quarta-feira, 18 de março de 2015

"Percebeu
Que estou
Mais leve?"

Perguntou
Uma bolinha de sabão
Ao vento que (silencioso)

Abriu
A janela.
Parece-me que o exercício poético
(A cada poema trabalhado e escrito)

Aproxima os pares dispersos que ora
Somos, ora não somos. É muito difícil
Imaginar figuras em um céu sem nuvens.

Mas é possível
À palavra.
A minha tíbia é frágil:
Qualquer encontrão
Com a quina da
Cama,

Parte-se
Ao meio.

Mas também,
Tão romântica:

Beija os travesseiros
E perdoa a bagunça
Do quarto.
Abrir a geladeira
E um delicioso
Perfume

De abóbora
(Ou jerimum)
Invadir a alma

Há um preço:
Um poema
Pra São
José.

Amanhã tem refogado.
Ultimamente a poesia está tão em casa
Que até o que não é do sangue é bem-vindo.

E o coração floresce
Cheio dos rubores.
Estalo os dedos repetidas vezes,
Esfrego os olhos, mordo os lábios.

Não é fissura por heroína.
Mas por palavras.

(Estou livre de matar
Alguém por uma papoula)

E se um dia o anjo caído cansar-se
Do abismo e benzer as escamas
Das asas de fogo?

Em cabo de guerra
A oratória é um alívio.

Nunca tive pudor
Com a poesia.

Nem depois
Que cresceram
As minhas mãos.

E aprendi
Que o punho cerrado
Erguido pro céu é loucura.
O dia venturoso
O dia especial
Da sua vida
É hoje:

Já acordou,
Fez e bebeu
Café, escreveu
Dois ou três poemas.

E da sua varanda viu alguns pombos
Com seus pezinhos jogando bola
De miolo de pão na calçada.

Não precisa de grande expectativa.
O amor são os detalhes desta manhã.

Aquela formiga que joguei pela janela
Conseguiu escalar a varanda, as grades,
As plantas, subiu por minha perna (enquanto
Eu cortava as unhas) beijou meu joelho e na
Ponta do meu nariz, olhou fundo meus olhos,
Pra que minha alma ouvisse, foi taxativa: "Cínico."

"Espirituoso, diria."
Acudiu-me um pombo,
Comendo alguma coisa.

terça-feira, 17 de março de 2015

Esquecer o nome
Da cachorrinha
Do seu amor

É uma falta grave.
Desvio de caráter.

Só um facínora
Muito insensível.

Mas como se chama mesmo
A cachorrinha do seu amor?

Cocadinha?
Biruta?

Não,
Não.
Você mastigava
As casquinhas
De tangerina.

Fazia um rosto
De depravação
E guerras.

Eu ria.

(Louco pra ser
Os seus dentes)

Depois de muito tempo,
Quando não éramos
Mais crianças,

Soube das suas mordidas
Nos meus braços.
Aos ouvidos de uma formiga
A gema do ovo caindo
Na frigideira

É um cataclismo
Ensurdecedor.

Por isso, (gentil)
Ponho um blues,

Enquanto
Preparo
Nosso
Rango.
A última vez
Em que escrevi
Um poema na cama
Engravidei uma mulher.

Hoje em dia,
Esse poema
Tem treze anos.

(Forte e feliz)

segunda-feira, 16 de março de 2015

A poesia
Dá-nos uma força
Que tu nem imaginas.

Lavava a louça da janta
(Matutando em voz baixa
Um poema) quando de súbito
Parti o cabo da concha de feijão.

Voltei a me alimentar.
(A insônia é natural)

Se você
Olhar bem,
Os olhos brilham.

Apaixonado? Sim, de novo
Por outra formiguinha
Do açucareiro.

(Agora ela voa)

Avisei-lhe que tenho
A mania de jogar pela janela
Quem me encanta e me faz feliz.

Não acreditou.
Agora ela voa.
O perfume da primeira namorada
É a minha segunda alma que
Jamais se apartará
Da metafísica.

Às vezes, de bobeira
Lendo um livro ou
Contemplando
O teto

Alguém passa na calçada
Perfumada da minha saudade.
Costumo olhar os anjos com um pé atrás.
Sabe-se lá o que pode escapar das asas.

Clamam que são flores,
Mas podem ser espadas.

(Já dos monstros
Conheço o beijo)
O clímax da poesia
É quando o que pensa
O poeta imagina o leitor.

(Em breve contato
Sem perdas mútuas)

Saem fortes e leves
As mesmas mãos.
"Estás com a cara ótima..." Elogiou-me o espelho
E caminhou de volta ao canto da sala balançando
Ao mesmo tempo os ombros e os pés de madeira.
Deu-me vontade de falar do meu pâncreas e baço.
Desde criança que só me refiro ao coração e escrevo.
Pois nesta tarde faço as honras ao meu pâncreas e baço.

Se tivesse mais um filho seria seu nome Baço.
E se uma filha o seu nome senhorita Pâncreas.

Um casal de filhos
(Pâncreas e Baço)
Lindos, não?

Chega de só falar e escrever do coração.
Claro que o coração tem um lance misterioso
Entre nossa psique, memória e sonhos românticos.

O pâncreas e o baço
Vivem ocultos e felizes
À revelia da alma do poeta.

E hoje são os meus filhos.
Como anda a sua garganta?
Que bom que ler poemas
Não interfere na voz.

Mesmo Camões.

Creio que antes dos olhos
Pousarem sobre os versos

É a voz do coração
Que assume o papel.

E sequer sentimos
A garganta inflamada.
Toda a minha energia
Vive canalizada pra
Carpintaria poética.

Admiro quem sabe
Fritar um ovo ou
Quem anda de
Bicicleta sem
As mãos no
Guidom.

A minha vó era uma índia
Que adorava passar o entardecer
No quintal fumando seu cachimbo.

E o meu avô um senhor
Corpulento, calvo, português

Que gritava da cozinha:
"Cadê o meu caldo,
Minha velha!"

(E eu fugia pulando
O muro do cemitério)
Conheci a felicidade aos nove anos
Ao sentar-me no batente de casa
E assistir aos raios do sol

Saquearem as folhas das formigas
Em cada calçada até beijar
Os meus joelhos.
Nem todas as almas
Pertencem ao Reino.

Aquelas que fogem do Paraíso
Correm o risco de encontrar
A revelação.

O Reino digno do poeta
Há de ser humano e falho
Onde os pecados sobrevoam.

E ainda que morto
A esperança não seja
Uma moeda de troca.

domingo, 15 de março de 2015

Só há uma intenção divina quando o céu escurece,
O tempo fecha, os postes das esquinas apagam-se
E não chove: sensibilizar o poeta pra tirá-lo de casa.

Na rua escura,
Escreve-se poema
Com coragem e clareza.

(Ah, e esse perfume de bananeira
Em minha alma infantil...)
Quando faltava luz
E todos corriam atrás
De fósforos, velas e lampiões:

Eu corria pro meu quarto
Com um pote de pirilampos.

Inventava histórias
De crime e castigo.

(E nem conhecia
Dostoiévski)
Escureceu sobre a minha rua.
(Creio que vem uma tempestade)

Por enquanto, tiro a barba rala
E brilha uma lâmina de sangue.

Penso em você
Nos seus dias
De solidão.
Minha maior alienação
Será sempre a escrita.

Venham à minha casa
Outra tarde e saberão
Ao que me refiro.

Também posso te ensinar uma receita de bolo
Maravilhosa em que só depois do terceiro
Pedaço se notará o cianureto.

E a espuma da boca
Não é um lindo sorriso.
Uma mulher de olheiras
Com aquele olhar sensual
De longa jornada de solidão

Sabe da sua força
Em jogar vôlei
Ou plantar
Um lírio.

Que belo dia
Pra escrever
Um poema.

Cadáveres pelos campos de batalhas
Permitem à poesia outro tipo de silêncio.

Debaixo da cama
Limpo o terreno minado
Dos pés das minhas formigas.
Parece-me que há um poema ainda não escrito.
Outras mãos para beijar e queimar o meu rosto.

Um grito de paz
Dentro d'água.

sábado, 14 de março de 2015

Os poemas de amor
Não guardo mais dentro
Do antigo baú da minha vó.

Estão todos agora
No cofre da parede.

(Atrás do quadro falso)

Tu sabes o caminho.
E também sabes
Como te desviar
Das ratoeiras.
Até que enfim
Encontrei a mulher
Da minha vida: prendia
Os cabelos com um lenço florido
E tinha o sorriso mais doce que cocada
(Aquela vendida na rua da minha infância)

Só estranhei o seu nome: "Solidão
De Nascença das Flores de Cerejeiras".

quarta-feira, 11 de março de 2015

O vigor do último poema
Vem da cama de gato
Que o próximo
Prepara:

Máquina de moer
Que planta cílios.
Um dia vou criar uma tartaruguinha
Só pra vê-la triste e dividir comigo
Toda a sua melancolia.

Nunca vi (meu deus)
Animal mais destemido.

Não me lembro ao certo
Quantos anos tinha
Ao morrer pela
Primeira
Vez.

Sei que a primeira palavra
Levou-me ao túmulo
E o primeiro verso
À embriaguez.



Pode parecer arrogância
A quem escreve poemas
Dando nome à descrença.
Mas é somente ofício.
Como salgar peixes
Ou afiar lâminas.
O desespero que leva
Aos poemas escritos
Assemelha-se à luz

A vagar
Em retinas
De estrelas.

A cada sonho que morre no céu
Nasce um pontinho branco
Na capa da minha unha.
Nada substituirá
A xícara de café
Às 18h.

(Senão outra
Ao teu lado)

Como não passaste de quimera
Fico então com a xícara de café.
Vejo que não existe luta
Entre deus e o demônio.

A origem da energia
Que move minhas mãos
Parte de um mesmo vazio.

Outra vida? já me cansa esta.
E eu adoro-a [do meu jeito]
Beijando os pés do louco
Que suponho também
O sensato.

terça-feira, 10 de março de 2015

Prestou atenção
Que há poemas
A nos queimar
O intestino?

A poesia faz com que
As coisas explodam

E peguem fogo
Dentro da gente.

Aliás, se o poema
não nos queima
o intestino
não vale:

O poema é como o ciúme.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tive tempo de anjos.
De bons e doces anjos.

Nunca de amigos.
(Aquela espera feliz)

Em tal tragédia
Há um certo glamour:
Posso me ferir em paz.

(Os anjos
São menos
Que amigos)
Uma mulher de vestido
Caminhando por minha calçada
Deixa-me de juízo lasso e vacilante.

E eu grito da varanda: "Não pisa!
Olha a lagartinha-de-fogo!"

Uma calçada chuvosa.
Uma mulher de vestido.
Uma lagartinha-de-fogo.
Concluo que não se pode mudar a natureza escrevendo versos.
Se meu coração é falho e medíocre, cabem-me a fúria e solidão.
Enterrar de vez os passarinhos que viviam entre minhas costelas.

Só em pensar
Em levantar-me
Pra trocar a água
Da plantinha da sala:

Quão custoso e quão enfadonho.
(Morre um braço, morre uma perna)
Os versos tortos
Não por falta
De fé.

Tenho fé e clareza
Ao abismo que sigo.

As lágrimas borram os meus pulsos.
(E são lágrimas sujas que não se alvejam)
A chuva abre em meu peito
Uma ferida de loucura e dor.

(Das cartas que dobrei
E viraram barquinhos
Em correntezas
De meio-fio)

A poesia já não é desculpa
Pra uma boa morte.

terça-feira, 3 de março de 2015

(Não tenho defesas.
O meu coração é um corpo aberto.)

Quando nascemos uma voz é ungida em nosso coração.
Com o tempo, e ausência de sonhos, essa voz sobe.
E agarra-se à mente.

Passa a mente a ouvir
Tantas outras vozes.

É chegado então o momento
De escrever poemas, seu moço.