Normalmente o homem não visita a companheira na prisão.
Fogem, somem do mapa. Uns canalhas. Mas não foi pra mim
Nenhum sacrifício vê-la todos os dias marcados com a sacola
Recheada das suas coisinhas: frutas frescas, seu doce caseiro,
Seus cigarros, suas roupinhas que eu mesmo engomava e tingia.
Deve ser triste jogada em um buraco
Sem notícias de quem se quer bem,
Solitária, a mente em parafusos.
Vontade de matar
O próprio deus, né?
E todos os dias marcados,
Lá estava seu poeta na fila.
A sacola na mão
E ultimamente até
Poemas de Neruda
Decorados pra você.
Imagine o aperto
Do meu coração
Quando vi tatuado
No seu antebraço
O nome "D'arcão".
Quem é D'arcão,
Meu amorzinho?
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Hábitos
Meu amor, acredita que só hoje
Descobri que é o terceiro botão
Do interruptor a lâmpada da sala?
Antes, ficava aéreo
Entre o primeiro
E o último
Botão.
Coisa simples, sei, amor,
Mas quando estou sob
Processo de criação
Só em levantar-me
Quebra-se o encanto.
Descobri que é o terceiro botão
Do interruptor a lâmpada da sala?
Antes, ficava aéreo
Entre o primeiro
E o último
Botão.
Coisa simples, sei, amor,
Mas quando estou sob
Processo de criação
Só em levantar-me
Quebra-se o encanto.
Das epifanias
Não me lembro do nome do coveiro
Que passava pela minha calçada
Com as botas sujas de terra
E um olhar estranho.
Éramos criança (eu e minha calçada)
E esperávamos o coveiro passar
Com suas botas sujas de terra.
Os vizinhos sorriam para o coveiro
Respeitosos com aquele homem
Que enterrara seus parentes.
O coveiro já bem velhinho,
Encurvado das almas
E dos túmulos,
Respondia sempre com uma boa noite inaudível
E passava sereno com suas botas sujas de terra.
O que nós adorávamos (eu e a minha calçada)
Era o som das suas botas com hastes de flores
Ainda presas no solado. Sabia que além de coveiro
Aquele homem velhinho que enterrara meus parentes
Também cuidava do jardim do cemitério e dos jazigos.
Aquela terra que o coveiro deixava
Pela minha calçada quando criança
Alegrava-me a noite e dormia pensando
Se todos coveiros eram jardineiros e se andavam
Com aquelas botas em que presas as hastes
De flores lançavam um perfume
De terra sagrada
E um barulho
De encanto.
A minha calçada nunca me respondeu.
Ao outro dia era mais importante a chuva.
Que passava pela minha calçada
Com as botas sujas de terra
E um olhar estranho.
Éramos criança (eu e minha calçada)
E esperávamos o coveiro passar
Com suas botas sujas de terra.
Os vizinhos sorriam para o coveiro
Respeitosos com aquele homem
Que enterrara seus parentes.
O coveiro já bem velhinho,
Encurvado das almas
E dos túmulos,
Respondia sempre com uma boa noite inaudível
E passava sereno com suas botas sujas de terra.
O que nós adorávamos (eu e a minha calçada)
Era o som das suas botas com hastes de flores
Ainda presas no solado. Sabia que além de coveiro
Aquele homem velhinho que enterrara meus parentes
Também cuidava do jardim do cemitério e dos jazigos.
Aquela terra que o coveiro deixava
Pela minha calçada quando criança
Alegrava-me a noite e dormia pensando
Se todos coveiros eram jardineiros e se andavam
Com aquelas botas em que presas as hastes
De flores lançavam um perfume
De terra sagrada
E um barulho
De encanto.
A minha calçada nunca me respondeu.
Ao outro dia era mais importante a chuva.
sábado, 24 de janeiro de 2015
Tarde de sexta e suas minúcias
As mulheres felizes da aldeia
São simpáticas, mas as loucas
Que seduzem o pescador de ostras.
(Que canalha, ainda limpa a barba rala
No pano de prato - antes de ir pro mar)
São simpáticas, mas as loucas
Que seduzem o pescador de ostras.
(Que canalha, ainda limpa a barba rala
No pano de prato - antes de ir pro mar)
Alinhos
O poeta cercado
De si por todos
Os cantos
Ainda pensa
Que não é sua
A voz que ouve.
E trabalha com os poemas
(Única forma de não barbárie)
A extrair da cabeça os coágulos.
E flores
Amarelas.
De si por todos
Os cantos
Ainda pensa
Que não é sua
A voz que ouve.
E trabalha com os poemas
(Única forma de não barbárie)
A extrair da cabeça os coágulos.
E flores
Amarelas.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Reviravolta e meia
é só um poema,
mas mata.
então trate
de achar
aquela abotoadura
do seu terno cinza
(o mesmo do
casamento)
mas mata.
então trate
de achar
aquela abotoadura
do seu terno cinza
(o mesmo do
casamento)
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Teoria do coração
Atenta-te
Aos batuques
Do teu coração:
Ora raios,
Ora orvalho.
Ainda duvidas
Da vida à parte
Que parte árvores
E umedece pétalas?
Aos batuques
Do teu coração:
Ora raios,
Ora orvalho.
Ainda duvidas
Da vida à parte
Que parte árvores
E umedece pétalas?
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Jornada
Pare de viajar, moço poeta,
Vista-se com aquele seu terno de casamento,
Chapéu panamá do seu avô e dirija-se à pracinha.
Pendure sobre o banco
(Do seu primeiro beijo)
A sua alma.
E chega de anseios, suspiros,
Costelas quebradas todos os dias.
Vista-se com aquele seu bermudão
De caçar borboletas e lagartixas
(Pulando túmulos) e escreva
Uma carta de ais e uis.
Escreva a carta umedecendo o bico da pena
Dentro do frasquinho do seu licor de tamarindo.
E não beba.
(Só depois
Da carta)
Vista-se com aquele seu terno de casamento,
Chapéu panamá do seu avô e dirija-se à pracinha.
Pendure sobre o banco
(Do seu primeiro beijo)
A sua alma.
E chega de anseios, suspiros,
Costelas quebradas todos os dias.
Vista-se com aquele seu bermudão
De caçar borboletas e lagartixas
(Pulando túmulos) e escreva
Uma carta de ais e uis.
Escreva a carta umedecendo o bico da pena
Dentro do frasquinho do seu licor de tamarindo.
E não beba.
(Só depois
Da carta)
Altar
Acontece dos meus passos
Antecederem os meus olhos.
Avisto as calçadas de longe,
Enquanto já caminho distante.
Não sei, seu Pedro ou seu João.
Mas a morte tem um caminhado
Meio trôpego e íngreme (de lado)
Quando vou morrer?
No dia de seu Nunca.
Escrevi muitos versos
(Bons e ruins) a morte
Perdeu contato.
Antecederem os meus olhos.
Avisto as calçadas de longe,
Enquanto já caminho distante.
Não sei, seu Pedro ou seu João.
Mas a morte tem um caminhado
Meio trôpego e íngreme (de lado)
Quando vou morrer?
No dia de seu Nunca.
Escrevi muitos versos
(Bons e ruins) a morte
Perdeu contato.
A solidão da casa
Atrás de um quadro
Havia um reino
De cupins.
(Nem silêncio dos corpos)
Só caminhos de fuligem
Das pegadas de outrora.
Havia um reino
De cupins.
(Nem silêncio dos corpos)
Só caminhos de fuligem
Das pegadas de outrora.
sábado, 17 de janeiro de 2015
O senhor coração e seus sobressaltos
O coração de um pescador em alto mar
É tão delicado e cheio de surpresas,
Baby
Que em um dia de sol ou chuva
Pode acordar com um buquê
De rosas brancas
Pra Yemanjá
E mergulhar com a oferenda
Entre os dentes, depositar
Dentro de uma concha
(Onde adormecem
Teus olhos de jabuticabas)
Prendendo a respiração
Até ouvir os cantos
(Secretos) do seu
Amor.
É tão delicado e cheio de surpresas,
Baby
Que em um dia de sol ou chuva
Pode acordar com um buquê
De rosas brancas
Pra Yemanjá
E mergulhar com a oferenda
Entre os dentes, depositar
Dentro de uma concha
(Onde adormecem
Teus olhos de jabuticabas)
Prendendo a respiração
Até ouvir os cantos
(Secretos) do seu
Amor.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Música
Há manhãs em que o pescador
Olha o mar, espreguiça-se,
Sorri de canto de boca,
Volta pra casa.
De dentro do bolso
Do seu bermudão
Vê-se a ponta
De uma carta
Bordada
A lírios.
(O pescador escreverá poemas
Remendando a rede de pesca)
Olha o mar, espreguiça-se,
Sorri de canto de boca,
Volta pra casa.
De dentro do bolso
Do seu bermudão
Vê-se a ponta
De uma carta
Bordada
A lírios.
(O pescador escreverá poemas
Remendando a rede de pesca)
domingo, 11 de janeiro de 2015
Bipolar Afetivo
Um raio de luz
Atravessou-me
O coração:
Vi de perto
O amor.
E já morria o sol da tarde
Pelas grades da minha varanda.
Atravessou-me
O coração:
Vi de perto
O amor.
E já morria o sol da tarde
Pelas grades da minha varanda.
sábado, 10 de janeiro de 2015
escreva um poema e volte pra cama
Meu coração tem um olhar de serial killer
De afugentar meio mundo que gosta de mim
Quando acorda sozinho e caminha até a janela.
E por lá fica olhando a rua
(Horas a fio olhando o fim
Da rua) que leva
À sua casa.
De afugentar meio mundo que gosta de mim
Quando acorda sozinho e caminha até a janela.
E por lá fica olhando a rua
(Horas a fio olhando o fim
Da rua) que leva
À sua casa.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
tristão
Dizem que um pássaro a chorar
Voa mais alto que os outros
Felizes.
Conheci um corvo
(Quando criança)
Que dançava
Em volta
Dos meus pés.
Nunca chorou
Esse corvo.
Um dia amanheceu morto
Com a janela da gaiola aberta.
Voa mais alto que os outros
Felizes.
Conheci um corvo
(Quando criança)
Que dançava
Em volta
Dos meus pés.
Nunca chorou
Esse corvo.
Um dia amanheceu morto
Com a janela da gaiola aberta.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Ronin
O meu coração
É um samurai
Honrado.
Quando peca
(Desonra o amor)
Ajoelha-se e corta
Ao meio o ventre.
É um samurai
Honrado.
Quando peca
(Desonra o amor)
Ajoelha-se e corta
Ao meio o ventre.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Tardes
A poesia repete-se
Todos os meus dias.
Buscar gravetos em floresta escura.
Fazer fogo com as linhas das mãos.
Essas coisas,
Meu amor.
(Nunca cansativas)
Todos os meus dias.
Buscar gravetos em floresta escura.
Fazer fogo com as linhas das mãos.
Essas coisas,
Meu amor.
(Nunca cansativas)
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Boas Novas
A mais sincera lembrança da minha existência
Não serão meus ais, meus suspiros e espantos.
Nenhum poema.
Nenhum amor.
A mais legítima lembrança da minha existência
É o fio de cabelo do meu púbis desenhado
Em forma de coração no meu sabonete.
Não serão meus ais, meus suspiros e espantos.
Nenhum poema.
Nenhum amor.
A mais legítima lembrança da minha existência
É o fio de cabelo do meu púbis desenhado
Em forma de coração no meu sabonete.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Segunda metade do século XIX
Entre uma garrafa de vinho
E uma vodca com Dostoiévski
Avaliamos o ano que já se finda.
O russo diz que tem saudade
Dos campos da sua infância.
Pergunto se ele jogava baralho
Naquele tempo ou se namorava.
O russo anda triste
Com as feridas
Dos pés.
Não me responde.
Caminha absorto
Pela floresta.
Grãos de neve
Caem sobre
Seu capote.
E uma vodca com Dostoiévski
Avaliamos o ano que já se finda.
O russo diz que tem saudade
Dos campos da sua infância.
Pergunto se ele jogava baralho
Naquele tempo ou se namorava.
O russo anda triste
Com as feridas
Dos pés.
Não me responde.
Caminha absorto
Pela floresta.
Grãos de neve
Caem sobre
Seu capote.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Visita de um monge peregrino
Imaginem quem chegou agora à janela da varanda.
Canta enlouquecido das vertigens dos céus e voos.
Penso que esse pássaro (não me seduz saber
A sua espécie) às vezes me suplica água.
E eu (patife)
Ofereço-lhe
Poema.
Canta enlouquecido das vertigens dos céus e voos.
Penso que esse pássaro (não me seduz saber
A sua espécie) às vezes me suplica água.
E eu (patife)
Ofereço-lhe
Poema.
Epifanias de um ogro
Tenho mania de querer enxergar
A alma da mulher pelo seu corpo.
(Só aos vestidos finos e transparentes
Os meus olhos tocam sedas e nuvens)
A alma da mulher pelo seu corpo.
(Só aos vestidos finos e transparentes
Os meus olhos tocam sedas e nuvens)
Infância
À beira do abismo a pipa colorida
Encantava o telhado antigo
Do casarão dos meus avós.
Não consegui buscá-la.
Mas foi selado o amor
Entre as palavras
E minhas mãos.
Encantava o telhado antigo
Do casarão dos meus avós.
Não consegui buscá-la.
Mas foi selado o amor
Entre as palavras
E minhas mãos.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Quarto
Dois poemas mortos
Por minhas mãos
Não é sacrifício.
Já apaguei milhares
Dos meus ombros
E vista.
(Outro dia agradecerei
E saberei assentar
O meu santo)
Por minhas mãos
Não é sacrifício.
Já apaguei milhares
Dos meus ombros
E vista.
(Outro dia agradecerei
E saberei assentar
O meu santo)
Pétalas em flor
Inacreditável, mas o jardineiro (apaixonado)
Esquece completamente as suas obrigações.
As suas mãos só seguem
O caminho das coxas
Da sua amada.
E quando pensa em molhar o jardim da praça
O outro jardim ensopa seus dedos de encantos.
Esquece completamente as suas obrigações.
As suas mãos só seguem
O caminho das coxas
Da sua amada.
E quando pensa em molhar o jardim da praça
O outro jardim ensopa seus dedos de encantos.
sábado, 27 de dezembro de 2014
Galante
Cedo ou tarde acordo
E o poema acorda junto:
Beija-me mãos, rói-me unhas,
Coça-me as costas com os cílios.
O poema é uma extensão do meu corpo.
(Esta manhã tirei o dia pra seguir formigas)
E o poema acorda junto:
Beija-me mãos, rói-me unhas,
Coça-me as costas com os cílios.
O poema é uma extensão do meu corpo.
(Esta manhã tirei o dia pra seguir formigas)
celeiro de margaridas
Se uma mente vazia
É a casa do diabo,
O coração vazio
É o próprio
Inferno.
Limpe as suas gavetas,
Mas nunca jogue fora
Os poemas antigos.
É a casa do diabo,
O coração vazio
É o próprio
Inferno.
Limpe as suas gavetas,
Mas nunca jogue fora
Os poemas antigos.
Azaleias de um santo
Da outra margem
Jogo o meu braço.
Agora, poderás
Atravessar o rio.
O amor é um braço
Sobre as correntezas.
Jogo o meu braço.
Agora, poderás
Atravessar o rio.
O amor é um braço
Sobre as correntezas.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Arte final
Enquanto você dorme
Desenho os seus pés
Sobre meu colo.
Logo que acorde
Pisará em nuvens.
(Serão minhas costelas)
Desenho os seus pés
Sobre meu colo.
Logo que acorde
Pisará em nuvens.
(Serão minhas costelas)
Tonel de carvalho
Desde o tempo
Em que quebrava
As pontas do lápis
E fazia calos nos dedos
Da minha máquina de escrever
Que tento refinar os meus poemas.
No final, quem apura cada verso é o leitor.
(Claro, meu anjo, que o olhar do poeta cega)
Em que quebrava
As pontas do lápis
E fazia calos nos dedos
Da minha máquina de escrever
Que tento refinar os meus poemas.
No final, quem apura cada verso é o leitor.
(Claro, meu anjo, que o olhar do poeta cega)
Vívido
Quando o poema pesa
Eu penso que sou ave.
Vou até a varanda
E pulo de guarda-
Chuva ou capa
De plástico.
Sabe aquele plástico
Que adoramos espocar
As bolinhas? Pois então.
Eu penso que sou ave.
Vou até a varanda
E pulo de guarda-
Chuva ou capa
De plástico.
Sabe aquele plástico
Que adoramos espocar
As bolinhas? Pois então.
Cântico
Não há como colher grãos de tempestades
Se não abrirmos os olhos e entrarmos
No olho do furacão.
Os pedaços da gente
Ainda que se confundam
Com pedaços de outros seres
São ossos de homens e mulheres.
Humanamente,
Sem traços
Do além.
Minha fuga há de ser nesta terra.
Neste mundo. Admirando
As artérias das mãos.
Se não abrirmos os olhos e entrarmos
No olho do furacão.
Os pedaços da gente
Ainda que se confundam
Com pedaços de outros seres
São ossos de homens e mulheres.
Humanamente,
Sem traços
Do além.
Minha fuga há de ser nesta terra.
Neste mundo. Admirando
As artérias das mãos.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Cafeteira
Minha cafeteira deve ter cerca de oito anos.
Não sei qual a equivalência entre a idade
De uma cafeteira e a do humano.
Talvez, a cada ano de vida de uma cafeteira
Seis anos da gente. Logo, a cafeteira de casa
É uma jovem senhora de quarenta e oito anos.
Distinta. (Só não gosta
De fazer amor em silêncio).
Adora uns sussurros
Quando faz meu café.
(E passo por perto dela)
Não sei qual a equivalência entre a idade
De uma cafeteira e a do humano.
Talvez, a cada ano de vida de uma cafeteira
Seis anos da gente. Logo, a cafeteira de casa
É uma jovem senhora de quarenta e oito anos.
Distinta. (Só não gosta
De fazer amor em silêncio).
Adora uns sussurros
Quando faz meu café.
(E passo por perto dela)
a promiscuidade pode ser delicada
O lenço que tu enxugas teus olhos
Se tu imaginasses que nesse lenço
Guardei filhos que nunca vingaram.
E sinto uma espécie de gozo
De assistir a meus filhos órfãos
Sendo conduzidos por tuas lágrimas.
(Até os lábios)
Se tu imaginasses que nesse lenço
Guardei filhos que nunca vingaram.
E sinto uma espécie de gozo
De assistir a meus filhos órfãos
Sendo conduzidos por tuas lágrimas.
(Até os lábios)
Bodas de lírios
Desamparo, meu bem, conhecerás ao chegar aflita
(Fraca e débil da tua ressaca) e não encontrar uma alma viva.
Sequer um bilhete preso à porta da geladeira. Um travesseiro
Rasgado ao meio. Um copo de conhaque jogado no tapete da sala.
Nem um grito dentro das gavetas.
Nem um gesto mais brusco pelos cantos.
Nem o espelho quebrado manchado do meu sangue.
Só o meu perfume
No centro da casa.
De quem já foi
E levou os sapatos.
(Fraca e débil da tua ressaca) e não encontrar uma alma viva.
Sequer um bilhete preso à porta da geladeira. Um travesseiro
Rasgado ao meio. Um copo de conhaque jogado no tapete da sala.
Nem um grito dentro das gavetas.
Nem um gesto mais brusco pelos cantos.
Nem o espelho quebrado manchado do meu sangue.
Só o meu perfume
No centro da casa.
De quem já foi
E levou os sapatos.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
A Ceia do meu bem
O meu ofício
De fazer poemas
Não tem tanto glamour.
Cigarro entre os dedos,
Uma garrafa de uísque,
Olhar charmoso distante:
Quimeras, minha querida.
Escrevo poemas sem camisa.
De bermudão. Com palito nos dentes.
(O máximo uma xícara de café ao lado)
Não há ouro dentro dos meus bolsos.
Nem mágica nas palavras que escrevo.
Basta-me aquele olhar de quem parte.
De quem diz adeus mil vezes e não parte.
De fazer poemas
Não tem tanto glamour.
Cigarro entre os dedos,
Uma garrafa de uísque,
Olhar charmoso distante:
Quimeras, minha querida.
Escrevo poemas sem camisa.
De bermudão. Com palito nos dentes.
(O máximo uma xícara de café ao lado)
Não há ouro dentro dos meus bolsos.
Nem mágica nas palavras que escrevo.
Basta-me aquele olhar de quem parte.
De quem diz adeus mil vezes e não parte.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Crepúsculo
Parece que perdi outra alma.
Sempre a mesma sensação de perda
Quando bebo meu café antes do sol morrer
Nas grades da varanda. (As páginas de um livro
De um escritor da segunda metade do século XIX
Gordurosas dos meus dedos. Isso já é outra morte).
Sempre a mesma sensação de perda
Quando bebo meu café antes do sol morrer
Nas grades da varanda. (As páginas de um livro
De um escritor da segunda metade do século XIX
Gordurosas dos meus dedos. Isso já é outra morte).
Botequim
O poema de amor é livre
Para ser tatuado nas costas
De uma gaivota ou serpente.
O poema de amor
Há de ser fantástico
Tais as cartas
De Fernando
Pessoa.
Ou as epístolas
De um padre
Pro filho
Pagão.
O poema de amor é como perder
Um amendoim no tapete da sala.
E nunca mais encontrar.
E se encontrar, já não servir.
Para ser tatuado nas costas
De uma gaivota ou serpente.
O poema de amor
Há de ser fantástico
Tais as cartas
De Fernando
Pessoa.
Ou as epístolas
De um padre
Pro filho
Pagão.
O poema de amor é como perder
Um amendoim no tapete da sala.
E nunca mais encontrar.
E se encontrar, já não servir.
Éden
Prova de amor pra um Sátiro
É deixar a marca do batom da amada
No seu casco de bode por toda a eternidade.
Nem que as outras ninfas o crucifiquem
Aos pedaços pelas cerejeiras dos bosques.
É deixar a marca do batom da amada
No seu casco de bode por toda a eternidade.
Nem que as outras ninfas o crucifiquem
Aos pedaços pelas cerejeiras dos bosques.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Fábulas de um caolho
Quando amo
Paira a certeza
Da minha morte.
Meu coração (arguto)
Tenta enganar a mente:
"Sonha, poeta, sonha..."
Mas é só na morte que penso.
Não há como viver
Com esse peito
Acelerado.
Um segundo
Pra bater asas.
Paira a certeza
Da minha morte.
Meu coração (arguto)
Tenta enganar a mente:
"Sonha, poeta, sonha..."
Mas é só na morte que penso.
Não há como viver
Com esse peito
Acelerado.
Um segundo
Pra bater asas.
perfume secreto dos clãs apaixonados
Tinha o hábito, meu bem,
De fazer ritual com as plantinhas da varanda
Juntando à água da chuva pedacinhos das minhas unhas.
Acreditava que ao aguá-las
Com essa poção mágica
Uma mulher especial
Furaria meus olhos.
E tu acendeste
A minha alma.
Ah, como é divino andar cego pela casa
Tropeçando na mesa redonda de vidro
E pedindo perdão por tanto amor.
De fazer ritual com as plantinhas da varanda
Juntando à água da chuva pedacinhos das minhas unhas.
Acreditava que ao aguá-las
Com essa poção mágica
Uma mulher especial
Furaria meus olhos.
E tu acendeste
A minha alma.
Ah, como é divino andar cego pela casa
Tropeçando na mesa redonda de vidro
E pedindo perdão por tanto amor.
Alforje de sátiros
Ao primeiro encontro
Guardarei pra ti
(Sem medo)
Meus dentes amarelos.
Meus cabelos brancos.
As unhas dos pés
Enormes.
Só não levo este meu olhar triste.
Pois vejo que mudou um pouco
Meu jeito de olhar o mundo
E não fazer a barba.
Guardarei pra ti
(Sem medo)
Meus dentes amarelos.
Meus cabelos brancos.
As unhas dos pés
Enormes.
Só não levo este meu olhar triste.
Pois vejo que mudou um pouco
Meu jeito de olhar o mundo
E não fazer a barba.
Religião
Será um duro golpe
Ao pássaro que crê
Em eternidade
Diante das suas asas
(Só os finos gravetos)
Alimento das formigas.
Entenderá o pássaro
Que o eterno já acontecera
A cada nuvem de chumbo e névoa.
Agora é tempo do renascimento das formigas.
Vê-las andando pela mesa com ares de arcanjo.
Olhos
De fogo
E perdão.
Ao pássaro que crê
Em eternidade
Diante das suas asas
(Só os finos gravetos)
Alimento das formigas.
Entenderá o pássaro
Que o eterno já acontecera
A cada nuvem de chumbo e névoa.
Agora é tempo do renascimento das formigas.
Vê-las andando pela mesa com ares de arcanjo.
Olhos
De fogo
E perdão.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Crioula Blues
O poeta feliz seria um desastre:
O sinal de carne dentro do olho,
O corte da gillette no pulso direito,
O andado trôpego de um náufrago,
O universo que tu amas,
Amor, deixaria de existir.
Diz-me se as nuvens cinzentas
Não brilham mais dentro da alma.
O sinal de carne dentro do olho,
O corte da gillette no pulso direito,
O andado trôpego de um náufrago,
O universo que tu amas,
Amor, deixaria de existir.
Diz-me se as nuvens cinzentas
Não brilham mais dentro da alma.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Laboratório
Por muito tempo
Imaginei que a alma
Vivesse dentro dos olhos.
E olhava pessoas
A causar espanto.
Hoje, antes dos olhos,
Vejo primeiro as mãos.
Os gestos.
(As palavras)
As mãos
Que indicam
Se a alma mente.
Imaginei que a alma
Vivesse dentro dos olhos.
E olhava pessoas
A causar espanto.
Hoje, antes dos olhos,
Vejo primeiro as mãos.
Os gestos.
(As palavras)
As mãos
Que indicam
Se a alma mente.
Sisudo
O sol bate na toalha
De símbolos natalinos.
Um ursinho pula.
Dois ursinhos pulam.
Três ursinhos (não vou contar
A toalha inteira) basta dizer que o sol
Bate na toalha verde de símbolos natalinos.
De símbolos natalinos.
Um ursinho pula.
Dois ursinhos pulam.
Três ursinhos (não vou contar
A toalha inteira) basta dizer que o sol
Bate na toalha verde de símbolos natalinos.
Artífice dos Querubins
Aguardo o poema
Enquanto a poesia
Beija os meus pés:
É um jovem senhor
Esse vento que entra
Pela janela da varanda.
Traz na mão uma pinga.
E um relógio de bolso
Preso à cintura.
Parece meu pai
Após esculpir
Seus anjos.
Meu pai tapava-me os olhos
Com os seus dedos trêmulos.
Só depois de traçar
A musculatura das asas
Dos seus anjos de cemitério
Dizia-me que ainda faltava o olhar.
Meu pai nunca esqueceu
O olhar melancólico
Dos seus anjos
De jazigo.
Sabia como ninguém
Cinzelar a tristeza dos céus.
Enquanto a poesia
Beija os meus pés:
É um jovem senhor
Esse vento que entra
Pela janela da varanda.
Traz na mão uma pinga.
E um relógio de bolso
Preso à cintura.
Parece meu pai
Após esculpir
Seus anjos.
Meu pai tapava-me os olhos
Com os seus dedos trêmulos.
Só depois de traçar
A musculatura das asas
Dos seus anjos de cemitério
Dizia-me que ainda faltava o olhar.
Meu pai nunca esqueceu
O olhar melancólico
Dos seus anjos
De jazigo.
Sabia como ninguém
Cinzelar a tristeza dos céus.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Os anjos de libra
Os anjos da terra
São aqueles anjos
Que cansados
Dos céus
Escolheram
Ser musas.
Algumas delas (até hoje)
Cuidam dos sonhos
Do seu poeta.
São aqueles anjos
Que cansados
Dos céus
Escolheram
Ser musas.
Algumas delas (até hoje)
Cuidam dos sonhos
Do seu poeta.
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