segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cajado De Bambu

I
Pra um nó perfeito
De gravata Windsor
O bico de um corvo
É um primor.
II
Não desejo
72 virgens.
Basta-me
A juventude
Que tive, exceto
As espinhas do rosto
E o tamanho do pinto.
III
O poeta não é um agente
Do FBI nem asceta.
Mas tem um
Nariz curioso.
Não deixaria uma ruiva
Despida na cama
Trêmula
Só porque tirou
Da gaveta um frasquinho
De pó.
IV
O poeta matou
Três encostos
Com um garrote
De nylon.
Agora vive livre
Pra orar em paz.
V
Rosto de anjo
Com espada
Em punho,
Digo:
Não me
Atentem.
Quebrei meus
Dedos pra não
Erguer uma taça
De vinho.
VI
A gente lê
Coisas incríveis
Que morre de vergonha
Dos nossos escritos.
Já é hora
De uma nova
Fogueira.
Ofereço meu
Pescoço à lâmina.
VII
Não por amá-la
Tenho ciúme:
Tenho cacete
E fúria no coração.
[Sabemos da crueldade
Do cinismo do viciado]
VIII
Deixei o ratinho
Comer todas as
Bolachas que
Escondi.
Perdoá-lo
Seria meu fim.
Entre ratos amigáveis
Só existem ossos
Das faces.
IX
“Só quero florir
No meu deserto”
Soa como se
Desejasse
Um tabefe
O asceta.
X
Poeta bacana
É maquiavélico
E usa os sapatos
De Carlos Drummond
De Andrade.
Aquele riso
Não é a imortalidade?
XI
À poesia devo
O meu fim.
E não há cretinice
Mais justa que
A morte.
Igual às outras.
XII
Quando sorria
E te escrevia
Era fraude.
Pigmeu de pernas
De pau não ilude
As estrelas.
XIII
Os sonhos são doces.
Tenho tomado banho.
Escovado os dentes.
E ainda comi
Um biscoitinho
Que o rato
Esqueceu.
XIV
Fumar controlado
Cigarro de nicotina
É uma anedota.
Um após o café da manhã.
Outro após o almoço.
O terceiro depois do jantar
O último antes de dormir.
Não conta o tesouro
De Marlboro debaixo
Da cama junto ao
Cilindro de oxigênio?
XV
Acredite no meu
Romantismo:
O meu primeiro dente
Arranquei com os cílios
Da minha prima.
Um laço,
Um puxão,
Um beijo
Pra sarar.
XVI
Juro não roubar mais
Os cartões de crédito
Da mamãe nem
Os dólares
Da minha
Irmã.
E quando o mundo
Estiver em chamas
Prometo salvar minha
Família e o vira-latinha
Do meu primeiro amor.
XVII
Pablo Neruda tinha um
Nariz de gaivota.
Adorava entre
Os dedos
Oferecer sardinhas
Aos seus amores.
O poeta era disléxico
Naquele tempo
De Isla Negra.
E amava mais
Que Vinicius.
XVIII
Esta energia aqui,
Minha querida,
Que bate
No meu peito,
Não há preço.
Mas faça
Uma oferta generosa
Que volto a apertar
Tua cinturinha de mamão.
XIX
Depois que o ratinho
Passou com mais frequência
A visitar as minhas coisas
Encostei uma cadeira de plástico
À porta do quarto da clínica.
Terei tempo de sacar
Debaixo do travesseiro
Minha colt .25 e mandar bala.
XX
Já enterrei um passarinho
Dentro de uma caixa de
Sapato e joguei algumas
Moedas de um centavo.
Não sei se foi o preço justo
Por essas asas de figuração.
Era muito criança
Pra me assustar
Com as nuvens.
XXI
O sol no rosto
De uma formiga
Incomoda seus
Instintos.
Deixa de lado
A folha

E bebe da água
Da chuva cristalina.
Narcisistas as formigas
Lambem as antenas
E balançam as bundinhas.
XXII
Cara, um poeta
De verdade não teme
A morte, mas escova
Bem os dentes antes
De encontrar a Velha
Senhora.
O péssimo hálito
Da caveira é triste.
O que fazer
Ao primeiro encontro
Senão amar eternamente
A noiva?
XXIII
A alegria da poesia
(Quase inocência)
É o rosto de uma mulher
Sem maquiagem.
Se passa batom e rímel,
A poesia tem pensamentos
De sacanagem.
XXIV
Por que não posso
Profetizar minha
Morte?
Basta enfiar o bico
Da caneta na
Jugular
E dançar um blues.
XXV
Meu amor,
Dê o máximo
Que possa
Aos seus amantes
Os seus beijos
E as outras
Partes.
Pense no poeta
Sob fetiche
E arda na
Cama.
XXVI
Coçar a palma da mão
(Dizia vovó) é sinal
De dinheiro.
Coçar a testa
Diz-me um cabrito-montês
Que é sinal de derrota.
Nem todas as fêmeas
Merecem nossos chifres.
Desça a montanha
É alimente-se um pouco
Das gramíneas alucinógenas.
XXVII
Que importa
Se o meu avô
Perdeu armazéns
De rapadura no baralho.
Nunca acreditei
Nessa lenda.
Mas todas as tardes de domingo
Ia à missa de chapéu cinza
E terno de linho.
XXVIII
Bebo água da rua.
Pensava que fosse
Do poço da juventude.
Quando sair da clínica
Tomarei três vidrinhos
Contra vermes.
E farei musculação
Pra impressionar
As adolescentes
Do meu prédio.
XXIX
O poeta tão louco de amor
Que perderia o juízo
Fácil, fácil, fácil
Por você
Que anda de bicicleta
Em meus sonhos
De vestido.
Não direi
A cor.
XXX
A poesia tem pressa.
Não se engane
Com a folha seca
Levitando até
O chão.
O musgo cresce
Que é uma beleza
Onde alma alguma
Deixou marcas dos dedos.
XXXI
Morto ou vivo
Aguarde-me na
Sua alma.
Só beije
Meu rosto
Se tiver
Um espelho
O meu caixão.
E tire aquelas plantinhas
Da varanda que fazem
Meus pulmões arderem.
(poemas escritos em julho de 2016 durante um tempo em uma clínica)

sábado, 29 de outubro de 2016

Perfume

Confesso que é muito estranho
Não beber vinho e não fugir
De casa no meu dia.
Já tive coragem de caminhar à varanda
E olhar as plantinhas. Aliás, cortei as unhas
E joguei dentro dos jarros a minha santidade.
Crescerá outro lírio
Da minha fé e loucura.

O vinho Que Não Embriaga

Lembra aquela menininha
Daquele filme em que
Ouvia no coração
De cada apóstolo
Uma canção
Diferente

E colhia
Lágrimas?

Sou aquela menininha
Andando sobre água
Com o escriba
Ao lado

Fugindo
De um
Deus.

Fantasmas

Minha única experiência de vida é a poesia.
E o meu melhor é mostrar os dentes.
O meu hálito.

O céu é apenas uma etiqueta.
Cicatrizes no meu pulso esquerdo.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Feitiçaria

Você pensa que não gostaria de ter uma cabeça bacana,
Uma cuca legal, uma mente serena e prática, meu docinho?
Claro que gostaria.
Mas quem manda
É meu coração.
E o meu coração, baby,
É um louco apaixonado
Que vive tocando blues.
Igual à beata que reza 
Sem fim e neurótica.
Portanto, não pense
Que não sonho em
Enfiar um garfo
No peito.

Poupe
Sua dor.

Clandestinidade

A verdade é que você morreria
De ódio e me mataria em seguida.
Trabalho em silêncio
E pareço distante
Do mundo.
Enquanto você grita,
Briga na rua, trinca
Os dentes, joga
Xícaras na
Parede
Eu subo
Até o sótão
E fabrico bombas.
Não espalhe
Meu ofício.

O Arauto

Claro que escrevo poemas para você.
Nem sei como suporta o meu ridículo.
Mas é pra você que escrevo coisas.
Gosto de chamar poema de coisa.
Não são coisas os poemas?
Cabeça é coisa.
Alma é coisa.
O coração que é
Mesmo uma coisa.
Veja minha clavícula
Como brilha a solidão.
Cada osso da minha costela
Tem uma história de batalha.
Dos mortos
Roubei cartas.
Não tenho vergonha
De ser um ladrão
De cartas.
Você não imagina
A minha felicidade
Em ler cada linha
Pra amada do morto.
Confesso que me apaixonei muitas vezes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lusitano

Quantas almas
Em um poema?
Depende
De quem
Morre.
Existe aquele
Que mesmo
Morto
Não abre
A porta.
Prefere navegar
Com mil cadáveres.
E todos os dias
Colhe flores.

Orquídeas

Eu era um escorpião
Vingativo e canalha
Horrores.
Ouça bem,
Era.
Depois que fiz o parto
De uma andorinha
Das minhas
Árvores
De oiti,
Fiquei assim:
Doce.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Brisa

A solidão leva-me
Ao culto do ego.
Acendo incensos
E ofereço iguaria
À minha imagem.
Dezenas de almas devotas
Lavam e beijam meus pés.
Todas elas são
Formiguinhas
Especiais.

Flauta Doce

Não me veja tão ridículo
Por esse tempo de adeus.
Segure a minha onda
De tristeza e melancolia
Talvez por um ou dois dias.
A formiga não terá tempo
De atravessar a mesa
Até a parede.
Aposta
Quanto?
Esprema o cílio que caiu
Entre os nossos dedos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Profeta Nu

Não suportarei por muito tempo
A morte tão próxima. Não por
Medo, mas por não entender
Essa dor e doçura furando
Os meus olhos e choro
Qual um fantasma
Debaixo da
Cama.
As lágrimas, baby,
Bordam esperança.

Candelabro

A verdade é que não sirvo para o inferno.
Sou muito emotivo quando sonho e vejo o amor.
Todas as minhas loucuras não duram o tempo do fogo.
Antes que se queimem minhas mãos,
Os navios fantasmas naufragam.
E as ciganas choram
Lendo minha alma..

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Xícara

Já fui mais apaixonado pela minha xícara.
Talvez você estranhe, mas dormia com ela
Nas noites frias e agasalhava bem a pequena.
Sobretudo quando colocava o disco de Mercedes Sosa.
Aquela voz tremia e quebrava os cristais da casa.
Adorava o medo
Da minha xícara.
Abraçava então
Com mais amor
A minha pequena.

Pílulas

Tenho uma energia sexual de um epiléptico russo.
A poesia não dá conta. Preciso rever meu amor
Pelos irmãos Karamazov.


Ciranda

Não entendo
Esse desespero
Pro amor, menina.

Você não tem um cachorrinho?
Um gatinho? Nem um hamster?

Então é pra
Desesperar-se.

Tenho uma formiguinha
Dentro de um pote
De geleia.

Vem
Ver.

Absalão

Não traga de volta
Os seus mortos
Pra casa.

Tiveram um trabalho danado
Pra lhe dar vida e coragem.

Deixe-os felizes
Na rua. Os seus mortos
Precisam de um pouco de sol.

Você não.

Você está
Ótimo,
Cara.

(não é pecado mentir
pra poeta, meu amor)

Quinta Santa

Você sempre encontrará uma surpresa
Dentro do bolso do meu bermudão.

Só não me pergunte
A data do poema.

Esqueço-me facilmente
Do tempo quando
Um dia amei.

Bebo meu café
Balançando
Gêmeos.

Amiguinhos Imaginários

Sabe aquela história
De quando nasci
Um anjo torto
blá, blá, blá?

Minha lembrança
É só do fórceps
Espremendo

As minhas
Têmporas.

Não queria botar o nariz pra fora.
Imaginava os demônios tocando blues.
E meu coração bateu mais lindo e forte.

Vim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Síndrome Do Pânico

Estou leiloando
Um bermudão
Por nobre
Causa:

Pagar meus traficantes,
Colegas de trabalho,
Antigos amores,
Um mecena.

Que me perdoem
Os refugiados
Sírios.

Hipnose

Você tem os olhos
De uma serpente
Apaixonada.

Você já viu o olhar
De uma serpente
Apaixonada?

Os passarinhos da floresta
Beijam a terra por onde
Ela passa.

No caso,
Você.

Vira-lata

Tive um dia
Cheio de tesão.

Nem te conto
Como bebi
Meu café.

A forma em que segurava
A asinha da minha xícara.

O meu olhar míope
Pro seu corpo de
Cerâmica
Branca.

Teria sido um dia perfeito, baby,
Pra cortar as unhas na varanda
E aguar as plantinhas.

A poesia é mais volúpia
Do que solidão.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Café

Faço um café muito louco
Com todas as borras
Do meu passado.
Aceite meu abismo
E não ouse me dizer
Que sou um bom moço.
O coração perdido e pecador
Nunca me deixou morrer iludido.
Os pequenos flashes de lucidez
Confirmam a minha coragem.
Não penso por quanto tempo
Suportarei a minha preguiça.
Mas é essa languidez
Que devo amar agora.
A poesia é um ato de fogo
Das mãos de quem caiu.
Você só ouvirá a minha gargalhada
E só verá os meus dentes amarelos.
A minha lágrima é pecado.
É só pra mim, meu bem.

Televisão

Gostaria imensamente
De completar sessenta anos.

Sei, entretanto,
Que posso pisar

No rabo de um pombo,
Perder o equilíbrio, bater
A têmpora na quina da calçada

E nunca mais acordar
Nesse mundão de sonhos.

Mas gostaria imensamente
De completar sessenta anos.

Ver se minha mão tremeria
Segurando a xícara de café.

Se ainda saberia jogar facas.
Se meus dedos segurariam
Com força a pena ou se
Pensaria só em sexo.

Sei, contudo,
Que posso pisar

No rabo de um pombo,
Perder o equilíbrio, bater
A têmpora na quina da calçada

E nunca mais acordar
Nesse mundão de bosta.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

As Plantas Da Varanda

Houve um tempo
Em que cortava
As unhas

E jogava os pedacinhos
Dentro dos jarros das
Plantas da varanda.

Algumas cresceram
Próximas à minha alma.

Quando o céu desabava
E a tristeza consumia
Meus olhos

Murchavam
As folhas.

Nos dias de histeria alucinógena
Pintavam os cabelos as plantas
De amarelo e verde.

A minha solidão definitiva
Ocorreu com a chegada
Dos pombos.

Armados de malícia
Flertaram e conquistaram
O coração das minhas plantinhas.

A partir dessa dor de cotovelo
Resolvi virar noites em bares.

Postos de gasolina,
Becos, barracos,
Pracinhas.

Nunca mais
Fui o mesmo
Amante de poesia.


Ioga Bikram

Tenho um problema sério na coluna
E vivo me abaixando pra colher
As folhinhas de oiti

Espalhadas
Pela casa.

(Tenho medo
Que minha mãe
Escorregue)

Escrever poemas
Endireita minha postura
E apaga maus pensamentos.

Sobretudo
Com a xícara
De café na mão.

Bar Nirvana

Quando penso
Que na juventude
Quis ser um Buda

E depois me apaixonei
Por Charles Bukowski

Não me admira
Os passarinhos
Seguirem meus
Pensamentos.

Os pequenos sabem
Que os céus são
Tenebrosos.

A cada passo
Uma ratoeira.

Convalescença

Que pena não morri.
Cheguei perto do inferno.
Não vi nenhum tocador de blues.
Esses caras vivem nas nuvens
De fumaças e muita solidão.
O inferno é um lugar
Pra barbárie feliz.
Que pena não morri.
Voltei pra minha xícara.
Só não tive ainda coragem
De ver as plantinhas da varanda.
Nem chego perto
Da janela.
A rua é linda
E anjos usam
Trombetas e cítaras
Pra me conquistar.
Sei o que brilha
Por trás dos sons.
Deixei o meu filho
Ontem no ponto
De ônibus
E quase
Não voltei
Para casa.
A rua é muito sensual.

Superlua

As mulheres mais incríveis desse planeta
Dormem comigo, acordam comigo,
Passeiam comigo.

À noite,
Toco clarinete
Em uma banda de jazz

Enquanto as mulheres
Mais incríveis desse planeta
Bebem seus drinques vestidas
De vermelho e batom da mesma cor.

De manhãzinha,
Caminhamos pra casa
Sob uma garoa gelada.

Woody Allen nos oferece
Uma carona até nosso galpão
De mercado do século dezenove.

Faço um café.

As minhas mulheres
Mais incríveis desse planeta
Despem-se (ouço o zíper da parte detrás
Do vestido descendo até a vértebra do pecado)

Preciso ir vê-las.
Não perco por nada
Esse momento mágico.

domingo, 16 de outubro de 2016

Bula

A poesia é uma doença silenciosa,
Mas não é um mal. Os seus sintomas
Inicias podem ser: calafrios, tremores,
Histeria, apatia, olhos fundos, lábios frios,
Formigamento nos pés, tontura, raiva e doçura.

Não tem cura.

A única forma
De tratamento
É a escrita.

Há quem acometido
Viva muito tempo.

86 anos
É um luxo.
55 é a média.

Pode comprometer
A visão, o olfato
E o modo de
Caminhar.

Muitos voam.
Outros rastejam;
Todos são trôpegos.

Quem sofre dessa doença silenciosa
Naturalmente e com frequência
Remete-se à sua infância

E tem mania
De sonhar.

Embora viva o momento presente
Sob névoas de esquecimento e febre.

Tem muita febre
Quem é acometido
Dessa doença silenciosa.

Que não é um mal.
Nem tem cura.

Aconselha-se ouvir
O coração e não brincar
Com drogas desconhecidas.

Ou não.

Cada caso
É estranho.

Só o tempo
Dirá o nível
De degradação.

Medo, fuga, vontade de chorar,
Isolacionismo, melancolia, tesão,
Ocorrem após instalado o verme.

Recomenda-se
Mergulhar.

Máscaras é bom
Perdê-las e aceitar
A morte da consciência.

Lucidez é o seu sintoma principal.
Há quem pense que é insanidade.

Quem é acometido dessa doença silenciosa
Pensa que é um louco ou coisa que o valha.

Já é efeito
No sangue.

.



Fotografia

Outro dia fiz
Um nu artístico
De uma andorinha
Solta no galho de oiti.

Peguei de surpresa
A criaturinha do céu.

Estava grávida
De um pardal.

Sim, meu doce,
Os passarinhos
Não se importam

Com espécie
E família.

Só querem
Amar.

Visita Desconhecida

A minha mão direita
Quando coça
É sinal de outro poema
Queimando as velas
Do navio fantasma.
Capitão, ó meu capitão,
Vamos bater nas nuvens!
Puxe
Os cílios.

Visita Desconhecida

A minha mão direita
Quando coça
É sinal de outro poema
Queimando as velas
Do navio fantasma.
Capitão, ó meu capitão,
Vamos bater nas nuvens!

Dominical

Você abre os olhos
E quase cega
Do céu tão
Azul

E das folhas de oiti
Batendo na janela.

Você acomoda
As pernas no sofá

Enquanto o seu filho
Deleita-se largadão
Na sua cama.

Você sorri
E jura em
Silêncio

Que não
Morrerá
De novo.


Suave Na Nave

Com o que você quiser
Concordo contigo, amor.
Canalha?
Sim, canalha.
Frio e egoísta?
Evidentemente.
Louco?
Louco.
Cínico?
Claro.
Diga,
Amor,
E assino
Embaixo.
Não precisa
Queimar meus
Últimos poemas.
Nem jogar
Contra a parede
Minha xícara branca.
Você não imagina
Como dói juntar
Os cacos
De uma xícara antiga de café.

sábado, 15 de outubro de 2016

Hélia

Do meu tempo de escola
Só me lembro da minha
Professora de Inglês:

Estalava a língua
Entre os lábios

E me pedia
Pra repetir
Mil vezes

A mesma
Palavra.

Não conseguia
Mover meus olhos
Da sua camisa branca
Transparente e sensual.

De bordado
Hippie.

Combate De Gafanhotos

Não será fácil
Encher a mão
De ouro

E não seguir
O caminho
Da treva.

Um prisioneiro
Ama suas baratas

Enquanto o sol lá fora
Queima seus pássaros.


Uma Eternidade De Blues

Morte?
Não conheço.
Estamos brigados.

E só nos veremos
No dia em que
Não for mais
O poeta

Filho da
Palavra.

Cozinha

Depois que minha cafeteira pifou
E faço café em uma artesanal
De alumínio

Os meus dedos
Ainda reconhecem
A textura do silêncio.

A poesia tem uma relação
Tão íntima com os objetos.

Com o tempo
Muda o meu olhar

E o amor passa
Por outros ângulos
De ternura e espanto.


Vale Das Cerejeiras

Você não me conhece.
É bom parar de acender velas.

Já morri
E o tombo
Foi tão triste.

Não pensei em lhe contar,
Mas minhas formiguinhas
Abandonaram-me:

Ultimamente
Bebo o meu café
Sem as suas patinhas.


Amor

As dobras das tuas axilas
Eram o meu ponto fraco.

Quantas vezes, meu bem,
Morri asfixiado em teu
Perfume de lavanda.

Os meus melhores sonhos
Aconteceram debaixo
Das tuas asas.

Tremia de febre
E não queria
Voar.

Homens Diáfanos São Patéticos

De tanto expulsar
Os meus demônios

Sobrou apenas
Uma folhinha
De oiti

No meio
Da sala.

Exílio

O poeta quem fez merda.
Haverá de ter muita honradez
Para comê-la antes que nasçam
Cogumelos e o louco se sinta feliz.

Apesar de ser adorado por passarinhos,
O poeta foi um rato e viveu como
Viviam os ratos:

Focinho frio,
Olhos brilhantes.

Um gentleman
Diante do queijo.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Magia

Já te contei
De quando
Hipnotizei
Uma galinha?

Eu tinha nove anos.

E foi a farofa
Mais gostosa
Da minha vida.

Outro dia te conto
Da minha moeda mágica
Que se encantou dentro de uma parede.

Conjurei raios
E trovões de tristeza.

Tinha cinco
Anos

Névoas De Chumbo

Sabe aquele poema ingênuo?
É um monstro de garras loucas.
Não conhece outro espaço
Senão as grades do meu crânio.
Todas as noites
Derrete o ferro
E faz balas.
Calibre
Grosso.
Não pense que é doce
A sua voz infantil.

Babau

Sofri muito bullying na escola
Porque tinha asas nas costas
E medo de altura.

Depois que cresci
As asas caíram
Mas o medo
Ficou.

A cabeça gira e vomito
Só de olhar as estrelas.

Noivado

Estive pensando
Como te pedir
A mão.
Os pés,
As batatas
Das pernas.
Um poema não resolve.
Talvez um gatinho
Ou um filhote
De hiena
Dentro de um cesto
De vime.

Doméstico

Cadê as colherinhas da casa?
Por vezes, somem sob
Uma névoa de
Mistério.

Não há outro jeito então:
Meu dedo fará as honras
Na latinha de doce de leite.


Pastoreio

Ultimamente
Sou um pastor

De ovelhas indiferentes
Ao tempo, ao pasto,
Ao amanhã.

Seguem meus passos
Ladeira acima e abaixo
Porque sou seu único dono.

E elas, as minhas ovelhas indiferentes,
Não abrem mão da minha companhia.

Uma companhia
Dúbia e patética.

Desfiladeiro De Girassóis

A poesia existe
Pra aproximar
As pessoas

(Disse-me
Um pardal)

De maneira
Tão especial
Que não precisa
Conhecer o poeta.
Cheirar o seu braço.
Beber com ele alguma coisa.
A poesia é uma ponte
Pra algo mais real.

Confidencial

Há duas coisas
Que você deve saber
Sobre a minha pessoa:
Fui um louco
E não ando bem
Da minha cabeça.
Em compensação (acredite)
Converso com passarinhos.
Um agora mesmo
Espia-me pelas costas.
Quer me dizer que hoje é sexta.
Hoje é sexta, sexta, sexta, sexta.
A sobrancelha
Nem se move.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Alguma Coisa Como Um Salmo

Se você bebeu, fumou e cheirou muito
Durante séculos e o seu espírito
Não suporta mais a sua
Cabeça de porco,

Tenha coragem
Pra fugir.

Não atenda
Ao telefone.

Aprenda a matar
Os seus inimigos.

Se a sua cabeça de porco
Explodir, jogue uma flor
Na calçada e acenda
Um incenso.

Coragem, meu poeta,
Não morra por suas mãos.
Outros fantasmas querem viver.

.


Não Jogo Baralho

Os meus dias estão contados.
Não sei quem contou, mas
Fizemos um acordo:

Não falo de Deus
E Este me devolve
O meu livre-arbítrio.

Cujo papel foi rasgado
Por um anjo pomposo
Na noite em que nasci.

Veleidades

Tentei escrever vários poemas.
Alguns morderam meus dedos
E me mandaram sumir da vista.

Os que aceitaram, baby,
Fizeram o serviço sujo:
Lavaram e beijaram
Os meus pezinhos.

A dor de cabeça
Deu um tempo,
Obrigado.




Botija De Ouro

Desde criança
Que sou doente
Por coisas invisíveis.

A poesia foi
Só um pulo.

Olhe bem a palma
Da minha mão.

Não vê mesmo velas
De navios fantasmas?


Dama De Copas

A tua língua,
Imagino, é doce
E salgadinha depois.
(propícia pra plantar sonhos)

Não sei por que acordei
Pensando em tua língua.
Nunca vi os teus lábios.

Digo, ver de perto.
Mordê-los na ponta.

Enquanto o solitário
Vivia preso no vale sombrio
Tu vendias maçãs envenenadas.

Quero uma.
Adoro maçã
Que faz sonhar.

A tua língua,
Suponho, é fria
E quentinha depois.

Coisa de romântico
Esquecer a dor de cabeça
Pra pensar em uma língua distante.







Platônico

Namorar à distância
É tortura, meu doce.

Depois que se briga
Não dá pra fazer as pazes
Beijando o pescoço e os pés.

Sobram apenas
As frias palavras
De morte e muita dor.

Pra te esquecer
Não tive outra saída
Senão pular da janela.

E levar junto
Uma andorinha
Das minhas oitis.


Vivência

Conhecer a si mesmo
É um pé no abismo.
Precisei de cinquenta anos
Pra bater a ideia que
Poesia
Não é
Sonho.

Pijama

As paredes racham
Mas o teto não
Desaba.

O meu cotidiano
É um cínico complô
De entidades sacanas,

Um cético com figas
Em volta do pescoço.

Sou o tolo da vez pra elas
Que chegam de todos os buracos.

Cruzam as pernas,
Acendem velas,
Batem palmas.

Beliscam meu braço
Com pontas de agulhas
Procurando meu passado.

Uma lembrança boa
Pra tocar fogo.

Abajur De garrafa De Vinho

Longe de mim invadir teu coração.
Deixemos o coração e o blues
Fora deste meu tédio.
Não é angústia
A minha dor
De cabeça.
Um livro
Que guarda
Entre as páginas
Uma flor de pétalas secas
Não deveria nunca ser tocado.
.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Carta


Separei alguns poemas
Pra te dizer, mas esqueci.
Não consigo
Passar muito tempo
Com um poema na cabeça.
Multidão de palavras
Dentro da cabeça acaba
Em tédio e muita preguiça.
Não paro de dormir.
Não sonho. Só durmo.
Deixo a barba criar terreno.
E não lavo meus bermudões.
Aliás, não te contei,
A cafeteira pifou.
A segunda em pouquíssimo tempo.
Faço o meu café em uma artesanal.
Queimo meus dedos
Com frequência.
Não passo
Pasta nem
Ponho gelo.
Os meus dedos queimados, baby,
Seguem os passos da minha solidão.
(Precisava terminar
Beijando teus olhos)

Poema


Tive tantos filhos
Nesta minha vida
De louco e monge.
Escrevi debaixo de árvores.
Escrevi muitas coisas dormindo.
Embora fossem nuvens,
Brilhavam carne e ossos.
As palavras nunca são
Uma coisa só, por isso
Que o poeta vive
Acendendo
Uma vela pra deus
E outra pro diabo.
Muitos dos meus filhos
Nasceram tortos e trôpegos.
Antes que me dessem pena
Sumi com eles no berçário.
Alguns meteram-se
Entre os meus dedos
De tal forma que acabaram
Pontinhos brancos nas unhas.
Não me canso de amá-los.
Nem me arrependo por esquecê-los.
Meus filhos
Não são bons
Nem maus.
Digamos que os meus filhos
Com a minha morte apenas tocarão
Um blues em homenagem à minha alma.
E pronto.
Seguirão depois os meus filhos
As suas vidas de pontinhos brancos
Nas unhas de outras mães e outros pais.
Tive tantos filhos
Nesta minha vida
De louco e monge.
Você nem imagina
Como dói amá-los.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Flerte Na Clínica

Você passou seu batom
E vestiu seu conjuntinho
Em atenção a meus olhos.
Até mostrou-me
O seu aplique
Rabo de
Cavalo.
Se você fosse uma ninfomaníaca
Como me contaram e juraram
As cozinheiras
Teria me atacado
Sem piedade.
Mas não,
Você era apenas
Uma professora cansada
Com doce voz de passarinho.

A Solidão Que Amamos

Queimei meus dedos
Fazendo café, baby.
Sou normal,
Acredite.
Nunca mais vi
Uma efígie de lobo
Com cara de cavalo.
As silhuetas
No teto também
São belos girassóis.

Floresta Sombria


O mal que plantei
Atravessará a vida
Junto às minhas mãos.
Um dia, baby,
Voltará a coragem.
Caminharei até a varanda
Sentarei na cadeira de vime
Não pensarei em pular da janela.
Por enquanto, meu doce,
O cansaço é minha salvação:
Fingir-me de morto de cortina aberta.

Infância Amorosa

Todos os dias
Meus dentes
Caem
E cada
Dente
Que cai
Livro-me
Jogando-os
No telhado
De sua casa.
Nascerá uma linda coleção
De florezinhas selvagens.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

18 horas

O que sabemos
Da dor do outro?
A natural ausência
De uma alma triste
Não é o princípio
Da melancolia.
A melancolia é um dom.
Um sinal de nascença
Que nunca se apaga.
O corpo estendido
Durante o sonho
Da morte
Não salvará
O dono.
Aquela lágrima
Que faz o caminho
Pra dentro da gente
Ninguém vê nem sabe.

Pátio de Clínica


Pensei em conjurar ventanias,
Mas isso é coisa pra entidades
Das matas
Ou dos mares.
Fique bem quietinho, poeta
E nem se dê ao trabalho
De levantar os olhos
Aos céus:
Sombras de passarinhos
Brincam no telhado.

Sitiado


Enquanto estive longe
Não houve rebelião.
A minha cafeteira
Preferiu a morte.
Ainda não tive coragem
De olhar as plantinhas.
A rua é uma paranoia.
Sei que os espiões
Não dormem
Muito bem.
Os últimos passarinhos
Reconhecem terreno.
Falta pouco
Pra minha
Janela.
Não reze
Por mim.
Os que não
Conseguiram fugir
Merecem a sua prece.
A sopa
Não esfria.

Drinque


Você sabe
O que o amor
Faz conosco, baby.
Precisamos
Virar a página,
Embora muitos insetos
Morram de tosse.
Uma tosse
Triste e seca,
Dessas de caubói
Após uma longa
Jornada

domingo, 9 de outubro de 2016

Decadência

Querer a poesia é um inferno.
Tê-la na cabeça durante séculos
É um inferno ainda mais terrível.

Depois que se pesca um peixe
O mar passa a seguir
Nossos olhos.

Sumiram as moedas encantadas.
As palavras tornaram-me um gângster.
Odeio com a facilidade de quem perdeu o amor.

Mereço um tiro.
Outra vida vazia.
Um túmulo penoso.

Um blues
Distante.

quinta-feira, 30 de junho de 2016


Claro, meu bem,
Que o poema
É pessoal.
Não sou bárbaro.
Não uso de violência física
(Ainda que quebrem meu nariz)
Escolho a artimanha
E a antipatia das
Palavras.

E pouco a pouco, a cada foto,
Tu vais te apaixonando, mulher,
Sem saber mais onde esconder
Tanto ódio
De ti própria
Por amar um louco.
E o poeta, velhinho,
Aproveita-se do passado.
Encosta-se no muro da esquina
E trafica poemas e balas soft.