quarta-feira, 25 de março de 2015

Sair de casa e voltar para casa
Sem temores distante de ciladas.

(Um reino de delícias
Ao monge que vivia
Seduzido pela
Insensatez)

Nada mais justo.

Afinal, são os monges
Que revelam ao mundo
Os mais cintilantes pagãos.
O meu sonho amoroso
(Desde noviço) foi dividir

Com uma mulher para sempre
Este meu lado tonto de escrever.

Pode até haver luz.
Mas é um ofício de perdas.

E como é urgente
Conversar sobre
As revelações.
Não há como não andar como um rei
Quando a delicadeza da luz não é mais
Nem menos que o simples ato de caminhar:

Pé ante pé,
Os ombros soltos,
E a ponta de um riso
No canto da minha boca.



Vou até a pracinha caminhar dois minutos
E reler "crônica de uma morte anunciada".

Decerto, encontrarei no caminho
Alguns pombos, raios de sol
E quem sabe uma nota
De cem.

Jamais fiz um barquinho de papel
Com uma nota de cem (a textura
Deve ser ótima pra descer
Pela enxurrada
Do meio-fio)
Os lábios trêmulos esquecem
A circunferência lisa
Da xícara.

A lágrima de café
Escorre pelo peito

(Até sumir dentro
Do umbigo)
Mais gentil e doce
Um poeta galinha
Do que um louco
Armado de fuzil.

E sigo buscando
Entre a torcida
Do Flamengo
O meu par.

Correção,
Do Botafogo.

Por vezes, o poema não quer dizer outra coisa
Senão o que está escrito (sem metáforas, sugestões,
Pontes) apenas o que está escrito sob a óbvia clareza.

Não precisamos seguir sempre
O mesmo ritual de tosar um bisão
Pra ver o quão fascinante a musculatura.
Não corras atrás
Do pote de mel.

Planta uma roseira
Na sacada da varanda.
E abre tua janela, rapaz.

Tu não és alérgico
A abelhas.
Compraram o coador de papel apropriado.
O tamanho certo (102). A cafeteira não gosta
De vestir uma túnica longa em seu corpinho enxuto.

E eu tinha que cortar o excesso
Para caber em sua cintura
O espartilho.

Uma maçada.
A poesia beija a sétima vértebra
E desmonta, se desfaz, despenca
O esqueleto aos nossos pés ossos
Sobre ossos: renasce do total acúmulo
De humanidade um pássaro (ou poderia ser
Uma girafa com o seu longo pescoço de espião)

terça-feira, 24 de março de 2015

Se você cheirasse
As minhas mãos
Teria um susto
Da minh'alma.

Foram tantos poemas hoje
Que não quero sair de casa.
"Como você se sente (perguntou
Um gafanhoto a uma borboleta)
Como você se sente com
Esses desenhos e cores
Fascinantes a encantar
A natureza?"

"Só vivo
Um dia"

(Respondeu
A borboleta)

"Lenda, há espécies
Que chegam a nove
Meses de encanto"

(Retrucou o gafanhoto
E afastou-se áspero
Pela folha de goiaba)
As espinhas
Das minhas costas
Entenderam a solidão:

As vermelhas que antes
Eram botões de girassóis
Hoje são singelos cravos.

(Não há pólen
Em saudade
Não sonhada)

Nunca vi passarinhos
Confabulando contra
Os céus (chuvoso
Ou colorido)

O olhar de quem
Triste vê o mal
Pode trazer
O inferno.

Hoje à tarde, um pombo
Deu rasante pela janela
Só pra me mostrar sua
Coroa no pescoço
De lilás, azul,
Vermelho.

A ação desse pombo
Parece um pouco
Como que é
O amor.
Na juventude,
Andava de bar
Em bar perguntando
Quem gostava de poesia.

Não. Detesto. Deus me livre. Fora.
Até que vi uma menina em uma mesa
Distante da banda que tocava Scorpions.

Fui até à mocinha, Perguntei "Você gosta de poesia?"
Sorriu-me a pequena com um riso de mestiça
E respondeu-me "Poetas são loucos que
Adoram falar sozinhos... Eu amo..."

Não tivemos um filho.
Mas eu enlouqueci
E ela perdeu
Um seio.

Triste o fim.
(O tempo juntos
Tão maravilhoso)
Poema não é filho.
(Esclareçamos) Portanto,
Você pode apagá-lo se sentir-lhe
Fragilidade nas asas e pouco interesse.

Usar catapulta para lançar
Um poema aos céus
É mediocridade.

Na maioria das vezes,
O poema bate em alguma coisa
No ar e cai como uma bola de fogo.

Um desastre.

Há poema, entretanto, que rasteja
E se sobressai senhor das sombras:

O sol quando desce
Pelo muro do quintal
Ou as patas de uma
Lagarta-de-fogo
Pelo jarro.
Muita gente supõe-me um canalha.
Até pensa que barulho faria uma faca
Entre minhas costelas. Ainda bem que tenho
Como suporte os corvos da minha floresta sombria.

Serão eles os artífices
De quem me quiser o mal.

E digo mais,
Os meus corvos
Da floresta sombria
Fizeram parte da trupe
Da águia - e como se deliciaram
Do fígado de Prometeus (o ingênuo).
O poeta (quando leve guarda
Atrás da porta as escamas
Das asas e as falanges
Das nadadeiras)

Não procura outro encanto
Senão aproveitar o fogo
Que o consome.

Depois de morto
Serei um alívio,
Sei.

Mas ainda caminho
Pela casa de bermudão.
Você se lembra da moeda da sua infância?
Aquela que você passeava pela quermesse
Apertada na mão (de tão fechada a mão
Os dedos vermelhos e suados)

Você nunca confiou em guardá-la
Dentro do bolso e dava tchau
De punho cerrado.

Descanse.
Não era encantada.

(A poesia é uma grande língua de fora)

Nunca estaremos completos.
A língua é enorme e os sapinhos
Copulam entre si feito loucos férteis.

Os poetas dizem a mesma coisa
Ainda que distantes e em porões.
(A poesia é aliada de almas pares)

Desatado do laço
Só em companhia
De si mesmo.
(Sempre)
(Você queimará, destruirá, eliminará
Do coração o amor e dos olhos a luz?)

O temor já não faz sentido
(Nem a fúria e desalento
Do passado) Tampouco
Espere arroubos pra
Amanhã.

Olhe as linhas das suas mãos.
Suspire. Aqueles navios perdidos
Em alto mar retornam para sua casa
E atracam em seu ventre trazendo soltos
Nos mastros gaivotas, albatrozes, flamingos.


Sinto pesar, mas aos olhos de passarinho,
Um casal que nunca caiu em atração
Pelo desconhecido sob a brisa
De uma manhã de outono,
Não é um casal eleito.
Mas aprisionado.

Pois é natural
Ao homem e à mulher
O arrepio febril por outra pessoa.

Nem que seja
Por um segundo

Enquanto os botões
Das flores de cerejeiras
Caem sobre o gramado do mosteiro.
Até que chegue a noite
Não mexo na minha cama

E o meu lençol dorme
Com as formas do seu corpo.
À medida que a desilusão bate à minha porta,
Oferece-me pano pra manga pra escrever versos.

Eis o grande barato
De caminhar na trilha
De um rio abandonado
Sob ameaça de tempestade.
Como dizem, se o funeral é para os vivos
E nunca pros mortos, deixem passar em paz
O meu cortejo e não façam coro dos meus infortúnios.

Nem atrapalhem
A banda de jazz.

É logo ali, vejam, vejam, vejam
Fazendo a curva na pracinha
O cemitério do vilarejo.
Todas as manhãs
Tenho um compromisso
Inadiável e muito delicado:

Limpar a lágrima de rímel
Do rosto da minha xícara.

(Por ser tão branquinha
A lâmina de café é cruel)
Mais uma vez, desarrumo as minhas coisas.
Jogar o mundo de lirismo fora do meu coração.
E eu que sempre estive pronto aos sonhos, luto
Contra sombras (é desigual) lutar contra sombras.

A sua manhã pode ser mágica:
Bata palmas pra brisa que entra
Pela janela do banheiro e pega-lhe
Desprevenido o tórax e as costelas.

Antes do banho,
O seu sorriso.
Imagino a terra sem flores,
Sem passarinhos e sem varandas.
Mas não consigo imaginar sem saudade.

O primeiro amor (nunca mais)
É aquele que enlouquece poetas
E roubam das suas amadas um seio.
Não ponho uma gota de álcool em minha boca.
(A partir daí, menos de um passo pra felicidade)

O monstro, o lado horripilante da minha alma,
Anda trancafiado e a chave está comigo
Em volta do meu pescoço (acima
Do coração).

São quase duas da madrugada
E se eu não escrevesse poemas
Seria um cavalo-marinho tristonho

Escolha bem os seus inimigos.
Não vá querer amá-los depois
De costurar os nomes em
Bocas de sapos.

Os meus inimigos
Viraram purpurina.

Ainda podemos ver algum
Vaga-lume fora da floresta.


segunda-feira, 23 de março de 2015

E a tosse da minha mãe
Que a cada noite me aflige?

Costumava (quando criança)
Ouvir a da vizinha. Agora,
A sete passos da sala.

Envelhecemos.
As mulheres, enfim, sacaram o jogo.
Não creem mais nem um cílio do poeta.
Nem a moça triste debruçada sobre a janela?
Então. Só se for um poema de Florbela Espanca.


Tudo que quis
Foi plantar um jardim
Com as pontas das unhas.

Acabei me enterrando
Até o pescoço.
O passarinho quando cria fama
Entre as árvores das calçadas
É visto como réu das nuvens.

São só poemas.
Não morras por eles.

Mas pela poesia que gera
Tua energia em pecar
Todos os dias.

Peca,
Meu filho.
Sabe aqueles enfeites com ímã
Que se colam em porta
De geladeira?

(Comentei
Um dia)

Quando caíam no piso de cerâmica
Pensava em você na sua cozinha.

Há três minutos,
A porta se abriu,

Deslizou lentamente, bateu
Na mesa e caiu um dentro
Da poncheira de vidro.

Fez um som maravilhoso.
E já não havia você pra lembrar.
Curioso,
Do machucado
Da gaveta da cômoda
No meu pulso esquerdo
Ficou uma marca de batom.

(Ando pelas ruas de braço erguido pro céu
Mostrando ao mundo meu pulso esquerdo)
Meu rapaz, se você não entender
Da mecânica quântica do segredo
Do sutiã, não perca tempo valioso
Em querer abri-lo: Beije a nuca da
Sua pequena que assim seu amor
(Trêmula) ao contrair os ombros
E costelas´

O sutiã
Cai.
A tosse da minha mãe,
Um passarinho entre
Os galhos de oiti...

(O meu coração divide-se
E pesa os sons)
Os passarinhos
Quando reencontram
O caminho de volta pra casa
Imaginam que a vida será feliz.

Não entendem uma coisa:
A felicidade das nuvens
Também é enganosa.

Só a elas (às nuvens) cabem
As figuram de monstros marinhos
E navios distantes nas linhas das mãos.
Tanta chuva ontem que até as árvores
Da minha calçada correram para minha
Cama e sinceramente nunca desconfiei
Do temor das árvores da minha calçada
Por raios e trovões e choros de crianças.
Como te dizer, minha querida,
Que a gaveta da minha cômoda
Soltou-se do trilho e deixou marcas
No meu pulso esquerdo como se uma
Lâmina enferrujada de Baudelaire tivesse
Realizado um péssimo trabalho de amador.

Não sabia que tinha
Tantos pares de meias.

Agora só falta
Pôr em ordem
Os meus pés.

(O caminho é com os passarinhos)
O poema (inevitável) acordou o pescador,
Levou-o a romper as ondas quebradeiras
Sob tempestade e a morrer em alto mar.

O corpo pesado (no fundo)
E uma ponta de estrela
Saindo da boca.

No bar de Pedim, outros pescadores
Bebiam cachaça e mulheres do morto
Rezavam em suas casas diante de fotografias.

domingo, 22 de março de 2015

Só em descer a escada pra deixar o lixo,
Atravessar a garagem, olhar pro céu
E três gotas de chuva caírem
Dentro dos meus olhos
(Colírio das nuvens)

Basta-me pra
Uma tarde feliz.
Arte é o que as mulheres fazem
Com os dedos: desfazendo
E construindo cachos
No ônibus.

(Até o gran finale
Do último suspiro da nuca
Com liga, grampo ou palito)
A pipa no céu
Pertence ao vento.

(Basta que solte
A linha dos dedos)

Coragem não é enfrentar
Os monstros reais, mas
As figuras intocáveis
Das nuvens.

[Minha mãe apoia o rosto
Contra a grade da janela e olhando a rua
E pensando na sua vida de setenta e nove anos
A minha alma que sente no seu coração a saudade]
Não se trata de hipérbole poética
O passarinho que chega à janela
E traz um grão de nuvem no bico.

Não deveria haver motivo
Pra alegria das suas asas.
Mas nós sabemos por que

Os seus olhos brilham
E nossos cílios ardem.
Parece até que o mundo
Amanheceu com jarrinhos
De cactos e orquídeas sobre
Os parapeitos das janelas abertas.

Não era assim.
Ou estava cego.

Das balas que fujo
As que se alojaram
Nas minhas costas

Não chegam
Ao coração.

sábado, 21 de março de 2015

Não lembro a noite
Em que lavei a louça
Do jantar tão amoroso

Recitando salmos do tempo
Em que cuidava dos filhotes
De andorinhas que caíam dos
Fios de alta tensão. (Só lembro
De que as lavadeiras dos riachos
Da minha infância cantavam blues)