segunda-feira, 23 de março de 2015

São só poemas.
Não morras por eles.

Mas pela poesia que gera
Tua energia em pecar
Todos os dias.

Peca,
Meu filho.
Sabe aqueles enfeites com ímã
Que se colam em porta
De geladeira?

(Comentei
Um dia)

Quando caíam no piso de cerâmica
Pensava em você na sua cozinha.

Há três minutos,
A porta se abriu,

Deslizou lentamente, bateu
Na mesa e caiu um dentro
Da poncheira de vidro.

Fez um som maravilhoso.
E já não havia você pra lembrar.
Curioso,
Do machucado
Da gaveta da cômoda
No meu pulso esquerdo
Ficou uma marca de batom.

(Ando pelas ruas de braço erguido pro céu
Mostrando ao mundo meu pulso esquerdo)
Meu rapaz, se você não entender
Da mecânica quântica do segredo
Do sutiã, não perca tempo valioso
Em querer abri-lo: Beije a nuca da
Sua pequena que assim seu amor
(Trêmula) ao contrair os ombros
E costelas´

O sutiã
Cai.
A tosse da minha mãe,
Um passarinho entre
Os galhos de oiti...

(O meu coração divide-se
E pesa os sons)
Os passarinhos
Quando reencontram
O caminho de volta pra casa
Imaginam que a vida será feliz.

Não entendem uma coisa:
A felicidade das nuvens
Também é enganosa.

Só a elas (às nuvens) cabem
As figuram de monstros marinhos
E navios distantes nas linhas das mãos.
Tanta chuva ontem que até as árvores
Da minha calçada correram para minha
Cama e sinceramente nunca desconfiei
Do temor das árvores da minha calçada
Por raios e trovões e choros de crianças.
Como te dizer, minha querida,
Que a gaveta da minha cômoda
Soltou-se do trilho e deixou marcas
No meu pulso esquerdo como se uma
Lâmina enferrujada de Baudelaire tivesse
Realizado um péssimo trabalho de amador.

Não sabia que tinha
Tantos pares de meias.

Agora só falta
Pôr em ordem
Os meus pés.

(O caminho é com os passarinhos)
O poema (inevitável) acordou o pescador,
Levou-o a romper as ondas quebradeiras
Sob tempestade e a morrer em alto mar.

O corpo pesado (no fundo)
E uma ponta de estrela
Saindo da boca.

No bar de Pedim, outros pescadores
Bebiam cachaça e mulheres do morto
Rezavam em suas casas diante de fotografias.

domingo, 22 de março de 2015

Só em descer a escada pra deixar o lixo,
Atravessar a garagem, olhar pro céu
E três gotas de chuva caírem
Dentro dos meus olhos
(Colírio das nuvens)

Basta-me pra
Uma tarde feliz.
Arte é o que as mulheres fazem
Com os dedos: desfazendo
E construindo cachos
No ônibus.

(Até o gran finale
Do último suspiro da nuca
Com liga, grampo ou palito)
A pipa no céu
Pertence ao vento.

(Basta que solte
A linha dos dedos)

Coragem não é enfrentar
Os monstros reais, mas
As figuras intocáveis
Das nuvens.

[Minha mãe apoia o rosto
Contra a grade da janela e olhando a rua
E pensando na sua vida de setenta e nove anos
A minha alma que sente no seu coração a saudade]
Não se trata de hipérbole poética
O passarinho que chega à janela
E traz um grão de nuvem no bico.

Não deveria haver motivo
Pra alegria das suas asas.
Mas nós sabemos por que

Os seus olhos brilham
E nossos cílios ardem.
Parece até que o mundo
Amanheceu com jarrinhos
De cactos e orquídeas sobre
Os parapeitos das janelas abertas.

Não era assim.
Ou estava cego.

Das balas que fujo
As que se alojaram
Nas minhas costas

Não chegam
Ao coração.

sábado, 21 de março de 2015

Não lembro a noite
Em que lavei a louça
Do jantar tão amoroso

Recitando salmos do tempo
Em que cuidava dos filhotes
De andorinhas que caíam dos
Fios de alta tensão. (Só lembro
De que as lavadeiras dos riachos
Da minha infância cantavam blues)
Quando o homem descobre
Que também tem um útero
E que lá que arde a poesia
Passa a amar as mulheres
Tal como monges e pagãos.

(Escrever versos
É só um detalhe
Pra se aproximar
Da alma feminina)
O poema não salva.
O único antídoto
É prolongar
A morte.

O trovão
Sempre será
Mais assustador

Que os sinos
Do campanário.

Não mudou aquele cheiro de fumaça
Do fogão a lenha da minha infância.

Tampouco o cheiro do fumo
Do cachimbo de minha avó.

São cheiros tiranos
Que me invadem
A alma e por
Delicadeza

Arrebatam-me
E avivam o reino
Da minha memória.
Acredito que ao mudar de casa
As árvores da calçada seguirão
Os meus passos e quando girar
O pescoço voltar minha cabeça
As árvores vão parar, coçar as
Costas, assobiar, como se não
Soubessem do mútuo encanto.

Entrar pela janela do quarto
Ultimamente a elas já é comum.
(Estiram os galhos e me beijam).
O ofício de escrever poemas
Meu bem, não é um ato egoísta.

(Embora a vaidade
Queime os meus olhos
No fundo do abismo colhendo
Aquelas orquídeas de que falei um dia)

Não é cantando a própria alma
Que o universo treme?
O tímido arqueiro
(Uma vez na vida)
Há de lançar a flecha

E esta (sinuosa) dar meia volta.
Por trás, atingir o próprio coração.

Parece uma morte estúpida.
Mas é digna de um trovador.

Agradeço muitíssimo aos cantos dos pássaros
(Ainda que trancafiados na varanda do vizinho)
Somente assim as mulheres de vestido
Que passeiam por minha calçada
Olham pro céu e assustam-se
Com o meu olhar de Sátiro.


Solta-se do alto da copa
Uma folha de oiti e faz firulas,
Levita aos gracejos diante dos meus olhos,
Antes de cair leve e seca sobre a cabeça de uma formiga.

(Agora já chove)
O vaso da mesinha de centro
(Vazio) me dá ideia ao que
Hoje roubarei do jardim
Do prédio.

Azaleias.

E farei de conta (minha especialidade)
Que você estará comigo a escolher
As mais vermelhas e amarelas.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Sexta à noite,
Caçadores vão
À caça de mamutes

Outros ficam dentro da caverna
Pintando as paredes com as mãos

E há as crianças que se encantam
Com aranhas cruzando abismos
Entre livros da estante.

(Estou
Entre elas)
Perdoa-me, se por vezes
Sou tão pateticamente
Galante -

É muito
Enfadonho
E triste

Ter as palavras nas mãos
(Em adornos de ramalhete)
E não oferecê-las às damas.

Seria canalhice das cerejeiras
Não encantassem os meus olhos.
Você me lembra uma freira.
O olhar cândido sob brasa
De uma freira em êxtase
Arrumando a capela.

A sua oração aproxima o pecador
(Graças a meu deus, também
Corre em sua direção
Uma criança)
Há mulheres que nunca meus olhos veem.
O coração chega antes e do alto da colina
Puxa pelos cílios essas mulheres mágicas.

(Eis que se perdem
Os encantados, ai
Dos seu corações)

Tu tens alguma coisa que eu quero.
Sei muito muito bem o que eu quero.

Usa tua intuição de flor,
Adivinha.

(Os jardineiros não se cansam
De falar sozinhos e o jardim
É um grande hospício
Amoroso)
A minha avó
Conheceu
O amor.

De tanto amar
Perdeu a cabeça
Com a morte do amado

E vivia juntando as suas coisas
(Guarda-roupa e baú antigo)
Pra morar com seu velho
Em outra casa.


Até ontem imaginávamos
Que inspiração fosse uma coisa
E carpintaria o oposto do santo que desce.

Diante dos meus olhos
Um pescador começou
A esculpir, moldar, uma
Figura marinha mitológica
Em pedra-sabão e a cada
Corte nos dedos e sorrisos
Compreendi o total deslumbre.
Nunca vi um albatroz. Mas dizem que a envergadura das suas asas
É maior que os extremos dos braços abertos de um estivador etíope.

Em compensação,
Não me canso de lembrar
A graúna da minha infância

Que dançava em volta dos meus pés
E um dia envenenaram-na com coca-cola.
Às vezes, o poema nasce
E não damos conta da sua vida.

Só dizemos que é poema por que
Não é outra coisa que nos emociona.

Quero mais
Um filho.
Um dia você acorda e percebe
Que já se encontrou (daí o motivo
Por viver distribuindo pedaços seus)
A minha irmã é uma santa.
Estarrecida das figuras abstratas
E monstros encardidos pelas cerâmicas
(Há séculos) resolveu ela própria dá um jeito
Em minha apatia: Ao pisar no tapete do banheiro
Tenho a sensação de entrar em um paraíso de nuvens brancas.

(Agora, sim,
Um ambiente sadio
Pro Sátiro tomar banho
Com as suas fadinhas)

O primeiro poema do dia.
E não abri a janela da varanda.

A cafeteira (aos sussurros) acabou
De avisar-me que o seu desígnio se cumpriu
Por mais uma manhã. E que só espera a tarde.

Até lá (ao entardecer) já tenho escrito outros poemas.
Aberto a janela da varanda e bebido cinco
Ou seis xícaras de café.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A poesia em constante
Movimento e desafio
Impede que alguém
Toque fundo
A ferida.

A poesia não é sagrada
Por refúgio de ermitões.

Apenas por que é tolice
Imaginar que se abala
A bruma do pavio.

Além das duas faces
A poesia tem outra
Oculta e inesperada.
Para quem tu deixarás os teus inimigos
No último dia de batalha quando tua mente
Não tiver mais força pra erguer uma bandeira
E empunhar uma espada? Não contes com o coração.
O teu coração nunca fez parte desse jogo de veneno e falácia.

Nem contes com o poeta.
Naquele tempo ébrio, as flores
Traziam ao dia seguinte uma nuvem escura.

Não
Mais.
O porquê
Da lucidez:

Acompanhar
Os raios do sol
Batendo no muro
Do quintal, se o dia
Estiver lindo e claro.

Ou os barquinhos de papel
Pela correnteza do meio-fio,
Se descer aquela tempestade.

E à noite (se conseguir dormir)
Ainda ouvirá um poema trêmulo.
A magia da lâmpada mágica
Não era o sádico altruísmo
Dos três pedidos,

Mas o livre-arbítrio
A qualquer miserável
Em escolher aprisionar
Para sempre o demônio.

As geladeiras antigas mantinham códigos secretos
Com nossas almas. Nunca estávamos sozinhos:
Os murmúrios do motor (tarde da noite)
Eram sinais paternos de vigilância.

E quando chovia,
Fazia gosto andarmos
Descalços até a cozinha.
Quantas vezes você trocou
Os chinelos debaixo da mesa.

O pé direito tentando encaixar-se
No chinelo do outro pé (e vice
Versa).

Viver é isto,
Meu filho:

Trocar os chinelos
Debaixo da mesa
Ao levantar-se.
Antes de escrever poemas
Já vivia obcecado pela luz.

Natural então este
Arrebatamento
De andarilho.

Sobretudo nos últimos dias
Em que a poesia resolveu
Roubar-me o coração.

E segundo ela (a poesia)
Não há dia marcado pra morte.
Espichei o olho
À janela da vizinha.

(Enquanto a doçura
De fones lustrava a vidraça)

Mas como me fazem falta
Os meus óculos antigos.

Fico meio Mr. Magoo
Diante de uma orquídea.
Retirei da varanda
As cadeiras de vime.

Foi rápido o trote da nuvem.
Passou, sorriu, jogou um lençol
Molhado na calçada por cinco minutos.

O bastante pra formar uma lagoa
Onde os peixinhos são folhas de oiti.
Tu não és louco
De mexer na luz.

Das correntezas
Aproveita o embalo
Do barquinho de papel.

Tu és forte, forte, forte.
Mas não precisas mostrar
Teus ombros aos passarinhos.

A leveza da tua alma a florir
É um caso íntimo e particular.

(Nem às andorinhas e graúnas
Há de ser revelado esse amor)
Imagina só,
Dia de São José,
Chuvinha fina na calçada

E o poeta de bermudão (sem camisa)
Passeando pela casa com um sorriso no rosto
Do tamanho de um elefante feliz à beça pra chuchu.

E não me lembro
De haver enterrado um tesouro
Ou escondido na manga um último poema.
Depende do seu olhar
A febril estética do poema.
Não há dias de guerra? Pois.

(Aos últimos dias
Devo a serenidade)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Receba essa boa alma
Que hoje é sua parceira
De escrita e não se larga
Das suas mãos um minuto.

Ofereça o seu coração
Como casa a essa
Boa alma

Que antes vagava
E hoje é sua cúmplice
Em química e carpintaria.

Construam juntos
Um barquinho
De brumas.