segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cajado De Bambu

I
Pra um nó perfeito
De gravata Windsor
O bico de um corvo
É um primor.
II
Não desejo
72 virgens.
Basta-me
A juventude
Que tive, exceto
As espinhas do rosto
E o tamanho do pinto.
III
O poeta não é um agente
Do FBI nem asceta.
Mas tem um
Nariz curioso.
Não deixaria uma ruiva
Despida na cama
Trêmula
Só porque tirou
Da gaveta um frasquinho
De pó.
IV
O poeta matou
Três encostos
Com um garrote
De nylon.
Agora vive livre
Pra orar em paz.
V
Rosto de anjo
Com espada
Em punho,
Digo:
Não me
Atentem.
Quebrei meus
Dedos pra não
Erguer uma taça
De vinho.
VI
A gente lê
Coisas incríveis
Que morre de vergonha
Dos nossos escritos.
Já é hora
De uma nova
Fogueira.
Ofereço meu
Pescoço à lâmina.
VII
Não por amá-la
Tenho ciúme:
Tenho cacete
E fúria no coração.
[Sabemos da crueldade
Do cinismo do viciado]
VIII
Deixei o ratinho
Comer todas as
Bolachas que
Escondi.
Perdoá-lo
Seria meu fim.
Entre ratos amigáveis
Só existem ossos
Das faces.
IX
“Só quero florir
No meu deserto”
Soa como se
Desejasse
Um tabefe
O asceta.
X
Poeta bacana
É maquiavélico
E usa os sapatos
De Carlos Drummond
De Andrade.
Aquele riso
Não é a imortalidade?
XI
À poesia devo
O meu fim.
E não há cretinice
Mais justa que
A morte.
Igual às outras.
XII
Quando sorria
E te escrevia
Era fraude.
Pigmeu de pernas
De pau não ilude
As estrelas.
XIII
Os sonhos são doces.
Tenho tomado banho.
Escovado os dentes.
E ainda comi
Um biscoitinho
Que o rato
Esqueceu.
XIV
Fumar controlado
Cigarro de nicotina
É uma anedota.
Um após o café da manhã.
Outro após o almoço.
O terceiro depois do jantar
O último antes de dormir.
Não conta o tesouro
De Marlboro debaixo
Da cama junto ao
Cilindro de oxigênio?
XV
Acredite no meu
Romantismo:
O meu primeiro dente
Arranquei com os cílios
Da minha prima.
Um laço,
Um puxão,
Um beijo
Pra sarar.
XVI
Juro não roubar mais
Os cartões de crédito
Da mamãe nem
Os dólares
Da minha
Irmã.
E quando o mundo
Estiver em chamas
Prometo salvar minha
Família e o vira-latinha
Do meu primeiro amor.
XVII
Pablo Neruda tinha um
Nariz de gaivota.
Adorava entre
Os dedos
Oferecer sardinhas
Aos seus amores.
O poeta era disléxico
Naquele tempo
De Isla Negra.
E amava mais
Que Vinicius.
XVIII
Esta energia aqui,
Minha querida,
Que bate
No meu peito,
Não há preço.
Mas faça
Uma oferta generosa
Que volto a apertar
Tua cinturinha de mamão.
XIX
Depois que o ratinho
Passou com mais frequência
A visitar as minhas coisas
Encostei uma cadeira de plástico
À porta do quarto da clínica.
Terei tempo de sacar
Debaixo do travesseiro
Minha colt .25 e mandar bala.
XX
Já enterrei um passarinho
Dentro de uma caixa de
Sapato e joguei algumas
Moedas de um centavo.
Não sei se foi o preço justo
Por essas asas de figuração.
Era muito criança
Pra me assustar
Com as nuvens.
XXI
O sol no rosto
De uma formiga
Incomoda seus
Instintos.
Deixa de lado
A folha

E bebe da água
Da chuva cristalina.
Narcisistas as formigas
Lambem as antenas
E balançam as bundinhas.
XXII
Cara, um poeta
De verdade não teme
A morte, mas escova
Bem os dentes antes
De encontrar a Velha
Senhora.
O péssimo hálito
Da caveira é triste.
O que fazer
Ao primeiro encontro
Senão amar eternamente
A noiva?
XXIII
A alegria da poesia
(Quase inocência)
É o rosto de uma mulher
Sem maquiagem.
Se passa batom e rímel,
A poesia tem pensamentos
De sacanagem.
XXIV
Por que não posso
Profetizar minha
Morte?
Basta enfiar o bico
Da caneta na
Jugular
E dançar um blues.
XXV
Meu amor,
Dê o máximo
Que possa
Aos seus amantes
Os seus beijos
E as outras
Partes.
Pense no poeta
Sob fetiche
E arda na
Cama.
XXVI
Coçar a palma da mão
(Dizia vovó) é sinal
De dinheiro.
Coçar a testa
Diz-me um cabrito-montês
Que é sinal de derrota.
Nem todas as fêmeas
Merecem nossos chifres.
Desça a montanha
É alimente-se um pouco
Das gramíneas alucinógenas.
XXVII
Que importa
Se o meu avô
Perdeu armazéns
De rapadura no baralho.
Nunca acreditei
Nessa lenda.
Mas todas as tardes de domingo
Ia à missa de chapéu cinza
E terno de linho.
XXVIII
Bebo água da rua.
Pensava que fosse
Do poço da juventude.
Quando sair da clínica
Tomarei três vidrinhos
Contra vermes.
E farei musculação
Pra impressionar
As adolescentes
Do meu prédio.
XXIX
O poeta tão louco de amor
Que perderia o juízo
Fácil, fácil, fácil
Por você
Que anda de bicicleta
Em meus sonhos
De vestido.
Não direi
A cor.
XXX
A poesia tem pressa.
Não se engane
Com a folha seca
Levitando até
O chão.
O musgo cresce
Que é uma beleza
Onde alma alguma
Deixou marcas dos dedos.
XXXI
Morto ou vivo
Aguarde-me na
Sua alma.
Só beije
Meu rosto
Se tiver
Um espelho
O meu caixão.
E tire aquelas plantinhas
Da varanda que fazem
Meus pulmões arderem.
(poemas escritos em julho de 2016 durante um tempo em uma clínica)

Um comentário:

  1. Muito bom estes versos.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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