
Diga chega e fuja feliz levando meu mundo.
Aliás, nem precisa fugir.
Basta perguntar se a chave
Ainda está na fechadura da porta.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Enquanto o mundo estiver cansado das suas vidas
Estarei fazendo fogo com os gravetos bifurcados
Das linhas das palmas das minhas mãos.
Não há cansaço
Em iluminar o abismo
Acima do carvão da terra.
Das estrelas pode ser o encanto
Uma ilusão de ótica espacial
Mas não de espírito.
Quem morre
Não brilha
Tanto
Assim.
Um dia, a minha tosse
E os parafusos soltos
Da minha cabeça
Hão de perder o sagrado
E só haverá sentido
O fogo do carvão
Da terra.
Estarei fazendo fogo com os gravetos bifurcados
Das linhas das palmas das minhas mãos.
Não há cansaço
Em iluminar o abismo
Acima do carvão da terra.
Das estrelas pode ser o encanto
Uma ilusão de ótica espacial
Mas não de espírito.
Quem morre
Não brilha
Tanto
Assim.
Um dia, a minha tosse
E os parafusos soltos
Da minha cabeça
Hão de perder o sagrado
E só haverá sentido
O fogo do carvão
Da terra.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Ainda não cuspo sangue,
Mas o coração está ferido.
(Não seja tão dramático, poeta.
Sinta o cheiro das calçadas molhadas,
Olhe pro alto das árvores e descubra algum
Passarinho oculto entre as folhas de oiti. Dou
Um doce se encontrar um só que não esteja de
Varizes trêmulas e beiços roxos e asas dobradas)
Mas o coração está ferido.
(Não seja tão dramático, poeta.
Sinta o cheiro das calçadas molhadas,
Olhe pro alto das árvores e descubra algum
Passarinho oculto entre as folhas de oiti. Dou
Um doce se encontrar um só que não esteja de
Varizes trêmulas e beiços roxos e asas dobradas)
domingo, 12 de abril de 2015
Creio que descerei até o jardim do prédio
Só pra ver como se comportam as flores
Sentindo as minhas mãos quentes e frias.
Amor é quando as flores do jardim
Correm ao encontro do enfermo
Sem comentários sobre
Ontem à noite.
Ninguém precisa saber dos pesadelos de madrugada.
Os cavalos-marinhos acenando com a cabeça adeus aos filhotes.
Só pra ver como se comportam as flores
Sentindo as minhas mãos quentes e frias.
Amor é quando as flores do jardim
Correm ao encontro do enfermo
Sem comentários sobre
Ontem à noite.
Ninguém precisa saber dos pesadelos de madrugada.
Os cavalos-marinhos acenando com a cabeça adeus aos filhotes.
Não é segredo pra nenhum filho de deus
Que o corpo quando prostrado na cama
Sob sua frágil plena qualidade de corpo
Provoca uma atenção especial
E o sujeito questiona-se como
Cargas d'água o caramujo
Chegou até aqui trazendo
Nas costa um templo.
E não me refiro ao templo sagrado da alma.
Andamos cansados de saber que alma é só
Um pensamento poético [alguma coisa que
Dentro não se molha quando tomamos banho].
Que o corpo quando prostrado na cama
Sob sua frágil plena qualidade de corpo
Provoca uma atenção especial
E o sujeito questiona-se como
Cargas d'água o caramujo
Chegou até aqui trazendo
Nas costa um templo.
E não me refiro ao templo sagrado da alma.
Andamos cansados de saber que alma é só
Um pensamento poético [alguma coisa que
Dentro não se molha quando tomamos banho].
sábado, 11 de abril de 2015
Quando eu ainda meninote
Era comum na minha cidade
Ouvir de um estranho (ao ser
Questionado onde trabalhava)
"Viajante, sou viajante." E os
Inquiridores faziam uma cara
De aprovação e assombros,
Como se o estranho pudesse
Ter em seu alforje uma pepita
Ou uma carta do rei de cinco
Estrelas recém-empossado.
Debaixo da mesa, suspirava:
"Um dia, um dia, serei viajante."
Era comum na minha cidade
Ouvir de um estranho (ao ser
Questionado onde trabalhava)
"Viajante, sou viajante." E os
Inquiridores faziam uma cara
De aprovação e assombros,
Como se o estranho pudesse
Ter em seu alforje uma pepita
Ou uma carta do rei de cinco
Estrelas recém-empossado.
Debaixo da mesa, suspirava:
"Um dia, um dia, serei viajante."
Há um tempinho que vago pela casa
(Sete dias?) com o mesmo bermudão.
E nem se trata do meu bermudão-mor de delicadezas
Onde dentro dos bolsos guardo flores secas, búzios
E uma moeda de mil reis encantada.
Emagreci,
Daí o cinto.
Não posso desfilar pela casa
Qual um velhinho risonho
Segurando o cós.
Uma mão tem de estar livre.
Ou pra dar tchau às andorinhas.
Ou pra escrever um ou dois poemas.
(Sete dias?) com o mesmo bermudão.
E nem se trata do meu bermudão-mor de delicadezas
Onde dentro dos bolsos guardo flores secas, búzios
E uma moeda de mil reis encantada.
Emagreci,
Daí o cinto.
Não posso desfilar pela casa
Qual um velhinho risonho
Segurando o cós.
Uma mão tem de estar livre.
Ou pra dar tchau às andorinhas.
Ou pra escrever um ou dois poemas.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Sempre serei a favor
Da queda da Bastilha,
Do rompimento do hímen,
Da espinha na ponta do nariz.
Dentro do meu coração
Nunca caberá o mundo.
A minha alma não queiram.
Pende pro que causa horror.
Vive a um passo do espanto.
Sempre serei a favor
Do Curinga e do lado
Oculto do milagre.
E por curiosa que é a vida,
(Vejam) os passarinhos ainda
Conhecem o caminho de casa.
Da queda da Bastilha,
Do rompimento do hímen,
Da espinha na ponta do nariz.
Dentro do meu coração
Nunca caberá o mundo.
A minha alma não queiram.
Pende pro que causa horror.
Vive a um passo do espanto.
Sempre serei a favor
Do Curinga e do lado
Oculto do milagre.
E por curiosa que é a vida,
(Vejam) os passarinhos ainda
Conhecem o caminho de casa.
Desde cedo
Uma folha de oiti
Dorme sobre meu sofá.
Ainda não tive coragem de tocá-la.
A folha de oiti traz pelo seu corpo
As primeiras brisas da aurora.
Sei disso por que fez frio e bateu vento forte
Dois minutos antes que as nuvens corassem.
Durmo de janela aberta
Por dois motivos, meu bem:
Para ver as nuvens corando
E convidar as folhas de oitis
Ao sono imperturbável de órfãs.
Uma folha de oiti
Dorme sobre meu sofá.
Ainda não tive coragem de tocá-la.
A folha de oiti traz pelo seu corpo
As primeiras brisas da aurora.
Sei disso por que fez frio e bateu vento forte
Dois minutos antes que as nuvens corassem.
Durmo de janela aberta
Por dois motivos, meu bem:
Para ver as nuvens corando
E convidar as folhas de oitis
Ao sono imperturbável de órfãs.
Óbvio que viveria sem pão, sem circo e sem fé.
A ausência da poesia é que seria uma dose letal.
Como enganaria os pombos
Que chegam à minha janela?
Além de dar-lhes atenção
E farelos de bolachas
Tenho de ser tão
Cínico quanto
Eles:
Olhar o céu chuvoso
Dizer que são orvalhos
De nuvens ontem floridas.
A ausência da poesia é que seria uma dose letal.
Como enganaria os pombos
Que chegam à minha janela?
Além de dar-lhes atenção
E farelos de bolachas
Tenho de ser tão
Cínico quanto
Eles:
Olhar o céu chuvoso
Dizer que são orvalhos
De nuvens ontem floridas.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
O boticário vê coisas
Tarde da noite no sótão
Manipulando fragrâncias.
Escapam dos frascos transparentes
Fantasmas de damas francesas
Com seus chapéus de renda
E broches de flores
Secas.
O boticário morre e mata
Por um perfume especial.
Mas neste momento
Uma lagartixa albina
(Dessas pequeninas
Que comem insetos)
Passeando pelo tapete
Debaixo da mesinha
De centro
Oferece-lhe
Mais encanto.
E o boticário alegra-se
Por sentir arrepios
No seu braço.
Tarde da noite no sótão
Manipulando fragrâncias.
Escapam dos frascos transparentes
Fantasmas de damas francesas
Com seus chapéus de renda
E broches de flores
Secas.
O boticário morre e mata
Por um perfume especial.
Mas neste momento
Uma lagartixa albina
(Dessas pequeninas
Que comem insetos)
Passeando pelo tapete
Debaixo da mesinha
De centro
Oferece-lhe
Mais encanto.
E o boticário alegra-se
Por sentir arrepios
No seu braço.
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