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sábado, 28 de janeiro de 2012

memórias de um falastrão apaixonado

Antigamente,
há séculos,

quando meus lábios rachavam
eu descia ao jardim do prédio

colhia algumas pétalas
de certas flores

esmagava-as, pisava-as,
alcançando uma textura
de unguento.

Em seguida deixava sobre o parapeito da varanda
um tempão esse unguento até que um bem-te-vi
concluísse o ritual: era necessário que ungisse
três vezes no bico e debaixo das asas
o bálsamo.

Lembro-me que ao untar esse bagulho nos lábios
logo caíam as escamas e assustava-me
a jovialidade da minha boca.

Descia pra calçada
e perdia a conta
das meninas
que beijava

todas vindo da pracinha
algumas desiludidas
do seu príncipe.

Ainda guardo dentro de envelopes secretos
cartas amorosas beirando a loucura
e línguas inteiras embrulhadas
com lindos lacinhos.

4 comentários:

Cris de Souza disse...

Envelopes secretos tem destino declarado por dentro.

Beijo, bruxo!

Paulo Jorge Dumaresq disse...

DOMINGOS, BELA METÁFORA SOBRE O TEMPO E SUA CAPACIDADE DE REVITALIZAR EMOÇÕES.

Joelma B. disse...

Ah... você sabe, poeta dos dias...
você sabe o que não consigo expressar
quando diante me vejo
de tua poesia!

S=)

Beijinho com admiração hiperbólica!

LauraAlberto disse...

e mesmo assim era preciso esperar três vezes...

Abraço
LauraAlberto