sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Por todas as sextas-feiras que não vivemos

Hoje pensei em você
De outra forma:

Com os seus olhos
E não os meus.

Você detesta seus cabelos
Quando entram na sua boca.

(Enquanto
Você só

Quer
Sorrir).

Subo uma palavra ao altar,
Desço outra ao abismo.

Se você se encantasse
Com esse meu dom
Abriria as pernas.

Depois faríamos café
E mataríamos de ciúmes
A minha cafeteira solitária.

Escárnio

Caminhando pela casa
Encontro tenras
Tarefas:


Acabei de juntar as folhinhas das árvores da minha calçada
As penas dos passarinhos que fazem ninhos nos galhos
Juntei tudo na minha mão, amassei as folhinhas
As asinhas.

Fiz uma bolinha.
Joguei pela janela.

O pedestre que passava levou no rosto
O chumaço da minha delicadeza.

Pensou que era um algodão
Umedecido do tédio
De um poeta.

Não me faças rir:
Grande coisa um poeta
E o seu tédio: prefiro a solidez

Das minhas botas
Morrendo aos poucos
Debaixo da escrivaninha.

O ópio é um dragão que engole seu fogo

O campo foi arado:
As unhas ficaram lá,

Plantadas
Nas covinhas
Das sementes.

Hão de nascer
(Espero que de noite)
Mãos descansadas dos desejos.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lembrete antes do abismo

Nunca se esqueça, meu poeta,
Que aquela sua unhazinha roída
A coçar seu ouvido é sua melhor amiga.

Livre consciência do vazio total

Veja bem os cascos dos meus cavalos selvagens.
Quem gosta tanto assim de pétalas é um farsante.

Veja bem os olhos dos meus rinocerontes.
Já é noite (e míopes) enxergam muito além
Dos olhinhos das codornas e dos perdigueiros.

Botões dentro da fruteira de vidro

Já escrevi o meu poema de dor.
Agora é só cinismo (e paquera).


Dos epitáfios sem fim

Marcado o dia em que os passarinhos
Entrarão sem bater (beijarão a vidraça
E o vidro da janela se desmontará em cacos).

Marcado o dia em que os passarinhos
Farão pouco caso das minhas mãos.

Juntarão os dedos por amizade.
Cruzarão os da mão direita
Aos da mão esquerda.

Um laço.

E fecharão meus olhos
Com seus bicos de violino.


Âncora de corais

A minha solidão em calçadas chuvosas
Ainda cheira a meus braços molhados
De patchouli.

As meninas até pensavam em me amar.
Mas eu já era muito louco pra ser salvo.


Cubos

Não tire a sua alma do caminho:
A minha é espaçosa,
mas some rápido.


Sapatos apertados

Entre meus dedos das mãos
Crescem os filhos do cansaço.

Não vejo asas:
Só falanges
De versos
Fujões.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Serenidade

Se não houver pele
A ilusão será carnívora.

Moerá até os talos dos tendões
De todos os teus suspiros de nuvens.

Volta ao caminho da solidão, meu poeta,
E abençoa o silêncio dos teus objetos.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Campanário

O poeta quando entende
Que o seu fel diluído
É um bom vinho
Que abelhas
Sorvem

Esquece dos poemas
De penar a si e ao outro.

Só escreve
O que lhe tira
O fôlego.


Dilúvio

A cada poema que apago
Não por dúvida ou pudor
Mas sob cansaço

É a doçura da asa
Que puxo dos cílios.

As palavras lançadas ao fogo
São suas cinzas mais brilhantes.


Rosto amassado de luz

As plantinhas da varanda
Imagino a felicidade delas nesse clima
De chove e não chove de brisas suaves.

Se as minhas plantinhas da varanda
Tivessem um cãozinho pra brincar
Seriam as mais felizes
Criaturas.


Nublado

Gosto quando o tempo fecha.
O céu escurece e as árvores da minha calçada
Correm apavoradas buscando abrigo no meu quarto.

Sempre deixo a janela aberta.
Mesmo que chova, caia uma tempestade,
E molhe o sofá e ensope o pufe e estrague os livros.

Prefiro o meu reino particular arruinado
A esquecer do lado de fora (morrendo de frio)
As árvores da minha calçada e minhas andorinhas.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Névoas de luz

Seria trágico, minha bailarina,
Se o poeta tropeçasse com o jarro de vidro
Nas mãos e nossas rosas brancas encantadas.

Enquanto um diabinho
Ousa fazer estrepolia
O poeta é protegido
Pela lucidez
Do amor.



domingo, 24 de agosto de 2014

Nova Orleans

Enquanto não entro no caixão
E aperto os dedos dos pés
No sapato novinho

(Não acredito que terão esse gasto)

Escrevo ao máximo
Da tolice, vaidade
E simplismo.

Depois de descerem o caixão
Com meus dedos apertados
No sapato novinho

(Não acredito mesmo
Que tiveram esse gasto)

Nada me importa:
Nem os vermes
Que comerão
Meus braços.

Nem as traças
Que comerão
Meus versos.

Das cinzas

Sem esforço (ainda criança)
Dos ossinhos dos pássaros
Planejava novos sonhos.

Voar é tranquilo
Para quem nasce
Com olhos fundos.

Uma vez lá em cima,
Meu poeta, precisa-se

De toda fundura possível
A caber a fonte lacrimal
Do tombo.


Bilhete

Perdi a conta dos girassóis
Abrindo os olhos fogem
Das minhas mãos.

Ao jardineiro patético
(Possessivo e bipolar)

Somente a companhia
Das suas botas sujas.

Que pureza há no lamaçal
Das suas nuvens escuras?


Dos idílios

Olha só quem chegou
À janela, olha, olha só:

O pombo,
O majestoso pombo,
Das manhãs de domingo.

E chega com tênis nike vermelho.
Os olhos de um filhote de elefante.

Enfim, meu bem, as plantinhas da varanda
Sacudirão os cabelos amarelos esverdeados

E gargalharão
De felicidade.


Angelical

Só me falta agora beber
A água das rosas brancas.
Ontem, docinho, comi os botões.

Lembrei-me da experiência com ácido
Quando vivia em grutas pintando corações
Com as pontas dos cílios da primeira namorada.

Aos xamãs cabe a verdade:
Por exemplo, esta nuvem
Que sobe dos meus pés.

Amor, consegue descortinar
As fisionomias dos céus
Da infância?

O primeiro passo
Pra crer e ter fé
Nas palavras.


sábado, 23 de agosto de 2014

O Lusitano

Não leves em conta o meu lado brando
De escrever poema: na verdade, amor,
Sou tão tão tão arteiro e fingido.

Passo horas
Pensando em como
Armar um barbante entre
As pernas de duas cadeiras.

Será de morrer de rir
Ver as formiguinhas
Tropeçando.


Ritual

Por mais calosas
As minhas mãos
De colher rosas

Nunca fogem ao corte
Dos espinhos da haste.

Meu sangue?

Doce. Acabei de beber café.
E engoli algumas formiguinhas.


Dos fatídicos suspiros

Talvez exista outro prazer
Tão especial quanto sonhar
Com a morte (doce) à cabeceira.

Não conheço.

A morte (doce) à cabeceira
Traz com ela o perfume
Dos avós e aquela
Bola de meia.

Também traz a calçada
Iluminada depois da chuva.

Normalmente a morte
Não é doce, meu poeta.

E chega abrupta
Puxando-te pela mão
Apontando o fim do trilho.

Você não é louco
De abrir a boca:

"Quando parte
O último trem?"

A morte tem a manha
De beliscar com as pontas
Das unhas de esmalte vermelho.

Como ninguém,
Meu poeta, a morte
Belisca assim tão carnal.


Delírios de um lírico trovador

Só quando faço café
Que a cafeteira assobia.

Antes pensava
Que pra mim.

Pra colherinha do açucareiro
Que a cafeteira se derrama
Em idílios.

Um tal de assobios murmurantes
[Sensual prece de quem ama].

Já aguei as plantinhas da varanda.
Nenhuma delas (hoje) agarrou-me
Pelas pernas.

Quando sentem falta dos pombos na janela
Minhas plantinhas não amam mais ninguém.

Trilogia

Amor, após saborear
A pureza comestível
Das rosas brancas

(Se for veneno, ah,
Que morte bacana)

Joguei pela janela
A dividir com pássaros
A sobra do meu encanto.

Duas folhinhas
O que restou.


Continuação do espasmo

E se eu experimentasse
Os botões (os frutos?)
Das rosas brancas

O que seria, amor
Do meu coração?

Renasceria eu mais
Homem que poeta?


Sala

Se você as visse (as rosas brancas)
Entenderia este meu olhar emocionado
Com a ponta do nariz do nariz de um beija-flor.

(A primeira vez que vejo os botões vermelhos,
Outros azuis-lilases, em profundo silêncio
De renascer)

Pergunto-lhe,  amor:
Que botões são esses?


Às ocultas

Dobro minhas camisetas (tão puídas e angelicais)
Olhando pra porta do banheiro encurvada : Os cupins
Comeram legal todas as vértebras e tendões da madeira.

Só fizeram seu papel.
Agiram meticulosos e souberam
Como destruir cirurgicamente a porta.

O vento que vem da área de serviço
O vento da garagem do prédio
São detalhes.

Não por essa ventania de agosto (sincronizada)
Que a porta do banheiro espera o último suspiro.


Rascunho

"...mas saiba que não apenas do seu corpo morro de tesão
também tenho tesão por sua alma
essa coisa que não se molha
quando você toma banho..."


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dança cigana

Posso agora em silêncio ler seus olhos
Como fazem os ciganos antes
De iludir e pôr as mãos
Sobre as suas.

Mas não sou cigano.
Cansei de mudar de alforje
A cada linha da minha palma
Que sangra e a tempestade molha.

Nem choveu hoje.
Dizem, entretanto,
Os meus passarinhos

Que a vidraça da sua casa
Parece o rosto de uma cerejeira
Debaixo do sereno da minha calçada.


Realejo

Aquele prego enferrujado ainda descansa sobre
O parapeito da janela: sempre que vou ao banho
Mostra-me a ferrugem do seu corpo (as sardas
Da solidão)

Tenho espinhas nas costas.
Cravos que viraram sinais.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pensamentos aéreos

Afastar-se do limite
De conhecer
A Verdade:

O primeiro passo
Ao desdém da fé.

Mas não é disso
Que quero falar.

Viu só, meu poeta,
A pequena no ônibus?

Que encantadora cena
Aquela de um espelhinho
E um lindo par de olhos refletido.

A pequena passava batom
Ou ajeitava o aparelho
Dos dentes?


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Leveza

Dos meus prazeres
O mais recente
É caminhar

Descalço sobre
O tapete branco
Que a minha irmã
Forrou meu quarto.

Os sátiros e os coelhos
(Ainda pequenos) sentem
Esse mesmo encanto ao pisar
As pétalas vermelhas dos bosques.


Sonata

Ilusão é para os cegos.
Aquele que viu o amor
Não o perderá de vista.


domingo, 17 de agosto de 2014

Última carta

O xamã olhou-me profundamente os olhos.
Tossiu e me disse com a voz rouca de luz:

"Você não passa de um ora/dor,
Um patife de uma figa, um louco."

Deu-me as costas,
Antes de adentrar
A floresta escura,
Voltou o pescoço:

"Tem mais, águe aquelas plantinhas
Da sua varanda ou você não colherá
Seus cogumelos do mês de outubro."


Dos mergulhos

A lâmina de luz
Que caminha
Pela porta

É uma forma
De clarear
O quarto.

O acúmulo de asas e cílios
Atrapalha a nossa vista
Quando voamos.

Escreva seu poema
E aparte-se dele,
Ainda que
Doa.

Veremos até onde
Seu coração suporta.

Poeta, a toalha da mesa
Parece um relógio nostálgico:
Veludo verde e bolinhas de Natal.

Botões de girassóis

Após aquela insana batalha
O último sobrevivente não visitará
Túmulos de poetas heróis nem lerá
As cartas, as loucas cartas, do front.

Os fuzis que lhe caíram das mãos
Não farão companhia às suas palavras.


Afagos

Ao guardar os seus cílios
Dentro das suas botas,
Confira as calçadas,
As nuvens,

Onde seus passos,
Meu poeta, afundarão.

Não choverá tanta coisa
Além de dias silenciosos.


O silêncio que se ouve

A pequena aranha tem suas mil pernas
(Onde guarda suas mãos e luvas) não
Para caminhar cuidadosa sobre teias
A surpreender os insetos prediletos.

A pequena aranha tem suas mil pernas
(Onde guarda seus esmaltes e batons)
Para balançar-se na sua teia entre
O cabo de vassoura e a parede.

Misericordiosa,
Ouvindo o poeta.

Agora (em menos de dois segundos)
Entre o cabo de vassoura,
A parede e o balde
Amarelo.

Próxima,
Muito próxima.


sábado, 16 de agosto de 2014

Dos céus os pássaros nem piscam

Tanto o sol
Quanto a chuva
(Entenda, meu poeta)

É a imagem que olha teu coração
E à antessala dos teus arroubos

Aquele moço de chapéu
De palha (aba dobrada
Pelo vento)

Joga as sementes,
Semeia a terra.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Feriado

Os três vasinhos de barro queimado
Ainda esperam na varanda
Que o poeta lhes faça
Uma surpresa.


A poesia tem um  significado muito peculiar
Comigo. Ela que me oferece um Deus.

E tal Deus me protege
Da vontade de morrer.

Seja verdadeiro e saiba
Que em cada instante
Há amor.

Já não compreendo
Tanto amor assim.

A metafísica da Poesia
É estar atento, ou seja,
Presente no tempo
Criado.

Quem criou?
No momento,
Tu criaste.

Tu que amo.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Damas

Muriçocas decididas voam direto aos meus pulsos
(A boca aberta, os dentes brancos) e mordem
Pra chuchu, e bebem meu sangue, sorriem,
E me dizem que mais tarde
Cuidarão de mim.

Antes, porém, precisam fazer a comida
E juntar as roupas lavadas pela manhã.


Gavetas embutidas por flores de cerejeiras

Abençoado o homem que conversa
Com o seu coração como se fosse
Ele (o coração) uma criança.

Sob doce segredo,
Sabem os dois

(Coração
E criança)

Que ambos
São o homem.


Ofício de branduras

Se o botão da minha camisa
Docemente deixa a casa

[Antes que fuja
Pelo chão]

Guardo-o
Dentro do bolso.

E não há diante
Dos meus olhos
Maior delicadeza.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Átomos

O mundo que cai do varal do banheiro
(Toalhas, meias, cabides vazios)
Apanho no ar com a destreza
De um gafanhoto
Shaolin.

Depois vejo o que tem na geladeira.
A minha fome, agora, é de arroubos.


domingo, 10 de agosto de 2014

Ringue

I

Hei de atravessar a ponte
Sem nenhum tipo
De muletas.

Caso o bico da perna de pau
Encaixe-se no vão das nuvens
O meu abismo será mais trágico.

II

Atravessarei a minha dor
A nado (por baixo d'água)

Onde arregalarei os olhos
Pra melhor ver os peixes
De Neruda.


Dos vícios exuberantes

Remende-se primeiro, meu poeta:
Encaixe as suas rótulas, junte as suas costelas,
Ligue os seus tendões, costure os seus supercílios.

O seu corpo anda tão capenga
Pra novos arroubos do coração.

Mas você, meu poeta,
É um jardineiro teimoso:
Não vive sem sujar as mãos
De nuvens e as unhas de terra.

Então, pule.
Bata de novo
A sua vértebra
Contra os corais.

A pérola só veremos
Depois da cegueira.


Curativo de pólen

As cerejeiras têm um código secreto
Com os olhos de quem as planta.

O samurai que olhar dentro dos próprios olhos
Verá uma folhagem lilás de um mágico amarelo.

São os primeiros sinais
Do pulo ao abismo.

Morrer à sombra
De uma cerejeira,
Meu próximo
Passo.


sábado, 9 de agosto de 2014

Cirurgia em peito de passarinho

Acabo de enterrar uma alma.
Era um girassol. Seu único defeito:
Não acreditar na sua coragem de girassol.

Sofro pelo girassol não ter reconhecido
Que é o sol que lhe deve a vida
E não o contrário.

Incrivelmente não sujei minhas mãos.
A cova em que depositei o girassol
Era uma cova rasa de sonhos

Onde plantarei,
Agora, uma
Cerejeira.


Da varanda o café é mais existencial

Um dia eu canso.
Mas antes encho o seu balaio
Com as nuvens que posso tocar.

Faço origamis
E mudo de rostos
As nuvens azuis e brancas.


Algibeira de lírios

As andorinhas parecem pressentir
A minha solidão sem graça,
O meu vazio sinistro:

Chegam à minha janela,
Quebram a vidraça,
Tentam encostar
Seus bicos

Sobre meu peito
Nu, e liso,
E triste.

Esparramado na cadeira de vime,
Sequer tenho forças pra segurar
A espingarda de ar comprimido
E atirar em suas asas.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cântico de Salomão

Não é de bala, de mulher na cama, de náuseas,
De drogas pesadas, de lutas incansáveis contra
Os travesseiros: Morrerei da fadiga de tanto mel.


Alvorecer

Amor, agorinha há pouco,
No ponto de ônibus,
Uma mulher

(No auge
Do vigor)

Creio,
Aos cinquenta anos,
Tombou aos meus pés.

Senti uma vontade cruel
De pôr a minha mão
Sobre sua cabeça.

E absolvê-la
Dos pecados.

Mas não sou pastor
De ovelhas: sou curandeiro
De almas voluptuosas e perdidas.

Ofereci-lhe
O que tinha no bolso:
Uma pastilha pra garganta.


Elevação glacial

Para te poupar de mim,
Não descerei ao cume
Do abismo (onde
Só há peixinhos
Coloridos) .

Serei firme e forte,
No alto, juntinho
Dos corvos.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pagode dos patéticos

Possessivo, ciumento, dado a arroubos:
Se amo, mato andorinhas e fujo
Das calçadas.


Cão de rua

Esquecê-la? Posso
Nunca alcançar
Tal graça.

Mas possuo
Um tesouro:

A íntima leveza poética
Que me sobressalta
Depois que corto
Os pulsos.


Entre joios e vendavais

Havia encomendado
Duas alianças de prata.

Uma para o meu amor.
E a outra para o meu amor.

O meu amor (pessoa)
Deu-me um bolo.

Sobrou-me apenas
O outro amor

Dentro
Do peito.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Açúcares

Não acredito, meu poeta:
Não reconheces mais tua xícara?
Ela é toda branquinha e tem a asa
Ainda mais branquinha, embora ela fique
Vermelha quando tu passas em volta da mesa.


Luxuriante

Aproveita esta onda,
Tartaruguinha marinha,

Pois amanhã o mar
Poderá secar.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

A liberdade é lilás

Não se apaixone, meu poeta,
Pelos olhos de uma mulher
Tampouco por sua alma.

Apaixone-se pelo café que ela coa.
Pelo peixe frito que ela enfeita sem medo
De que o óleo queime suas delicadas mãos.

Apaixone-se, meu poeta,
Por alguma coisa real
Do seu sonho.


Espantalho dos campos de girassóis

De qual matéria o poeta é feito:
Das paredes das nuvens
Ou dos cogumelos

Que crescem
Nas hastes
Dos lírios?

Aquele que vê as gotículas dos cogumelos
Não sabem das nuvens das minhas janelas.


domingo, 3 de agosto de 2014

O bom combate entre girassóis

Há poemas escritos por tão visível carência
Que se imagina claramente os olhos chorosos
De quem sobe ao telhado do casarão antigo dos avós
Com um caderno debaixo do braço e um lápis entre os dentes.


Desvio de rota

Dos meus vacilos de pescador de arroubos
O mais terrível é não conter o coração
A disparar sem trégua pétalas
Que aprisionam o outro.

Que mulher deseja
Ser tão cortejada?

O que antes era tenro
(Um poema doce)

Das minhas egoístas mãos
Nasceram versos
De náufrago.

Mas, diga-me camponesa,
Qual o náufrago que não ama
Seus últimos sonhos de sobrevivente?

Em alto mar, as estrelas
Dançam aos meus olhos.

E ainda é manhã.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Resina dos últimos ópios

Minha camponesa não resistiu ao meu sorriso bestial
(Dentes de caballo louco) e fugiu.

Fugiu tão apressada
Que esqueceu o cesto
Das suas maçãs envenenadas
Na soleira da porta do meu quarto.