terça-feira, 30 de outubro de 2012

frio na barriga

Cuida-te do dia de hoje
ou amanhecerás amanhã

com os dedos cheios
de anéis de mulheres
que nunca mais verás.

Pressinto, tua xícara pressente,
que mais tarde fugirás de tua cela.

Não me surpreendo ao primeiro posto de gasolina
em loja de conveniência peças uma garrafa de vinho
e comeces a boa e longa odisseia até o dia de tua morte.

Só te peço que tenhas cuidado
para não amanheceres com
os bolsos cheios de números
de telefone de mulheres
que nunca mais verás.

banho de sol

Suave e brando a caminhar estalando os músculos do pescoço
vejo um pombo com uma perninha levantada, das duas uma -
ou é mestre shaolin ou delicada bailarina.

Oh, Deus, tantas mulheres solitárias
e eu cá na pracinha escrevendo
versos pra pombo -
dai-me juízo!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

o homem de ossos

Toda vez que deitado
tento coçar as costas
dobrando o braço,
uma dificuldade,
patético, penso
em você -

os seus dedos amavam meus cravos,
não me deixavam mesmo um de pé.

estética

Sinceramente não tenho certeza
se os meus óculos viveriam
sem o suor dos cílios.

É tanta paixão entre eles
que flameja o intestino
de inveja.

Por impulso arranco
do rosto os óculos
e puxo cada fio
de cílio

com a requinte tortura
de solitário maquiador.

resplandecência

A poesia vem de outra alma apaixonada
que vive dentro da minha.

Ela nem me liga.
Para ela eu não existo.

calor dos glóbulos

A cada osso, tendão, músculo,
pele dos cotovelos e do rosto,
a cada tecido de órgão
já morto -

agradeço,
ave!

Sou tão feliz por ser tristonho
que me engasgo com meu riso

e ao descerem lágrimas penso -
amanhã chove, ah, chove
senão me mato!

pra Tania

Inventei agora um jeito
de beber café equilibrando
a colherinha entre os dedos.

Puro charme,
creio.

os passarinhos se recolhem

Já final de tarde
e ainda queima
o meu peito -

amanhã tem peleja, viva!,
amanhã tem batalha, salve!

Preciso ver se dentro das minhas botas
ainda repousam as meias da semana passada.

Os meus pés são loucos
por viverem tão felizes
dentro dessas botas.

Não sei qual o feitiço
até o sol quando bate
a primeira coisa que faz
ao devassar meu quarto
é pular dentro das botas.

Já crepúsculo e nenhum louco
urrou à minha porta à procura
de vinho e cigarro.

dor infernal

Acabei de morder a língua,
dizem que morder língua
no dia do natalício
atrai sorte -

farei então o seguinte:
estiro-a sobre a tábua de bater bife
e lanço todos os meus caninos sobre ela.

lavanda pelo corpo

O que me causa preocupação
é esse teu tremor sem motivo -
era apenas um sabonete
e tu deixaste cair,
poeta.

Hoje não quero nada de chororô,
calafrios e arrebatamentos -

hoje, meu filho,
há de ser um dia
tranquilo e vagaroso.

Veste teu bermudão
aquele azul e sem camisa
vai até à varanda e mostra o teu peito
às plantinhas nas quais nunca mais fizeste carinho.

Algumas delas estão crescidas
outras com os cabelos pintados
tentarão te iludir que são novinhas.

Sorri, meu filho,
que hoje o dia

há de ser festivo
sem mágoas
e sustos.

Agora volta ao quarto,
passa pela cozinha
pega teu café

e não esqueças dar bom dia
para tua cafeteira tão solícita.

legal essa manhã

Desde cedo um amigo meu,
passarinho que canta de flauta e bandolim,
escolheu um delicado repertório para meu dia.

Quando terminar de tomar banho
farei um cafezinho mas agora
já vou pôr na vitrola
Bob Dylan -

creio que hoje
não irei à batalha,

darei mais tempo
ao velho urso faminto
e aos dragões ociosos
repensarem suas vidas.

domingo, 28 de outubro de 2012

reminiscência

Fazia algum tempo
que eu não encostava

o ouvido à parede
e ouvia meu coração.

O meu coração continua o mesmo,
a parede entretanto parece outra
com tosse e tv ligada.

Durante muito tempo essa foi a forma
que eu tinha para sarar do vazio -
encostava o ouvido à parede
e ouvia meu coração.

clímax

Pensava, idiota, que se podia escrever tudo
que se pensa - agora entendo sem aspereza
que há pensamentos que não trazem poesia.

São esses pensamentos que até podem
esquentar o peito e esfriar as costelas
mas a poesia nem sempre disposta
ao frio da carne e quentura
dos ossos.

Então, não me contento, mas me basta
esta luz dentro dos olhos que indica
outro caminho.

Aonde sigo?
Não movo os pés.

sábado, 27 de outubro de 2012

quase despedida

Não duvide - os meus ouvidos ouvem bem
e a minha alma, essa coisa que não se beija,
alegra-se em dormir tarde ouvindo Neruda.

Agora, licença, tenho de me levantar
da cadeira giratória encostar a porta
pela última vez explicar ao vento sua
falta de polidez por tanta insistência.

Enquanto caminho perdoe os meus passos
lentos que enlouquecem os meus chinelos.

Antigamente carregava bolas de ferro
e uma cruz de mármore pesada, baby.

Os meus chinelos viviam debaixo da cama
onde conheciam o medo infantil e o sonho.

Se passar um tempo sem ir à sua casa
não demore sem vir à minha pois vivo
do perfume que você deixa pelo quarto.

a morte de um egoísta

Tremo, tremo
e é bom assim -

sinal que tenho
veias e sangue.

Prepare meu veneno
com pouco açúcar

e me venha à cabeceira,
confesso-lhe o derradeiro sopro -

cuide dos meus versos
como se fossem seus filhos.

almoço com festins

Amor, diga-me, você vê esses fachos de luz
descendo pela parede iluminando formigas
que andam apressadas e se beijam a cada
encontro?

Amor, diga-me sinceramente, você ouve
esse pássaro cantar lá fora de flauta
e bandolim?

Não entendo como ele consegue assoprar a flauta
enquanto suas asas seguram o bandolim
e o seu bico desce até as cordas
e a flauta não cai, meu amor,
não cai!

Amor, diga-me sem rodeios,
porque o poeta pensa
tanto nele próprio

se a vida de quem ele rouba
é dos outros?

fugindo o gás

Eu vivia pensando em como me matar.
Quem pensa muito acaba não fazendo.
Ou um dia consegue, sem tanto desejo.

O máximo que eu consegui até agora
foram algumas nódoas no meu pulso
da lâmina de barbear.

Ainda trago-as comigo,
dependendo do tempo -
róseas ou verdes.

ato contínuo de acordar

Circula em meu coração
um deleite invisível
sem vestígios
de gozo -

não é felicidade isso
não é plenitude isso,

é apenas um tipo de júbilo
sem fogos de artifício
e sem champanhe.

o bom beberrão

Como é difícil controlar esse beberrão
com rosto de anjinho que só espera
uma situação favorável para fugir
do quarto e bailar pelas ruas

e como rodopia esse beberrão
roubando beijos de namorados
dentaduras de velhinhas
pipocas de crianças -

sempre na maior alegria,
aos tropeços e gargalhadas.

Quando volta para sua casa
no dia seguinte é com aquela
lassidão, ombros arqueados,
melancólico, embrutecido,
com uma insana vontade de
meter uma bala na cabeça.

Recomeça da minha parte
todo o antigo ritual -

lavo-lhe os pés,
beijo-lhe os pés,

digo-lhe que tudo bem
que os namorados se curtem mais felizes do que nunca
que as velhinhas não morrem por falta de dentes postiços
que as crianças nessa hora estão frenéticas no videogame
que o mundo na verdade pouco se importa com a sua dor.

Abraço-o forte,
encosto seu rosto
contra o meu peito

faço-o dormir
sem comprimido
e sem a última
saideira.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

migrações

Se eu morrer sob esse estado de graça
vou virar um bichinho esperança
de casaco verde do croché
de minha avó.

Se eu morrer sob esse estado de graça
vou me transformar na cadeira de balanço
do meu avô

e enfim saberei dos seus sonhos
que não foram realizados.

Se eu morrer sob esse estado de graça
terei a ternura de minha avó e a sisudez
de meu avô - acordarei feliz, completo,
uma alma sem rasuras.

chuvinha

Choveu de leve, meu bem,
e a leveza é uma coisa boa

sobretudo quando andamos pelas calçadas
molhadas e as lagartas-de-fogo andam leves,

e as folhas secas mais leves que de costume,
e o céu muito leve, e leves as nuvens,
e leves os pombos.

Leve é o olhar de um ancião tranquilo com o que já viveu
e leves são os seus passos em calçadas como hoje -
molhadas  tão levemente que penso
que foi só pra mim essa graça.

a voar

A alma da gente precisa
de flores diversas e muitas espécies
de animais e de pessoas passeando.

Se a alma da gente só tiver lugar
para as mesmas flores e as mesmas espécies
de animais e de pessoas  a vida já estará morta
e a gente nem nota o valor da explosão das estrelas.

promessa

Hoje o dia será longo
percebo pelos braços
que levanto e me espreguiço.

Hoje o dia será de muitas palavras
percebo pela boca que bocejo e me espreguiço.

apagão

Ontem, acredita, na hora em que lia um poema
faltou luz em casa, na rua, creio na cidade toda.

Eu não fui à varanda admirar o breu das calçadas
[deveria ter ido], levantei-me da cadeira apenas
até a cozinha e aproveitando tanta escuridão
caminhei de olhos fechados pra ver alguma
tocha divina dentro da minha alma.

Testa teu espírito, meu bem,
caminhando pela casa
de olhos fechados
quando ficar tudo
escuro lá fora.

Eu o fiz e te confesso
que cheguei a vislumbrar
faróis de anjos a toda velocidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

boca seca

Tu perderás o teu tempo
se não fizeres das coisas
um retrato da eternidade.

Morre, mas morre de verdade
fazendo gracejos à terra e luar
ao fogo. Dirão que és um louco
e que os teus bordados o vento
leva e que as pontas das lanças
até nuvens quebram. Mas vai e
não ouças os que nunca sonham.

Tu perderás a vida
se não pedires pão.

Pede, mas pede
de verdade como
quem está morto
ou quase vestido
pelas doces mãos.

cabo de guerra

Há quem viva por dinheiro
e outros por sensações perigosas -
confio que eu vivo por estas últimas.

Não me deixam mentir os meus olhos
que parecem olhos de capivara
procurando comida na frente
de caçadores impiedosos.

remendos e colchas exageradas

Apaguei um poema há dois minutinhos
e só fiquei com uma camiseta dele
que dizia "as safadinhas morrem
de qualquer infortúnio, exceto
de solidão porque de solidão
morrem a xícara, botas,
fadas, andorinhas
e quem evangeliza"

O que penso é pra onde vão
esses filhos da gente quando
são apagados e resta somente
uma camiseta de profusas túnicas.

Eu tenho uma ideia -
esses pedaços
de pano e de braços
talvez fiquem no meio
do caminho entre a razão
e o mais perfeito dos delírios.

roubando doces do jardim I

não brigue comigo
nem em pensamentos
eu só escrevo porque
você existe

embora não acredite
passei um dia inteiro
para saírem esses
versinhos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sonolência

Se tu me visses agora sorririas -
eu parecendo um velhinho indo pro quarto
com um copinho d'água na mão e o olhar resignado de dar pena;

se tu tivesses algum trocado sei que me darias
pra eu comprar um livro de posições bacanais
e um óleo afrodisíaco de seduzir as damas
que passam debaixo da minha varanda
e logo tomam chá de sumiço;

talvez, ao contrário do que penso, tu me abraçarias
e me levarias pra cama e lavarias meus pés com teu
bálsamo;

mas não precisas dormir comigo
meus travesseiros poderiam
te assustar tirando de dentro
da fronha todas as minhas
cartas de amor e desespero;

tu me perguntas por que os travesseiros
fariam essa maldade e eu te digo -
ciúme, menina.

mudança de atmosfera

Vendo melhor a xícara sem arrebatamento,
a lágrima de café descida de ponta a ponta

também assemelha-se àquele filete escuro
de rímel dos cílios que desce e mancha
o rosto de uma mulher quando chora.

A xícara sem dúvida alguma
sentiu deleite pela lágrima
do café em seu dorso frio
de cerâmica branca,

enquanto à mulher é evidente
a dor, a angústia e a solidão.

banho

As unhas dos dedos dos pés
simplesmente caem por tanta
ternura, a mesma de que te
falei um dia - ao amarrar
o cadarço e um cordão
de bermuda.

quando o vazio é uma graça

Em mim nada mais existe
que não seja instante -

qualquer resvalar
imagem ou pensamento

bate em meus braços
escorre por meu peito.

Viver do instante
é assim, guardar
tesouros com o
o baú aberto.

Em mim nada deixa de existir
que não seja o instante -

o caminhar, o dormir,
a leveza e o brusco
tudo é festa.

Viver do instante
é assim, pôr água
pros peixes e vê-los
felizes com os raios
do sol - sol que
atravessa mares.

a todo vapor e luzes

Perguntaram-me de onde vinha esse meu ácido.
Antes de sorrir, cogitei: "Deus, que ácido me destes?"

Os pingos de espuma que pulam da esponja
na hora em que lavo o prato e se grudam
na minha camiseta têm mil faces:

pontas de lápis de cor,
olhos de uma esperança,
botões antigos de vovó.

óculos

Os meus bolsos vivem cheios de papel higiênico
de tanto eu limpar as lentes dos óculos.

Às vezes eu sirvo-me desse mesmo papel higiênico
para enxugar as pontas dos meus dedos
do suor excessivo que as palavras
me causam.

Se os meus bolsos vivessem cheios de ouro
teria vassalos para cuidar dos meus óculos
com lenços de fibras suaves e raras.

Pergunto-me se os meus óculos seriam os mesmos:
lentes gordurosas e florestas de arranhões.

Creio, quem tem servos para cuidar
dos próprios óculos deve possuir
uns óculos idiotas.

Melhor assim, bolsos cheios
de papel higiênico.

ventos de outubro

O vento teima em bater na porta
mesmo sabendo que escrevo

com os olhos sobre a palma da mão
brincando de jogá-los pro alto
e para baixo.

Mas ao vento não interessa quem está
no quarto, se velhinhos ou as crianças,
se histriões ou membros de confraria;

o vento não quer saber se há doentes
ou amantes, desterrados, náufragos
ou beatos em consagração religiosa.

De todas as manifestações da natureza
é o vento a que mais temo por parecer
tanto com gente entregue aos instintos,
impaciente, sem tempo pra olhar o céu.

esqueleto festivo

O orvalho de ontem de madrugada
só agora depois de retido na copa
das árvores caiu no meu braço -
para ser mais preciso,
no meu pulso.

Isto é uma bênção?
"Certamente."

Respondem-me os pombos
sempre acompanhando
meus passos.

delirante

A poesia foi a única namorada
que insisti com ela até a morte.

Dos garranchos iniciais até a
falta de sorte com as ideias,
machuquei-a impetuoso e vil.

A poesia sob breves ensinamentos
mostrou-me a suspensão correta
das retinas perdidas e distantes
sempre apontadas a paredes,
objetos, nuvens, chão e teto.

A poesia sob breves encantos
disse-me ao ouvido o que ler
e abriu a minha mente do jeito
que abrimos um melão maduro.

Como me arrepender dos seus dedos
de sua pele e de seus cabelos em mim?

Natural que eu a leve comigo onde ande
sem vergonha dos seus lábios leporinos
nem dos seus grandes olhos estrábicos.

Afinal a minha poesia é feinha e sem jeito
mas foi a única namorada que tive que não
me deu bolo e nunca me fez mal ao coração.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

ouvidos

A vizinha do andar de cima
por celular diz a uma amiga
que não pode sair hoje à noite
porque arrancou um dente
e está sangrando - Quase
gritei debaixo: "joga,
que tô colecionando
canino de musa!"

euforia

Já me viste dançando?

Pois danço quando lavo minhas camisetas
e sorrio pra tudo que olho: saboneteira,
chuveiro, cabides.

Dois minutos depois estão todos comigo
dançando, dançando "Hit The Road Jack."

Lavo minhas camisetas e limpo o teto
das teias de aranha "Hit The Road Jack."

Um dia te mostro minhas pernas loucas
e os meus braços de joão bobo de posto
de gasolina "Hit The Road Jack."

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

fotografia

hoje eu tive medo de ti -
o olhar e o que teu corpo
pode fazer comigo
em uma noite.

Hoje eu entendi que tu não és um anjo,
uma viagem psicodélica, uma brincadeira.

Eu vi no teu olhar e no teu silêncio
o que teu corpo pode fazer comigo
em uma noite.

Não fugirei de ti por isso
mas terei daqui pra frente
muito cuidado com o que
digo ou penso.

Esse papo de delicadeza
é verdade, também é real
a tua supremacia sobre
as outras

no entanto, de hoje em diante
haverá de mim bem mais respeito

por teu olhar melancólico e por tudo
que teu corpo pode fazer comigo
em uma noite.

even

Quantas vezes terei de ir ao quarto
e esquecer o sabonete? Ainda bem
que os meus óculos não reclamam
do calor e dessa euforia toda
que é escrever versos a toa.

Por falar em óculos,
eles são silenciosos
mas combinam mil
segredos com os
cílios.

cristal em gotas

Acredito piamente:
quando esqueço
o copo d'água
sobre a estante
apesar da sede

é que existe alguém
em forma de alma
com mais sede
que eu.

O poeta em seu dever cumprido
por ter dado o que beber a gente
doutro mundo

sente-se em júbilo como se amanhã ou
depois lhe viesse ao encontro uma dama
com os olhos castanhos e um brinco azul
sorrindo, sem parar de sorrir e lhe desse
um desses abraços que ao largar levamos
o cheiro e todos os pensamentos e sonhos
dessa pessoa, no meu caso, anseio que seja
uma dama de olhos castanhos e brinco azul.

das coisas que saem de dentro da porta

Pode haver susto
sem que o coração
demonstre nenhum
tipo de apreensão?

Sim, pode.

A lagartinha de pele transparente,
lânguida, que saiu da fenda da porta
levou-me a urrar uma palavra indevida
e a levantar os pés a sobressalto, lépido,
arisco e os olhos abugalhados e acesos.

Mas nada assombroso ocorreu
nenhum tremor em minhas artérias,
ventrículos e aurículas - o coração
permaneceu intocável, invulnerável,
silencioso quando é do seu interesse.

a vida seria triste

O café mantém com os dentes e a língua
um espetáculo de cumplicidade digno
de infarto.

Coisa que sinto agora
depois de mais uma
xícara.

Enfartar de susto por descobrir-se pobre
ou por desgosto amoroso é terrível, mas

sentir as veias inchando e vasos rompendo
por mais uma xícara do inigualável sabor
desse sujeito que se chama café mas que
poderia se chamar crepúsculo é saudável.

Dito isto, a minha xícara se excita toda
e começa a balançar a asinha serelepe.
Eu não posso recusar um convite desse.

esferas colidem no espaço

Digam-me que não sou normal que eu concordo.
Digam-me que sou um compulsivo que eu aceito.

Mas não me peçam para parar de escrever.
Se o fizer terei depois apenas uma alternativa:
está vendo aquela gravata e aquele sapato preto?

Com eles serei enterrado.

as nuvens do cotidiano

Não feche com tanta força a torneira -
Que aspereza toda é esta, rapaz?

Siga o exemplo do peixinho dourado
dentro do aquário que encosta
a boquinha no vidro e pede
candura a quem passa.

demasiado humano

Este é o momento do corpo:
as vísceras cantam seu hino
"almoço, almoço, almoço!"

farol

Sorria, meu amor,
dessa raiva que circula dentro do seu intestino
e dessa sua vontade de esganar o seu próximo -

não é bom dar tiro em ninguém
nem oferecer um ramalhete
com enxofre nas pétalas.

Apenas sorria , meu amor,
dessa raiva que gira em sua alma
e esquenta seus olhos, oh, vejo que chora.

Venha ao meu quarto,
vamos alimentar as formiguinhas
e procurar debaixo da cama a moeda encantada.

Não é bom odiar tanto as pessoas altivas
as que nunca vacilam e estão sempre
olhando do alto a angústia
dos miseráveis.

Meu amor, nós não somos miseráveis e infames
portanto não é conosco que eles rangem os dentes
e forçam a porta do quarto armados de escopetas.

Sorria, meu amor,
e nunca duvide da ilusão -

da ilusão e do engano deles,
meu amor, porque do seu coração
só evaporam verdades, lucidez e delicadeza.

sanguessuga

há coisas que não mudam -
ah, Deus, essa minha preguiça
essa vontade febril de ficar na cama
e admirar o estábulo pegando fogo e as ovelhas
fugindo desesperadas com o dorso em chamas.

Que me importa o prejuízo,
o caráter, a repulsa dos vizinhos,
o julgamento e a condenação da consciência.

Lá no banquete do vale de poetas ociosos
e inúteis, talvez encontre os meus pares
e me olhe no espelho.

Mas, por enquanto tudo
em meu corpo é parado:
sangue, lágrimas, sêmen.

E a alma, essa coisa
que não se beija,
glorifica-se
do vazio.

Ah, Deus, essa minha indolência de gigante
e esse meu nanismo de rei -

mesmo que desabasse uma montanha sobre minha cabeça
e uma serpente acuada surgisse na minha frente
apenas olharia de esguelha
e prosseguiria deitado
ouvindo o vento -

esse cãozinho faminto
a uivar na minha porta.

domingo, 21 de outubro de 2012

plasma

O meu suor na cadeira
não sairá com o tempo.

Impregnada de sonhos
a cadeira agora suspira.

Creio esta
a maior virtude
que um poeta deixa
para seus descendentes:

uma cadeira suada
dos seus poemas.

miséria

Não devemos nos apegar à mãe
nem filho, nem cachorro, nem gato.

Nem ao nosso umbigo
nem às nossas orelhas.

Não devemos nos apegar à tristeza
nem à alegria nem ao furor e vazio.

Não devemos nos apegar às sandálias,
aos tênis sujos, ao nariz do qual
tiramos meleca nem aos dentes
cansados de tantas mordidas
inúteis.

Não devemos nos apegar ao irmão,
ao vizinho, ao porteiro, ao camarada.

Nem ao dia de sol
nem ao dia chuvoso
nem à noite de luar
nem àquela noite
rala e fria.

Não devemos nos apegar
aos ossos das costelas
nem à tíbia nem pulso.

Ao coração não devemos nos apegar.
Nem à mente e aos seus esconderijos.

Não devemos nos apegar às fadas,
às andorinhas, à nossa xícara legal,
ao nosso olhar melancólico, em vão.

Não devemos nos apegar à promessa,
à poesia, ao futuro cínico, ao passado
louco e terrível nem ao presente
enlouquecedor.

Não devemos nos apegar à loucura,
à luz, ao cansaço, ao vislumbre,
ao fogo nem ao mar. 

Não devemos nos apegar ao escuro
do quarto nem à claridade da janela.

Não devemos nos apegar às nossas costas.
Nem aos nossos dedos dos pés longos e velhos.

Não devemos nos apegar a coisa alguma.
Ou corremos o risco de morrer antes do dia.

Aliás, não devemos nos apegar,
sobretudo, à morte.

desterro

Ao passar a mão no rosto eu percebo:
acabei de fazer a barba e não sangra.

Antigamente era comum
o sangue coagulado

sob forma
de pontinhos.

Isto é uma graça alcançada,
sorrio e volto a ler o livro

com um dos olhos
sobre a xícara.

o incauto

Meu filho, são tantos poetas
neste mundão de tolos

que tenho medo, muito medo
das suas incríveis flechas
de fogo.

Pergunta-lhes quem dentre
tem um coração corajoso

cuja lucidez seduza-o ao fundo
do abismo e traga nos dentes
um lírio.

Poucos, meu filho, menos
que os dedos das mãos

pois muitos são apenas
guerreiros enlouquecidos

que só sabem erguer
seus arcos aos céus

e lançar suas flechas
suas incríveis flechas
de fogo.

Por isso, meu filho,
eu tenho medo, muito medo
e tranco-me no quarto protegido
sob um escudo de bronze e pele de iaque.

boas horas

Um simples ato
como amarrar cadarço
e o cordão de bermuda

é uma ternura que se instala
que eu vos diria estar louco.

Como tratar perda de juízo
uma mansidão desta, penso.

Sobre a cabeça o que me arde
é um raio de anjo ainda menino.

alento

Há em nós um segredo
a espantar bruxaria má
pensamentos tortuosos
mandingas e olho gordo.

Há em nós uma alma
cúmplice e delicada
que se junta à outra
bem maior e mansa.

Estás com sono?

É bom dormir,
pensam minhas
pálpebras.

sábado, 20 de outubro de 2012

o pomar de sonhos

Da tangerina o que adoro
não são os gomos,
mas a casca.

Os gomos nem sinto o sabor
enquanto as cascas mastigo
mastigo e vem aquela
dormência na língua,
céu da boca,
gengivas.

Uma tangerina não é um limão
muito menos uma laranja -

uma tangerina aos meus olhos
sempre foi uma moça bonita,
recatada, vestida a fios
amarelos.

Agora licor prefiro menta.
Lembra absinto que me lembra fadas.

E fadas seria redundante
dizer o quanto sou louco
por elas.

leve qual um cílio

Juro que ia escrever um poema
mas entre levantar-se da cama
e sentar-se na cadeira giratória
bateu-me na alma uma vontade
de mandar uma mensagem via
telepática sem códigos morse,
tambores, fumaças e grafites.

Mas aí eu penso -
e o que acabo
de escrever
é poema?

Se for, então são dois
voando agora.


bando de deleitosos

Os macacos coçam-se as costas
sem nenhum tipo de hierarquia.

O chefe fala pouco mas coça as costas do sucessor.
A matriarca coça as costas dos seus filhos
e as costas dos filhos das outras.

Sem segregação todos coçam-se as costas e parecem felizes,
não, felizes não - parecem indiferentes como se
coçar as costas de quem está próximo fosse
apenas levantar os olhos
e ver o céu.

Por favor, levante os seus olhos
e coce as costas do poeta.

alquimia do tempo

Um homem romântico
não deve se esquecer
do tempo em que
procurava ansioso
nos cadernos
da escola

as declarações subliminares
das coleguinhas: corações,
flores, arco-íris.

Tudo desenhado em cores vibrantes.
Nos meus cadernos só me deparava
com rabiscos de monstros e caveiras.

Oh, céus, como fui
uma criança solitária.

devaneios de um moleque

Dizem, quem ama é feliz.
Vive mais e anda altivo.

Será então por isso
que vegeto em companhia
dos meus livros e objetos?

Faz tempo que não lavo contigo
as louças do café, janta, almoço.

Naquele tempo tu lavavas
e eu enxugava te ouvindo

falar sobre trabalho,
fofoca de artistas,
novelas e filmes.

Hoje peço desculpa
por quase nunca
ter ouvido
tua voz.

Não te ouvia,
é verdade.

Mas adorava o tom,
o timbre, a ressonância
de tudo que saía de tua alma.

E eu, meu bem,
não te ouvia,
não te ouvia.

Naquele tempo
como hoje e agora
meus ouvidos são deles -

esses querubins,
esses arcanjos
que sempre
têm algo
a dizer

dos céus
e da terra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

no início era o verso

Dou-lhe uma dica - se observa
que passo muito tempo com
a colherinha passeando
dentro da xícara

em movimentos circulares
adoçando o café, então
é chegada a hora
de retirar-se.

Eis o princípio do poema
iniciando-se pelo olhar distante
e por um riso meio debochado

de quem não sabe
se morte ou vida
vem primeiro.

Não é nada pessoal contigo
com sua fala e seus assuntos.

Mas é que nesse momento
em que perco a medida
do tempo -

a colherinha cansada de tantas voltas
e o café já frio, eis o princípio do poema
injetando cor e couraça de penas
em uma alma festiva.

de soslaio chego ao mar

Se não mudo o olhar
as pessoas pensam
que sou louco
ou vigarista.

Hoje em dia qualquer olhar excêntrico
é motivo para ofensas, tabefes e tiros.

Por isso ando com a cabeça erguida admirando nuvens
ou pro chão catando latinhas de cerveja e refrigerante.

Explicar-lhes que é o meu olhar normal
esse que circula dentro da alma
de quem me olha e  faz-lhe
uma devassa

seria perda de tempo
e de alguns dentes.

Ninguém mais respeita o poeta
com o seu olhar ácido e tenro.

Pensam que somos esquizofrênicos,
pedintes, tarados, bárbaros,
drogados e santos.

Fogem, ou partem pra cima
com pedras, paus e pistola.

o rio de Heráclito

Sabe do que eu tenho medo?
De ficar tonto no meio da rua,
perder a estribeira e desmaiar.

Lá em casa eu tenho a mesa da cozinha,
os móveis da sala, mas no meio da rua
certamente bateria com a cabeça
contra a quina da calçada.

Ora, me deixariam sangrando a cabeça
até a ambulância chegar que seria tarde.

Morreria no meio da rua
todo tipo de gente
me olhando.

Creio que alguns pombos
arriscariam uma olhadela
e balançariam o pescoço:
"tsc, tsc, tsc..."

fastio

Simplesmente acordei
e parei com tudo -
ópio e vinho.

Agora podemos casar, meu bem
e eu serei um bom companheiro
quando chover forte -

relâmpagos doidos,
trovões horrendos.

Poderei, se de tua vontade,
te ensinar como hipnotizar
os céus em noites
de tempestade.

Aprendi naquele tempo
em que passei dias
boiando em alto
mar.

Foram os golfinhos meus mestres.
Também me treinaram a mergulhar
fundo e caçar peixes com os dentes.

Podemos casar, meu bem
e eu juro que deixarei essa loucura de lado -
escrever poemas agora só depois de morto.

moinho em chamas

jogado na cama esperando virar comida de passarinho
é o meu maior sonho nessa vida de tédio e depravações,

mas não existe nesse mundo um passarinho legal
gente fina que adentre pela janela do banheiro
e comece bicando meus dedos dos pés
até chegar aos meus olhos
e arrancá-los

os passarinhos que vêm à minha janela
é pra repetir coisas frívolas -

"a paciência de Deus está se esgotando,
a paciência de Deus está se esgotando..."

meu amigo passarinho, se a paciência de Deus
está se esgotando a minha há tempo
virou cinzas que guardo
dentro de uma urna de bronze
no alto da estante
sobre um livro
de capa grossa
Dom Quixote -

dê o fora, amigo passarinho,
e só retorne se for pra bicar meus dedos dos pés
meu fígado e arrancar meus olhos.

epitáfio difuso

Te escrevo logo cedo estas linhas
porque não quero compromisso
depois que estiver fora
de circulação.

Não me perguntes onde amarrarei meu cavalo.
De qual montanha soltarei minha pipa.
Em qual cemitério de vilarejo
esconderei o tesouro.

Importante que tu saibas que cumpri com minhas obrigações
do dia de ontem - cuecas, meias, bermudão e camisetas lavadas.
Os livros da estante não organizei, pois só hoje vejo que tenho poucos.
A maioria vendi para comprar meu ópio ou para sair e jantar com mulheres.

Não tenho a mínima ideia do que será feito do meu corpo
sem a água que eu bebia das conchas de tuas mãos
nem da minha alma distante dos teus suspiros.

De maneira que pode me assolar um vento frio
e queimar meus ossos ou cair sobre a cabeça
uma estrela infeliz já gasta pelo tempo.

Não te apavores, eu te escrevo logo cedo estas linhas
apenas para que com o meu sumiço não me venhas
procurar em delegacias, hospícios e necrotérios.

Lembra-te que os poetas quando fogem de casa
não existe outro destino que não seja
a mendicância a portas de igrejas
ou de bares.

Tem uma igreja barroca no fim da rua
e logo em frente um botequim
de fachada clássica.

Estarei por lá,
acredito eu.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

guilhotina

Nem que seja por piedade
diga-me alguma coisa -

que meus dentes estão amarelos
que meu olhar está tristonho.

Nem que seja para salvar sua mãe da forca
diga-me alguma coisa -

que meus cabelos estão brancos
que minhas unhas estão grandes.

Qualquer coisa serve,
diga-me que minha alma voa
e que o meu corpo ficou mais magro.

Mas diga-me alguma coisa
sobre a chuva que não vem
sobre o sol que nos queima
o rosto sobre o tempo
que passa rápido

sobre nosso filho
que já é um rapaz.

atos de frenesi

eu enlouqueci é tudo que posso dizer aos meus amigos
eu enlouqueci é tudo que posso dizer aos meus inimigos

então brindemos à minha falta de juízo
ao mergulho abissal, aos zumbidos
que ouço, às luzes que vejo
quando fecho os olhos

eu creio no escuro debaixo da cama
eu creio que lá insetos invisíveis ceiam
e trocam gentilezas com seus filhos e amada

eu enlouqueci é tudo que posso dizer aos passarinhos
eu enlouqueci é tudo que posso dizer às baratas

eu creio nas minhas sandálias
eu creio que os meus pés
não vivem sem elas

então que tal dormir sem comprimidos -
a mente tagarela e o coração ouvidos.

Chopin, noturno

me pegue pela mão
e me ajude a atravessar o corredor escuro
já tive tanta coragem nessa vida mas hoje
me sinto covarde e sujo

não lembre comigo o que passou e ainda
me arde o peito, apenas segure minha mão forte
e atravesse aos seus passos esse corredor escuro

já tive tanta coragem nessa vida
mas hoje me sinto fraco e vil,

me dê sua mão,
não me lembre o passado

só quero que me ajude
a atravessar esse corredor escuro...

travessuras de um duende entediado

Bem melhor quando todos fogem
e eu tenho todo o espaço do mundo
para pensar em como encostar a caneta
à boca e morder a tampinha até sair sangue.

Tenho que encontrar um lugar apropriado
entre os primeiros dentes e uma concavidade.

Morder somente a tampinha
não tira sangue das gengivas.

É preciso cautela e cuidado de cirurgião
encostando a tampinha da caneta
em um ponto delicado.

Pronto, os primeiros pingos de sangue
já descem pelo meu queixo
e caem sobre o teclado.

Outro dia experimento
aquele broche no chão.

a ausência é longa mas a falta é breve

Obrigado por sua ajuda,
mas quando eu não estiver em casa
não entre no meu quarto e rabisque
a porta do banheiro com mensagens
que ninguém consegue ler.

Mais simples e emocionante
se você tivesse deixado
a marca dos seus lábios
com aquele batom
vivo e vermelho.

Mas beijar portas você tem medo
de pegar uma frieira, uma bactéria.

Então, por favor, quando eu não estiver em casa
espero que entenda a minha câmara secreta
e não viole a porta do banheiro
com mensagens indecifráveis.

Ou, isso permito, como disse antes
beije a porta com seus lábios grossos
usando aquele batom lindo e sacana.

punk choroso

O amor, é certo, pode apagar essa lamúria
fazer mais gordinhas e brancas as nuvens
e molhar meus pés de orvalho,

mesmo assim não estaria preparado para o amor
se existe um medo inexplicável do coração parar.

Agora, diga-me, que adianta o amor
vestindo meu corpo depois de morto?

Aguardemos até o dia
em que eu for um homem
puro e decente com a morte.

Não terei então medo de amar
nem de dormir dentro da sepultura.

Aliás, hei de sorrir
sentindo sobre o jazigo
os pés das aves de manhãzinha.

de chofre

Os papiros que li e as fórmulas
que me enlouqueceram
na verdade

eu nunca soube
quem me presenteara.

Não foram os passarinhos
nem entes sobrenaturais
que me ensinaram
a andar e olhar
as coisas.

Fui eu mesmo
depois da morte -

de ressaca, lúcido,
aquela vertigem
no peito.

Por mais que eu ande
só para sentir o gosto
da dor e da liberdade

sei sinceramente
que não foram os passarinhos
nem entes sobrenaturais que
me ensinaram a crer

no último dia
que faz sol.

o bondoso senhor de óculos

Deixei cair migalhas de cuscuz
e não limpei o chão do quarto.

Cedo ou tarde sairá da porta em frangalhos
e da parede gloriosa em rachaduras
algum tipo de inseto.

É o meu presente do dia
aos amados comparsas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

furtivos abanos de Éolo

Cômico andar pelas ruas
sendo levado pela ventania.

As mulheres belas seguram as saias
e os poetas magricelas contam
com suas botas.

Todo tipo de pensamento
me vem à cachola -

entidade,
ciência,
fúria.

E se a ventania passa além do natural
as mulheres belas são despenteadas

e os poetas magricelas
jogados contra
árvores.

lírios pisados por doces criaturas

Às vezes meus poemas parecem ter sido escritos
por uma jovem mocinha de cabelos ao vento
e lábios rosados entreabertos.

Esses poemas são os que mais seduzem elefantes
que partem da África e batem na minha porta
todos sensíveis, confesso, alguns chorando.

Não entendo o porquê dos elefantes
gostarem tanto desses poemas
mel e açúcar.

Mas quem sou eu para contestar
a sensibilidade dos loucos elefantes.

Eles partem da África
batem na minha porta

e eu convido-os
ao meu quarto.

Alguns caem aos prantos
ao ver minha cama
e travesseiros.

gênesis dos arcanjos

Te explico como nascem os anjos:
do amor entre poetas bêbados
e virgens camponesas.

O amor todo nasce durante aquela atmosfera
em que o poeta com uma mão
segura a taça de vinho

e com a outra brinca
jogando gravetos
na lareira.

A camponesa deixa escapar alguns risos tímidos
caminha em círculos dentro da choupana
com medo de que o poeta ouça
seu coração aos cânticos.

Agora não me peças para te explicar
por que a camponesa é tão recatada

nem como o poeta acabou naquela montanha
preparando fogo em lareira
e bebendo vinho.

O fundamental é que não há trilha de volta -
a camponesa já se despe,
maravilhosa, d'outro
mundo.

Amanhã o poeta saberá da responsabilidade
assumida com os deuses que habitam a terra:

levando água pra encher o mar,
ensinando a voar passarinhos
órfãos.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

uma concha

Segredo, meu bem,
o amor que prezo
por ti.

O mesmo que vestir
uma camiseta branca

e andar feliz
pela pracinha.

o negocista

Será deste jeito meu adeus -
um cisco voando até chegar ao olho

e três lágrimas de lenço na cabeça
ansiosas por deslizarem nas faces.

Partirei carregando duas corcundas
[muambas ocultas dentro delas]

e ninguém da alfândega
pensará em revistar-me.

Dirão - "deixem o pobre miserável
passar sem constrangimentos!"

Não sabem que levo dentro
das minhas duas corcundas
um contrabando valioso -

a minha primeira carta de amor
e um colar de sementes de mucunã
para me dar sorte e atrair dinheiro.

dentro da mansidão

Nunca pensei que chegaria a tal situação -
pedir uma xícara de açúcar à vizinha.

Quem sabe talvez eu precise beber café amargo
para adoçar a minha vida tão louca e festiva.

Não me levantarei da cadeira, a mesma giratória,
para pedir uma xícara de açúcar na casa vizinha.

Amargo poderia parecer deslumbrante, é isto.
Vou experimentar por uns dias café amargo
e outros sonhos.

o enfermo de pernas bambas

Deve-se ter muito amor
para passar o tempo
só e dócil

flertando as paredes
imaginando um dia
piscarem o olho.

Deve-se ser louco esse rapaz
que não faz outra coisa
senão acreditar

que as pernas do poeta
não são as que o levam
ao mar e à montanha.

As pernas do poeta desde cedo
são os garranchos dos primeiros versos -

estas, sim, pernas de verdade
ao ouvi-lo cantar dão-lhe
asas, escamas, guizos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

um doce torpor

Mais tarde quando todos estiverem dormindo
farei meu maggi galinha caipira na ponta
dos pés -

cuidadoso,
gentil e amável.

O barulho da água fervendo
pode acordar as formigas
do açucareiro - tolinhas
têm o sono leve.

o marasmo dos corais

É bom assim quando a gente escreve um poema
e sente-se cansado com vontade de dar um tiro
em quem passar por nossos olhos
sem pedir licença.

Como diante do meu rosto
só passam sombras de objetos,

já derrubei uma xícara de café
outra xícara branca de leite
uma colherinha de açúcar
um depósito azul
de bolacha

um prato todo mocinha decorado
mais o seu garfo, ah este Sr. garfo!

Não confio, não confio nele
é como se a qualquer instante
o Sr. garfo me enfiasse nos olhos

seus quatro dentes
de equilibrar macarrão.

de volta a garrafinha ao mar

Para saber se você existe
escrevo versos e leio-os
ao pé do seu ouvido.

Não sei bem o que gosto mais
ou morder seus lábios
e sorrir junto

ou andar ao seu lado
dentro do vagão triste

do trem que nunca chega
à sorveteria mais próxima.

O tempo maior que levo
é mesmo olhando a porta,

um pontapé seu com força
de quem derruba esconderijo de bandido
e um abraço forte de quem salva náufragos.

a porta ainda range sua morte

Que farei, pai,
sem o meu ópio.

Fujam dos meus olhos
os doces jardineiros
que beijam flores
ao amanhecer.

Fujam mas me deixem os almíscares e os sândalos
e os cabelos molhados de lavanda das camponesas.

Que farei, mãe,
sem o meu ópio.

Há-me uma necessidade louca
de desvendar essa quietude
que torce meu pescoço.

Já fumaram do meu cachimbo
pajés, reis até semideuses
todos ao fim me disseram
que sou mais santo
que eles.

Que me adianta a vida poupar-me
da asfixia e dos olhos arrancados
ao meio dia de amanhã?

Que farei, pai,
que farei, mãe,
sem o meu ópio.

Meu tornozelo quer fugir
do meu pé e voar acima
do telhado.

Tenho medo que alguma estrela
dê-lhe corda e rompa o tendão.

domingo, 14 de outubro de 2012

o monge sob tentação

Um monge na sua cela
pode fazer de tudo
inclusive dormir

e encher a pança
de sonhos e volúpia.

Mas se tem um inseto voando
batendo contra a lâmpada

fica muito difícil
quase insuportável
o monge pregar o olho.

Sobra ao monge
que nunca matou
sequer uma mosca

hoje de noite
ficar à espreita
com sua chinela

na mão direita
e a outra posta
ao céu em oração.

O monge que nunca matou uma mosquinha
logo se envaidece da possibilidade de hoje
matar um grandioso besouro de antenas
verdes e azuis que toca sua flauta
e louco se bate contra a luz.

Não dura muito tempo o suplício
o besouro enxerga o monge
e o monge não teme

a chinela voa
atinge o abdome
do pomposo besouro

que cai e geme no chão
pedindo ao monge clemência.

Mas o monge que nunca matou
sequer uma mosquinha de cozinha
não tem piedade e estraçalha o corpo
do vistoso besouro com um pé gordo e nu.

meu jeito falastrão de ver as coisas

Ao sair por aquela porta
não me espere novamente aguar as plantas
com os olhos perdidos e as mãos trêmulas.

Diga aos passarinhos que acabou a graça
de tê-los por perto e ao grande relógio
pendurado na parede da sala
confesse-lhe

que nunca tive medo
das suas badaladas
no meio da noite.

Ao sair por aquela porta
não se levante, o vento
fará o trabalho sujo

e ao bater com força
tudo se partirá -

ferrolhos
e dobradiças.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ouvindo Bob Dylan

Quando estou bêbado beijo as mãos das pessoas
como gostaria de beijá-las sóbrio, mas sóbrio
sou um ermitão

e não é natural a um homem covarde
beijar as mãos e a testa das pessoas,

então prometo no meu aniversário
que diante da minha porta
estarão os loucos
e desvalidos

e lhes oferecerei um banquete
com muito vinho, aguardente
mil iguarias

até se fartarem e pularem da sacada
pensando que são pássaros
e aviõezinhos de papel.

ao entardecer as árvores me apavoram

Não tens para onde ir além do passado?
Preparo meu café e deixo a barba crescer.

Nunca será uma barba longa
pois a minha natureza é  rala.

Natureza que se perde das coisas
antes que elas criem olhos
e lágrimas.

Não haverá motivo para saudade -
o que vejo e o que penso
é mera aparência

até o dia
em que houver
morte de verdade.

Não tens para onde ir além do futuro?
Já bebi meu café e rocei a barba
com o punho da mão direita.

Triste é tão triste
o coração apertar-se
apenas por pensamento.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

com olhos fechados o suspiro é eterno

O que me agrada a poesia
é a certeza absoluta
que não há fim.

O verso que sucumbe
o mesmo que escapa.

Já esqueci de quantas peles e olhos
deixei pelo caminho em lugares perdidos
cujas frestas observamos apenas uma vez.

Somos cobras e amamos a terra
e sob um coito sobrenatural
rasgamos o corpo

permitindo aos gravetos,
aos pedregulhos,
ao barro

a nossa muda,
o nosso dia
mortal.

domingo, 7 de outubro de 2012

o terapeuta de Schopenhauer

Sempre trajando um capote verde
e com os olhos brilhantes

a esperança é um animalzinho
terno, gentil, mas cheio
de segredos.

Talvez tenha uma vida louca,
de arromba, muito sexo e vinho

e a gente sobretudo os poetas
pensem que são insetos
anacoretas.

Nesse caso prefiro morrer ingênuo
com a sua imagem de criança

a descobrir mais tarde
que a doce esperança
é uma trapaceira.

sábado, 6 de outubro de 2012

as asas e o cajado

Baluarte, eis uma palavra poderosa.
Ao pronunciá-la sinto-me altivo
como se fosse esta palavra
minha própria alma.

Não me importa o tempo
se ainda posso encher a boca
e pronunciar vigoroso - baluarte!

uma nuvem carregada de flores

O arrepio de um beijo no pescoço
não é exclusividade de quem amamos,

entenda: Qualquer mulher que me beija
causa-me frêmitos e desmaios.

Todavia, se fossem seus os lábios
além do arrepio meu coração
suspiraria encantado.

veias grossas de tanto vazio

Ah, entendo, desejas um séquito
que levante tuas asas e afague
tuas escamas a fim de louvar
teu furioso ego.

Entendo.

Então sê um rei e distribui
a quem passa, charutos,
cargos, ouro.

O que posso te oferecer
é essa crença, pálida,
depois da morte.

Sim, pois o corpo um dia cansa.
O meu corpo cansa, já o teu corpo
de rei  e náufrago pelo olhar não cansa.

Dizem que os reis são solitários.
Digo que sou bestial e ainda colho flores.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Noel Rosa

Não desistas de teu amor
mesmo que ao passar do tempo

um dia ela acorde uma bruxa
com horrível verruga
na ponta do nariz.

Não te esqueças de tuas juras,
das flores que tu roubaste,
dos bombons trocados
na mesma boca,

das madrugadas,
sarros, pracinha.

Convida-a ao telhado,
mostra-lhe as estrelas,
a lua, abre um vinho,
oferece-lhe um brinco.

Se ainda assim a megera
ferir-te com indiferença
e palavras duras -

joga-a de cima, pega teu violão
e compõe um samba,
meu bom rapaz.

o único espírito é cintilante

Ao entrar no banheiro
não me assusta a toalha
que bate nas minhas costas

pegando-me de surpresa,
enquanto eu pensava
nessa folia que é
minha mente.

Algum tempo atrás teria dado um pulo,
me borrado todo, imaginando almas
penadas.

Com o tempo, a gente aprende primeiro
a ouvir o que de fato existe de verdadeiro
dentro do nosso coração que é um campo
de trigo, de girassóis, de papoulas ao vento.

puro estado quimérico

Eu digo esperançoso que a morte é bela:
lagartinha-de-fogo cruzando a calçada
nos galhos ávidos passarinhos
lambem os bicos.

Na memória levará a lagartinha-de-fogo
todas aquelas folhas mordidas,

algumas desenhadas
figuras de coração
e lábios de batom.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

a pureza da vontade

Escrever poemas é o meu elixir:
a cada verso escrito nasce
um cabelo branco e cai
um dente.

olhos nos olhos

Há insetos destemidos
que ousam nos olhar
dentro dos olhos

e para tal proeza
pregam-se nos óculos.

Estes insetos reverencio:
deixo sujas as lentes
não passo o lenço.

bonança

As unhas dos dedos dos meus pés
dão o ar da graça vertiginosas
ultrapassam o horizonte
dos chinelos e tocam
as paredes.

Não as corto porque nessa hora
a tesourinha está doente -

calafrios,  enferrujada
no fundo da gaveta.

cambaleando

Que vivam e aproveitem da tarde
os mil dragões que ainda tenho
de matar.

Deitado sobre teu colo esqueceria armadura e espada:
o teu olhar magnético, os teus cabelos fazendo cócega
no meu nariz.

a síntese dos uivos

As molas da minha cama já pularam fora:
é tanta insônia, meu pai,
para um corpo só.

poema de madrugada

É como dobrar uma esquina e assustar-se
por encontrar um amigo depois de tanto tempo.

Tanto tempo que se imaginava morto o amigo de infância.
Escrever poema de madrugada é como encontrar esse velho amigo.

O receio de ambos é que um seja defunto
e o outro fantasma.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

o sobrenatural em nós

Lá fora o vento parece decidido
a matar quem o desafia

e a levantar saias
de donzelas.

No entanto ao entrar no meu quarto
o vento baixa a cabeça, beija meus pés,

tenta ser dócil com os pelos das minhas pernas
causando deleite a duas pernas de quase quarenta e sete.

Imagino quando eu estiver com oitenta
um dia antes de morrer o vento decerto
lamberá minhas pernas com sofreguidão
choroso e aflito,

"o que será de mim agora
sem as pernas do poeta
para arrepiar?"

Não sejas tolo, vento
haverá ainda muitas donzelas

para brincares levantando saias
e desarrumando seus penteados -

é o que direi 
antes de fechar os olhos
e nunca mais sentir vento algum
beijando meus pés e fazendo carinho nas minhas pernas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

a esperança é um épico

Depois que eu ajeitar meus dentes
e voltar a levantar pesos
hei de ir à tua casa,

o peito bem estufado
e dentro do bolso
chicletes.

Sabemos que o poema mesmo triste
é mais doce de ouvir ao lado
de um poeta majestoso.

Tu podes botar fé que estarei de fato
majestoso com aquele olhar cínico
de quem conhece o manual
de torturas.

Acredita, hei de torturar-te
de todas as formas risonhas.

Tu aprenderás a morrer de pernas bambas.
A ver estrelinhas coloridas dando voltas
e passarinhos enlouquecidos
de frenesi.

Quando eu ajeitar meus dentes
e voltar a levantar pesos

não serei feliz por isso
mas será tão bom

diante de ti ter forças
depois de tanta dor
e desespero.

enfadonho

Às vezes penso que sou um sujeito pacífico
com inesgotável ternura no coração

a inundar minhas botas
ou o cesto de roupas sujas.

Mas logo perco a paciência com os dentes
que teimam em morder as bochechas
por dentro

em um ritual bárbaro
e inútil.